Beco da Caridade. Sol à espreita e flores nos vasos.
Casas restauradas por trás do Terreiro do Trigo.
Beco da Caridade. Sol à espreita e flores nos vasos.
Casas restauradas por trás do Terreiro do Trigo.
Quase que, distraidamente, ia deixando passar em claro a efeméride: Mataspeak soprou duas velinhas a três de Dezembro.
Chegou ao octogésimo “post”, quase mantendo no segundo a média do primeiro ano. Para este número contribuiu uma novidade: a exposição fotográfica, originalmente pensada para encher chouriços numa fase de menor inspiração, mas que acabou por arregalar a vista à clientela e ter algum “feed-back” favorável, do tipo “tão boazinhas”.
A numerosa equipa que concebe, produz e leva até vós o Mataspeak juntou-se numa pequena festa privada, no restaurante Lux . Foram vários os colegas que quiseram contribuir. Na foto, o momento em que a Luísinha da contabilidade saiu do bolo surpresa.
Mataspeak vai continuar mais um ano. O esquema de cores, segundo a DECO a principal causa das 3.275.339 reclamações recebidas até à data naquela instituição de protecção do consumidor, vai-se manter tal e qual: letra branca sobre fundo preto, com títulos a verde. Aos clientes reclamantes, recomendo a Multi-ópticas.
Há dias, durante uma conferência sobre aquelas marmeladas de redução de custos que consultores apinocados vendem às incautas companhias e que me teve afretado uma manhã inteira, assisti à seguinte pérola: tendo um dos oradores referido a participação dos trabalhadores numa determinada metodologia, a moderadora, como quem corrige um garoto de escola, interrompeu-o para lhe dizer “nós aqui gostamos mais do termo colaboradores”.
Passemos sobre a atenuante da interruptora não me ter parecido de uma inteligência faiscante. Na realidade, tratava-se de uma daquelas meninas dos departamentos de comunicação. Já perceberam, com certeza, aquilo que eu quero dizer. E limitou-se, por isso, a papaguear o que uma certa “conventional wisdom” cá da paróquia vem propalando um pouco por todo lado, dos relatos dos telejornais aos discursos nas empresas: que ser colaborador é fino e, portanto, que ser trabalhador é grosso.
A utilização de eufemismos para referir quem trabalha não se limita aqui ao burgo. Dei uma volta na “internet” pelas páginas de grandes sociedades inglesas ou francesas e encontrei empregados, assalariados, recursos humanos e até – felizmente de forma mais rara que em Portugal – colaboradores. Trabalhadores não constavam. Aparentemente, ninguém anda a fazer nenhum por esse mundo fora.
Os termos “empregado” ou “assalariado”, ou o neutríssimo “recursos humanos”, ainda se engolem. Possuem, pelo menos, a desculpa da objectividade. De facto, os trabalhadores contam com um emprego e auferem um salário e são humanos na óptica da biologia e recursos na perspectiva da teoria económica. Pelo contrário, já a expressão “colaboradores” me horripila um bocadinho. E não apenas por me recordar, intuitivamente, o abaixamento e a bufaria característica dos regimes totalitários, de Vichy a Ceausescu. O primeiro sentido de colaborador no dicionário é “que ajuda outrem nas suas funções”. Quando, nos relatórios e contas das companhias, a administração agradece o empenho dos colaboradores, está no fundo a significar que o mérito é dela, que as outras centenas ou milhares apenas contribuíram com uma episódica ajuda. Apetece-me lembrar Brecht: “Mas foram os reis que carregaram as pedras?”
