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domingo, fevereiro 10, 2019

A Democracia sem democratas


Não imagino praticamente ninguém que conheça, próximo ou distante, a responder não à pergunta “é democrata?”. As pessoas acham-se democratas tão obviamente como se acham honestas. A questão parecer-lhes-á tão idiota quanto aquelas parvoíces que vêm nos formulários de imigração que se preenchem à entrada dos Estados Unidos: Traz droga? É maluco? Participou em perseguições aos judeus durante o Holocausto?

A resposta sim ao “é democrata?” parecerá evidente à quase totalidade porque, neste cantinho do mundo onde vivemos há uma associação intuitiva entre democracia e civilização e o pessoal gosta de se sentir civilizado. Além disto, existem vantagens associadas ao regime democrático que estão razoavelmente assimiladas entre a população: é bom poder falar e protestar com liberdade e sem medo; é razoável eleger – e melhor ainda, deseleger – periodicamente quem manda no burgo; aparentemente as democracias conseguem criar mais riqueza e distribuí-la um pouco melhor do que as ditaduras.

A democracia tornou-se pois uma ideia aspiracional vogando no subconsciente das pessoas, um conceito ideal embora algo nebuloso, associado à perfeição da coisa pública, em si mesmo positivo como a saúde ou a bondade. Tal hagiografia da democracia resultou num reflexo quase universal de criticar qualquer acção que se reprove sublinhando o seu pretenso carácter anti-democrático. Se a mesa da assembleia de condóminos, à uma da manhã, já cansada da bagunça generalizada, quer que se siga a agenda pré-estabelecida, logo vem um vizinho armado em tribuno com a acusação de não-democracia. Se um governante legitamamente eleito tem que tomar uma decisão, passados dez meses de debate em que não houve unanimidade entre auscultados, logo um deles clamará contra o autoritarismo e a falta de democracia. O cúmulo desta pecha ocorre quando no discurso da pequena política, ou no associativismo de bairro, ou mesmo na vida do dia-a-dia, ouvimos referir que a argumentação que o outro lado emite é por si só um ataque à democracia, como se a diferença de opinião pudesse ser intrinsecamente contra a democracia e não um dos seus pilares. Ora isto só pode surgir de uma deficiente compreensão da natureza essencial da democracia.

É verdade que democracia será um dos vocábulos mais vagos do léxico político, e também dos mais abusados. Começa logo na origem ateniense, no governo pelo “demos”: para Péricles o “demos” eram todos (todos menos mulheres, estrangeiros e escravos, claro), enquanto para os seus rivais, por exemplo Tucídides, o “demos” era a maralha, a turba anárquica. A mesma palavra, sentidos diferentes, virtudes opostas. Continua a confusão nos nossos dias, em que a Coreia do Norte, a Venezuela, os Estados Unidos ou a Noruega, todos se consideram uma democracia, quando não “a” democracia, por excelência. Claro está que Kim Jong-un, Nicolas Maduro, Donald Trump ou o rei Harald V não podem estar a falar do mesmo regime quando o conceito “democracia” lhes aparece por baixo das meninges. E não deixa de ser curioso que seja provavelmente um rei, um resquício do nada democrático direito de sangue, o que esteja mais próximo da razão.

É também verdade que com o fim da Guerra Fria se assistiu a uma maior proliferação mundial de processos formalmente democráticos, com eleições e parlamentos, oposição autorizada e imprensa mais ou menos independente. Muitos se deleitaram então a escrever e a ler sobre o fim da História, constituído por um mundo sem espinhas de regimes de liberdades e garantias, de democracia representativa e liberal, com economia capitalista a bombar potenciada por um comércio sem barreiras a nível planetário. Ora como sabemos da nossa experiência ao volante, o fim dos caminhos normalmente tem um muro à frente que obriga a ir para trás. Foi o que aconteceu: em muitos dos nóveis regimes democráticos, as eleições nem sempre foram verdadeiramente livres, os parlamentos muitas vezes não representaram o eleitorado, opositores mais coriáceos acabaram presos e jornalistas mais abelhudos apareceram mortos. Putin, Maduro, Erdogan e Trump foram eleitos mais ou menos democraticamente, como já antes Hitler o tinha sido. Afinal, o trágico não desapareceu das vidas dos povos e a História continua um rio revolto e não se tornou a plácida e espraiada foz que alguns julgavam.


