sábado, junho 25, 2011

Exposição fotográfica (XXXV)

Vila Nova da Barquinha, 17 de Junho









Com fim na Rua Barral Filipe

sexta-feira, junho 24, 2011

Aprender a ler

Descobri esta semana, na minha leitura vezeira de Pedro Lomba no Público, que Camilo Castelo Branco desapareceu do currículo do ensino secundário. Lomba parte deste mote para desenvolver uma interessante crónica sobre o ensino ou melhor o desensino da literatura. Coisa sobre o qual o próprio tem dúvidas fundamentais: refere ele que não tem a certeza se o gosto pela literatura se pode ensinar. Pois eu quase que tenho que pode. Nisto discordo dele.

Mas já concordo com ele que pelos serviços do ministério anda gente em demasia a cerebrar sobre temas bizarros, como seja a melhor maneira de ensinar a crianças de treze ou catorze anos a reconhecer nos Lusíadas metalepses e metáteses. Ora as metáteses estão para o desenvolvimento do gosto pela literatura como as metástases estão para a promoção da nossa saúde. Não me parece que tão erudito exercício induza nas mentes tenras o amor pela leitura. Será como querer promover o gosto pela culinária com cursos teóricos de química orgânica avançada.

(Aparte antes de prosseguir: para os que estão neste momentos extasiados com a minha sapiência, informo que há truque. Eu não sabia de cor, nem de outra forma qualquer, o significado de metalepse ou metátese. Fui ver a um dicionário de figuras de estilo que consta de uma edição dos Lusíadas que há cá por casa. Tem lá termos espectacularmente ininteligíveis, óptimos para tentar levar à loucura os adversários num jogo de “Pictionary”. Por exemplo, sabem o que é uma hendiádis ou um - ou será uma? - paragoge? E um polissíndeto ou uma tmese? Não? Bando de analfabetos! Mas um zeugma devem saber... Também não? Como é que conseguem ler um livro nessa vil escuridão?)

Quanda não está entretida a complicar, a mesma ministerial gente, apiedada perante as dificuldades daqueles que paternalisticamente vê como menos capazes, cai no outro extremo e facilita. Por exemplo, o programa de 10º ano de Português preocupa-se com que jovens de quinze anos saibam “reconhecer diversos tipos de texto” como sejam “textos informativos diversos e os seguintes dos domínios transaccional e educativo: artigos científicos e técnicos; verbetes de dicionários e enciclopédias; declaração; requerimento; contrato; relatório”. Ou então “textos dos media”, que podem ser até radiofónicos. E não aponta nenhuma leitura integral de um livro como obrigatória (só no 11º aparecem o Frei Luís de Sousa e um Eça à escolha, que por algum azar até pode calhar ser “O mandarim”).

Ora eu com essa saudosa idade andava no Liceu Francês a levar antiquadamente com Racine e Zola na tromba, para ler na íntegra, e nunca tive assim a oportunidade fresca de analisar verbetes de dicionários para os poder reconhecer quando os visse. Por razão misteriosa, apesar de não ter beneficiado do modernaço programa do 10º em língua pátria, consigo preencher um requerimento, utilizar um dicionário e até ouvir as notícias na TSF sem me baralhar todo e ficar a pensar que o entendimento a que chegaram Portas e Passos Coelho é sentimental e não político. Devo ser um autodidacta.

Quem arquitecta estes programas comporta-se como um condutor que só andasse ora pela berma esquerda ora pela berma direita, com o carro em zigue-zagues bruscos, nunca conseguindo assentar sossegado com os pneus no raio do alcatrão. O resultado de anos desta condução inebriada são os alunos que apanho no quinto ano do Técnico, à beira do mercado de trabalho, que “axam que puderiam usar uma equacão para calcular a inflaxão”. Já hoje uma larga maioria, infelizmente.

Mas desensinar é fácil, já sabemos. E ensinar? Ensinar a gostar de ler?

O sistema que apanhei no Liceu Francês parece-me a este propósito ter algumas virtudes, desde já com perdão pela pinta “no meu tempo é que era” desta reflexão.

Para começar, esse sistema mete livros. Do primeiro ao último ano do liceu, em cada Outubro, quase uma dezena. Sai-se no final da escolaridade com uma meia centena de títulos, o que acaba por constituir um razoável princípio de uma biblioteca pessoal. A escolha varia ao longo do tempo, mas mistura clássicos, literatura mais ligeira, teatro, poesia, originais e traduções. Fui ver a estante do meu mais novo, que está a meio percurso. Tem lá Molière, Voltaire, Balzac e Flaubert, mas também Pagnol. E tem Orwell, Golding e Primo Levi. E Esopo e a Odisseia e contos da mitologia grega. E teatro de Anouilh e poesia moderna. Para equilibrar, Agatha Christie, o Petit Nicolas de Sempé e Goscinny ou o Diário de Adrian Mole.

No quarto do mais velho, que já acabou, há uma prateleira inteira. Para além de alguns dos anteriores encontro entre outros Montaigne e Ronsard, Maupassant e Baudelaire, Le Clézio e Camus, Sófocles, Shakespeare e Puchkine, Racine e Ionesco, Sepúlveda e o planeta dos macacos. E até a Bíblia dada enquanto obra literária.

A isto chama-se diversidade e parece-me ser a lição número um. A literatura é uma janela aberta para um mundo variado e variável. Claro que numa cadeira de literatura francesa há que dar os grandes nomes, que construiram e dão brilho à língua deles. De igual modo, em Português deve-se ler uma boa selecção entre Eça, Camilo, Camões, Sá de Miranda, Pessoa, Herculano, Torga, Cardoso Pires, Nemésio, Miguéis ou Saramago ou Lobo Antunes, e com liberalidade. Mas há espaço para muito mais. Porque não boas traduções de boas obras estrangeiras ou escrita nacional mais contemporânea ou mais ligeira? Mais vale um Hamlet em português ou um romance do Rodrigues dos Santos do que qualquer “texto dos media” ou o que é que essa treta seja.

Depois, estes livros devem-se ler integralmente. Esta será a lição número dois. Claro que nem todos os alunos o fazem e claro que na sala de aula a análise tem que se focar em passagens seleccionadas. Mas os livros são como os paus, têm duas pontas, um princípio e um fim e o resto que está no meio. Um excerto pode quanto muito funcionar como um “teaser”, mas não dá a medida da grandeza de uma obra nem permite o sentimento de preenchimento e partilha que podemos ter quando viramos a última página de um bom livro. Seria como esperar que o “trailer” de um grande filme nos fizesse pensar, rir ou chorar do mesmo modo que as duas horas de visionamento em frente ao ecrã. Só aprendemos a gostar de ler lendo, e não brincando ao “toca e foge” com os livros.

