quinta-feira, dezembro 27, 2007

Portugal dos pequeninos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando.
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.


Fernando Pessoa , in “Mensagem”


Nós, os portugueses, somos moldados desde pequenos num complexo de inferioridade terrível. Bem lá no fundo, sentimo-nos anões deste mundo, vemo-nos como um “Lilliput” à beira-mar plantado, cercado de gente que ganha campeonatos europeus, prémios Nobel e ordenados mais vultuosos.

Por isso, desde que me lembro, sempre nos vi a exacerbar qualquer sucesso internacional, por ridículo que fosse, como se de uma Aljubarrota se tratasse. Recordo hoje com um sorriso (amarelo) as figuras que em criança fazia a vibrar com as vitórias de Portugal em hóquei em patins sobre a Guatemala e afins, mais de quarenta a zero. Seguia liturgicamente estas proezas nas noites de Julho, de orelha colada ao transístor, com o comentador a atropelar-se a si próprio nos gritos de golo, urrados durante minutos. Quarenta a zero – que pátrio orgulho! Teve que ser o meu pai a pôr as coisas em perspectiva, lembrando-me que os guatemaltecos mal sabiam patinar e só lá estavam para que o campeonato, supostamente mundial, contasse com uns centro-americanos. E que o hóquei patinado, sendo uma modalidade apenas praticada num país (Portugal), numa cidade (Barcelona) e numa rua de San Juan na Argentina, não valia, portanto, a ponta de um papo-seco.



Havia quem fizesse piores figuras. Certa vez, um apresentador de telejornal relatou-nos, com entusiasmado ar de proeza, que Portugal conseguira um terceiro lugar no torneio triangular de atletismo Portugal/Espanha/Marrocos. Claro! Um terceiro lugar sempre soa melhor que último. Ainda bem que o conseguimos.

Quando o Futre foi jogar, nos anos oitenta, para o Atlético Madrid, sendo pioneiro no que constitui hoje um dos nossos principais produtos de exportação – artistas da bola – os nossos noticiários passaram a apresentar periodicamente uns “flashes” dos jogos dessa equipa, permitindo aos comentadores novas e até aí inimagináveis façanhas de exagero lusitano. Se o Futre marcava, o Atlético tinha ganho graças a um golo de Futre, mesmo que o resultado tivesse sido de cinco a zero. Se o Futre intervinha numa jogada bem sucedida, era a classe de Futre que estava na origem do golo: o caramelo que lá tinha ido cabecear no meio dos defesas, expondo os dentes à cotovelada mas metendo-a lá dentro, nem sequer era referido. Se o Futre tocara na bola três minutos antes de um golo, tratava-se de “um tento com a participação de Paulo Futre”.


Claro que optimismos tão patetas tinham que ter reversos de medalha, sob a forma de monumentais cacholas. E a nossa medalha até tinha mais coroas do que caras, numa geometria esotérica. Quanto tinha doze anos, assisti a altas horas da madrugada, num hotel do Carvoeiro, à final dos dez mil metros dos Jogos Olímpicos de Montréal. Todo o hotel estava na sala de têvê: empregados, clientes e penetras. Durante vinte e tal minutos, vibrámos com o nosso Carlos Lopes, cuja vitória, tal como a nossa confiança, se adensava a cada passada. Na última volta, porém, o finlandês Lasse Viren ligou os reactores, passou o nosso Lopes já entretido a voltar a meter os pulmões para dentro da caixa torácica e ganhou aí com uns bons cinquenta metros de avanço. Não me lembro, em toda a minha vida, de um silêncio tão sepulcral como o que então caiu, nem nos velórios menos concorridos. Nos dias seguintes, os jornais ventilavam rumores de que o Viren ganhara recorrendo a expedientes obscuros, no limite dos regulamentos e para lá de toda a ética desportiva. Falava-se de transfusões sanguíneas e oxigenação de glóbulos vermelhos. Oxigenação era o que o meu cérebro precisava, que me indignei a ler essas patranhas.

Consolámo-nos nessa altura com uma medalha de prata. Entretanto, as coisas foram piorando, porque os etíopes e os quenianos começaram vir às meias-dúzias e a limpar tudo o que eram maratonas e corta-matos. O orgulho nacional, na sua versão televisiva, logo encontrou solução para o problema: fulano tal, português, décimo terceiro na meia-maratona de Mangualde, foi o “melhor europeu” ou o “primeiro não-africano”. Como quem diz: à parte os pretos, que não contam, ganhámos. Que portento!


Vem-me tudo isto à lembrança agora que Lisboa está cheia de monumentais lonas com garrafais letras a dizer Portugal e brindando o povo com “retratos da Costa Oeste da Europa por Nick Knight”. Uma nova campanha, destinada a promover o bom nome português como costa ocidental da Europa, não sei se por referência a Fernando Pessoa, se como colagem à West Coast californiana.

Ao que é público, a dita campanha, anunciada debaixo das luzes televisivas com ministerial presença, pompa e circunstância, conta com um orçamento de três milhões de euros, trezentos mil dos quais para pagar ao Nick, que ainda se deve estar a rir a esta hora. Aliás, o ministro, inquirido por um jornalista mais perspicaz sobre a razão de pagar com dinheiros públicos trezentas mil broas a um fotógrafo inglês, revelou presença de espírito e sentido de Estado ao afirmar que não tinha nada a ver com o assunto, que perguntassem ao responsável pela campanha. Afinal, não era ele o responsável. É só um detalhe, mas fiquei sem perceber o que é que ele lá andava a fazer.

Continuando, não sei bem que público é o alvo desta campanha, se interno, se externo. Li que em parte será externo, em "revistas de prestígio", mas não deve ser campanha muito massiva, porque descontando o dinheiro para pagar por cá as lonas e os anúncios de revista, mais o cacau do Nick Cavaleiro e a festarola de lançamento, não há-de sobrar muito. Resta a hipótese, que vou explorar de seguida, disto tudo ser para nos fazer a nós, portugueses, festas no ego.

E de que nos devemos orgulhar, de acordo com a campanha? De alguns atletas, um treinador de futebol, uma fadista, um arquitecto, uma artista plástica, uma cientista. Gente certamente notável, que merece toda a nossa admiração, que conseguiu ser excelente entre os melhores do mundo nas sua área de actividade. Feitos económicos, como a maior central solar do mundo ou a presença na crescente indústria da energia eólica, efectivamente louváveis num país com uma economia frágil. Mas que não chegam para que Portugal seja o último dos exemplos. São, meramente, os Futres e os hóqueis dos nossos dias.

Se a campanha se destinasse a promover lá fora a marca Portugal, para atrair turistas e investidores, poderia ser útil, se fosse pensada e desenvolvida com esse propósito. Mas, sendo para dentro, que vende esta campanha aos portugueses? O orgulho de sermos compatriotas daquelas pessoas? Será que os etíopes também acham que vivem no paraíso na terra só porque o Haile Gebrselassie tem o recorde do mundo da maratona?

Cresceremos como país se nos dedicarmos menos à vanglória das nossas excelências e mais à correcção dos nossos defeitos. Foi aliás isso que tiveram que fazer muitos dos nomes que aparecem nesta campanha. Quando o Cristiano Ronaldo chegou ao Manchester, o Ferguson, que come vedetas ao pequeno-almoço, não lhe gabou certamente o jeitinho para dar toques sem deixar cair a bola. Pô-lo no ginásio a fazer músculo, deixou-o no banco enquanto ele não pôs o génio ao serviço da equipa, transformou-o num capitão. Corrigindo o que estava errado, preenchendo o que não existia, em três anos fez dele um dos melhores do mundo.

Com os países passa-se o mesmo. Mais importante do que gastar bom dinheiro a propagandear os circunstanciais sucessos de A ou de B, muitos deles só possíveis por que A e B trabalham no estrangeiro onde lhes dão condições de trabalho e de exigência, interessa corrigir as nossas lacunas, na educação, na saúde, na justiça, na atitude que como um todo temos perante a vida. Se os portugueses sentirem que os seus governos dão o litro nessa tarefa, terão algumas razões para estar satisfeitos. Se as coisas forem melhorando nesses domínios, terão motivos para alguma vaidade.

Por tudo isto, esta campanha acaba por ser, ao mesmo tempo, um desperdício de recursos e uma parolada. Uma fachada para pendurar nas fachadas. Um regozijo estéril, pago por todos nós e promovido por quem deveria investir-se em actividades mais úteis para o país.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A coisa está a aquecer

O jornal Público brinda-nos durante a semana, na última página, com uma curiosa secção chamada “Pingue-pongue”. Nela, um Rui Tavares, historiador, e uma Helena Matos, jornalista, alternam a desdizer-se e a digladiar-se, seja qual for o tema, para nosso sorriso e por vezes para nosso bocejo. O Tavares é suposto representar a “esquerda” e a Matos a “direita”. Ambos se entregam ao desempenho dos seus papéis com a sofreguidão própria de gente de ideias muito arrumadinhas, em prateleiras e gavetinhas, com muitas certezas à mistura. Acabam por isso a interpretar mais os estereótipos do que o pensamento, propriamente dito, de esquerda ou de direita.

Espreitando nas entrelinhas, vem-nos espontaneamente a imagem de um Rui todo sensível, de lágrima ao canto do olho perante as maldades do mundo, empolgando-se com multidões embandeiradas, usando garridas calças de algodão do Egipto e sandálias alemãs. Do outro lado, uma Helena muito mulher-macha, arvorando rigores de testosterona, indignada com as fraquezas de carácter do Estado social e as lamúrias mariquinhas dos bons selvagens que preferem a aspereza inútil de uma falésia algarvia a um bom golfe de nove buracos e mil e quinhentas camas.


Lenine escreveu que o esquerdismo era a doença infantil do comunismo. Lenine queria criticar certos comunistas, que de tão obcecados com a pureza dos princípios, perdiam puerilmente o sentido das realidades e a eficácia da luta política. Sem querer ombrear, pobre de mim, com o homem com a pêra mais célebre da história, eu acrescentaria que o direitismo deve ser a doença geriátrica do fascismo. O direitista debita, vai-não-vai, farrapos de ideias velhas, que emergem sem aparente noção da realidade, vindas de uma memória nostálgica e vencida, num autêntico Alzheimer de conceitos.

Obrigados a encher a cada dois dias três colunas de diário, com o cérebro espartilhado pelos esquerdismos ou direitismos que se impuseram, o Tavares e a Matos frequentemente assistem ao próprio pé a fugir para a chinela do disparate. Em menos de um fósforo, aí estão eles a pensar o impensável, agitando um chavão qualquer num vácuo de ideias, freneticamente, como as braçadas que dão os cágados virados de costas.

Há dias, a Helena pulverizou todos os recordes de idiotice, de regionais a interplanetários, atacando as preocupações com o aquecimento global – pelos vistos, uma inquietação esquerdista – com o seguinte e tranquilizador exemplo: na Europa Central, entre 1570 e 1630, três a quatro mil mulheres terão sido queimadas como bruxas na sequência de chuvas, secas e outras pragas que destruíram as colheitas da vizinhança. Donde, já havia desordens climáticas. Donde, não há azar com o CO2 que se anda para aí a debitar. “Quod erat demonstrandum”, versão Helena Matos.

Obviamente, a menina Helena não captou a essência do problema, que se resume nos seguintes passos:

1) Os políticos ou os ecologistas não inventaram o efeito de estufa. O efeito de estufa é um fenómeno conhecido, física e quimicamente bem caracterizado. O efeito de estufa já existia na altura em que os dinossauros andavam aí a contribuir para o problema, exalando dióxido de carbono e bufando metano quando a digestão lhes corria menos bem. O efeito de estufa sempre foi uma das componentes do equilíbrio termodinâmico da nossa atmosfera.


2) A teoria diz-nos que mais emissões de gases de estufa provocarão maior retenção de energia solar na nossa atmosfera e logo temperaturas de equilíbrio mais altas. Faço notar, em proveito das Helenas deste mundo, que a palavra teoria não tem conotações pejorativas. As teorias do electromagnetismo permitem ao pessoal ter luz lá em casa e as teorias da mecânica dos fluidos aguentam no ar algumas toneladas de alumínio, pintadas com as cores da TAP.


3) As grandezas da física da atmosfera apresentam, por natureza, uma enorme variabilidade, no espaço e no tempo. Temperaturas, precipitações, velocidades do vento, flutuam a cada dia, a cada mês, a cada ano. A nossa vivência transmite-nos essa experiência. A nossa memória, essa, funciona como um filtro, valorizando mais os acontecimentos recentes e, sobretudo, os valores extremos. Eu, por exemplo, tenho uma memória muito nítida dos dias dos meus exames finais de liceu, em que uma vaga de calor levou Lisboa acima dos quarenta graus, fazendo com que as meninas se apresentassem às provas de “cai-cai” e mini-saia. É uma imagem que, provavelmente devido ao calor, guardo num cantinho privilegiado da minha lembrança.


