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sábado, outubro 04, 2014

As areias que vão à vida delas

Este Verão, quando assomei ao topo da última duna e olhei para baixo, vi que a praia das minhas férias de muitos anos, tantos anos, aquele areal branco, quente e concâvo como os braços de uma mãe, que nos aconchegara Agosto após Agosto, tinha desaparecido. Não totalmente, não tão dramaticamente que não o intuíssemos aqui e ali, que não nos sentíssemos nele quando nos sentávamos nele, ou que não o chamássemos como a um amigo pelo nome de sempre: os Aivados. Mas o suficiente para todos os que ali íamos interiorizarmos sem sequer falar nisso que já não era o  mesmo, quem sabe se para sempre. No seu lugar deixara largas zonas de seixal que empurravam os grupos de pessoas mais para cima uns dos outros, forçando um convívio antes inédito. Na maré enchente, os seixos acordavam e lastimavam a sua sorte, entrechocando-se num clamor de pedra.


Como explicação para tal razia, ouvi aqui e ali que o Inverno fora rigoroso como nunca se vira,  como se os anos ou vá lá as décadas de memória de uma pessoa tivessem alguma coisa a ver com o “nunca” ou com o “sempre”. Escutei que o mar revolto tinha “levado a areia” e “destruído a praia”, ali e por toda a costa. Uns, convictos, garantiam que a areia fora para não mais voltar e se depositara em parte incerta, mas certamente longe. Outros, tão convictos como os primeiros, que não, que estava ali mais à frente, debaixo das águas e que no próximo ano regressaria. Uns culpavam a natureza, por cada vez pior. Outros a perfídia do homem, por construir espigões, quebra-mares, casas ou estradas demasiado próximas. Ao ouvi-los, fiquei sem perceber: todos me pareceram afirmar mais com boca de falar do que com olhos de ver, quanto mais de saber sabido. Não me parece que a natureza ou o mar destruam, antes moldam à vontade deles. O mar já cá estava quando nós chegámos e continuará quando nós partirmos, desenhando e redesenhando: é ele o artista e nós meramente temos o privilégio de assistir à exposição, entrando e saindo em passo apressado, compreendendo melhor ou pior o segredo da obra. Quanto à perfídia do homem, será muita presunção nossa. Mais um geocentrismo de pacote.
  
Durante o ano que precedeu este Verão, o mar da minha vida também se agitou, pedindo meças, entre o bravio e o revolto. Quando as águas amainaram, a minha praia também estava diferente só que aqui, secretamente sei-o, de forma definitiva. Areias foram à vida delas, deixando seixos rolados à vista. Flutuaram ao sabor das correntes e depositaram-se em enseadas novas, longínquas, onde as esperam vidas de mãos dadas a quem fazem mais falta do que a mim e onde testemunharão risos novos e novos suspiros. E eu por cá me quedei, procurando entre calhaus um fofo para plantar o meu chapéu-de-sol.

Felizmente, nos Aivados como na minha vida, areias foram, mas muito fica. Na praia de Agosto há menos espaço e mais seixo, mas continua aquele por-do-sol visto do caminho nas dunas com a sua promessa de raio verde, sempre esperada e nunca cumprida, e sempre a presença cálida dos amigos de sempre, com uma ou outra nova ruga a testemunhar que há coisas que não mudam. Na da minha vida, sobram-me os gestos repetidos de muitos anos, que são votos diariamente renovados de felicidade: o livro aberto que se retira com cuidado de mãos que adormeceram, a porta que bate a meio da noite soltando-nos para um sono mais tranquilo, a carta batida na mesa com entusiasmo precedendo o corte inesperado ou a conversa que flutua sobre um cálice onde marina um fundo de bom vinho tinto. Certo que havia sons que ecoavam pelas paredes da casa que agora já só reverberam na minha memória, quotidianamente. Mas ganhei em contrapartida uma deliciosa saudade, que sabe ao salgado da lágrima e ao doce do reencontro. 