Pior: se em muitos regimes democráticos jovens o progresso foi frágil e mais aparente do que real, em muitas democracias mais estabelecidas verificou-se um retrocesso grave, umas vezes espectacular, outras subterrâneo e por isso mais perigoso. No primeiro caso podemos incluir o crescimento da FN, do UKIP, do Vlaams Block, do Podemos e do Vox ou da AfD, a chegada ao poder da extrema-direita na Áustria – e aqui deixo de parte a Hungria e a Polónia, exemplos piores mas que dificilmente cabem no perímetro das democracias mais estabelecidas, a sucessão de Berlusconi e depois Beppe Grillo e depois Salvini em Itália, terminando obviamente com Trump e agora Bolsonaro, os exemplos mais caricaturais e talvez por isso mais acabados desta marcha-atrás. No segundo, a perda de autoridade moral do Ocidente no plano internacional, a degradação da capacidade crítica do jornalismo, a corrosão do respeito pela verdade e pela ciência suportada nas recentes praças do pelourinho digitais, a nova censura do politicamente correcto, a inversão do ónus da prova diante de formas variantes de totalitarismo, como certos ambientalismos e feminismos hoje prevalecentes, a generalização da anomia e a descrença nas instituições típicas das democracias parlamentares, tudo azares que levam a que sucessivas linhas vermelhas que no passado nos protegeram da tentação totalitária sejam agora pisadas, quando não espezinhadas, nos sítios e pelas pessoas “a priori” mais insuspeitos.

Quem tem culpa neste estado de coisas?  Certamente as instituições e os políticos, os juízes, os magistrados, os patrões de indústria e os jornalistas que as constituem. Mas muito mais do que eles todos nós em geral, que do voto ao “post” à conversa de café enviamos a essas pessoas sinais sobre o que pensamos, o que queremos, com que prioridades e quais os valores que temos por importantes. Nestes valores, tristemente, raramente encontramos os que são básicos para uma verdadeira Democracia.

A Democracia, para sê-lo, necessita claro está de processos organizativos democráticos, como eleições livres e justas e separação de poderes, e da proteção de certos direitos fundamentais, de vida, de personalidade, de liberdade de expressão e associação, de propriedade. Mas precisa sobretudo, para viver e sobreviver, que uns certos valores fundacionais existam de forma disseminada na sociedade, compreendidos ou pelo menos intuídos. A Democracia, na sua acepção mais nobre, é o agregado desses valores, uma forma civilizacional mais do que uma mera organização socio-política.
 
Que valores essenciais são esses? Pois vários.


Começaria com o apreço pela dúvida. Deste possivelmente emanam os outros. A dúvida resulta da humildade socrática diante do conhecimento, do “só sei que nada sei”. A dúvida incentiva-nos a escutar o outro, porque pode ser que ele tenha razão e nós não. A dúvida impõe-nos o estudo e obriga-nos à procura prudente da verdade. A dúvida afasta-nos da prosápia radical e das soluções das quais não há retorno. Só a dúvida nos traz lucidez. Dizia Bertrand Russell que as teorias se dividem em dois grupos: as da certeza e as da dúvida. A Democracia inclui-se certamente nas segundas (onde se contam também, por exemplo, as teorias científicas). Os totalitarismos fascista e comunista, bem como a verborreia das redes sociais, caem no grupo das certezas. 

Hoje, toda a gente que vejo à minha volta tem a certeza sobre tudo e opina com trejeitos de autoridade sobre tudo, muito especialmente sobre aquilo que não tem condições nem horas de estudo e reflexão para saber. Quando comecei a escrever este texto, li um exemplo chocante disto num comentário “on-line” a uma triste notícia desse dia, a de terem encontrado sem vida uma criança que caíra num poço, em Espanha. Pois houve um senhor que na caixa de comentários chamou incompetentes aos engenheiros e mineiros que trabalhando dia e noite, usando do melhor do seu saber teórico e prático, com risco da sua própria segurança, o foram buscar a cem metros de fundo. Esse senhor “acha que...”. É certo que esse senhor escreve comentários às notícias de um “site”, logo será por definição um imbecil, mas esta segurança nas suas certezas não deixa de ser profundamente triste e perturbante. E também sintomática.