4) A matemática, por outro lado, aborda a evolução das grandezas meteorológicas de uma forma mais rigorosa do que a memória humana. Se pegar numa hipotética listagem com todas as temperaturas tiradas ao meio-dia no Terreiro do Paço durante cem anos, um matemático olhará para a sequência de números e colocá-los-á num gráfico para ver o aspecto da evolução ao longo do tempo. A temperatura andará num permanente zigue-zague, para cima e para baixo, sem uma lógica aparente. No entanto, calculando certas grandezas a partir daqueles números (médias, variações e outras mais complicadas), o matemático eliminará a informação que não interessa (a que se chama “ruído”) e encontrará a resposta a muitas perguntas: será que existem comportamentos que se repetem? Provavelmente, são as estações do ano. Será que existe uma tendência para as temperaturas no longo prazo, a mais de um ano, irem subindo? Uma inflação das temperaturas parecida com a que encontraríamos numa série de preços de um bem?


5) No caso das análises a variáveis meteorológicas, o tal ruído é enorme, dificultando a obtenção de conclusões com um grau de certeza muito elevado (as pessoas de ciência, contrariamente à Helena, gostam de graus de certeza elevados para poder tirar conclusões). No entanto, a análise feita pela grande maioria dos especialistas sérios aponta para que exista uma tendência nessas grandezas (subida das temperaturas, aumento do número de furacões por ano gerados por um mar mais quente, diminuição das área das calotes polares que derretem com um ambiente menos frio, etc.). Tendência que aponta para a existência de um aumento global da temperatura do planeta.


6) Existindo um mecanismo teórico que aponta para a existência do fenómeno, havendo números que sugerem que as coisas não estão de facto a correr muito bem, e sendo as consequências potencialmente muito chatas para os que vierem a seguir a nós, se calhar convinha fazer qualquer coisa. A menos que não nos importemos que os nossos descendentes apanhem o cacilheiro no cimo do Parque Eduardo Sétimo e que os futuros Sporting-Benfica possam ser interrompidos por tempestades de areia. Isto, para não falar aqui de coisas piores, como guerras pela água, fomes e outros cenários.

O problema da Helena está em não ter percebido que a ciência não se discute como se discute um conceito ético ou metafísico. A ciência discute-se pondo mais ciência em cima, contrapondo ciência, melhor ciência, à ciência. Se a Helena não quer fazer má figura, que trabalhe os dados, melhor do que os cientistas que o fazem. Ou então que se cale!

Por mim, estou moderadamente preocupado. Não me sabe bem que os meus netos nos venham acusar de lhes ter deixado para viver um forno onde se esturrica que nem na fogueira das bruxas, de que falava a Helena. Por outro lado, acredito que se pode fazer algo. Que o problema pode ser controlado ou invertido. Mas, como diria o meu avô, para ganhar a lotaria é preciso comprar um vigésimo. Ou, em linguagem do século XXI, para ganhar o Euromilhões tem que se depositar o boletim.

domingo, dezembro 09, 2007

Don't give up

Hoje, calhou ouvir isto:

Nesta terra de orgulho crescemos fortes
Sempre desejados
Fui ensinado a combater, ensinado a ganhar
Nunca pensei que pudesse falhar

Não há por onde lutar ou pelo menos parece
Sou um homem cujos sonhos desertaram todos
Mudei a minha face e mudei o meu nome
Mas ninguém te quer quando perdes


Não desistas
Porque tens amigos
Não desistas
Ainda não estás vencido
Não desistas
Sabes que podes conseguir


Embora o visse por todo o lado
Nunca pensei que me pudesse afectar
Pensei que seríamos os últimos a ir
É tão estranho o modo como as coisas mudam

Guiei toda a noite até casa
O lugar em que nasci, à beira-lago
Quando veio a aurora, vi a terra
As árvores tinham ardido até cair

Não desistas
Ainda nos tens a nós
Não desistas
Não precisamos de muito de nada
Não desistas
Porque algures há um lugar a que pertencemos

Encosta a cabeça
Preocupas-te demais
Vai correr tudo bem
Quando os tempos são difíceis
Podes volver a nós
Não desistas
Por favor não desistas


Tenho que sair daqui
Não aguento mais
Vou até aquela ponte
E olhar para a água
Seja o que for que me advenha
E seja o que for que parta
Aquele rio corre
Aquele rio corre

Fui até outra cidade
Esforcei-me por assentar
Por cada emprego, tantos homens
Tantos homens de quem ninguém precisa


Não desistas
Porque tens amigos
Não desistas
Não és o único
Não desistas
Não há razões para teres vergonha
Não desistas
Ainda nos tens a nós
Não desistas agora
Temos orgulho em quem tu és
Não desistas
Sabes que nunca foi fácil
Não desistas
Porque eu acredito que há um lugar
Há um lugar a que pertencemos




Cantado ao vivo, em Itália, por Peter Gabriel e Paula Cole.

Raramente vi o desemprego tratado de forma tão sensível – mas tão perspicaz – e olhado na perspectiva do lado de lá, o da surpresa, do desespero, da vergonha, da anomia e da cedência.

Peter Gabriel canta o problema. Paula Cole canta uma solução, que passa por fazer do mundo um lugar a que pertençamos.

Passe um certo lirismo, o que esta canção alerta, aos que têm a mania que são mais espertos, é que o sistema que vangloriam em nome da eficiência, enquanto temporários vencedores, não lhes vai perdoar no dia em que eles já não derem jeito.

E mesmo aqueles que, neste mesmo sistema, estarão sempre na mó de cima, a arrotar postas sobre a ineficácia e o esbanjamento que resultam da protecção social, mesmo esses não têm grandes razões para estar tranquilos. A história demonstra que atitudes construtivas do género “comam brioche” acabam por ser mal percebidas pelos ingratos destinatários e levam a que rolem cabeças. Literalmente.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Mataspeak faz um aninho

Faz hoje um ano, coloquei o primeiro texto num novo blogue: o Mataspeak. Reli hoje esse primeiro “post”, uma declaração de intenções sobre o que seria este espaço. Tenho que reconhecer que o Mataspeak evolui por caminhos diferentes daqueles que eu pensava inicialmente.

Uma coisa julgo ter cumprido: dizer o que penso, sobre o que me apetece e dar largas ao que vai dentro dos poucos centímetros do meu crânio. Ao fazê-lo, aproveitei para gozar o acto da escrita. Por vezes, peguei no microscópio e falei de coisas mindinhas, de importância aparentemente modesta. Noutras alturas, quis pretensiosamente mudar o mundo em três parágrafos. Numas e noutras, procurei partilhar questões que me fazem pensar com aqueles que me são queridos para que, sem que tivessem que concordar comigo, sobre elas reflectissem também. Tal deu origem a muitas conversas “a posteriori”, frente-a-frente, de copo na mão. Porque Mataspeak tem também sido uma casa onde os meus amigos me visitam, e as visitas retribuem-se.

Durante este ano foram quarenta e três entradas. Quase uma por semana, uma média pequeno-burguesa mas que ainda assim deu alguma satisfação. Aos meus maltratados leitores agradeço a paciência.


Contra as esperanças dos mais optimistas, Mataspeak vai continuar pelo segundo ano. E não, não vou mudar as cores: verde, branco e preto. Não quero saber que firam a vista. Só por estas cores é que vocês sabem porque não ficaaaam em caaaasa.

Três aparições de Kant num curral

Imagine quem me lê que uma mulher tinha dois filhos, um normal e outro que nascera com uma deficiência mental profunda. Posta nesta situação, adoptava o seguinte raciocínio: o meu dinheiro não chega para tudo; o meu tempo também não; mais vale por isso dar mais ao que é normal e que precisa de crescer bem do que ao outro que se calhar nem percebe o que se está a passar e que não tem grande futuro. E consequentemente, esta mãe canalizava os seus recursos e a sua dedicação ao filho são, deixando o outro mais abandonado, sacrificava por vezes a compra dos medicamentos deste último à satisfação dos normais caprichos de criança do primeiro, dedicava mais tempo a apoiar os trabalhos de casa de um do que a mudar a cama onde o outro jazia e assim sucessivamente. Mesmo que fosse verdade que a deficiência do filho doente fosse tal que ele nem sequer entendesse ou, no limite, que ele nem sofresse, que pensariam desta senhora? Aposto, singelo contra dobrado, que lhe chamariam monstro, com todas as letras.

Já todos vimos filmes em que um grupo de pessoas que não se conheciam se vê de repente atingido por uma catástrofe daquelas que os seguros não cobrem (naufrágio, incêndio no Empire State Building, fusão de um reactor nuclear, etc.). Em regra, nessas fitas, há sempre um ferido com alguma gravidade, de prognóstico reservadíssimo, que atrasa o grupo na sua fuga pela sobrevivência, reduzindo dramaticamente as suas já escassas probabilidades de sucesso. À primeira contrariedade, tipo desmoronamento ou explosão de gás, um dos personagens, sobre quem vai recair o ódio dos espectadores, diz algo como “se não o deixamos aqui, não temos qualquer hipótese”. O visado não pode deixar de concordar: “Ele tem razão. Safem-se vocês. Deixem-me ou morremos todos”. Claro que ele tem razão e todos o sabem. No entanto, o herói da história, contrariando o bom senso e as probabilidades, faz um “statement” do género “ou vamos todos ou não vai ninguém”, pega no ferido às cavalitas e desarvora por ali fora com os outros a reboque.

Perto do fim do filme, acontece sempre algum azar ao cínico que queria abandonar o outro desgraçado à sua sorte. Ou leva com uma viga de duas toneladas em cima ou cai por um inesperado poço abaixo, o que salva todo o grupo, numa espécie de “trade-off” cósmico. A morte do malandreco é celebrada mentalmente pelos espectadores, que pensam algo como “Querias deixar lá o outro não é? Bem que te lixaste”. Digam lá que não é assim?

Nas duas situações que referi, o que está em jogo é uma visão ética bastante vulgar nos seres humanos, independentemente do “background “ cultural, segundo a qual quando está em causa a dignidade, o sofrimento ou a vida de pessoas, o comportamento colectivo dos grupos nos quais essas pessoas se integram não deve resultar apenas de considerações de eficiência ou eficácia.

A grande maioria de nós vê como absolutamente errado que não se tente até ao limite salvar um ferido, mesmo num caso como o descrito em que, racionalmente, o comportamento oposto levaria a maximizar a esperança de vida de todo um grupo. De igual modo, a nossa condição humana leva-nos a esperar que uma mãe que se veja na situação inicialmente mencionada tenha, senão tanta, mais dedicação ainda ao filho doente, porque é o mais frágil. O facto de a criança poder nem ter consciência não altera esta nossa percepção. Pelo contrário, vemos como exemplos a seguir ou, até, heróis, aqueles que em situações como as citadas adoptam um comportamento que, podendo não ser o mais “lógico”, é o “correcto”.

Tentar salvar o nosso semelhante, não abandonar os mais fracos, são aquilo que Kant definia como “imperativos categóricos” ou seja actos sem fim instrumental, que se impõem por si próprios e que devem ser praticados incondicionalmente.

A concepção moral que lhes está associada é tão frequente que a biologia põe hoje a hipótese de o homem a ter desenvolvido de uma forma “darwiniana”: os grupos que tinham comportamentos que hoje vemos como nobres tinham melhores condições, a longo prazo, de sobreviver. Se assim foi ou não, para mim não tem importância. O que interessa é que a humanidade tenha conseguido criar e fazer perdurar um quadro de valores que não é puramente egoísta.


Veio-me esta lenga-lenga toda à cabeça após ler um artigo sobre a situação de crianças que, em Portugal, nascem com doenças raras, por vezes muito incapacitantes. Pais que pagam do seu bolso viagens ao estrangeiro para visitar médicos com a especialidade que em Portugal não há, usando os seus dias férias porque não têm qualquer apoio no emprego, com grande sacrifício, como se expiassem uma falta que não cometeram. Como sociedade, em que os ajudamos? Em nada. Estes pais foram abandonados por todos nós. Fomos andando para nos safar, que se fazia tarde, e ali os largámos à sua sorte. Portamo-nos como o filho-da-puta do filme, pensando mais na vidinha do que nas nossas obrigações. Pode ser que também acabemos debaixo de uma viga, antes da última cena. Não deixava de ser muito bem feito.

