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domingo, fevereiro 10, 2019

A Democracia sem democratas


Não imagino praticamente ninguém que conheça, próximo ou distante, a responder não à pergunta “é democrata?”. As pessoas acham-se democratas tão obviamente como se acham honestas. A questão parecer-lhes-á tão idiota quanto aquelas parvoíces que vêm nos formulários de imigração que se preenchem à entrada dos Estados Unidos: Traz droga? É maluco? Participou em perseguições aos judeus durante o Holocausto?

A resposta sim ao “é democrata?” parecerá evidente à quase totalidade porque, neste cantinho do mundo onde vivemos há uma associação intuitiva entre democracia e civilização e o pessoal gosta de se sentir civilizado. Além disto, existem vantagens associadas ao regime democrático que estão razoavelmente assimiladas entre a população: é bom poder falar e protestar com liberdade e sem medo; é razoável eleger – e melhor ainda, deseleger – periodicamente quem manda no burgo; aparentemente as democracias conseguem criar mais riqueza e distribuí-la um pouco melhor do que as ditaduras.

A democracia tornou-se pois uma ideia aspiracional vogando no subconsciente das pessoas, um conceito ideal embora algo nebuloso, associado à perfeição da coisa pública, em si mesmo positivo como a saúde ou a bondade. Tal hagiografia da democracia resultou num reflexo quase universal de criticar qualquer acção que se reprove sublinhando o seu pretenso carácter anti-democrático. Se a mesa da assembleia de condóminos, à uma da manhã, já cansada da bagunça generalizada, quer que se siga a agenda pré-estabelecida, logo vem um vizinho armado em tribuno com a acusação de não-democracia. Se um governante legitamamente eleito tem que tomar uma decisão, passados dez meses de debate em que não houve unanimidade entre auscultados, logo um deles clamará contra o autoritarismo e a falta de democracia. O cúmulo desta pecha ocorre quando no discurso da pequena política, ou no associativismo de bairro, ou mesmo na vida do dia-a-dia, ouvimos referir que a argumentação que o outro lado emite é por si só um ataque à democracia, como se a diferença de opinião pudesse ser intrinsecamente contra a democracia e não um dos seus pilares. Ora isto só pode surgir de uma deficiente compreensão da natureza essencial da democracia.

É verdade que democracia será um dos vocábulos mais vagos do léxico político, e também dos mais abusados. Começa logo na origem ateniense, no governo pelo “demos”: para Péricles o “demos” eram todos (todos menos mulheres, estrangeiros e escravos, claro), enquanto para os seus rivais, por exemplo Tucídides, o “demos” era a maralha, a turba anárquica. A mesma palavra, sentidos diferentes, virtudes opostas. Continua a confusão nos nossos dias, em que a Coreia do Norte, a Venezuela, os Estados Unidos ou a Noruega, todos se consideram uma democracia, quando não “a” democracia, por excelência. Claro está que Kim Jong-un, Nicolas Maduro, Donald Trump ou o rei Harald V não podem estar a falar do mesmo regime quando o conceito “democracia” lhes aparece por baixo das meninges. E não deixa de ser curioso que seja provavelmente um rei, um resquício do nada democrático direito de sangue, o que esteja mais próximo da razão.

É também verdade que com o fim da Guerra Fria se assistiu a uma maior proliferação mundial de processos formalmente democráticos, com eleições e parlamentos, oposição autorizada e imprensa mais ou menos independente. Muitos se deleitaram então a escrever e a ler sobre o fim da História, constituído por um mundo sem espinhas de regimes de liberdades e garantias, de democracia representativa e liberal, com economia capitalista a bombar potenciada por um comércio sem barreiras a nível planetário. Ora como sabemos da nossa experiência ao volante, o fim dos caminhos normalmente tem um muro à frente que obriga a ir para trás. Foi o que aconteceu: em muitos dos nóveis regimes democráticos, as eleições nem sempre foram verdadeiramente livres, os parlamentos muitas vezes não representaram o eleitorado, opositores mais coriáceos acabaram presos e jornalistas mais abelhudos apareceram mortos. Putin, Maduro, Erdogan e Trump foram eleitos mais ou menos democraticamente, como já antes Hitler o tinha sido. Afinal, o trágico não desapareceu das vidas dos povos e a História continua um rio revolto e não se tornou a plácida e espraiada foz que alguns julgavam.


Pior: se em muitos regimes democráticos jovens o progresso foi frágil e mais aparente do que real, em muitas democracias mais estabelecidas verificou-se um retrocesso grave, umas vezes espectacular, outras subterrâneo e por isso mais perigoso. No primeiro caso podemos incluir o crescimento da FN, do UKIP, do Vlaams Block, do Podemos e do Vox ou da AfD, a chegada ao poder da extrema-direita na Áustria – e aqui deixo de parte a Hungria e a Polónia, exemplos piores mas que dificilmente cabem no perímetro das democracias mais estabelecidas, a sucessão de Berlusconi e depois Beppe Grillo e depois Salvini em Itália, terminando obviamente com Trump e agora Bolsonaro, os exemplos mais caricaturais e talvez por isso mais acabados desta marcha-atrás. No segundo, a perda de autoridade moral do Ocidente no plano internacional, a degradação da capacidade crítica do jornalismo, a corrosão do respeito pela verdade e pela ciência suportada nas recentes praças do pelourinho digitais, a nova censura do politicamente correcto, a inversão do ónus da prova diante de formas variantes de totalitarismo, como certos ambientalismos e feminismos hoje prevalecentes, a generalização da anomia e a descrença nas instituições típicas das democracias parlamentares, tudo azares que levam a que sucessivas linhas vermelhas que no passado nos protegeram da tentação totalitária sejam agora pisadas, quando não espezinhadas, nos sítios e pelas pessoas “a priori” mais insuspeitos.