No moderno jargão dos “media” e da gestão, o pobre trabalhador tornou-se vocábulo sem cotação, que quase ganhou um sentido de excluído, daquele que está do lado errado da vida e do progresso e azar o dele. Nas notícias dos periódicos, são trabalhadores os que, surpreendidos, dão com o nariz na porta de uma fábrica nortenha que se deslocalizou. Nas soltas dos telejornais, trabalhador é o que se manifesta pela avenida, filmado em plano rasante, de bandeira e boné, enquadrado em sindicatos. Estes e não outros. Porque os outros são os tais que colaboram nas empresas, serenos nas suas qualificações e arrumadinhos nos seus fatos e gravatas, atrás dos “flat screen” cintilantes com que os amarram doze horas diárias, convictos de pertencerem a um admirável mundo novo no qual os primeiros não cabem e até atrapalham. Olham para estes com a sobranceria vaga com que se contemplam realidades tristes mas distantes, como a fome ou a guerra. E nesta alienação não se apercebem que formam um novo proletariado, alimentando com anos de vida uma máquina que os ultrapassa, por medo do mal maior do desemprego e de passar para o lado de lá de uma barreira que mentalmente lhes criaram.
Quando a palavra “trabalhador” ganha assim contornos pejorativos, estamos conversados em relação à ética do trabalho na nossa sociedade. Na educação que me deram, na casa como na escola, o trabalho afirmava-se como valor mais do que respeitável: uma obrigação para com os outros que nos promovia como seres humanos e que deveria ter duas formas de compensação, uma material e outra moral, associada à satisfação do cumprimento do dever. Qualquer trabalho, do mais “humilde” ao mais “sonante” possuía igual nobreza: um dos primeiros provérbios que ouvi foi o francês “il n’y a point de sôt métier”. Consequentemente, abominava-se a preguiça, essa sim uma vergonha pessoal e social. Tudo isto já o dizia Péricles, por outras palavras, no seu discurso aos atenienses, dois mil e quinhentos antes da moda dos colaboradores.
A dignidade do trabalho e a memória da construção dessa dignidade devem ser património de qualquer democracia que se tenha na devida conta. Ainda em Portugal uma pessoa podia ir presa por festejar o primeiro de Maio, já eu folgava nesse dia, cortesia da escola francesa que frequentava. Porque na França de De Gaulle se festejava o dia do trabalhador.
O primeiro de Maio tem curiosa origem num facto prosaico: era o primeiro dia do ano fiscal norte-americano, quando terminavam os contratos a prazo e por isso foi a data escolhida pelos sindicatos para iniciar, em 1884, uma luta pelas oito horas diárias. Este processo veio dar a origem a uma sequência de acontecimentos que terminaram com o enforcamento de cinco sindicalistas anarquistas, num dia de 1887 que ficou conhecido como “Black Friday”.
Três anos depois, em Paris, a Segunda Internacional decidiu escolher o primeiro de Maio para realizar manifestações pela imposição, agora na Europa, da tal jornada de oito horas, numa semana de quarenta e oito. As autoridades não deliraram com a medida: no dia um de Maio de 1891, durante a “Fusillade de Fourmies”, no norte de França, um destacamento militar dispara galhardamente sobre manifestantes desarmados. Nove mortos, um homem de trinta anos, dois rapazes de vinte, duas crianças de onze, quatro raparigas entre os dezassete e os vinte. Provavelmente, perigosos subversivos. A coisa não foi portanto fácil.
O dedicar de um dia feriado de homenagem ao trabalhador e à sua luta por melhores condições de vida é universal no mundo democrático. Nos Estados Unidos ocorre na primeira segunda de Setembro, o “Labor Day”, em homenagem aos ferroviários em greve que em 1894 enfrentaram doze mil tropas em Kensington, perto de Chicago. No Reino Unido e na Irlanda, vai na primeira segunda-feira de Maio, para proporcionar um fim-de-semana prolongado. Na antípoda australiana, com os seus bichos únicos, têm uma data diferente consoante a província. Na Europa, na América do Sul e na Ásia, serve o primeiro de Maio. Até a Santa Sé institui desde 1955, a um de Maio, a festa de São José, trabalhador do sector da carpintaria.
