terça-feira, dezembro 24, 2013

O homem que acabou com os bancos "net blankes"

De repente, tudo o que é gato e cão se pôs a comentar Mandela como se o conhecesse dos bancos da quarta classe e fosse admirador do ANC desde pequenino. Nada como o arrepio da morte e uma boa histeria mediática para transformar em santos homens que apenas quiseram cumprir o seu dever de homens na sua passagem por este planeta.

De repente, vejo e leio muitos senhores engravatados, de vidas tranquilas à sombra do arco do poder, a agradecer-lhe o pacifismo, a descrevê-lo como um anjo baixado à terra e a tratá-lo por Madiba como se fossem íntimos de algum lado. Alguns desses que agora se posicionam tu cá-tu lá com a memória indefesa de Mandela são uns de entre muitos que em 1990 se inquietavam com os riscos para o equilíbrio da África Austral de libertar um turra.

Mandela foi de facto um homem notável, mas para sorte dele e nossa por mais razões e outras razões do que aquelas que a hagiografia oficiosa agora repete até à exaustão.

Se atentarmos nos passos da sua vida encontramos um personagem complexo, fruto de muitas vivências e influências, com humores e paixões, com erros como todos. Podemos pois ficar mais sossegados: Mandela era um ser humano e não um extra-terrestre. E também mais consolados: as suas qualidades mostram o melhor que o Homem tem para dar e que secretamente está ao alcance de cada um de nós. Mandela construiu muita da sua vida a golpes de ousadia e resiliência, virtudes que admiramos nos nossos maiores. Só que tão admirável nos deve parecer o presidente triunfante que procura a unidade dos seus povos e não a vingança, como o jovem que estudava Direito em condições paupérrimas, à luz de uma candeia. Tão espectacular é a serenidade com que sai de três décadas de cárcere e se senta à mesa de negociação com os carcereiros, como o é a força de vontade que o faz ser o único estudante negro da Universidade de Witwaterstand, enfrentando o racismo de colegas e sociedade.



Hoje, há quem se compraza com oportuno esquecimento a descrever Mandela como o último dos pacifistas, como uma pomba arredia do conflito. Não me parece. Mandela era provavelmente pacifista como a maioria de nós o somos: temos por evidente que a paz é preferível à guerra. E foi efectivamente um homem superior quando soube pôr para trás das costas as contas pessoais que pudesse ter pendentes com os Afrikaanders para construir um projecto de país multirracial. Mandela podia ter lançado com meia-dúzia de palavras a África do Sul no ferro e no fogo. Mas escolheu a paz porque, citando-o, era a única via possível. Foi uma decisão de um político lúcido e dedicado a uma causa, que sabia ler a relação de poderes e os sinais dos tempos. Aproximadamente o mesmo político lúcido que em 1955, face à opressão do regime do “apartheid” sobre os negros que protestavam contra a demolição de um subúrbio de Joanesburgo, concluiu que a luta armada era o caminho que o ANC devia seguir. Por isto chamaram-lhe nessa altura, e durante muito tempo, terrorista.

Nestes dias ideologicamente espapaçados, verificamos que se instalou nas sociedades ocidentais uma ideia perversa que a opressão se deve tolerar porque não há alternativa. Para o pensamento mediano que por aí vigora, a palavra revolução e o conceito de que há um direito a usar de força diante de uma maldade insuportável, encontram-se associados a comportamentos antiquados, praticados por coitados algo incivilizados que perderam o comboio da história e ficaram perdidos no tempo algures entre o assalto ao Palácio de Inverno e a Grande Marcha. É mais uma das ignorâncias correntes.

A noção de que existe justiça em responder com força a um abuso reiterado ou exagerado é muito mais antiga. Está na Magna Carta, quando o rei João de Inglaterra aceita que, se cometer alguma “transgressão” à lei, os barões do reino, juntamente com toda a comunidade, poderão: “…  ocupar-nos as terras e causar-nos pena de todas as maneiras possíveis, nomeadamente, apoderando-se dos nossos castelos, terras, posses e de qualquer outro modo que consigam, até que compensação seja obtida conforme vejam adequado, ...”.

Está também nas palavras de João das Regras nas Cortes de Coimbra de 1385, quando conclui que, a propósito da eventual obediência ao rei de Castela, “não queira Deus que tal erro passe por nós, mas defendamos nossa terra, que justamente o podemos fazer”.

Ou ainda, muito da pena de Thomas Jefferson,  na Declaração de Independência dos Estados Unidos: “Quando uma longa sequência de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indiciam um desígnio de os reduzir a um despotismo absoluto, é seu direito, é seu dever, de mandar abaixo tal governo e providenciar novos guardas para a sua futura segurança.”