Quem tem culpa neste estado de coisas?  Certamente as instituições e os políticos, os juízes, os magistrados, os patrões de indústria e os jornalistas que as constituem. Mas muito mais do que eles todos nós em geral, que do voto ao “post” à conversa de café enviamos a essas pessoas sinais sobre o que pensamos, o que queremos, com que prioridades e quais os valores que temos por importantes. Nestes valores, tristemente, raramente encontramos os que são básicos para uma verdadeira Democracia.

A Democracia, para sê-lo, necessita claro está de processos organizativos democráticos, como eleições livres e justas e separação de poderes, e da proteção de certos direitos fundamentais, de vida, de personalidade, de liberdade de expressão e associação, de propriedade. Mas precisa sobretudo, para viver e sobreviver, que uns certos valores fundacionais existam de forma disseminada na sociedade, compreendidos ou pelo menos intuídos. A Democracia, na sua acepção mais nobre, é o agregado desses valores, uma forma civilizacional mais do que uma mera organização socio-política.
 
Que valores essenciais são esses? Pois vários.


Começaria com o apreço pela dúvida. Deste possivelmente emanam os outros. A dúvida resulta da humildade socrática diante do conhecimento, do “só sei que nada sei”. A dúvida incentiva-nos a escutar o outro, porque pode ser que ele tenha razão e nós não. A dúvida impõe-nos o estudo e obriga-nos à procura prudente da verdade. A dúvida afasta-nos da prosápia radical e das soluções das quais não há retorno. Só a dúvida nos traz lucidez. Dizia Bertrand Russell que as teorias se dividem em dois grupos: as da certeza e as da dúvida. A Democracia inclui-se certamente nas segundas (onde se contam também, por exemplo, as teorias científicas). Os totalitarismos fascista e comunista, bem como a verborreia das redes sociais, caem no grupo das certezas. 

Hoje, toda a gente que vejo à minha volta tem a certeza sobre tudo e opina com trejeitos de autoridade sobre tudo, muito especialmente sobre aquilo que não tem condições nem horas de estudo e reflexão para saber. Quando comecei a escrever este texto, li um exemplo chocante disto num comentário “on-line” a uma triste notícia desse dia, a de terem encontrado sem vida uma criança que caíra num poço, em Espanha. Pois houve um senhor que na caixa de comentários chamou incompetentes aos engenheiros e mineiros que trabalhando dia e noite, usando do melhor do seu saber teórico e prático, com risco da sua própria segurança, o foram buscar a cem metros de fundo. Esse senhor “acha que...”. É certo que esse senhor escreve comentários às notícias de um “site”, logo será por definição um imbecil, mas esta segurança nas suas certezas não deixa de ser profundamente triste e perturbante. E também sintomática.

Deste mundo de gente cheia de certezas absolutas resulta a facilidade com que se contradiz a ciência, às vezes por interesse, o mais por simples parvoíce. Não só quando Trump ou Bolsonaro põem em causa o aquecimento global, o que quer apenas dizer que foram eleitos ignorantes. Somos mais nós, os eleitores, quando partilhamos pelas redes sociais os modismos da não-ciência, como os perigos das vacinas, as calamidades do gás de xisto, as virtudes homeopáticas, os niilismos ambientalistas ou as evidências políticas e económicas que as estatísticas não suportam. O respeito colectivo pela ciência e pelo saber, crítico mas humilde, e a vontade de perceber e aprender são também valores centrais na saúde de uma democracia. Contrariamente à confusão que por vezes grassa por aí, nem todas as questões se resolvem por maioria e particularmente pela maioria dos que não estudaram e que não investiram na solidez do seu conhecimento. Como escreveu Marie Curie, “essa demonstração que nos custou tanto esforço...”.


E se de repente quase todos se julgam grandes médicos e engenheiros, todos mesmo todos se acham os mais habilitados dos juízes, julgando, condenando e em geral exigindo sangue. Quando leio o que se partilha na “net” ou se escreve nos jornais, quando ouço os comentadores televisivos tão tranquilos nas suas sentenças, às vezes sinto-me o único em Portugal que acredita nesta coisa simples: a presunção de inocência é a trave-mestra de um sistema judicial, não é um vaso à janela que dá uma côr à casa e que se arruma quando não faz falta. Ora isto implica que na dúvida não condenemos e que, como há sempre o risco de dúvida, os processos tenham lugar no recato dos tribunais e não no Jornal das Nove, onde se criam condenações “de facto”. Uma pessoa civilizada tem que conviver tranquilamente com a ideia de que um culpado pode ter que ser solto e que tal é um preço barato para garantir que um inocente nunca seja condenado. Na Idade Média, as pessoas acreditavam que um Deus vigilante garantiria que a justiça absoluta era sempre possível, nem que fosse com um julgamento divino: andar descalço sobre brasas sem ter dores ou coisa parecida. No século XXI, parece que continuamos a acreditar na mesma coisa, só que substituimos as brasas justiceiras pela douta opinião da Manuela Moura Guedes ou do João Miguel Tavares, as versões brega e chique da mesma mentalidade de pelourinho. Quem acha que há sempre um “mas” para matizar a presunção de inocência não se pode certamente intitular democrata.