A percepção de que os direitos dos trabalhadores e a nobreza do trabalho constituem um avanço civilizacional que merece ser celebrado, nem que seja com uma valente folga, é por vezes entendida como património da esquerda. Não é evidente: muitas democracias ocidentais governadas à direita instituíram e mantiveram a celebração de um dia do trabalhador. A América e a França formam exemplos. Vide o caso gaulista, acima citado. Mas isto não deve surpreender: existem muitas direitas, algumas respeitavelmente democráticas, por vezes conservadoras, outras vezes liberais, às vezes libertárias.
Em Portugal, a esquerda tem como preconceito que a direita é básica e reaccionária. A tal “parti pris” não será alheio o facto de a direita portuguesa ser de facto maioritariamente básica e reaccionária. Donde vir de lá tanta prosápia com os colaboradores, como se ser trabalhador – eu sou – envergonhasse. Se não nos precatamos, ainda aparece aí um dia do colaborador. Provavelmente o vinte e nove de Fevereiro, para não afectar a produtividade.




A floresta.
Os raios azuis.
Os cabides.
A “Balada do Mar Salgado”, do italiano Hugo Pratt, é a primeira e uma das mais célebres histórias da sua principal criação, o marinheiro Corto Maltese. Nascido em La Valetta, filho de um marujo inglês da Cornualha e de uma cigana de Gibraltar, Corto cresceu no bairro judeu de Córdoba e vive, quando lá vive, na Antígua ou em Hong Kong. Em jovem, cortou com uma faca a sua linha de vida, na palma da mão, traçando ele próprio o seu destino.
A “Balada do Mar Salgado” começa por ser uma história de piratas trabalhando para um misterioso personagem, “o Monge”, que traz uma nota de fantástico e aproveita a envolvente da primeira Grande Guerra no quadro inesperado dos Mares do Sul. Pouco a pouco, a “Balada” vai evoluindo para uma bela história de amizade e amor, em que as fortes relações que se vão construindo acabam por ser mais importantes que os belíssimos panos de fundo de um exotismo exuberante que é tão característico de Pratt.
“A Marca Amarela” é uma obra-prima noutro estilo. O seu autor, o belga Edgar P. Jacobs, ocupa na BD o lugar que na literatura pertence a Verne, a Wells ou a Bradbury. Com uma longa carreira de desenhador e argumentista, Jacobs só produziu oito livros da série “Blake e Mortimer”, um dos quais não terminou antes de morrer. Todos são livros de primeira linha: “O segredo do Espadão”, “O mistério da Grande Pirâmide”, “O enigma da Atlântida”, “A armadilha diabólica”, e por aí fora. Jacobs escreve e ilustra uma ficção científica quase realista, só uns anos à frente do passado, que com o passar do tempo ganhou uma soberba “patine”, tornando-se um futuro que nunca aconteceu.
Esta representação perfeccionista, associada ao facto de a narrativa ocorrer sempre num futuro quase presente, permitem que Jacobs aborde temas fantásticos “clássicos” sem cair na exuberância barroca da grande maioria dos outros autores. Sobriedade é a palavra de ordem, e Jacobs descreve civilizações perdidas, guerras holocáusticas, viagens no tempo ou homens artificiais como quem pinta cavalheiros de gravata a fumar um charuto após o jantar. Enquanto Hugo Pratt traz o exotismo da Polinésia para falar de corriqueiros amores e desilusões humanas, Edgar Pierre Jacobs usa de sobriedade para nos mostrar Mortimer a fugir de um “Tiranossaurus Rex”, depois de uma avaria na máquina de viajar no tempo. Nas palavras do próprio, “em ficção científica é preciso saber até onde se pode ir longe demais”.
Philip-Edgar-Angus Mortimer nasceu em Simla, na Índia, filho de um médico escocês do Exército Britânico das Índias. Aos onze anos, rumou à Escócia onde estudou nas melhores escolas até um BSc, após o que se especializou em física nuclear no M.I.T. e em Berkeley. Fino currículo, portanto. O seu saber não é facilmente confinável. É o investigador humanista, aberto a todos os problemas que se lhe deparam. Acumulando a ciência com a acção, Mortimore é um homem robusto com experiência de boxe, judo e karaté, o que lhe é bastante útil em muitas das situações delicadas a que o seu carácter impulsivo e a sua intransigência em questões de honra o estão sempre a atrair. Bebe Cardhu e fuma Virgínia no seu cachimbo.