Para mais, nestes como noutros casos, não está em causa a maior ou menor probabilidade de morrermos todos. Está apenas em causa dinheiro. Paciência. Crescemos menos meio por cento ao ano. Investimos em menos uma auto-estrada. Vamos mais devagar. Não podemos é tolerar que sejamos uma sociedade que abandona os seus doentes à sua sorte, num “darwinismo” social repugnante.

Uma sociedade que não entende que também tem os tais imperativos categóricos, que nem tudo se traduz em entradas e saídas de orçamento, não é uma sociedade. É um curral.

sexta-feira, novembro 23, 2007

A vida eterna

Passados cinquenta anos
De mim
Que restará?

Uma fotografia esmaecendo numa prateleira
Com roupas de outra era
Numa felicidade passada
Decorando um “hall” de entrada
Entre um jarrão e uma salva
Com crianças a perguntar quem era

Talvez uma biblioteca,
Livros amarelecendo
Ocupando um recanto
Na casa de algum descendente
Que se lembrará que ainda existo
Quando diante de um livro surpreendente
Se admirar (Ele lia isto?)

Alguns genes, certamente
Aparecendo ocasionalmente
No desenho de um queixo
Ou no sorriso de um bisneto

Ao princípio, os mais velhos dirão
Sorri como o avô sorria
Mas chegará o dia
Em que os mais velhos partirão
E aí serei apenas sorriso e queixo
E, embora sendo, ninguém saberá que sou eu

terça-feira, novembro 20, 2007

O jornal do espanhol

No fim dos anos noventa, trabalhava na empresa em que eu trabalhava um colega espanhol, uma geração mais velho do que eu, que sempre representou para mim uma certa parte da Espanha. Bem-disposto, com uma costela marialva e algo fura-vidas, tinha no Real Madrid a principal paixão. Em política era “pêpista” – simpatizante do Partido Popular, anti-socialista, com um desprezo marcado pelos nacionalismos basco e catalão e, por arrasto, desconfiado dos próprios bascos e catalães. Também católico e monárquico, e lá no fundo saudoso do franquismo e da sua suposta ordem. Como muitos homens da sua geração, tivera familiares fuzilados durante a Guerra Civil, no seu caso pelos republicanos, o que explica em parte o seu modo de ver. Sempre simpatizei muito com ele, apesar das inúmeras turras profissionais que demos.

Todos os dias, este homem passava numa tabacaria antes do trabalho para comprar o diário madrileno ABC. O que é normal, porque o ABC pensava como este meu amigo: conservador, católico, monárquico, pêpista, anti-socialista, anti-regionalista e até anti-barcelonista nas páginas de futebol. Muitas vezes, passei no seu gabinete e folheei aquele grosso jornal, gordo de uma centena de folhas, pesado de inúmeros artigos de opinião.

Certo dia, o ABC do meu amigo tinha por primeira página, de alto a baixo, a fotografia de um homem velho, de melena branca. O título era “morreu Alberti”. Eu não sabia então quem era Rafael Alberti. Foi um dos grandes poetas espanhóis do século XX, e também jornalista republicano e militante comunista, exilado durante o franquismo.

Pois o ABC, diário conservador, católico, monárquico, anti-socialista e tudo o mais, dedicava – para além da primeira – as suas vinte e tal primeiras páginas à memória de um poeta comunista que morrera nesse dia! Pela simples razão que fora um dos melhores de Espanha. Nesse dia, recebi do ABC uma inesperada lição sobre nobreza de espírito. Na hora da morte, não interessava o que em vida o separara profundamente daqueles que, naquelas vinte e tal páginas, elogiaram postumamente a sua obra. O que importava, isso sim, era a poesia que deixava e que, sendo grande, fazia maior a Espanha.

Comparando com situações semelhantes em Portugal, onde maltratamos a nossa cultura e a nossa herança, onde deixamos passar em claro as efemérides que poderiam servir para festejar aqueles cujo génio é património de todos nós, onde somos suficientemente estúpidos ao ponto de dizer de fulano que até foi um bom poeta, mas que era comunista/homossexual/fascista/ou qualquer outro rótulo, a largura de perspectiva demonstrada pelo ABC surpreende. Dizia Oscar Wilde que não há livros morais ou imorais, só há livros bons e livros maus. No ABC e em Espanha, “lo tienen claro”, como eles lá dizem. Cá nem por isso.

Não consigo deixar de pensar que esta será uma das razões pelas quais a Espanha vai crescendo, enquanto nós vamos mirrando, alegretes e contentezitos.


Entretanto, li Alberti, o que muito agradeço ao ABC. Deixo aqui um poema para amostra, que poderia reflectir algumas das inquietações que sinto hoje em dia. Narra um género de preocupações e sentimentos que já não se usam e é por isso mesmo actualíssimo. Intitula-se “balada para los poetas andaluces de hoy”:

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero donde están los hombres?
Con ojos de hombre miran, ¿pero donde los hombres?
Con pecho de hombre sienten, ¿pero donde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucia se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Qué en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

quinta-feira, novembro 15, 2007

As juntas

Li no outro dia que o ministro das finanças, Teixeira dos Santos, contrariou o veredicto de uma junta médica que mandara apresentar-se ao trabalho uma senhora com uma doença degenerativa grave. A tal junta médica – ou, melhor dizendo, uma junta de médicos, provavelmente em roda livre e desorientada, sem o peso da canga e a resistência da lâmina do arado – declarara-a capacíssima de trabalhar, mau grado o detalhe menor de ela não conseguir andar ou ir à casa de banho sozinha.

Corre aí uma moda, nesses ajuntamentos de doutores que decidem, soberbos, sobre a vida alheia, de mandar trabalhar paralíticos e ceguinhos, coxos e doentes terminais. Não vá o erário público ficar lesado. Quando não se controlam os zelotas, costuma infelizmente dar nisto. Consta até que decidiram cruzar as bases de dados da Segurança Social com a das Finanças, para ver se descobrem a morada de um tal Lázaro, que dizem que morreu mas que afinal parece que não e que até se levantou mas não se apresentou ao trabalho. Mais um simulador, com certeza.

Como o assunto envolvia médicos e seus disparates, a Ordem dos ditos e o seu rubicundo e reboludo bastonário preferiram não se meter. Depois de anos a ignorar quando os clínicos mandavam pessoal para o maneta, fecha agora os olhos quando mandam manetas para a secção de pessoal, apresentar-se ao serviço. Julgava eu que o interesse para a sociedade das ordens profissionais seria o de praticarem alguma forma de auto-regulação. Devo estar enganado. O propósito da Ordem dos Médicos será com certeza algum. Talvez publiquem uma revista, a quatro cores, ou organizem torneios de “bridge”. Coisas úteis.

Mas voltando ao caso concreto, devo dizer que tenho simpatia por este ministro. Parece-me do género de tipo para quem dois vírgula nove é diferente de três vírgula um e este último é certamente mais do que três. Género algo quadradão, reconheço, que não serve para animar um festival de “rock” de verão, mas que convém para a pasta das finanças. E que infelizmente não possuíam alguns dos seus antecessores, mais elucubrantes e por vezes esquecidos das lições liceais sobre relações de ordem no conjunto dos reais.

Acho também que, nesta situação concreta, o ministro, fosse pelas boas ou pelas más razões, esteve excelente. Li críticas que lhe foram feitas, que diziam que ao contrariar uma decisão médica por um acto administrativo, o ministro tinha inaugurado um perigoso precedente. Discordo totalmente. Quer pela vertente médica, quer pela vertente administrativa.

O argumento de que uma decisão médica é inatacável de forma legítima por um não-médico é idiota e é perigoso. Leva a que uma decisão médica seja inatacável, “tout court”, uma vez que já vimos que médicos não atacam outros médicos, nem que eles se esqueçam de um bisturi cravado no cerebelo de um paciente. Por isso o argumento é perigoso. E é idiota, porque quando os médicos, ou os serralheiros, ou os praticantes de gaita-de-foles, dizem uma cavalidade evidente, seria uma idiotice da nossa parte não dizer que acabámos de ouvir uma cavalidade evidente e aproveitar para os apodar de cavalgadura para cima. Lembra-me isto um “sketch” em que o John Cleese, interpretando um médico, afirmava ao doente: “A fractura do seu braço esquerdo...” O doente interrompia: “Doutor, é no braço direito!” E Cleese, com aquela expressão única de desdém britânico: “Cale-se, imbecil! Por acaso você é licenciado em medicina?”

Por outro lado, mesmo que a regra geral fosse não desautorizar juntas médicas, ainda bem que o ministro pensa pela sua cabeça e quebra as regras quando acha que elas não estão a cumprir a função para que foram desenhadas. Apesar da palavra “ministru”, em latim, significar “criado”, aquele que cumpre ordens, eu espero dos ministros que, entre a justiça e o manual de procedimentos, escolham a justiça. Que nos casos-limite, decidam em função do que está certo e não do que está escrito. E se alguém se sentir lesado, existem parlamentos, tribunais, eleições e todos os “checks and balances” de um regime democrático para impedir decisões abusivas, e que hão-de funcionar se tal for necessário.

domingo, novembro 11, 2007

A raposa no galinheiro

A mais recente grelha da TV Cabo dá à cadeia televisiva norte-americana Fox, com quatro canais não-codificados, um lugar de relevo na programação do nosso principal operador de cabo. Se juntarmos o primo próximo AXN, temos cinco canais, cerca de dez por cento da oferta, num bloco homogéneo que oferece séries televisivas norte-americanas, de acção ou policiais, bem como alguns “soi-disant” documentários sobre o mundo policial nos Estados Unidos.

Essas séries obtiveram geralmente grande sucesso no seu país natal e repetiram-no noutras paragens, como em Portugal. São realizadas com grande rigor profissional e bem interpretadas. Em minha casa, os canais Fox e AXN teriam permanentemente um dos meus filhos colado ao ecrã, se eu não pusesse um pouco de ordem no curral. Eu mesmo acompanho, com prazer, algumas das séries propostas.

Se exceptuarmos os Simpsons, uma sátira brilhante e desinibida sobre a América de hoje, e Dr. House, que reflecte sobre o papel do génio, a fatia gorda da restante programação destes canais – incluindo os “documentários” – representa, de múltiplas formas, a luta de um lado inequivocamente bom da sociedade (representado por um homem ou uma mulher, ou um grupo, ou uma organização) contra um lado inequivocamente mau (porque desconhecido, ou porque conspirativo, ou porque levou ou pensa levar a cabo alguma maldade, que pode ir de uma rixa de rua a uma bomba nuclear em Minneapolis). Na realidade, a maldade mais frequente é o assassínio, por norma com requintes de malvadez e esforços de originalidade: na Fox, os guionistas conseguem conceber mais maneiras de limpar o sebo do que os portugueses inventaram receitas para dar cabo do bacalhau.

Como será normal em produtos de massas, no final ganham inevitavelmente os bons e os vilões recebem o justo castigo. Para garantir que tal aconteça, o lado do bem conta sempre com alguma característica – em gestão chamar-se-ia uma vantagem competitiva – que lhe garante a vitória. Os produtores têm deste modo uma receita para o sucesso: muda-se a característica e começa-se uma série nova. Se não, vejamos:

E mais exemplos há!

Que visão nos transmitem estas séries? Primeiro, a de um mundo a preto e branco, apoquentado por um mal estrutural e irredimível. Os maus correspondem frequentemente a estereótipos, do cadastrado, do terrorista estrangeiro, da mulher pouco casta. Sobretudo, os maus estão enredados na sua própria condição de maldade, arrastando consigo a grilheta de um pecado original em direcção ao abismo do crime. Por isso, são facilmente identificados pelas correlações matemáticas ou pelos perfis psicológicos. O criminoso passado torna-se imediatamente suspeito, porque o criminoso repete sempre o crime. Nestas séries, o ser humano tem uma profunda incapacidade de autodeterminação moral: se se nasce torto, nunca mas nunca se endireita. Se não fôr dos bons e se lhe deparar a ocasião, está feito o ladrão: mata automaticamente. Por esta razão, se um quadro de circunstâncias resultar na existência de uma motivação e de uma oportunidade, a suspeita dos bons sobre os maus avoluma-se. A presunção de inocência é, nestas séries, meramente retórica: procura-se a prova que confirma a culpa, não a que inocente o investigado.

Os bons, por outro lado, vivem do lado certo da vida. Por isso se permitem ter certezas rápidas. São metódicos, eficazes e orientados para o objectivo. Desprezam os maus como seres inferiores. Contrariamente a Cristo, sentem mais regozijo pelo pecador a mais no inferno do que tristeza pelo eleito a menos no reino dos Céus. Presos a esta perspectiva, os bons acham que os fins justificam os meios. Logo, se o Jack Bauer se vir na contingência de torturar um suspeito para obter uma preciosa informação, nós, o público, somos supostos compreender. E as contingências acabam por ser mais frequentes do que deviam.