Para os vinte e cinco barões que pegaram na mão do rei João e o obrigaram a assinar a Magna Carta, para o doutor João das Regras, para Jefferson e os restantes “Founding Fathers”, cada qual dentro das suas circunstâncias históricas, usar de força, com risco de vida, para resolver uma iniquidade violenta podia ser justo, um direito e um dever. Por isso, talvez achassem legítimo, como Mandela a certo momento concluiu, que homens pegassem em armas para lutar contra um regime que proibia homens e mulheres de passear numa praia por causa da cor da pele.


O Mandela que entendeu em 1955 que só pela força podia combater a desigualdade foi o mesmo que em 1990 percebeu que só pela paz conseguiria construir a igualdade. Um como o outro representam um homem com um destino singular, uma daquelas vidas raras a quem metem uma caneta na mão para que deixe umas linhas escritas no livro da História. O respeito que nos merece Mandela advém de ser um político que, com grande sacrifício pessoal e sem se servir, serviu uma causa que transformou vidas, que trouxe liberdade a milhões e que desenvergonhou os milhares de milhões que somos todos nós, que vivíamos na vergonha de viver num mundo em que uma lei proibia pessoas de se sentar num banco de jardim se não fossem brancas. Não caíamos pois no engano de dele ver só a parte e não o todo, porque se perdermos a visão do todo perdemos a lição que ele deixou para a posteridade.

domingo, novembro 03, 2013

Passeio de domingo



Num dos cadernos do Expresso deste sábado, a Clara Ferreira Alves, uma das campeãs nacionais do mandar-se para fora de pé, escreve a propósito do centenário do nascimento de Camus que este é um autor que já não se lê. Não é bem verdade: esta semana, em Paris, no aeroporto Charles de Gaulle, encontrei os escaparates das tabacarias a abundarem de estrangeiros, homens revoltados e justos. Ora nos aeroportos vende-se aquilo que se vende e por isso certamente Camus continua lido, pelo menos nas salas vidradas onde se espera o embarque.


Eu voava uma vez mais para Argel, onde o tempo se anunciava chuvoso e até de trovoada. No regresso, aliás, levaria com o segundo raio em avião da minha carreira: uma pancada seca no casco, aparentemente junto às nossas orelhas, e um “flash” mais efémero que o das máquinas fotográficas, tão rápido que apenas nos deixa no cérebro uma ideia de luminosidade violenta, que na realidade não vimos. O primeiro fora sobre Barcelona e então como agora o Faraday fez bem as coisas, conduzindo pela sua gaiola a descarga eléctrica de uma ponta à outra do aparelho e mandando-a borda fora, sem outros danos que a ansiedade de alguns passageiros.

Ao aterrar em Argel, havia poças no chão reflectindo o sol que caía radiante, aproveitando o descanso da tormenta. Iluminadas pela luz branca, as palmeiras, com a ramagem amarrada para o inverno, as mulheres de cabelos cobertos pelo véu, as ruas pintalgadas de cartazes em árabe, faziam pressentir o Sahara que espreitava lá no horizonte, por trás das montanhas do Atlas. Argel, a “Alger la blanche” que se tornou mítica para os franceses, tem hoje em dia a sua cara de cidade linda desfeada por uma adolescência de guindastes, betão anárquico e contentores à beira do mar. Certamente, quando passada esta fase de crescimento perturbado Argel assentar como cidade madura, como a senhora que é, encostada ao monte Bouzareah a olhar para o marulhar da baía, o que continuará igual será essa luz, esse tesouro único que banha Argel e Lisboa, Roma e Tanger, Nice e o Cairo, Atenas e Sevilha.

Quando eu andava na primária, ofereceram-me um livro que me marcou chamado “La civilization du soleil” que à volta deste título unificador narrava, em pequenos textos ilustrados por figuras coloridas que me deleitaram, as grandezas dos povos que ao redor do Mediterrâneo até fizeram umas coisas engraçadas em prol da humanidade: a agricultura, a escrita, a matemática, a filosofia, os aquedutos e as redes viárias, o Partenon e o tecto da Capela Sistina, a descoberta do caminho para a Índia por terra e mil anos depois por mar. Será talvez o efeito de uma memória ingénua dessa leitura de criança, mas em qualquer das cidades que referi sinto sempre algo de privilegiado, de destino senhorial que as agruras momentâneas do tempo podem moer mas não matam, de quintessencialmente humano e anárquico, algo de civilizacional que se opõe à barbárie, uma intuição de grandeza que vem das lonjuras do tempo e que esta dádiva do sol alimentou, mantém e nos faz comungar. É este sol que insistiu em brilhar em Argel contra os ditames da previsão meteorológica, este sol que faz medrar e civiliza, que nos une de Lisboa a Beirute e que os países do norte da Europa, presos no seu cinzento a régua e esquadro, não podem deixar de secretamente invejar.