Ao contrário de Mortimer, Francis Blake é a fleugma britânica em pessoa. Comparado com o amigo, parece frio e afastado, e absolutamente seguro das suas reacções. Mas tal aparente insensibilidade apenas se deve a um horror muito atavicamente britânico em manifestar publicamente os seus sentimentos. Blake é tenaz, perseverante, combativo, não se poupando a esforços até encontrar uma solução. Contrariamente a Mortimer, sempre pronto a mandar-se de cabeça para a aventura, Blake é circunspecto, ponderado e prudente. Mas quando chega o momento da acção, a sua bravura não fica a dever nada à do seu companheiro. Colecciona condecorações (“Disguinshed Service Order”, “Military Cross”, “St.George Medal”, “Victoria Cross”) e um título de baronete! Se bem que promovido a coronel, os colegas continua a tratá-lo amigavelmente por “capitão”, em homenagem a um longíquo antepassado que desbaratou os navios de Filipe-Augusto de França em 1213. Como bom bife da elíte, pratica desportos “snobs”: pólo, golfe e vela.
E a “Marca Amarela”? Uma história na essência simples: heróis contra vilões, o bem contra um mal misterioso e inexplicavelmente todo-poderoso. Um romance policial com inspirações no fantástico gótico tão ao gosto anglo-saxónico. Um filme negro em quadradinhos. Mas por cima disto, um pouco mais do que isto. Sem entrar em detalhes, para não te estragar a leitura e a descoberta, “A Marca Amarela” é também uma história de vingança, que contem uma reflexão, explícita, sobre o papel da ciência e do saber e outra, implícita, sobre a intolerância e o pedantismo daqueles que julgam ser donos da verdade. Estas são reflexões recorrentes em Jacobs, que escreve a sua obra durante uma Guerra Fria atormentada pelo risco do holocausto nuclear e dos novos demónios que o cogumelo de Hiroshima tinha libertado para a paranóia colectiva.
O grafismo, que atinge aqui uma sobriedade extrema, está todo ao serviço da vertente negra da história. O aspecto quase sobrenatural do “Marca Amarela”, deixando a permanente dúvida se ainda estamos num policial ou já no terror, a eficácia do logótipo, a oposição entre o claro e o escuro, a representação da noite como momento do mal, tudo concorre para dar ao enredo a sua personalidade de história fantástica.
E, sobretudo, a “Marca Amarela” é Londres. Não há obra – literária, cinematográfica ou outra – que melhor represente a minha ideia de Londres do que esta. Começando logo, com a fabulosa cena inicial na Torre de Londres, sob um céu de chumbo e uma chuva intemporal. Continuando com as imagens do “Centaur Club”, em Picadilly, ou o passeio do Dr. Vernay da página 11, ou de Limehouse Dock. Sobretudo, a humidade permanente nas lajes de cimento dos passeios que calcorreei tantas vezes e que as encontrei tal e qual as descreve Jacobs em “A Marca Amarela”.
Por último, “A Caçada”, do franco-jugoslavo Enki Bilal (desenho) e do francês Pierre Christin (texto). Enki Bilal, embora aqui só desenhe, é também argumentista e autor de um universo imaginário passado num futuro inquietante (vide, por exemplo, a “Trilogia Nikopol”), com imagens cheias de simbolismo e de um primor gráfico único. É essa inquietação que imediatamente assaltará, desde o primeiro quadrado, o leitor da “Caçada” que reconheça o estilo. Pierre Christin foi escritor, argumentista de BD e cinema, jornalista, músico de “jazz”, etc. e tal. Em banda desenhada, aparte esta colaboração com Bilal, criou com o desenhador Mezières a excelente – embora por vezes um pouco delirante – série de ficção científica “Valérian”, que inclui um dos meus livros favoritos, “A cidade das águas vivas”, aventura e acção numa Nova Iorque pós-apocalíptica, mas com uma mensagem de esperança no futuro.
