terça-feira, novembro 08, 2011

Férias (IX) – Terceira leitura

O Verão prolongou-se inesperadamente para além das férias estivais e com ele o último “post” sobre as férias. Vindas as primeiras chuvas, há que fechar este capítulo. E já tarde vai.

Contei antes sobre a primeira e segunda leituras dos meus vinte dias a banhos. A terceira deu-se num formato impróprio para praia, um tijolo de setecentos páginas, de capa dura, rebolando permanentemente na areia por acidente: uma “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos e escrita pelo próprio, por Bernardo Vasconcelos e Sousa e por Nuno Gonçalo Monteiro. Mau grado o desconforto que o calhamaço provocava, acabou por ser a leitura mais proveitosa das minhas férias e também dos últimos tempos e também muito a propósito destes últimos tempos de permanente negrume nas notícias, nas políticas, nas mentes.

Eu já lera antes outros livros com o mesmo título e o mesmo difícil objectivo: condensar nuns centos de páginas mais de mil anos de vida daquilo que veio a ser e foi Portugal. E o que me desconcertou neste livro foi a sua novidade. Os autores pegaram num tema batido que eu petulantemente pensava que conhecia e pela selecção dos factos que consideraram mais relevantes, pela escolha de números que lhes pareceram mais indubitáveis, pela crítica por vezes mais desprendida do que correu bem e correu mal, acabam por construir uma panorâmica da nossa história diferente da que nos foi despachada na escola e narrada por outros compêndios.

Só marginalmente me deveria surpreender, porque aí reside uma das riquezas da História: é que ela não é só uma, são muitas.

Tal nova visão talvez resulte do facto de ser a primeira obra deste tipo escrita por historiadores que se formaram já após o 25 de Abril e que por isso estão menos presos a reverências ou falta delas para com eventos ou regimes que, à “esquerda” ou à “direita”, tiveram a simpatia dos que os precederam nessa empreitada de escrever uma “História de Portugal”. Por isso, ao afastarem-se do monolitismo com que certos temas tinham quase obrigatoriamente que ser tratados em gerações anteriores, ao introduzirem matizes no que antes só se ensinava a preto e branco, acabam por formular uma imagem mais rica, mais iconoclasta, mais indutora de reflexão que noutras obras semelhantes que eu já lera. E como cereja em cima do bolo, permitindo retirar lições oportunas para encarar o momento de aperto pelo qual Portugal passa hoje – ou não fosse esse um dos objectivos de conhecer a História.

Na escrita, Rui Ramos, que trata o período contemporâneo (das invasões francesas até ao presente), supera claramente os seus dois colegas. Com uma noção muito mais clara de que divulgar História passa por contá-la e não por dissertá-la, sem medo de usar a anedota ou a “petite Histoire” para ilustrar um período ou vincar um argumento, sem complexos sobre a necessidade de documentar em excesso, escreve sobre o tema como os ingleses, que se lêem bem apesar de pedantes, e não como os franceses, que são uns chatos encartados porque pedantes.

Para dar exemplo de uma visão diferente sobre ideias feitas antigas, está o tratamento que se dá ao período filipino, muito menos dramatizado que a versão “oficial” e nacionalista de um interregno sombrio de sujeição a Espanha: o “Estatuto de Tomar” deu a Portugal a condição de reino herdado e não de reino conquistado, permitindo-lhe uma autonomia no seio da monarquia dos Habsburgo que outros reinos integrados na mesma, como Nápoles, não tinham, e com um papel importante das elites portuguesas na condução do país e das colónias. Neste aspecto, os dois primeiros Filipes, pelo menos esses, “jogaram o jogo”. E se calhar tínhamos mais independência então do que agora.

Outro exemplo – cujo referência temo que me vá merecer muita indignação entre alguns amigos e familiares – passa por uma desmontagem da imagem mais idílica que se tem  do vinte e cinco de Abril como processo sem espinhas. Rui Ramos faz notar que no período logo imediatamente após a revolução o tratamento dos direitos individuais em Portugal andou muito por baixo, com mais de mil detidos (cerca de sete vezes o número de presos políticos aquando da queda do Estado Novo), sem motivação criminal, privados de assistência jurídica, por períodos que chegaram a dezassete meses, inclusive com alguns casos de tortura e privação de assistência médica.

E quanto a ilações para o momento presente? Refiro três ou, talvez, quatro.

Uma primeira é que Portugal não desaparecerá desta. Passou por muito pior e contra todas as probabilidades sobreviveu. Foi campo de combate de guerras europeias. Sofreu a maior catástrofe natural de que há memória na Europa. Teve exércitos espanhóis a entrar por aí dentro em números impossíveis de contrariar. Combateu guerras civis. Perdeu a independência. Viu-se excomungado pelo papa. Foi herdado pela coroa de Castela. Falhou pagamentos da dívida soberana (Fontes Pereira de Melo fê-lo uma vez de propósito, resolveu o pagamento das necessidades internas e em três anos “voltou aos mercados”). Perdeu a canela da Índia, o ouro do Brasil, os diamantes de Angola e os subsídios comunitários. O Sporting ficou uma vez em nono lugar no campeonato. Apesar de todas estas desgraças, ainda cá estamos e cá continuaremos.

Outra é: esqueçamos a teoria do “bom aluno europeu”, percamos esta ânsia de sermos admirados ou considerados como iguais por alemães ou ingleses ou franceses. Não vamos ser, pelo menos durante muitas gerações. O racismo gordinho contra os preguiçosos morenos do sul propalado por Angela Merkel e pelo seu ministro das finanças com ar de “unteroffizier” não difere substancialmente dos preconceitos de Junot contra os costumes portugueses, do desprezo de Wellington sentando-se no lugar do rei no S. Carlos ou dos burocratas da CEE que nas negociações do nosso processo de adesão queriam restringir a nossa circulação no espaço europeu. “Realmente” - terão pensado – “deixar portugueses à solta por aí!”

Junot, Wellington e os eurocratas, todos tiveram a sua corte de bem-pensantes nacionais que gostavam de ser civilizados como os franceses, os ingleses ou os europeus. A solução não está aí. Está em ser bom, em ser o melhor possível por comparação com padrões exigentes que nos imponhamos, não por uma reverente equiparação com um ideal europeu. Isto é um contra-relógio, não uma corrida em pelotão em que temos fazer o jogo do chefe-de-fila. A Europa é um pacto, um negócio. Quando negociarmos, devemos estar conscientes de como os outros nos vêem (como uns atrasados) e usarmos isso em nossa vantagem. Façamos – aí sim – como eles: sejamos cínicos e tentemos sacar o máximo.

Em terceiro, é curioso verificar como existe uma recorrência no modo como as sucessivas elites políticas na monarquia constitucional, na primeira república ou no actual regime democrático encontraram um equilíbrio na rotação no poder, na partilha de prebendas e no esgotamento dos recursos do Estado. Tal resultou na anomia desses regimes e, nos dois primeiros, nas suas quedas. Curiosamente, Rui Ramos faz notar que nunca essas elites sentiram que do lado do povo viesse qualquer perigo. Temiam, na monarquia e na primeira república, o que podia acontecer do lado dos militares. Dizia um político do princípio do século passado que desde que a tropa andasse satisfeita, estava tudo bem.

A ver vamos se nos safamos melhor desta e se a esfrega que vamos levar agora é de modo a que nunca mais toleremos a perpetuação de certos regabofes. Talvez agora percebamos finalmente que acabamos sempre todos por pagar com língua de palmo e taxas agravadas de imposto as obras faraónicas, as desorçamentações espertalhaças, os direitos inalienáveis insustentáveis e tudo o mais que os Albertos Joões Jardins, os Fernandos Ruas ou os Mários Nogueiras deste país nos queiram atirar para cima.

Por último – e é a tal quarta. Dá sempre gosto ler a História deste país. Não somos os maiores, mas somos dos maiores, só por aqui ter chegado com todo aquele passado na bagagem, do mais sublime ao mais infame. É tão fácil amar Portugal. Hoje mais do que nunca.

domingo, outubro 16, 2011

Férias (VIII) - Um suave milagre

Nos dias de Agosto que passámos no sul de Espanha, àquela hora lusco-fusca em que o sol partindo leva com ele a brasa africana da tarde, reparámos em muitas famílias que passeavam pela marginal que bordeja a praia empurrando carrinhos ou cadeiras de rodas levando crianças com deficiências.