Deste mundo de gente cheia de certezas absolutas resulta a facilidade com que se contradiz a ciência, às vezes por interesse, o mais por simples parvoíce. Não só quando Trump ou Bolsonaro põem em causa o aquecimento global, o que quer apenas dizer que foram eleitos ignorantes. Somos mais nós, os eleitores, quando partilhamos pelas redes sociais os modismos da não-ciência, como os perigos das vacinas, as calamidades do gás de xisto, as virtudes homeopáticas, os niilismos ambientalistas ou as evidências políticas e económicas que as estatísticas não suportam. O respeito colectivo pela ciência e pelo saber, crítico mas humilde, e a vontade de perceber e aprender são também valores centrais na saúde de uma democracia. Contrariamente à confusão que por vezes grassa por aí, nem todas as questões se resolvem por maioria e particularmente pela maioria dos que não estudaram e que não investiram na solidez do seu conhecimento. Como escreveu Marie Curie, “essa demonstração que nos custou tanto esforço...”.


E se de repente quase todos se julgam grandes médicos e engenheiros, todos mesmo todos se acham os mais habilitados dos juízes, julgando, condenando e em geral exigindo sangue. Quando leio o que se partilha na “net” ou se escreve nos jornais, quando ouço os comentadores televisivos tão tranquilos nas suas sentenças, às vezes sinto-me o único em Portugal que acredita nesta coisa simples: a presunção de inocência é a trave-mestra de um sistema judicial, não é um vaso à janela que dá uma côr à casa e que se arruma quando não faz falta. Ora isto implica que na dúvida não condenemos e que, como há sempre o risco de dúvida, os processos tenham lugar no recato dos tribunais e não no Jornal das Nove, onde se criam condenações “de facto”. Uma pessoa civilizada tem que conviver tranquilamente com a ideia de que um culpado pode ter que ser solto e que tal é um preço barato para garantir que um inocente nunca seja condenado. Na Idade Média, as pessoas acreditavam que um Deus vigilante garantiria que a justiça absoluta era sempre possível, nem que fosse com um julgamento divino: andar descalço sobre brasas sem ter dores ou coisa parecida. No século XXI, parece que continuamos a acreditar na mesma coisa, só que substituimos as brasas justiceiras pela douta opinião da Manuela Moura Guedes ou do João Miguel Tavares, as versões brega e chique da mesma mentalidade de pelourinho. Quem acha que há sempre um “mas” para matizar a presunção de inocência não se pode certamente intitular democrata.

A renúncia a ouvir respeitosamente o outro, a desconfiança face ao saber obtido com custo, a sobranceria da condenação ligeira, a facilidade com que as redes sociais se incendeiam, tudo isto muitas vezes se amalgama num horror às elites, porque estas acham que podem porque têm mais dinheiro, ou que têm a mania só porque estudaram, ou porque se não querem condenar fulano é porque são todos farinha do mesmo saco e anda tudo a meter ao bolso, ou qualquer outro excelente argumento deste género. Ora uma democracia funcional tem que ser um sistema elitista meritocrático, em que todos tenham as mesmas oportunidades independentemente da sua origem socio-económica e todos possam singrar em função do seu esforço. Que elites baseadas no mérito fazem falta à Democracia parece óbvio quando olhamos para Trump, um básico filho de milionários, e Obama, um cavalheiro oriundo da classe média-baixa, e a América de cada um. O discurso de ódio às elites, mais ou menos explícito, que anda por aí na tecla dos “facebookistas” e na boca dos bloquistas, acaba sempre por ser uma porta de entrada escancarada aos fascismos. 

Portanto, valores como o apreço pela dúvida e o que ela arrasta, de capacidade de ouvir e possibilidade de criticar, o investimento no conhecimento e na ciência e o reconhecimento do seu retorno, a aceitação da imperfeição da injustiça e do imperativo ético da presunção de inocência, a consciência do regime democrático como um sistema de elites meritocráticas em que, como bem dizia Daniel Oliveira, nos possamos orgulhar que o filho de um gasolineiro possa pelo seu esforço ser presidente da república, mesmo quando discordemos totalmente dele, são valores indispensáveis para segurar no sítio uma Democracia que se veja e que o seja.

Ora olho à minha volta e vejo pouco quem dê valor a estes valores. No espaço público, raríssimos: o Pedro Mexia, o António Barreto, talvez o Pacheco Pereira. No meu pequeno mundo, igualmente escassos. Vivemos numa democracia sem democratas. Não costumo puxar galões, até porque com a idade vou-me preocupando mais em polir os meus defeitos do que em puxar o lustro às minhas supostas e sem dúvida reduzidas virtudes. Mas desta vez vou aqui cometer uma arrogância: acho que tenho claros os valores que referi, e vou por isso terminar afirmando-me um democrata, por sinal filho de outro.

sábado, março 10, 2018

Oresteia ou a derrota dos tablóides



Fui há dias ao CCB, a que eu muitas vezes por lapso cavaquiano continuo a chamar, passados todos estes anos, Centro Comercial de Belém, ver a trilogia Oresteia de Ésquilo. Picado o bilhete, um átrio pequeno para tanta gente abrigava os pagantes do frio da noite de Fevereiro. Não se viam as portas da sala e civilizadamente uma fila foi-se formando, com fim mas sem princípio, uma vez que desembocava numa mole desordenada que ocupava o fundo da salinha. Acabámos por ser dos primeiros a entrar, involuntariamente à tuga.