E, finalmente, a terceira lição.

Tive no último ano do liceu um professor de francês que me ensinou como se lia um livro ou um poema: fazendo uso da nossa liberdade. Com ele descobri que uma obra não é uma, são milhares ou milhões. Há a que o autor escreveu e há todas aquelas que os leitores lêem e todas são igualmente verdadeiras e importantes. Com ele aprendi a ler com os meus olhos, com a minha cabeça e com os meus sentimentos. Era um homem calmo, reservado, com um ar quase severo na primeira abordagem, sempre de fato escuro numa escola que primava pela informalidade. Não me lembro de o ver a rir, apenas de sorrir contidamente diante de uma situação cómica. Perguntava-me, preparando-nos para o exame oral final, sobre uma palavra que um poeta usara num verso:

- Porque pensas que o autor escolheu exactamente esta palavra e não outra?
- ...
- Dá a tua opinião.
- Talvez porque “isto”.

- Então se achas “isto”, no dia da oral, di-lo.

- E se o examinador não concordar?
- Se o examinador não concordar diz-lhe que fui eu que te o ensinei.

E não é que ensinara mesmo? Ensinara-me que não somos meros receptáculos de uma narrativa, leitores inertes numa relação de um só sentido. Somos agentes, pares do autor, responsáveis com ele pela construção da obra lida. Por exemplo, Thomas Mann dizia que descrevera no seu “Os Buddenbrook” a decadência de uma família. Ora quando eu o li, esse aspecto pareceu-me meramente instrumental. Achei-o um grande livro sobre a riqueza, a diversidade e a fragilidade da vida. Não há azar, o livro que ele escreveu e aquele que eu li simplesmente não são o mesmo: entes próximos, ligeiramente diferentes e igualmente respeitáveis. Ler é um exercício de homens e mulheres livres. Por isso as ditaduras sempre proibiram e queimaram livros. Até a semelhança fonética das palavras “livro” e “livre” , uma feliz coincidência, reforça essa identidade.

Para ensinar o gosto pela literatura precisaremos sempre de professores capazes e alunos disponíveis, como em qualquer matéria. Se a esses ingredientes juntarmos, para horror da malta do ministério, alguns livros, lidos de fio a pavio e com espírito de liberdade, a aprendizagem pode ocorrer. Mesmo que no fim ignoremos o significado de “metátese” ou “zeugma”.

segunda-feira, junho 13, 2011

Pub. (Mataspeak em momento de publicidade pouco encapotada)

Como já aqui contado, em Junho de 2008 o meu pai fixou residência na sua terra natal, Vila Nova da Barquinha. Desde então tornei-me barquinhense de ocasião, deleitando-me com a vista do Tejo junto ao Cais Pombeiro, passeando pelos caminhos geométricos do Barquinha Parque ou pela pacatez das ruas desertas ao pino do sol, assinando o jornal Novo Almourol, deliciando-me na Tasquinha da Adélia com um bife com batatas fritas que não foram compradas na Makro, com o sabor pensava eu perdido que as nossas avós lhe sabiam dar, emocionando-me enfim à porta da sede do Sporting Clube Barquinhense, instituição decana de que meu avô foi sócio fundador como atesta um diploma que, encaixilhado a verde, está pendurado no escritório onde escrevo estas linhas.

Para mais, lá vou sabendo histórias das minhas raízes, sobretudo quando tenho a sorte de coincidir com os mais velhos. Numa terra de apenas 1400 habitantes, já terei ouvido em breve esse mesmo número de memórias contadas ora com saudade ora com riso.

Pois neste fim-de-semana, no dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e de tudo o mais, inaugurou-se no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha a exposição DaNação, da autoria do meu tio Luís da Mata, filho da terra, em que este usou como mote a bandeira nacional para uma sequência plástica, de pintura e instalação, que propõe uma reflexão sobre o caminho trilhado – sobretudo nos tempos mais recentes – pelo nosso país.

Vem a propósito esta exposição, porque passam no próximo dia 19 exactamente cem anos sobre a aprovação do actual modelo de bandeira pelo decreto 141 da Assembleia Nacional Constituinte, selecionada que foi, após concurso de ideias, por uma comissão a que pertenciam Columbano Bordalo Pinheiro, João Pinheiro Chagas e Abel Botelho.

Vem mais a propósito ainda porque a nação do símbolo passa por momentos de aperto que o símbolo da nação não deixaria suspeitar, com o seu verde “de esperança” e o seu vermelho, “cor combativa, quente, viril, por excelência (...) cor da conquista e do riso (...) cor cantante, ardente, alegre (...)”, nas palavras da comissão que a escolheu.

Não tenho a certeza de que a minha leitura do percurso exposto seja exactamente igual aquela que o autor tinha em mente quando produziu a obra. Conhecendo-nos a ambos, admito que não. Fica esta matéria para próxima conversa entre os dois.

Mas digo-vos e assim termino: vão, que vale a viagem e não só por orgulho de sobrinho. É uma visão inovadora, disruptiva e esteticamente apelativa sobre o nosso colectivo. Olhem, admirem, interroguem-se e pensem. E desfrutem, claro está.


quinta-feira, junho 09, 2011

A noite eleitoral vista do meu sofá

Duas da tarde

A noite eleitoral começa cedo nas têvês. Os telejornais vão repassando a xaropada usual, com o mesmo rigor metódico com que os pilotos aviadores percorrem (espero eu) o “check list” antes da partida.

Temos por isso:

a) O exemplar civismo com que o acto eleitoral está a decorrer

Contra todas as expectativas não há barricadas e forcas nas ruas de Portugal e o sangue não corre nas valetas.

b) O voto dos candidatos

O candidato votou antes do meio-dia na escola secundária cê mais esse D. Fuas Roupinho. Chegou acompanhado da mulher e esperou pela sua vez para exercer o seu dever cívico. Cumprimentou os membros da mesa. À saída, declarou que esperava que o acto eleitoral decorresse com normalidade e que a afluência às urnas fosse elevada. Entrou num café onde bebeu uma bica em frente às câmaras.