A renúncia a ouvir respeitosamente o outro, a desconfiança face ao saber obtido com custo, a sobranceria da condenação ligeira, a facilidade com que as redes sociais se incendeiam, tudo isto muitas vezes se amalgama num horror às elites, porque estas acham que podem porque têm mais dinheiro, ou que têm a mania só porque estudaram, ou porque se não querem condenar fulano é porque são todos farinha do mesmo saco e anda tudo a meter ao bolso, ou qualquer outro excelente argumento deste género. Ora uma democracia funcional tem que ser um sistema elitista meritocrático, em que todos tenham as mesmas oportunidades independentemente da sua origem socio-económica e todos possam singrar em função do seu esforço. Que elites baseadas no mérito fazem falta à Democracia parece óbvio quando olhamos para Trump, um básico filho de milionários, e Obama, um cavalheiro oriundo da classe média-baixa, e a América de cada um. O discurso de ódio às elites, mais ou menos explícito, que anda por aí na tecla dos “facebookistas” e na boca dos bloquistas, acaba sempre por ser uma porta de entrada escancarada aos fascismos. 

Portanto, valores como o apreço pela dúvida e o que ela arrasta, de capacidade de ouvir e possibilidade de criticar, o investimento no conhecimento e na ciência e o reconhecimento do seu retorno, a aceitação da imperfeição da injustiça e do imperativo ético da presunção de inocência, a consciência do regime democrático como um sistema de elites meritocráticas em que, como bem dizia Daniel Oliveira, nos possamos orgulhar que o filho de um gasolineiro possa pelo seu esforço ser presidente da república, mesmo quando discordemos totalmente dele, são valores indispensáveis para segurar no sítio uma Democracia que se veja e que o seja.

Ora olho à minha volta e vejo pouco quem dê valor a estes valores. No espaço público, raríssimos: o Pedro Mexia, o António Barreto, talvez o Pacheco Pereira. No meu pequeno mundo, igualmente escassos. Vivemos numa democracia sem democratas. Não costumo puxar galões, até porque com a idade vou-me preocupando mais em polir os meus defeitos do que em puxar o lustro às minhas supostas e sem dúvida reduzidas virtudes. Mas desta vez vou aqui cometer uma arrogância: acho que tenho claros os valores que referi, e vou por isso terminar afirmando-me um democrata, por sinal filho de outro.

sábado, janeiro 06, 2018

Viagem ao fim do politicamente correcto



Vai em França uma certa escandaleira com a intenção manifestada pela prestigiada e muito sóbria editora Gallimard, aquela de boas obras e belíssimas capas, de reeditar as mil páginas de panfletos anti-semitas de Louis-Ferdinand Céline.

Como seria de esperar organizações judaicas indispuseram-se contra a publicação, assim como políticos e académicos, tanto à dextra como à canhota, reclamando a proibição desta reedição. Indo um pouco mais além, até o governo de Emmanuel Macron convocou o editor, tentando-o convencer a não publicar ou pelo menos a afogar o texto em notas enquadradoras redigidas por historiadores de confiança, em benefício das nossas mentes pequenas.

É sabido que Céline foi de facto um anti-semita militante, racista, beato no pior sentido da palavra, e também a seu modo um colaboracionista durante a Segunda Guerra Mundial, após a qual se teve que pôr a andar de França em grande velocidade para que nada de muito grave lhe acontecesse. Em 1950, à revelia, a França julgou os seus crimes e condenou-o a um ano de prisão (que considerou cumprido no exílio), a cinquenta mil francos de coima, ao confisco de metade dos bens e à indignidade nacional, assim, “tel quel”. No entanto, logo um ano depois, autorizou o seu regresso e Céline viria a morrer tranquilamente em casa em 1961.

Acontece por coincidência que foi durante Novembro e Dezembro passados que li “Viagem ao fim da noite”, a obra-mestra de Céline. Aqui confesso com alguma vergonha que esperei pelos cinquenta e quatro anos para ler este livro: está mal, foi tarde, deveria ter sido antes, talvez aos trinta.


