vuelan, el aire en calma.
La Penélope inmensa de la luz
teje una noche clara.
Federico Garcia Lorca, in "Se ha puesto el sol"
... que me andava a fazer falta, no fundo do Alentejo profundo.
Com fogo,
Água,
Terra,
E ar, entre outras.





Com fogo,
Água,
Terra,





Hoje calha-me dizer bem. Para variar.
Escrevi aqui há tempos que não há actualmente em Portugal classe mais reles que a dos jornalistas. Mantenho. Mas dificilmente se generaliza sem se ser injusto, por vezes tremendamente. Encontram-se excepções. Existirão taxistas polidos, autarcas sem rotundas e benfiquistas com uma orientação sexual tradicional.
Exceptuando então, venho falar-vos de uma enorme jornalista.
Acabei de ler dois trabalhos de Alexandra Lucas Coelho no Público de ontem, escritos na África do Sul. Uma pequena crónica sobre Neil Aggett, um jovem médico branco que no fim dos anos setenta foi trabalhar para um hospital de negros no Soweto, se tornou activista e morreu sob tortura nas prisões do regime segregacionista com vinte e oito anos apenas. Cuja existência eu desconhecia e cujo exemplo em boa hora ela reavivou. E uma reportagem mais extensa sobre a baixa de Joanesburgo, uma área pesada e violenta, outrora nobre mas hoje desertada pelos brancos e pelos bancos.
Enquanto as notícias que as dúzias de enviados especiais ao Mundial nos remetem hoje em dia desde a África do Sul se resumem integralmente a banalidades ao som de vuvuzelas, ilustradas por imagens gravadas em restaurantes de madeirenses, com orgasmos ligeiros sempre que avistam uma bandeira das quinas nalgum recanto e hossanas à popularidade dos portugueses por esse mundo fora, Alexandra Lucas Coelho procura a memória do que foi um país dividido pelo ódio, um ódio função da concentração na derme de uma molécula chamada melanina, um ódio que expulsou o advogado Gandhi do comboio por ter melanina a mais.
Enquanto a curiosidade dos assim chamados repórteres da SIC e da RTP se foca no “fait-divers” dos mil e quinhentos euros roubados nos quartos de jogadores gregos, que lhes devem fazer uma falta danada, ou se resume a entrevistar mexicanos de sombrero a garantir que o México vai ganhar e ingleses de bojeca em pulso a augurar a vitória da Inglaterra, Alexandra Lucas Coelho procura, em bairros em que outros teriam medo de entrar, a essência do país que sucedeu ao “apartheid”.
Comecei a acompanhar os seus escritos quando ela foi residir para Israel, onde é correspondente do jornal Público. As suas notícias sobre acontecimentos políticos notórios têm rigor, eficácia, perspectiva, um visível conhecimento dos meandros da política local, enfim, aquilo que se espera de um correspondente que se veja. Mas onde ela excele é nas suas crónicas sobre as pessoas, a vida, os dois lados de um mundo dividido por muros de betão e de inimizade. Num canto do planeta em que com facilidade se pode deslizar para o sectarismo, Alexandra Lucas Coelho parece imune. Com pinceladas de forte humanidade, em momentos de guerra ou nos intervalos de paz, descreve-nos o que vê de parte e doutra: pessoas, com sentimentos, com dores, com raivas, com alegrias e com esperanças. Com ela, a máxima de Protágoras torna-se um programa de acção: o homem é a medida de todas as coisas. Fá-lo com árabes e judeus, israelitas ou palestinianos, de forma equilibrada mas não sem tomar partido, que o jornalismo não tem que ser asséptico. O partido que toma é o da verdade e da decência, da simpatia pela liberdade e da repulsa pela opressão. E consegue-o de uma forma suave, sem maniqueísmos, plena de respeito, dando-se como um espelho que reflecte a realidade, diferente, de diferente gente.