Ainda um dia hei-de dar o meu voto ao candidato que vá votar pela seis e meia da tarde, chegue acompanhado de uma gaja que conheceu na noite anterior, motivo desse voto tardio, passe à frente da fila porque está com pressa, mande bugiar os membros da mesa e declare que até podia andar tudo à porrada que para ele era o mesmo e que quanto menos forem às urnas menos papel se gasta. Finalmente, que entre no café onde os outros candidatos beberam as bicas e avie duas imperiais perante o “zoom” arregalado das câmaras.

Talvez quando o Vieira conseguir as assinaturas.

c) Os boicotes ao acto

Há sempre dois ou três cus-de-mundo em que dois ou três caciques locais conseguem um boicote fechando a corrente e cadeado, corajosamente pela calada da noite, o local onde a votação iria decorrer. Afirmam depois aos microfones sôfregos das cadeias televisivas que a população de A-dos-Caracóis está farta de não ter lá uma estação de lançamento de foguetões interplanetários ou outra infraestrutura igualmente fundamental. Os senhores jornalistas tomam a devida nota e esquecem-se sempre de perguntar porque é que se a população está assim tão unânime foi preciso trancar as portas.

Desta vez houve porém alguma originalidade. Num lugarejo obscuro largaram abelhas na sala das mesas de voto, o que permitiu ao presidente da junta confirmar o boicote, não fosse alguém ser picado e morrer com uma reacção alérgica. Noutro ermo qualquer, puseram cola nas fechaduras e uma esmerada selecção das mulheres mais feias de Portugal aos gritos em frente às portas, de permanentes ralas e brincos de minhota, cenário dantesco que desmotivou a GNR de agir com proporção na reposição da legalidade democrática.


Sete da tarde

No continente, porque nos Açores os micaelenses, as corvinas e os picarotos ainda enfiam nas urnas de voto, impedindo a divulgação no “cuuntiineente” de sondagens à boca das mesmas.

À falta de melhor tema, as televisões divulgam a previsão de 40% de abstenção, com mais ou menos casas decimais.

Procuram-se causas racionais. O afastamento dos jovens da política. O afastamento dos idosos da política. O afastamento da malta na força da idade, da política.

Se os vivos se afastam, já os mortos não arredam pé. Os cadernos eleitorais caminham para o milhão de eleitores-fantasma. Mesmo assim não é mau: li hoje que nove mil mortos na Grécia ainda estão a receber a reforma. Cá, pelo menos, os defuntos limitam-se a abster-se.

Na realidade a explicação é mais simples. Na Atenas clássica, a condição de cidadão implicava direitos (como o voto) e deveres (como o voto). Aos cidadãos que não se envolviam na política, os atenienses chamavam-lhes “idiotes”, termo grego que significava “indivíduo” ou “pessoa privada”, mas com um cunho pejorativo. Daí derivou a nossa palavra “idiota”.

Havendo 9,6 milhões de eleitores, os 40% que se abstiveram representam 3,8 milhões. Subtraiam-se os 0,7 milhões de mortos e sobram 3,1 milhões de idiotas. Para o que a gente vê por aí, até diríamos que deviam ser mais.


Oito horas e treze milésimos de segundo da tarde

Pedro Passos Coelho novo primeiro-ministro.

Assim não dá gosto. Quando eu era garoto, a noite eleitoral durava eternidades de incerteza e adrenalina, até altas horas da madrugada. Começavam a existir uns prognósticos lá para as dez, mas certezas só depois da meia-noite, senão mesmo na manhã seguinte.

Hoje no primeiro segundo fica-se a saber tudo, passados quinze minutos já estão contadas metade das freguesias, uma hora depois já se demitiram os derrotados e às onze está tudo a arrumar o estaminé.

Assim mal acomparado, passámos de um prolongado gozo tântrico ao “ejaculatio praecox” dos Romanos, no que a noites de eleições se refere.


Oito e um minuto

A RTP vai mostrando os homens da luta Jel e Falâncio, duas das maiores concentrações de sebo da galáxia, a aproveitar o momento para se publicitar, com megafone, cartaz e bombo, em frente ao hotel que serve de “quartel-general” ao PSD, enviando os parabéns assim que vêem um microfone disponível. Cheira a casaca virada.

O drama de se tentar ser engraçado é que convém ter graça.


Oito e qualquer coisa

Vou “zapando” entre canais. Embora tenham cada qual uma dúzia de comentadores arrebanhados para os prognósticos de fim de jogo, alguns dos quais até interessaria ouvir, as televisões preferem permanentes directos com o Sana, o Altis, o Vitória ou o Largo do Caldas, onde vão perguntando a militantes de base se estão a curtir ou se o galo é grande, consoante a cor.

Com tantos meios, tantos repórteres, tantos quadros digitais, tanta trampa, é completamente impossível ficar informado. Um caso típico de rendimentos marginais decrescentes.


Oito e muito

Um dos canais avança a hipótese do PAN, Partido dos Animais e da Natureza, vir a eleger um deputado por Lisboa. Animais no hemiciclo. Não propriamente uma novidade.


Nove e pouco

O primeiro-ministro desce para o discurso de derrota, cercado por uma camada de seguranças, por sua vez envolta numa capa de jornalistas de microfone em riste e câmaras erguidas em braços como se de halteres se tratassem. A mole ziguezagueia desordenadamente e acaba por arrebentar com uma porta de vidro, em directo. Sócrates sobe ao palanque, sacudindo os cacos de vidro da lapela do Armani.

Conforme os comentaristas haviam prognosticado meia hora antes, Sócrates demite-se, com um descurso de bom perdedor, diga-se.

Começa a caça ao candidato: as câmaras focam-se em Seguro, Assis e Costa, que afectam não ser nada com eles.

Confirma-se também o “vae victis”. Algumas das perguntas dos jornalistas, agora desempoeirados, assim o demonstram.


Não muito tempo depois

Ouço alguém entusiasmado falar de “inequívoca consolidação da expressão eleitoral”, “aumento da percentagem e número de deputados”, “sinal de inegável significado quanto a um mais alargado reconhecimento da acção, propostas e papel...”. Levanto a cabeça. Pelo tom ufano, podia ser o André Villas-Boas a falar do FCP, mas é apenas o Jerónimo de Sousa a rejubilar com a estrondosa vitória do PCP, com sensacionais 7,94% dos votos.

Nós, Sportinguistas, devíamos aprender com esta mentalidade. Festejaríamos convictos os quartos lugares invadindo o Marquês de Pombal, eufóricos.


