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terça-feira, novembro 01, 2016

A cidade com alma




"Every time I close my eyes blowing that trumpet of mine, I look right in the heart of good old New Orleans...It has given me something to live for."
Louis Armstrong


Na esquina de Bourbon Street com Canal Street, à porta do Bairro Francês, por acaso a esquina mais importante da cidade de Nova Orleães, um homem nos seus trinta anos espera um oponente, um pouco como Clint Eastwood no “Era uma vez no Oeste”. De um negrume congolês, quase não se lhe vê a camisa de alças pretas, nem os óculos escuros vagamente manfios, nem os “dreadlocks” curtos no alto do coco, mas vêem-se bem as calças de um verde atómico e as pulseiras de um dourado gratuito. Está sentado na sua cadeira, acotovelado à mesa e vai sair com as brancas: olha com ar compenetrado, talvez hesitando entre o tradicional peão de rei ou uma abertura menos convencional. A mesa tem o tabuleiro estampado e as pernas fixas ao passeio. As trinta e duas peças faíscam ao sol da tarde, aguardando as mãos que as movam e os espíritos que as pensem. Deliciado com o desmoronar de mais um meu preconceito, que me dizia que só velhos russos jogavam xadrez no meio da rua, entro por Bourbon Street adentro.


A rua é de largura modesta, e a perder de vista: um “canyon” de três andares, com o primeiro e o segundo debruados a ferro forjado. Dados poucos passos, assalta-nos um leve cheiro a águas mal escoadas, proveniente das sarjetas e de poças suspeitas. Quando regressar à noite, irei reparar que um odor mescla de gente, álcool, ganza e comida se sobreporá ao cheiro de esgoto, numa mistura que um americano de Washington que conheci no jantar da conferência me garante ser uma sensação típica do Bairro Francês. Por ora é mesmo a águas paradas mas passados dois quarteirões já me habituei.

A imagem preconcebida que tinha sobre Bourbon Street era a de algo castiço e perdido no tempo, com clubes de jazz, negros velhos ao piano e a ocasional marcha pela rua de uma banda, talvez os célebres Saints. Totalmente falso: vejo casais americanos de idade, rosados, de bermudas e boné turista, grupos de amigas cinquentonas esféricas em grande risota, negras de perna à mostra à porta de casas de “strip”, polícias a cada esquina comendo o mega-hamburguer, grupos de adolescentes alfinetados por tudo quanto é parte, outros com ar “Ivy League”, vagos pedintes empurrando um carrinho de compras com os seus pertences, louras pernaltas no melhor dos apinocanços, velhos “rockers” de rabito de cavalo grisalho escutando música à borla nas janelas dos bares, latinos de fraque angariando para restaurantes de razoável pinta ou clubes de onda suspeita. Mas nada de Saints a marchar.


Toda a rua está dedicada ao comércio e não creio que alguém lá more mesmo, a menos que seja maluco, ou surdo, porque a animação é até às tantas. Há hotéis, incluindo um Sheraton, impecáveis no respeito pela traça. Há restaurantes e balcões de comida rápida que prometem a cerveja mais gelada, o hamburguer mais bojudo, o melhor daiquiri. Há casas de “souvenirs” cheias de parafernália vudu, “tee-shirts” humorísticas, caveiras de jacaré e colares de contas para o “Mardi Gras” de Fevereiro (a tradição manda dar um destes colares a uma senhora que levante a roupa e exiba os seios – e há sexagenárias que saem do carnaval vergadas ao peso de tanta conta). Há misteriosas lojitas de videntes, prometendo acertar no futuro por vários métodos: numa das que vi, palma da mão, “tarot”, pura intuição ou “angel”. Não consegui saber o que é “angel”. A “wikipedia” informa-me que os videntes usam astrologia, leitura de auras, cartomancia, cleromancia (lançamento de pequenos objectos), percepção remota, litomancia e a provavelmente mais cara cristalomancia (com pedras e pedras preciosas, respectivamente), numerologia, leitura da palma das mãos, psicometria (contacto com os objectos pessoais do cliente), runas e “tarot”, mas nada de “angel”.  Por um cartaz intuo que terá a ver com a observação de folhas de árvores. Em todo o caso, o Bairro Francês possui um arsenal preditivo de primeira grandeza, que muito jeito daria ao nosso ministro das Finanças, para ver se acertava no valor do défice.