Apesar de uma acústica deficiente e de um ou outro lapso de memória dos actores, não dei por perdidos tempo e dinheiro. Era o último dia e sabia pelas resenhas que lera que nos iriam servir uma versão modernaça, pontuada pela música dos Dead Combo. Gostei do que vi e ouvi: plasticamente a encenação é muito bela no seu despojamento e no jogo das luzes e das sombras sobre um cenário simples de panos translúcidos e o som minimalista mas obsessivo dos Dead Combo aviva o ambiente de tragédia que vamos acompanhando. Trata-se afinal de teatro: o que aparece em palco não é como no cinema uma realidade total, fotográfica, mas meramente os símbolos que são a essência da realidade narrada; portanto um mínimo basta e mais do que isso até pode ser demais.


Apreciei também que, embora reinventada, o encenador não se tenha esquecido que de uma peça grega clássica se trata, vergando-se subtil mas humildemente aos respectivos cânones: as máscaras, as poderosas falas do coro, os enfáticos monólogos das personagens dilaceradas pela tragédia, até as botifarras com que os actores entram em palco lembrando os coturnos que há vinte e cinco séculos os seus antecessores usaram para se altear ao público.

Oresteia compõe-se de três peças, Agamémnon, Coéforas e Euménides. As duas primeiras vão beber à maldição que atormenta a casa real de Agamémnon, rei de Micenas e líder dos gregos durante a guerra de Tróia. Ainda antes de a acção começar, os personagens já vêm marcados pela tragédia. Com efeito, Atreu, pai de Agamémnon, quando descobre que a sua mulher Aérope o andava a enganar com o seu irmão gémeo Triestes, decide vingar-se. Em vez de resolver o caso com uma espadeirada, vá uma cornada, o refinado Atreu assassina os filhos do irmão e serve a sua carne num banquete para o qual o convida, antes de o expulsar de Micenas. 

Educado nesta família algo disfuncional, em que a mãe come figuradamente o tio, o pai mata os primos, o tio come não-figuramente os primos e o pai exila o tio (e à época era pior ignomínia ser exilado do que guisado), não surpreende que o pobre Agamémnon tenha ideias estranhas. Por isso, quando um tal Calchas, oráculo de profissão na modalidade de interpretação de voo dos pássaros, lhe sugere que sacrifique a sua própria filha Ifigénia para ver se os deuses mandavam algum vento para empurrar até Tróia a encalhada armada grega, Agamémnon não se faz muito rogado. Hesita inicialmente mas pressionado pelos restantes comandantes gregos, que lhe vão dizendo que nem a guerra começava nem eles almoçavam, lá manda vir a cachopa para a degola sob o pretexto enganoso de a casar com o herói Aquiles. Para apimentar a situação, a falta de vento devia-se a uma birra da deusa Artemisa, que ficara chateada quando Agamémnon acidentalmente matara um veado num bosque sagrado que lhe era dedicado – veja-se o risco dos acidentes de caça. Agamémnon tem portanto dupla responsabilidade na morte da filha.

Isto passa-se antes do início da Oresteia, já que neste assistimos ao regresso a casa de Agamémnon, após dez anos de guerra de Tróia. Regressa vitorioso e com ele traz Cassandra, uma vidente. Clitemnestra, a mulher de Agamémnon – serão o casal com os nomes mais trava-línguas da história – andou dez anos a remoer a morte da filha e também não fica muito satisfeita com a presença de Cassandra, que ela vê imediatamente que serve mais para o marido ver o padeiro do que ver o futuro. Ressabiada, apunhala o marido na banheira – aos olhos da época uma agravante já que não só mata como fá-lo no sacrossanto recato do lar, onde o seu dever é atender o marido e não assassiná-lo – e de caminho limpa a Cassandra também, indo-se depois justificar em conversa com o coro. Nisto aparece Egisto, o amante de Clitemnestra – dez anos são muito tempo para quem não se chama Penélope – e este revela que a morte de Agamémnon foi premeditada e planeada também por ele. Para Egisto, trata-se de uma vingança já que ele é um filho não jantado de Triestes. Neste ambiente algo filme série bê acaba a primeira peça da trilogia.