E quanto aos espigões, planos, quebra-mares, controlos e outras construções de areia, o mar e a vida estão-se nas tintas para eles, passando-lhes por cima, rindo-se da prosápia de quem atravessa insignificâncias no seu caminho e fazendo o que bem lhes apetece. Por isso, àqueles que acham que riscamos alguma coisa, deixo-lhes abaixo um provocador de excelente qualidade.




sábado, junho 08, 2013

Cromos da minha caderneta (III) – Moustaki dans ma voiture



1982 foi na minha vida um ano diferente e de diferenças: abandonei o conforto côncavo da escola que me berçou dos desenhos do jardim infantil ao diploma liceal, e troquei-o pelo ambiente marialva e um tanto caótico de uma turma quase exclusivamente masculina de mecânicos do Técnico; perdi amigos, que foram para longe, tendo outros batido ao postigo e instalado-se com algum à-vontade na sala de estar dos meus dias; fiz uma das viagens da minha vida onde conheci uma das mulheres da minha vida mesmo que durante breves duas semanas (mas essas duas semanas são tão parte da minha vida como outras duas semanas quaisquer); e a minha idade rodou no BI para dezoito anos, o que me deu direito a votar, conduzir automóvel emprestado e com alguma petulância julgar-me adulto.

Nesse ano de 1982, o poiso da malta estabelecera-se na casa da da C, na Avenida de Roma, a dez minutos do IST. A C ainda hoje me azucrina a cabeça numa base semanal, graças a Deus, mas na altura a base era praticamente diária: íamos lá para uma converseta, para ver quem mais lá estava, para uma cartada, para assaltar o frigorífico, para um futebol na têvê (foi também o ano do Brasil de Falcão, Zico, Sócrates, Toninho Cerezzo, Eder, Júnior, Oscar, uma equipa de sonho a arrastar um perú na baliza e um perneta na frente e que por isso – e por excesso de peneiras – perdeu a copa para a Itália bisonha mas rata de Rossi e Tardelli). Para retribuir a generosa hospitalidade, introduzíamos a C e mais umas amigas nas aulas do Técnico. Sentadas nas filas de trás do anfiteatro Qa1, davam um ar floral a uma turma de imberbes e mal-escanhoados e eram miradas com torpe interesse pelos alunos e com desconfiança pelo Prof. Ventura, que ia alinhando no quadro negro as equações do movimento relativo enquanto mandava em vão calar o burburinho permanente.

Em casa da C ouvia-se quase exclusivamente canção francesa, a começar na belga: muito Brel, sobretudo a “Ne me quitte pas” repetida e suspirada à exaustão, Brassens (em particular as picantes “Fernande” e “Le gorille”), Moustaki, com destaque para a “17 ans” que a C adorava, Reggiani ou o hoje menos lembrado Maxime Le Forestier, que tinha uns versos sobre uma casa azul que se aplicam que nem uma luva às casas da C, tanto a da Avenida de Roma de então como a da lonjura onde agora mora: “On n’y frappe pas/Ceux qui vivent lá/Ont jeté la clé”.

Nesse mesmo ano de 1982, Moustaki veio dar um concerto ao Coliseu de Lisboa e lá fomos um grupinho. O espectáculo saiu tristonho, possivelmente pela fraca casa: bem mais de metade das cadeiras apareciam vazias, o que pintalgava a sala, parcamente iluminada, com tons de fim de festa. Moustaki lá deu o seu melhor, apoiado por uma bandazita. À medida que o reportório ia decorrendo, a C ia-se inquietando: “Nunca mais toca o 17 ans”.  Amigo diligente, aproveitei uma pausa em que Moustaki, sentado num banco alto, afinava a viola, para rasgar o silêncio que me separava dele com um “Chante 17 ans!” gritado a plenos pulmões. Ele, sem tirar os olhos do que estava a fazer, respondeu placidamente ao microfone: “Oui, mon capitaine”, provocando uma risota na sala. Apesar desta aparente promessa pública, o concerto terminou sem que a canção pedida fosse tocada e foi algo desapontados que decidimos continuar a noite com um copo no Hot Clube, na Praça da Alegria.

Quando o Hot fechou, à hora hoje ridícula que impunha à época o ditame do Governo Civil de Lisboa, também as outras casas de entretenimento da praça despejaram na rua a clientela mais resistente. Entre esta – surpresa, surpresa – estava o Moustaki, que os organizadores do concerto tinham trazido a uma casa de fados ao lado, para cear. Aproximei-me e soltei-lhe:

- Alors, on n’obéit pas à son capitaine?