Sei que o termo “deficiência” pode levantar protestos de horror afectado entre aqueles que pensam que o que importa são os vocábulos. Pois não quero saber. Gostaria que a sociedade gastasse menos tempo a indignar-se por não se dizer “pessoa de mobilidade reduzida” ou “portador do síndrome de Down” ou qualquer outro termo de hipócrita satisfação de consciências e mais a horrorizar-se por os recursos dos nossos impostos não serem afectados na proporção necessária a essas pessoas e às suas famílias. O politicamente correcto é uma sarna da nossa sociedade, uma erupção de pele originada pelo mal colectivo de que padecemos. Não deveríamos ter medo das palavras. Afinal, um coxo é um coxo, um paralítico é um paralítico e um liberal que tenta usar as leis do mercado para explicar que não é papel do Estado ajudar essas crianças é um atrasado mental.

Mas, voltando, espantámo-nos pelo número. Não me recordo de em Portugal, nas zonas de férias, nas ruas mercantes em que se passeia de alto a baixo ao final do dia, serem comparativamente tantas. Espero que por casualidade. Quero acreditar que já não vigorará por cá aquela mentalidade de que me lembro de presenciar em criança, quando um filho deficiente era uma culpa que se expiava e uma vergonha que se escondia. Em todo o caso, ali, fosse pela largura do calçadão que convidava ao passeio, fosse pela largura das ideias, lá andavam grupos em fim de tarde, gozando o crepúsculo de Verão, iguais aos outros e apenas um pouco diferentes dos outros.

Numa dessas noites, em que jantámos no “chiringuito” Varela, uma esplanada humilde de cadeiras da Pepsi à babuja da areia, entrou a dado momento uma destas famílias: pai, mãe, avó e uma criança de pouca idade num carrinho, cuja deformação do crânio não deixava dúvidas. Ficaram próximos de nós e pudemos assistir a como durante toda a refeição pai e mãe sorriam para aquele filho, lhe falavam, lhe acenavam com brinquedos, o apaparicavam e lhe voltavam a sorrir um sorriso genuinamente feliz, de jovens pais que curtem a meninice do seu filho. Aquele bebé não viera apenas por ter que vir, por não ter onde ficar. Estava a jantar com eles de pleno direito, por distante que parecesse.

Ora eu, que com os anos esfolados me vou comovendo mais com estas coisas, maravilhei-me e pensei cá para comigo que aquela cena era o mundo ao contrário do mundo que por aí anda à nossa volta. Ali estavam dois pais que certamente sofriam as limitações do filho, que possivelmente penavam entre médicos ou terapeutas, que talvez fizessem das fraquezas forças ao fim de um dia de trabalho para lhe dar a atenção especial que aquela criança especial requeria, mas que pegavam em todas essas provações, trituravam, processavam e as transformavam num amor incondicional que parecia a quem assistia do mais genuíno que pode haver. E este quadro, feito de devoção e entreajuda, de vitória da essência sobre a aparência, de abnegação substituindo o egocentrismo, contrastava de modo berrante com os tempos que vivemos, de individualismos de freio nos dentes, de “darwinismos” sociais, de belezas de celofane e sensualidades recortadas a bisturi, em que as leis ditas do mercado justificam uma certa insídia de eugenia social e em que a solidariedade se abastardou frequentemente em caridadezinha, por vezes promovida a ferramenta de “marketing” empresarial, segundo novas modas, por vezes em modalidades paternalistas que por erro julgámos arcaicas.

Este choradinho poder-vos-á parecer um lugar-comum. Provavelmente será, concordo convosco. Mas não creio que deixe por isso de ser verdade. Os lugares-comuns também são gente.

domingo, setembro 25, 2011

Férias (VII) – Do álbum

 "Frisbee" na praia dos Aivados

 Torre del Mar

 Arredores do Cercal

 Torre del Mar

 Vendedora, estudante e andaluza, em Torre del Mar

Praia da Vieirinha

sábado, setembro 24, 2011

Férias (VI) – Segunda leitura

 
Sex and drugs and rock’n’roll
Is all my brain and body need
Sex and drugs and rock’n’roll
Is very good indeed

Ian Dury, in “Sex&Drugs&Rock’n’Roll”

Este foi o Verão das leituras pesadas. Depois das provações terríveis de uma humanidade cega (vide aqui), seguiu-se uma viagem aos abismos mais tenebrosos da trilogia sexo-drogas-rock’n’roll com “Please kill me”, subtitulado “The uncensored oral history of Punk”.  São quinhentas páginas de letra miúda exclusivamente com testemunhos de cerca de duzentas pessoas que viveram por dentro o “punk” americano, fenómeno essencialmente nova-iorquino. Compilaram Legs McNeil e Gillian McCain. 

São páginas deprimentes. No que nos é contado nada foi “very good indeed” como na paródia britânica de Ian Dury acima citada. O sexo era mecânico e sem amanhã, as drogas eram duras e sem liberdade e o “rock’n’roll” soava de uma violência sem destinatário ao lado da qual os Sex Pistols pareciam um chá das cinco (que por acaso até tomavam, como bifes que eram).

Esta história do “punk” vai muito atrás, muito antes da explosão britânica de 76. Começa em 1967 com Lou Reed, John Cale e os Velvet Underground no ambiente peneirento-intelectual da Factory de Andy Warhol e segue sobretudo com Iggy Pop e os Stooges, todos profetas antes da sua hora que criaram as raízes de um “rock” acerado, negro, exultante de negatividade e violência numa época em que paz e amor californianos dominavam as tabelas.

Depois esta semente medrou no momento apropriado, através de nomes como Tom Verlaine, Patti Smith, Richard Hell, Johny Thunders, Jerry Nolan ou Dee Dee Ramone, mas quase sem sair dos habituais clubes como o CBGB, até que um rapaz inglês dado à produção, Malcolm McLaren, viu, voltou à pátria e copiou, montando o seu produto à imagem e semelhança do que vira no “bas-fond” nova-iorquino: os Pistols. Como ele confessa aliás sem remorso em “The great rock’n’roll swindle”, em excertos como este:

- There was Steve Jones. Eighteen years of age. A brilliant cat burglar. I nominated him guitarist.

E acabou por ser no Reino Unido que o movimentou estourou em fama e abriu as portas a um renovar do “rock” dos dois lados do Atlântico, com muitos momentos gloriosos e imorredouros.

Mas “Please kill me” não fala apenas pela voz dos nomes que perduraram. Conta também a visão dos produtores, preocupados em espremer o potencial lucro de um produto potencialmente auto-destrutivo, das “groupies” que saltavam de leito em leito e de banda em banda até não ter mais para onde saltar senão para a sarjeta, dos poucos que, como o “stooge” Ron Asheton, apenas queriam tocar e olhavam de cima para o pantanal onde se moviam e de muitos que meramente enxameavam ao redor.

“Please kill me” acaba por ser uma leitura formativa sobre estranhos numa terra estranha que julgam ser a dos seus sonhos de adolescência mas que para muitos e sobretudo para os menos bem-nascidos acaba por ser um pesadelo lento, denso, amargado e terminando para alguns num beco. Honra lhe seja feita, vale pela franqueza.



domingo, setembro 18, 2011

Férias (V) – Surfismo

Nas praias das minhas férias, processionários nas dunas, as pranchas a tiracolo ou amparadas pelo braço, vão os surfistas.

O surfismo é uma religião que nasceu nos EUA em meados do século XX e se estabeleceu nas duas últimas décadas do mesmo século na orla marítima portuguesa e noutras zonas costeiras da Europa.

Os mais distraídos poderiam pensar, cingindo-se às aparências, que o surfista pratica um desporto, o surfe (que é como aquela coisa se escreve em português). Nada de mais míope. O surfista adere a um credo, com os seus ritos, os seus sacramentos e as suas hieraquias, que lhe orienta o modo como veste, o modo como fala, o modo como pensa e até o modo como vive. Na esplanada do café, em férias, dificilmente topamos ao nosso lado o andebolista amador ou o amante da maratona. Fora do recinto ou da pista, despido o equipamento, tornam-se pessoas como as outras, misturando-se na multidão. Ao contrário, os surfistas da vizinhança não nos escaparão certamente, pela carinha e pelos tiques. E então se abrirem a boca para falar, nem se fala.