Continuando, há sobretudo bares onde se ouve música ao vivo. Não só de jazz, mas de todos os tipos, consoante as portas: aqui jazz, ali country, mais à frente rock, logo disco, hard rock, gospel, house, o que quiserem. Com o calor quase tropical, as janelas e portas estão sempre abertas e os sons misturam-se pela rua, amalgamando-se com os odores e com as cores dos neóns que fluorescem por todo o lado. De repente oiço à distância o Richie Blackmore a solar na sua guitarra o “Highway Star” – só pode ser ele – acompanhado pelos restantes Deep Purple, incluindo o falecido Jon Lord, o que poderá ser explicado por algum fenómeno vudu, como vimos especialidade da zona tão disseminada como o guisado Gumbo ou o croquete de “aligator”. Aproximo-me da fonte sonora e espreito pela janela de um bar: nem Blackmore, nem a alma penada do Lord, nem nada. Vejo um grupo de septuagenários montados num pequeno palco, os cabelos brancos escorrendo suor debaixo dos focos vermelhos, esforçando-se para meia dúzia de gatos pingados que bebericam uma imperial enquanto gritam aos ouvidos uns dos outros. Já me dizia o tal americano que o que surpreende em Bourbon Street, quando se entra num bar e se bebe um copo e se olha para os músicos, é o que é que eles estão ali a fazer: porque é que estão enfiados naquele buraco e não numa carreira internacional. É que por regra são todos muito mas muito bons (e na realidade alguns saíram de Bourbon Street: Sidney Bechet, Mahalia Jackson, Fats Domino, Dr. John ou Wynton Marsalis  tocaram ou cantaram por aqui).


Dizem-me americanos que é única nos Estados Unidos esta rua que tomou nome nos mesmos Bourbons avoengos do nosso vizinho Felipe marido da Letícia: “there’s nothing like it in the USA”. Eu acrescentaria com segurança, apesar de não conhecer o mundo todo: “neither in the all world”. Porque de facto é única aquela mistura de genuinidade e falsidade, de riqueza e miséria, de locais e turistas, de vício e virtude, de novos e velhos, de todos os estilos de música, iluminada por néon e regada com cerveja para amainar o calor exasperante do dia-a-dia. E com o seu lado tenebroso, de perversão oculta, de risco iminente, de estupro por acontecer que Sting tão bem apanhou no seu “Moon over Bourbon street”. De tudo isso se faz a alma da rua Bourbon, que é a alma do Bairro Francês que é por sua vez a alma de Nova Orleães, seja lá o que a alma de uma cidade fôr: uma memória incontornável que emana das pedras, uma vibração harmónica nas pessoas, a coerência de um todo na excitação da variedade. E isto de nos Estados Unidos uma cidade ter alma não é coisa pequena pela amostra que conheço. Nova Iorque tem certamente, mas Houston nem um farrapo, Boston, Washington e Miami muito pouco.


O lado melhor da alma de Nova Orleães vive no humor dos seus habitantes, na omnipresença da música e do talento, da boa comida (é uma zona com óptima culinária própria), da sensualidade das mulheres vestidas para o calor asfixiante de um dia que pede o consolo da noite, das cores fortes que os artistas locais exibem nas galerias que polvilham as restantes ruas do Bairro Francês. Podemos reconhecer esta alma, na sua forma mais pura, na ladinice de Louis Armstrong, filho da terra fugido para o frio de Chicago, quando pisca um olho cantado a Ella Fitzgerald no fabuloso dueto “Can’t we be friends”, música que em Bourbon St. nos arriscamos a ouvir de uma janela numa versão quase tão boa como a original. Note-se o quase, porque mesmo para os mestres do vudu há milagres fora do alcance... 


