Novembro de 2010 foi o primeiro mês sem “post” desde o início do Mataspeak. Trabalho, trabalho, muito trabalho, o “stress” da crise, preocupações várias mataram no ovo os poucos fogachos de inspiração e vontade que possam ter crepitado nos meus neurónios. Pelo meio uma viagem a Cochim, capital do estado de Kerala, “terra natal de Deus” como eles lá se orgulham.
Em Cochim morreu o homem da volta do mar largo, o alentejano Vasco da Gama, e aí ficaram seus ossos até o seu irmão Paulo os recuperar e levar para casa. Em Cochim aterrei eu após escalas em Veneza e Dubai, depois de um dia inteiro para voar meio mundo: ainda assim pouco comparado com os seis meses de caravela do meu ilustre antecessor naquelas paragens.
Na ida larguei de Dubai à noite: a filigrana que luzia cá em baixo não diferia de qualquer outra cidade do mundo. Por sorte, aterrei no regresso com a alvorada. Olhando pela janela à medida que o Airbus descia mansinho vi sucessivamente a vastidão ocre do deserto bordando o Índico, apenas riscada pelas linhas negras de estradas imperturbadas, rectilíneas durante quilómetros e quilómetros. Depois bairros e mais bairros de vivendas de açoteia, pardacentas do pó que sopra do interior da península arábica. À medida que o avião rodava para aproximar à pista, desenharam-se no horizonte já cálido da manhã os arranha-céus multiformes da Dubai dos negócios, milagres da tecnologia e da finança improvavelmente nascidos num antigo acampamento nómada. Apesar de àquela hora as ruas já regurgitarem de SUVs brancos e táxis, ao longe Dubai parece uma cidade fantasma de tão imóvel, uma metrópole de outro planeta cuja população antes gloriosa tivesse desaparecido misteriosamente.

Mas não é. O aeroporto de Dubai fervilha. Na enorme nave, de um luxo ostentatório que grita a nova riqueza em berros de cromado e néon, cruzam-se árabes de “dish-dash-ha” imaculadamente branco, a cabeça coberta pelo “shumagg” de reticulado vermelho, anglo-saxónicas de um rosado ridículo em trânsito para a Ásia, grupos nipónicos em sentido contrário, indianos de regresso a casa, apinhados de bagagem, filipinos de volta ao trabalho nos restaurantes e nas obras dos Emirados. Passeiam com ar interessado nas lojas da Rolex e da Boss, abocanham “Big Macs”, fazem filas enormes junto às portas de embarque onde altifalantes num inglês de sotaque oriental chamam para Roma, Bombaim, Cairo ou Dacca, num burburinho miscelâneo que reverbera pelas paredes de cristal. O Dubai é digno sucessor dos entrepostos comerciais de outras eras, onde se cruzavam rotas da seda e das especiarias e as muitas e desvairadas gentes que Fernão Lopes citava na Lisboa quatrocentista.
Já o aeroporto de Cochim é modesto. Em vez das formas arrojadas dos mais caros estiradores de arquitectura, dos vidros e dos perfis metálicos, linhas quadradas, em alvenaria pintada de rosa, com telhados de quatro águas em telha de barro vermelho. Nos serviços fronteiriços, o meu primeiro indiano é circunspecto, pequeno, de bigode fino. Olha para os meus documentos com desconfiança, passa-os num leitor com desconfiança e escrutina o ecrã do computador com desconfiança. Pergunto-me se no sistema informático ainda estarão crimes ou dívidas dos meus antepassados por estas bandas. Não seria de admirar. Os historiadores indianos têm dos portugueses a imagem que os polacos terão dos russos, ou os gregos dos otomanos. Facínoras sacanas, provavelmente merecida. Pergunta-me a que venho e parece reconfortá-lo o facto de eu vir assistir a uma conferência e não estabelecer uma feitoria. Desata num festival de enérgicas carimbadelas no passaporte, nos formulários, talvez mesmo em cima da mesa. O som surdo que sai das várias cabines soma-se num exótico festival de percussão. Devidamente carimbado, saio para o bafo da manhã de Kerala.
Um carro espera-me para me conduzir ao hotel. Como é habitual a leste do Suez, o ar condicionado está calibrado para os dez graus centígrados. O médico avisara-me sobre a malária, mas o verdadeiro risco é a pneumonia. Vou tiritando e observando a paisagem. Do céu, pudera ver uma vegetação generosa e densa de palmeiral, raiada de rios curvando e recurvando. No chão, vou passando as palmeiras e cruzando pontes. Guia-se teoricamente à esquerda, uma das heranças coloniais que os ingleses deixaram, juntamente com o críquete e a “common law”, para além de uns milhões de mortos, claro. Mas o meu condutor divide-se equitativamente entre as duas faixas, evitando “in extremis” a sucessão de obstáculos buzinantes que vão aparecendo na longa recta. Em miúdo, jogava no Apolo 70 numa máquina cujo objectivo era exactamente este: evitar o acidente tanto tempo quanto possível. Provavelmente para cortar o ângulo de visão e evitar que eu me assuste em demasia, o carro ostenta suspenso do retrovisor um penduricalho gigantesco, o maior que eu já vi, e que poderia servir de “abat-jour” numa sala de jantar senhorial.

Entramos em Cochim. O trânsito adensa, sem se tornar caótico. Há carros, motoretas-táxi, motas com o pai de capacete e a família de cabeça descoberta, camiões de carga batidos, cisternas para águas limpas e águas sujas. Um enxame de cores etiópicas, ziguezagueando de amarelo e encarnado e letras hindus verdes, buzinando, ultrapassando-se, evitando peões ligeiros que safam a pele no último segundo. Nem todos: os autocarros, uns caixotões Tata batidos, sem vidros nas janelas e pintados de um vermelhão vivo, são conhecidos por “red killers” pela mossa que fazem nas estatísticas de mortalidade. Verifico que enquanto o motor aguentar, não há conceito de carga máxima. Na faixa ao lado crepita uma lambreta puxando um atrelado de um metro quadrado no qual se empoleiram duas vacas que tremelicam assustadas, as pernas magricelas bamboleando.