Alexandra Lucas Coelho possui outra virtude que vai rareando na imprensa que leio e mesmo na que ouço. Trata muito bem o português. Hoje, pega-se num jornal ou ouve-se um noticiário e leva-se com um arrazoado de anglicismos, fruto das traduções apressadas dos despachos da Reuters, onde a concordância do sujeito com o verbo é uma feliz coincidência e não mais uma obrigatoriedade natural. Quem não ouviu já na rádio que as acções da PT seguem a subir? Seguem? Para onde? Para Espanha, se calhar, de onde veio esse castelhanismo que infectou o jornalismo económico. Às vezes, vendo o que esses marrecos escrevinham, parece inacreditável que fulanos como Hemingway, Camus ou o próprio Eça tenham partilhado a mesma profissão. Mas com ela não. Dá gosto ler. Usa uma escrita depurada, figurativa, nada pretensiosa, factual mas tantas vezes tocante.
Conheci muito brevemente Alexandra Lucas Coelho há uns anos, numa festa de aniversário de uma amiga comum, passada num fim-de-semana na Quinta da Matinha, um turismo rural isolado na serra alentejana junto ao Cercal, onde o céu estrelado não consente que o nosso olhar desça e onde o Alfredo nos mima com esperadas e inesperadas proezas gastronómicas. Tenho uma memória leve de uma pessoa simples e discreta, nas antípodas do espalhafatoso que caracteriza alguns escribas menores da praça. O que aumenta ainda mais a minha admiração por alguém que tranquilamente nos traz histórias de sítios em que muitos de nós recearíamos viver ou meramente passear.
Nos dois artigos sobre a África do Sul que lhe li ontem, sem que tal alguma vez seja referido explicitamente, percebe-se que o “apartheid” não morreu ainda, modificou-se apenas. Já não manda, mas ainda reina um bocadinho, como é normal na sequência de longas ditaduras. Com o salazarismo passa-se o mesmo. O caminho a percorrer pelos sul-africanos tem pois muita quilometragem pela frente, mas vale a pena ser percorrido. No último parágrafo da sua crónica sobre Neil Aggett, Alexandra relembra a frase que está gravada à saída do Museu do Apartheid: “Pense no que aconteceu e no que virá. E depois saia em liberdade.” Muito bem escolhida.
Nota - Não sei quanto tempo estará “on-line”, mas eis o “link” para um dos artigos referidos:
http://jornal.publico.pt/noticia/11-06-2010/quem-tem-medo--da-baixa-de-joanesburgo-19582722.htm







“Time is a funny thing. Time is a very peculiar item. You see when you're young, you're a kid, you got time, you got nothing but time. Throw away a couple of years, a couple of years there... it doesn't matter. You know. The older you get you say, "Jesus, how much I got? I got thirty-five summers left." Think about it. Thirty-five summers.”
Fala em “off” de Benny, dita por Tom Waits, in “Rumble Fish” de Francis Ford Coppola
Recordo o tempo em que, ainda os meus dezoito anos vinham a alguma distância, o tempo me parecia um caminho sem fim. Vogando entre uma consciência indiferente e uma inconsciência adormecida, um saber social dizia-me que um dia trabalharia, que talvez viesse a ter filhos e que fatalmente morreria, se possível de velho. Mas tudo isso morava muito para lá da linha do horizonte. O tempo era enorme.
Há duas quintas correram dezoito anos sobre o momento em que por uma porta traseira da maternidade Alfredo da Costa, quase clandestinamente, me vieram mostrar um embrulho que continha um olhar negro, inscrito num crânio ainda ameloado pelo efeito dos fórceps, e cuja co-autoria me pertencia.
Curiosamente, recordo não ter percepcionado novidade naquele momento. Certamente um dos mais marcantes da minha vida, mas senti-o como se fosse o culminar, a extremidade de um segmento de tempo, não um elo isolado que valesse por si próprio mas o último de um processo quase ordenado, de uma cadeia sequencial, feita de expectativas, de sonhos, de preparos, de ânsias, mas que no meu âmago nunca imaginei terminar noutro instante que não naquele.