O mundo mental destas séries é um mundo cercado, de medo e de anátema. O crime é a regra, não a excepção. É a manifestação premeditada de uma natureza humana viciosa, não o desvio irracional e acidental de uma natureza humana imperfeita. Neste mundo, espera-se dos simples espectadores que tirem consolo da protecção que lhes conferem as tais “características ímpares” das autoridades, ou seja, do poder. E deles se espera ainda que percebam que a autoridade é para aceitar, por ínvios que sejam os seus caminhos.

Em abono da verdade, diga-se que alguns dos realizadores tentaram fugir um pouco a este espartilho e introduziram alguma mesura na narrativa e alguma densidade nas personagens. Por exemplo, no CSI – Las Vegas. Mas são uma minoria.

Nada disto surpreende se soubermos que os canais Fox, pertencentes ao grupo News Corporation, de Rupert Murdoch, defendem acerrimamente a visão ideológica reaccionária de George Bush filho e da restante pandilha baptista do sul, inimiga da América liberal e democrática dos pais fundadores. Portanto, o peixe que estamos a comprar é exactamente aquele que a Fox nos está a pensar vender. Também não me surpreende que a TV Cabo sirva de banca ao peixe alheio. É um número de abaixamento a que em Portugal já estamos habituados.

Temos portanto a raposa instalada no galinheiro, a dissertar sobre a bondade da faca e do espeto. Não há mal em que olhemos para ela e nos divirtamos. Eu próprio, como referi, o faço. O importante é que, quando olharmos, saibamos ver que uma raposa é uma raposa, uma galinha é uma galinha e uma dentada no pescoço é uma dentada no pescoço.

domingo, outubro 28, 2007

O sentido do heroísmo

Um livro e uma recordação, ambos trazidos de Paris há uma semana, motivam este “post”.

O livro, uma bêdê de Jean-Michel Beuriot e Philippe Richelle, intitula-se “Maria” e é o terceiro volume da série “Amours Fragiles”. Série, cuja leitura recomendo, que nos conta a vida de alguns alemães no período que vai da ascensão do nazismo ao princípio da derrota na Guerra Mundial. Esta gente narra uma história um pouco diferente da versão maniqueísta dos manuais, em que os aliados são bonitos e bons e os alemães feios e todos uns assassinos nazis. Na realidade existiu uma resistência alemã contra o nazismo, e algumas das personagens de “Maria” travam essa luta desigual contra a máquina totalitária e contra a colaboração mesquinha de uma grande parte de um povo embrutecido pela propaganda.



Podemos dizer que os autores apresentam uma visão na essência pessimista, mas provavelmente ajuizada, sobre a natureza humana: somos tendencialmente e geralmente pusilânimes mas potencialmente e mais raramente sublimes. A capacidade de vergar a nossa tendência para materializar todo o nosso potencial tem que resultar de uma reflexão e de uma decisão nossas, que somos livres de efectuar ou não. Se o fizermos, perderemos algum conforto mas seremos provavelmente melhores pessoas. Àqueles que com grande sacrifício ou risco o fizeram, em momentos particularmente difíceis de perseguição ou guerra, damos o nome de “herói”.

A Maria do livro é uma heroína, sem capa e sem super-poderes. Mãe solteira, secretária de um consultório numa pequena cidade de província, faz aquilo que acha que é seu dever fazer, por amor da sua filha e do seu país. A Maria é uma personagem de ficção, mas representa com muita compostura muitas Marias e Mários que ao longo da História sacrificaram tudo pela liberdade e pela dignidade dos outros.

A recordação, essa, vem de um passeio de muitos quilómetros ao longo do Sena, numa sexta de sol e frio. Aqui e acolá, no chão, nas paredes, discretas, fustigadas da chuva e das solas de sapato, por vezes quase apagadas, plaquinhas relembram que “aqui morreu fulano, defendendo Paris dos normandos” ou que “aqui perdeu beltrano a vida lutando contra os alemães na libertação”. São centenas de pequenas memórias em chapa, lembrando outros tantos dramas e convidando quem passa a um segundo de reflexão. Lisboa, que tanto imita o mobiliário urbano de outras capitais, bem podia daqui tirar algum sentido.


Sou de uma geração que nasceu e vive num território cómodo, num tempo confortável. Gozamos de abundância, paz e liberdade. A fome e a guerra são realidades distantes, de presença meramente televisiva, que lamentamos mas que não nos tiram o sono. Raramente nos ocorre que esta vidinha boa foi construída sobre séculos de luta contra os perigos da existência e a prepotência dos senhores. Que, para que aqui chegássemos, sucessivas gerações construíram o nosso mundo e que homens e mulheres morreram para que a civilização avançasse mais depressa, ou não recuasse na direcção das trevas.

Que faríamos nós se nos víssemos na posição deles? Seríamos capazes de arriscar a vida por valores que achássemos certos? Que faria eu no lugar da Maria? Teria coragem para transportar panfletos contra Hitler, temendo a vigilância dos bufos da vizinhança e as torturas da Gestapo? Ou ficaria tranquilo no meu cantinho, e os outros que resolvessem a crise? Não sei.

Como não sei, acho que o mínimo que posso fazer, ou que podemos fazer, é não os esquecer. É lembrar o seu exemplo e mostrá-lo aos mais novos. É ter consciência de que a liberdade, a prosperidade, a nacionalidade ou qualquer outro bem imaterial de que beneficiamos não vêm à borla, e que podem de vez em quanto ter que ser defendidos. É perceber o enorme mérito que tiveram muitos dos nomes daquelas plaquinhas, gente pequena mas muitas vezes mais nobre de intenções que outra, a quem até erigiram estátuas. É estar, pelo menos durante alguns instantes, grato.

Se não o fizermos, de preguiça ou mesquinhez, roubaremos o sentido ao sentido que aquelas pessoas deram às suas vidas. E até às nossas. Dizia John Reed que há coisas grandes no futuro, pelas quais vale a pena viver e morrer. Nem todos podemos ser heróis. O heroísmo não é obrigatório. Mas o respeito e a gratidão são.

domingo, outubro 14, 2007

A longa e ventosa estrada

Em resposta a desafio de blogue amigo, fiquei de dissertar sobre os Beatles. Tarefa difícil para uma banda ou um fenómeno cultural ou social carequita de ser analisado, dissecado, venerado de todas as maneiras e feitios. Neste assunto é que não há mesmo nada de novo debaixo do sol.

Poderia ir gamar ideias à mais bonita homenagem feita aos Quatro, duas páginas de banda desenhada pelo traço de génio de Marcel Gotlib, de 1972, intituladas “ils étaient quatre”. Gotlib conta-nos que fez umas investigações na sua discoteca para responder à pergunta idiota que na altura se fazia: será o fim dos Beatles? Que concluiu ele? Que o sol de “Good day sunshine” continua a brilhar… Que o Bungalow Bill continua a caçar o tigre, com o elefante e com a mãe… Que o doutor Robert continua a curar toda a gente e que podemos continuar a confiar nele… Que o Rocky Racoon continua a bater-se em duelo com o Danny Boy para recuperar a sua mulher Magill… Que a morsa continua a declarar que vende ovos… Que o campo de morangos continua a não estar maduro no “Strawberry fields forever”… Que a rapariga dos olhos de caleidoscópio continua no torniquete em “Lucy in the sky”… Que em Penny Lane as crianças continuam a rir-se do banqueiro e do seu carro, sob o céu azul dos subúrbios… E assim sucessivamente…

Gotlib concluiu que não havia azar. Os Beatles continuam a ser os Beatles. As duzentas prendas que eles nos deixaram no sapatinho continuam a trabalhar que nem relógios suíços. Eu próprio confirmei este resultado, repetindo a experiência trinta e cinco anos depois e verificando que também funciona em formato digital. A Eleanor Rigby binária continua a apanhar os grãos de arroz na igreja deserta onde o padre Mac Kenzie escreve o seu sermão, passado que está vai para meio século.



Demonstrada a existência, pode-se também fazer prova da unicidade. Os Beatles são efectivamente únicos. Deixa-se a demonstração a cargo do leitor. Para o ajudar, alguns dados científicos sobre os Beatles:

Facto 1: Todas as músicas dos Beatles estão recobertas de cera, um lubrificante natural do canal auditivo. Por isso entram tão bem no ouvido.

Facto 2: Muitas canções dos Beatles libertam um gás volátil com o difícil nome de sin-propanetial-S-óxido, o qual em contacto com a água da mucosa dos olhos produz uma solução diluída de ácido sulfúrico que faz chorar. Tal ocorre, entre outras, com “In my life”, “Here, there and everywhere”, “She’s leaving home”, “The fool on the hill”, “You never give me your money” ou “The long and winding road”. Curiosidade: a cebola liberta o mesmo gás.

Facto 3: Muitas músicas dos Beatles induzem a produção pelo corpo humano de dopaminas (C8H11NO2) e oxitocinas (C43H66N12O12S2). As primeiras aumentam com a paixão e produzem uma sensação de prazer e as segundas estão relacionadas com as actividades afectivas. O ouvinte corre pois o risco de ficar apaixonado. São exemplos “Michelle”, “Yesterday”, “Norwegian wood”, “And I love her”, “Something” ou “I’ve just seen the face”.

Facto 4: A obra dos Beatles sofreu, a partir de meados da década de sessenta, uma tal aceleração criadora que se começaram a verificar efeitos relativistas. Tal como nos filmes de ficção científica em que o herói viaja à velocidade da luz e regressa à Terra no século XXV mas para ele só passaram três meses, muitas músicas dos Beatles chegam aos nossos dias frescas que nem alfaces, como se tivessem sido compostas por putos de Billabong e iPod. Veja-se “Taxman”, “Dr. Robert”, “Ticket to ride”, “Sexy Sadie”, “Get back” ou “Revolution 1”.

Facto 5: Pelas mesmíssimas razões que encontramos na base do facto nº 4, a música dos Beatles apresenta frequentemente um comportamento não-causal, aparecendo adiantada em relação ao seu tempo. Tal ocorre em “A day in a life”, “Fixing a hole”, “I’m only sleeping”, “Magical mystery tour” e em praticamente todo o álbum branco.

Facto 6: Em consequência do facto 5, o trabalho dos Beatles tem fortes propriedades magnéticas. Atraiu muita gente, que copiou descaradamente ou foi pelo menos fortemente influenciada, desde os Stones na época a muita da “pop” britânica de hoje.


Populares e geniais, generalistas e vanguardistas, mito e substância, os Beatles mudaram hábitos, mentalidades e gostos, fazendo música que fazia aquilo que a música é suposta fazer: ser importante na vida das pessoas. Foi importante na minha? Algumas vezes. Posso contar aqui uma história. Igual ou parecida à de milhões de outras histórias de outros colegas de planeta.

No Agosto dos meus dezoito anos, viajei de “inter-rail” e tive um daqueles amores de férias que são infinitos enquanto duram mas que só duram até à partida do próximo comboio. No dia da separação, estando eu já desfeito de saudades, com a obrigatória telha, o mundo desabado sob os meus pés, entrei para fugir a um aguaceiro num McDonalds em Graz, na Áustria. Aí, uma TV a preto e branco passava um desenho animado dos Beatles: “I’ll follow the sun”. E dizia:

One day you'll look and see I've gone,

For tomorrow may rain so I'll follow the sun.
Some day you'll know I was the one,
But tomorrow may rain so I'll follow the sun.

Olhei pela janela e já não chovia. Segui o sol. Até hoje…


Os Beatles foram possivelmente o grupo que mais marcou a minha vida. E mesmo hoje em dia, muitas vezes sou trazido de volta à longa e ventosa estrada que me leva até à sua (deles) porta.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Quando a política apetece…

Nos últimos anos, alguns amigos de longa data, apanhados naquela curva da vida em que se olha para trás e se percebe que o caminho já vai a meio, têm abraçado a causa budista. Um desses, leitor ocasional deste blogue, costuma zurzir-me pela pouca introspecção e espiritualidade dos meus textos, muito dirigidos, segundo ele, para questões pouco nobres de sociedade ou de política. A porca da política…

Qual não foi pois o meu espanto quando ao entrar ontem no “website” da União Budista Portuguesa (UBP) me deparo com uma proposta para subscrever abaixo-assinados para pressionar o governo da Birmânia a respeitar os direitos humanos. Não me pude impedir de sorrir. Afinal, a política é a continuação da espiritualidade, só que por outros meios.

