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sábado, setembro 01, 2012

O estranho caso do homem que não sorria


Agosto é mês de notícias bárbaras, repescadas por estagiários de jornalismo nos cafundós das agências noticiosas e da “internet” para preencher páginas de jornal quando a política e a economia de férias interrompem o fluxo certinho de intrigas e calamidades. Ontem, para fechar o mês, o Público ostentava em última página, no lugar da habitual crónica do Vasco Pulido Valente, a descoberta no Camboja de um espécie de peixes que têm o pénis na cabeça.  Eu por acaso conheço algumas pessoas, homens e mulheres, que têm o pénis na cabeça, só que metaforicamente falando, mas estava longe de imaginar que a selecção natural tinha mesmo pregado à natureza uma partida destas. Pergunto-me se a divulgação desta notícia irá aumentar as receitas turísticas do Camboja, com “charters” de reformadas nórdicas a banhos no delta do rio Mekong.

Mas a nova mais perturbante do mês veio logo no início, nos primeiros dias dos jogos olímpicos de Londres, quando a polícia britânica prendeu um homem que assistia à prova à beira da estrada, no meio da multidão, com base no mui suspeito indício de ele não estar a sorrir - o que a diligente autoridade considerou atitude estranha. Veio depois a verificar-se que o senhor tinha um ricto facial, causado por uma doença, que lhe impedia mover os músculos da cara, tendo sido libertado com um pedido de desculpas pela maçada.                 

Razão tem o jornal humorístico Inimigo Público quando adopta como mote “se não aconteceu, podia ter acontecido”. Por muito que os humoristas se esforcem para ampliar as fronteiras do “non-sense”, a pose bacoca de agentes políticos, autoridades e outra malta que se tem por séria consegue num golpe de asa fácil ir sempre mais além. Nos anos setenta, os Monty Python realizaram um excelente “sketch” intitulado “Um conto de fadas”, que se passava num reino chamado Vale Feliz onde se dançava e cantava o dia todo e onde quem se sentisse triste ou infeliz ou tivesse problemas de qualquer tipo podia ser perseguido por desrespeito à “Lei da Felicidade” que o rei Otto tinha promulgado. No início do “sketch” assiste-se a um julgamento de um homem apanhado a resmungar. O advogado de defesa ainda tenta justificar o comportamento do seu cliente com o facto de a mulher dele ter morrido nessa manhã, mas tal desculpa esfarrapada provoca uma gargalhada no tribunal e leva o juiz a condenar o acusado a ser “pendurado pelo pescoço até que fique bem disposto”. Ao fazer esta rábula, os Python teriam bem ciente que a patetice alegre tem uma pitada totalitária, mas provavelmente nem eles esperariam que, quarenta anos volvidos, a  polícia de Sua Majestade lhes fizesse concorrência, suspeitando de um homem que não sorria e levando-o para averiguações.

Que os jornais tenham visto como uma anedota de verão que um homem seja preso por não sorrir no meio do convescote geral, e não se alarmem diante da evidência de um sintoma grave de mal-estar de uma sociedade amedrontada, diz muito sobre a imprensa que temos, sobre a sociedade que vamos tendo e sobre como ambas se realimentam como cobras mordendo caudas. Mesmo na “silly season”, este evento sabe muito mais a “season” do que a “silly”, infelizmente.

Este episódio lembra-me outro contado por Ray Bradbury. Nos anos de chumbo do McCarthysmo, Bradbury e um amigo passeavam a pé à noite quando um carro da polícia parou ao pé deles e um dos guardas lhes perguntou o que estavam ali a fazer. Bradbury respondeu “a andar”. O polícia pareceu surpreendido com a resposta e retorquiu, meio-desconfiado:

 - Está bem, mas não o voltem a fazer.

Esta ocorrência inspirou a Bradbury o conto “The pedestrian”, sobre um futuro ditatorial em que era proibido andar a pé.

De facto, um mundo em que a polícia se sente à vontade para suspeitar seja de homens que passeiam, seja de homens que não sorriem, não pode senão levantar receios de uma deriva totalitária a quem tenha dois dedos de testa. E a mim não me serve a desculpa oficial dos responsáveis ingleses, de que a polícia agiu prudentemente tendo em conta a multidão reunida, o mediatismo do evento, o risco do terrorismo, etc. e tal. Repetindo uma tirada de Benjamin Franklin que já aqui citei no blogue, uma sociedade que põe a sua segurança acima da sua liberdade não merece nem uma coisa, nem outra.

sábado, abril 28, 2012

EUA (IV) – Um país com medo

Na ponta sul de Manhattan, ali onde os holandeses começaram a construir em 1625 a sua Nova Amesterdão, as ruas abaixo de Wall Street ainda têm aquela geometria anárquica das velhas cidades europeias. Wall Street, onde hoje se fazem fortunas em “high-frequency trading” ou se afundam países ao toque de um teclado, deve o seu nome a ficar junto a uma paliçada que o governador Peter Stuyvesant mandou construir com medo dos índios. E assim começou uma história de medos.

Deambulamos por essas quase-vielas de prédios cor de tijolo, com ares de Mar do Norte, numa manhã de segunda-feira, feriado nacional, dia do Presidente. A folga esvaziara as ruas e parecia distante a azáfama de metrópole que nunca pára nas avenidas mais a norte, como se tivéssemos viajado um oceano e não apenas uma dúzia de paragens de metropolitano. Acabamos na Praça Peter Minuit, onde vamos apanhar o “ferry” para Staten Island, um cacilheiro local que vai e vem àquele subúrbio e que passa mesmo em frente à Estátua da Liberdade e a Ellis Island. Por isso – e por ser a única coisa à borla em Nova Iorque – transporta sobretudo turistas como nós, que vão até ao outro lado e voltam no seguinte e admiram a estátua de caminho.