Poder-se-ia até estabelecer um paralelo entre a religião surfista e a sua homófona sufista, a versão mística do islamismo. Os estudiosos do sufismo definem um dos seus objectivos como o afastamento de tudo menos de Deus. O surfismo respira a mesma costela extática, levando ao afastamento de tudo o que não leve à boa onda. O sufista manifesta o seu transe rodopiando sobre si próprio, como se vê nos derviches. O surfista fá-lo bamboleando o rabo em cima de uma tábua de espuma de poliuretano.

 
O rito surfista começa na praia, acartando as pranchas do carro para o areal. Estas são manufacturadas por uns tipos chamados “shapers” utilizando espuma chamada “foam” e colocando-se para estabilidade umas alhetas que se chamam “fins”. Chegados ao destino, enceram a tábua (que se chama “board”) com uma cera (que se chama “wax”) . Trazem para lanchar uns pães chamados “breads” nuns sacos chamados “bags” que acompanham com umas cervejas chamadas “beers”... Bem, esta última frase já será exagero meu, mas tal como o latim se tornou a língua do catolicismo, o inglês é mesmo a do surfismo, presumivelmente para dar a pinta cosmopolita que pode sempre fazer falta a quem não a tem.

Durante o enceramento da prancha, começa-se a distinguir a hierarquia. O surfista experiente esquece-se sempre da cera, inquirindo diletantemente junto dos demais: “tens wax?”. Normalmente há sempre um surfista mais maçarico, que conseguiu cravar aos pais dinheiro para a parafernália toda, que se apressa a ceder a sua ao graduado. Este esquema começa a funcionar pior à medida que os diversos surfistas da praia vão ganhando experiência e logo começando a fazer valer os seus direitos, esquecendo também a sua “wax”, o que pode provocar grandes romarias de surfistas desencerados a rondar-se uns aos outros em demanda da cerúlea substâcia.

Preparada a prancha, o surfista coloca os paramentos. Estes consistem num fato de material borrachento, negro nas pernas e na maior parte do corpo. O fato veste-se, sobretudo nas pernas, com a mesma dificuldade aparente com que um senegalês colocaria um preservativo de dimensões inglesas. Cada centímetro de coxa é vencido aos sacões, os pelos arrepelados, com um esgar de dor na face. Não raras vezes, sobretudo no despir, precisam da ajuda dos companheiros. Colocada finalmente a vestimenta, fecham o fecho-éclair das costas uns aos outros como senhoras em dia de baile.

Esta volúpia em meter um revestimento de borracha preta quando podem ferver quarenta graus à sombra parecerá um pouco “sado-maso”, mas não. O fato térmico tem real utilidade porque a principal actividade do surfista é estar parado dentro de água. Com efeito, o surfista, entrado no oceano, nada de bruços até à zona onde as vagas iniciam o seu encruamento e aguarda, deitado sobre a prancha ou a cavalo nela, esperando a onda ideal como se espera um Godot dos mares. Na praia dos Aivados, onde testemunhei os factos que aqui narro, é ver ao longe a linha que se forma de cabecinhas flutuantes, subindo e descendo com a ondulação durante horas. De vez em quando, lá há um audaz que se afoita a empoleirar numa onda mais vincada para logo se baldar da tábua abaixo uns metros mais à frente, quando não imediatamente. Poderá surpreender, mas tal parece ser satisfatório. Ao regressar a terra, a prancha debaixo do braço, ouviremos o surfista ensopado e sorridente a dizer ao confrade que vai entrar:

- Hoje tão muito boas. Consegui fazer duas ondas, “man”!

Estranho porque num jogo de futebol os comentadores comentarão, sobre um jogador que só tocou duas vezes na bola durante hora e meia, que “passou completamente ao lado do jogo”. Ao invés, no surfismo, duas ondas manhosas em noventa minutos e é a glória total e absoluta. 
 
Fora de água, em ambiente urbano, o surfista arrasta os pés e socializa quando encontra outros que tal. Os surfistas cumprimentam-se com um aperto de mão especial, de braço erguido, batendo as palmas com força. Como concebem com dificuldade que o mundo não seja todo composto por surfistas, tendem a alargar esse cumprimento brejeiro ao resto da população, fazendo alguma figura de urso aqui e ali, baixando a pata desengonçadamente quando alguém lhes estica um mais normal passou-bem. 

Tal como a das beatas que se ajuntam no adro, a conversa típica dos surfistas cobre uma grande amplitude de temas. Versará possivelmente o surfe, mas em alternativa também o surfe, podendo ainda acontecer por vezes que se fale de surfe. Para os leigos que os ouvem, a discussão tenderá a parecer de mentecaptos, mas isso deve-se apenas às trevas em que vivem esses leigos, ignorantes que são da sapiência que se esconde por trás daquele discurso hermético de ladaínha.

Uma entidade mítica muito referida, provavelmente deus maior do panteão surfista, chama-se “swell”. O “swell” manifesta-se intermitentemente (nem sempre “está”) mas quando “está” vem sempre “grande” ou, mais frequentemente, “ganda”:

- Tive na praia das caracoletas e tava um “ganda swell”, “man”!

O entusiasmo reverente com que é mencionado contrasta com o desapontamento evidente nas caras dos surfistas quando, chegados à praia das caracoletas após uma penitência de quinze quilómetros de condução, guiando de pescoço a quarenta e cinco graus por causa da prancha entalada entre o vidro de trás do carro e o pára-brisas, verificam que o grande “swell” afinal não “está”. A ausência de “swell” equivale a uma deserção do mundo por Deus, uma vez que impede a prática. A esta praga do Egipto surfista dá-se o nome de mar “flat”. Que suponho que queira significar plano. “Probably”.

Outros entes recorrentes, provavelmente de menor patente, são os “tubos”. Os “tubos” podem aparecer – ou não – quando o “swell está”. Pelo que entendo, são uma espécie de anjos que acompanham a divindade. A prova que os tubos têm uma importância secundária reside no facto de o seu nome ser português, idioma obviamente pouco fresco – perdão – pouco “cool”. A especificidade teológica dos tubos vem de que não só “estão”, como se “fazem” (mas só a partir de um certo diâmetro; dizem os surfistas que “fiz um ganda tubo”, nunca um “mero tubo” ou um “pequeno tubo”).

Se o comportamento do surfista seco é algo gregário, na água torna-se agressivo, podendo chegar a perigoso. Infestam largos troços de praia aparentemente sem compreender que o bico de uma prancha espetado num crânio humano pode causar perturbações graves nos sinais vitais. Ziguezagueiam no limite entre surfistas caídos e banhistas inocentes com a atitude impúdica de Arnaud Amaury, legado do papa na expedição de massacre dos cátaros em 1209: “Matem-nos a todos. Deus reconhecerá os seus”. Claro que os não-surfistas acabam por se afastar, porque não são doidos. O resultado final é um usocapião dos surfistas sobre uma tranche de metade da área de banhos, que passa a ser a tradicional “zona dos surfistas”. Que remédio!

A religião surfista reclama para si grandes preocupações ecologistas, com o pretexto de “conviver com a natureza” ou outra balela do género. Na prática, a ecologia termina inúmeras vezes onde começa a falta de saco, nomeadamente sacos de plástico para levar da praia os grandes amontoados de lixo que sobram após a partida dos surfistas, constituídos por latas de cerveja e detritos orgânicos. Felizmente existem por vezes alguns sacristãos involutários que, desgostados com a nojeira, recolhem e levam até ao contentor os vestígios da vocação verde desses surfistas mais descuidados.

Nesta onda pretensamente ecológica surgem ainda os temores dramáticos e dramatizados com a “destruição” de uma onda, que é a única causa político-social que parece conseguir agregar os surfistas. Entende-se porquê: a destruição das ondas corresponde ao que nas outras religiões significa a pilhagem e incêndio de templos. 

Só que qualquer obra costeira a menos de quinze milhas de uma praia ocupada por surfistas, seja um castelo de areia ou um terminal petroquímico, é suspeita de poder destruir “a melhor onda da Europa”. Toda a onda em risco se torna invariavelmente “a melhor”, e logo “da Europa”! Pode ser na Madeira à segunda, em Carcavelos à terça, na Ericeira à quarta e na banheira do banho à quinta, mas nunca perde o adjectivo. Para inferir o risco de destruição, os surfistas não utilizam estudos científicos, modelações hidrodinâmicas ou outras minudências do género. Sabem de saber seguro que a onda desaparecerá “porque conhecem muito bem o mar”. Provavelmente absorvem as equações de Navier-Stokes por osmose, durante a hora e meia diária em que estão de molho à espera da onda possível.

