sábado, janeiro 06, 2018

Viagem ao fim do politicamente correcto



Vai em França uma certa escandaleira com a intenção manifestada pela prestigiada e muito sóbria editora Gallimard, aquela de boas obras e belíssimas capas, de reeditar as mil páginas de panfletos anti-semitas de Louis-Ferdinand Céline.

Como seria de esperar organizações judaicas indispuseram-se contra a publicação, assim como políticos e académicos, tanto à dextra como à canhota, reclamando a proibição desta reedição. Indo um pouco mais além, até o governo de Emmanuel Macron convocou o editor, tentando-o convencer a não publicar ou pelo menos a afogar o texto em notas enquadradoras redigidas por historiadores de confiança, em benefício das nossas mentes pequenas.

É sabido que Céline foi de facto um anti-semita militante, racista, beato no pior sentido da palavra, e também a seu modo um colaboracionista durante a Segunda Guerra Mundial, após a qual se teve que pôr a andar de França em grande velocidade para que nada de muito grave lhe acontecesse. Em 1950, à revelia, a França julgou os seus crimes e condenou-o a um ano de prisão (que considerou cumprido no exílio), a cinquenta mil francos de coima, ao confisco de metade dos bens e à indignidade nacional, assim, “tel quel”. No entanto, logo um ano depois, autorizou o seu regresso e Céline viria a morrer tranquilamente em casa em 1961.

Acontece por coincidência que foi durante Novembro e Dezembro passados que li “Viagem ao fim da noite”, a obra-mestra de Céline. Aqui confesso com alguma vergonha que esperei pelos cinquenta e quatro anos para ler este livro: está mal, foi tarde, deveria ter sido antes, talvez aos trinta.


“Viagem ao fim da noite” é um dos romances mais bem escritos que já li. Será também, provavelmente, o livro mais cru ou mais sincero – hesito no adjectivo – que já me passou pelos olhos. É um livro terrível, na leitura e depois dela. Lê-lo é como deslocarmo-nos em ruelas escuras numa noite do maior nevoeiro: um percurso lento, feito de arranques e paragens, de dúvidas no caminho, de esforço e cansaço, da convicção que não há regresso e de que há que chegar ao fim por muito que custe. Depois de lê-lo, dificilmente a nossa visão do mundo e sobretudo de quem o habita continua a mesma. É difícil não ficarmos a desprezar aqueles personagens (nos quais Céline se inclui, uma vez que se retratou no narrador, Ferdinand Bardamu) e aquela massa de gente mesquinha, egoísta, desprovida de valores, arrastando-se pela vida sem destino e sem dignidade, vítima das suas urgências e medos, disposta ao mal desde que sem consequências, petulante e patética na sua necessidade de parecer séria e digna, mitigando a sua desgraça de forma quase animalesca na gula e na luxúria. E o pior, e nisto reside também o talento de Céline, é que nos dias seguintes esta humanidade decadente não deixa de ser muito parecida com a que vemos das nossas janelas. Demora um pouco a limpar a vista ou a retapá-la, sei lá.

Nas entrelinhas de “Viagem ao fim da noite”, revela-se sem grandes pudores um autor pouco simpático. Não faz cá falta o brilho intelectual dos académicos franceses para descobrirmos que Céline é racista. Basta lê-lo. É racista, misógino, puritano, descrente nos valores da humanidade e da vida. Cínico como poucos diante das instituições humanas, da família à amizade, da política ao exército, da ciência ao trabalho, do amor à morte. Só a espaços aparece algo de sublime, que não percebemos se se trata de uma aspiração ou do seu melhor fundo. Mas é só a espaços e como Céline não se esconde atrás de convenções, sente-se à vontade para desmontar as barreiras que erguemos à volta das nossas fragilidades, trazendo-as lá do fundo da caixa craniana para os holofotes das nossas consciências.   