Senti, por outro lado, uma identidade forte. Como se aquele ser, símbolo e centro daquele momento, me estivesse meramente reencontrando, como um camarada de colégio que desaparece de circulação e com que chocamos acidentalmente ao virar de uma esquina. Como se aquele instante, de uma forma esconsa e que não apreendi ainda muito bem, fosse uma repetição, um retorno, a intercepção de um ciclo infinito com o plano sempre mutante do presente sobre qual vou erraticamente passeando.
Ora estes dezoito anos passaram que nem um fósforo, que nem minutos, voláteis e dramaticamente curtos como os segundos preciosos que sobram para o apito do árbitro quando uma equipa procura o golo que lhe falta. Cá dentro das nossas mentes (pelo menos da minha), há uma frase feita que algo nos sopra ao ouvido do espírito: “parece que foi ontem”. E a nossa razão embarca nessa história mal contada e diz que sim com a cabeça, como se entre o olhar negro inquieto da porta da maternidade e o olhar negro confiante que me olha hoje de cima para baixo apenas houvesse um rasgo no tecido crónico, como se não se tivessem escoado 216 meses, 936 semanas, 6574 dias, 157776 horas e tantos milhões de minutos e segundos que a calculadora até capitulou, acusando erro por “overdose” de dígitos. Muito tempo de facto, mas que cabe todo num hiato de memória entre dois olhares. O tempo é compressível até ao diminuto, quase até ao infinitamente pequeno.
Para o aniversário, quis oferecer um cartão com uma fotografia específica desse tempo longínquo, uma memória forte simultaneamente em papel e nos estranhos circuitos neuronais que ronronam no interior do meu crânio. Se me recordava bem dela, não me lembrava no entanto onde a pusera e por isso percorri anos de fotos e álbuns, milhares de imagens, desde as marcas dos ferros na cara da primeira hora ao jovem apinocado em fato escuro de há poucos meses. Revelou-se um exercício curioso e inesperado.
Dedilhei por sorrisos já mal lembrados e de dentes ainda anárquicos, pelos gritos atmosféricos das festas de anos, os embrulhos arrancados dos primeiros natais, a ansiedade da marca de partida nos saraus de natação, as pinturas e caraças de Carnaval, as fotografias da praxe com sorrisos de careta diante da torre Eiffel ou do palácio de Buckingham. Vi como eles eram pequenos e frágeis e como nós ficámos mais velhos e frágeis. Lembrei as modas mutantes, nos penteados, nos óculos, nas gravatas, nas sapatilhas, esticando, minguando, frisando, cromatizando. Encontrei também aqui acolá alguns que já cá não estão (fisicamente), outros que não sei por onde andam e que foram tão próximos que pasmei como pôde a vida separar-nos.
Sim, o tempo passou e longo e rico e cheio. E ali estavam apenas os marcos miliares de uma estrada de dezoito anos, subindo e descendo as encostas das nossas vidas. Os marcos são importantes: marcam. Mas entre eles houve que percorrer o lajeado do dia-a-dia, feito de corridas matinais para a porta da escola, dos pequenos sucessos e insucessos, das pequenas alegrias e tristezas, da sucessão dos amigos inseparáveis, da maturação lenta das personalidades, do entrechocar desajeitado dos talheres nos pratos do jantar, do respirar nocturno que como um alívio escutávamos pelas portas entreabertas. Uma existência pletórica, densa, quase espessa, mesmo que todavia mais discreta.
Vendo isto, concluo que afinal o tempo é como os matemáticos o concebem: um troço de recta que por pequeno que seja contem infinitos pontos, tantos quantos os que existem num troço maior ou fora dele. A vida de cada um, à sua maneira, tem a riqueza de todas as que vieram antes e depois.