Para quem os vê ao longe, caídos no charco, esta preocupação não faz sentido. A maior parte dos surfistas não se aguenta com ondas medianas, quanto mais com a “melhor da Europa”. Com as pequeninas é que eles se deviam preocupar. Glosando o antigo provérbio que Gil Vicente retratou na Farsa de Inês Pereira, “mais quero uma ondinha que me carregue, do que vagalhão que me derrube”.

domingo, setembro 04, 2011

Férias (IV) – Primeira leitura


Vou de férias com uma mala de livros. Não os leio todos. Já a banhos, vou ao monte e decido a próxima leitura em função da disposição do momento.

Normalmente acabo por alternar uma correnteza de livros não muito pesados, nem muito espessos. Este ano, fiquei-me por três apenas, mas dois mais para o calhamaço. O outro, o primeiro, já tinha ido na mala nos dois verões anteriores e não saíra dela. Achei injusto dar-lhe mais uma nega e acabei por pegar-lhe, apesar de quase sem vontade. Era o “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago.

Só tinha lido antes dois livros de Saramago e não ficara deslumbrado. O “Memorial do convento”, uma história original e interessante, tinha trechos mesmo muito bem escritos, por exemplo a pancadaria entre aleijados logo ao início, mas outros que eram longas e chatas travessias do deserto. Do “Levantado do chão” recordo um escrito sectário e de uma dor de corno classista, com exemplo nas crianças filhas dos latifundiários, essencialmente más, a trepidar de gozo com as judiarias que faziam aos trabalhadores rurais.

Já depois destas leituras veio o Nobel e, como muitos portugueses, senti aquele assomo de orgulho nacionalista algo idiota, como se a andorinha de um prémio trouxesse a primavera de um país mais culto, menos vedor do Big Brother e leitor da Nova Gente. Foi por essas alturas que comprei o meu exemplar do “Ensaio da Cegueira”, que acabou por ficar anos à minha espera.

Não sei dizer porque esperou tanto. Muitos dos livros que compro estão anos aguardando a sua hora. Neste caso, talvez me tenham desgostado o pedantismo pseudo-intelectual que se criou à volta do Nobel Saramago e a construção pelos média da personagem patriarcal e catedrática, remetendo periodicamente novos volumes desde a sua torre de Lanzarote para uma nação ingrata e algo bárbara que não o merecia e arrotando a sua sentença em entrevistas de jornal ilustradas por fotografias esfíngicas iluminadas por uma luz lateral. Talvez sentisse uma certa injustiça de o Nobel não ter ido para outros escritores que cá pra mim mereciam mais distinção, como Lobo Antunes ou Cardoso Pires. Talvez porque tivesse algumas dúvidas que o Saramago que o “establishment” idolatrava existisse, de asséptico que era, limpo que tinha sido do director Saramago que saneara jornalistas do DN por delito de opinião. Talvez me faltasse saco para o Saramago que motivava a polémica e depois se enfadava com ela.

Mas se há algo que as páginas me ensinaram foi que os livros não têm culpa de quem os escreve. E eu nem conhecia o senhor, só conhecia o produto. Por isso, dia um de Agosto, meti o dito ensaio no saco da praia.

A ideia de partida é brilhante: uma epidemia de cegueira, altamente contagiosa, afecta a humanidade. As autoridades em pânico começam por confinar os cegos a um antigo manicómio, mas rapidamente a doença atinge toda a humanidade. Tanto no espaço fechado do manicómio como, mais tarde, nas ruas da cidade, o livro descreve-nos um mundo em que a cegueira reduziu a humanidade à sua componente mais brutal e animalesca. Apenas um personagem escapa milagrosamente à maleita e atravessa o livro com olhos de ver.

Ao terminar a leitura, tinha uma certa vontade de dar um tiro na cabeça. A narração não poupa na maldade, nem na escatologia. Mas bem escrito. Apesar da fantasia, há plausibilidade. O estilo está mais personalizado que os dois anteriores que li. Aqui e ali ainda aflora o sectário de “Levantado do chão”, acolá aparece por vezes um outro momento de um gosto duvidoso. Mas tudo somado é uma boa obra: não sendo um dos livros da minha vida, deixou-me pelo menos a vontade de ler mais Saramago.

A parábola que nos conta Saramago é fundamentalmente pessimista sobre a essência da natureza humana: regressado ao estado de natureza, o homem não é um bom selvagem mas um lobo em guerra com os outros lobos. No entanto – e este é o lado positivo – existe uma “visão” que lhe permite evoluir desse estado e sem a qual ele regride. No livro essa visão é física, a dos olhos, mas claramente representa outras formas de visão como a sabedoria, a inteligência, a cultura, a ética, como quisermos.

Assim compreendido, “Ensaio sobre a cegueira” torna-se um bom manual para percebermos os tempos que correm, de Merkels e Murdochs, de “Tea Partys” e verdadeiros finlandeses, de lideranças fracas e influências fortes, em que a nossa sociedade parece ter deixado de ver o que há anos teria saltado à vista.

E se diferença existe, está em que hoje o problema não é de cegueira mas de falta de vista. O cego tem pelo menos a vantagem da consciência da sua condição. Aos nossos tempos apoquenta a falta de vista, uma miopia extrema, que nos devolve uma imagem distorcida, que tomamos irreflectidamente como realidade.

sábado, setembro 03, 2011

Férias (III) - O desvio

Este ano, o caminho usual para os Aivados estava em obras do tipo Santa Engrácia e o trânsito era desviado por uma estradinha que atravessava um bonito trecho de campo









Férias (II) - London not calling

 What a relief!
Feel like a soldier,
Look like a thief!

The Clash, in “Jimmy Jazz”

No meu arranque de férias, entre dentadas em fatias do pão fatiado alentejano, fofo e de travo ázimo, e o café que espirrava perturbado de uma máquina da Delta, inovação do ano do meu senhorio, fui sabendo pela leitura matinal do jornal que Londres estava a ferro e fogo ou outro dramalhão parecido. Nas fotos, um nevoeiro avermelhado envolvia silhuetas de prédios em chamas, já esventrados, as janelas uns quadrados brancos de luz sinistra. Ou então a silhueta negra dos polícias de choque, a metros de encapuçados, diante de lojas com as vitrines estilhaçadas. A faixa de Gaza em Clapham Junction.


“Finalmente começou a revolução”, suspirei entre goles no primeiro dia. Depois fui quotidianamente lendo mais e, apesar dos esforços dos “jornalistas” em escrever uma ode épica aos revoltosos desagradados com o desemprego e das entrevistas a soció”logos” explicando e desculpando uma juventude destruturada, desapontei-me. Aquilo não tinha pinta  revolucionária. Pelo contrário: foi o maior frete possível feito aos Camerons, às Merkels e aos Petit Nicolas deste mundo. Foi “status quo” no seu mais forte.


Voltemos uns anos atrás...


Na Inglaterra do século XIX, a delimitação de terrenos e a mecanização da agricultura criaram uma massa de trabalhadores rurais miseráveis que alimentou as necessidades de mão-de-obra da indústria nascente, através do “pesadelo voraz do trabalho industrial desregulado, mal pago e em condições escravas”, para citar Grayling.


Em 1830, uma rebelião surgiu no sul entre esse campesinato desasado. Um manifesto publicado no Sussex interrogava: “Não temos razão em queixar-nos de há tanto tempo ser obrigados a ir à labuta diária só com batatas nas sacolas e tendo como única bebida para matar a nossa sede a fria fonte; e ao retirar-nos para os nossos casebres ser recebidos pelo magros e meio-esfomeados filhos dos nossos corpos gastos pelo trabalho?” Os rebeldes controlaram totalmente algumas zonas, como Hampshire, atacando todas as quintas que tivessem debulhadoras, vistas como causa da sua condição, e exigindo contribuições para a causa “na casa de cada cavalheiro”.


A revolta foi contida à força. Nove cabecilhas foram enforcados, dependurados à vista do público. Centenas foram presos ou deportados. Um relatório da prisão de Winchester contava que “mulheres, irmãs, mães e filhos esperam diariamente à entrada, e o governador da prisão informou-me que as cenas que tem que testemunhar à hora do fecho das portas são de partir o coração”. Pois deviam ser, coitadinho do governador, com a boa consciência maçada pelas lágrimas dos andrajosos.