Apesar de toda esta alma, ou talvez pelos pecados que carrega, tal como qualquer alma, até ao dia do perdão, há na Bourbon St. uma costela decadente indiscutível, na fauna que se acotovela à noite e que resiste de dia, nas actividades que por lá se levam. E se distraídos andássemos, um esqueleto na vitrina de uma loja de bugiganga, rico em costelas, relembra-nos, de lenço no crânio e órbitas esbugalhadas, a frase de Horácio que lamenta como voam os fugazes anos das nossas vidas: “Eheu, fugaces labuntur anni”.  Ou pelo menos os anos da parte terrena das mesmas, que depois é até ao infinito, ou mesmo mais além.


Nestas cogitações chego ao fim da rua, inverto marcha e percorro-a em sentido contrário até Canal St. Na esquina, o oponente já chegou e já se joga xadrez. Pela mão esguia do negro de calças verdes, as brancas atacam o centro do tabuleiro e parecem levar vantagem.
 

 No dia seguinte levaram-nos em passeio de eléctrico. Os eléctricos são um ícone de Nova Orleães e fazem as vezes de metropolitano numa terra plana e alagadiça em que qualquer escavação deve ser um pesadelo de drenagem. Temos direito a um guia, um velhote “wasp” reformado que, sem microfone, luta a armas desiguais com o cagarim de choque de metais e o alívio de pneumáticos da carruagem para se fazer ouvir. Vamos para zonas mais pinocas da cidade. Começamos pelo “Wharehouse district”, que de zona de armazéns da velha cidade se tornou área de condomínios finos. “For dinks”, esclarece o nosso guia. “Dinks” quer dizer “double income no kids”, casais de jovens com bons empregos que optam por atrasar os filhos de modo a melhor gozar os duplos rendimentos. Passada a rotunda onde se homenageia o derrotado general Lee, herói do sul “dixie”, entramos na St. Charles Avenue, longa de cinco quilómetros e ladeada por moradias individuais de grande porte, muitas de tipo colonial, brancas, dois e três pisos de muito pé-direito, colunadas de ordem dórica ou jónica, bons relvados à volta. Muitas estão à venda ou em remodelação, revelando que com facilidade se entra mas também se sai desta vida mais exclusiva. Nesta longa avenida encontramos serviços para os que os podem pagar: colégios femininos de freiras, o parque Audubon com o seu golfe, a universidade Loyola, restritos clubes de tipo inglês para homens ou para senhoras. Os sucessivos quarteirões chamam-se “faubourgs”, piscando o olho à herança francesa, que lhes dá os nomes: Lafayette, Livaudais, Delassize.



Viramos à direita em Carrolton Avenue, afastando-nos do dique que nos protege das cheias do Mississipi. Chegamos ao terminal e retomamos viagem em sentido inverso. O eléctrico não dá a volta, damos nós: levantamo-nos, deslocamos as costas dos bancos, que são de madeira da mais confortável, e sentamo-nos ao contrário enquanto o condutor atravessa o carro para os comandos do lado oposto. Voltamos a ver as mesmas casas que à ida. Apesar de Outubro não estar a meio, muitas casas já estão decoradas a rigor para o “Halloween”, com teias de aranha de alto a baixo, esqueletos a mandar-se das varandas, aracnídeos gigantes no telhado e lápides de cartão nos jardins. Quase tão tenebroso, um jovem casal espera num cruzamento que passe o eléctrico dentro de um Nissan decorado com “graffittis” azul-bébé e cor-de-rosa e para-choques desta mesma côr. Apesar do cromatismo aberrante do carro, têm idade para terem nascido já depois do LSD passar de moda e não me parece que vão à garagem para lhes pintarem a viatura após um vandalismo nocturno. Aquilo é mesmo assim e eles têm um ar normal e feliz. Afinal, estamos nos Estados Unidos da América. Mais adiante, somos alertados para uma casa de pedra para aí com o tamanho do castelo de Évoramonte. É a maior casa particular de Nova Orleães e pertence a um cirurgião plástico. “Muito botox teve que injectar este homem!”, exclama com alguma filosofia o nosso guia.