Quanto a “A Caçada”, é uma obra complexa e densa no enredo, na mensagem e no desenho. A história passa-se em 1983, em pleno “Breznevismo”, perto de Krolowka, na Polónia, durante uma caçada na neve em que participam proeminentes membros dos partidos comunistas dos diversos países do então “bloco de leste”. Não te irei obviamente dizer o que se passa, para que não percas o interesse, mas o personagem fulcral é Vassili Alexandrovitch Tchevtchenko, influente veterano do regime soviético, com um passado que remonta aos dias da Revolução Russa.
Através do desenrolar da acção e paralelamente através das memórias que Evgueni Golozov, seu adjunto, e os restantes personagens nos vão dando de Tchevtchenko, vamos descobrindo as diversas facetas de um indivíduo complexo, de uma pessoa real tão diferente do homem imaginado que é Corto Maltese ou dos heróis ideais que são Blake & Mortimer. Vamos descobrindo como Tchevtchenko navegou a torrente histórica da Revolução Russa, lutando, manobrando, amando e sofrendo. Ficamos, no final, na dúvida sobre quem é este homem. Um revolucionário ou uma vítima da revolução? Um grande líder ou um assassino? Um figurante sujeito aos ditames de um enredo maior do que ele ou um actor principal, com autonomia para modificar o seu papel e conduzir o desenvolver da trama?
O que faz deste livro um grande livro, capaz de repousar sem vergonha na estante ao lado de um “O estrangeiro”, de um “D. Quixote” ou de um “O jogador” é esta capacidade de nos revelar a diversidade que há no Homem, através da agregação de diferentes mas comunicantes planos, de histórias dentro da história: a história pessoal de Vassili Alexandrovitch Tchevtchenko, a da Revolução Soviética, a do processo estalinista ou mais genericamente totalitário, a análise do poder e do seu exercício.
O desvendar, lento mas inexorável, desta múltipla geometria dá-se sobre o pano de fundo do desenho de um Enki Bilal no seu melhor, em que o realismo genérico da representação é subtilmente modificado, aqui e ali, na arquitectura do hotel ou nas memórias dolorosas, para invocar os universos imaginários de outras obras dos autores, alertando-nos e inquietando-nos. O cromatismo é fabuloso, com o simbolismo vermelho de sangue da violência sempre latente, bem como o falcão, ave de mau augúrio, sobrevoando discretamente a história, ora ave, ora massa sanguinolenta como as mãos ou as consciências dos personagens.
Casa em Preston, no Lancashire. Uma antiga cidade operária, hoje essencialmente dedicada à sua universidade, em que o velho tijolo contrasta com ombreiras e portadas de todas as cores. Julho de 2004. Sony Cyber-shot DSC-P72. Na Casa da Calma, turismo rural ao pé de Santa Catarina, no Algarve. O gato da proprietária adormeceu na espreguiçadeira. A toalha pu-la lá eu e o difícil foi não acordar o bicho. Setembro de 2004. Sony Cyber-shot DSC-P72.
Fundo de um tanque num jardim contíguo à pousada do Alvito. Janeiro de 2007. Sony Cyber-shot DSC-P72.
"Lobby" do hotel Intercontinental em Abu Dhabi. Tirada durante o Ramadão, o cartaz publicita a excelência do "iftar" servido. O "iftar" é a refeição de fim de dia que quebra o jejum obrigatório. Sony Cyber-shot DSC-P72.
Rua de Odeceixe, numa noite de Verão. Agosto de 2006. Sony Cyber-shot DSC-P72.
Rue de l'Alboni, em Paris, ao pé do Trocadero. O letreiro fluorescente de uma farmácia forneceu o reflexo esverdeado. Outubro de 2007. Canon 400D, zoom a 28 mm, 1/60s, f6.3.