Ele respondeu atrapalhado algo como “ah era você desculpe lá mas a banda não tinha essa música ensaiada” e assim começou uma conversa que o juntou ao nosso grupo. Moustaki andaria nessa altura pelos seus cinquenta anos. Magro, a barba e o cabelo crespo a grisalhar e anárquicos davam-lhe um ar sem dúvida de meteco, embora talvez não tanto de judeu errante ou pastor grego, como asseverava a estrofe. De poucas palavras, parecia tímido, de uma distância mais reverente que altaneira, o que soava estranho a meio de uma noite em que nós éramos uns miúdos e ele era uma quase-vedeta. E mais estranho ainda foi quando a T sugeriu que todos fossemos a casa dela, na Estados Unidos da América, para um último copo e ele aceitou. Mais uma vez, enchi o Fiat 600 verde-tropa com aquela gente, Moustaki no lugar do pendura, resto ao molho lá atrás, e lá arrancámos com o motor em sobrecarga para casa da T.

Ficámos umas horas na sala da T. Ele tocou para nós, bebeu um bocadinho, falou poucochinho, ouviu bastante. A certo momento, quando a noite já se arrastava cansada, desenhou-se uma atmosfera ou – como dizem no Brasil – pintou um clima entre a T e o Moustaki. Foi a deixa dos restantes para levantar e zarpar. Soubemos mais tarde que a mãe da T, ao acordar de madrugada, encontrou o Moustaki na sua sala e o pôs na rua sem remorso, à portuguesa. Imagino agora o Moustaki às seis da matina, despejado no cruzamento com a Avenida de Roma, sem fazer ideia de onde estava. Provavelmente terá conseguido apanhar um táxi, porque há evidências fortes que pôde regressar a França, onde faleceu este Maio passado, por sorte dele no dia de aniversário do meu pai.

À notícia da sua morte, logo os asneirentos clichés do costume vieram afirmar, nos jornais e na boca dos políticos em homenagem, que a canção francesa ficara mais pobre. Não vejo como: está tudo gravado, para lembrar e para gozar enquanto houver orelhas, coração, neurónios e glândulas lacrimais com que ouvir tudo o que de muito bom ele por aí deixou. Poemas sobre homens livres e bastante mais sobre mulheres belas (que nos seus versos são todas, afinal) e sobre o amor entre ambos, um amor que arranca as máscaras sociais como no “Milord” que compôs para Edith Piaf, o amor que se transcende com o passar do tempo como em “Sarah”, o amor que emana da mulher idealizada da “Chanson pour elle” que arranca com o memorável “elle ne fait pas l’amour, elle aime”, que é para ficarmos logo esclarecidos.

Exposta a matéria de facto, para fechar este cromo vai de seguida o tradicional vídeo. Escolha difícil, mas talvez este “Votre fille a 20 ans”, interpretado por um Moustaki mais idoso e sereno que aquele que eu transportei na minha viatura, funcione bem como homenagem ao homem que partiu e à obra que ficou.  É uma melodia simples e bonita sobre a beleza da mulher, sobre o amor maternal, sobre o tempo que passa, sobre as coisas que são eternas, sobre a fatalidade, a naturalidade e o sublime da primeira vez (“Ils se font un jardin d’un coin de mauvaise herbe”), tudo isto em dois minutos e quarenta e sete segundos. O tipo tinha capacidade de síntese.


sábado, janeiro 19, 2013

Três instantâneos



A primeira foto é em papel acetinado. Estamos os dois de bibe, minúsculos, os sorrisos que nem esgares virados para a objectiva, a mesa da sala do jardim infantil coberta de papéis rabiscados por cores de feltro que o preto e branco não nos diz quais são.

A segunda foto revelei-a eu no estúdio improvisado que tinhas montado numa casa de banho em tua casa, naquele papel baratucho da Orwo, importado da RDA, que íamos comprar numa lojita junto ao cemitério dos Prazeres. O tempo esbateu o contraste, mas lá estou eu a fazer o pino no jardim de casa dos meus pais na outra banda, todo vestido de negro com os meus adidas apontados ao céu, e tu a rires-te a segurares-me as pernas para eu não cair – sempre fui fraco de pinos – falando com um segundo plano de gozões que desfaziam provavelmente na minha falta de jeito.