Curiosamente, esta semana encontrara esse mesmo sol argelino pintado por Jacques Ferrandez, um autor francês de banda desenhada cujos trabalhos procuram justamente a luz desse sol, seja em Lisboa, para a qual ilustrou as crónicas de uma viagem imaginária, seja em Argel, sua terra natal, onde localizou muito da sua principal obra, os “Carnets d’Orient” sobre a Argélia ainda colonial. Desta feita li-lhe uma adaptação de “O estrangeiro” de – outra vez curiosamente – Camus, o Camus que capturou para as suas linhas o saber dessa luminosidade que o banhou nos pátios da escola primária de Oran ou nos jogos em que defendia a baliza do Racing Universitaire Algérois. Fascina-me como as boas obras são férteis, inspirando outras coisas boas, nem que sejam boas adaptações. Este estrangeiro, por exemplo, motivou esta razoável versão de Ferrandez, quente e meridional, e uma excelente canção dos Cure, que do original guarda a reflexão inquieta mas troca o ambiente, que passa a frio e distante.

Regresso ao artigo do Expresso do primeiro parágrafo, onde ainda assim aprendi alguma coisa. Camus, que tinha tuberculose, foi albergado por um tio talhante quando aos dezassete anos se lhe declarou a doença. Este senhor, para além de um talho tinha uma biblioteca bem recheada, o que permitiu ao jovem Camus tomar contacto com a literatura clássica, encontro que até aí a sua pobreza lhe negara. Não creio que hoje em dia se encontrem muitos talhantes com largas bibliotecas, nem provavelmente muitos licenciados. Mas que naquele tempo o tio de Camus ao fim de um dia de trabalho retirasse o avental sujo de sangue e se afundasse num cadeirão e num Balzac, tal não me surpreende. Afinal, o meu pai, oriundo de uma burguesia pequena de serviços, que não tivera acesso à faculdade, tinha em casa próximo de três milhares de livros, de boa cepa, e isto estava longe de ser caso único entre a sua roda de amigos ou conhecidos, quase todos da mesma condição social.  Nessa altura prezava-se a leitura como hoje se preza os telemóveis e o livro das faces. Portanto a Clara Ferreira Alves, citada lá em cima, não está a ver bem a coisa. Não só Camus deixou de ser lido: foram os livros em geral.

Lá fora, o sol da civilização do sol convida ao passeio. Vou pegar em mim e sair.

domingo, outubro 27, 2013

Personalidades populares



Talvez por ser fim-de-semana e eu estar a descomprimir de uma frenética semana de trabalho, deu-me uma vontade urgente, daquelas de grávida, de zurzir um pouco na nossa mísera classe jornalística. Também é actividade que nunca se dá por perdida, porque basta abrir a televisão num canal de notícias para aparecer logo um lombo de repórter a pedir e a merecer cajado. Desta feita será a propósito de uma dicotomia que já há tempos que pede umas linhas: a das personalidades e dos populares.

Quando o jornalista nacional se quer referir às pessoas que protestam contra o fecho de um centro de saúde em Tondela, ou tentam salvar os seus bens de uma enxurrada na Ribeira de Frades, ou se juntam para ajudar os bombeiros a combater um incêndio de mato, ou assistem a um concerto do Toni Carreira, então usa o termo “popular”, por regra no plural: “populares testemunharam a fuga dos encapuçados que assaltaram a dependência do Crédito Agrícola de Mourão”. Os populares, para o jornalista português, são todos aqueles que não possuem estatuto social e cultural para se poder com eles usar a palavra “pessoas”. Os populares têm todos os defeitos que perturbam os queques que se acotovelam nas redacções munidos de um contrato a termo certo: são do campo e não da cidade, ou pelo menos do subúrbio; tendem a ser velhos, mais do que novos; são pobres ou eram-no e malandros deixaram de o ser; protestam ruidosamente em vez de serem submissos discretos; lêem o Record ou a Nova Gente e não o Peixoto na Visão; e acorrem com alvoroço a salvar um afogado na Costa da Caparica em vez de ir almoçar recatadamente um robalo escalado numa esplanada neo-rústica da Comporta.