“Viagem ao fim da noite” é um dos romances mais bem escritos que já li. Será também, provavelmente, o livro mais cru ou mais sincero – hesito no adjectivo – que já me passou pelos olhos. É um livro terrível, na leitura e depois dela. Lê-lo é como deslocarmo-nos em ruelas escuras numa noite do maior nevoeiro: um percurso lento, feito de arranques e paragens, de dúvidas no caminho, de esforço e cansaço, da convicção que não há regresso e de que há que chegar ao fim por muito que custe. Depois de lê-lo, dificilmente a nossa visão do mundo e sobretudo de quem o habita continua a mesma. É difícil não ficarmos a desprezar aqueles personagens (nos quais Céline se inclui, uma vez que se retratou no narrador, Ferdinand Bardamu) e aquela massa de gente mesquinha, egoísta, desprovida de valores, arrastando-se pela vida sem destino e sem dignidade, vítima das suas urgências e medos, disposta ao mal desde que sem consequências, petulante e patética na sua necessidade de parecer séria e digna, mitigando a sua desgraça de forma quase animalesca na gula e na luxúria. E o pior, e nisto reside também o talento de Céline, é que nos dias seguintes esta humanidade decadente não deixa de ser muito parecida com a que vemos das nossas janelas. Demora um pouco a limpar a vista ou a retapá-la, sei lá.

Nas entrelinhas de “Viagem ao fim da noite”, revela-se sem grandes pudores um autor pouco simpático. Não faz cá falta o brilho intelectual dos académicos franceses para descobrirmos que Céline é racista. Basta lê-lo. É racista, misógino, puritano, descrente nos valores da humanidade e da vida. Cínico como poucos diante das instituições humanas, da família à amizade, da política ao exército, da ciência ao trabalho, do amor à morte. Só a espaços aparece algo de sublime, que não percebemos se se trata de uma aspiração ou do seu melhor fundo. Mas é só a espaços e como Céline não se esconde atrás de convenções, sente-se à vontade para desmontar as barreiras que erguemos à volta das nossas fragilidades, trazendo-as lá do fundo da caixa craniana para os holofotes das nossas consciências.   

Temos pois um filho-da-puta perspicaz e com talento, que escreveu mil páginas de violento racismo contra judeus, defendendo inclusive segundo consta – não as li – o seu extermínio. Devem essas páginas ser censuradas? Isto porque, sejamos como Céline e deixemos cair os paninhos quentes, é de censura que em França se está a falar, de censura organizada pelo Estado. Para mim é evidente que a resposta é não e por várias razões.

Primeiro, porque na minha concepção de um mundo civilizado só há uma pessoa que pode decidir o que cada um lê ou deixa de ler: o próprio. No meu caso, eu. Qualquer excepção a este princípio é potencialmente catastrófica. Se colocamos na mãos do senhor Xis a decisão sobre se o senhor Ípsilon pode ler um determinado texto, o que estamos a dizer implicitamente é que o senhor Xis é superior ao senhor Ípsilon. Logo, dada a sua superioridade, nada impede o senhor Xis, forte da sua mais elevada condição, de tomar outras decisões sobre a vida do senhor Ípsilon: com quem pode falar, contra o que pode protestar, como deve pensar, com quem deve dormir, se pode ou não procriar, etc. A este estado de coisas podemos chamar totalitarismo, sem perda de generalidade como se diz na lógica matemática. Justificar a censura de um texto justifica de forma mecânica qualquer outra arbitrariedade que se possa imaginar. Numa sociedade “democrática e liberal”, a censura promovida pelo Estado só poderá pois ocorrer em situações muito mas muito extremas, previstas na lei, limitadas no tempo e no âmbito (por exemplo em situações de guerra ou de catástrofe, com informações que ponham de forma muito provável em risco a vida de muitas pessoas). E certamente não deverá acontecer com as páginas deixadas por escritores já falecidos. 

Porque de um escritor se trata, e algo que ainda põe o ser humano um pouco acima da osga ou do carrapato é o facto milagroso de escrever livros e lê-los. A segunda razão para não censurar os textos mais obnóxios de Céline é que isso seria censurar o escritor Céline. E censurando o escritor Céline, não há razão nenhuma para não censurar também os livros de Céline. Em “Viagem ao fim da noite” há capítulos inteiros em que os negros das colónias francesas de África, nos anos trinta, são tratados ora como selvagens, ora como crianças crescidas. Outros em que as mulheres são vistas numa óptica binária: ou fúteis ou perversas. Como é, rasgam-se esses capítulos, que poderiam desencaminhar as almas menos preparadas e torná-las racistas ou machistas? Como rasgar capítulos deixa o livro coxo, e não prima pela discrição, o melhor será proibir o livro todo, e já agora os outros de Céline e resolve-se tudo não falando mais desse gajo. A isto chamou Orwell “vaporização” de uma pessoa, num livro que escreveu contra as ditaduras, estalinistas ou fascistas, mas que também assentaria bem na descrição de largos aspectos do politicamente correcto dos nossos dias. Um livro chamado “mil novecentos e oitenta e quatro” que há-de também ter partes censuráveis, que o senhor Xis não apreciaria deixar em mãos inábeis.