Na estação fluvial, apinhada por uma multidão multilingue que espera o abrir das cancelas, os medos continuam lá: um cartaz alerta para que estejamos vigilantes e denunciemos coisas suspeitas às autoridades. Ora eu suspeito que deve haver autoridades que não batem bem da bola mas abstenho-me de denunciar, preferindo embarcar sem escândalo juntamente com o resto da marabunta. No interior do barco, no acesso às balustradas, outro cartaz já não alerta, suplica! “Ajudem-nos a combater o terrorismo! Se virem alguma coisa, digam alguma coisa. Liguem para o número XPTO”.

Subo ao “deck” e apoio-me na guarda para tirar umas fotografias do lado de Brooklyn. Sopra um vento grisante que me enregela os dedos. As gaivotas fazem razias, gritando. Para minha surpresa somos escoltados por um barco da guarda costeira, um “zodiac” com ar galáctico onde à proa um tipo coberto de um revestimento à prova de bala, com ar de Darth Vader, está em posição numa metralhadora fixa. Passo para a amurada do outro lado e lá está outro igualzinho, em apetrecho de combate. Seguem-nos lentamente, num passo soturno. Os passageiros apontam e comentam, momentaneamente distraídos da beleza do rio Hudson. Chegado o “ferry” à outra margem, voltam para trás e desaparecem. Ainda cheguei a pensar que seria um procedimento normal em qualquer travessia deste barco, mas no regresso já não vêm. Fico sem saber se acompanham pontualmente, de forma aleatória, ou se alguém viu alguma coisa e telefonou para o número XPTO da linha anti-terroristas maus.


Estes e muitos outros episódios e detalhes durante esta semana na América revelam uma sociedade amedrontada, obcecada pela pancada que levou a onze de Setembro, suspiciosa de um inimigo sem rosto e que se reconforta inabilmente com esta deriva autoritária que alimenta uma indústria de milhões. Um exemplo extremado disto mesmo ocorre nos aeroportos, na apresentação dos passaportes, em que os estrangeiros são tratados como gado perigoso, “scanados” e catalogados  por paquidermes alimentados a “big macs” que fazem perguntas supostamente esclarecedoras como “quando é que vai embora”. Isto debaixo de cartazes de boas-vindas. De cada vez que estou a passar a fronteira num país de terceiro mundo, com os formulários, as filas e os carimbos inúteis, faço por imaginar que poderia estar a entrar nos Estados Unidos e acalmo-me.

Sei pouco de matérias de segurança, mas sempre tive a impressão que este aparato securitário só impressiona quem vem por bem e não impede quem vem por mal. E pergunto-me muitas vezes se o objectivo principal não será exactamente o primeiro: intimidar o cidadão comum, instilar o medo, para mais facilmente exercer o poder. Gostaria que não, que tudo isto não passasse de estupidez pura, como a daquele folheto verde que se tem que preencher à entrada dos Estados Unidos que pergunta se cometemos crimes condenáveis pelo tribunal de Nuremberga. Tantas vezes me apeteceu responder:

- Claro! Fui eu! Para cem anos de idade estou bem conservado, não estou?

Mas nunca tive coragem para o fazer e ser recambiado no avião seguinte.

sábado, abril 03, 2010

A cena peluda

As mulheres têm mais capacidade de fazer corar os homens do que o contrário.

Verdade. Dei-me pela primeira vez conta dessa realidade no início da minha carreira, quando fiz parte de uma equipa que realizou uma coisa chamada “caracterização dinâmica da barragem do Alto Lindoso”. Basicamente consistia em passar o dia num buraco no paredão da barragem, na altura em construção, em frente a uns computadores que hoje nos fariam rir, daqueles com letras verdes em ecrãs pretos, a ver como é que aquilo abanava.

À hora de almoço, descíamos por uma estrada sinuosa, evitando “in extremis” camiões gigantes e bois barrosões razoavelmente grandes até um restaurante frequentado exclusivamente por homens da obra. Ficava numa casa de quinta antiga, com uma sala grande atravancada pelo amesamento e um fogão a lenha em ferro preto que ainda funcionava. As proprietárias, duas irmãs velhinhas, daquelas minhotas trigueiras com uma pele lisa que a idade sulca mas não enruga, circulavam entre mesas distribuindo rojões, dobradas, feijoadas e outras levezas da culinária nortenha. À época, as preocupações com o agá-dê-éle ainda não constavam.

Um dos dias, durante o almoço, tocou um telefone de parede daqueles de baquelite e sonora sineta. Atendeu uma das irmãs e foi falando, alto para vencer o murmúrio colectivo dos mastigantes. Percebia-se que falava com um filho que morava no Porto. Não sei o que este lhe disse, mas a dada passo a velhota interrompeu-o: “já não estou a gostar do c… da conversa!”. E vai daí desancou-o de alto a baixo, soltando mais palavrões em cinco minutos do que todos aqueles que se haviam proferido nessa manhã na obra, onde moinava cerca de um milhar de gajos.

Na sala, o ambiente era constrangido e o murmurar tinha-se silenciado. Só se ouvia a velha, de bata florida e lenço na cabeça, aos impropérios e bujardas. Recordo-me de na mesa à minha frente um operário de macacão de ganga, um homenzarrão ruivo e barbudo, com quase dois metros, baixar o olhar para o prato e corar, mas corar vermelhão.



Esta cena volta-me à memória por vezes em certos jantares em que entre o fim da sobremesa e o sorver do café, os homens olham embaraçados uns para os outros, sem saber o que dizer, no limite do coranço, quando elas se põe a debater assuntos que noutros tempos da fidalguia passariam por ser de alguma intimidade.

Nas ocasiões mais recentes, o tema que está a dar é a depilação. A conversa normalmente começa nas axilas e depois vai descendo. Exactamente até aí. E nesse preciso momento os rapazes ruborizam e um deles desafia os outros para uma cartada, para fugir ao embaraço.