Os populares vêm do povo e logo por cima do povo português, um povo sem graça, que não tem o carisma “pop” do povo maubere ou o destino trágico do povo palestiniano e que por isso merece ser tratado de popular para baixo. Em suma, o popular é na óptica editorial uma espécie de “untermensch” do Lavradio, de lesma pisável na base da escala evolucionária, fuçando no húmus dos arredores de Barrancos sem direito ao respeito ou à dignidade de um nome: poderemos assistir a uma entrevista no telejornal a um popular com uma tarja na parte de baixo do ecrã a dizer “Hélio-vizinho” ou “José-testemunha”. Certamente não imaginam uma entrevista a um presidente de um banco sub-titulada com “Ricardo-dono” ou a um primeiro-ministro com “Pedro-chefe”.


Nos antípodas conceptuais do “popular” encontramos a “personalidade”. Uma personalidade, para um jornalista, é toda aquela pessoa que detenha uma ou mais das seguintes três características: i) notoriedade pública, presente ou passada, em qualquer grau e por qualquer motivo, excepto talvez genocídio e outros crimes contra a humanidade; ii) uma profissão ligada às artes e letras, ainda que vagamente; iii) ser também jornalista ou aparentado. As personalidades, subentende-se, encontram-se acima da restante maralha, sendo mais do que meras pessoas, luzindo o brilho de uma visibilidade que as ascende acima do comum dos mortais. As personalidades surgem nos relatos noticiosos para dar, pela sua presença, importância e legitimidade a eventos como manifestações, abaixo-assinados ou encontros culturais. O jornalista escreverá que “o manifesto para rever a lei que regula a acidez do azeite foi já subscrito por várias personalidades”, com isso querendo significar que a iniciativa é coisa séria, ou boa, e isto mesmo que as ditas várias personalidades sejam uma salada russa que de azeite sabe pouco ou nada, composta pelo político que teve a ideia, um pintor de nível médio, uma actriz de novela com mais dotes físicos que declamatórios, o Boaventura Sousa Santos, um capitão de Abril e um desportista de topo já reformado, provavelmente a Rosa Mota se o lançamento for no Porto.  Quando no fio da narrativa se reclama para uma ideia o suporte de inúmeras personalidades, poderemos suspeitar que com alguma probabilidade a ideia não se vale por si própria e estamos perante um recurso publicitário daqueles mais reles, como quando se associa um futebolista ou uma cantora da moda a um champô ou a um depósito a prazo.

Tanto o modo como os jornalistas se referem às personalidades, como os critérios com que atribuem essa “distinção”, como a autoridade que lhes conferem, revelam-nos uma psicologia de tribo, tribo que partilha as ideias “certas” e não nasceu nos meios “errados”. Uma psicologia adulatória, inconscientemente submissa diante dos notáveis, que tem na aparência a medida de todas as coisas. Note-se que os jornalistas poderiam em relação às ditas personalidades usar com toda a objectividade a expressão “figura pública”. Mas isso não lhes permitiria diferenciá-las das outras pessoas e elevá-las diante destas.

Um paradigma desta apologia patética e pateta das personalidades encontra-se na rádio TSF, por sinal um exemplo acabado do jornalismo feito de ideias feitas. Não há reportagem sobre Angola que não comece com uns cantares em quimbundo ou em Trás-os montes com uma ladainha de uma velhota. Pois a TSF tem agora um programa chamado “Playlist” em que “todos os dias pede a uma personalidade” que escolha as músicas que se vão ouvir. Por regra as personalidades escolhedoras provêm dos meios artístico ou político, embora possam ser relativamente obscuras, caso em que a TSF tem que esclarecer: “hoje com o artista plástico José Marmeleiro”. Ninguém conhece o José Marmeleiro e por isso a TSF tem que nos dar parte que o senhor não repara canos, mas pinta uns quadros, o que o alcandora ao estatuto de personalidade e lhe confere portanto uma sapiência estética e cultural acima da média para efeitos de escolha de cinco ficheiros “mp3”.


Quando um repórter (ou outro tipo qualquer) usa os vocábulos “personalidades” e “populares” com menos de cinquenta anos de intervalo entre si, não está a fazer uma mera descrição sociológica. Contrariamente ao que julgará, está a afirmar uma ideologia, provavelmente sem pensar, porque pensar dá algum trabalho. Uma ideologia que configura uma sociedade de desiguais, escadeada, de castas como na Índia. Uma sociedade onde a notoriedade confere respeito e a falta dela retira direitos. Onde a notoriedade advêm da visibilidade à luz dos holofotes ou até na penumbra dos bastidores mas não da essência. Uma notoriedade que se ganha nas vaidades acetinadas da Caras, nas rodas de copos do Bairro, nos palcos das declamações subsidiadas e nas concelhias dos partidos. Uma notoriedade pequena de país pequeno mas suficiente para aliciar outras pequenezes, as de quem lá no fundo se consola colocando-se na orla entre as personalidades e os  demais.