Na segunda, Orestes, filho de Agamémnon e Clitemnestra e portanto irmão de Ifigénia, regressa a casa de um longo exílio na companhia do seu primo Pilades. Orestes também consultou o oráculo, onde o próprio deus Apolo lhe mandou matar a mãe para vingar o pai para ficar tudo quite. Orestes encontra a outra irmã, Electra, e envolve-a no plano assassino. Usando o velho truque de não ser reconhecido (para isso é que eles ficavam muitos anos fora) e com alguma ajuda do pessoal do coro, entra no palácio e trata primeiro do Egisto. Nesse momento a mãe entra na sala. Orestes hesita em matá-la tal como o pai hesitou em matar Ifigénia, só que está lá o Apolo em pessoa – melhor dizendo, em divindade – que o aperta um bocado, lembrando-lhe o combinado. Orestes acaba por perpetrar o matricídio o que tem como consequência desencadear a fúria das deusas Fúrias, umas precursoras do trio Mr. Smith/Mr. Brown/Mr. Jones do Matrix. Perseguido por estas, Orestas foge galhardamente do palácio pondo fim à segunda peça.

 Até aqui, temos tragédia grega no seu normal: os azares acontecem e há que pagar a conta, cumprindo o destino, repondo equilíbrios cósmicos. Atreu matou os filhos de Triestes, um outro filho de Triestes mata o filho de Atreu, Agamémnon. Agamémnon matou Ifigénia, a mãe de Ifigénia mata também Agamémnon, que leva por dois lados. Orestes, filho de Agamémnon, tem que reequilibrar o marcador matando os matantes do pai. Por muito bons que sejam os seus motivos, um crime tão horrível não pode ficar sem desforra e à falta de pessoas de carne e osso que o façam, as deusas Fúrias vão tratar do assunto.

Só que ao entrarmos na terceira peça, Eumenídes, o conceito muda radicalmente. As Fúrias perseguem implacavelmente Orestes e este, com alguma ajuda de Apolo, lá se vai safando até encontrar a deusa Atena, a quem pede ajuda. Atena cria então um tribunal no areópago de Atenas, onde a decisão vai ser tomada por jurados (nesta encenação o próprio público) que constituem um júri. Após ouvir Apolo e a Fúria-chefe, que funcionam como advogados de defesa e acusação, Atena conta os votos dos jurados: metade dizem culpado, a outra metade inocente. Atena usa o seu voto de qualidade para inocentar Orestes e quebrar a cadeia trágica de morte e vingança. Consegue convencer as Fúrias a aceitar o veredicto e muda-lhes o nome para Euménides, que significa “as amáveis”, pedindo-lhes que sejam uma força de vigilância e não de vingança. Atena acaba de criar o primeiro tribunal entre os homens, passando-lhes de caminho a responsabilidade pelos seus actos. Será o Direito dos homens e não mais os oráculos dos deuses ou a força do Destino que decidirão da culpa e da inocência.

Este final parece-me tanto mais notável ao constituir um rasgo com um conceito muito enraizado entre os gregos antigos, que é a inexorabilidade do destino: um mal não pode ficar sem vingança e esta ocorre mais cedo ou mais tarde, senão ao causador do mal então a alguém do seu sangue que sofrerá um mal de grau comparável. Nesta visão, o Destino é uma estrutura essencial do universo e mesmo os deuses lhe estão sujeitos. Tal é amplamente retratado nas tragédias gregas em que os personagens, por muito virtuosos e heróicos que sejam, sofrem o seu destino por pouca ou nenhuma culpa directa que tenham: Ifigénia não tinha nada a ver com que o pai por acidente ofendesse a deusa Artemisa. Mas tinha o mesmo sangue e por isso o seu destino ficou selado: a sua morte aplacou a deusa e reequilibrou o cosmos. Neste conceito de universo, dois males anulavam-se em vez de se adicionar.

Mas neste final Atena, deusa da sabedoria, acaba com isso. Há aqui um reconhecimento de que a justiça não pode ser perfeita, não sendo melhor a dos deuses que a dos homens, e que a complexidade das coisas requer debate, reflexão e julgamento. Nem sempre a culpa é um conceito fácil: todos os espectadores sabem que Orestes matou a mãe, o mais nuclearmente sórdido e contra-natura dos crimes, mas Ésquilo foi suficientemente hábil para induzir nos espectadores o melhor da natureza humana e levá-los a alinhar-se com o veredicto do tribunal.