Temos pois um filho-da-puta perspicaz e com talento, que escreveu mil páginas de violento racismo contra judeus, defendendo inclusive segundo consta – não as li – o seu extermínio. Devem essas páginas ser censuradas? Isto porque, sejamos como Céline e deixemos cair os paninhos quentes, é de censura que em França se está a falar, de censura organizada pelo Estado. Para mim é evidente que a resposta é não e por várias razões.

Primeiro, porque na minha concepção de um mundo civilizado só há uma pessoa que pode decidir o que cada um lê ou deixa de ler: o próprio. No meu caso, eu. Qualquer excepção a este princípio é potencialmente catastrófica. Se colocamos na mãos do senhor Xis a decisão sobre se o senhor Ípsilon pode ler um determinado texto, o que estamos a dizer implicitamente é que o senhor Xis é superior ao senhor Ípsilon. Logo, dada a sua superioridade, nada impede o senhor Xis, forte da sua mais elevada condição, de tomar outras decisões sobre a vida do senhor Ípsilon: com quem pode falar, contra o que pode protestar, como deve pensar, com quem deve dormir, se pode ou não procriar, etc. A este estado de coisas podemos chamar totalitarismo, sem perda de generalidade como se diz na lógica matemática. Justificar a censura de um texto justifica de forma mecânica qualquer outra arbitrariedade que se possa imaginar. Numa sociedade “democrática e liberal”, a censura promovida pelo Estado só poderá pois ocorrer em situações muito mas muito extremas, previstas na lei, limitadas no tempo e no âmbito (por exemplo em situações de guerra ou de catástrofe, com informações que ponham de forma muito provável em risco a vida de muitas pessoas). E certamente não deverá acontecer com as páginas deixadas por escritores já falecidos. 

Porque de um escritor se trata, e algo que ainda põe o ser humano um pouco acima da osga ou do carrapato é o facto milagroso de escrever livros e lê-los. A segunda razão para não censurar os textos mais obnóxios de Céline é que isso seria censurar o escritor Céline. E censurando o escritor Céline, não há razão nenhuma para não censurar também os livros de Céline. Em “Viagem ao fim da noite” há capítulos inteiros em que os negros das colónias francesas de África, nos anos trinta, são tratados ora como selvagens, ora como crianças crescidas. Outros em que as mulheres são vistas numa óptica binária: ou fúteis ou perversas. Como é, rasgam-se esses capítulos, que poderiam desencaminhar as almas menos preparadas e torná-las racistas ou machistas? Como rasgar capítulos deixa o livro coxo, e não prima pela discrição, o melhor será proibir o livro todo, e já agora os outros de Céline e resolve-se tudo não falando mais desse gajo. A isto chamou Orwell “vaporização” de uma pessoa, num livro que escreveu contra as ditaduras, estalinistas ou fascistas, mas que também assentaria bem na descrição de largos aspectos do politicamente correcto dos nossos dias. Um livro chamado “mil novecentos e oitenta e quatro” que há-de também ter partes censuráveis, que o senhor Xis não apreciaria deixar em mãos inábeis.