O mesmo relatório continuava, sobre a exibição dos cadáveres dos sentenciados: “Olhei para o pátio dos condenados e vi muitos deles chorando amargamente, alguns enterrando a cara nas roupas esfarrapadas, outros agitando as mãos convulsivamente e outros encostando-se para não cair às paredes do pátio e incapazes de olhar para cima.”


Fim de “flash-back”.



Aquilo em que os camponeses ingleses acima descritos estiveram envolvidos merece o nome de revolta: pessoas a quem o sistema político e económico não dava qualquer hipótese de dignamente proverem a si e aos seus revoltaram-se e atacaram tanto aquilo que julgavam (e até era) a causa da sua desdita como o lado poderoso da sociedade, os “cavalheiros”. O movimento supunha riscos enormes, como se viu pelas dramáticas consequências que sofreram.


Provavelmente a sua acção foi quixotesca e sem esperança. Sabemos hoje, vendo o curso da História, que o mundo não voltaria nunca ao tempo anterior às debulhadoras. Mas este detalhe não retira utilidade histórica ao que fizeram.  A legítima revolta é um dos motores de mudança da sociedade. Ao criar risco para o poder, motiva a reforma, cuja ausência pode provocar a revolução. Por isso, estes camponeses são figuras da história das liberdades que o Ocidente construiu e que neste momento não gozam, infelizmente, da melhor das saúdes. Tanto são que retirei a informação acima das páginas 175 e 176 de uma história das liberdades e direitos da autoria de um professor da Universidade de Londres que escreve frequentemente para o Economist e para o Financial Times, um homem mais na tradição “liberal” inglesa do que propriamente na daquilo que tradicionalmente chamamos “esquerda”. O mundo que veio depois deles não era o mesmo que dantes, mas era melhor que o do durante, em parte graças a eles.



Ora o regabofe londrino nada teve a ver com isto. A bandidagem em questão – porque disso se trata – não atingiu nem os símbolos do poder, nem as classes que dele beneficiam. Fraca com os fortes e forte com os fracos, preferiu atacar gratuitamente pessoas mais desmunidas mas mais a jeito, muitas vezes com um comportamento racista, e adquirir telões da Sony, sapatilhas da Nike e “lingerie” da Victoria’s Secret a preços de saldo: zero libras.


Espero não estar enganado ao dizer que nenhuma história das liberdades escrita em 2200 vai dedicar uma linha a estes imbecis que atacaram lojinhas de emigrantes e roubaram bens de uma ostentação medíocre.  A menos que seja para explicar que permitiram uma excelente justificação para o reforço do securitarismo e o isolamento de quem eventualmente quisesse revoltar-se porque tinha razões para isso.


Comparar o gamanço desorganizado de iPhones com a rebelião de quem tinha fome ou de quem quer mudar alguma coisa na sua falta de perspectivas para além de estúpido é falta de respeito. Voltando ao verso dos Clash referido em epígrafe, o rebelde até pode ter ar de ladrão mas tem que sentir-se soldado, servindo uma causa.

terça-feira, agosto 23, 2011

Férias (I) - Per doar


Conta São Mateus que Pedro perguntou a Jesus quantas vezes deveria perdoar a quem o ofendesse, se sete vezes chegariam. Ao que o Cristo respondeu que não sete mas setenta vezes sete.

Esta resposta lembra outra, dois mil anos depois, quando perguntaram ao treinador Malcolm Allison quantos golos o Sporting devia marcar na primeira mão de uma eliminatória europeia para garantir a passagem à fase seguinte. Allison retorquiu que vinte e cinco.

Existe geminação entre estas duas tiradas. Ambas possuem um tom de “toma e embrulha”, ambas revelam espírito – embora o do primeiro seja santo – e ambas usam números absurdos para explicar o inumerável: uma eliminatória nunca está garantida e não há limite ao perdão que não o senso de quem perdoa.

Desde que me lembro, sempre tive em boa conta quem conte com boa capacidade de perdoar. Porquê, não sei dizer: talvez porque algumas vezes na minha vida tive a sorte de ser perdoado sem o merecer, talvez porque tenha aproveitado essas oportunidades que a não existirem não poderiam ter sido aproveitadas, talvez porque tenha visto perdoar e só depois percebido porquê. Em criança, andei cinco anos na catequese com bom aproveitamento, como na altura se dizia. Não encontrei Deus mas encontrei o pai do filho pródigo e esse não o esqueci.

O perdão é um conceito forte e até revolucionário, que mudou a natureza do universo. Na antiguidade greco-romana, mesmo os deuses estavam sujeitos ao “diktat” dessa misteriosa entidade chamada Destino, que zelava pelo respeito por uma espécie de lei de Talião cósmica: o mal feito por alguém, mesmo que involuntário, tinha que ser compensado pelo sofrimento do próprio ou de próximos. As tragédias gregas e os seus sucedâneos seiscentistas estão cheios disto: Édipo que se cega para compensar ter morto pai e seduzido mãe por engano, Orestes que enlouquece quando a sua paixão Hermione se mata após ambos terem tramado Pirro, e Clitemnestra que trata do sarampo ao marido Agamemnon por este ter sacrificado a filha de ambos, Ifigénia, por ordem dos deuses, durante a guerra de Tróia. O perdão não podia existir porque os homens estavam manietados, por muito heróis que fossem. Ainda hoje andam para aí uns equilíbrios “kármicos” que rondam à volta do mesmo pote.

De repente, a contra-vapor, apareceu na Galileia um barbudo assim para o mal vestido e adicionou um grau de liberdade ao sistema: já não era obrigatória a desforra cósmica e o destino trágico. Podia-se perdoar ou não perdoar, como parecesse a cada um mais adequado. E ele recomendava que sim, o que representou um salto ético. Perdoar tornou-se um exercício de liberdade e de responsabilidade. Os homens deixaram de ser títeres nas mãos do destino e puderam responder pelos seus actos, o que incluia o modo como decidiam usar ou não da sua faculdade de perdoar. Esta tornou-se uma característica essencial do mais nobre que há na humanidade: o ser humano é o único animal que perdoa.

Perdoar não mostra fraqueza. Pelo contrário, é uma prerrogativa dos fortes, é uma marca de poder. Só o príncipe, que pode exercer o “fait du prince”, consegue ser “bon prince”, expressão que nós traduziríamos recorrendo ao conceito de magnanimidade, palavra onde o prefixo “magna” afirma grandeza. Se quisermos um exemplo, pensemos em Mandela, que com uma palavra podia incendiar a África do Sul mas que com uma convicção de perdão a salvou.

 Relembremos: o perdão não é obrigatório. Podemos não perdoar e a vida continua. O meu pai, um dos homens que conheci que mais e melhor perdoava, disse uma vez ou outra à minha mãe, imitando John Wayne em “Um homem tranquilo”:

- Escreve aí na agenda o nome de fulano. Agora risca por cima.

E esquecia simplesmente. Não remoía, não ansiava. Fulano simplesmente desaparecia da memória, sem ressentimento e sem mossa, como que dissolvido numa tina de ácido sulfúrico. A seu modo, era um “quase-perdão”, discreto e longe das vistas.

Porque me veio agora esta conversa, em tempo de férias? Porque sim. Porque o velho Mata, que passava sempre pelo meu Agosto nem que fosse para almoçar com duzentos quilómetros em cada sentido, ainda tem umas histórias para contar a quem o quiser ouvir.

sábado, julho 30, 2011

Amor e ferrovia

It’s hard to tell
It´s hard to tell
When all your love’s in vain

In “Love in vain”, de Robert Johnson

Calhou calhar, numa das minhas deambulações pela zona antiquária do “youtube”, no magnífico “Love in Vain”, um blues de Robert Johnson interpretado pelos Rolling Stones, cujo vídeo encontrarão no final do texto.

Robert Leroy Johnson nasceu em 1911 e levou uma vida obscura de músico errante pelo Arkansas e pelo delta do seu Mississipi natal, tocando nas esquinas por esmola e em clubes por trocos, sem se dar muito a conhecer, coleccionando amantes de ocasião. Gravou pouco e ainda em 78 rpm mas, quando foi reeditado no início dos anos sessenta, influenciou uma nova geração de músicos ingleses como Mick Jagger e Keith Richards, John Mayall ou Eric Clapton.