Cochim não tem passeios. Entre o alcatrão e as casas ou os muros há um espaço de lama, poça, lixo e erva rala que ondula por quilómetros e que une democraticamente vivendas finórias, barracos de venda de fruta, modernos stands de automóveis, prédios baixos com ar cansado. Quando a correnteza de construção hesita, dando espaço a um baldio, logo se acumulam montes de lixo em sacos brancos, que os corvos vêm depenicar.
Apesar da sujidade, Cochim revela-se bonita na sua anárquica girândola de cores. Aparentemente, os indianos adoram cores fortes. Óptimo, eu também. Os cartazes nos comércios, os “outdoors”, desproporcionados, as casas, os veículos, compõem-se num festival de tons. Não há camionista que não combine o amarelo vivo, o vermelhão, o azul forte. As igrejas (há muitas em Kerala) parecem casas de bonecas azuis e laranjas com uma cruz num pináculo. Os hotéis populares, à beira da estrada, são encimados por um anúncio berrante de lado a lado, identificando-se como vegetarianos ou mistos “vegetarian and non-vegetarian”. A este caleidoscópio ajuda o apurado sentido de “marketing” dos indianos. Qualquer boteco em chapa de zinco com uma mesa e duas cadeiras, onde sirvam chá, possuiu um gigantesco cartaz encarnado com letras garrafais a anunciar o “great deluxe international coffee shop”.
O hotel que albergou a conferência (e, mais importante, a mim), um Méridien, é tido como um dos melhores de Cochim. O acesso dá-se por umas cancelas fabricadas na metalo-mecânica da esquina. À sua frente, alguns bidões batidos e garatujados com um “stop” ingénuo formam uma chicana para prevenir imaginários arrombamentos. A recepção e as zonas comuns do hotel são numa construção baixa e quase luxuosa. Por trás, um longo passadiço conduz a um cais onde se apanha o barco para uma torre modesta, onde ficam os quartos. É a primeira vez que fico num hotel com rio pelo meio. Também é a primeira vez que o meu hotel oferece ioga às seis da manhã. Prescindi em prol de um muito ocidental roncanço até às oito.

Os cinco minutos de trajecto de barco entre os dois pólos do hotel foram dos momentos mais agradáveis dos três dias que ali estive. As margens, pujantes de palmeiras, tinham um ar de selva, apesar de estarmos numa cidade maior que Lisboa. Pelo rio desciam farfalhudos magotes de umas plantas aquáticas a quem Darwin instalara uns flutuadores nos caules. A meio-caminho entre os dois ancoradouros havia uma rede chinesa. As redes chinesas são um dos ícones de Cochim: uns aranhiços toscos de madeira, altos como uma casa, que seguram nos braços uma enorme rede de malha fina. Normalmente, os ícones turísticos são mais turísticos que ícones. Lembro-me das casas de telhado de colmo de Santana, que tudo visita e onde já ninguém mora ou dos palheiros da Costa Nova, meros justificativos da barbárie construída que os cerca. Ao contrário, neste ícone indiano trabalho um indiano que dele retira seu sustento. Saindo da barraca de chapa que construiu na margem, mete-se pelas águas espessas, baixa a rede e sobe-a, à distância tão vazia antes como depois.

Os rios são, em Cochim, ruas e estradas. Em frente à torre onde dormi, um barqueiro transportava gente de uma margem para outra, remando de pé à popa. No último dia da minha estadia demos um passeio de barco até ao esplêndido espelho do lago Kumarakom, onde jantámos juntos, centena e meia de congressistas e vários milhares de besouros e outra bicharada sortida. Seguimos vários braços de água estreitos. Ao longo das margens fluía uma correnteza de casas, lojitas, “outdoors”. Havia paragens para barcos de transporte público, com gente à espera. Aqui e ali um restaurante, um templo, uma igreja, uma loja da Vodafone, pessoas que lavam a roupa, fumam o cigarro, carregam um menino. Cá, os rios separam as margens, lá na Índia ainda as unem.
No regresso, de autocarro, seguíamos por uma longa recta ladeada de boas moradias com jardins generosos quando o motorista travou a fundo, de repente. Uma jibóia com bons três metros, gorda como um braço, arrastou-se lentamente pelo alcatrão e a camioneta só arrancou quando a cauda desapareceu na vegetação da beira da estrada. Suponho que os privilegiados proprietários daquelas casas deverão ter de vez em quando direito a uma jibóia na cozinha, como nós temos aranhiços ou lagartixas. Talvez Índia sem uma cobrazita não seja Índia.
Três dias de Índia não são nada. Pouco sabia dela, pouco continuo a saber. Deram para perceber que é pobre, suja, desigual, injusta. Aqueles que invejam o dinamismo da jovem sociedade indiana e lamentam a inércia da velha Europa não sabem do que falam e ignoram o tiro nos pés que dão com essa filosofia barata. A maior parte dos muitos indianos que vi mudava-se para a periferia de Lisboa, Berlim ou Milão na horinha, sem pestanejar.
Mas só as três primeiras horas chegaram para entender que a Índia é diferente de tudo o mais e bela para além das suas chagas. Fiquei marcado para voltar. Por pouca Índia que fosse, esta visita pareceu o olhar de um rapariga que se cruza com o nosso numa estação de metro e que, mesmo nada sendo, nunca se esquece.