Nova Orleães é uma cidade limpinha e bem cuidada, pelo menos nas zonas por onde passei. Custa a crer que há onze anos tenha ficado severamente destruída pelo furacão Katrina, que causou para cima de mil e quinhentos mortos na Louisiana e um total de mais de cem mil milhões de dólares de estragos materiais. Numa década, aparentemente a cidade sarou essas feridas e disfarçou as suas cicatrizes. Mas outras chagas subsistem: à noite os recessos das portas dos comércios enchem-se de sem-abrigos, às vezes visíveis, às vezes apenas um volume oculto por camadas de cobertores andrajosos. Vi a uns metros da porta do Brennan’s, um dos mais caros restaurantes da cidade, à porta de uma loja, uma senhora preparar-se para uma noite ao relento. Tinha um ar cansado, mas muito arranjado, enfiara as pernas num saco-cama e sentada no chão estava a ler um livro à luz da rua com o seu ar mais compenetrado, como se quando viesse o sono fosse pousar o livro na mesinha de cabeceira e desligar a luz do candeeiro, luxo nosso diário que ela não se podia oferecer. Aquela senhora não parecia estar nos abismos do álcool ou da droga que a “vox populi” e alguma estatística costumam associar à condição de sem-abrigo. Era uma pessoa como qualquer outra, que possivelmente tivera uns azares, perdera a casa, perdera o pé e escorregara pela ladeira social abaixo. Os Estados Unidos são muito isto, também. A terra onde, contrariamente à Europa, um negro pode chegar à presidência da república e adolescentes podem criar multinacionais em meia-dúzia de anos, mas também onde a vida é um jogo sem rede e quem cai não tem mão que a agarre.


No regresso, no táxi que me leva ao aeroporto, mais um pouco da alma nova-orleanesa. O taxista é uma simpatia, um senhor negro encorpado, já nos sessenta, com um voz de música e mel, recomenda-me com entusiasmo que volte na altura de um grande festival que há em Abril, o “New Orleans Jazz and Heritage Festival”. São onze palcos em simultâneo, vinte horas por dia durante oito dias, com centenas de bandas, muitas delas locais mas também grandes nomes da música americana ou britânica. Em 2017 virão Paul Simon, Van Morrison, Pearl Jam, Red Hot Chilli Peppers, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Stevie Wonder, Snoop Dog, Elvis Costello, John Mayall, Beck, Dr. John, Buddy Guy e até o projecto musical do Liceu Francês de Nova Orleães! Ele garante-me que vai, das onze da manhã às sete da tarde, porque tem que pegar no táxi a essa hora. Reforça que a música é boa e a comida também (“good gumbo”), duas coisas de que ele gosta – sendo que esta última se nota bastante que gosta. Por baixo do retrovisor tem três fotografias: uma com ele e a mulher e duas quarentonas gorduchas que ele informa serem as filhas; outra com uma garota de quatro anos com laçarotes amarelos nas tranças, a única neta; e a terceira com o Obama. Diz-me com uma lágrima na voz que uma das filhas é advogada e a outra professora. Merece esse orgulho. Se lá o cirurgião plástico meteu muito “botox” para ter o casarão, este taxista deve ter guiado muita noite para dar melhor vida à descendência. Mais discreto, mas mais bonito.


Comento-lhe a fotografia do Obama e relembro-lhe que dentro de horas há o segundo debate entre Clinton e Trump, pensando que me vai responder com um indefectível apoio a Hillary, dado ser negro e votante democrata. Mas não: sem revelar quem apoia, diz-me que vai lá no dia oito de Novembro mas vai tapar os olhos com a mão na hora de votar. Para exemplificar tapa mesmo os olhos o que, dado que vamos num carro numa autoestrada, não me conforta particularmente. Para o fazer olhar em frente digo-lhe que em Portugal o que ele vai fazer chama-se engolir um sapo. Ri-se muito e parece céptico: “Swallow a toad! Really? No way!”. Chegados ao Louis Armstrong New Orleans International Airport, trocamos um bacalhau e ele dá-me um cartão para que me vá buscar quando eu regressar. Deve-se ver na minha cara que fiquei com vontade de voltar.

sábado, maio 16, 2015

Europa 15



Aproveitando mais uma atilada iniciativa da Medeia Filmes, durante um mês desloquei-me várias vezes ao Nimas, território cinematográfico livre de pipocas, para ver no sítio certo uma dezena de filmes de Roberto Rossellini.