Tendo dado o primeiro passo e censurado Céline, podemos continuar o trabalhinho de corte sem que nos trema a mão, porque parece que há aí muito livro, ou outras obras, engendrados por pessoal de eras menos esclarecidas, que convém não deixar à solta sem o devido enquadramento. Herculano não é meigo para a moirama: corta por racismo. Eça, sempre a espetar afrontamentos nas mulheres, fracas de espírito e de vontade: corta por machismo. E aquele judeu de Veneza, o Shylock, a usar de usura? Shakespeare, corta, por anti-semitismo. O filme “Alexandre Nevski”, com os brancos russos a desancar os tártaros, não será um pouco supremacista? Melhor cortar o Eisenstein todo. E o retrato do Pessoa pelo Almada Negreiros? O tipo está a fumar e logo tabaco, em vez da mais politicamente correcta ganza. Quantos novos fumadores tabagistas já terão começado no vício ao ver esta imagem? Corta, pelo menos dez centímetros à volta do cigarro. Más ideias podem também vir da estátua de Diana, a caçadora, que se encontra no Louvre. Caça, essa barbárie? Corta, ou manda do pedestal abaixo. E já agora por prudência corte-se o trânsito nos acessos ao templo de Diana em Évora, não vão os alentejanos começar aos tiros. Bocage tem piadas pouco convenientes sobre os homossexuais. Será de cortar, por homofobia. E Hemingway descreveu touradas: outra incivilidade, para cortar. Gulbenkian fez fortuna no petróleo, essa matéria viscosa que todos usamos mas que o politicamente correcto ambientalista recomenda não gostar, pelo que será de cortar o Centro de Arte Moderna e a Orquestra. E por falar em orquestras, o Papageno da Flauta Mágica andava aos passarinhos. Que crueldade com os bichitos! Corta o Mozart todo.

Estou a exagerar? Não, estou apenas a brincar com coisas sérias. Se lermos a longa lista dos autores e das obras que já foram censurados no mundo, ao longo da história, entre os quais alguns dos que referi acima, perceberemos que não estou nada a exagerar.

E com isto chego à terceira razão para não censurar os textos anti-semitas de Céline. Porque isso constituiria mais uma concessão a esse fascismo contemporâneo chamado “politicamente correcto”, que quer delimitar aquilo que podemos pensar ou gostar a uma pequena caixa de coisinhas simpáticas, fofinhas e cor-de-rosa, e que pune qualquer pequeno desvio como se fosse um crime de honra ou de sangue, vomitando indignações de duas linhas no “Tweeter” ou no “Facebook”, induzindo crónicas jornalísticas tão inflamadas como acéfalas nos superlativos de que abusam, e acocorando os políticos, receosos do voto, entalados entre a populaça e os populistas, em narrativas ocas para o telejornal das nove.


Céline será muito provavelmente um fascista nojento que escreveu textos de ódio num tempo em que o ódio matou milhões. Mas do lado desse ódio estavam os que queimavam e censuravam livros, como agora o politicamente correcto quer fazer. E do outro, do lado que com muito sangue e coragem derrotou esse ódio, estavam aqueles que defendiam uma sociedade certamente imperfeita mas em que todos podiam ler o que bem entendessem e julgar pela sua cabeça, constituindo-se assim como cidadãos livres, seres pensantes que por natureza tendem a ser diversos e a fugir da prensa hidráulica da cartilha “correctista”.

Eu abomino as ideias de Céline, mas quero ser livre de poder lê-las e não preciso de intermediários para julgá-las. E sei distinguir entre o Céline nazi e a repulsa que me traz e o Céline escritor, magistral, cujo talento e alguns livros só honram a humanidade. Tenho pena de hoje me sentir algo só nesta distinção. O meu pai, que me recomendou tanto a leitura do comunista John Reed como a do fascista Franco Nogueira, não sendo certamente nem uma coisa nem outra, faz-me aqui alguma falta. Dizia Oscar Wilde, ele próprio perseguido pelo que escreveu, que não há livros morais ou imorais, há livros bons e livros maus. Céline escreveu bons livros, o que faz dele um património colectivo e um todo do qual ninguém tem o direito de retirar pedaços para parecer mais conveniente. Por outro lado, o Holocausto não surgiu assim do nada, teve um contexto histórico. Teve na altura o apoio ou pelo menos a anuência de milhões de alemães, de franceses, de polacos. Convinha perceber porquê e os textos que retratam o ódio de Céline talvez possam ajudar. Esconder essa conivência histórica e os documentos que a ilustram não me parece bom caminho para que uma desgraça parecida não volte a acontecer. 

Publique portanto a Gallimard as mil páginas anti-semitas de Louis-Ferdinand Céline. Fico satisfeito de ter direito a lê-las se um dia assim o entender, embora esteja convencido que quase certamente não o farei, que poucos as lerão e ainda menos se converterão ao que pregam. Hoje em dia, quer as nojeiras nazistas quer a vulgata politicamente correcta não se aprendem em livros, partilham-se no Facebook.


P.S. Ontem, Trump tentou evitar a publicação de um livro sobre a presidência, há dias o governo francês de um livro de Céline. “Les bons esprits se rencontrent”, como lá se diz.

terça-feira, novembro 01, 2016

A cidade com alma




"Every time I close my eyes blowing that trumpet of mine, I look right in the heart of good old New Orleans...It has given me something to live for."
Louis Armstrong


Na esquina de Bourbon Street com Canal Street, à porta do Bairro Francês, por acaso a esquina mais importante da cidade de Nova Orleães, um homem nos seus trinta anos espera um oponente, um pouco como Clint Eastwood no “Era uma vez no Oeste”. De um negrume congolês, quase não se lhe vê a camisa de alças pretas, nem os óculos escuros vagamente manfios, nem os “dreadlocks” curtos no alto do coco, mas vêem-se bem as calças de um verde atómico e as pulseiras de um dourado gratuito. Está sentado na sua cadeira, acotovelado à mesa e vai sair com as brancas: olha com ar compenetrado, talvez hesitando entre o tradicional peão de rei ou uma abertura menos convencional. A mesa tem o tabuleiro estampado e as pernas fixas ao passeio. As trinta e duas peças faíscam ao sol da tarde, aguardando as mãos que as movam e os espíritos que as pensem. Deliciado com o desmoronar de mais um meu preconceito, que me dizia que só velhos russos jogavam xadrez no meio da rua, entro por Bourbon Street adentro.