Talvez pelas nove e meia

O melão da noite. Alongado e graúdo, verde por fora e sumarento por dentro, de talhada firme e semente solta. Saiu em brinde à esquerda Façonnable.

Louçã diz que os resultados significam um “recuo”. Sei que dada a etimologia da palavra “recuo”, talvez o Bloco a veja como mais politicamente correcta do que outras mais apropriadas para a ocasião, como sejam “coça”, “trepa” ou “cabazada”. Mas ainda assim: passaram em dois anos para metade dos votos e dos deputados. Isto não é um recuo, é uma viagem em marcha atrás de Lisboa a Bombaim.

Prevejo que o Bloco de Esquerda vai ser a partir de agora cada vez menos bloco e – se possível for – cada vez menos esquerda.


Ainda não passara meia hora da demissão do Sócrates

As televisões passam as emissões para o Altis porque António José Seguro vai fazer uma declaração. Os comentadores prevêem que ele vai declarar que não se candidata a líder do PS, com o piedoso raciocínio de que seria de muito mau gosto anunciar a candidatura praticamente em cima do cadáver fumegante do José. Mal sabem eles de que é capaz um homem que esteve à espera.

No Altis, abre-se a porta de um elevador e sai António José, demasiado seguro diante de quarenta microfones e vinte objectivas. Profere umas redondezas sobre a sua eventual candidatura, do género “não é o momento apropriado”, “estou disponível para dar o meu humilde contributo”, “não volto a cara ao meu partido e a Portugal”. Portugal, viram? Ganda pinta.

Resumindo: é candidato e a sua candidatura, tal como a pescada, antes de o ser já o foi.

Alguns jornalistas, daqueles para quem é preciso fazer um desenho, perguntam-lhe porque é que ele os convocou se não era para confirmar a candidatura. Seguro responde:

– Convocar, eu? Os senhores é que aqui estavam à minha espera.

Assim terminou em glória o momento sabujo da noite.


Não sei se antes se depois

Portas, um dos vencedores destas eleições, não escondia a tristeza no seu discurso de triunfo. Apesar de uma campanha em que ostentou mais de cem chapéus diferentes, só subiu 1,3%. Pouco para quem se queria tornar o mais pequeno dos grandes e continua apenas o maior dos pequenos. Apesar de tudo, com a chave do governo na mão.

Já dizia Pirro, rei do Épiro e da Macedónia, depois da difícil batalha de Ásculo: “Mais uma vitória destas e estou perdido.”


Já passava das dez

Passos Coelho sobe ao púlpito como novo primeiro-ministro de Portugal. Para gajo que acaba de ser contratado para um dos piores empregos do planeta nos próximos anos, parece contente. Discursa com fluência e preparação. Canta o hino nacional. Responde num inglês muito razoável a um jornalista estrangeiro. Neste aspecto, certamente, ficámos a ganhar.


Onze e tal

Os carros apitam na rua e agitam bandeiras laranjas. Afinal o PAN não elegeu nenhum deputado. Nos ecrans, os “pivots”, flutuando em cenários virtuais, vão repassando em tom cansado os números finais de Viseu e de Évora. Há algum clima de anti-clímax. Os comentadores de serviço cumprem serviço, largando as últimas tiradas. Desligo a televisão e vou enxotando os gatos para fora da sala.

Amanhã, continua a crise.

sexta-feira, maio 20, 2011

Exposição fotográfica (XXXIV)

Paris, mais da Páscoa 2011


Rue Mouffetard, Jardin des Plantes

Jardin du Luxembourg

Place du18 Juin, Montparnasse


Avenue Mozart, Auteuil

Place des Vosges

Passage des Postes, no Jardin des Plantes. Por aqui se escapou Olrik no "Caso do colar", de Blake e Mortimer

Jardin du Luxembourg

Bassin de la Villette


Jardin du Luxembourg

Tabuísmos


sexta-feira, maio 06, 2011

Exposição Fotográfica (XXXIII)


Paris, Páscoa 2011


Rua Louis Blanc


Canal de St. Martin

Manifestação contra Bashir Al-assad no Trocadéro


Grandes morangos na Rua Mouffetard


Café Poussin em Auteuil


Pombo no telhado da igreja de St. Médard, Jardin des Plantes


O cozinheiro e o velhote dos vasos, em Auteuil

segunda-feira, maio 02, 2011

O passeio a três

Chamou-se sucessivamente Monte do Bispo, Monte das Vinhas e Monte Luís. Teve muitos donos mas foi um remoto ocupante dessa sétima colina parisiense no século XVI, o padre La Chaise, confessor de Luís XIV, que acabou por impor o nome ao “Cemitière de l’Est”, aberto em 1804 no mês revolucionário de “Prairial”, nesse breve período em que os meses falaram de natureza e não de imperadores e deuses romanos.

Os novos cemitérios atendiam à época a uma preocupação de saúde pública, procurando afastar a defunta malta do centro da cidade. No entanto, a aderência da clientela começou por ser fraca. Os mortos achavam pouco fino ser enterrados num monte lá para os arrabaldes: em 1806 houve apenas cinco fregueses e em 1812 somavam os sepultados pouco mais de oitocentos, número escasso numa época em que se morria por tudo e também por nada.

Perante o elefante branco, a câmara de Paris levou avante em 1817 um genial golpe publicitário. Transladou para lá os restos mortais de Molière, La Fontaine, Héloisa – a medieva do amor cortês, não a apolinária dos verdes – e o seu amante Abelardo, que ficara sem eles de castigo por ter engravidado a até então donzela. A talhe de foice, a página em francês da “Wikipedia” garante-nos muito comicamente que Abelardo foi “castrado à força”. Pois sim, franceses néscios, calculamos que não tenha sido por acordo amigável.

A ideia municipal revelou-se um sucesso: em tão distinta companhia, os mortos sentiam-se mais à vontade e afluíram em grande número. Em 1830 atingiam os trinta e três mil, para chegar mais tarde aos setenta milhares que hoje jazem numa necrópole “coquette” e burguesa, que mistura o tétrico do campo de morte com a pompa dos “boulevards”, raiada por avenidas, caminhos retortos e rotundas. Com o número vieram os notáveis: Balzac, Wilde, Chopin, Montand, Proust, Piaf e, claro, Jim Morrisson. E por isso me encontrariam, no passado domingo de Páscoa, perdido por entre jazigos e campas rasas em demanda do túmulo do Rei Lagarto.