Elas vão discutindo métodos e vantagens, extensões e penteados, cortes e metodologias. Comparam os custos e as dores e contrapõem face à excelência dos resultados. Pelo que não podemos deixar de ouvir, o que está a dar agora é a depilação a “laser”, pagando-se bem mas de resultado definitivo. Tal como com o cavalo de Átila, a relva não volta a crescer.

Quem estabeleceu as bases teóricas do “laser” foi nem mais nem menos do que Einstein, num artigo de 1917 intitulado “Sobre a teoria quântica da radiação”. Nunca pensou o guedelhudo e bigodudo génio que as suas ideias pudessem vir a servir tão acarecante propósito.

Embora eu ainda tenha trabalhado com “lasers” na universidade, certamente em aplicações menos nobres, tive alguma dificuldade em visualizar como se daria a utilização da amplificação de luz por emissão estimulada de radiação nestas recônditas circunstâncias da depilação íntima. Como funcionaria? Pus-me a imaginar laboratórios escuros, raios verdes e vermelhos atravessando tubos transparentes, cientistas de bata branca. De repente, atingiu-me uma epifania e no meu cérebro materializou-se a seguinte cena:


Na sala de depilação a “laser”, entra a figura negra e capeada de Lord Darth Vader:

- I can feel a hairy disturbance in the Force. You have failed to depilate effectively. I will not tolerate this again.

A depilante, pendurada no ar pela força mental do Jedi e um pouco nervosa:

- É a porcaria daquela cera, Lord Vader, não …
- Wax is the depilator of the weak. I will proceed immediately to a more definitive termination!
- Sim, Lord Vader, mas com jeitinho…
- I will use the power of the Force to make you assume the depilating position!

A depilante, nua da cintura para baixo, é rodopiada no ar no centro da sala até atingir a configuração propícia. Lord Vader aproxima-se:

- Using the power of the Force to control two legs and a torso is more tiresome than strangling an incompetent Death Star lieutenant. You will have to pay well
- Hi,hi! Já paguei o sinal ao robô que está à entrada do consultório, Lord Vader!
- Gooood!

Nesse momento houve-se um “uoooooon” característico e o Jedi negro desembainha o seu sabre de luz, que pulsa, avermelhado, no centro da sala. Aproxima-se e inicia a operação…

Mais tarde, Lord Vader ajoelha-se diante do Imperador Galáctico, Palpatine:

- Reporting as requested, My Lord.
- Have you performed today the depilating task as planned, Lord Vader?
- Yes, My Lord. All her hair is now gone. I accidentally cut off one leg and both buttocks in the process.
- That is a minor side-effect in the pursuit of baldness. I’m overall satisfied, Lord Vader.
- Thank you, My Lord.
- What about the rebels? Are they epilated?
- Han Solo is currently stuck in a carbonite slab and impossible to reach. Luke Skywalker is as baby faced down there as below his nose, so no work to do. According to intelligence, Princess Leia, as most female earthlings, has already epilated herself down to the core. I am now focusing on Chewbacca, My Lord.
- And when do you foresee that this task will be terminated?
- Chewbacca is quite hairy, My Lord! Looks like an Austrian earthling female. But I expect to be able to finish him in episode VIII of the saga.
- Do better, Lord Vader. Episode VI is the limit. No pubic hair must survive after then anywhere in the Galaxy!
- (Glup) I will do as you wish, My Lord.



Pois. Deve ser mais ou menos assim que a coisa se passa.

Regressei à Terra, onde elas continuavam a debater o problema do pelo persistente. Deu-me para fazer a pergunta incorrecta:

- Se essa cena é definitiva, como é que vocês fazem quando a moda mudar?

Olharam para mim com ar transviado. Insisti:

- Sim. Isso deve ser como as gravatas e as abas do casaco, que alargam e estreitam com um intervalo de dez anos. Se calhar, daqui a uns tempos volta a moda “afro”. E nessa altura? Se isso do “laser” é definitivo?

Pintou um clima silencioso. As bocas delas entreabriam-se procurando facilitar a resposta que não surgia.

De repente, uma dos homens quebrou o gelo para dar a opinião que se impunha:

- Nessa altura, vão ao mesmo sítio onde lhes passaram o “laser” e pagam uma fortuna igual para fazer um implante.

sábado, março 27, 2010

O “homo republicanus parvensis”

A cegarrega que os republicanos norte-americanos andam a fazer à volta da reforma do sistema de saúde prometida e cumprida por Barack Obama traz à colação uma das mais fascinantes questões da antropologia actual: será que sobrevivem ainda hoje à face do planeta, hominídeos aparentados com o “homo sapiens” – mas não iguais? É que não consigo arranjar outra explicação para o comportamento dos “Tea partys”, das turbas que ameaçam os congressistas, das Saras Palhinhas e dos senadores do partido do elefante, que não a daquela malta sofrer de um cérebro morfologicamente (e funcionalmente) diferente do resto da humanidade.

Reparem na ironia: andam doutorados em arqueologia no deserto do Gobi e nos recônditos da Sibéria à procura de vestígios de hominídeos diferentes, empoeirados, torrando à soleira ou tiritando de briasco, espanejando pedrinhas enfiados em buracos, dormindo desconfortavelmente em tendas de campanha, a comer rações de combate; ficam todos contentes quando descobrem uma lasca de maxilar; e afinal, calhando, podiam encontrar espécimes inteiros e tribos completas, vivos ainda por cima, nas ruas de Houston ou de Atlanta.


Comecemos por perceber do que é que estamos a falar.

Hoje em dia, cerca de 15% da população americana não tem acesso a sistemas de saúde. Este “não ter acesso” não é bem o mesmo que não ter acesso a uma festa na Quinta da Matinha. Em certas circunstâncias significa morrer por falta de tratamento adequado. Vendo isto com os olhos que temos do lado de cá do Atlântico (e da civilização), constataríamos que 45 milhões de seres humanos, de qualquer idade, podem muito bem bater a bota que nem uns cães sem que isso lá tire o sono a muita gente.