Obviamente, este súbito despertar activista não surge por acaso. Ocorre no momento em que a junta militar que manda naquele país esmagou à pancada um levantamento popular no qual o clero budista teve um papel extremamente relevante. De repente, a vítima ficou mais próxima: já não é o palestiniano que implora a passagem de uma ambulância num “check point” ou a mulher nicaraguense que morre de gravidez ectópica por proibição do aborto clínico ou o trabalhador nova-iorquino que teve o azar de pegar às oito no World Trade Center, a onze de Setembro. Agora, a vítima usava túnica vermelha e laranja e a cabeça rapada e por isso, para grandes males, grandes remédios: abaixo-assinado!

Pode-se fazer política de muitas maneiras: fazendo, não fazendo ou fazendo às vezes. Todas querem dizer qualquer coisa. Fazer às vezes quer dizer que só se faz nas vezes em que vale a pena. E se nessas vezes vale a pena, é porque um valor mais alto se levanta, um valor que justifica a acção. Esse valor, neste caso, é a liberdade ou a vida de um monge budista. Que, de acordo com esta lógica, será superior a outros valores, de mais baixa relevância, como sejam – por exemplo – a liberdade ou a vida de um camponês checheno, que não mereceram ser a excepção que faz com que valha a pena ter uma reflexão política e iniciar um abaixo-assinado.

Evidentemente, todos tendemos a ser mais activos quando a causa da indignação nos toca a nós, ou é geográfica ou afectivamente mais chegada. Não é esse reflexo que aqui se critica. O que se critica é a selectiva mudança de postura: passar de uma posição em que a reflexão sobre os males e os bens da nossa sociedade não merece uma descida dos Himalaias espirituais em que serenamente se procuram as verdades derradeiras para outra em que toca a sacar da esferográfica que estão a dar de “casse-tête” nos monges. De repente, descobrimos aqui uns fulanos que já não têm que suportar passivamente as consequências do seu “karma”. E esta mudança selectiva traz consigo um significado político subliminar mas óbvio: existem seres de primeira e seres de segunda. E daqui poderíamos desenvolver uma longa conversa, que nos levaria muito longe.

Outro comentário que me ocorre é que é de mau tom, já que se está a iniciar uma acção política, começar logo com uma hipocrisia digna da mais baixa politiquice, ao nível do pior que ocorre nas secções concelhias dos partidos do poder. O “slogan” escolhido pela UBP é “Ontem Timor, hoje Myanmar, Tibete, Darfur… – Solidariedade!”. Salta à evidência que Timor e Darfur estão ali como as bolas da anedota do pau de fósforo: só para disfarçar. O que interessa à UBP, e não poderia haver posição mais política do que esta, é o Tibete e Myanmar. Myanmar pelas razões que acima se disseram e o Tibete porque o líder espiritual budista coincide com o líder político tibetano no exílio, na pessoa do Dalai-lama. Dizer que a questão do Tibete é de hoje é esquecer que a invasão pela China foi em 1950 e que o grande granel foi entre essa data e os anos sessenta, em que os tibetanos sofreram tal como os próprios chineses os massacres e loucuras do regime maoísta. Assim sendo, é tão de hoje como a da Palestina, a dos lagos africanos, a de Chipre ou outras que se arrastam há tempo demais.

Quanto a Timor, só faz parte do “slogan” porque faz apelo ao imaginário do maior movimento de solidariedade internacionalista que se verificou em Portugal e o Darfur porque é – ou devia ser – a grande causa humanitária dos dias de hoje. Se a preocupação com o Darfur existia, porquê só agora? A guerra civil sudanesa leva mais de duas décadas e a tragédia humanitária está no auge há anos. Onde tem andado a UBP? Usar as “marcas” Timor e Darfur só para compor o ramalhete é indigno de um movimento que se propõe reflectir sobre o Homem e uma falta de respeito para com aqueles que, naqueles dois sítios esquecidos dos deuses, sofreram a opressão, a guerra e a fome.

Tudo o que disse não tem nada a ver com a admiração que me merecem os birmaneses, monges ou simples gente do povo, que afrontaram o regime nas ruas e o asco que me inspiram os militares da junta. A Birmânia, rica de recursos naturais (gás, petróleo, madeira) tem indicadores de desenvolvimento miseráveis – como um PIB per capita próximo do de Moçambique – que envergonham os seus responsáveis sobretudo em comparação com os de alguns países vizinhos, como a Tailândia ou a Malásia. Por outro lado, e talvez isto explique algumas coisas, possui, relativamente à sua população, o quarto maior exército da Ásia oriental e meridional, só atrás das duas Coreias e de Taiwan.

Infelizmente, e com toda a probabilidade, a junta militar vai continuar. A situação geopolítica é-lhe favorável. A China e a Rússia não permitirão grandes sanções por parte do concerto das nações, os países vizinhos não querem instabilidade e querem o seu gás natural e muitas companhias ocidentais têm lá boas perspectivas de negócio. Se souberem fazer o trabalho sujo com discrição e mantiverem meia dúzia de conversas com a oposição só para parecer que sim, os militares já passaram mais esta crise.



Entretanto, ficaram os presos e os mortos. No passado dia 4, um movimento na “blogosfera” preconizava que todos os blogues do mundo apresentassem um “post” de protesto em solidariedade com as vítimas do regime birmanês. Não soube na altura e vou agora fazê-lo com uma semana de atraso, tempo que não envergonharia nenhuma empresa portuguesa que tivesse que cumprir um prazo. Como homenagem às pessoas que sofrem às mãos de outras pessoas, independentemente de me serem próximas ou distantes.

terça-feira, outubro 09, 2007

A serpente

O Público de hoje relata a insurgência de uma tal Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN) contra um folheto antidroga distribuído pelo Instituto da Droga e Toxidependência. O folheto dirige-se a jovens adultos, foi distribuído em discotecas e festivais de “rock” de verão e contém uma linguagem muito explícita como seja alertando para “não partilhar tubos para snifar” ou o que fazer para, no caso de ocorrer ainda assim consumo, diminuir os riscos de vida dos consumidores.

O presidente da APFN, um tal Ribeiro e Castro, utiliza com galhardia o portentoso vocábulo “horrorosa” para atacar a dita campanha. Não sei porquê, cheirou-me a linha de Cascais e a mofo de sacristia e decidi ir ao “site” da APFN saber quem eram estas luminárias, guardiãs da moral pública.

Logo nos estatutos, artigo 2º,1a, ficamos a saber que o fim da associação é o de “defender os legítimos interesses das famílias numerosas, constituídas a partir de uma base eminentemente afectiva e contratual, celebrada entre pessoas de sexo diferente, que de uma forma estável, duradoura e de acordo com os princípios do direito natural prossigam uma comunhão plena de vida”.

Os sublinhados são meus, os eufemismos são deles. Traduzida para português corrente, a finalidade da APFN é “defender os interesses dos casais católicos ortodoxos que pariram uma ranchada de filhos”.

Para mim, que considero o direito de associação algo de essencial numa democracia, encanta-me que os católicos proliferantes se associem para, no respeito da lei, defender os seus magnos interesses. É-me exactamente igual do que se forem os taxistas de praça, os electricistas da região centro ou os tuaregues emigrados em Monfortinho. Chateia-me já um bocado que escondam a sua essência e reais propósitos por trás de fraseados florais e meias palavras.

Só daquele artigo 2º,1a, retiram-se logo uma série de consequências que dão uma medida da extensão do disparate:

- as famílias numerosas que resultem de casais não convencionais (por exemplo, em união de facto) que vão procurar ajuda noutra freguesia: só podem ser sócios casais mesmo casados (estatutos, artigo 5º,2) ou afins;
- logo, os filhos fora destas santas condições de procriação são inferiores aos outros: tempos houve em que, no direito português, estas crianças – denominadas bastardas -tinham “de jure” menos direitos do que as outras, embora ocasionalmente fossem úteis para iniciar novas dinastias;
- o casamento é para a vida toda: não se divorciem, que deixam de merecer apoio;
- existe uma cena chamada “direito natural”: regras que resultam da própria essência da natureza e que por isso o homem no seu juízo crítico não pode alterar. Excelente ponto de partida para o fundamentalismo.

Para três linhas e meia de estatutos, já não é nada mau.

Se continuarmos pelos estatutos fora, encontramos outras pérolas, como: “defender a liberdade fundamental dos pais à educação dos seus filhos e destes escolherem, livremente, para eles, o modelo de ensino que pretendam, no respeito pelos valores essenciais da pessoa humana”. Aparentemente benemeritíssima, mas exactamente a argumentação que se utiliza para justificar a lavagem cerebral nas “madrassas”, o ensino de baboseiras criacionistas nas aulas de biologia no “corn belt” ou o obscurantismo na educação dos filhos posto em prática pelos Amish ou em muitas comunidades ciganas.

Penso que, como na maior parte das coisas da vida, um Estado democrático tem que se preocupar com um equilíbrio entre direitos igualmente honoráveis: o direito dos pais educarem os seus filhos como acharem que é mais proveitoso ao seu desenvolvimento e de transmitirem aos filhos valores que perfilham, com o direito dos filhos a serem minimamente informados para a vida e, no limite, a serem protegidos de pais que apenas se preocupem com eles próprios.

Noutra entrada do “site”, passamos aos princípios da APFN. Estes princípios conseguem ser piores que os fins: tal como no “slogan” gonçalvista, o fascismo espreita a cada esquina.

Vejamos alguns. “A Família é a primeira comunidade natural da sociedade, anterior ao próprio Estado, pelo que este deve estar ao serviço da Família”. Lido de outra forma: “se formos nós a mandar, as nossas regras serão as que se aplicarão a todos, porque são as únicas que são verdadeiras”. Poderei deduzir que quem pisar o risco será queimado vivo no meio da Praça do Comércio? Ou esta: “as famílias constituídas de forma estável e equilibrada são a melhor prevenção e antídoto natural contra a droga, violência, marginalidade e outras disfunções da sociedade”. Lido bem lido, o que isto quer dizer é que a fonte de todo o mal está nas pessoas que praticam uma vida ou uma moral diferentes da correcta (obviamente aquela que a APFN defende). Desta habilidade, a APFN pretende que resulte legitimidade política para proibir comportamentos que ache incorrectos. Ou ainda: “os valores sobre os quais assentam as sociedade – respeito, tolerância, amor, solidariedade, justiça, verdade, liberdade e responsabilidade – aprendem-se, sobretudo, na Família, pelo exemplo e pela educação”. Obviamente a família (com efe minúsculo) é uma estrutura básica de organização social e uma ferramenta poderosa de formação, inclusive em bons valores, se os pais assim se esforçarem. Mas não é nenhuma garantia. E já agora, porque é que a família tem que ser numerosa? Se os filhos forem só dois já não se transmitem sólidas convicções?

Como cereja em cima do bolo, no final dos estatutos temos a lista dos sócios fundadores da APFN, de manifesto interesse sociológico. Parece um texto anterior à reforma ortográfica de 1911: é só hífenes, tê-agás, consoantes dobradas, ípsilones e apóstrofes. Há Palmeirins e Themudos, Lynces que não da Malcata e D’Oreys, todos sob o olhar protector de alguns espíritos santos.

A meu ver, o Estado deve ajudar as famílias numerosas, dentro do apoio que deve genericamente prestar à Família (não confundir este efe maiúsculo com aquele que a APFN inapropriadamente usa) e à Criança. Se os cidadãos se associarem para prosseguir os mesmos fins, poderá fazer sentido que o Estado os apoie, com meios financeiros ou físicos. Mas esta APFN está-se nas tintas para as famílias numerosas, até porque não se destina a todas. É essencialmente um instrumento de promoção de uma ideologia, por acaso até retrógrada, com uma base social bem definida e restrita, que se julga representante de uma verdade incontestável porque divina e se arvora no direito de falar por todos. Por isto, espero que a APFN não receba um tostão dos meus impostos, senão ficaria danado.



O fundamentalismo cristão parece por vezes coisa do passado. Mas anda aí muito menino que lê os Evangelhos como os wahabitas leram o Corão ou os bolcheviques leram Marx: sem critério e sem juízo. O fundamentalismo cristão está em crescendo no mundo e só não controla a maior potência mundial porque nos Estados Unidos há separação de poderes. E a História demonstra que isto é deveras preocupante. Qualquer livro de História. A de Portugal serve.