Tinha ido em passeio com a minha mãe e aproveitei uma manhã de sol em que vagueáramos a pé ao longo do canal de Saint Martin para visitar finalmente o famoso cemitério do Père Lachaise. Para a rapaziada da minha criação, este nome trazia fatalmente à memória Jim Morrisson e os Doors. Morrisson morrera em 1971 em Paris, provavelmente de “overdose”, e tornara-se o morador mais visitado do Père Lachaise, estatuto que ainda mantém passados quarenta anos, segundo ouvi a uma guia turística que arrastava entre sepulturas uma pequena multidão de turistas arrebanhados. De facto, “rock’n’roll never dies”!

O túmulo de James Douglas Morrisson é uma campa rasa e discreta, perdida no meio de jazigos novecentistas de granito roído pelo musgo e portas entreabertas pelo tempo que dão a ideia que os falecidos se ausentaram momentaneamente para umas dentadinhas nos pescoços parisienses. Como a guia previra, um magote de gente acotovelava-se no pouco espaço existente, fotografando e comentando em tom de férias. Uma árvore, escrevinhada até onde uma mão chegasse, mantinha o registo de quatro décadas de homenagens ao ídolo. Junto à lápide, algumas flores feneciam, acompanhadas de uma fotografia de uma banda de garagem provavelmente ali largada como uma promessa a um santo, pedindo inspiração e sucesso.

A minha mãe seguira-me pelo necrotério com a curiosidade de quem visita um monumento, embora, pelo sim e pelo não, levasse na mão uma pequena Bíblia que traz sempre na mala. Pessoa entendida nessas lides de fronteira entre o cá e o lá garantira-lhe uma vez que tal medida era prudente sempre que se visitasse um cemitério e ela preferiu não arriscar. Já tendo passado dos setenta, a minha mãe não vibrara com os Doors e ter-lhe-á parecido estranho o meu interesse naquela campa banal. Saquei por isso do “iPod” para lhe fazer ouvir a voz do homem que ali jazia.

Seleccionei o “Riders on the storm”. Quando, passados aqueles segundos iniciais em que uma linha de baixo e um rolar de bateria se confundem com a chuva que os cavaleiros atravessam, ouvi a voz de “crooner” de Morrisson, não pude deixar de me surpreender com a relatividade subtil da morte. Qual o Morrisson verdadeiro? O que jazia ali a metros, inerte, já não mais que meras moléculas redisseminadas no ciclo da vida envolvente, ou o fluxo de “bits” e electrões que declamava, nos meus ouvidos, a nossa estranha forma de vida, de “cavaleiros na tempestade atirados para este mundo como um cão sem osso ou um actor solitário”. E este último Morrisson, poderia estar morto? Pode um morto cantar a vida? Não estará vivo quem nos faz instantaneamente bater o pé ao som do “L.A. woman” ou sorrir de boa disposição quando canta “Love street”?

Não será que perpetuamos na vivência de nossas vidas o mais vivo das vidas dos que fisicamente já nos deixaram?

Fazendo-o, confirmamos Camões, que quando se refere nos Lusíadas à “lei da morte” está a falar do esquecimento, não do fim físico.

Tais pensamentos consolaram-me. Congeminara este passeio a Paris já há alguns anos. Imaginara-o como um momento especial com meu pai e minha mãe, um tempo dedicado e exclusivo, um obrigado por tudo. Mas a inércia prega-nos destas: veio a doença e a partida inesperada. De repente falhara o meu intento e já só estávamos dois para o passeio.

Assim julgava eu, mas mal: na realidade andou sempre ao nosso lado, nas memórias fugazes e nas mais perenes, em Auteuil, nos corredores cerâmicos do metropolitano, nos recantos das conversas, descendo a rua Moufetard e os seus estaminés garridos, nas alamedas senhoriais de Monceau, nos risos e nas lágrimas, admirando a manobra das comportas no canal de La Villette, na cor dos quadros de Van Dongen no Palais de Tokyo, nos silêncios, nos espelhos trabalhados do La Coupole em Montparnasse. Afinal, sempre viera.

sábado, abril 09, 2011

Cromos da minha caderneta (II) - A ramona

Em Março de 1975, com onze tenros aninhos, abordei timidamente o meu pai pedindo para ir a Cascais ver um concerto dos Genesis.


A vinda a Portugal dos Genesis no seu auge, meses depois do lançamento do fabuloso “The lamb lies down on Broadway”, passa sem protestos por uma de entre cinco manifestações de carácter divino a ocorrer em Portugal ao longo de oito séculos de história. As outras: o milagre de Ourique, as rosas no regaço de Santa Isabel, a aparição da Virgem aos pastorinhos na Cova da Iria e o sete-a-um ao Benfica no velho Alvalade, esta última a única que presenciei, em estado de êxtase e beatitude.


Em pleno PREC, uma banda de primeiro cartaz constituía novidade revolucionária. Diz quem viu que o concerto deslumbrou. Tudo no genésico grupo era superior nesses anos de ouro: o Peter Gabriel felizmente ainda cantava e o Phil Collins felizmente ainda não cantava, limitando-se a ser um excepcional baterista. Tony Banks, Steve Hackett e Michael Rutherford completavam um quinteto de eleição.


Isto sei eu hoje, porque na altura nem via bem quem eles eram. Apenas tinha ouvido uma música, o “Carpet crawlers”, que vinha num “single” aparecido desgarradamente no meio dos presentes de Natal. À época o que eu queria mesmo era ir a um concerto à noite, nem que fosse da banda dos bombeiros. Só que o meu pai riu à gargalhada da minha pretensão, de um modo tal que eu, conhecendo-o, percebi que não valia a pena insistir.


Depois deste desaire, passou uma olimpíada até eu voltar à carga com o tema. Em Março de 1979, com quinze anos já não tão tenrinhos, abordei menos timidamente o meu pai para lhe pedir para ir a Cascais ver um concerto do Rory Gallagher. Eu também não conhecia o Rory Gallagher, mas era estrangeiro e a malta toda tinha combinado ir porque sendo de fora devia ser bom. Desta vez o meu pai acedeu, com a condição de me ir pôr e buscar. Perante o meu protesto, usou como pretexto que lhe estava a apetecer dar uma volta pelo Estoril, vontade que lhe dava de quinze em quinze anos e por coincidência logo nessa noite.