Adicionalmente, se repararmos na distribuição étnica destes desprotegidos, verificamos percentualmente que existem três vezes mais hispânicos, duas vezes mais negros e uma vez e meia mais asiáticos que brancos. Ou seja, “se hablares así” nas ruas de Miami, não tens interesse em ficar muito doente. Há também aqui uma certa questão de equidade.

Ora o que propôs Obama, que tanto escandalizou a América campónia? Quadruplicar os impostos? Obrigar médicos a trabalhar à borla com uma pistola apontada? Criar um serviço nacional de saúde? Não. Baseando-se no actual quadro de seguros, propõe-se aumentar cerca de 10% o orçamento federal da saúde para abranger todos os que dele não fazem parte. Comparado com os mega-sistemas sociais norueguês ou suíço, uma verdadeira mariquice. E, no entanto, milhões e milhões de americanos reagiram como se sabe, criando uma das maiores barreiras de propaganda e agitação política que o Partido Republicano erigiu desde o magno caso da estagiária, do charuto e da mancha no vestido. Como explicar isto?

Por um lado, tenho a impressão que há um certo desconforto em que um preto tenha sucesso numa tarefa complicada onde Truman, Nixon e Clinton, antes dele, falharam.

Mas atentando num dos cartazes que contestatários agitavam frente ao Capitólio, percebe-se a razão talvez mais profunda. Rezava assim: “Americans don’t redistribute wealth. They earn it”.

Não coloquei na frase anterior o verbo “rezar” de forma inocente. A quase totalidade destes contestatários acham-se muito cristãos, não faltam à missa ao domingo e consideram o ateísmo algo de gravíssimo. Mas quando toca a caridade, tá quieto! Não me parece por isso que tenham folheado extensivamente o Novo Testamento. E pergunto-me se, nas suas congregações dominicais, também fazem manifestações destas em redor da caixa das esmolas, abominando e pontapeando tão demoníaco objecto.

Voltando aos tais 45 milhões e resumindo, para o grosso do Partido Republicano, que representa uma quase metade da América, os gajos que se lixem e qualquer tentativa de solidariedade social na sua direcção vem da costela esquerdista e totalitária do actual presidente. Mais: a ideia é mesmo deixá-los de fora.


Isto a nós cá na Europa pode causar uma certa estranheza, porque já ultrapassámos esta fase mental há século e meio. Com o arranque da revolução industrial em Inglaterra, a questão da pobreza tornou-se um problema relevante, prático para os políticos e teórico para os filósofos. A visão mercantilista considerava importante que os pobres se mantivessem pobres, porque só assim poderiam realizar um trabalho honesto sem pedir demais. Um dos mais influentes pensadores britânicos no final do século XVIII, Bernard Mandeville, comentava que “para fazer uma Sociedade Feliz, é requisito que grandes números sejam Ignorantes e também Pobres”. Valha-lhe a franqueza.

No entanto, as hordas de indigentes que vagueavam pelo reino e também o exemplo na altura recente da Revolução Francesa levaram as elites a inquietar-se sobre a questão dos “unprofitable poor”. Algumas das respostas a esta inquietação deixam-nos hoje um sorriso amarelo: quando Richard Arkwright, industrial de fiação, começou a usar crianças na sua fábrica, “por terem dedinhos mais activos e se adaptarem melhor à disciplina da vida fabril”, tal medida foi aplaudida como filantrópica, porque permitiria aliviar a condição dos pais, os tais “pobres não-lucrativos”. E verdade se diga que, ao longo do século XIX, quando o Reino Unido foi passando sucessivas leis regulando ou eliminando o trabalho infantil, estas tiveram a oposição não só de membros da Câmara dos Lordes imbuídos de um liberalismo que ainda anda por aí, que achavam que tais medidas feriam os direitos das crianças porque estas podiam querer mesmo trabalhar, mas também de muitos pais a quem a maçaroca dava jeito.

O problema da pobreza mereceu as atenções de todos os primeiros grandes pensadores económicos, de Adam Smith a David Ricardo, de Parson Malthus a Karl Marx e a John Stuart Mill. E no final, fosse por razões tácticas das classes dominantes (o mesmo Mandeville reconheceu que seria “prudente aliviar, embora uma loucura curar” as necessidades dos pobres), fosse pela acção e exemplo de utópicos como Robert Owen ou de activistas como Richard Oastler ou Lord Shaftesbury, fosse pela dinâmica dos movimentos de trabalhadores e a sua absorção pelo tecido social, fosse simplesmente porque as sociedades ganharam vergonha das condições horrorosas de trabalho e de vida das massas pobres, fosse provavelmente por tudo ao mesmo tempo, a verdade é que a condição das camadas mais desmunidas foi progressivamente melhorando e dignificando-se em toda a Europa industrializada. Simultaneamente, tornou-se um dado adquirido e um valor comummente aceite que as sociedades devem redistribuir razoavelmente a riqueza gerada e ser solidárias com os mais necessitados. Tais noções encontram-se aliás na génese da União Europeia.

Não quero com isto dizer que por cá tenhamos resolvido a questão da pobreza. Longe disso, ainda há muito – tanto – pela frente. Só que não achamos natural nem porreiraço que exista, como muitas dezenas de milhões de norte-americanos fazem, e não ameaçamos de morte os deputados que aprovam leis para acabar com ela.

Na América, metade da população ainda não percebeu estas noções básicas. E não se trata apenas de um problema de massas ignorantes. Trata-se sobretudo de cúpulas ignorantes ou cínicas ou ambas, que apelam ao mais básico e reles que há nas pessoas e que perdida a razão da razão recorrem às razões do medo. Sobre isto, sugiro-lhes que leiam o texto seguinte de Paul Krugman no Herald Tribune da última terça. Uma leitura simpática, já que Krugman é um economista que possui duas coisas que nem todos os economistas têm: um prémio Nobel e sentido de humor. Particularmente notável quando cita as acusações dos Republicanos aos Democratas de tácticas totalitárias e diz que acha que eles se estão a referir a um processo conhecido como “votação”.