Ora reparem como isto parece todo o contrário da voz que é corrente na nossa sociedade, tal como emana das redes parece que sociais e dos tablóides, entendendo-se por tablóides não apenas o Correio da Manhã mas também por exemplo os telejornais da Sic Notícias ou da TVI 24, com aqueles “pivots” que se auto-intitulam jornalistas como noutras ocasiões se auto-nomeiam escritores. A visão de justiça que sai dos ecrãs é infelizmente a das Fúrias e não a de Atena, é a de Micenas e não a de Atenas. Hoje, o julgamento faz-se na praça pública, regido pela aparência dos factos e pela aparência das pessoas, sem contraditório e com um desprezo indisfarçado pelas garantias da lei, que existem no entanto para proteger a Orestes como a cada um de nós de uma justiça que não seja mera vingança social. O que interessa neste nosso mundo de cento e quarenta caracteres máximos de reflexão é que haja sangue e aquela mindinha presunção de superioridade moral, “a la Bloco de Esquerda”.

Suponho que para Ésquilo o trágico fosse a condenação de um inocente e não a absolvição de um culpado. Para mim e estou convencido que para muitos outros, também. O homem civilizado, passe a imodéstia, vive bem com os riscos da vida: os terramotos, a doença e a morte, a imperfeição da lei dos homens que na dúvida liberta o culpado; mas não pode sofrer a ideia que por excesso de zelo ou falta de humanidade se condene um inocente, ou até que se transforme a justiça num espectáculo circense ao nível do comentário da jornada futebolística. Não sei se os que assim pensam são maioritários ou minoritários no Portugal de hoje, mas certamente carecem de visibilidade.


Pouco se conhece sobre Ésquilo. Nasceu em Eleusis à volta de 523 A.C. e morreu próximo de 456 A.C. Escreveu setenta a noventa peças das quais só sete chegaram aos nossos dias, nem sabemos se as melhores. Foi pai de família, teve dois filhos. Possivelmente vestiria uma túnica, calçaria umas sandálias toscas e comeria com os dedos. Não tinha telefone inteligente. E há dois mil e quinhentos anos escreveu e partilhou com os seus conterrâneos conceitos que hoje parecem esquecidos numa sociedade que se julga sofisticada, formada e informada: que a democracia e a justiça são uma preciosa dádiva dos deuses. E fê-lo de uma forma tão poderosa que pelo menos durante as duas horas da peça, ali no CCB, venceu a sanha dos tablóides.

sábado, fevereiro 03, 2018

Não se “tweeta” para o chão!



Põe-se a questão se um comportamento nefasto à sociedade, vulgar numa fracção significativa da mesma, pode ser erradicado pela exposição ao opróbio por parte da restante porção dessa sociedade.

Penso que sim e vêm-me à memória um exemplo. Recordo-me, ainda muito criança, do modo como se cuspia para o chão público na cidade de Lisboa. A boa escarreta era apanágio de macheza e não apenas nas zonas mais populares: lembro-me perfeitamente de ver senhores bem postos, de fato, gravata e pança, o cabelo abrilhantinhado em sulcos colados ao coco, óculos de massa e senhora dona pelo braço, rascar sonoramente as profundezas da faringe para atirar com uma clara de ovo para o meio do empedrado. Era de homem!

Claro que já então, e falo dos anos sessenta do século passado, a langonha projectada era mais provável em certos meios do que outros. Havia tascos aos quais, quando passando na rua em frente à entrada, convinha dar uns metros de folga porque se arriscava a levar com uma verde voadora oriunda do interior. Ouvia-se o rrrrrrrrre inequívoco e lá aparecia a cabeça de um habilidoso no quadro da porta, puxando o pescoço para trás para dar mais balanço, preparando-se para tentar depositar os seus bacilos no alcatrão da estrada, o que se conseguido seria feito aplaudido pelos restantes javardos acotovelados ao balcão de mármore da taberna. Os passeios da cidade reflectiam esta mentalidade cuspinhante, obrigando os traseuntes a algum “slalom” pelas calçadas.