A rua é de largura modesta, e a perder de vista: um “canyon” de três andares, com o primeiro e o segundo debruados a ferro forjado. Dados poucos passos, assalta-nos um leve cheiro a águas mal escoadas, proveniente das sarjetas e de poças suspeitas. Quando regressar à noite, irei reparar que um odor mescla de gente, álcool, ganza e comida se sobreporá ao cheiro de esgoto, numa mistura que um americano de Washington que conheci no jantar da conferência me garante ser uma sensação típica do Bairro Francês. Por ora é mesmo a águas paradas mas passados dois quarteirões já me habituei.

A imagem preconcebida que tinha sobre Bourbon Street era a de algo castiço e perdido no tempo, com clubes de jazz, negros velhos ao piano e a ocasional marcha pela rua de uma banda, talvez os célebres Saints. Totalmente falso: vejo casais americanos de idade, rosados, de bermudas e boné turista, grupos de amigas cinquentonas esféricas em grande risota, negras de perna à mostra à porta de casas de “strip”, polícias a cada esquina comendo o mega-hamburguer, grupos de adolescentes alfinetados por tudo quanto é parte, outros com ar “Ivy League”, vagos pedintes empurrando um carrinho de compras com os seus pertences, louras pernaltas no melhor dos apinocanços, velhos “rockers” de rabito de cavalo grisalho escutando música à borla nas janelas dos bares, latinos de fraque angariando para restaurantes de razoável pinta ou clubes de onda suspeita. Mas nada de Saints a marchar.


Toda a rua está dedicada ao comércio e não creio que alguém lá more mesmo, a menos que seja maluco, ou surdo, porque a animação é até às tantas. Há hotéis, incluindo um Sheraton, impecáveis no respeito pela traça. Há restaurantes e balcões de comida rápida que prometem a cerveja mais gelada, o hamburguer mais bojudo, o melhor daiquiri. Há casas de “souvenirs” cheias de parafernália vudu, “tee-shirts” humorísticas, caveiras de jacaré e colares de contas para o “Mardi Gras” de Fevereiro (a tradição manda dar um destes colares a uma senhora que levante a roupa e exiba os seios – e há sexagenárias que saem do carnaval vergadas ao peso de tanta conta). Há misteriosas lojitas de videntes, prometendo acertar no futuro por vários métodos: numa das que vi, palma da mão, “tarot”, pura intuição ou “angel”. Não consegui saber o que é “angel”. A “wikipedia” informa-me que os videntes usam astrologia, leitura de auras, cartomancia, cleromancia (lançamento de pequenos objectos), percepção remota, litomancia e a provavelmente mais cara cristalomancia (com pedras e pedras preciosas, respectivamente), numerologia, leitura da palma das mãos, psicometria (contacto com os objectos pessoais do cliente), runas e “tarot”, mas nada de “angel”.  Por um cartaz intuo que terá a ver com a observação de folhas de árvores. Em todo o caso, o Bairro Francês possui um arsenal preditivo de primeira grandeza, que muito jeito daria ao nosso ministro das Finanças, para ver se acertava no valor do défice.


Continuando, há sobretudo bares onde se ouve música ao vivo. Não só de jazz, mas de todos os tipos, consoante as portas: aqui jazz, ali country, mais à frente rock, logo disco, hard rock, gospel, house, o que quiserem. Com o calor quase tropical, as janelas e portas estão sempre abertas e os sons misturam-se pela rua, amalgamando-se com os odores e com as cores dos neóns que fluorescem por todo o lado. De repente oiço à distância o Richie Blackmore a solar na sua guitarra o “Highway Star” – só pode ser ele – acompanhado pelos restantes Deep Purple, incluindo o falecido Jon Lord, o que poderá ser explicado por algum fenómeno vudu, como vimos especialidade da zona tão disseminada como o guisado Gumbo ou o croquete de “aligator”. Aproximo-me da fonte sonora e espreito pela janela de um bar: nem Blackmore, nem a alma penada do Lord, nem nada. Vejo um grupo de septuagenários montados num pequeno palco, os cabelos brancos escorrendo suor debaixo dos focos vermelhos, esforçando-se para meia dúzia de gatos pingados que bebericam uma imperial enquanto gritam aos ouvidos uns dos outros. Já me dizia o tal americano que o que surpreende em Bourbon Street, quando se entra num bar e se bebe um copo e se olha para os músicos, é o que é que eles estão ali a fazer: porque é que estão enfiados naquele buraco e não numa carreira internacional. É que por regra são todos muito mas muito bons (e na realidade alguns saíram de Bourbon Street: Sidney Bechet, Mahalia Jackson, Fats Domino, Dr. John ou Wynton Marsalis  tocaram ou cantaram por aqui).