Voltando ao ponto de partida, continuo perplexo com o que vai na cabeça dessa gente. Será que têm a mesma mioleira que nós? Ou serão mesmo uma variante misteriosamente sobreviva do “homo sapiens sapiens”, com um sistema límbico mais atrofiado, menos sinapses entre aqueles neurónios ou outro encalhanço qualquer? Eu sei lá! Só sei que ter esse pessoal todo a votar num país que é a maior potência mundial não é muito tranquilizador para o resto da humanidade, como se viu pelo mandato glorioso do rapaz George W.

sábado, abril 18, 2009

They ID

Acabei agora de voltar de Washington. À saída, uma hora e tal de auto-estrada até ao aeroporto de Dulles ilustrou-me o bom que vai ser ir apanhar o avião a Alcochete, esperemos que daqui a uns bons e muito largos anos. Lá chegado, com uma fome esganada e três horas de espera pela frente até abrir o balcão do meu voo, sentei-me no único restaurante existente antes da “security”, um daqueles tromba-rijas americanos orientados para o obeso médio, de nome Harry’s ou Tommy’s ou coisa que o valha.

Pendurado na parede por trás do balcão havia um cartaz informando a clientela que “we ID all customers”. Na minha ingenuidade, pensei ser decorativo, como aqueloutros dos anos cinquenta, de anúncios à Coca-cola ou às torradeiras da General Electric, que atapetavam as paredes. Por isso fiquei de cara à banda quando a empregada, estendendo o menu, me pediu a identificação. Também ela tinha, pendurado na lapela, um crachá que afirmava “We ID”.

Vi-me num dilema. Claro que é vergonhoso aceitar sem soltar um basqueiro enorme que um restaurante tenha sequer a lata de me pedir os documentos. Mas, por outro lado, se não mostrasse a papelística, não comia. O meu cérebro acabou pois por se sujeitar à hierarquia de Maslow e pôs a satisfação das necessidades básicas à frente das considerações intelectuais: passei-lhe caninamente o passaporte e mandei vir uma sandes cubana e uma cerveja. Consolei-me com a desculpa de, em países exóticos e terceiro-mundistas, um tipo normalmente fazer umas habilidades que em casa nunca lhe passariam pela tola.

Mas agora, e sem querer ofender ninguém: há coisas em que estes americanos são mesmo atrasados mentais! Anseiam por um mundo tão regrado, tão procedimentado, tão chato que perdem a noção do ridículo.

Como aquelas questões a que há que responder com cruzinhas, nos formulários verdes que distribuem nos aviões, para apresentar à entrada do país: “Pretende vir traficar substâncias ilícitas?” ou “Esteve envolvido em crimes de guerra pelo regime nazi ou seus aliados?”. Eu, para ter sido membro das SS, teria que ter próximo de noventa anos. Só me surpreende não perguntarem também se estive na batalha de Pittsburgh, e se pelos confederados.

Será que as autoridades fronteiriças americanas esperam, genuinamente, que alguém diga que sim a uma interrogação deste calibre: “Vem com intenções de praticar actividades criminosas ou imorais?” Não, não venho torturar presos em Guantanamo, nem ganhar eleições à socapa, podem ficar descansados. E se forem actividades imorais, mas não criminosas, também não se pode? Quem define? De facto, os requisitos daquele formulário emparelham bem, na lista de perguntas que qualquer pessoa com dois dedos de testa não faz, com as clássicas “O peixe é fresco?” e “Foi bom?”.

Passemos sobre o detalhe deste género de números ser mais próprio de regimes fascistas do que de faróis da humanidade. A obsessão com a identificação é um expediente clássico dos governos totalitários para se perpetuar: transmitindo a impressão que se procura um inimigo incerto, legitima-se a própria repressão. Os Estados Unidos não são um regime opressivo, mas foge-lhes muito o pé para a chinela.

O que acho mais relevante é assinalar o que isto significa: medo. Sinto na sociedade norte-americana um cerco, mormente por si própria. Com medo dos estrangeiros, dos gangues dos maus bairros, dos emigrantes de hábitos estranhos. Com medo de um mal estrutural, perverso e gratuito, que abunda nas séries policiais de “prime time”, onde a eficácia dos heróis resolve os problemas, seja por que via for. Um medo, ao qual se responde com armas, que geram tentações e respostas e ainda mais medo. Um medo, sobretudo, inútil: não é a cambiar passaportes por hambúrgueres nos restaurantes nem a fazer perguntas tolas aos turistas que se livram de um novo 11 de Setembro. Para mais segurança, talvez conviesse não armar as Al-Qaedas deste mundo sem pensar nas consequências, como fizeram no Afeganistão dos anos oitenta ou então estabelecer pontes, sacrificando os interesses imediatos em troca de estabilidade futura. E deixarem-se de parvoíces.

domingo, julho 20, 2008

Cenas ridículas (IV): a unhaca vermelha

Lisboa em Julho: apertou o calor e os suaves pezinhos do mulherio passaram a calcorrear a calçada calçados de sandálias e havaianas, expondo “urbi et orbi” o último grito do requinte feminino: a unha do pé envernizada a vermelho.

A gama de encarnados vai do rosa “shocking” ao acastanhado “sangue coagulado na calçada” passando pelo encarnado “camisola do Benfica” e pelo grená “tintol do Cartaxo”, tudo cores que ferem a vista e poluem a paisagem. Dizem-me que deveria achar “sexy”. Ora eu não sou como o gajo que entrevistaram na Ribeira do Porto: a mim, o bermelho não me dá reaçom.
 