Quando um jornalista usa no mesmo discurso os vocábulos “personalidades” e “populares”, lembra-me o Portugal dos anos quarenta e cinquenta que os meus pais e avós me contaram, de vilas e pequenas cidades com sociedades estratificadas, onde cada um tinha o seu lugar que o berço lhe ditava, na escola ou na falta dela, na profissão a que aspirava, no casamento que se tolerava e sobretudo no respeito que merecia. Impressionante como Salazar continua a andar por aí, morto mas mal enterrado, nas mentes que se julgam mundanas.

É por estas e por outras que o Jacques Rancière, filósofo com quem discordo muito mas que não deixa de ser fino observador, diz que a democracia só é verdadeira quando todos os lugares são tirados à sorte entre todos.

sábado, setembro 14, 2013

Crítica da crítica dos críticos a “A gaiola dourada”




Lembrando na ocasião o jovem que foi para Schondorf, trabalhou e voltou


Esta semana fui às Amoreiras ao ruminatório número 1. À entrada, filas de obedientes abasteciam-se de contentores de pipocas e de copázios com bebidas da The Coca-Cola Company. Ignorei as severas leis do “marketing” e sentei-me de mãos livres a ver o filme, cercado de mastigantes e sorvedores.

A fita intitulava-se “A Gaiola Dourada”. Fui motivado a assistir pela conjugação de dois factos: críticas bastante demolidoras no jornal Público por um lado e o afluxo maciço de espectadores pelo outro. O “crítico de cinema” português satisfaz muitas vezes as suas necessidades pequeno-burguesas de superioridade intelectual confundindo hermetismo e espessura. Por isso é normal que um filme quase-português, com porteiras, desencontros e bujardas, com um enredo linear que põe as massas à gargalhada, leve deles um medíocre. Esta gaiola dourada não tem nem a simbologia privada, nem a velocidade de ciclo geológico de um filme do César Monteiro, cometendo ainda o sumo dislate de se financiar com receitas de bilheteira. Logo, medíocre. Medíocre abençoado, que me levantou do sofá, fez pegar no carro, comprar bilhete e aturar a turba circundante que emborcava milho estalado com um alarde alarve.


A história dos portugueses que emigraram para a Europa nos anos cinquenta e sessenta é uma história de injustiças. A injustiça de um país que não lhes deu nem sobrevivência, nem escolha, que os deixou ir com meia-dúzia de tarecos e menos do que isso de letras. A injustiça dos que os receberam, que lhes agradeceram eles acartarem os seus tijolos e limparem as suas escadas com a ignorante soberba que caracteriza os que não conseguem ser mais do que meramente soberbos. A injustiça dos que cá ficaram, que assentados em cadeirões despreocupados, em Lisboa ou no Porto, gozavam com a algarviada franco-portuguesa que eles falavam ou com os azulejos das casas de férias que eles construíam. No fundo, por cá, os bem-pensantes  reprovavam que gente “daquela condição” pudesse ter aquele dinheiro, e por isso besuntaram a palavra emigrante com um verniz pejorativo, cometendo a injustiça adicional de fazer deles uma segunda vez emigrantes, agora na sua própria terra. Também a injustiça dos próprios filhos, que graças ao trabalho insane e à poupança abnegada dos pais, cresceram noutro meio e noutra condição, e não os entenderam e por vezes nem lhes disseram obrigado. Finalmente, a injustiça do Estado, que lhes agradeceu os milhões que remeteram anos a fio, equilibrando a balança de pagamentos, e o emprego que foram induzindo em zonas deprimidas com a construção das suas casas e as suas despesas de Verão, racionando de forma avara professores de português em Paris ou regateando a sua representação através do voto nas eleições nacionais. A estátua ao emigrante não deveria estar nas pracetas das aldeias da Beira mas antes na arcada do Terreiro do Paço, em frente às portas vidradas do Ministério das Finanças.