Como as crianças tomam por bons o comportamento que observam nos adultos, também eu um dia decidi cuspir para o chão na rua, e logo em frente à minha mãe, para mostar como estava crescido. Deveria ter meia-dúzia de anos nessa altura, e expeli divertido uma salivazinha inocente, que foi cair poucos centímetros à frente dos meus pés. Para minha surpresa, levei de imediato uma rabecada da minha mãe, que me esclareceu que era porco cuspir para o chão. Fiquei confuso, uma vez que do que eu via escarrar para o chão era coisa normal nos senhores crescidos, mas esta breve objecção morreu logo ali. Fui informado que só carroçeiros se comportavam assim e que cuspir era um péssimo hábito que propagava a tuberculose, a labreguice e outras maleitas contagiosas. Foi lição que me ficou para sempre.

Outras mães devem ter feito o mesmo bom trabalho, e avós, e autoridades sanitárias, uma vez que hoje, uma geração depois dos factos acima narrados, é muito raro ver salivar para o chão. As excepções contam-se pelos dedos de uma mão: futebolistas após um “sprint” de cinquenta metros, alguns adolescentes na parvoeira, tipos com a palavra mitra tatuada na testa e poucos mais. Anos e anos de ralhetes, de olhares de soslaio com ar enojado para os faltosos, de “parece impossíveis” murmurados em voz suficiente alta, acabaram por envergonhar os prevaricadores. E assim se eliminou, com tempo e persistência, um comportamento individualmente saloio e colectivamente perigoso.

E ainda bem que assim foi, porque mostrou que a panaceia colectiva é possível, conclusão importante já que comportamentos individualmente saloios e colectivamente perigosos para demolir não faltam também nos tempos que correm. Um deles, que agora abordarei, prende-se com o modo liberal com que nas redes sociais o pessoal debita, lê e partilha palpites irreflectidos e notícias idiotas. A seu modo, uma nova forma de escarrar no espaço público, só que enquanto as doenças das antigas escarretas atacavam os pulmões, as destas novas destroem o cérebro, um orgão menos indispensável à vida mas que não deixa de dar um certo jeito e cuja degradação em grandes números coloca em risco a sobrevivência das sociedades civilizadas.

Há três anos e tal escrevi aqui um texto sobre o Facebook, que incluía o seguinte parágrafo:

“A tecnologia está aí e vai continuar. O que não quer dizer que tenha que estar acima de toda a suspeita e fora de todo o controlo. Coisas como a retenção em base de dados das nossas pesquisas na “internet”, as tecnologias de reconhecimento facial ou os óculos da Google, se deixados fora de controlo são o sonho de qualquer sistema ditatorial. O poder de entidades como o Facebook ou a Google, monopólios de informação e estruturas multinacionais e não-nacionais que fogem a qualquer escrutínio, constitui um dos grandes desafios para os regimes de direito e democráticos tais como os conhecemos desde as revoluções inglesa, francesa e americana dos séculos XVII e XVIII e que com altos e baixos criaram os modernos espaços de liberdade individual que erradamente julgamos inamovíveis. O poder dessas empresas tem um potencial – não tenhamos medo das palavras – fascizante e deveria enquanto cidadãos preocupar-nos. Perceber que o risco existe e que é fundamental controlá-lo pode ser um bom ponto de partida.”

Na altura levei muita pancada por esta heresia e gente amiga chegou a comparar-me ao autraulopiteco por causa desta audácia, desmerecendo certamente o nosso ilustre avô. Três anos passados, verifico que contrariamente ao que é normal pequei por defeito e não por excesso. Entretanto, os progressos da barbárie populista na Europa – incluindo nesta o Reino Unido – e nos Estados Unidos, bem como as intromissões manipuladoras da Rússia em processos políticos no Ocidente, levaram muita gente a pensar que o impacto das redes sociais na política, no jornalismo, na sociedade, talvez não estivesse a ser o nirvana que se dizia. Caldos de cultura de uma mentalidade de bufos, que recuperam a cobardia da turba e os velhos tiques puritanos e beatos, veículos de propagação de ideias reacionárias alicerçadas na repetição indocumentada da mentira, os Facebooks e quejandos não são afinal o novo tabernáculo, mas meramente a velha taberna. E por isso a inquietação sobre como voltar a meter na lâmpada o génio diabólico já chegou aos políticos de topo e – pasme-se – até o Zuckerberg finge estar preocupado com o assunto.