Recordo-me, em criança, de uma fase em que as mulheres pintavam a cascaria nestas cores proletárias. Mas tal pancada deve ter acabado a meio dos anos setenta, porque daí até cá, só pintavam a unha de vermelho as velhas que geriam o “métier” e as novas que o praticavam, bamboleando avenida acima e avenida abaixo. Agora, numa estatística rápida mas confiável, são para aí quatro em cada cinco, numa praga que atingiu púberes e caducas, tias e mitras, desconhecidas e até amigas minhas que eu pensava estarem ao abrigo das modas mais tolas. Não deixo de me rir para dentro ao imaginá-las corcovadas na cama, pincelando em esforço as unhas longínquas, de papelotes nos espaços interdigitais, os dedos da pantufa abertos em leque como se estivessem a atingir o sétimo céu.

Reconheço, por outro lado, o génio do pessoal do “marketing” das L’Oréal e das Shiseido deste mundo, para meter a malta a comprar o que lhes dá jeito. De facto, só putas não davam para alimentar grandes vendas. Com a criação desta mania, as companhias de cosmética empocham uma massa valente. Se não, calculemos.

Em Portugal há dez milhões de habitantes. Metade será do sexo feminino. Noventa e cinco por cento têm mais de dez anos. Quatro em cinco pintam a unhaca de encarnado. Dá 3,8 milhões de clientes. Se ninguém se tiver aleijado, cada uma ostenta dois pés, cada qual com cinco dedos, cada qual com uma unha. Se entre dedo grande e mindinho, passando pelos três do meio, a área média de cada unha for de 0,5 centímetros quadrados, se a espessura do filme de verniz andar nos 0,2 mm e se cada dama aplicar uma nova demão duas vezes por semana, cada uma vai gastar anualmente cerca de dez centímetros cúbicos, o volume de um frasco de verniz. Entre baratos de supermercado e exorbitantes de perfumaria, o preço médio ronda os dez euros.

Multiplicando tudo: quarenta milhões de euros por ano, provavelmente mais, só em Portugal. Muito cacau, para acabar limpo com diluente!


Justificou-me uma amiga, em tom de desculpa, quando a descobri de unha rubi nos pés achinelados: “olha, decidi dar largas à minha feminilidade”. Porreiro. Também quero. Rapazes! Vamos dar largas à nossa masculinidade, mas versão anos setenta. Todos a deixar crescer a patilha à Ramalho, o bigode à turco, a unha do mindinho a tornear o canal auditivo em voltinha higiénica, com os colarinhos da camisa que nem as asas de um Airbus e a parte de baixo das calças de ganga como os carrilhões do convento de Mafra.

sábado, julho 12, 2008

Cenas ridículas (III): Os modelos

Gostos não se discutem, por isso não se ofenderão que eu considere algumas actividades humanas patéticas ou inúteis ou ambas. Coisas como o veraneio ziguezagueante nos corredores do Colombo, o solitário estudo académico da sexualidade do caracol ou o manso exercício de um lugar de deputado no parlamento madeirense. Maior bocejo, a mim, só o mundo da moda.

Não concebo, nem o prestígio social de “costureiros” e “modelos”, nem a admiração pelas capacidades de desfile das pequenas, nem qualquer interesse, por pequerruchinho que seja, no espectáculo de roupagens gongóricas a circular por cima de um estrado. Tal e qual como na britagem de pedra a martelo pneumático, não vejo naquilo arte ou entretenimento, mesmo que remotamente.

Não quero cair aqui no lugar-comum de afirmar que os modelos são todos palminhos de cara com meia-dúzia de gramas de massa encefálica. Talvez não exactamente todos. Admito que haja uma ou outra doutorada em física atómica ou filologia românica, como aquelas Miss Mundo colombianas que a voz “off” do locutor garante andarem a estudar gestão na pontifícia universidade de Medellin e que, quando forem grandes, querem trabalhar a ajudar crianças.

Só que para o que elas e eles fazem, se tiverem quatro neurónios, um já se pode candidatar ao subsídio de desemprego. Desfilar não tem segredos: basta enfiar uma vara de metro pela garganta abaixo para dar um andar marcial, marchar dez passos com ar de andróide, meneando a anca, estufar o peito no fim da passadeira, de mãozinhas à varina e cara de não-me-toques, voltar pelo mesmo caminho e correr aos bastidores trocar de roupa e snifar uma eventual linha. Até eu fazia aquilo, não fora o meu pouco jeito enquanto engolidor de sabres.

Por outro lado, qualquer broto descido da Rocinha ou da Tijuca para uma perninha de Carnaval no sambódromo saracoteia melhor que a mais bem remunerada das “top-models”. Mas de dez a zero! Por vezes fico aparvalhado ao ouvir referir o “talento natural” ou a “arte do desfilar” de fulana ou sicrana, como se estivéssemos a falar da Margot Fonteyn ou do Maradona. Sejamos sinceros: não existem bons modelos, o que existe são modelos boas, mesmo muito boas, e mais não se espera delas. O povo está-se nas tintas para a Gisela Bundchen: quer é sonhar com a Bundchen da Gisela!

Mas se tudo se resume às qualidades físicas das moças, porquê perder tempo e esbanjar recursos com passarelas e costureiros, modas Lisboa e criações Outono-Inverno, caprichos de vedetinha ou até com roupas? Compre-se daquelas revistas que os adolescentes tão a gosto empunham e arregale-se o olho, descomplexadamente e sem subterfúgios.

E as roupas, as “criações”? Voltemos a usar de sinceridade: quem seria capaz de vestir os barrocos e bacocos disparates saídos do lápis daquela malta? Aparte os extraterrestres que aparecem nos episódios do Star Trek e os cabeçudos do Carnaval de Torres Vedras, não vejo mais ninguém.