Tendo dado o primeiro passo e censurado Céline, podemos continuar o trabalhinho de corte sem que nos trema a mão, porque parece que há aí muito livro, ou outras obras, engendrados por pessoal de eras menos esclarecidas, que convém não deixar à solta sem o devido enquadramento. Herculano não é meigo para a moirama: corta por racismo. Eça, sempre a espetar afrontamentos nas mulheres, fracas de espírito e de vontade: corta por machismo. E aquele judeu de Veneza, o Shylock, a usar de usura? Shakespeare, corta, por anti-semitismo. O filme “Alexandre Nevski”, com os brancos russos a desancar os tártaros, não será um pouco supremacista? Melhor cortar o Eisenstein todo. E o retrato do Pessoa pelo Almada Negreiros? O tipo está a fumar e logo tabaco, em vez da mais politicamente correcta ganza. Quantos novos fumadores tabagistas já terão começado no vício ao ver esta imagem? Corta, pelo menos dez centímetros à volta do cigarro. Más ideias podem também vir da estátua de Diana, a caçadora, que se encontra no Louvre. Caça, essa barbárie? Corta, ou manda do pedestal abaixo. E já agora por prudência corte-se o trânsito nos acessos ao templo de Diana em Évora, não vão os alentejanos começar aos tiros. Bocage tem piadas pouco convenientes sobre os homossexuais. Será de cortar, por homofobia. E Hemingway descreveu touradas: outra incivilidade, para cortar. Gulbenkian fez fortuna no petróleo, essa matéria viscosa que todos usamos mas que o politicamente correcto ambientalista recomenda não gostar, pelo que será de cortar o Centro de Arte Moderna e a Orquestra. E por falar em orquestras, o Papageno da Flauta Mágica andava aos passarinhos. Que crueldade com os bichitos! Corta o Mozart todo.

Estou a exagerar? Não, estou apenas a brincar com coisas sérias. Se lermos a longa lista dos autores e das obras que já foram censurados no mundo, ao longo da história, entre os quais alguns dos que referi acima, perceberemos que não estou nada a exagerar.

E com isto chego à terceira razão para não censurar os textos anti-semitas de Céline. Porque isso constituiria mais uma concessão a esse fascismo contemporâneo chamado “politicamente correcto”, que quer delimitar aquilo que podemos pensar ou gostar a uma pequena caixa de coisinhas simpáticas, fofinhas e cor-de-rosa, e que pune qualquer pequeno desvio como se fosse um crime de honra ou de sangue, vomitando indignações de duas linhas no “Tweeter” ou no “Facebook”, induzindo crónicas jornalísticas tão inflamadas como acéfalas nos superlativos de que abusam, e acocorando os políticos, receosos do voto, entalados entre a populaça e os populistas, em narrativas ocas para o telejornal das nove.


Céline será muito provavelmente um fascista nojento que escreveu textos de ódio num tempo em que o ódio matou milhões. Mas do lado desse ódio estavam os que queimavam e censuravam livros, como agora o politicamente correcto quer fazer. E do outro, do lado que com muito sangue e coragem derrotou esse ódio, estavam aqueles que defendiam uma sociedade certamente imperfeita mas em que todos podiam ler o que bem entendessem e julgar pela sua cabeça, constituindo-se assim como cidadãos livres, seres pensantes que por natureza tendem a ser diversos e a fugir da prensa hidráulica da cartilha “correctista”.

Eu abomino as ideias de Céline, mas quero ser livre de poder lê-las e não preciso de intermediários para julgá-las. E sei distinguir entre o Céline nazi e a repulsa que me traz e o Céline escritor, magistral, cujo talento e alguns livros só honram a humanidade. Tenho pena de hoje me sentir algo só nesta distinção. O meu pai, que me recomendou tanto a leitura do comunista John Reed como a do fascista Franco Nogueira, não sendo certamente nem uma coisa nem outra, faz-me aqui alguma falta. Dizia Oscar Wilde, ele próprio perseguido pelo que escreveu, que não há livros morais ou imorais, há livros bons e livros maus. Céline escreveu bons livros, o que faz dele um património colectivo e um todo do qual ninguém tem o direito de retirar pedaços para parecer mais conveniente. Por outro lado, o Holocausto não surgiu assim do nada, teve um contexto histórico. Teve na altura o apoio ou pelo menos a anuência de milhões de alemães, de franceses, de polacos. Convinha perceber porquê e os textos que retratam o ódio de Céline talvez possam ajudar. Esconder essa conivência histórica e os documentos que a ilustram não me parece bom caminho para que uma desgraça parecida não volte a acontecer. 