Johnson morreu muito novo, com vinte e sete anos apenas, em circunstâncias nunca esclarecidas, aparentemente envenenado com estriquinina colocada numa garrafa de whisky por um marido ciumento. Existe também mistério à volta do seu enterro, podendo hoje ser visitadas três lápides diferentes que reclamam ter Johnson por baixo. A vida nebulosa, a morte trágica e a incerteza sobre onde repousa acabariam por criar a lenda: quando jovem, desejando ardentemente tornar-se um grande músico de “blues”, Johnson teria ido com a sua guitarra a um cruzamento de estradas à meia-noite, onde um homem enorme – na realidade o Diabo – lhe tomou a guitarra, afinou-a, tocou algumas músicas e devolveu-a, dando-lhe a mestria que ele almejava. Um Fausto guitarrista.

Talvez seja mesmo verdade, porque nesta interpretação dos Stones, que como se sabe tinham simpatia pelo Diabo, há algo que não é deste mundo. Neste “Love in vain”, Jagger, no auge da sua boca de sapo, serve-nos um “blues” de um azul profundo, uma tela de Klein sonora, com uma letra despretensiosa e clássica sobre o amor que não vinga e leva à separação.

Conta-nos sobre um homem que acompanha à estação a mulher que o vai deixar, levando-lhe a mala; o trem chega, ele olha-a nos olhos e chora; quando o comboio parte, levando-a, ele vê duas luzes na traseira da carruagem, uma vermelha que representa o seu pensamento e uma azul que simboliza a sua tristeza. Só isto: simples, suave e bonito como a penugem de um pintaínho.

Que isto se passe numa estação de combóios não será de estranhar. Por alguma razão que será essa sim de estranhar, o comboio, produto e símbolo da Revolução Industrial, amálgama de mecanismos estridentes e viscosos, objecto barulhento e poluidor, tornou-se símbolo romântico, tal como a azáfama dos cais das estações e o deslizar gémeo dos carris em direcção ao infinito.

Daí foi cantado, pintado, filmado. Quando chegava, simbolizava a alegria do reencontro, a cara que surgia na porta da carruagem desfazendo a dúvida sobre o regresso, a correria entre estranhos para o abraço há muito ansiado. Mais forte no entanto quando partia: o separar do que não se devia apartar, o aproveitar de cada segundo até ao apito de largada, os olhares que se acompanhavam até não serem mais do que pontos distantes e memórias vivas.

E isto não é teoria. Eu, que bati toda a Europa de comboio de mochila às costas, que dormi no chão dos corredores e nos bancos das salas de espera, que me deliciei horas a mirar o deslizar nervoso da paisagem pelos vidros da carruagem, também vivi as minhas tristezas de cais, os acenos de mão que pediam um regresso rápido ou que sabiam ser o final de um infinito momentâneo. Momentos ferroviários que mantenho em lugar privilegiado e de fácil acesso na minha memória, onde não dê trabalho sacá-los da prateleira e puxar-lhes o lustro de vez em quando.

Recordo outro instante, esse apenas presenciado, numa estação algures longe onde esperava uma ligação. Ela, nos seus vinte e poucos, elegante, bonita, o cabelo moreno apanhado, encostada à composição à beira do cais, trocando os pés num nervoso cheio de graça, como se de dança, olhando pra cima para ele e mordendo ligeiramente os lábios para segurar o sorriso que uma lágrima malandra pretendia desfazer. Ele, pela mesma idade, a cara de fora da janela alta, o braço pendente, não conseguindo chegar com os dedos, tinha uma revista enrolada na mão, com a qual lhe fazia uma carícia na face, nos cabelos, olhando-a com uma serenidade que não mentia e que jurava voltar. E assim se quedaram, longos minutos, vivendo o momento enquanto não chegou o momento de a composição rugir o aviso de partida e se arrastar, pesada, nos primeiros sacões da viagem.  Os passos ondeando, a revista volteando, os dentes de pérola mordiscando lábios onde o sorriso mentia por baixo de uns olhos jurando verdade.

Afinal, talvez o amor nem sempre seja em vão.


domingo, julho 24, 2011

Os do “Maracanazo”



“Ce que je sais de plus sûr sur la morale des hommes, c'est au sport que je le dois, c'est au RUA que je l'ai appris”

Albert Camus


Morei na Avenida do Uruguai, no bairro lisboeta com o nome infame de Benfica, de 1968 a 1990. Mas não será essa nostalgia que me fará estar hoje às oito da noite, poltronado em frente ao ecrã, a torcer pela República Oriental quando esta jogar a final da Copa América para o seu décimo-quinto título, ultrapassando assim em palmarés os colossos vizinhos Brasil e Argentina.

Também não será por a considerar uma das melhores equipas da actualidade, a que mais bonito futebol praticou no último mundial, com um guarda-redes elástico, laterais que marram em frente, centrais para quem a bola é para estar fora da área e um meio-campo operário a servir dois genuínos craques no ataque, Forlan e Suarez. E um todo muito composto, que troca a bola, que mete o pé no choque, que recupera, um mimo de relojoaria ou não apelidassem o Uruguai de “Suiça da América”.

Na verdade, o que mais me espanta no Uruguai está no modo como sempre se desembaraçou do peso das regras da estatística. Os países que ganharam o campeonato do mundo de futebol possuiam uma população de várias dezenas de milhões de habitantes. Com mais gente, resulta maior probabilidade de surgirem bons jogadores e logo melhores equipas. Explica-se assim, pela lei dos grandes números, a recorrência no topo de Itália e Alemanha, de Brasil e Argentina.

No meio destes grandes, exceptua-se o Uruguai. Um país de três milhões de habitantes, mais de metade na macrocéfala Montevideu, ganhou jogos olímpicos, dois campeonatos do mundo, catorze campeonatos sul-americanos, entre demais palmarés com a camisola azul de céu. 

Nesta anomalia da lógica matemática, neste intervalo de esperança de que nem sempre o mais forte vence, enraiza a minha condição de fã da “celeste olímpica”.

O ponto alto desta desfaçatez ocorreu no já longíquo “Maracanazo” de 1950, quando o Brasil perdeu a copa e as peneiras em casa, num Maracanã a arrebentar de duzentas e dez mil pessoas, contra o Uruguai capitaneado por Obdúlio Varela, “el Jefe Negro”, pela autoridade e pela cor da pele.

Varela é um personagem de um futebol de outros tempos, mais feito de suor e hombridade do que de milhões e “glamour”. Quando o seu clube, o Peñarol, passou a colocar publicidade nas camisolas, Varela recusou-se a usá-la. “Antes, nós, os negros, éramos puxados por uma argola no nariz. Esse tempo já passou”, disse a propósito. Por isso o Peñarol entrava em campo com dez jogadores anunciantes e Varela com a sua velha camisola. Talvez por este desprendimento orgulhoso tenha morrido pobre, reformado da função pública, morando sempre na mesma casa e conduzindo um Ford velho, “a única coisa que o futebol me deu”, dizia.

A final de 1950 estava feita para o Brasil, ao qual bastava o empate e que tinha goleado nos jogos anteriores a Espanha e a Suécia, contra as quais os uruguaios tinham penado. O Rio de Janeiro amanheceu coberto de faixas de “Brasil campeão”. O presidente da FIFA, Jules Rimet, preparara o discurso de felicitações em português. Tinham sido cunhadas medalhas de ouro com o nome de cada jogador brasileiro para entregar no fim aos inevitáveis ganhadores. A banda trazia ensaiada uma música intitulada “Brasil os vencedores”, composta especialmente para a ocasião.

Na manhã do encontro, o diário “O mundo” trazia já na primeira página uma fotografia do escrete com a manchete “estes são os novos campeões mundiais”. Obdulio Varela comprou vários desses jornais, atapetou o chão do balneário com a fotografia dos adversários e convidou os colegas a urinar-lhes em cima. Depois deste momento de catarse escatológica, proferiu um discurso emocionado sobre a necessidade de desafiar as probabilidades dentro de campo e de ignorar o peso intimidante da torcida brasileira. Terminou com um "Muchachos, los de afuera son de palo. Que comience la función". Entraram e ganharam dois a um com golos de Schiafino e Ghiggia. Celebraram com sanduíches e cerveja, que a vaquinha que fizeram não juntou dinheiro para mais.

Quando se lêem estas histórias de um futebol de outras eras, de homens que não de vedetas, personalizado e romântico, entende-se a frase em epígrafe de Camus, ele próprio futebolista amador, guarda-redes do RUA, o Racing Universitaire Algérois, de que nunca deixou de ser sócio pagante.