Assim aconteceu. Fui deixado em frente ao Hotel Baía, onde seria o reencontro. Subi até ao pavilhão do Dramático onde me juntei aos meus amigos. Passámos alegremente, como se uma delícia fora, o suplício da longa fila, das grades colocadas à trouxe-mouxe, dos seguranças meio pedrados. O Dramático de Cascais foi durante esses anos a Meca do rock em Portugal, muito antes dos festivais de verão em arrabaldes poeirentos misturarem bandas londrinas com fado “world music” e dos concertos de estádio trazerem a peso de ouro mega-estrelas cheias de fama e artrite. Recinto de hóquei em patins, com uma acústica miserável, não arcaria mais de dez mil pessoas sem ameaçar ruir. Apesar disto, quando Gallaguer entrou em palco a esgalhar o “Shin kicker”, acompanhado da sua Fender, de Gerry McAvoy e de Ted McKenna, soou-me a música celestial e fiquei amigo dele e do seu “rhytm and blues” irlandês até hoje.


No regresso, os velhotes esperavam-me dentro do carro. Eu oferecera boleia de volta a uns colegas de escola e perguntei ao meu pai se não se importava. Ele disse que sim sem ter o cuidado de os contar e de repente a carrinha Fiat Mirafiori estava apinhada com oito pessoas, três a frente e cinco atrás. Assim arrancámos, que nem o expresso de Bombaim, e o meu pai meteu-se por uma ruazinha estreita que subia da baía até ao local do concerto. Apanhou com dez mil pessoas a descer em sentido contrário, em estados variáveis de alienação. Durante minutos que pareceram infindáveis o carro ficou imobilizado, cercado por uma massa humana fluindo pastosamente, roçando portas e vidros, proferindo bocas jocosas, soltando palavrões e mandando umas murraças ocasionais nos vidros e no tejadilho. O momento alto da cena ocorreu quando uma amiga da malta, reconhecendo-nos no interior da viatura, subiu pelo “capot” e, espalmada contra o pára-brisas, ficou a acenar freneticamente, mandando beijinhos e abraços, perante o olhar esgazeado da minha progenitura. A turba acabou por escoar, libertando a via, e seguimos para Lisboa em silêncio. Chegados a casa, o meu pai comentou que à próxima talvez fosse melhor eu ir de comboio. Bingo!


Foi portanto de comboio e autocarro que durante os dois anos seguintes me desloquei ao Dramático de Cascais ou ao pavilhão do Belenenses para assistir à primeira grande vaga de concertos “rock” que houve em Portugal, muito à base da variedade de oferta da “new wave”: Stranglers, Clash, Ian Dury, Lene Lovich, Ramones, Dr. Feelgood, Police, Elvis Costello, Joe Jackson, mas também Supertramp, Peter Gabriel e as paredes de sintetizadores dos Tangerine Dream.



Cada espectáculo tinha uma banda de suporte, ou própria que fazia toda a “tournée” com os cabeças-de-cartaz (vi os Simples Minds antes de se tornarem conhecidos com a merda do “Don’t you forget about me”, xaropada infame que infelizmente ainda não consegui varrer da memória), ou nacional contratada para o momento (assisti aos Xutos e Pontapés ainda sem papada, aos Delfins, Arte e Ofício, UHF). Toda a gente tinha muito pouca paciência para estas bandas de entrada, considerando que ao pagar trezentos escudos pelo bilhete ganhara o direito a não ter que as aturar. As manifestações de desagrado resumiam-se geralmente a trinta minutos de apupo contínuo, mas podiam ser mais espectaculares. No concerto dos Clash, os UHF fizeram a primeira parte. Eu estava na bancada lateral e de repente vejo um risco vermelho sair da plateia e explodir em estilhaços na testa do José Manuel Ribeiro, que com pose suposta de roqueiro se entretinha a cantarolar pr’aí o “Rua do Carmo” para bocejo da assistência. Uma tomatada podre arremessada a mais de trinta metros, linda, com uma precisão fabulosa, só suplantada mais de trinta anos depois pelo lançamento da miniatura do “Duomo” que partiu os dentes ao Berlusconi.


E dos artistas principais, que lembrar? Escolho o concerto dos Ramones, que assisti na primeira fila da plateia. Eu levara comigo o meu irmão, na altura com doze anos, e em casa fora fortemente recomendado para nunca o perder de vista. Assim que cheguei ao pavilhão encontrei duas amigas que iam para a bancada e consegui que elas tomassem conta do rapaz – recomendando que não o perdessem de vista – e fui lá para baixo, esgueirando-me até me ver no centro da primeira fila, esmagado contra as grades pela pressão de milhares atrás de mim.


Fora o H que no ano anterior me dera a conhecer os Ramones. Vindo de França, o H notabilizara-se na escola por usar uns óculos escuros que lembravam os de um soldador e por vestir como aquela banda peculiar, cuja grandeza publicitava pelos recreios, e que muitos imediatamente caracterizaram como “punk”. O H inconformava-se, quase ofendido: “Não é “punk”, é “rock’n’roll”, ouviram? Rooock’n’roooooll!”.


Fosse o que fosse, o som turbinado de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone tornou-se indispensável nas tardes de rádio e nas noites de festa, onde o “It’s alive” podia tocar trinta minutos seguidos sem que ninguém saísse da pista. Todos sabíamos que a música era primária, dois minutos com três ou quatro acordes repetidos e uma batida sempre igual e letras básicas de meia dúzia de versos de pé-quebrado. Mas todos gostávamos daquela velocidade em estado puro.


Escolho os Ramones, que vos deixo agora de seguida num concerto de Ano Novo em Londres, muito parecido com o que eu presenciei no Dramático. Escolho os Ramones porque me lembram a rapidez com que, visto à distância, me parece que aqueles anos passaram, para não mais voltar.