Assistir em tão curto espaço de tempo a tantos filmes do mesmo autor permite-nos aceder a uma compreensão superior à do visionamento de cada fita por si, exactamente como na pintura: não é o mesmo admirar um quadro isolado ou percorrer uma retrospectiva do pintor. No primeiro caso limitamo-nos à peça e no segundo chegamos à obra, com o correspondente acréscimo de clareza e complexidade. Com alguma sorte, com a obra vislumbraremos até o homem ou a mulher que espreita de trás dela. É outra riqueza, convenhamos.

Assim aconteceu comigo nesta mostra de Rossellini. Antes, quando o único filme que vira dele fora o “Roma cidade aberta”, eu diria que ele era um cineasta neo-realista italiano do pós-guerra. Hoje, vinte horas de preto-e-branco depois, Rossellini já só é um cineasta, por sinal bem bom. A anterior descrição que eu dele fazia parece-me agora tosca e redutora. Claro que navegou a vaga neo-realista, como se pode constatar nas passagens quase documentais (como a belíssima e agreste cena de pesca do atum em “Stromboli” ou as de devoção popular em “Viagem em Itália” e em “A máquina de matar pessoas más”), na utilização de actores não-profissionais interpretando-se no fundo a si próprios e na inquietude com as classes mais desfavorecidas da sociedade. Mas não mostra a carga ideológica de um Sica ou de um Visconti e do conjunto da obra percebe-se que são outras as perguntas que o perturbam e as respostas que lhe ocorrem. Ademais, sendo indubitavelmente italiano na alma, Rossellini é um cosmopolita e não procura só uma visão local. A sua câmara percorre outros sítios como a Alemanha, primeiro destruída em “Alemanha ano zero” e depois a erguer-se renovada dos escombros em “O medo”. A sua reflexão sobre o que no íntimo lhe interessa resulta muitas vezes do olhar de personagens (e actores) estrangeiros sobre a Itália profunda e o choque que daí resulta. Assim é em “Paisá – Libertação”, “Stromboli”, “Europa 51” e “Viagem em Itália”, um razoável núcleo duro da sua obra. Finalmente, tendo vivido e filmado no pós-guerra, por vezes com um ano apenas de intervalo para os acontecimentos que o inspiraram, a sua reflexão continua tão actual que seria quase castrante deixá-lo encaixado numa determinada época. Rossellini é intemporal e universal, muito mais do que “italiano do pós-guerra”, e como todos os grandes pode ajudar-nos a entender as agruras do nosso mundo presente.

Há um conjunto de temas que interessam a Rossellini e que ele filma. Alguns poderão ter uma origem mais íntima, como o amor e a traição entre homem e mulher (foi casado – ou próximo disso – cinco vezes e o duplo adultério com que começou a sua relação com Ingrid Bergman causou grande escândalo à época) ou o sofrimento e a solidão das crianças (perdeu um filho pequeno e terá sofrido o consequente sentimento de culpa). Outros são mais conceptuais, como os três choques que atravessam muita da sua obra e que em Rossellini ocorrem por regra em simultâneo: entre modernidade e tradição, entre a visão da “elite” e a do “povo” e entre a frieza norte-europeia e a latinidade sul-europeia – quase que poderíamos dizer entre a predestinação protestante e o livre-arbítrio católico. Esta referência ao catolicismo justifica-se tanto mais que muitos conceitos que estão no imo da religião católica são centrais no cinema de Rossellini: “Viagem em Itália” é a história de um milagre, “Europa 51” mostra-nos uma santa diante dos ímpios, “Stromboli” pode ser um conto de tentação e redenção, a Francesca de “Paisá” vive a mesma iluminação que Maria Madalena, a Nanni de “O amor” representa a inocência por oposição ao pecado e o Celestino de “A máquina de matar pessoas más” debate-se com a sua incapacidade de juízo final, porque é simplesmente um homem e não Deus.