E este exemplo da República Oriental do Uruguai, desafiando a lógica fria dos números, anã agigantando-se entre gigantes, ciente de que os que de fora do campo mandam bocas são “de pau” e lá dentro é que as coisas se resolvem, pode bem servir-nos a nós, Portugal,  nos dias difíceis que vão correndo.

terça-feira, julho 12, 2011

Ocean's fourteen

Na semana que passou a Moody’s fez mais pelo discurso de esquerda em Portugal que dez mil arengas hirtas do Louçã ou do Fazenda no parlamento ou nos púlpitos televisivos.

De repente, banqueiros, editorialistas dos diários económicos, políticos dos partidos mais à direita, líderes das patronais e administradores de empresas descobriram que os mercados de capitais não correspondiam àquelas entidades virginais e omniscientes que a teoria descreve lá para o terceiro ou quarto capítulo dos livros de “corporate finance”. Afinal, parece que a informação não é assim tão perfeita como mandam os cânones. Na volta, os agentes de mercado, mal orientados, podem cometer a irracionalidade de seguir as patacoadas publicadas pelas agências de “rating” e de caminho lixar-nos a vida.

Vai daí, toda aquela boa gente se empertigou em frente ao primeiro microfone disponível para zurzir nas agências, utilizando um vocabulário que há uma semana seria considerado perfeitamente irresponsável, desde o “arrogante” ao “deplorável”, desde o “incompetente” ao “superficial”, chegando mesmo ao “terrorista”, palavra que na última década ganhou no mundo do politicamente correcto o estatuto de pior dos insultos, correspondendo aproximadamente em sentido ao “és mau” dos jardins de infância. Até o nosso Presidente Cavaco desceu das alturas para vir a terreiro chamar às agências “ignorantes” e, supremo insulto, “norte-americanas”.

Concordo que mais vale tarde que nunca, que só os burros não mudam de opinião e essas banalidades do costume. Mas que dá uma certa vontade de rir, dá, mau grado o trágico do momento.

Devo dizer que não fiquei particularmente surpreendido com o gesto da Moody’s. Já há tempos que venho comentando entre amigos e colegas que existe um padrão de comportamento das agências de “rating”que é peculiar (desigualdade no tratamento de realidades iguais, descida bruscas de vários níveis procurando a espectacularidade, “timings” que não podem ser coincidência, no nosso caso sistematicante mesmo antes de uma emissão de dívida pública). Qualquer explicação para esse padrão não consegue ser muito abonatória. Existem quatro possibilidades, por ordem crescente de maquiavelismo: pura incompetência, limpeza da trampa que fizeram em 2008, conflito de interesses e cabala montada contra o euro.

A pura incompetência tem sido invocada, mas parece-me curta como explicação. É verdade que se falarmos com pessoas do meio, que conhecem estas agências, descobriremos que quem nelas trabalha é tipicamente gente de segunda escolha: os craques vão para a Goldman Sachs e para a JP Morgan fazer negócio, não para a Moody’s ou para a S&P mandar papos. E consta que os seus modelos matemáticos pesam pouco nas suas decisões, que tendem a ser tomadas a níveis mais elevados com base em opiniões sobre receios que sejam receosamente opinados pela opinião pública. Mas isto não chega para perceber a actuação da Moody’s e companhia: um incompetente tem geralmente um comportamento errático na asneira e estes senhores parecem saber o que andam a fazer.

A tese da limpeza da trampa de 2008 parece razoável, mas soa demasiado piedosa. Segundo esta tese, as agências, depois de terem visto falir bancos e investimentos a quem tinham dado notações triplo-A com a mesma ligeireza com que a extinta Arthur Andersen credenciou os prodígios criativos das contas da Enron, teriam resvalado do oito para o oitenta, começando a ver riscos incontroláveis em tudo o que mexia. Comportar-se-iam como aqueles árbitros que após sancionar por engano um golo com a mão e em fora-de-jogo, vêem as imagens do seu erro ao intervalo e passam a segunda parte a perseguir a equipa marcadora. Pessoalmente, não acredito nesta hipótese. Se fosse verdade, não tolerariam como toleram a incerteza actual à volta do pagamento próximo da dívida pública americana e já lhe teriam arrochado com um bê qualquer coisa com “outlook” negativo.

A do conflito de interesses é a minha favorita, de tão evidente que parece. As agências são propriedade de investidores. A Standard and Poors é detida pela Capital Ventures, um fundo de investimento do tamanho do fundo de resgate da União Europeia. Intriga-me que os arautos da regulação independente, que acham que os estados não são capazes de supervisionar nada (porque são suspeitos) e devem entregar o seu papel a autoridades impolutas, não se ergam aos berros quando agentes de um mercado tão importante como o financeiro são simultaneamente jogadores e árbitros! Seria admissível que a PT fosse a dona da Anacom? Ou a EDP da ERSE? Basta um “statement” impessoal da Moody’s e os seus proprietários podem comprar acções mais baratas, obrigações de melhor juro, moeda mais em conta. E o que espanta é que perante esta evidência a União Europeia hesite em regular estes senhores, pressionada pelos ingleses que querem manter o seu negócio de serviços financeiros na City.

O conflito de interesses também explica bem a benevolência que têm na análise de investimentos americanos. As autoridades financeiras dos Estados Unidos garantiram à Moody’s, à S&P e à Fitch um exclusivo num gigantesco mercado de notação. Porque haveriam empresas privadas de zurzir o seu melhor cliente e o seu melhor mercado?

O conflito de interesses salta tão à vista que a quarta tese, a da cabala contra o euro, nem é necessária para explicar nada. Podemos pois dispensá-la, não porque não pareça, porque parecer parece. Quem escreve uma justificação como a da Moody’s para baixar o “rating” português, no momento em que o fez, está a pedir para levar com uma teoriazita da conspiração.

Como disse, não me admirei muito quando a Moody’s nos lixou. Fiquei humoradamente surpreendido com o tom bolchevique da indignação que por aí grassou à direita do espectro político. Agora o que me deixa realmente de boca aberta são aqueles que continuam a achar que nada se passa, que as agências se limitam ao seu angelical papel e que a culpa é todinha dos malandros dos países, dos malandros dos políticos, dos malandros dos gregos e dos portugueses que são tão diferentes deles que são sérios e trabalhadores. O que me espanta são os escolásticos do liberalismo que postos perante a evidência dos limites da sua teoria preferem desafivelar o cinto e expor-se a concluir que andaram enganados. Tal como dizia Cristo no Evangelho segundo São Mateus, não vêem a trave no próprio olho (e São Mateus não se importará que eu faça uma interpretação mais lata do seu versículo, que estes gajos justificam).

A União Europeia tem que entender que se quer sobreviver enquanto união de democracias tem que mandar uma porrada violentíssima nas agências de “rating”. Já não interessa a legitimidade da acção, neste momento é preciso algum sangue: regulá-las até ao tutano, proibi-las, extingui-las, processá-las, o que for pior. Porque quando as democracias são mais fracas que empresas privadas e se encolhem diante delas, as pessoas acabam por perceber que quem as governa não é quem elegeram mas quem se impôs aos eleitos. E nesse momento a revolta passa a justificar-se ou até, como recomendava Thomas Jefferson, a impor-se. A questão é pois política e não económica ou técnica. Faça-se, que até se vai descobrir que elas nem fazem falta.

E aos ingleses, que vão ficar rosadamente chateados, explique-se-lhes que é mais ou menos como fez o Cromwell no seu tempo. Ele convenceu-se que cortar o gasganete ao rei Carlos I era a melhor maneira de acabar com a guerra civil, por isso defendeu o indefensável contra todos os prudentes argumentos para não o fazer. E cortou. E embora a guerra ainda durasse mais uns tempos, a Inglaterra não desapareceu por isso.

sábado, junho 25, 2011

Exposição fotográfica (XXXV)

Vila Nova da Barquinha, 17 de Junho









Com fim na Rua Barral Filipe

sexta-feira, junho 24, 2011

Aprender a ler

Descobri esta semana, na minha leitura vezeira de Pedro Lomba no Público, que Camilo Castelo Branco desapareceu do currículo do ensino secundário. Lomba parte deste mote para desenvolver uma interessante crónica sobre o ensino ou melhor o desensino da literatura. Coisa sobre o qual o próprio tem dúvidas fundamentais: refere ele que não tem a certeza se o gosto pela literatura se pode ensinar. Pois eu quase que tenho que pode. Nisto discordo dele.