Dizem-me americanos que é única nos Estados Unidos esta rua que tomou nome nos mesmos Bourbons avoengos do nosso vizinho Felipe marido da Letícia: “there’s nothing like it in the USA”. Eu acrescentaria com segurança, apesar de não conhecer o mundo todo: “neither in the all world”. Porque de facto é única aquela mistura de genuinidade e falsidade, de riqueza e miséria, de locais e turistas, de vício e virtude, de novos e velhos, de todos os estilos de música, iluminada por néon e regada com cerveja para amainar o calor exasperante do dia-a-dia. E com o seu lado tenebroso, de perversão oculta, de risco iminente, de estupro por acontecer que Sting tão bem apanhou no seu “Moon over Bourbon street”. De tudo isso se faz a alma da rua Bourbon, que é a alma do Bairro Francês que é por sua vez a alma de Nova Orleães, seja lá o que a alma de uma cidade fôr: uma memória incontornável que emana das pedras, uma vibração harmónica nas pessoas, a coerência de um todo na excitação da variedade. E isto de nos Estados Unidos uma cidade ter alma não é coisa pequena pela amostra que conheço. Nova Iorque tem certamente, mas Houston nem um farrapo, Boston, Washington e Miami muito pouco.


O lado melhor da alma de Nova Orleães vive no humor dos seus habitantes, na omnipresença da música e do talento, da boa comida (é uma zona com óptima culinária própria), da sensualidade das mulheres vestidas para o calor asfixiante de um dia que pede o consolo da noite, das cores fortes que os artistas locais exibem nas galerias que polvilham as restantes ruas do Bairro Francês. Podemos reconhecer esta alma, na sua forma mais pura, na ladinice de Louis Armstrong, filho da terra fugido para o frio de Chicago, quando pisca um olho cantado a Ella Fitzgerald no fabuloso dueto “Can’t we be friends”, música que em Bourbon St. nos arriscamos a ouvir de uma janela numa versão quase tão boa como a original. Note-se o quase, porque mesmo para os mestres do vudu há milagres fora do alcance... 


Apesar de toda esta alma, ou talvez pelos pecados que carrega, tal como qualquer alma, até ao dia do perdão, há na Bourbon St. uma costela decadente indiscutível, na fauna que se acotovela à noite e que resiste de dia, nas actividades que por lá se levam. E se distraídos andássemos, um esqueleto na vitrina de uma loja de bugiganga, rico em costelas, relembra-nos, de lenço no crânio e órbitas esbugalhadas, a frase de Horácio que lamenta como voam os fugazes anos das nossas vidas: “Eheu, fugaces labuntur anni”.  Ou pelo menos os anos da parte terrena das mesmas, que depois é até ao infinito, ou mesmo mais além.


Nestas cogitações chego ao fim da rua, inverto marcha e percorro-a em sentido contrário até Canal St. Na esquina, o oponente já chegou e já se joga xadrez. Pela mão esguia do negro de calças verdes, as brancas atacam o centro do tabuleiro e parecem levar vantagem.
 

 No dia seguinte levaram-nos em passeio de eléctrico. Os eléctricos são um ícone de Nova Orleães e fazem as vezes de metropolitano numa terra plana e alagadiça em que qualquer escavação deve ser um pesadelo de drenagem. Temos direito a um guia, um velhote “wasp” reformado que, sem microfone, luta a armas desiguais com o cagarim de choque de metais e o alívio de pneumáticos da carruagem para se fazer ouvir. Vamos para zonas mais pinocas da cidade. Começamos pelo “Wharehouse district”, que de zona de armazéns da velha cidade se tornou área de condomínios finos. “For dinks”, esclarece o nosso guia. “Dinks” quer dizer “double income no kids”, casais de jovens com bons empregos que optam por atrasar os filhos de modo a melhor gozar os duplos rendimentos. Passada a rotunda onde se homenageia o derrotado general Lee, herói do sul “dixie”, entramos na St. Charles Avenue, longa de cinco quilómetros e ladeada por moradias individuais de grande porte, muitas de tipo colonial, brancas, dois e três pisos de muito pé-direito, colunadas de ordem dórica ou jónica, bons relvados à volta. Muitas estão à venda ou em remodelação, revelando que com facilidade se entra mas também se sai desta vida mais exclusiva. Nesta longa avenida encontramos serviços para os que os podem pagar: colégios femininos de freiras, o parque Audubon com o seu golfe, a universidade Loyola, restritos clubes de tipo inglês para homens ou para senhoras. Os sucessivos quarteirões chamam-se “faubourgs”, piscando o olho à herança francesa, que lhes dá os nomes: Lafayette, Livaudais, Delassize.