Publique portanto a Gallimard as mil páginas anti-semitas de Louis-Ferdinand Céline. Fico satisfeito de ter direito a lê-las se um dia assim o entender, embora esteja convencido que quase certamente não o farei, que poucos as lerão e ainda menos se converterão ao que pregam. Hoje em dia, quer as nojeiras nazistas quer a vulgata politicamente correcta não se aprendem em livros, partilham-se no Facebook.


P.S. Ontem, Trump tentou evitar a publicação de um livro sobre a presidência, há dias o governo francês de um livro de Céline. “Les bons esprits se rencontrent”, como lá se diz.

terça-feira, dezembro 26, 2017

Exposição fotográfica (L)

Andei em Novembro por Chengdu, capital da província chinesa de Sichuan. Cinco milhões de habitantes, vinte e cinco séculos de história, mas o pouco que consegui ver através do "smog" do centro da cidade foi essencialmente a nova China do século XXI: arranha-céus ladeando avenidas de dez ou doze faixas, carros e mais carros e algumas motas, lojas modernas tomadas de assalto por uma juventude sedenta de roupa da moda e telemóveis. Não consegui encontrar um templo antigo que o mapa referia, provavelmente emparedado entre paredes de prédio, mas de caminho dei de caras com o maior "stand" da Lamborghini que já vi. Na vizinhança fui visitar a "Base de Investigação de Reprodução do Panda Gigante de Chengdu", onde cotovelando com a nova classe média chinesa e os seus paus de "selfie" lá consegui ver os "parecidos com ursos" - é o que a palavra "panda" significa. De resto, Chengdu tem pessoas gentis e um espectacular "hot pot", mesmo muito "hot". Abaixo, algumas fotos de "souvenir".

A camisola amarela

Um mundo artificial

As "selfies"

Fotografia de grupo no Parque do Povo

O Mao de olho no pessoal

Bambuzal

Centro financeiro de Chengdu

O vendedor de nozes

Entrada da Base de Investigação de Reprodução do panda gigante

Preto e branco

O panda na sua actividade preferida

Pausa para cigarro

Praça Tianfu

Um reflexo

Uma "Rita Red Shoes" de bicicleta

Chamada para o último congresso do PCC

A aldeia dos trumps



Deixei para aqui o blogue abandonado durante um ano e ele, como o Argos da Odisseia, esperou pachola mas firmemente que eu voltasse das minhas andanças. Passaram-se meses,  de pouca vontade, durante os quais outras prioridades, o trabalho, as leituras, a construção de uma casa, o acabamento de dois filhos, me mantiveram ao largo. Voltei e encontrei-o no mesmo sítio onde o tinha deixado, olhando para mim com um ar mesclado de reprovação e boas-vindas. Pareceu-me ouvi-lo ladrar com um tom de “como é?” enquanto eu me sentava ao teclado.

O mundo, esse, não esperou por mim e coisas notáveis ocorreram entretanto. O califado continuou o seu labor de destruição dos homens e da memória, cada vez mais confinado a meia-dúzia de montes de escombros na Síria e no Iraque, mas não menos perigoso nos peçonhentos que envia para matar na Europa e na Ásia. Falando em peçonha, o Benfica ganhou mais título, levado pela arbitragem como o Menino numa estatueta de Santo António. Em França o sistema político da Quinta República foi pulverizado por uma série de candidatos com o nome acabado em "on", o que rima com "cons", uma vez que não souberam lidar com a ascensão de uma fascista de nome acabo em "en". Em Portugal, a gerigonça parecia estar a fazer a melhor volta do circuito, mas pegou fogo já na recta da meta, coisa raríssima. E o Brasil continua lindo, já que falta de animação lá é situação que não há que temer.

Mas o acontecimento magno deste período de jejum foi sem dúvida a eleição de Donald Trump para o cadeirão do número 1600 da Pennsylvania Avenue em Washington. A eleição de um novo presidente americano é sempre por si só um facto da suma importância, com impacto maior ou menor na vida de todos os habitantes do planeta. Sendo o eleito um garoto, a ocorrência ganha outra magnitude.