Mas já concordo com ele que pelos serviços do ministério anda gente em demasia a cerebrar sobre temas bizarros, como seja a melhor maneira de ensinar a crianças de treze ou catorze anos a reconhecer nos Lusíadas metalepses e metáteses. Ora as metáteses estão para o desenvolvimento do gosto pela literatura como as metástases estão para a promoção da nossa saúde. Não me parece que tão erudito exercício induza nas mentes tenras o amor pela leitura. Será como querer promover o gosto pela culinária com cursos teóricos de química orgânica avançada.

(Aparte antes de prosseguir: para os que estão neste momentos extasiados com a minha sapiência, informo que há truque. Eu não sabia de cor, nem de outra forma qualquer, o significado de metalepse ou metátese. Fui ver a um dicionário de figuras de estilo que consta de uma edição dos Lusíadas que há cá por casa. Tem lá termos espectacularmente ininteligíveis, óptimos para tentar levar à loucura os adversários num jogo de “Pictionary”. Por exemplo, sabem o que é uma hendiádis ou um - ou será uma? - paragoge? E um polissíndeto ou uma tmese? Não? Bando de analfabetos! Mas um zeugma devem saber... Também não? Como é que conseguem ler um livro nessa vil escuridão?)

Quanda não está entretida a complicar, a mesma ministerial gente, apiedada perante as dificuldades daqueles que paternalisticamente vê como menos capazes, cai no outro extremo e facilita. Por exemplo, o programa de 10º ano de Português preocupa-se com que jovens de quinze anos saibam “reconhecer diversos tipos de texto” como sejam “textos informativos diversos e os seguintes dos domínios transaccional e educativo: artigos científicos e técnicos; verbetes de dicionários e enciclopédias; declaração; requerimento; contrato; relatório”. Ou então “textos dos media”, que podem ser até radiofónicos. E não aponta nenhuma leitura integral de um livro como obrigatória (só no 11º aparecem o Frei Luís de Sousa e um Eça à escolha, que por algum azar até pode calhar ser “O mandarim”).

Ora eu com essa saudosa idade andava no Liceu Francês a levar antiquadamente com Racine e Zola na tromba, para ler na íntegra, e nunca tive assim a oportunidade fresca de analisar verbetes de dicionários para os poder reconhecer quando os visse. Por razão misteriosa, apesar de não ter beneficiado do modernaço programa do 10º em língua pátria, consigo preencher um requerimento, utilizar um dicionário e até ouvir as notícias na TSF sem me baralhar todo e ficar a pensar que o entendimento a que chegaram Portas e Passos Coelho é sentimental e não político. Devo ser um autodidacta.

Quem arquitecta estes programas comporta-se como um condutor que só andasse ora pela berma esquerda ora pela berma direita, com o carro em zigue-zagues bruscos, nunca conseguindo assentar sossegado com os pneus no raio do alcatrão. O resultado de anos desta condução inebriada são os alunos que apanho no quinto ano do Técnico, à beira do mercado de trabalho, que “axam que puderiam usar uma equacão para calcular a inflaxão”. Já hoje uma larga maioria, infelizmente.

Mas desensinar é fácil, já sabemos. E ensinar? Ensinar a gostar de ler?

O sistema que apanhei no Liceu Francês parece-me a este propósito ter algumas virtudes, desde já com perdão pela pinta “no meu tempo é que era” desta reflexão.

Para começar, esse sistema mete livros. Do primeiro ao último ano do liceu, em cada Outubro, quase uma dezena. Sai-se no final da escolaridade com uma meia centena de títulos, o que acaba por constituir um razoável princípio de uma biblioteca pessoal. A escolha varia ao longo do tempo, mas mistura clássicos, literatura mais ligeira, teatro, poesia, originais e traduções. Fui ver a estante do meu mais novo, que está a meio percurso. Tem lá Molière, Voltaire, Balzac e Flaubert, mas também Pagnol. E tem Orwell, Golding e Primo Levi. E Esopo e a Odisseia e contos da mitologia grega. E teatro de Anouilh e poesia moderna. Para equilibrar, Agatha Christie, o Petit Nicolas de Sempé e Goscinny ou o Diário de Adrian Mole.

No quarto do mais velho, que já acabou, há uma prateleira inteira. Para além de alguns dos anteriores encontro entre outros Montaigne e Ronsard, Maupassant e Baudelaire, Le Clézio e Camus, Sófocles, Shakespeare e Puchkine, Racine e Ionesco, Sepúlveda e o planeta dos macacos. E até a Bíblia dada enquanto obra literária.

A isto chama-se diversidade e parece-me ser a lição número um. A literatura é uma janela aberta para um mundo variado e variável. Claro que numa cadeira de literatura francesa há que dar os grandes nomes, que construiram e dão brilho à língua deles. De igual modo, em Português deve-se ler uma boa selecção entre Eça, Camilo, Camões, Sá de Miranda, Pessoa, Herculano, Torga, Cardoso Pires, Nemésio, Miguéis ou Saramago ou Lobo Antunes, e com liberalidade. Mas há espaço para muito mais. Porque não boas traduções de boas obras estrangeiras ou escrita nacional mais contemporânea ou mais ligeira? Mais vale um Hamlet em português ou um romance do Rodrigues dos Santos do que qualquer “texto dos media” ou o que é que essa treta seja.

Depois, estes livros devem-se ler integralmente. Esta será a lição número dois. Claro que nem todos os alunos o fazem e claro que na sala de aula a análise tem que se focar em passagens seleccionadas. Mas os livros são como os paus, têm duas pontas, um princípio e um fim e o resto que está no meio. Um excerto pode quanto muito funcionar como um “teaser”, mas não dá a medida da grandeza de uma obra nem permite o sentimento de preenchimento e partilha que podemos ter quando viramos a última página de um bom livro. Seria como esperar que o “trailer” de um grande filme nos fizesse pensar, rir ou chorar do mesmo modo que as duas horas de visionamento em frente ao ecrã. Só aprendemos a gostar de ler lendo, e não brincando ao “toca e foge” com os livros.

E, finalmente, a terceira lição.

Tive no último ano do liceu um professor de francês que me ensinou como se lia um livro ou um poema: fazendo uso da nossa liberdade. Com ele descobri que uma obra não é uma, são milhares ou milhões. Há a que o autor escreveu e há todas aquelas que os leitores lêem e todas são igualmente verdadeiras e importantes. Com ele aprendi a ler com os meus olhos, com a minha cabeça e com os meus sentimentos. Era um homem calmo, reservado, com um ar quase severo na primeira abordagem, sempre de fato escuro numa escola que primava pela informalidade. Não me lembro de o ver a rir, apenas de sorrir contidamente diante de uma situação cómica. Perguntava-me, preparando-nos para o exame oral final, sobre uma palavra que um poeta usara num verso:

- Porque pensas que o autor escolheu exactamente esta palavra e não outra?
- ...
- Dá a tua opinião.
- Talvez porque “isto”.

- Então se achas “isto”, no dia da oral, di-lo.

- E se o examinador não concordar?
- Se o examinador não concordar diz-lhe que fui eu que te o ensinei.

E não é que ensinara mesmo? Ensinara-me que não somos meros receptáculos de uma narrativa, leitores inertes numa relação de um só sentido. Somos agentes, pares do autor, responsáveis com ele pela construção da obra lida. Por exemplo, Thomas Mann dizia que descrevera no seu “Os Buddenbrook” a decadência de uma família. Ora quando eu o li, esse aspecto pareceu-me meramente instrumental. Achei-o um grande livro sobre a riqueza, a diversidade e a fragilidade da vida. Não há azar, o livro que ele escreveu e aquele que eu li simplesmente não são o mesmo: entes próximos, ligeiramente diferentes e igualmente respeitáveis. Ler é um exercício de homens e mulheres livres. Por isso as ditaduras sempre proibiram e queimaram livros. Até a semelhança fonética das palavras “livro” e “livre” , uma feliz coincidência, reforça essa identidade.

Para ensinar o gosto pela literatura precisaremos sempre de professores capazes e alunos disponíveis, como em qualquer matéria. Se a esses ingredientes juntarmos, para horror da malta do ministério, alguns livros, lidos de fio a pavio e com espírito de liberdade, a aprendizagem pode ocorrer. Mesmo que no fim ignoremos o significado de “metátese” ou “zeugma”.