O mundo das “passerelles” faz-me a mesma espécie que fazem, nas suas diversas formas, a vacuidade e a vaidade. A palavra “vaidade” tem, aliás, a mesma raiz etimológica que “vão” e “vazio”. Veja-se o francês “vanité”. Transformar um vil defeito numa rentável indústria, já chateia um bocado. Querer-lhe dar ares de “glamour” e inteligência, para atrair tontinhas com pensamentos anorécticos para carreiras de desgaste rápido, chateia mais ainda. A pretensão de exclusividade, essa, soa ridícula. Moda, por definição, é o valor que aparece mais frequentemente num conjunto. Por isto, moda vende a Zara ou o C&A, e não a Fátima Lopes ou a Ana Salazar.

sábado, julho 14, 2007

Cenas ridículas (II): o canal noventa e tal

Imaginem que um realizador de cinema se propunha fazer um filme sobre um jogo de futebol. Que para actores seleccionava apenas russos de boa pinta e negros espadaúdos, algo diferentes dos futebolistas do nosso campeonato, estes mais do tipo morcão de Massarelos, de patilha graúda, ou favelado brasileiro, com fácies de assalto à mão armada. Que os perseguia pelo relvado com a câmara, dando-lhes instruções do tipo “chuta com força mas levanta bem a perna”, “finge que o derrubas”, “protesta com o árbitro e faz cara de gandulo”. Que, na proximidade da baliza, ordenava ao guarda-redes que se estirasse pelo chão mas de modo a não defender a bola, recomendando um esgar de frustração pelo tento sofrido. Que instruía os jogadores para se abraçarem a festejar o golo, repetindo três vezes a cena até o entusiasmo lhe parecer algo convincente.

Imaginem tal coisa e respondam: isto parecia-vos futebol? Não. Nada que tenha a ver com o Maradona, do baixo da sua barriguinha, a driblar seis talegas inglesas numa Aljubarrota de calções, para enfiar por uma nesga, em queda, o golo do século. Ou com a guarda angélica de um Maldini filho a segurar um zero-a-zero contra o escrete, em cinquenta cortes de carrinho sem uma única falta. Nada que se compare ao nervo miúdo de um “derby” em que o que se disputa é meramente o troféu do puro gozo da vitória sobre o adversário, inútil mas sublime. O futebol faz-se desta amálgama de arte e emoção. O tal filme meramente macaquearia algo na sua essência irreproduzível.

Vem isto a propósito da amável oferta promocional da TV Cabo, que com a nova “Power Box” me proporcionou o acesso nas noites de fim-de-semana a um canal noventa e tal que passa “hard porno”. Zapei e espreitei, me confesso, e o que vi está para “the real thing” como o filme que eu anedoticamente descrevi está para um Argentina-Holanda: não há comparação possível.


Nunca fui fã do género. Mesmo na puberdade, uma boa revista da especialidade talvez me induzisse mais sentimentos nobres que o visionamento duma película pornográfica. A única vez que paguei para ver na tela ocorreu durante uma visita de estudo “ad hoc” da secção masculina da minha aula do quarto ano do liceu, a qual decidiu por sua alta iniciativa completar o programa escolar de biologia, excessivamente enfocado na reprodução do pinheiro-bravo, com uma sessão contínua no cinema Olímpia, ali aos Restauradores.

Recordo que entrámos a meio do filme, assistimos ao “the end”, ao genérico de entrada e decidimos sair quando nos pareceu que já tínhamos visto aquela mesma parte, embora não tivéssemos a certeza. Durante todo o tempo, perto de nós, um velhote aparentemente fugido de um sarcófago varejava o ar com a bengala, incentivando com voz rouca e frases boçais os actores a aplicar-se com mais empenho sobre as actrizes, como se a cobóiada que fervia na tela lhe parecesse insuficiente. Saímos algo angustiados com o facto de a garantia de continuidade da espécie implicar aquelas habilidades um pouco circenses e algo patetas, nas quais não nos imaginávamos lá muito bem, mas ainda assim entusiasmados pelo facto de termos conseguido entrar numa sala de espectáculos para a qual tínhamos setenta por cento da idade necessária por lei.

Hoje, já tendo feito o meu número de pista para a continuidade da espécie, mais uns ensaios e ameaços, quando vejo o novo canal noventa e tal continuo a achar algo pateta, e explico porquê.

A) O enredo

O enredo base do filme “porno” compara em complexidade com o jogo do galo: senhora jeitosona, de saia curta e galochas de salto alto, troca olhar com cavalheiro musculado, funciona a química, chega ao pé, toca um solo de trompete remirando com olhar guloso e passam à continuidade da acção, normalmente em posição acrobática em cima de um balcão, de uma mesa de cozinha ou de outro lugar desconfortável que esteja à mão de semear.

Na maioria das vezes, por um azar dos Távoras, são surpreendidos em flagrante movimento harmónico simples por um amigo/amiga. Quando amigo, este, em vez de se retirar discretamente, junta-se à festa como quem quer a coisa, dando assim pleno cabimento à regra máxima do cinema pornográfico, que é a de que três é a conta que Deus fez. Quando amiga, esta finge que se vai embora escandalizada, mas não o suficientemente depressa para não ser convencida a ficar depois de reticências menores e duas ou três olhadelas furtivas para o equipamento do senhor.

Existem depois variantes, com marcianos, espiões, enfermeiras ou caixeiros-viajantes, mas basicamente não passa disto.

B) Os diálogos

Os diálogos lembram o monólogo do burro ibérico com fome, só que a duas vozes:

Ela: - Hin!
Ele: - Hon!
Ela: - Hiin!
Ele: - Hoon!
Ela: - Hiiin!
Ele: - Hooon!

E assim sucessivamente, em ritmo progressivamente acelerado. Até a cena inicial do “2001-odisseia no espaço” tem conversa de maior conteúdo.