Devo dizer que este Trump me enganou bem, o malandreco. Faço parte daquele grupo de ingénuos que julgava que uma vez que assumisse funções voltaríamos a uma certa normalidade institucional, após as palhaçadas próprias da campanha à americana, com tarjas azuis e vermelhas, chapéus de palha e parvoíces solenemente prometidas. Não era afinal a primeira vez que o presidente norte-americano estava longe de ser um Einstein. Já acontecera com Truman, Reagan ou Bush filho e o mundo seguiu o seu caminho. Não vi então grandes razões para alarme. Por um lado, algumas das suas ideias eleitorais pintadas como mais escabrosas na imprensa europeia têm na realidade uma longa tradição na política americana: a renúncia a um papel proselitista na política mundial já vem do presidente James Monroe, quase um século antes do presidente Woodrow Wilson a ter preconizado; a rejeição ou pelo menos minimização da interferência do Estado central na vida dos estados e das pessoas está na origem da própria União e vive muito no mito individualista do sonho americano; a redução de impostos como motor da economia vem pelo menos de Reagan; e assim com outras. Por outro, a América tem um sistema de separação e contenção mútua de poderes que por regra funcionou bem no passado e que limitaria as intenções mais descabeladas de Trump. Por fim, as potenciais alternativas para candidato republicano mostravam-se todavia mais pindéricas, beatos do "Tea Party", reaccionários até ao tutano como o Ted Cruz ou o Rick Santorum, paridos no “Bible belt”. Trump pelo menos era um nova-iorquino vivaço casado com uma europeia. Fiquei por isso relativamente tranquilo quando Trump emergiu de um mar de sondagens adversas e comentários ridicularizantes com a vitória na mão. Erro meu (e má fortuna pró pessoal em geral).


Uma vez entronizado, Trump conseguiu exceder as piores expectativas. Criou um gabinete de milionários, geralmente com óbvios conflitos de interesse entre as áreas que geriam e negócios próprios e ademais em média burros. Meteu na Casa Branca e em estruturas do sistema de segurança nacional americano – que de certo modo é o nosso sistema de segurança também – gente como Steve Bannon, um nazizeco com problemas de pele, que lhe andou a fornecer algumas ideias de campanha que a ele lhe faleciam. Assumiu um nepotismo descarado, levando filha e genro para funções de topo da diplomacia americana, não se percebendo se formal ou informalmente. E baralhou sempre que pode a função particular de homem de negócios com a de presidente da república, já que a torre Trump e o "resort" de Mar-el-lago passaram a ser palco de encontros com presidentes e embaixadores mundiais: convidados privados a milhares de dólares por refeição na mesa ao lado do presidente da China e ricaços meio grossos a tirar "selfies" ao lado do segurança que carrega a mala com os códigos do arsenal nuclear.

Isto já indiciava chatice da grossa, mas há pior, estruturalmente pior.

Com Trump chegou ao poder nas democracias ocidentais, de forma descarada, um relativismo total, em que a verdade e a mentira, o certo e o errado, o factual e o inventado se diluem numa mistela que é servida à colher e ao “tweet” às massas, com a maior cara de pau, com o apoio de uns lacaios de menor ou maior envergadura como a Sara Huckabee Sanders ou o Rupert Murdoch, em função das necessidades do momento. Seja para negar a verdade científica ou os dados da economia, o montante de pessoas na tomada de posse ou as estatísticas de segurança, a incapacidade de implementar políticas ou as próprias palavras do mês anterior, o “fake news” dá para tudo. Tendo encontrado uma sólida base eleitoral de alienados dispostos a confiar nele cegamente, basta-lhe “tweetar” três palavras em maíusculas e pontos de exclamação reclamando contra as “fake news”para manter a turba amestrada. A porta-voz na Casa Branca e a Fox nas fibras ópticas encarregam-se de confirmar. Como diria o próprio: “SAD!”