A terceira foto ninguém a tirou, e é pena, mas está na minha memória como qualquer fotografia moderna está numa memória qualquer e por isso é para todos os efeitos uma fotografia. Foi  naquele abraço recente com que me recebeste à porta depois de quatro anos e tal sem nos vermos, um abraço sorrido e fraterno como muito do tempo que passou entre a primeira e a terceira.


Na altura da primeira foto, as coisas eram simples. Deixávamos a nossa imaginação garatujar as folhas que nos metiam diante. Íamos em fila de mão dada para as mesinhas da cantina. Protestávamos contra a sopa. Dormíamos a sesta quando nos diziam. Éramos amigos porque todas as crianças de quatro anos são por definição amigas.

Pelos anos da segunda foto, as coisas continuavam simples, só que com uma ilusão de esplendor na relva, de glória na flor.  Absorvíamos o saber com o gozo de uma corrida, jogávamos cada voleibolada como se fosse uma final olímpica, vivíamos cada mulher como se fosse a primeira ou a última ou a única (na realidade, mais raparigas que mulheres e em menor número do que gostaríamos), cada ida à praia como um caminho marítimo para a Índia, bebíamos cada noite como se não fosse haver aurora, discutíamos violentamente qual a melhor banda como se isso interessasse. Preparavamo-nos para os grandes feitos que estávamos convictos virem aí. Éramos amigos porque nos sentáramos casualmente lado-a-lado no autocarro da vida, na melhor parte do seu percurso.

Depois fomo-nos só aparentemente separando. Tu procuravas algo que eu talvez tenha encontrado longe de onde tu o procuravas. Eu dei-me por satisfeito, tu continuaste inquirindo. E um dia a tua demanda arrastou-te para longe e eu achei natural e desejei-te boa sorte. Durante quatro anos, quase cinco, deixaste de ter cara. Eras uma notícia, um rumor: parece que volta no final do mês, ou do ano.

E de repente regressaste. E à porta de casa da tua mãe tirámos a terceira foto e eu entendi que afinal nunca nos havíamos separado, que afinal não tinhas ido para longe, mesmo tendo ido para uns quilómetros valentes de distância no mapa, que não relevava o que procurávamos agora mas o que encontráramos antes.

Pelos anos da terceira foto, as coisas tornaram-se simples: éramos amigos, sem mais.

sábado, janeiro 05, 2013

Revelações de ano novo



No estertor do ano, muito provavelmente por acaso mas seria maravilhoso que assim não fosse, encontrei no “Youtube” excertos de uma entrevista radiofónica a Ian Dury em que ele fala sobre as suas principais músicas. Uma das que explica é “My old man”, que Dury tinha escrito para o seu falecido pai e cuja letra aqui deixei no dia da morte do meu pai, em vinte e cinco de Maio de dois mil e oito.

Essa música continua a tocar entre nós, entre eu e ele, passados estes anos. Sempre que me apetece chamar o meu pai, basta-me repetir mentalmente as palavras que Dury deixou gravadas no concerto do London Town and Country Club em 1990, com aquela pronúncia “cockney”:

- Play the “baiss”, Norman, play the “baiss”!

E logo na minha cabeça Norman Watt-Roy, os olhos esgalhados de anfetamina, os dedos de ferro em luva de veludo a arrebentar com as cordas do baixo, arranca com as notas que alcatifam o caminho para a entrada da voz falada, quase melosa, de Ian Dury e também de difusas e felizes memórias do “meu velho” e de mim.

Na entrevista recebi duas prendinhas da quadra.

Uma foi a lembrança, sempre útil nestes tempos em que a arrogância mundana arroga que tudo se pode pôr em causa, de que por respeito tudo tem um limite. Dury, o iconoclasta por excelência, que sem piedade gozava o prato em todas as músicas, que escrevia sobre sexo com todos  os efes e erres, especialmente os primeiros, sobre discriminação racial com os insultos que os racistas usam, para que se percebesse bem do que se estava a falar, sobre a sua deficiência física e as dos outros com um desbragamento que ofendeu os politicamente correctos censores da BBC, Dury, dizia, conta que teve um cuidado particular na escrita desse poema sobre seu pai para não melindrar a sua mãe. Há de facto um momento em que se para. Tomara tantos perceberem isso.