C) Os actores

Pelo arzinho dos actores, os “castings” devem ser subcontratados à Carris, que angaria os artistas entre os passageiros da carreira nocturna 40 (Picheleira – Cais do Sodré). Em geral, o critério de selecção será a metragem, neles, e a volumetria, nelas. De molde a realçar os seus dotes de representação, passam todos com a “Epilady” dos pés até ao pescoço. Usam por norma pseudónimos inacreditáveis como “Ted Missile” ou “Mae Boobs”.

D) Os truques de realização

Todo o género tem os seus “clichés” e o porno não foge à regra. Um deles tenta atalhar uma dificuldade técnica básica: como filmar a ejaculação, cereja em cima do bolo de todo o processo? Porque neste caso, a cereja acontece dentro do bolo… Uma possibilidade passaria por usar uma fibra óptica, tipo canal Discovery, que descesse aos abismos para registar “in loco” tão espástico momento. Talvez fosse um pouco incómodo para os artistas.

Os realizadores resolveram o problema de outra maneira. Quando aquilo está quase-quase-quase, o mancebo retira-se de súbito e entra em modo manual, espalhando “urbi et orbi” a boa semente, muitas vezes também na fronha da parceira. Voltando à comparação com o futebol, seria como se, no culminar de uma grande jogada, com a baliza à mercê para o golo que vai fazer explodir cinquenta mil adrenalinas no estádio, o avançado estacasse de repente e se pusesse a dar toquezinhos sem deixar cair a bola no chão. Anti-clímax total…

Outro “cliché” curioso ocorreu após o advento da SIDA. Os grandes planos às partes móveis dos artistas passaram a mostrar à evidência o uso do profilático, não fosse haver algum azar mau grado a sólida formação moral dos actores. Esse preservativo desaparece normalmente antes da cena final, deixando o espectador na dúvida se houve um erro de montagem ou se se consumiu com a fricção (durante a montagem, diria eu).

E) Os realizadores

Se ouvirem uma entrevista a um realizador destas películas, irão constatar que ele acha que produz sétima arte, discursando sobre o “Branca de Neve e os sete matulões” como se de o “Couraçado Potemkine” se tratasse. Mas tal é a natureza humana. A Margarida Rebelo Pinto também pensa que os seus livros são parecidos com os do Tolstoi, só porque ambos são de papel com letras impressas e uma capa à volta.


Em suma, para quem se lembrar da física de liceu tem no “porno” uma aplicação típica do princípio de Heisenberg: a observação do fenómeno altera o próprio fenómeno. Tenta-se filmar sexo e a imagem que a câmara capta já não tem nada a ver com sexo, mas mais com uns pantomineiros aos pinotes.

Heisenberg pensava que o seu princípio só se aplicava a objectos muitíssimo pequenos, mas pelos vistos também funciona com outros razoavelmente grandes.

quinta-feira, maio 31, 2007

Cenas ridículas (I): Os óculos escuros

Lembro-me de ter passado o tempo, no pára-arranca de um IC qualquer, numa curiosa estatística. Contando os carros que deslizavam nervosos em sentido contrário para o ponto das nove, fui verificando quantos condutores de óculos fumados: sim, não, sim, sim, não, sim, sim, dez, dezasseis, trinta! Trinta e tal em quarenta de óculos escuros numa manhã chuvosa de Novembro.

Jovens comerciais de cabelo espetado em gel, esquálidas doutoras da contabilidade em apetrechos matinais, tias engelhadas no BMW do tio, tudo arvorava o olhar moscardo, mirando pela lente escura a queda do amarelo, com o nervo do carneiro que se atrasa no caminho para o matadouro.

O que levará tão grande percentagem de lisboetas a querer ver por lentes negras um dia já cinzento? Hipersensibilidade fotónica ocular? Mania que ficam com ar matador? Admiração exacerbada pelas personagens do Matrix? Sinal de reconhecimento e identificação entre burguesia suburbana? Não sei. Sei que tal fenómeno não pode ser inocente num país em que se marra com os cornos ao volante por dá cá aquela palha.

Se estabelecermos a correlação estatística entre o uso das cangalhas pretas e os acidentes viários, veremos que a coisa joga. Possível cenário: o pessoal entra para o Corsa dezasseis válvulas, mete os pintosos óculos escuros, tudo se apaga, e aí vai ele num Ferrari 599 a curvar a parabólica de Monza a duzentos e setenta quilómetros por hora. Curva apertada à direita, batendo “in extremis” um Porsche de uma escuderia alemã, chicana, duas ultrapassagens, uma quase saída de estrada evitada no limite, com muita perícia, até embater no que julga ser o “aileron” traseiro de um concorrente atrasado mas que afinal é a caixa aberta de uma “pick-up” de uma empresa de construção civil, que ia levar umas sacas de cimento ali para uma obra no Murtal.

Enquanto os bombeiros o desencarceram, há-de tactear o banco do morto à procura dos óculos, único elo economicamente acessível a esse mundo de “glamour” automóvel, que lhe saltaram da penca com o embate e que convém não perder, a pensar já na próxima corrida.

Se não fossem as lunetas de sol, talvez a gente visse mais a estrada e menos a pista.

Recordando que Pedro o Grande iniciou a modernização da Rússia mandando os boiardos cortar as barbas e Kemal Ataturk trouxe a Turquia para a Europa obrigando os funcionários públicos a usar chapéu em vez de fez, também a nossa Prevenção Rodoviária Portuguesa deveria começar o combate à sinistralidade automóvel com uma medida fortemente simbólica. Proibição de conduzir de óculos escuros, que é para ver se abrem os olhos! E já!

sábado, maio 19, 2007

Anúncio: Cenas ridículas

Mataspeak vai lançar uma série de pequenos “posts” em que procurará retratar o ridículo do quotidiano moderno. No cinquentenário de “O meu tio”, serão uma singela homenagem à câmara de Jacques Tati, sempre pronta a expor o ângulo traiçoeiro que revelava a idiocia das nossas pequenas vaidades.

Estejam atentos…