Rossellini não era um homem religioso, mas sentia-se encantado por uma certa pureza da religiosidade – encantamento que muito se nota nos seus filmes. Admirava a ética do ensinamento católico e valorizava o efeito positivo dos valores cristãos num mundo moderno. Nisto, sinto-me próximo dele. Apesar de ateu, vivo como meus muitos valores que acarto de pequeno, que me apareceram em casa, pela rua, numa leitura, talvez até nos meus cinco anos da catequese e que culturalmente associamos ao Cristo do Novo Testamento. Interessam-me hoje questões como o perdão, o bem e o mal, a essência e a aparência, o livre arbítrio e nesse bom livro (com simples letra minúscula) encontrei sobre tudo isto alguma matéria sobre a qual pensar. E também concordo com Rossellini que alguma da ética dita católica poderia neste mundo meu contemporâneo, tão maquilhado, todo de superficialidades, dar jeito em substituição da não-ética ou da microética que reverbera através das fibras ópticas e das redes “wireless”. Sinto-me um católico sem Deus ou um ateu cristão ou coisa que o valha.

Mas voltemos ao triplo choque entre modernidade e tradição, entre “elite” e “povo” e entre a frieza norte-europeia e a latinidade sul-europeia, que acima mencionei. Que nos traz Rossellini? Que lições podemos retirar para o filme em que estamos todos malfadadamente metidos, o “Europa 15”, uma história melancólica de regressão política, económica, social e ética, com novas derivas totalitárias, novos proletariados, novas hipocrisias, novos ódios, novas inequidades, novos mas não tão diferentes dos velhos que prenunciaram as tragédia da Europa do século que ele filma?

Rossellini aborda as dicotomias que referi de fora para dentro do povo (o que podemos interpretar como uma viagem do acessório ao essencial, ou do erro à verdade). Começa com a perspectiva do estrangeiro: do soldado americano em terras derrotadas, da família de classe alta horrorizada com as pretensões e o contacto da plebe, do inglês perplexo com os maus hábitos napolitanos, da mulher educada caída no meio do machismo ignorante. Rossellini filma o povo sem filtros, de forma realista: uma massa que grita, que se aglomera em bairros miseráveis, de lata ou pendurados nas escarpas sorrentinas, que se reproduz a taxas terceiro-mundistas, que se dilui endomingada e alienada num dia de procissão, de mulheres submissas aos maridos ou caídas na vida, mas nunca livres, de homens animalescos e misóginos e também nada livres. As pessoas parecem formigas após uma pisadela no carreiro, correndo pela vida quando passa um cardume ou um vulcão acorda. Sobre esta amálgama, a visão da “elite” oscila entre o divertido, o enfadado e o horrorizado, mas é sempre uma visão de classe sobre um outro diferente e inferior.

No entanto, à medida que as narrativas fluem, Rossellini vai equilibrando o encontro. Primeiro, porque a superioridade dos modernos, da elite, dos nórdicos, não impede a existência de um vazio nas suas vidas. E esse vazio, primeiro adivinhado, depois visível, vai crescendo e começa a ocupar o espaço central do filme. Aí, numa segunda fase, Rossellini arranja maneira de o contraste com a tradição, o povo ou a latinidade levar à “vitória” destas e criar as condições de superação desse vazio. Fá-lo de formas diversas: pelo sentido trágico do destino, em “Stromboli”, com um inesperado milagre em “Viagem a Itália”, com uma sublimação em “Europa 51”, pela revelação, mais de uma vez, em “Paisá”.

Ocorre, em todos estes filmes de Rossellini, uma subtil inversão de valores: é no caos mais do que na ordem, na pobreza mais do que no fausto, na incerteza mais do que na segurança que a vida se torna frutífera e ganha sentido e tem um futuro. Seja de um povo, seja de um casal, seja de um indivíduo. Poder-se-ia levantar uma voz crítica contra Rossellini, dizendo que é sempre fácil um elogio da pobreza feito desde o conforto de uma vida burguesa. Seria uma crítica aparentemente com alguma pertinência, mas que julgo na realidade algo injusta. O que Rossellini visa combater com a sua análise não é a riqueza ou a ordem, mas a cegueira, seja ela fruto da ignorância ou da hipocrisia. E o que Rossellini procura enaltecer não é a pobreza, mas a genuinidade, a bondade e mesmo uma certa grandeza que só o tempo confere aos povos e que está bem patente na cena do museu em “Viagem a Itália”.