Bom, tendo-se constatado que há bronca, poder-se-ia começar a pensar nalguma regulação das plataformas, mas há sempre o aspecto desagradável de facilmente se cair na censura, com o risco da emenda ser pior que o soneto. Será talvez aceitável regular as redes de modo a que não sejam canais para a prática de crimes, ou classificar a informação de modo a alertar para o carácter publicitário ou enganoso daquela que falsamente pretenda passar por notícia ou mesmo criar limites de idade: as redes sociais tendem a ser coisa badalhoca, pelo que não me chocaria impedir os menores de idade de aceder, tipo filmes da bolinha vermelha com platinadas e tarzans. Regras destas sim, agora proibir não, porque a censura é uma encosta a pique: começa-se à beirinha a apagar o “post” neo-nazi e acaba-se lá no fundo a proibir o Tratado da Tolerância. Adicionalmente, o princípio de desigualdade entre pessoas implícito no acto de censura rapidamente induz mais arbitrariedade, uma vez que os que acham que sabem melhor não se vão impedir de exercer poder sobre os outros em todos os campos.

Mas o problema mantém-se. Como evitar as torrentes de peçonha que todos os dias manam do Facebook e do Tweeter, como prevenir que os “trolls” – um palavrão cibernético que significa “labrego analfabeto” – tomem conta da agenda política e mediática através de imbecilidades dedilhadas “webi et orbi”? É verdade que no fim do dia a culpa não reside nos algoritmos informáticos, que fazem o que se lhes manda, mas no comportamento cavalar, intencional ou inadvertido, de uma larga percentagem de utilizadores. Como eliminar esse comportamento? Se calhar como se eliminou a escarreta no chão, com forte reprovação pública a um conjunto de actuações que muitos hoje praticam por falta de quem lhes chame a atenção, convencidos que estão de que a parolice “on-line” é moderna e a parolice falada ou escrita é arcaica.

Uma das formas de sanear as redes sociais passará pois por criticar com ar de profundo enjôo ou mesmo ostracizar socialmente amigos ou desconhecidos que saibamos pratiquem em frente ao teclado certos comportamentos perigosos para a sociedade. Enumero alguns:

- deixar comentários anónimos em “sites” de jornais, especialmente se forem do tipo “são todos corruptos” ou a manifestar dor de corno em relação a algum tipo que ganhe bem;

- escrever no Tweeter qualquer coisa mais longa que “parabéns”, “traz leite”, “passaste a Álgebra” ou “1-0 Bas Dost”; na realidade o Tweeter tem cento e vinte caractéres a mais;

- partilhar notícias no Facebook, quem quiser leia um jornal daqueles com parágrafos e tudo;

- ler notícias no Facebook, quem quiser leia outro jornal, desses com muitas linhas umas abaixo das outras;

- sendo jornalista, usar redes sociais como fontes sem cruzar à antiga com pelo menos outras três fontes sérias; ou seja, trabalhar pouco;

- repetir qualquer informação exibida no Facebook que verse sobre política, economia, ambiente, justiça, história, religião, ciência ou o inevitável fim da humanidade esta semana; com noventa por cento de probabilidade a informação será falsa; se a fonte original tiver a extensão “.BR” a probabilidade passa a noventa e nove por cento;

- comentar no Facebook temas escorregadios que por azar a rapaziada do Bloco possa curtir: vasos de ganza, direitos de cães e gatos, cereais transgénicos, formas de energia que não respeitem o segundo princípio da termodinâmica, sexualidades exóticas, borlas pagas pelos outros, etc.;

- mandar vir com outras pessoas em qualquer rede social, o equivalente informático da altercação entre bêbados nos tascos;

- aderir a qualquer causa que use “hashtag”;

- formar a opinião sobre qualquer assunto com base em informação de redes sociais; para pensar sobre qualquer tema existem como alternativas mais saudáveis o debater com outras pessoas, o ler e o usar aquela protuberância logo acima do pescoço.

Portanto, se o estimado leitor se aperceber de alguém ao pé de si a praticar alguma das javardices supracitadas, não hesite em actuar. Se for um conhecido, a receita da minha mãe serve: um calduço suave na nuca e um raspanete a sério no ouvido. Qualquer discurso que inclua “és uma besta” será certamente apropriado. No caso de um desconhecido, à cautela, será civismo suficiente um olhar de mete-asco e um sonoro suspiro daqueles que significam “há cada atrasado mental”. Talvez com tempo esta crítica colectiva leve a que a gente de bem acorde e desmame as redes, só lá ficando a ralé. E com mais algum tempo pode ser que esta também ganhe tino e as redes morram sózinhas, ressequidas, inúteis, penduradas nalgum servidor esquecido por aí. Não seria mau momento para a humanidade.