A segunda, todavia melhor, embrulhada em papel ainda mais vistoso, foi quando Dury explica que ao princípio, quanto cantava esta música em público, vinham-lhe as lágrimas aos olhos, mas que tal depois  deixou de acontecer:

- “Agora já não é uma tragédia. Passou a ser parte de mim” – conclui, fechando a entrevista.

Ao ouvir isto, constatei que comigo se passara um pouco a mesma coisa. O drama ficou lá longe, preso a uma data concreta, a um farrapo de tempo. E ele soltou-se e instalou-se de um modo recôndito em mim, e por cá anda. Óptimo que assim seja.



sábado, dezembro 01, 2012

Elogio do papo-seco



Vivo numa casa onde acontecem cenas milagrosas: a fruta aparece-me já descascada no prato e de manhã o pão multiplica-se na cesta a horas madrugadoras, qual Canã em Campolide. Alguns amigos dizem com meia-inveja na voz que tais maravilhas se devem ao facto de ser casado com uma santa, criticando-me com suma injustiça por ser um calão doméstico.

No fim-de-semana anterior o mais novo esteve doente, a santa esteve de guarida e tocou-me a mim ir ao pão, evento que tal como os jogos olímpicos ocorre de quatro em quatro anos. Para não sobrecarregar as minhas meninges com informação excessiva, as instruções recebidas foram sumárias:

- Trazes cinco bolinhas de água!

Saí à rua em demanda das esferas aquáticas. O destino era um pequeno café que também vende pão. Aí, pedi o pedido, a empregada levantou o pano que cobria a cesta e escolheu com a mão enluvada num plástico cinco pãezinhos redondos dum tipo que tem estado na moda lá em casa, de crosta maleável e massa ligeiramente escura. Entre as bolinhas, o meu olhar vislumbrou um papo-seco solitário. De repente, veio-me à boca um sabor de infância, de pequeno-almoço nas manhãs de praia ou lanche no regresso da escola, e memórias da leveza do saco do pão opado e do aroma estaladiço que às vezes me assaltava as narinas nas ruas das padarias. E foram essas memórias, mais do que eu próprio, que pediram à senhora:

- Ponha-me também esse papo-seco.
- Esse quê? – respondeu ela, sem perceber.
- Esse papo-seco. Isto! – apontei.
- Ah! Uma maminha! – retorquiu, juntando o papo-seco aos outros.

No mundo da minha infância, só me lembro em Lisboa de dois tipos de pão: o papo-seco de hoje, que era branco e estaladiço, e o papo-seco de ontem, mais enrugado e esponjoso. Toda a gente sabia o que era um papo-seco e toda a gente sabia o que era uma carcaça, que era o mesmo que um papo-seco. Depois, quando íamos à província, à terra como se dizia na altura, havia outros pães, muitas vezes grandes, cortados à fatia ou arrancados em generosos nacos, mas que só aí se podiam encontrar.


Conhecia bem essa realidade. Em Loulé, ao fundo de um baldio dando para a Avenida José da Costa Mealha, a avenida principal onde desfilava o carnaval com os gigantones de que eu tinha medo, os meus tios exploravam uma padaria que hoje a ASAE fecharia na sua sanha desinfectante. Produziam uns pães grandes, de massa densa e cor de pano-cru, de crosta castanha. O forno ardia noite e dia alimentado por lenha de um monte que ocupava permanentemente  o fundo do baldio, vários metros quadrados por três de altura que pululavam de uma fauna inquietante de rataria e lagartixas. Em frente ao forno, numa ampla sala revestida a azulejo branco, longas caixas de madeira forradas de panos claros iam testemunhando o processo produtivo: vazias ao fim de dia e durante a noite, quando se ouvia o zumbido eléctrico do peneiro mecânico ou da máquina de amassar; pela alvorada cheias de bolas brancas de massa crua, alinhadas como crânios numa parada, esperando que o meu tio as distribuísse com perícia pela vasta boca do forno, esgrimindo uma pá de madeira cujo cabo me parecia infinito; ou já pelo dia fora, carregadas com as esferas tostadas dos pães de quilo ou quilo e meio, esperando a clientela feita de velhotas de bata de casa ou homens de chapéu de feltro preto, que ao chegar gritavam cheios de urgência pelos de casa até que alguém os atendesse, demorando-se depois para vários dedos de conversa.