E com esta cegada toda, assim caíram as folhas de calendário entre os meus vinte e oito de boa memória e os quarenta e seis que agora protestam no meu bilhete de identidade. Se aguentar mais trinta e cinco verões, como dizia o outro, já vai ser uma fezada. E também se forem menos não há azar. Sou um tipo com sorte: de certo modo, já tive todo o tempo do mundo.
Todos os anos, a associação de alunos do Liceu Francês de Lisboa, minha escola de sempre, a quem confiei os meus filhos para que se lhes dessem umas luzes, organiza um espectáculo de beneficência. Chama-se S.M.I.L.E. Nunca falto. Ignoro o que significa a sigla, se é que algo se esconde por trás daqueles pontos. Sei que a entrada custa um euro e a fatia de bolo um euro e o copo de plástico a desbordar sumo um euro também. No final, na caixa, não muito dinheiro, mas que sempre dará algum jeito no Camboja, destino tradicional da colecta, por razões que já se perderam no tempo.
Smile, portanto.
Ao palco, cada um traz o que sabe, mesmo que não saiba. Uns tocam, por vezes mal. Canta-se, desafina-se também, esganiça-se a espaços. Dança-se, entre o síncrono e o assíncrono. Crianças trazem pequenos “sketches” com vozes e poses de crianças. Em anos, exibem-se artes marciais. Noutros, concursos de teatro. Os microfones falham e quando não falham as apresentadoras falam para a frente e para o lado, deixando cair palavras ao chão. Vai-se percebendo. Ora não se ouvem os instrumentos, gerando-se protestos de silêncio na sala, ora as colunas distorcem, lançando mãos aos ouvidos. Com tudo isto, um dos maiores espectáculos do mundo.
Smile, relembro.
Desde o palco, dá-se. Na plateia, recebemos. Lá em cima, vence-se a verdura dos anos, vence-se a vergonha de encarar uma sala cheia, vence-se o riso que espreita, dobra-se a falta de tempo de ensaio. Cá em baixo, os amigos não se importam, ululam, aplaudem, comungam, vivem, agitam isqueiros e telemóveis iluminados. Uma rapariga entoa o “Summer of 69”: “those were the best days of my life”. São, de facto. E nós, os mais velhos, temos saudade da generosidade, da intensidade, da urgência, do riso sem mácula e do beijo que num recanto escuro da sala dois corpos ainda não acabados trocam, com um enlace como se fosse o único, com uma sofreguidão como se fosse o último. Saudade é uma palavra simpática para inveja.
Smile, dizia.
A alegria, por muito que esfuzie, não esquece. Há uma semana viveram a dor da morte de um colega, mas não deixaram de o levar à festa. Um amigo, que com ele tocara no passado, fecha o espectáculo tocando em sua memória uma música dos Radiohead, que certamente ouviram lado-a-lado. Uma moça, quase pequena para a guitarra que segura, dedica-lhe com voz hesitante uma das músicas que interpreta e que compôs. Fala de um bom rapaz que foi e do sentimento dos que ficaram: “free falling”. Acabado o seu momento, com um cantar certinho, desce os degraus laterais, sai para o fundo da sala e chora em sossego.
Smile, tá certo.
O espectáculo termina, como sempre, com todos ao estrado, para um último coro, um derradeiro aplauso, um abraço que vai de uma cortina à outra.
Por coincidência, tenho um amigo inquieto que parte amanhã para o outro lado do mundo, julgo que para ver gente feliz. Procuramos sempre longe à brava aquilo que sobeja à nossa porta.
Smile, já disse!
Passei o dia de ontem com um nó na garganta.
Na noite anterior, uma notícia nos “sites” dos jornais anunciava a morte de um jovem português numa discoteca em Londres, frequentada por famosos, como essa ralé escriba lhes gosta de chamar. A notícia não era a morte de um jovem, mas o incómodo dos famosos, como o distintíssimo Wayne Rooney, que se não tivesse bons pezinhos andaria pela estiva no porto de Liverpool.