A APFN representa em Portugal uma face enganosa deste fundamentalismo cristão. Admito que muitos dos sócios – perdoai-lhes Senhor – nem saibam a quantas andam e achem só aquilo muita giro. Mas grandes calamidades começaram no passado com grupinhos e grupelhos tão anódinos quanto este. Por acaso, eu, que sou pai e casado pela Igreja de papel passado, se me aplicasse um bocadinho até poderia em menos de um ano candidatar-me a sócio da APFN. Mas Deus me livre de tal cãzoada.

domingo, setembro 30, 2007

Sensibilidade e bom senso

Há dias em que leio o jornal e concluo que, ou sou eu que sou estúpido, com um entendimento débil das realidades profundas desta vida, ou serão outros que não eu.

O caso conta-se em poucas linhas: uma mãe entregou a filha de poucos meses para adopção a um casal sem filhos; este criou-a como se a criança fosse sua, aparentemente com todos os desvelos; o pai, que inicialmente nem quisera saber da filha, apareceu posteriormente a pedir a guarda da criança; o processo de adopção fora irregular; os tribunais sentenciaram – e reconfirmaram agora – que aquela criança, já com cinco anos, deve mudar para uma casa que desconhece, com pais que não sabe quem são e que não reconhece como pais, vide com um nome que não é o dela. Acresce que existem dúvidas algo fundadas sobre a capacidade do pai dito biológico garantir as responsabilidades da paternidade.

Provavelmente por eu ser estúpido, consigo imaginar o terror que viverá aquela criança, no dia em que for arrancada à sua vida para ser enterrada noutra, por ordem do douto juiz, por muitos peluches que tenha à chegada ao novo quarto.

Tenho lido e ouvido advogados e juízes a justificar em abstracto a bondade da decisão. Que não pode ser permitido que, no limite, A rapte o filho de B, o eduque como seu, e que B não possa recuperar seu filho e A não seja punido. Entendo, mas parece-me estar longe de ser o que aconteceu neste caso.

Tenho também lido e ouvido pediatras e psicólogos indignando-se com o caso, certos dos traumas que esta criança vai sofrer. Concordo, e julgo que nem será preciso um canudo em ciências médicas para chegar a essa conclusão.

Ninguém está acima da Lei, nem sequer as leis. Muito menos os juízes. Na minha estúpida perspectiva, a Lei deveria proteger direitos fundamentais, entre os quais o direito à vida e à personalidade. A vida daquela criança começou de uma forma estranha e irregular à luz das leis do burgo, mas tal não dá legitimidade ao Estado para determinar o rasgo daquela personalidade, como se de um documento caduco se tratasse. Admito que haja complexidades, ou culpas a expiar, mas quando a coisa envolve direitos de uma criança devem ser usadas pinças e não o martelo judicial.



A última decisão do tribunal fala inclusive de um período de transição, com detalhes escabrosos dignos do procedimento de arranque de uma máquina, dividindo a miúda no tempo e no espaço entre pais antigos e novos, como se de uma decisão salomónica se tratasse. Só que a história do Livro dos Reis não fala sobre os rigores da lei, antes relata o bom senso de Salomão. E bom senso não me parece que abunde no julgamento deste caso.

Eu, que não tenho as luzes que iluminam os meritíssimos, vejo com vantagem a reformulação do curso superior de magistratura, de modo a que o seu currículo se componha das seguintes cadeiras: Introdução ao bom senso; Teoria do bom senso I e II; Práticas de bom senso; Bom senso aplicado ao direito; Noções básicas de sensibilidade; Estágio final de bom senso; Seminário de modéstia. Para corpo docente, arranjem as primeiras pessoas que passarem na rua. Pior não pode ser, de certeza absoluta.

Um sistema judicial independente e respeitado é um dos pilares de um regime democrático. Para que funcione, tem que ter os meios que infelizmente não tem, situação que faz com que de facto a justiça em Portugal seja hoje um obstáculo ao desenvolvimento e um peso no erário. Para que seja respeitado, acima da beca e dos estrados altos, necessita de juízes que se preocupem mais com a defesa dos Direitos cuja garantia faz da Democracia o regime potencialmente diferente, do que com a letra e a pretensa consistência interna do cafarnaum de leis que, por preguiça, herdámos de sucessivas camadas de legisladores.

Até lá, a democracia será apenas mais uma conversa de café.

sábado, setembro 29, 2007

Quem sabe, não esquece

If we share this nightmare
Then we can dream
Spiritus mundi.

The Police, in "Synchronicity I"


Quarta, vinte e sete anos depois de os ter visto quase de esguelha na cabeceira norte do estádio do Belém, revi os Police no Jamor. Já tinha algumas memórias vívidas das minhas idas ao Estádio Nacional: um golo de mais de cinquenta metros do Artur, julgo que contra a Noruega, que passou rasteirinho por toda a equipa adversária, todos naquela de “alguém há-de lhe pegar” ou, noutro jogo, o burburinho na cabeceira oposta após um atrasado mental ter largado não longe de mim um foguete que atravessou o campo para matar um espectador, gesto que eu não vi por estar a olhar para cima, a amaldiçoar os céus pelo golo injusto e certamente irregular que deu a taça ao Benfica. Junto agora a essas lembranças um espectáculo de arregalar olho e orelha, que me fez dar por bem empregue a nota preta que larguei pelo bilhete e a hora e meia de bicha na A5.

Quando cá vieram pela primeira vez, os Police eram “primus inter uma data de pares” da “new wave”, uns permanentes fazedores de sucessos, uns potenciais sucessores dos Beatles – na altura ainda se discutia a questão da sucessão. Estavam no auge da sua popularidade e o Restelo apinhou-se da juventude de 1980. Apesar de todas estas vantagens, o concerto foi sombrio e fracote, tanto quanto me lembro, e prejudicado por uma acústica menos do que mediana.

Agora, voltou a apinhar-se a juventude de 1980, que a juventude de 2007 trata carinhosamente por “os meus cotas”. No primeiro tinham ido no 27 da Carris, agora foram no 316 da BMW e quejandos. Trocaram as calças rotas no joelho e os “badges” de lapela por um “smart casual” ou mesmo pelo fato e gravata, para os que não puderam ir a casa. E o concerto foi dos maiores. Verdade se diga, em palco não estiveram apenas músicos e músicas, estiveram sobretudo lembranças vivas dos melhores anos das nossas vidas. Mas, mesmo descontando esta preciosa vantagem, o concerto continuou a ser dos maiores.

Vistos nos ecrãs gigantes, os polícias espelhavam o tempo que passa: as madeixas tornaram-se cãs, o Sting escanzelou, Andy Summers ostenta agora tripla papada e o Stewart Copeland precisa de óculinhos para distinguir a tarola. Isso não os impediu de vergar quase duas horas. Usaram de bom senso e alinharam todos os sucessos, mas deram-se liberdade para os modificar, misturar e reinventar. Transformaram “reggae” em “quase metal” e “pop” em “novo pop” ou “jazz”. Excelentes, as versões de “When the world is running down” e “Bring on the night”. Vibrantes de pedalada, “Next to you” e “So lonely”. Tocantes como sempre, “Invisible sun” e, claro, “Roxanne”. O palco, envolvido por sistemas luminosos que possibilitavam originais e soberbos efeitos visuais, dava espectáculo dentro do espectáculo, e era como se o grupo estivesse a actuar dentro de um Pollock ou de um Mondrian.

Conhecidos por se darem pessoalmente muito mal, os três membros da banda completam-se como os três dedos da mão de um tipo que tenha perdido dois dedos. Sting traz carisma, pelo falsete peculiar da voz, pela presença apessoada, pelas causas e outras tangas. Summers contribui com profissionalismo. Com mais liberdade para solar do que há vinte e sete anos, Andy teve excelentes sequências de boa guitarrada, mas falta-lhe sempre aquele golpe de asa. Nunca será um Alvin Lee ou um Rory Gallagher, mas para o efeito não precisa. Porque Steward Copeland traz a componente de génio do grupo.

Copeland pertence a uma espécie em vias de extinção, que devia ser protegida pelo WWF tal como o panda das estepes, a catatua do Nilo ou a águia rosa: é um baterista! Não é um sintetizador, não é uma caixa de ritmos, não brinca com uns batuques: é um baterista. Um grande baterista. Senta-se no banquinho e desenha ritmos, encaixa-os nos interstícios da harmonia com a perícia do artesão e a volubilidade do louco. Bate à bruta quando se pede força e afaga quando se quer meiguice. Às vezes repete, às vezes varia. Traz à música e à mente aquela componente nascida e esquecida num passado seminal, órfica, emotiva, que nos induz comportamentos superiormente irracionais e humaníssimos como a dança e o canto.

Saído do Jamor, dei comigo com dois pensamentos sucessivos: “já não há grupos assim”, seguido de “isto é pensamento de velho”. Não sei. Tenho a imodéstia de não me achar excessivamente faccioso. Obviamente a “new wave” é a música da minha memória, que animou as primeiras festas e embalou os primeiros beijos. Beneficiará sempre de um estatuto especial, de saudade e condescendência. Mas procuro ir ouvindo outras coisas, futuras e passadas. E quando gosto, gosto. Só descobri os Nirvana há dois ou três anos, já o Kurt Cobain estava morto e enterrado. Comprei o “Nevermind” para matar a curiosidade. Ouvido e rendido, não tive dúvidas que estava diante de um melhores álbuns de sempre do “rock”, com uma energia telúrica que é a essência do género, com um negrume cantado que retrata o espírito de uma época. Noutra ocasião, fiquei de lágrima ao canto do olho ao ouvir um fado de um José Pracana, numa colectânea de canções com mais de cinquenta anos, que vinha de brinde num jornal! Um tipo de quem nunca ouvira falar, que tive que andar a perguntar à paternidade se sabia quem era, um tipo de um passado antepassado, recuperado digitalmente para me cantar a tristeza da vida e me deixar enfiado.

Por isto, repito, quando gosto, gosto, sem data marcada. Mas não posso deixar de pensar que a malta anda presentemente pouco empenhada a criar e pouco exigente a ouvir. Na geração dos Police, uma das mais férteis da história do “rock”, houve muita gente diferente a querer contar coisas diferentes de maneiras diferentes. Os Clash falavam de política, os Stranglers do lado negro da sociedade, a Patti Smith das dores da vida, os Police de tudo um pouco. Estes e outros procuravam chegar ao lado bê dos LPs sem ter que encher chouriços e conseguiam-no com uma dúzia de boas canções, para abanar a carola ou simplesmente para estar sentado no chão a ouvir. Aliás, hoje, na era do CD, quando ouvimos os “bonus tracks” que as reedições recuperam, canções gravadas em fitas esquecidas que na altura não foram publicadas, percebemos porque não o foram. Não é porque ocupassem espaço. É porque não mereciam e os seus autores tinham, para além de talento, vergonha na cara e respeito para com o público.

Não vejo muitos “Polices” de vinte anos e pergunto-me quem conseguirá encher os estádios de 2037. O Boss AC? Os Linkin Park? Não me parece.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Chinesices

À Dra. Maria José Nogueira Pinto, conhecida no abafado meio político nacional pelo “petit nom” de Zézinha, deu-lhe uma de “arbeit macht frei” e vai de propor arrebanhar as lojas chinesas de Lisboa e pô-las todas num “Chinatown”. Tudo por via administrativa.

Fiquei de olhos em bico.

Quando os chineses decidem ir todos morar para o mesmo sítio, forma-se um bairro chinês. Quando os chineses (ou os uruguaios, ou os minhotos) são obrigados por um Estado a morar no mesmo sítio, a coisa chama-se um gueto.

Embora a Zézinha tenha a atenuante de partilhar as noites com um dos expoentes do “soft”-salazarismo português, correndo o risco de apanhar ideias estranhas por osmose, surpreende-me ainda assim a extensão da asneira. Que a Zézinha, que sempre foi de algum modo funcionária pública, ache que o Estado tem o direito de obrigar as pessoas a abrir as suas lojas onde ele acha melhor, ainda percebo. Isto, apesar de ela militar por um partido teoricamente de um liberalismo todo “escola de Chicago”. Que a Zézinha ache que essa obrigação possa derivar de um factor étnico, e que não compreenda que isso é racismo no seu pior, já me custa a crer, na minha santa ingenuidade.


A aversão ao estrangeiro, ao outro que nos rouba o pão, continuará a fazer mossa por aí, apesar das teses contrárias dos economistas teóricos e das estatísticas contrárias do Instituto Nacional de Estatística. Atente-se na Zézinha, que deixa escapar dislates daquele calibre enquanto vai reconhecendo o jeito que lhe dá comprar pilhas AA e lenços de papel na loja do Sr. Chang, provavelmente sem se dar à antipática maçada de pedir factura.

Tucídides relata um elogio da Democracia que Péricles pronunciou durante uma cerimónia fúnebre aos mortos da Guerra do Peloponeso. É um texto que deveria ser lido todos os dias em voz alta na Assembleia da República, nas autarquias, nos restaurantes da Rua de S.Bento e noutros locais de reunião da nossa paupérrima classe política, a ver se encornavam alguns valores básicos.