Uns acham que o homem foi criado todo bem-postinho ao sexto dia e que isto é que deveria ser ensinado nas aulas de biologia. Outros pensam que o facto de qualquer idiota poder ser dono de uma arma de fogo não tem nada a ver com as matanças que todos os anos ocorrem nos liceus americanos, quase com a mesma tradicional frequência que o baile de formatura. Há os que julgam que a substituição da educação sexual escolar pela promoção da abstinência entre os adolescentes não está na origem da maior taxa de gravidez precoce do mundo ocidental. Aqueloutros ainda não perceberam que os furacões cada vez mais vezeiros e violentos que levam no toutiço têm origem no aquecimento global promovido pelas carradas de CO2 que a indústria americana debita cá para fora. Verdade seja dita, não devem morar na Louisiana ou na Florida. Outros ainda supõem que a coisa se resolve furando mais poços de petróleo, dê lá onde der. E não me admirava que alguns haja lá para o meio que acreditam mesmo na existência do Santa Claus, “himself”. Já agora, para maluco, maluco e meio.
Ora o McCain, do alto dos seus setenta anos, inscreve-se mais no estilo do velho partido fundado em 1854 por anti-esclavagistas e modernizadores da política americana, o partido de Lincoln e de Theodore Roosevelt, partido que pouco tem a ver com a cegarrega autoritária e atrasada mental dos últimos tempos. Para parte da turba votante, é um suspeito esquerdista, apesar das condecorações e das cicatrizes.
Com tanto sandeu para contentar, McCain precisava de vários vice-presidentes, mas as regras deixadas pelos pais fundadores só lhe permitem um. Vai daí, passou a base de dados com os trezentos milhões de norte-americanos num algoritmo de optimização multi-variável e conseguiu desencantar numa vilória do Alasca o único americano – no caso uma americana – que não só acredita nos Pais Natal todos, como tem a idade e o sexo que ele não tem (demograficamente falando, é claro).
Sarah Palin nasceu no Idaho mas foi criança para o Alaska. O pai Palin ia com ela caçar o alce antes da hora de entrada na escola e a família entretinha-se com corridas de 5 e 10 km, o que a menos quarenta deve ser o máximo. Claro que isto tinha que deixar marcas na pequena Sarah que cresceu cristã evangélica, criacionista, membro da “National Rifle Association”, “pro-life”, “pró-virgem até ao casamento”, “pró-corte de subsídios aos deficientes”, “pró-esburacar o Alasca a sacar petróleo”, “pró-censura dos livros inconvenientes”, “pró etc.” Pró caraças não lhe faria mal nenhum!
Mas como Deus dá com uma mão o que tira com a outra, para compensar tanta burrice deu-lhe uma carinha laroca, com a qual ganhou o título de Miss Wasilla, possivelmente competindo contra duas ursas polares e uma “inuit” velhota, para que o “quorum” fosse preenchido. Forte desse diploma de beleza, andou em cinco universidades diferentes para acabar um curso de jornalismo, tornou-se repórter desportiva, presidente da câmara de Wasilla (sete mil alminhas, já contando os alces que sobreviveram ao pai Palin), governadora do estado (onde rapidamente deixou o orçamento num triste estado) e agora candidata à vice-presidência dos Estados Unidos da América. É assim como se a presidente da junta de freguesia de Curral das Moinas se visse de repente em ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.
Tudo isto seria motivo para uma boa galhofa, não fosse o McCain ter setenta e dois anos, com quatro melanomas, muita porrada levada no Vietname e qualquer dia poder dar-lhe um badagaio. E, se tiver sido eleito, lá vão os códigos do arsenal nuclear para os dedinhos habituados ao gatilho da presidente Sarah Palin. Um sossego!
P.S.
Para quem não entendeu ainda bem o que é a direita evangélica norte-americana, recomendo os capítulos quatro a sete de “American Theocracy”, de Kevin Phillips, um antigo conselheiro de estratégia eleitoral de Richard Nixon. Um bocado maçudo, mas com dois ou três cafés vai.
Se quiserem uma versão sintetizada, vejam este extracto do Jon Stewart, que fala por si (o extracto, não o Jon):