Gabba gabba hey!




domingo, março 27, 2011

Exposição fotográfica (XXXII)

"Amigo" é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, "Amigo", in "No reino da Dinamarca"


Na manhã de 9 de Agosto de 2010 tive uma bruta de uma insónia. Deitara-me tarde. Fora ao Festival do Sudoeste ver os Air e os Massive Attack, tema de post antigo. O facto de lá ter deixado o meu filho mais velho com um sorriso no rosto, um automóvel nas mãos e uma carta de condução com quinze dias no bolso não me deixava pregar olho. Faz parte. Fui-me revirando na cama à procura de uma posição soporífera. Em vão. Abri a luz. Garatujei as palavras cruzadas e o "sudoku" no jornal. Li umas páginas de um livro. Fechei a luz. Escutei os ruídos que como formigas apressadas cruzam a tessitura da noite: o vento que sopra nas jelosias, o respirar de menina dela, os cães em conversa uivada. Só não ouvia o barulho que o meu subconsciente conscientemente esperava: um carro a dobrar a esquina, o motor a morrer na rua, a porta de entrada a bater e o cagaçal que eles conseguem fazer às tantas da manhã e que tanto irrita como alivia. No escuro, o brilho de pirilampo dos ponteiros do relógio de pulso, pousado sobre a mesa de cabeceira, circulava lentamente, muito lentamente...


Seriam seis da manhã quando a aurora começou a insinuar-se pelas ripas dos estores. Levantei-me e saí do quarto de sapatos na mão, com o pescoço encolhido, as costas curvadas, o andar desengonçado, como um marido que chega tarde da rambóia, só que em sentido inverso. Um bocado estúpido, porque as costas curvadas fazem o mesmo barulho que umas costas direitas.

Desci a rua em direcção à Praia Grande de Porto Covo.


Estava ainda deserta. De gente, pelo menos. Pela noite houvera trabalho: o concessionário enrolara os toldos, a câmara substituíra os sacos do lixo, que pintalgavam a enseada em tons de azul cobalto e o mar tratara de lavar o areal, deixando-o liso e lustroso aos primeiros e ténues raios de sol matinais.


Era a hora das gaivotas, que podem depenicar sossegadas o quer que seja que haja ali para depenicar. Mais duas ou três horas e a praia vibraria de gente, de cores garridas, do toc-toc das raquetes à beira-mar, dos gritos pelas crianças demasiado afoitas, do serpentear malabirista dos surfistas sobre a espuma de sabão dos tubos a enrolar, do apito esganiçado e arbitral do nadador-salvador. Tudo cenas que as gaivotas consideram má onda. Por isso se reservam para estes horários discretos, em que a humidade ainda pica e a maresia ainda cheira.


Chegavam também os primeiros pescadores, à procura de um lugar jeitoso na escarpa. Na rua principal havia uma tasca, o "Primo Xico", onde um quadro pendurado na parede informava que ali se reuniam caçadores, pescadores e outros mentirosos. Mas para que uma mentira seja razoavelmente credível, há que levantar cedo de manhã.


Subi de novo até à beira da falésia e percorri o trilho para sul, por cima da Praia do Banho. Ao fundo, um barco de pescadores coloria a planura de água como um peixe-palhaço num aquário gigante. Lá em baixo, um homem andava na areia com uma atitude de quem tem todo o tempo do mundo para um passeio matinal. Embora fosse apenas um ponto distante, parecia-me um ponto algo familiar.


Era o meu amigo P. Gritei "ó P! P!", a plenos pulmões, como se o estivesse a avisar de um perigo. O som ecoou pelas paredes milenares da falésia, perturbando o sossego da manhã e a ordem natural das coisas. Vi o P rodar a cabeça em todas as direcções até se fixar num ponto distante e esbracejante que era eu. Aproximou-se para perceber quem chamava, enquanto eu descia um carreiro até lá abaixo.


Estranho. Conheço o P desde criança. Temos muita quilometragem juntos. Encontramo-nos quase todas as semanas. No mês de Agosto, então, é todos os dias. Acabáramos de estar juntos no concerto. Ia-mo-nos ver certamente à tarde na praia. No entanto, senti uma necessidade, vinda de não sei onde cá dentro, de gritar por ele e correr pelo carreiro abaixo, não fosse perder esta oportunidade única de estarmos ambos. Como se sem ele não se cumprisse aquela manhã gloriosa que a insónia me proporcionara.


Caminhámos ao longo do mar, em conversa mole, dissertando sobre assuntos que já se escaparam da minha memória. Também ele não dormira. Subimos ao alto da falésia e fizemos o resto do trilho, que serpenteia entre tojos e armérias, sempre em bate-papo, apesar do sono que nos começava a pesar nas pálpebras. Só nos separámos, com um bacalhau, ao atingir as primeiras vivendas do Bairro Alemão.


Chegado a casa, mais consolado, dormi umas duas ou três horas. Tomava já o pequeno-almoço quando ouvi o roncar de um motor que virou a esquina e se imobilizou lá fora. Passos. O rapaz apareceu, de chapéu-de-palha caipira com uma fita verde a fazer publicidade aos jogos da Santa Casa da Misericórdia. Comeu e foi-se deitar, concluindo este episódio.


O P fez anos ontem. Não o consegui apanhar ao telefone para lhe dar os parabéns. Bom moço, mas um chato do caraças no que toca a ter o telemóvel com som. Talvez por isso me tenha vindo à lembrança a memória daquela madrugada, em que por sorte não o deixei escapar.

Elas

Dia 23 próximo passado, o Técnico, onde burlei cinquenta regentes assegurando assim meu canudo e onde, faz em Dezembro vinte anos, dou uma perninha professoral, promoveu uma bonita iniciativa.


Homenageou as “mulheres do Técnico” através de três senhoras que, cada uma à sua maneira, desafiaram os “cânones da sua época”, expressão fina para “estupidez dos seus contemporâneos”, iniciando carreiras ou atingindo metas até então socialmente reservadas aos homens.


São elas a Engª. Maria Amélia Chaves, a primeira engenheira portuguesa, a Profª. Isabel Maria Gago, a primeira professora numa escola de engenharia nacional e a Profª. Sílvia Marília Costa, a primeira catedrática em engenharia de Portugal. Todas puderam felizmente estar presentes.


A Engª. Maria Amélia Chaves tem hoje cem anos. Contou ela numa entrevista recente o seguinte sobre a sua ida para o IST:


"Quando eu entrei, era suposto ir para Química, e mesmo isso já não era muito do agrado dos homens. Quando viram que eu ia para Civil é que “rebentou a bomba”. Os professores eram meus amigos mas só me diziam “Ó menina, mas o que é que vai fazer? O que é que vai fazer quando sair daqui?”".


Pois que fez a menina quando saiu? Trabalhou em fiscalização de obras na Câmara Municipal de Lisboa, tendo depois feito projecto. Foi a primeira pessoa em Portugal a desenvolver cálculo anti-sísmico aplicado à construção civil. Desenhou o seu último trabalho com oitenta e dois anos. Pelo meio foi mãe de cinco filhos e avó e bisavó.