Viramos à direita em Carrolton Avenue, afastando-nos do dique que nos protege das cheias do Mississipi. Chegamos ao terminal e retomamos viagem em sentido inverso. O eléctrico não dá a volta, damos nós: levantamo-nos, deslocamos as costas dos bancos, que são de madeira da mais confortável, e sentamo-nos ao contrário enquanto o condutor atravessa o carro para os comandos do lado oposto. Voltamos a ver as mesmas casas que à ida. Apesar de Outubro não estar a meio, muitas casas já estão decoradas a rigor para o “Halloween”, com teias de aranha de alto a baixo, esqueletos a mandar-se das varandas, aracnídeos gigantes no telhado e lápides de cartão nos jardins. Quase tão tenebroso, um jovem casal espera num cruzamento que passe o eléctrico dentro de um Nissan decorado com “graffittis” azul-bébé e cor-de-rosa e para-choques desta mesma côr. Apesar do cromatismo aberrante do carro, têm idade para terem nascido já depois do LSD passar de moda e não me parece que vão à garagem para lhes pintarem a viatura após um vandalismo nocturno. Aquilo é mesmo assim e eles têm um ar normal e feliz. Afinal, estamos nos Estados Unidos da América. Mais adiante, somos alertados para uma casa de pedra para aí com o tamanho do castelo de Évoramonte. É a maior casa particular de Nova Orleães e pertence a um cirurgião plástico. “Muito botox teve que injectar este homem!”, exclama com alguma filosofia o nosso guia.


Nova Orleães é uma cidade limpinha e bem cuidada, pelo menos nas zonas por onde passei. Custa a crer que há onze anos tenha ficado severamente destruída pelo furacão Katrina, que causou para cima de mil e quinhentos mortos na Louisiana e um total de mais de cem mil milhões de dólares de estragos materiais. Numa década, aparentemente a cidade sarou essas feridas e disfarçou as suas cicatrizes. Mas outras chagas subsistem: à noite os recessos das portas dos comércios enchem-se de sem-abrigos, às vezes visíveis, às vezes apenas um volume oculto por camadas de cobertores andrajosos. Vi a uns metros da porta do Brennan’s, um dos mais caros restaurantes da cidade, à porta de uma loja, uma senhora preparar-se para uma noite ao relento. Tinha um ar cansado, mas muito arranjado, enfiara as pernas num saco-cama e sentada no chão estava a ler um livro à luz da rua com o seu ar mais compenetrado, como se quando viesse o sono fosse pousar o livro na mesinha de cabeceira e desligar a luz do candeeiro, luxo nosso diário que ela não se podia oferecer. Aquela senhora não parecia estar nos abismos do álcool ou da droga que a “vox populi” e alguma estatística costumam associar à condição de sem-abrigo. Era uma pessoa como qualquer outra, que possivelmente tivera uns azares, perdera a casa, perdera o pé e escorregara pela ladeira social abaixo. Os Estados Unidos são muito isto, também. A terra onde, contrariamente à Europa, um negro pode chegar à presidência da república e adolescentes podem criar multinacionais em meia-dúzia de anos, mas também onde a vida é um jogo sem rede e quem cai não tem mão que a agarre.


No regresso, no táxi que me leva ao aeroporto, mais um pouco da alma nova-orleanesa. O taxista é uma simpatia, um senhor negro encorpado, já nos sessenta, com um voz de música e mel, recomenda-me com entusiasmo que volte na altura de um grande festival que há em Abril, o “New Orleans Jazz and Heritage Festival”. São onze palcos em simultâneo, vinte horas por dia durante oito dias, com centenas de bandas, muitas delas locais mas também grandes nomes da música americana ou britânica. Em 2017 virão Paul Simon, Van Morrison, Pearl Jam, Red Hot Chilli Peppers, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Stevie Wonder, Snoop Dog, Elvis Costello, John Mayall, Beck, Dr. John, Buddy Guy e até o projecto musical do Liceu Francês de Nova Orleães! Ele garante-me que vai, das onze da manhã às sete da tarde, porque tem que pegar no táxi a essa hora. Reforça que a música é boa e a comida também (“good gumbo”), duas coisas de que ele gosta – sendo que esta última se nota bastante que gosta. Por baixo do retrovisor tem três fotografias: uma com ele e a mulher e duas quarentonas gorduchas que ele informa serem as filhas; outra com uma garota de quatro anos com laçarotes amarelos nas tranças, a única neta; e a terceira com o Obama. Diz-me com uma lágrima na voz que uma das filhas é advogada e a outra professora. Merece esse orgulho. Se lá o cirurgião plástico meteu muito “botox” para ter o casarão, este taxista deve ter guiado muita noite para dar melhor vida à descendência. Mais discreto, mas mais bonito.


Comento-lhe a fotografia do Obama e relembro-lhe que dentro de horas há o segundo debate entre Clinton e Trump, pensando que me vai responder com um indefectível apoio a Hillary, dado ser negro e votante democrata. Mas não: sem revelar quem apoia, diz-me que vai lá no dia oito de Novembro mas vai tapar os olhos com a mão na hora de votar. Para exemplificar tapa mesmo os olhos o que, dado que vamos num carro numa autoestrada, não me conforta particularmente. Para o fazer olhar em frente digo-lhe que em Portugal o que ele vai fazer chama-se engolir um sapo. Ri-se muito e parece céptico: “Swallow a toad! Really? No way!”. Chegados ao Louis Armstrong New Orleans International Airport, trocamos um bacalhau e ele dá-me um cartão para que me vá buscar quando eu regressar. Deve-se ver na minha cara que fiquei com vontade de voltar.