Nesse elogio, entre muitas outras coisas, diz Péricles sobre os estrangeiros em Atenas: “Somos também superiores aos nossos adversários na nossa preparação para a guerra no seguinte aspecto: mantemos nossa cidade aberta a toda a gente e nunca, por actos discriminatórios, impedimos alguém de conhecer e ver qualquer coisa que, não estando oculta, possa ser vista por um inimigo e ser-lhe útil. A nossa confiança baseia-se menos em preparativos e estratagemas do que na nossa bravura no momento da acção.”

A Democracia baseia-se em cidades abertas a todos, não em mundos fechados. Que faria Péricles no lugar da Zézinha? Provavelmente exigiria meramente das lojas chinesas que cumprissem as leis da República relativas à sua actividade, e nunca entraria em tontices baseadas na cor da pele ou no ângulo de fecho das pálpebras. Mas por isso é que Péricles ficou para a História, enquanto a Zézinha se ficará pela histeria.

sexta-feira, setembro 07, 2007

A Instituição

Em qualquer domínio da existência humana, há sempre um grupo de artistas que se acha eleito por Deus e ungido de uma divina – e logo inatacável – verdade. Entre os povos, o israelita. Entre as classes profissionais, a dos jornalistas. Entre os adeptos de futebol, os benfiquistas.

Os adeptos dos outros clubes têm paixão, exultam na vitória e sofrem na derrota, mas lá no íntimo percebem que tudo não passa de um jogo, ou de um negócio, cujos sucessos e fracassos estão mais dependentes da rajada de vento que desvia para a barra um golo que parecia certo ou então da simpatia ou animosidade, mais ou menos inconscientes, do árbitro da partida do que de qualquer intervenção em seu favor de poderes celestes ou infernais.

O benfiquista, ao contrário, tem fé. Crê que aquele nome de bairro da periferia lisboeta e aquelas camisolas vermelhas, iguais às de milhares de outros clubes mundiais, ganham só por si partidas de futebol. Crê que a história se repete e que o Coluna e o Simões ainda jogam. Crê – sem se rir! – que o Benfica é da igualha do Real Madrid ou do Milan. Crê na multiplicação dos adeptos, tentando resolver o buraco financeiro com a técnica milagreira que Cristo usou nas bodas de Canã. Crê que o tamanho do rebanho chega aos seis milhões. Crê que a vitória, como o Céu, lhe é devida pela fé que tem. Só não crê naquilo que vê quando a equipa está em campo.

Com crença tão fervente, o comportamento do “homo benfiquis” releva mais da antropologia religiosa do que da psicologia de massas. As associações à terminologia e à orgânica das religiões são evidentes. O benfiquista não se desloca ao estádio, vai à “catedral”, para mais da “Luz”. O benfiquista acha que o seu clube, tal como Deus nosso senhor, é “glorioso”, mesmo nas mais tristes figuras. O benfiquista não espera que os dirigentes componham uma equipa de futebol, antes deseja um “salvador”, que opere o “milagre” de ganhar jogos sozinho, como o Santo Eusébio fazia. O benfiquista tem ouvidos para “pregadores” hirsutos e desgrenhados, “santificados” pelo seu reconhecido benfiquismo, sendo normal ver senhores engravatados a aplaudir de pé, nas assembleias-gerais, enquanto o inapresentável Barbas, de cachecol ao cachaço e táxi á porta, grita as maiores cavalidades contra o candidato da oposição. Finalmente, o benfiquista julga que o clube é “imortal”, por muitas tropelias que a Direcção cometa para arrebentar com a solvabilidade da SAD.


Quando a realidade dos resultados se incompatibiliza com as certezas da fé cega, acontecem eventos místicos. No início desta temporada, enquanto os adversários vendiam muito caro alguns jovens promissores para depois reforçar barato as suas equipas, reduzindo dívida que nem formigas, a cigarra Benfica começou por comprar à toa, depois teve que vender à toa as jóias da coroa, depois aleijaram-se uma série deles, depois foram vestidos de cor-de-rosa jogar contra o Leixões e empataram. Tal foi o suficiente para que a congregação lampiona realizasse logo um “auto-da-fé”, imolando o treinador nas chamas de uma rescisão de contrato, pela qual pagaram, aliás, uma bela maquia como clube rico que julgam ser. Afastado o “diabólico” elemento, vai de contratar outro treinador, um espanhol que, não sendo homem de resultados passados (esteve dois anos no Benfica sem ganhar o campeonato, esteve vinte dias no Real Madrid até a sua forte personalidade perceber que os jogadores não o queriam lá, estava há anos sem clube que lhe pegasse), promete resultados futuros com ar porcino e pronúncia manchega. Em consequência, sete mil seguidores apressaram-se a demandar uns abarracamentos que o clube tem no Seixal para assistir à torreira do sol a um treino, pasme-se, em grande manifestação de fé clubística, numa romaria masoquista que lembra a procissão das chagas nas Filipinas. Ao menos esses flagelam-se com um cilício, ganhando em eficácia o que perdem em ridículo.

Como pastor de tão iluminado rebanho (um posto de alto risco, que dá por vezes prisão no fim do mandato), brilha agora um senhor com um bigode que não se acredita e umas orelhas que são um milagre. Se o visual é de ícone, o discurso, esse, é de salmo, tecendo loas miríficas às grandezas da Instituição, como ele apelida com pompa bigoduda ao grémio que superiormente dirige. Quando soe tocar a trompa, não caem as muralhas de Jericó mas esboroam-se as frágeis ligações que seguram as palavras umas às outras, também conhecidas por regras da gramática, e sai para o microfone qualquer coisa a meio caminho entre a onomatopeia e a frase, entre o galego e o dialecto da Alverca, num discurso revelador de milagres que só os iniciados compreendem (do tipo “o Mantorras vale dezoito milhões de contos”) e de que os cépticos riem a bom rir, rebolando pelo chão e limpando as lágrimas com lenços verdes ou azuis.

Neste momento, benfiquista que se tenha posto a ler este texto deve estar certamente em brasa, com pensamentos de arrebanhar esbirros para queimar em santificadora fogueira o herético autor destas linhas mais a sua prosápia diabólica. Talvez valha a pena por isso contribuir com alguma verdade histórica para um acto de contrição e humildade desse amigo lampião ou, dito em português corrente, para um saudável abaixar de garimpa.

Na génese da Instituição está um grupo de rapazolas conhecido pelo “Grupo dos Catataus”, que em 1903 se juntavam para dar uns chutos num areal de Belém. Eu não teria grande orgulho em pertencer a um clube proveniente dos “catataus”, só pela sonoridade. E então se formos ver o sentido! Catatau é vocábulo que tem, no dicionário Houaiss, doze definições díspares, algumas perfeitamente deliciosas: “indivíduo muito baixinho, tampinha”; “besta grande e velha”; “falatório, mexerico, intriga”; “porção de qualquer coisa”; “pénis”. Nobres catataus! Todos nós temos um pénis na nossa origem, mas o Benfica pelos vistos tem vários.

Estes catataus juntaram-se em Fevereiro de 1904 a um outro grupo, de ex-alunos da Casa Pia – Olá! Olha quem eles são! – para fundar o Sport Lisboa. Foram provavelmente estes últimos que trouxeram a componente piedosa e crente que parece estar na massa do sangue benfiquista. O acto fundador teve lugar no restaurante “António das Caldeiradas”, nome que não podia ser mais premonitório do actual estado do clube. A primeira sede, aproveitando uma borla, foi numa farmácia, também em Belém: o “Laboratório Franco – Especialidades Farmacêuticas”. Compreende-se pois a tendência de alguns rapazes do plantel para recorrerem às tais especialidades quando as canetas falham e os adversários correm mais do que devem. Resulta do código genético do clube.

Finalmente, em 1908, o Sport Lisboa fundiu-se com um grupo de Benfica e deu origem ao Sport Lisboa e Benfica. Tinha nascido a Instituição. Curiosamente, numa caldeirada aritmética, o Benfica celebrou o seu centenário em 2004, com pompa e alarde. Encontro para este facto peculiar duas explicações plausíveis: a) o Benfica é tão superior que tem centúrias de noventa e seis anos; ou, mais provável, b) pediram ao Presidente Vieira para fazer as contas.

Amigos benfiquistas! Quem sou eu para vos pedir que reneguem a vossa fé? Afinal eu acredito ferozmente no direito à liberdade religiosa, por isso cada um que acredite no que quiser, por mais incrível que pareça aos outros, nem que seja que o Petit pode ir a uma bola sem fazer falta. Mais: até tenho uma certa ternura por vocês. Agora lembrem-se de uma coisa: o último livro dos Evangelhos é o Apocalipse.

terça-feira, setembro 04, 2007

Croxeth

Durante o período de férias de Verão, uma criança de onze anos foi assassinada em Liverpool com um tiro no pescoço quando regressava a casa de um treino de futebol, guiando a sua bicicleta. Possivelmente foi morta por engano por miúdos pouco mais velhos do que ela, pertencentes a gangues locais. Tenho um filho com onze anos, que também treina futebol, e portanto senti esta dor de uma forma muito minha.

Sobre este crime, a imprensa inglesa deu enfoque, e a portuguesa reproduziu, a dois factos: ao de ser a enésima vítima menor de violência de rua em Inglaterra, este ano, e ao de o rapaz morto morar em Croxeth, o bairro de onde é originário o jogador Wayne Rooney.

Ao enfatizar este último aspecto, a imprensa acaba por estar a escrever nas entrelinhas. Sabe-se ser este um dos mais perigosos (ou, como se diz hoje em dia, “problemáticos”) bairros de Liverpool. Ao referir Croxeth como o fizeram, os jornais estão a adiantar – admito que inconscientemente – um elemento de algum modo explicativo: embora certamente lamentável, parecerá ao leitor mais compreensível que se apanhe com um tiro em Croxeth do que num bairro pipi de Liverpool, exactamente pelo mesmo mecanismo que nos parece uma fatalidade que se pise uma mina em Angola e veríamos com escândalo que tal acontecesse na Avenida da Liberdade.

O mundo não é perfeito, mas que o Reino Unido, uma das pátrias da liberdade ocidental, se resigne a que uma criança de Croxeth tenha mais probabilidade de morrer com um tiro do que outra que more no centro de Liverpool ou de Londres, parece-me imperfeição excessiva e desnecessária. Convém que, tal como os restantes mamíferos superiores, e de modo a merecer o adjectivo, nos organizemos para proteger as nossas crias, morem elas em Croxeth ou em Mayfair.

Isto implica um tipo de organização, começada há milhares de anos na Suméria, em que uma entidade representante dos interesses colectivos recolhe fundos – impostos – para satisfazer esses interesses, sejam eles segurança, água potável ou a redução dos riscos desta vida. Essa entidade, com o nome hoje pejorativo de “Estado”, foi-se refinando ao longo da História, ganhando, nalguns casos de sucesso, em eficiência, em representatividade e em equilíbrio na sua relação com cada indivíduo.

Para satisfazer níveis de protecção que garantam igualdade de oportunidades a todas as crianças (incluindo as de Croxeth), o tal Estado precisa de meios policiais, administrativos e judiciais adequados às exigências de cada momento. Precisa também de promover meios económicos e educacionais que reduzam desigualdades e criem perspectivas. Não tenho a certeza que os Estados escanzelados, financeiramente asfixiados e sem capacidade crítica sobre as malandrices que lhes fazem outros mais espertos do que eles, que nos propõe a “conventional wisdom” actual da política económica e dos “pivots” de têvê, tenham as ferramentas necessárias para cumprir a missão referida.

Ao fim e ao cabo, todos os livros de teoria política podem ser arrumados em apenas duas estantes: a que diz “Lei do mais forte” e a que diz “Primado da Lei”.

Convém pensar um bocadinho de que prateleira queremos tirar o nosso manual de boas práticas, para depois não nos queixarmos.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último pôr-do-sol de Agosto nos Aivados

Dedicado aos que lá estavam


Caso para dizer: fabuloso ocaso!