A estas injustiças, a esta Injustiça,  responderam os emigrantes, tantas e tantas vezes, com trabalho pesado a turnos e a desoras, com vidas próprias viradas para o mínimo, com auto-anulação em prol de outros, com uma saudade resiliente que os fazia regressar a uma terra que os maltratara, os maltratava e não os merecia de todo. Pondo as coisas com palavras mais claras, responderam com perseverança, brio, honestidade, honradez e amor aos filhos e à Pátria. Talvez de modo ainda mais claro, responderam com glória, uma glória muito deles porque os de fora, tanto lá como cá, não tinham capacidades intelectuais para a perceber.

Uma vez, estando eu em Caracas, fui convidado a uma sessão de fados numa associação cultural portuguesa. Cheguei e encontrei um ambiente festivo, os homens de fato, as mulheres com os seus melhores vestidos e jóias, maquilhadas, as crianças endomingadas em gravatinhas e laçarotes. Refém dos meus clichés idiotas, dei comigo a comentar mentalmente que tal era mesmo “coisa de emigrante”. A meio do espectáculo, anunciou-se uma ligação telefónica à vila minhota de onde muitos deles tinham vindo. Ouviram-se nos altifalantes, vindo do lado de lá da linha, vozes de emigrantes regressados à origem, antigos vizinhos, que arrancaram soluços à minha volta. Depois cantou-se um fado para, pelo telefone, ouvirem em Portugal. Olhando ao meu redor, vendo todos aqueles homens e mulheres com vidas de trinta e quarenta anos feitas fora do seu país, com filhos e netos já venezuelanos, deixar lágrimas incontidas rolar pela face e cair nas gravatas e nos decotes, percebi o pouco que percebia e percebi que em Portugal, onde andamos sempre com a boca cheia de Lusíadas e comunidades portuguesas, de amor à Pátria percebemos muito pouco.

Apesar de serem milhões, apesar de certamente terem muito para contar, os emigrantes portugueses dessa leva da segunda metade do século passado não mereceram a atenção da nossa arte. Que me lembre, há um filme do João Canijo, “Ganhar a vida”, que se passa no meio emigrante de Paris mas cujo foco é outro. Há um ou outro poema solto. Há uma lindíssima música instrumental de José Mário Branco, “Gare de Austerlitz”, que abre o disco “Mudam-se os tempos, mudam-se às vontades” e que encapsula em dois minutos e pouco a tristeza da partida, o espanto da chegada, a timidez de uma vida nova num mundo de repente enorme e hostil, a resignação, o destino e, até, uma ténue esperança no futuro. Infelizmente, depois deste brilharete, logo na música seguinte do mesmo disco, Branco borra a pintura de forma injusta e canalha, sucumbindo à cartilha e verberando o sucesso económico do emigrante que regressa como se a obrigação deste fosse manter-se saudavelmente miserável: “milionário que voltaste/dois tostões para os que atraiçoaste”.

O filme “A gaiola dourada” preenche este vazio. Realizado por Rubén Alves, filho de um operário e de uma porteira portugueses de Paris semelhantes às suas personagens principais, o filme mostra-nos de dentro, com uma franqueza que por vezes aleija, as idiossincrasias, as virtudes, os defeitos, os dramas, as aspirações, as alegrias dos portugueses de primeira e segunda geração em França. Ao fazê-lo, não procura teses subtis ou explicações sociológicas: dá simplesmente palco e voz a quem, transparente numa sociedade estratificada, nunca os teve. Talvez por isso muito das centenas de porteiras portuguesas que em Paris foram convidadas para a estreia se comoveram o tempo todo, dizendo que pela primeira vez se falava delas.


Para falar delas, destas pessoas, Rubén Alves não foge aos estereótipos sobre os emigrantes que pululam em França e Portugal. Pelo contrário: constrói com eles e a partir deles, sem vergonha e sem medo do que se possa pensar. Com a autoridade que lhe advém da sua luso-descendência, assume essas caricaturas, normaliza-as e fá-las desfilar numa comédia ligeira, de situações, de enganos, de personagens, que procura o espectador. A espaços, o riso que contagia a sala dá lugar a momentos de grande carga emotiva e cúmplice com o público. Para estes, contribui muito a excelência da representação da minha colega de liceu Rita Blanco, uma senhora actriz, em particular em dois discretos momentos: o tremor na voz, que me puxou uma lágrima, quando na chegada à casa do Douro comenta sobre o futuro neto que “este já vai nascer nesta casa”, frase que fecha um ciclo e dá sentido a duas vidas; e o olhar na cena da escadaria da casa de Paris, quando o filho tem vergonha de a reconhecer como sua mãe diante da amiga e ela, por amor mas rasgada por dentro, não se denuncia. Esta última cena constitui, estou convencido, um pedido de desculpas de Rubén Alves a sua mãe por algo semelhante que se passou entre eles: não consigo deixar de sentir que aquele momento do filme possui algo mais pessoal.