Em minha casa, no entanto, o rapaz tinha um nome e uma cara. Frequentava a escola dos meus filhos. Brincara com um deles em pequeno. Sorria, com poucos aninhos, em fotografias dos nossos álbuns. Conhecíamos a mãe.
Os jornalistas aproveitaram para especular quando não para afirmar o que não sabiam nem podiam saber, para apimentar a notícia. Não há hoje classe mais reles que a dos jornalistas. Assalariados ao serviço do volume de vendas dos seus patrões, comprazem-se na sua necessidade compulsiva de procurar o esterco para remexer e de inventá-lo quando não o encontram. Necessidade que caracteriza e estigmatiza a classe. Verdade, ética, pudor e pundonor pouco lhes dizem. Desmandam-se, insensíveis à dor que a sua insensibilidade provoca. Não percebem, possivelmente porque não conseguem.
Nos “sites”, as novas atraíram os comentários como abutres, geralmente disparates moralistas e ignorantes, escondidos sob essa moderna forma de cobardia a que se chama “nick”.
Será que perdemos todos a capacidade de dizer: morreu um jovem, morremos nós também um pouco? De nos condoer um segundo porque uma mãe, um pai, algures, sofrem o último dos sofrimentos? De teclar, já que temos que teclar, uma homenagem, uns pêsames e não uma barbaridade ignorante? Em que monstros nos transformámos?
Sei que é a raiva a falar mas, em dias destes, parece-me melhor que venha o meteorito, o vírus fulminante ou o inverno nuclear que nos varra a todos deste planeta e que se recomece de novo, com outra espécie que connosco já não vale a pena.
Sei que é a angústia a falar mas em dias destes constato a prova provada que o Deus justo e misericordioso de que alguns tanto falam simplesmente não existe, como os factos demonstram. Quanto muito uma divindade caótica, um Baal fenício, exigindo vítimas diante das suas imagens de bronze. Ou mais certamente nada senão uma existência breve, ténue, improvável e ilógica.
Mas se por acaso estás em algum sítio que me ouças, sabe que sinto uma pena imensa. Fazes falta: não só aos teus como a este mundo, que não se pode dar ao luxo de desperdiçar uma só flor da sua juventude, a única que pode fazer algo por ele que nós, os cotas, já deixámos escapar a oportunidade que nos foi dada. Mesmo sem te ter visto nos últimos anos, ter-te-ei sempre na minha memória, com o sorriso maroto daquela foto no jardim zoológico, terias tu quatro ou cinco anos – lembras-te? – sentado junto ao teu amigo que dorme agora no quarto ao lado deste onde escrevo. Descansa tu também, em paz.
E à tua mãe, um beijinho de solidariedade, de apoio, que poucas mais palavras fazem sentido.
“Le roi est maintenant âgé de 54 ans : son aspect est tout à fait royal,
en sorte que sans avoir jamais vu sa figure ni son portrait, à le regarder seulement, on dirait aussitôt : c’est le Roi”
Descrição de Francisco I de França pelo embaixador de Veneza, em 1546
Ontem, o nosso Presidente da República deu má conta de si e de nós em Praga, permitindo que o seu homólogo checo se fosse sem resposta quando, durante uma visita de Estado e perante uma plateia de empresários e jornalistas dos dois países, lhe deu para achincalhar Portugal com piadinhas parvas sobre o défice deles e o nosso e as preocupações deles e a nossa descontracção diante do assunto e não sei mais o quê. Basicamente tentando chamar-nos mandriões do sul.
Aceito que Cavaco Silva possa alegar duas atenuantes.