A maré prostrou-se, em homenagem
E os seixos e a rocha
Subitamente emersos
Entre murmúrios diversos
Respiram de modo cavo
E nem uma brisa (ou aragem)
Perturba o olhar, escravo
Do horizonte em tocha

Lenta, contra o céu de anil,
A silhueta do pescador de ondas
Carrega no braço seu batel
Nos olhos memórias frágeis
Enquanto sobre dunas redondas
Correm negras e ágeis
Pequenas sombras de papel
Em feitiços e risos mil

A Lua espreita impaciente
Gorda de dias, e luzidia
Não esperando que o Sol ponente
Dê oficialmente por findo o dia
No campo a sombra ainda tarda
Que o Sol partindo em glória
Para deixar melhor memória
Todo o brilho para si guarda

Talvez o raio de sol último
Nos traga esta incerta saudade
De outros fins de dia
Nestes sítios, noutra idade
Num tempo que já não volta
Em que preso em nós vivia
O amor agora livre e múltiplo
Que corre descalço à nossa volta

domingo, julho 22, 2007

Do rigor do texto


Perguntou-me um amigo se eu pensava usar de rigor nos meus textos do “Mataspeak”.

Respondi que sim, mas em bom rigor deveria primeiro ter tentado compreender rigorosamente de que rigor me falava o perguntante. O Dicionário Houaiss apresenta oito sentidos diferentes para o vocábulo. Entendo que aquele que melhor se aplicaria à pergunta seria “exactidão extremada; rectidão; precisão”. E neste caso a minha resposta afirmativa poderia ser, afinal, mentirosa. De exactidão extremada deverão preocupar-se os editores do “New England Journal of Medicine” e de precisão os fabricantes de cronómetros da “Tag-Heuer”, não eu ou o meu modesto blogue. Da rectidão, talvez já me interesse. Aliás, interpretei a questão que me fora posta no seguinte sentido: “escrevo para defender uma perspectiva, para estabelecer uma “verdade”, usando de seriedade?” Neste sentido, certamente restrito, penso ser rigoroso. Porque o exercício da escrita permite usar caminhos ínvios e na aparência incoerentes para chegar a uma compreensão das coisas, que por vezes não estão ao alcance de abordagens mais… euh… rigorosas. Deus escreve direito por linhas tortas e os homens às vezes também.

Associamos muitas vezes o rigor ao raciocínio dedutivo. Neste, de um conjunto de premissas retiramos uma conclusão que, no fundo, não traz mais informação do que a que já existia nas próprias premissas. Se eu pegar em duas frases que por alguma razão sei de fonte segura serem verdadeiras – por exemplo, “qualquer sportinguista é mais abonado do que qualquer benfiquista” e “eu sou sportinguista” – concluirei que sou mais abonado do que qualquer benfiquista, o que até parece razoavelmente evidente. A matemática funciona assim e por isso, por trás da sua aparente complexidade formal, reveste-se de uma enorme simplicidade: compõe-se de afirmações que se puxam umas às outras, de sucessivas verdades de La Palisse. Como temos que começar nalgum sítio, para servir de motor de arranque desta construção intelectual precisamos de umas verdades irrefutáveis, os axiomas, que irão servir de base a todas as outras. Algumas destas verdades básicas são evidentes na nossa óptica quotidiana, como por exemplo, estabelecer que um e zero não são iguais (com mais rigor, que os elementos neutros da adição e da multiplicação são diferentes). Outras, como a existência de um número imaginário que é igual à raiz quadrada de menos um, não fazem sentido físico nenhum mas permitem construir resultados práticos interessantes, como sejam sintonizar uma telefonia ou pôr as asas de um avião a levantar vôo.



Infelizmente, verdades irrefutáveis não andam para aí aos pontapés e por isso a maioria do nosso saber, mesmo em disciplinas tão insuspeitas como a física ou a medicina, obtém-se por um método dito indutivo, segundo o qual, em bom rigor, nunca temos bem a certeza absoluta de nada. Mas podemos pelo menos chegar a fundamentadas desconfianças – a que também chamaremos, ironicamente, “verdades”.

Como funciona o método indutivo? Vejamos! O tal amigo que me pôs a pergunta joga comigo e com outros colegas a jogos de batota. Por vezes, tem o mau gosto de ostentar uma mão com os trunfos quase todos, o que normalmente provoca nos outros jogadores reacções de desagrado e comentários a despropósito sobre a virtude de parentes próximos. Suponhamos que a primeira vez que tal aconteceu, os parceiros tenham pensado “este tipo tem um chouriço que não é normal”. Ora esta conclusão estaria a ser induzida por única ocorrência e portanto a probabilidade de estar certa seria bastante reduzida.

Se ao longo do tempo a situação se repetisse sistematicamente, para choro e ranger de dentes dos restantes jogadores, a hipótese do “chouriço não normal” poderia ir saindo reforçada, se nenhum outro facto a ela se opusesse. A certo momento, todos acabariam por aceitar como um dado adquirido possuir o meu amigo um “chouriço filha-da-mãe”. Nada garantiria a veracidade deste facto como uma certeza absoluta, apesar de a todos parecer que sim. A hipótese de ele gozar de uma sorte de predestinado teria meramente uma probabilidade elevada de ser verdade, a qual resultaria do grande número de ocorrências verificadas e de nada de evidente a ela se opor.

Agora, se um amigo desse amigo – eu, por exemplo – se desse ao trabalho de verificar o bloquinho onde estavam apontados os resultados dos últimos dois anos e concluísse que os tais “grandes chouriços” estavam contrabalançados por outras tantas derrotas, tão espectaculares como desonrosas, de tal modo que o resultado agregado fosse igual ou pior que o de qualquer outro jogador – eu, por dizer qualquer coisa – então a hipótese “da paia enorme” cairia por terra, varrida para sempre por um simples contra-exemplo. Haveria a partir daí que procurar uma outra explicação para o conjunto das duas observações (sorte aparente e resultados medíocres), como por exemplo “tem vaca mas joga com os pés” ou “faz um espalhafato de cada vez que tem um jogo imbatível, por isso nota-se mais”.

O facto de se proporem ideias sobre qualquer assunto a partir de um número reduzido de observações não revela por si só falta de rigor, se a coisa se fizer com seriedade intelectual. Assim nasce e se desenvolve grande parte do nosso conhecimento. Depois, a consolidação deste saber pode resultar da sua confirmação por uma abordagem intelectualmente honesta, estudiosa, sistemática, analítica, como a que tem o químico no seu laboratório ou o arqueólogo no seu buraco. Mas tal não é a única via. Existem outros mecanismos que, não usando do rigor no sentido da “exactidão extremada”, permitem com “rectidão” construir com “rigor” o conhecimento. Um destes mecanismos encontra-se na literatura.

Ocasionalmente, a arte e nomeadamente a literatura conseguem a surpresa de induzir em nós (ou de reforçar) a compreensão de factos ou fenómenos que o trabalho científico – dito rigoroso – só com dificuldade esclarece. Um bom livro, a vibração de um poema, uma tirada feliz, um sarcasmo ou mesmo um simples verso operam por vezes o milagre suave de acender luzes nas nossas vidas, permitindo que num momento de magia entendamos aquilo de que nem suspeitávamos, apesar de sempre ter estado sob os nossos olhos.

Um exemplo: sobre o nazismo escreveram-se já milhões de páginas, compilaram-se filmes e fotografias aos milhares, acumularam-se números e testemunhos inúmeros. Todo este manancial de reportagens e teses sempre me pareceu desaguar na mesma pergunta: como foi possível? Como aconteceu que um povo inteiro, para mais dos mais cultos da sua época, se deixasse enrolar por um bando de palhaços fardados liderados por um louco estrangeiro e conduzir de mansinho a colaborar, mais ou menos activamente, numa máquina de morte bárbara que os levou à ruína e à vergonha por muitas gerações? O conhecimento dos factos históricos ou a leitura de explicações ideológicas ou sociológicas ajudava-me a entrever uma parte da resposta, mas sempre de uma forma insatisfatória e incompleta, como se o tempo tivesse lançado uma penumbra sobre os acontecimentos e as razões profundas se tivessem perdido para sempre nalgum recanto escondido do passado.

Um dia, o meu pai ofereceu-me um livro que vira num alfarrabista, uma das suas leituras preferidas de juventude: “O obelisco preto”, de Erich Maria Remarque. Naquelas páginas dobradas, com marcas de outras leituras, descobri Ludwig Bodmer, empregado de uma agência funerária durante o período de hiperinflação da República de Weimar, e o pequeno mundo dos seus colegas, das suas golpadas, dos seus vizinhos de bairro, dos seus amigos e dos seus amores. No final de trezentas páginas de peripécias, de tipos castiços, de historietas do quotidiano carregadas de humor e ternura, tinha compreendido. A questão passara de “como foi possível?” para “isto tinha fatalmente que acontecer”. Ao longo do livro sente-se algo de latente, permeando o dia-a-dia daquela boa gente, algo que se vai adensando como uma névoa de início de noite, como um espectro que absorve a energia de que necessita das dificuldades, das pequenas frustrações, das incompreensões, das invejas, até das alegrias, das personagens, sugando-lhes a vida aos poucos, ganhando volume, aparecendo a espaços, preparando-se para se materializar na sua forma acabada: o nazismo. Este não surgiu pois do nada, misteriosamente. Cresceu no meio de todos sem se fazer notar e alimentou-se do pior que cada um tinha para lhe oferecer: o ressentimento, a cupidez, a brutalidade, a ignorância, a cobardia ou, meramente, a indiferença. Tudo características daninhas que continuam vivas e aos pulos no seio da humanidade, nos bairros como nas chancelarias. Por isso seria tonto cometer a imprudência de afirmar que o nazismo foi coisa de malucos dos anos trinta, que foi um acidente, que não volta a acontecer. Nada disso, como aliás a recente guerra da Jugoslávia o demonstrou. O nevoeiro continua por aí, convém estar atento.

A leitura certa pode funcionar como um muito poderoso indutor do conhecimento, que valha por longas horas de reflexão honesta ou de argumentação empenhada. Escrevi recentemente um “post” sobre a presunção de inocência. Melhor teria feito em recomendar a leitura de “Uma confidência de Maigret”, no qual o meu detective favorito relembra com amargura um caso que terminou na execução de um condenado de cuja culpa Maigret nunca esteve convencido. Para que se entenda a iniquidade da pena de morte, leia-se “O último dia de um condenado”, de Vítor Hugo. O melhor que há nas pessoas, podemos aprendê-lo na cena da noite na Ilha do Pico, após a caça ao cachalote, que Vitorino Nemésio nos deixou no “Mau tempo no canal”. O porquê de valer a pena, em “A Peste” de Camus. O ser português, em “A ilustre casa de Ramires”, do Eça. And so on…

Para terminar, como novo exemplo, transcrevo a seguinte passagem de “O hóspede de Job”, do José Cardoso Pires. Passa-se durante o Estado Novo, no Alentejo, e narra o momento em que uma velhota analfabeta, a Casimira Sota, desce da sua aldeia de Cimadas à vila para tentar ver a neta Floripes (a quem ela chama Nina), que a polícia levara presa por não querer delatar uns vizinhos:

“Misérias”, resumia a Casimira Sota, e perguntava lá no íntimo o que faria a sua neta entre tanto desgraçado.
Corria na vila que em breve a haviam de mudar para Lisboa, como aconteceu a Aleixo Serrador e outros, depois do levantamento de Ferreira.
“A Casimira das Cimadas bem pode dizer adeus à neta”, sentenciavam alguns.
“Ela que crie as mais novas, que aquela já não a vê criada”, entendiam outros.
A vila discutia e pasmava. “Jesus, Jesus”, murmurava a velha de Cimadas.
Agarrada à cesta da roupa e à bolsa das maçãs, ela vai agora pelo meio da praça, direita à cadeia. Vem gente às portas do comércio, os miúdos ficam quedos, muito atentos. Cala-se tudo a vê-la avançar. E ela, como se estivesse sozinha em plena praça, pousa a cesta no chão e segreda forte:
“Nina. Ó Nina.”
Ninguém. Insiste:
“Nina.”
Então faz-se o sol de repente. Floripes aparece às grades e, com ela, outros dois presos.
“Nina!”, grita a velha num salto de alegria.
Floripes sorri-lhe. E toda a praça, em silêncio, assiste à velha, cá em baixo, revolvida pelo choro, a sorrir e a acenar com a saquinha das maçãs.
“Ó Nina. Ó Nina. Ó Nina.”

Esta figura de velhinha que chora no meio da praça de simples amor pela sua neta, com a sacola das maçãs, sem entender bem o que se passa, sem se pronunciar sequer sobre a injustiça, indiferente aos olhares dos outros, diz mais sobre a miséria moral e o obscurantismo do salazarismo do que qualquer ensaio ou tese. Destrói mais a pequenez do cabrãozão do Salazar (com perdão da má palavra, mas há que usar de rigor) do que os mais inflamados panfletos escritos pelos mais encarniçados dos seus opositores. Portanto, uma excelente leitura para o nosso actual primeiro, que anda distraído, a ver se enxota a moscaria que lhe vareja à volta.