Perguntou-me o meu filho, no dia seguinte, se tinha achado um bom filme. Bom certamente que sim, pela boa disposição que gerou,  pelas emoções que lembrou, pela justiça que trouxe, pelas pessoas que repescou de novo para dentro de nossas vidas. Grande, não sei: não são as minhas palavras, nem as dos críticos mais encartados que fazem grandes os filmes. É mais o tempo que se encarrega disso. Os severos escribas do Público notarão que o realizador usa recursos fáceis para puxar o riso, como palavrões, esgares  ou tropelias exageradas. É verdade, mas também a eles recorreram Gil Vicente, ou Chaplin, ou Risi e Scola, ou os Monty Python ou os grandes nomes do teatro do século XVII que precisavam para poder comer que as filas do fundo também rissem. Os mesmos detractores apontarão a cena final como indigna de uma obra de autor. Eles que vão ver como Molière terminava as suas comédias, para abrir os olhos. Mas esta é uma discussão vã, porque estou certo que Rubén Alves não teve a pretensão de realizar o “Couraçado Potemkine”, mas apenas de falar sobre esta sua e agora nossa gente e poder com propriedade e sentimento de dever cumprido escrever no genérico a frase que o deixou quite: “Á mes parents”.


Os franceses, a maioria do milhão e tal de pessoas que já viu o filme, tiveram a oportunidade de mirar o interior dos sonhos da “communauté portugaise”, de entender que há vida e sentimento para além das janelas que se limpam e dos canos que se reparam e, de caminho, levados pela mão arguta e enluvada de Alves, testemunhar um pouco da cabotinice com que tendem frequentemente demais a disfarçar as suas próprias limitações, sobrando em arrogância para cima dos outros. Quanto a nós, portugueses, saídos da sala de projecção e deixadas assentar as ideias, poderemos concluir que aprendemos com humor um pouco mais sobre os nossos conterrâneos de Paris e sobre as suas qualidades e vícios que são muito os nossos, de todos os portugueses, onde quer que estejamos à face do planeta. Sobre os personagens de “A gaiola dourada” apetece repetir as palavras de Eça sobre o Gonçalo Mendes Ramires da ilustre casa:

- Assim todo completo, com o bem e com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?...
- Portugal.

domingo, setembro 08, 2013

Férias III - Galegos

Namorando no adro da igreja de Santa Maria, A Corunha

Feira na Alameda, Pontevedra

Dando de comer aos pombos na Praça de Ferrería, Pontevedra

Homem-estátua na Praça da Imaculada, Santiago de Compostela, debaixo de quase 40º

Criança brincando no fresco da Praça da Verdura, Pontevedra

Peregrino descansando os pés na Praça do Obradoiro, junto ao km zero, Santiago de Compostela

Mulher fugindo ao calor da Praça Maior, Ourense

Fumando um cigarro na Rua da Raína, Santiago de Compostela

Tômbola de presuntos, feira na Alameda, Pontevedra

Férias II – Modas de Verão



Fui repreendido pela crítica especializada por o tema do meu anterior “post” não se coadunar com o alto coturno intelectual que – hum, hum – caracteriza esta referência do ciberespaço que é o Mataspeak. Não concordo com o remoque: discorrer sobre as francesinhas do Porto é o mesmo que fazê-lo sobre um soneto de Shakespeare, a “Ronda” do Rembrandt, um drible do Messi ou qualquer outro píncaro das capacidades humanas. Mas para satisfazer tão exigente público, iniciei de imediato e de empreitada um texto sobre a influência da visão aristotélica no pensamento da classe política portuguesa. Provavelmente por não possuir formação em ciência política, não fui capaz de encontrar essa influência, nem qualquer outra, nem mesmo o próprio pensamento, pelo que desisti. Sai por isso mais um “post” sobre um tema levezinho.

À leitora que esperava mais substrato e que o manifestou aqui num comentário, recomendo que espere que o meu cérebro volte de férias, visto que não acompanhou o corpo no regresso, ou então que leia Kierkegaard  ou, se fôr mesmo muito exigente, o preâmbulo de qualquer portaria que venha no Diário da República.