A primeira, que os checos são um dos povos com menos piada da Europa. Passei quinze dias em Praga em 1987. À época, o russo ainda se ensinava como primeira língua estrangeira no ensino liceal, provavelmente para perceberem as instruções recebidas de Moscovo, e as checas ostentavam “vaca” no sufixo. Lembrando essa estadia, recordo as características de simpatia, trabalho, atenção, mas também que, coitadinhos, não tinham piadinha nenhuma. Falta-lhes o gene do humor, possivelmente perdido algures durante as rebaldarias associadas às invasões otomanas: ao seu lado, os suíços fariam figura de foliões. Por isso, ver Vaclav Klaus soltar graçolas como se dessem para rir pode deixar basbaque o interlocutor mais desprevenido e parece-me que foi isso que aconteceu com Cavaco. Para os menos atentos, Klaus é o PR da República Checa, único país do mundo cujo nome é um adjectivo e não um substantivo. Como será mesmo que aquela trampa se chama? Chéquia? Quezéquia? Alguém me ajude.
Depois, Klaus é o típico burocrata de regime comunista reconvertido a convicto neo-liberal após a queda do Muro. Normalmente os piores, pois mantêm na nova encarnação o sectarismo e a arrogância de que necessitaram para sobreviver na primeira. Um tipo que como ele trabalhou quinze anos como economista no banco central de um país da cortina de ferro deve ter escrito muito relatório a defender o planeamento central, com letra cursiva e o mesmo afinco com que agora preconiza a excelência do livre mercado. Para mais, viu-se também que é ordinário, não sabendo comportar-se com uma visita. Nenhum dos seus assessores lhe lembrou Bismarck, que dizia que até uma declaração de guerra se redige de forma educada. E para terminar é idiota, como se pode ver pelas suas afirmações esclarecidas de que o CO2 não causa aquecimento global ou os estereótipos que manifestou quando a Checocoisa ocupou a presidência semestral da União Europeia. A ele aplica-se como uma luva a máxima de John Stuart Mill, de que nem todos os conservadores são estúpidos, mas que a maioria dos estúpidos são conservadores.
Apesar destas razoáveis desculpas, Cavaco mostrou figura fraca ao não ter imediatamente respondido com um coice. Ao calar-se abaixou-se, perdeu a dignidade e esqueceu-se que nos estava a representar a todos. Até o seu aspecto físico se encarquilhou perante a humilhação. Exactamente o efeito contrário ao do impacto da aparência de Francisco I que transcrevo em epígrafe. A olhar para Cavaco embaraçado a ouvir as bujardolas do checo, o tal embaixador de Veneza não exclamaria “c’est le Roi”, mas antes “c’est le valet”.
Perante o alarve, Cavaco tomou a única atitude que não devia ter tomado: não tomar nenhuma atitude. Podia ter saído da sala ou ter manifestado o seu desagrado argumentando e fazendo notar à frente daquela gente toda que o outro passara das marcas. Muito melhor todavia se tivesse conseguido dar-lhe uma resposta curta, humorada e venenosa que devolvesse para o lado de lá a bola do embaraço. Daquelas boas como já as houve.
Já aqui no blogue citei, noutro texto, a magnifica resposta de Lourenço da Cunha, enviado de D. João II à corte de Castela, que chamou elegantemente rameira à rainha Isabel a Católica à frente da sua corte, quando ela se começou a chegar muito à frente e a tratar Portugal por cima da burra. A missão diplomática fracassou mas D. João II, que percebia a importância relativa das coisas, recompensou amplamente o embaixador pela presteza e oportunidade da resposta.
Outro que não esteve mal foi Gustavo Adolfo da Suécia no seu primeiro encontro com o czar, numa planície nevada. O sueco subira muito jovem ao trono e o russo mandou a piadinha em tom sarcástico: “nunca pensei que fosse tão novo”. Gustavo Adolfo, um latagão dois palmos mais alto que o czar olhou para baixo e respondeu: “nunca pensei que fosse tão pequeno”. Toma e embrulha e vamos à guerra.
Ou a famosa de Churchill a Lady Astor, a primeira mulher deputada no Reino Unido, que lhe disse que se ele fosse seu marido lhe envenenava o chá ao que Churchill retorquiu “e eu se fosse seu marido, bebia-o”.