Daqui se poderiam retirar algumas ideias para os dias de hoje, em que voltou à Europa um cisma geográfico entre uma perspectiva supostamente racional, trabalhadora e incontornável dos do norte e uma pretensa anarquia, abusadora, preguiçosa e parasita dos do sul, sejam eles portugueses ou gregos, tanto faz, que para o finlandês ou checo médio é tudo a mesma ralé. Por isso, toca de castigá-los, que como é para eles claro só o castigo educa. É exactamente esta a lógica em “Europa 51” dos parentes de Irene e da estrutura de classe (polícias, psiquiatras, juízes) que os ampara: podem sacrificar-se os laços de sangue (hoje, os laços entre os povos), mas não as estruturas de poder da sociedade (hoje, as estruturas do poder económico). Irene saiu da sua normal via e por isso merece punição. A esta lógica, Rossellini com a sua câmara contrapõe a cena final em que Irene está em paz, porque escolheu o lado certo e termina o filme por cima, em “contre-plongée”, enquanto os seus parentes, reféns da sua racionalidade mas indubitavelmente sofredores, saem pela esquerda baixa, como Caim fugindo do olhar de Abel.

Também no filme “Europa 15”, em que todos somos figurantes, é possível que a irrepreensível lógica dos “credores”, de que não há alternativas (que de facto não são permitidas aos alegados “devedores”), se justifique num primeiro momento mas que se revele vazia e estéril num segundo tempo, e que no final resulte num desmembrar da União Europeia que já se cheira a alguma distância. E este desmembrar poderá ser simplesmente uma separação rumo a um enfraquecimento e a um empobrecimento colectivos, ou poderá dar guerra a sério – esta última foi aliás a normal história da Europa, não esqueçamos.

Para Rossellini há uma virtude transcendente na irracionalidade: por vezes, só momentos de irracionalidade permitem a vitória do Bem ou da Grandeza do Homem, e a perenidade destes valores. Tal é muito visível em “Paisá - Libertação”: não é racional ser um “partigiano” e lutar com caçadeiras contra os obuses e caças-bombardeiros do exército nazi; não é racional procurar um amigo ferido no lado alemão de uma cidade do tamanho de Florença, durante a sua reconquista pelos aliados, correndo perigo de vida de cada vez que se corre de uma esquina para outra; não é racional acender um fósforo numa noite de desembarque em zona alemã, para se ser simpático e se mostrar uma fotografia a uma rapariga cuja língua não se fala. Em todo esses casos, é provável que se leve um tiro. No entanto, são essas coisas ilógicas que as pessoas boas fazem e é isso que faz delas pessoas boas, diria mesmo pessoas superiores.

Nos Evangelhos encontramos muitas vezes esta intrigante irracionalidade, em que se faz o que está certo e não o que dá jeito, por exemplo quando Mateus larga um excelente e bem remunerado emprego como publicano para seguir à borla um revolucionário guedelhudo sem futuro aparente. E cada vez mais sinto que é esta descomprometida loucura que tanta falta faz à Europa de 2015.

Um “post-scriptum” cinematográfico, aliás dois, daqueles de leigo irresponsabilizável: i) Rossellini não tem o enquadramento ou a fotografia de um Antonioni, mas compensa com um notável lirismo, que comove com naturalidade; o olhar de Joe, o soldado negro norte-americano do segundo episódio de “Paisá - Libertação”, quando descobre a pobreza maior que a sua em que vivem as crianças de Nápoles, é disto um supremo exemplo; ii) Anna Magnani é certamente uma das maiores actrizes de sempre, batendo por “knock-out” ao primeiro assalto a larga maioria das pavoneantes na passadeira vermelha do Dolby Theatre.