Mostrar mensagens com a etiqueta Rimanços. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rimanços. Mostrar todas as mensagens

domingo, outubro 17, 2010

Princeps

Príncipe, meu príncipe
Possam ventos de auspício enfunar tuas velas
E cintilar no breu, chamando, tuas estrelas
Possas tu ser artífice
De noites adamantinas, de dias dourados
Que com eles bordejes qual arminho
O longo veludo que feito caminho
Te conduza aos destinos almejados

Príncipe, meu príncipe
Teu reino sem ti agora sombreja, estranho
Bruxas voando sobre memórias d’antanho
Lampejam como ápices
Átomos de esplendor, risos na sala do trono
Um passado sem mácula nem obstáculo
Numa torre em que no mais alto pináculo
Florescia a rama verde do sonho sem sono

Príncipe, meu príncipe
Lá longe, da tua nau bruxuleia a chama
Por cá, de teus passos a saudade clama
Príncipe, meu príncipe
Que venças seguidas tuas duras pelejas
Não erre teu olhar como Orfeu para trás
Sussurremos nós, por onde quer que vás
Prece sofrida pela vitória que ensejas


sexta-feira, maio 08, 2009

O meio-dia

Nota: saudades repentinas de um dia esplêndido na serra algarvia. Hoje deu-me para isto (indo para velho?) e fui buscar este ao meu baú, que fica num disco rígido.

O gato ronrona branco
Sobre listas amarelas dormindo
Adossado a uma toalha azul

O disco do sol a sul
Esbraseia o barrocal
De tantas fagulhas refulgindo

Tu na espreguiçadeira
A leitura suspensa num pensamento
O olhar perdido no horizonte de amendoeira

E eu simplesmente atento
Figurante de um quadro de Setembro
Dando graças por aquele momento

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Os cumes

Texto já antigo, em antecipação da temporada de "ski" que aí vem.


A cadeira subia etérea
A sua estrada unifilar

Daquela amurada aérea
Os cumes a alvejar
Ao longe chamavam
Como sereias esvoaçando
Em torno de Ulisses regressando

O cabo em súbita paragem
Deixou-me suspenso
Da beleza da paisagem
Que soberba a Montanha
Como um Deserto ou o Espaço
Ou o longilíneo infinito dos Rios

Curioso é que tão absolutos vazios
Nos encham a alma de forma tamanha

sexta-feira, novembro 23, 2007

A vida eterna

Passados cinquenta anos
De mim
Que restará?

Uma fotografia esmaecendo numa prateleira
Com roupas de outra era
Numa felicidade passada
Decorando um “hall” de entrada
Entre um jarrão e uma salva
Com crianças a perguntar quem era

Talvez uma biblioteca,
Livros amarelecendo
Ocupando um recanto
Na casa de algum descendente
Que se lembrará que ainda existo
Quando diante de um livro surpreendente
Se admirar (Ele lia isto?)

Alguns genes, certamente
Aparecendo ocasionalmente
No desenho de um queixo
Ou no sorriso de um bisneto

Ao princípio, os mais velhos dirão
Sorri como o avô sorria
Mas chegará o dia
Em que os mais velhos partirão
E aí serei apenas sorriso e queixo
E, embora sendo, ninguém saberá que sou eu

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último pôr-do-sol de Agosto nos Aivados

Dedicado aos que lá estavam


Caso para dizer: fabuloso ocaso!

A maré prostrou-se, em homenagem
E os seixos e a rocha
Subitamente emersos
Entre murmúrios diversos
Respiram de modo cavo
E nem uma brisa (ou aragem)
Perturba o olhar, escravo
Do horizonte em tocha

Lenta, contra o céu de anil,
A silhueta do pescador de ondas
Carrega no braço seu batel
Nos olhos memórias frágeis
Enquanto sobre dunas redondas
Correm negras e ágeis
Pequenas sombras de papel
Em feitiços e risos mil

A Lua espreita impaciente
Gorda de dias, e luzidia
Não esperando que o Sol ponente
Dê oficialmente por findo o dia
No campo a sombra ainda tarda
Que o Sol partindo em glória
Para deixar melhor memória
Todo o brilho para si guarda

Talvez o raio de sol último
Nos traga esta incerta saudade
De outros fins de dia
Nestes sítios, noutra idade
Num tempo que já não volta
Em que preso em nós vivia
O amor agora livre e múltiplo
Que corre descalço à nossa volta

sábado, junho 16, 2007

O cão nauseabundo

(Private joke)


Não sei qual dia fora
De um mês que já passou
Em que algures na Beloura
Eram cinco a jogar Tarot.
Por sobre a toalha vermelha
Ferviam cortes e puxadas
E acusações de ser aselha
Por mor de um seis de espadas.

Vai um dado momento,
Tudo de soslaio a mirar:
Um jogador menos atento
Acabara de se largar.
Fora discreto o autor
No som, mas não no resto:
Compensava pelo odor
O silêncio de tal gesto.

Ora havia na casa um cão
Que não devia nada à limpeza:
Estava ele por trás da razão
Do mal-estar naquela mesa.
Olhando os jogadores arfava,
Com um arzinho satisfeito,
E o pessoal enquanto jogava
Ia trocando um olhar suspeito.

Até que o dono da casa, agoniado,
Explicou a todos a situação.
Não fora pois nenhum convidado:
Quem se borrara fora o cão.
E arrumando cartas com alarde
Passou-as ao vizinho já cortadas:
Preferiu não arriscar uma “garde”
Para ir escancarar as portadas.

sábado, fevereiro 17, 2007

Os teus braços

Dedicated to the one I love...


A casa regresso quando parto
Nela entro assim que saio
O meu suspiro de soslaio
Mira tua porta quando parto

Quando vagueio pelas vielas
Vejo sempre luz em tuas janelas

Vou revendo e não me farto
E quando me julgo mais distante
Percebo que mesmo que errante
Por mais que vá não me aparto

Teus braços são a minha casa
A eles volto sem ter saído
Se mais longe ando perdido
Mais teu sopro aviva a brasa

Se me julgas fora sou presente
Mesmo que alheio não ausente

A minha casa são os teus braços
Regaço de calma prometida
Que qual farol no breu da vida
Alumia a volta de meus passos