Uma destas é que faltou em Praga a Cavaco, para soltar a Vaclav Klaus. Qualquer coisa como “pois, não tivemos a sorte de ter os soviéticos a ensinar-nos durante quarenta anos disciplina orçamental” ou então “de facto, a experiência que o senhor adquiriu a planificar a economia nos velhos tempos da guerra fria deve dar jeito nestas alturas”, dito com sorriso e um pose de “se te fosses lixar?”.
Entretanto por cá, também ontem, houve sururu na Assembleia porque o Zé Sócrates teria sussurrado “manso é a tua tia”, quando Louçã, no seu melhor ar seminarento, lhe afirmara que ele estava mais manso. Admito que o Bloco, de tão “prafrentex”, se tenha esquecido que manso, em português de Portugal, ainda mantém um sentido figurado que pode não agradar a um homem. No tempo do meu avô, uma insinuação de mansitude seria suficiente para se tirar coletes e trocar socos.
Sócrates, ao contrário de Cavaco, teve aqui pelo menos o mérito de não ficar calado. Mas ficou-se infelizmente pela metade: devia ter falado em voz alta, para o microfone, e colocado entre o “manso” e o “tua tia” uma palavra vernácula que caracterizasse a natureza comercial da referida senhora.
"Um dia, esta horrível guerra acabará por fim, um dia poderemos ser seres humanos e não apenas judeus"
in "Diário de Anne Frank"
Durante as férias carnavaleiras com o meu filho mais novo, passeando pela Bélgica e pela Holanda em gozo de tempo de qualidade, como agora se diz, terminámos em Amesterdão. Lá chegados, o rapaz quis começar por visitar a Casa de Anne Frank, cujo diário acabara de ler na disciplina de português.
Fomos e integrámo-nos na fila que dobrava a esquina, do canal dos Príncipes para a sombra tutelar da torre da Westerkerk, igreja onde Rembrandt repousa finalmente ao abrigo dos credores. O fim de dia assoprava uma brisa gélida e polvilhava-nos com uma cacimba fina. Foi com alívio que assomámos à porta do que no início da guerra era o armazém da Opekta, a empresa de especiarias de Otto Frank.
Confesso que não ia à partida com grandes expectativas em relação a esta visita. Por regra, não me demoro em casas-museu: a intimidade das figuras históricas tem para mim um interesse breve, que se desfaz em meia-dúzia de passos pelos soalhos gastos pelo andar dos anos e das solas dos turistas. Desta vez foi diferente e inesperado.
Acontece que eu nunca tinha entrado num santuário. Verdade que já andei por muito sítio onde homens de hoje ou de ontem reclamaram uma ligação especial ao divino. Visitei igrejas e templos, mesquitas e sinagogas. Bebi a água do oráculo de Delfos, sem grande impacto nas minhas capacidades predictivas, diga-se em abono da franqueza. Cheguei a abrigar-me da trovoada sob um dólmen. Penetrei a câmara tumular do faraó Quefren. Percorri a planura asfaltada das edificações de Fátima, as grandezas marmóreas da Santa Sé. Na ilha de Jeju, na Coreia, toquei a pedra que dá felicidade aos noivos coreanos, por sinal um país com uma elevadíssima taxa de divórcio. Mas em todos estes locais, por respeito que me mereça a história e as convicções de quem os venera ou venerou, nunca tive a percepção de estar cara-a-cara com o Sagrado.
Mas quando passei pela estante falsa que separava a Opekta do esconderijo onde durante dois anos viveram clandestinas oito pessoas (a família Frank, a família Van Pels e Fritz Pfeffer) senti, de uma forma tocante, que naquele local ocorrera um absoluto profundo. Entrara finalmente, a mais de meio da minha vida e quase sem me dar conta, num santuário. Ali se tinham cruzado em luta feroz Deus e o Diabo ou o melhor e o pior dos homens, escolham vocês.