Li este Verão uma excelente novela de Erri de Luca, “Três cavalos”. Nela, o personagem principal comenta que a vida de um homem dura tanto quanto as vidas de três cavalos e que ele estava a começar o terceiro, e último, cavalo. E assim estou eu, a um mês do meio século. Este facto, que aceito com tranquilidade, levantou à minha volta algumas excitações de família e amigos. Parece que tenho que fazer uma grande festa porque cinquenta anos só se fazem uma vez. É verdade, a mesma verdade que aos quarenta e nove e aos quarenta e oito. O ser humano tem uma certa fussanga por números redondos que sinceramente não partilho. Surpreendem-me às vezes os gasolineiros naquelas bombas onda ainda os há, que passam um minuto a dar micro-bombadas para tentar fazer chegar a contagem no mostrador aos 58,00 litros, carregando quase a medo no manípulo como se essa suave discrição tornasse o combustível um fluído mais compressível. Olham ansiosos para os dígitos a ver se batem no valor certo e exibem um esgar de dor quando lhes foge a mão e passam para os 58,01. E depois emitem o recibo num computador que, tal como eu, tanto se lhe dá como se lhe deu o número que lá tem dentro. Para mim, cinquenta é um número como qualquer outro na recta dos reais, mas a malta não desarma com a história da festa. Suspeito que está a ver se come, bebe e folga à minha conta, e por isso vai discutindo à minha revelia sítios, menus e aparelhagens de som.

Enquanto não fazem a festa, mulher e filhos vão-se inquietando com o meu visual e acham que eu não devia andar nestes dias de caloraça de calças mas sim com uns calções pelo joelho que agora vão de moda. Os argumentos são que fico mais fresco e pareço mais jovem e chegaram a oferecer-me um par que eu recambiei de imediato de volta para a loja. Tal como um “aileron” num Seat Ibiza não faz dele um Ferrari, não são uns calções que vão fazer de mim o rapaz que eu já fui. E depois “ome qu’é ome” não veste uma coisa daquelas, por muito fresco que seja ou talvez justamente por ser fresco demais.

Entretanto, esta polémica caseira levou-me a reparar que de facto muitos tipos da minha idade andam com os ditos calções ao fim-de-semana ou em férias. O quadro geral é este, de baixo para cima: sapato de vela sem meias, perna peluda, o referido calção, polo de marca distendido no estômago pela pança avantajada, colarinhos ladeando a papada, cãs nas têmporas ou em alternativa careca no cocuruto. Apocalíptico, não vos parece? Se isto é um jovem, eu sou um feto. Ainda por cima, como por regra o pinto-calçudo arrasta nas suas imediações uma dondoca atiazada, sobra um arzinho pacóvio e o inevitável cheiro a Cascais ao domingo. Quando o evangelista João quis representar a Besta no Livro do Apocalipse, descreveu-a cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres. Se João ainda vivesse e passeasse por um centro comercial, descreveria as bestas com bermudas e mocassinos sem meias, com muito pouca cabeça e não sei bem quantos chifres.

Houve outra moda de Verão com que me deparei este Agosto, em dois casamentos que beneficiaram da minha presença, e que me fez rir bastante. Como seria normal, os noivos eram jovens, dos verdadeiros, na casa dos vinte, e convidaram amigas, muitas, como seria expectável da mesma idade. Pude observar com atenção, enquanto não levei uma violenta reprimenda da minha cara-metade, que a “toilette” escolhida por praticamente todas para estes dias de canícula consistia num vestido ligeiro, de saia muito curta, vide curtíssima, e nuns sapatos com saltos que podiam chegar aos vinte centímetros e solas de meio-quilo de madeira. Calculo que seja uma tortura andar empoleirado naquilo, embora de facto dê altura e elegância. Qualquer taco-de-pia fica que nem o Michael Jordan. Mas o sofrimento necessário a ser elegante é bem notório: à mínima inclinação do chão, especialmente se empedrado, tanto donzelas como donas começavam a tremelicar dos canivetes, bamboleando em grupo como pinguins em migração (mas bastante mais bonitas de se ver), procurando em desespero um corrimão ou um braço galante que evitasse a queda eminente.

Os “designers” de calçado pertencem provavelmente ao conjunto dos mais acirrados inimigos das mulheres, juntamente com os talibãs afegãos e os assassinos em série das séries da Fox. Só um ódio patológico explica certas modas que procuram o feitio que mais cruelmente aperte as falangetas, os materiais que com mais certeza derrapem na calçada, as alturas de salto que mais emperiquitem o andar. Desta vez beberam a sua funesta inspiração nos coturnos com que os actores de tragédia elevavam os personagens de maior nobreza, na Grécia antiga, ou então nas monumentais sapatolas dos Kiss e dos Slade, grupos de uma parolice excelente de tão extrema, que animaram as minhas primeiras festas de garagem, nos idos de 1973, a menos de metade do meu primeiro cavalo.