Por vezes a minha tia enchia até ao tecto com pães acabados de cozer o seu velho Fiat 127 vermelho, cuja caixa de velocidades nunca passou da terceira mudança – pelo menos assim o reza a lenda familiar. Ia vender pelas feiras e terras algarvias e regressava tarde, de carro vazio e de bolso cheio. Outras vezes eram forasteiros que assomavam à porta sempre aberta da casa do forno, perguntando esperançados se havia pão ou se a fornada estava para breve, que tinham ainda o regresso para fazer. Outras ainda apareciam vizinhas amparando com dificuldade largos tabuleiros de cabrito ou bacalhau para uma ceia de família, entregando-os ao meu tio que os carregava para dentro do forno, cujo calor de um vermelho vivo também se alugava.

Do meu tio tenho uma memória exclusiva de um homem vestido de branco, a cabeça coberta por um boné de pano branco, permanentemente enfarinhado na roupa, nas mãos, nas pregas envelhecidas do queixo onde o pontilhado preto da barba mal escanhoada se misturava com o branco do pó de trigo. Mesmo quando tento lembrar-me dele fora dali, na imagem de uma festa de família ou de uma das suas raras visitas a Lisboa, visualizo-o com improbabilidade no seu traje branco de trabalho, com a sua touca branca e a brancura da sua farinha espalhada por todo o lado, no cenário de um casamento ou da sala de meus pais.

Aparentemente não tinha horas de sono, porque a qualquer momento o encontraríamos nalgum recanto do seu pequeno mundo, abrindo uma saca de farinha tirada do monte que por vezes chegava ao tecto e que eu galgava como um alpinista, contente com a minha valentia, vigiando a consistência da mistura que o garfo de ferro negro revolvia na cuba da máquina, facejando as bolas de massa que depois dobrava com um movimento do cutelo da mão, dando-lhes a forma final ou empoleirando-as às meias-dúzias na espátula que as levava ao fogo de pinhas e ramagens. Por vezes aparecia junto da minha tia na casa térrea contígua à padaria, de salas sucessivas de paredes de cal tosca e tectos de cana onde ocasionalmente se passeavam uma ou outra osga pertencentes já à mobília. Sentava-se, comia algo empurrado com um copo de vinho tinto, via uns minutos de televisão e voltava para a sua vida. Era um homem de poucas palavras. Recebia-me com um sorriso diáfano murmurando simplesmente o meu nome oficial entre a família do Algarve: “Cárlínhos”. A frase mais longa que me recordo de lhe ouvir foi quando me propus mandar uma pedrada num rato que aparecera junto às sacas de pano da farinha, dita com grande meiguice na voz:

- Não se faz mal aos ratinhos que são a minha companha!

Para além do branco e da farinha, e do trabalho contínuo aparentemente sem queixa e sem esforço, o que mais me lembro nele é desta gentileza despretensiosa. Tenho saudades dele. E, claro, tenho também saudades do pão que as suas mãos de artesão, de operário, de artista – palavras quase sinónimas – criavam dia após dia de uma vida, como tantos outros desde tempos já sem memória. Saído do forno recendia, a crosta estalava, a massa tenra fumegava. O sabor era ímpar e amadurecia com os dias, tornando-se mais ázimo e enraizado. Ao fim de uma semana, os coutos sobrantes ainda permitiam as melhores torradas do mundo.


Mais cedo ou mais tarde acabava o veraneio e acabavam os devaneios e regressava a Lisboa onde não havia o pão do meu tio, mas continuavam os papo-secos. Depois vieram outros tempos que são os de agora, em que cada padaria oferece trinta variedades, cada supermercado outras trinta. Ao ponto que há quem venda papo-secos sem saber como eles se chamam, como a senhora do cafézinho da minha rua, que olhou para o papo-seco e viu uma maminha. Sem saber que papo-seco quer dizer janota, e que aqueles pães se chamavam assim por serem comida de gente fina, bem antes de se tornarem o pão de todos os da minha geração.