As pequenas dependências do esconderijo visitam-se despojadas de mobiliário. Foram pilhadas após a prisão dos ocupantes. Otto Frank, pai de Anne e o único sobrevivente à guerra, quis que o local se mantivesse como estava. Percebe-se: novas mobílias fariam um cenário e o que se passou naquela casa não foi nenhuma peça.
Há detalhes comoventes. Uma vitrina exibe um jogo de tabuleiro, prenda de aniversário do jovem Peter Van Pels pelos seus quinze anos, celebrados na clandestinidade. Outra mostra exercícios de latim feitos por Margot Frank, a irmã de Anne, que saíam do esconderijo e voltavam corrigidos. E aqueles objectos encontrarem-se lá significa que gente boa arriscou a vida ajudando aqueles clandestinos não apenas para que se escondessem ou comessem, mas também para que uma menina pudesse satisfazer o seu gosto pelo estudo ou que um rapaz passasse um aniversário feliz.
Tal género de coragem, abnegada e heróica, suscita admiração e um certo orgulho: a nobreza é afinal possível. As pessoas que ajudaram os Frank e os restantes clandestinos têm caras e nomes: Miep Gies-Santrouschitz, Jo Kleiman, Victor Kugler e Bep Voskuijl. Por vezes, gastamos a cabeça a lembrar malta que não vale a pena. Estes não devemos esquecer nunca.
Ao revés, os nomes dos que os denunciaram não são conhecidos. O Mal abrigou-se cobardemente no anonimato. Os ocupantes daquele esconderijo foram presos em Agosto de 1944 e deportados para campos de concentração. Todos, excepto Otto Frank que sobreviveu a Auschwitz, pereceram, tal como cem mil dos cento e quarenta mil judeus holandeses que havia em 1940. Poder-se-ia pensar que o Mal ganhara ao Bem, usando e abusando da morte, a torto e a direito. Mas não. Com um livro, com a história da sua candura no meio da situação mais trágica, com a sua voz de esperança, com o seu testemunho, Anne Frank deu ao Bem uma vitória tardia e póstuma, usando a única arma possível: a Memória.
Uma reflexão final: uma visita à Casa de Anne Frank aviva-nos a lembrança que o nazismo existiu e do que foi. O modo como recentemente temos olhado para os totalitarismos do século XX tem sido muito clemente para o nazismo. O nazismo, pela escala mas sobretudo pela essência, representa o grau zero da humanidade.
Quando se junta acefalamente na mesma frase, como tantas vezes se ouve na televisão, nazismo e estalinismo, Hitler e Estaline, está-se a branquear o nazismo, como aliás Primo Levi, um anti-comunista sobrevivente de Auschwitz, muito bem fez notar nos seus escritos.
Na minha óptica, Estaline foi um ditador sem escrúpulos que perseguiu sem mercê os seus inimigos, supostos ou reais, e que por erros seus, militares ou económicos, indirectamente arrastou para a morte muitos milhões. “En passant”, e numa perspectiva histórica, tenho que reconhecer que acabou por ser o mas bem sucedido dos czares russos (apesar de georgiano), o único que conseguiu aquilo que Pedro e Catarina queriam e nem cheiraram: tornar a Rússia uma potência mundial.
Mas Estaline não mandou gazear crianças. Não promoveu deliberadamente o extermínio completo de povos. Por isso, porra! Não comparem! Só lhes fica mal…
Museu Tussaud, praça Dam
Saída do museu Tussaud
Algures na Krom Bloomsloot
Mesa de trabalho de Rembrandt, onde ele fazia as suas tintas
Obras do eléctrico na Rokin
No museu Judaico, peça de pano de onde eram recortadas as estrelas de David que os judeus eram obrigados a usar durante a ocupação nazi
Manhã tranquila perto de Lastegeweg
Ainda no museu Judaico, um moderno Spinoza
Casas de madeira perto do Rijksmuseum