Por outro lado, e falando em tipos para quem a mentira mil vezes repetida se torna uma verdade, se no caso de Goebbels a loucura era a de um adulto florentino, no de Trump a loucura é a de um fedelho mal-educado. Qualquer uma pode pôr o mundo em maus lençóis. Isto é psiquiatria de bancada, mas parece-me claro que Trump tem óbvias limitações de inteligência: possui um vocabulário e uma expressão oral pobríssimos, é incapaz de suportar uma contrariedade sem deslizar para a birra, não planifica em função do futuro e tem uma frustração mal-resolvida com a popularidade dos outros, nomeadamente a de Barack Obama, o que não será de espantar tendo Trump sido criado na casa de Frederick Christ Trump Sr. Isto já vem do pai e passou também para o filho Trump Jr., o que levanta algumas esperanças aos imbecis: se a cretinice é hereditária, deve haver um gene responsável e portanto pode ser que um dia a Ciência descubra a cura.


Como seria de esperar, um personagem destes fez as delícias de toda a gente. As grandes potências rivais, a Rússia e a China, perceberam rapidamente que estavam diante de um líder fraco e vão aproveitar para tomar vantagem na corrida pelo poder global no século XXI. Os tiranos ou aparentados regionais, da Turquia à Coreia do Norte às Filipinas, para não falar do Netanyahu, sentiram-se de costas quentes para ir pisando risco após risco. Já na Europa e “a fortiori” em Portugal, políticos, jornalistas e a bem dizer toda a gente, das redes sociais às mesas dos restaurantes, entrou numa orgia de bater no ceguinho, elegendo Trump como saco de pancada de estimação que representava a boçalidade, a falta de sensibilidade, o recuo da inteligência, a aversão à verdade, etc., etc., etc.

Ora se o aproveitamento da nabice “trumpiana” por parte de uma série de dirigentes mundiais é perfeitamente racional, já esta última reacção de massas é difícil entender, porque Trump, que de facto é uma caricatura, como qualquer caricatura representa de forma grotesca uma realidade existente e essa realidade é a nossa realidade.  O Trump quer fazer um muro a conter os emigrantes mexicanos? Pois a generalidade dos países europeus não tem sido simpática para quem lhes aparece nas fronteiras: ainda esta semana o civilizadíssimo novo chanceler austríaco afirmou que vai confiscar dinheiro e telemóveis aos refugiados que batam à porta, e cortar-lhes o direito ao segredo médico, sem que tenha havido grande alarido mediático. O Trump insulta os tribunais e ameaça os juízes? Podíamos dissertar muito tempo sobre o conceito de independência dos poderes que os polacos e húngaros manifestam, ou já agora os portugueses: não é o polidíssimo João Miguel Tavares, com óculos da moda e tudo, que se arroga de forma militante o direito de negar a presunção de inocência, como se esta fosse uma tecnicalidade dos canhanhos e não um princípio básico da pessoa civilizada? E aquela promessa de Trump que ia limpar o pântano de Washington, porque estava cheio de políticos? Qual a diferença com a oposição entre “casta” e “pessoas da rua” que o Podemos vocifera em Espanha e o Bloco de Esquerda e a generalidade dos jornais papagueiam em Portugal? E já agora, qual a diferença para a plataforma eleitoral que levou Macron ao Eliseu? O Trump mente conforme lhe dá jeito e eleva a mentira a ferramenta do poder do Estado? Não é coisa nova no mundo, mas nunca esteve tão na berra como hoje. Quem se interessa pela verdade nos dias que correm? Pelo que vejo, muito pouca gente: o debate factual desapareceu do espaço público, substituído pela monocordia dos comentadores, pela construção da notícia pelos jornalistas (o recente caso da Catalunha é emblemático) e pela mentira útil suportada em “likes” do Facebook, tão de gosto por exemplo do novo fascismo ambientalista.

O Trump? Não me venham com o Trump. O Trump somos nós.