A Profª. Isabel Maria Gago tem noventa e seis anos e foi uma das duas primeiras licenciadas em engenharia química de Portugal. Não sei se ainda, mas pelo menos até há pouco subia e descia a pé diariamente os três andares do prédio onde mora junto à faculdade, para ir passear.


A longevidade destas senhoras, que faço votos que perdure, demonstra que a independência de espírito deve fazer bem à saúde.


Ao ouvir ou ler hoje os seus depoimentos, vemos que estas mulheres assumiram o seu papel de pioneiras e percorreram o seu caminho com a candura e a naturalidade de quem simplesmente quis. Nasceram num mundo imbecil, de marialvismo e hipocrisia, em que a lei e, pior, a norma estigmatizavam a mulher como ser inferior. Pois estiveram-se nas tintas, não ligaram e simplesmente viveram a vida que desejavam viver. O que é a forma mais potente de mudar o mundo à nossa volta.

Enquanto esta celebração decorria, burocratas em Bruxelas, sempre a navegar a onda lodacenta do politicamente correcto, azafamavam-se a engendrar uma directiva que obriga as empresas a reservar quotas para mulheres nos seus conselhos de administração.


Na mesma peça jornalística em que soube deste devaneio comunitário, três mulheres portuguesas administradoras ou presidentes de grandes empresas comentaram a novidade com um “Quotas? Nem pensar!” . A Profª Sílvia Marília Costa, num seu depoimento na “Internet”, refere por acaso o mesmo. Esta posição de rejeição talvez surpreendesse os mal-preenchidos crânios eurocratas. Não entenderão tão focadas mentes que para as mulheres que pelo seu trabalho, seu mérito e suas circunstâncias atingiram ou procuram atingir altos patamares, as quotas representam um insulto.


Sei-o de fonte segura. Descobri-o ao longo da minha vida profissional. Fui chefiado por homens, mas também por senhoras. Com todos aprendi, coisas diferentes, de igual modo. Recordo colegas extraordinárias, mulheres de grande visão e talento, com quem foi um prazer trabalhar. Tenho a sorte de ter hoje, na equipa que coordeno, mulheres que são exemplos de dedicação, lealdade, eficiência e inteligência. Nenhuma destas precisa de quotas para chegar a lado nenhum. Acredito que quase todas, senão mesmo todas, repudiariam quotas e percentagens e facilidades. O mérito chega e sobeja, pelo que encaram a igualdade sem receio. E se alguma diferença há, é a favor delas: tenho a impressão que em média são mais cooperantes, mais concentradas nos objectivos, mais jogadoras de equipa e mais subtis que os homens, cuja irremediável imaturidade os leva muitas vezes a preocupar-se mais em mostrar-se a si do que em mostrar resultados.


Admito que nalgumas situações muito particulares a discriminação positiva seja necessária para resolver iniquidades sociais. Não é o caso. As mulheres não precisam de favores nem de quotas que viriam apenas lançar dúvidas injustas sobre a sua competência e que seriam fatalmente usadas para bocas foleiras de urinol. Precisam, elas como nós, que a sociedade se organize e crie condições para que maternidade e actividade profissional se harmonizem. Uma sociedade que não protege as suas mães e as suas crianças, além de fazer triste figura, não vai longe, até por razões meramente matemáticas.


Como aparte, lembrar que não devemos cair no pólo oposto que trata paternalistamente as mulheres que optam por abandonar o trabalho para se dedicarem exclusivamente aos filhos. Conheço mulheres que, tendo uma sólida carreira e sendo grandes oficiais de seu ofício, optaram por ser mães a tempo inteiro. Dispunham dos apoios necessários e das condições financeiras para compatibilizar o trabalho e a família. Sabiam que, provavelmente, não conseguiriam voltar mais tarde ao mercado de trabalho. Mas livremente escolheram. Não consigo deixar de sentir uma funda admiração pelo exemplo de altruísmo e devoção que personificam. As “pietá” não são todas de mármore.

O machismo ainda atormenta, tal como a fome, a miséria ou a guerra, uma parte substancial da humanidade. Aliás todos estes flagelos parecem andar correlacionados. Em muitos países as mulheres são oficialmente cidadãos de segunda, que por lei não podem guiar um carro, usar umas calças ou desobedecer ao marido. Noutros, se bem que teoricamente protegidas pelo texto legal, são abandonadas à sorte de viver vítimas de “soi disant” homens – pais, irmãos, maridos, vizinhos – que as tratam como gado reprodutor ou como uma sexualidade de serviço. Estes fulanos são pedaços de merda cobardes que se borrariam pelas pernas abaixo se tivessem que estar entre quatro paredes com uma mulher de igual para igual. Mas infelizmente frouxos destes ainda dominam muitas sociedades por esse mundo fora.


No nosso canto do planeta somos algo melhores, mas não estamos livres de formas mais subtis de machismo. Nós, homens, ainda ajudamos mais do que partilhamos as tarefas domésticas – eu, pecador, me confesso. A sociedade continua a tolerar excessivamente o homem que agride uma mulher ou que se pira e não paga a pensão aos filhos. Ainda nos horripilamos pouco com coisas com que devíamos: por exemplo, quantos daqueles que acham legítima uma intervenção militar para proteger os líbios ou os kosovares ou outros quaisquer pensariam o mesmo duma intervenção armada num país africano ou asiático para acabar com práticas de excisão generalizada? Desconfio que poucos. Teríamos a mesma complacência se num dado país dessem para capar sistematicamente todos os rapazes? Não creio. No entanto, a mutilação genital feminina é uma forma de tortura e um abuso de uma barbárie absoluta que afecta cerca de dois milhões de crianças por ano. E praticada, estima a Amnistia Internacional, em cerca de 135 milhões de mulheres actualmente vivas. Haverá maior crime contra a humanidade do que isto?


Evoluímos bastante em Portugal no que toca à igualdade de género desde os tempos em que a presença da Engª. Maria Amélia Chaves numa obra provocava escândalo. Esta senhora provavelmente ainda precisou, por lei, da autorização do marido para viajar para o estrangeiro. Setenta anos volvidos, mais de metade dos nossos estudantes universitários são do sexo feminino. Em 2040, essas raparigas terão uma influência generalizada na sociedade portuguesa. Espero que consigam fazer melhor que os homens que as precederam.

segunda-feira, março 21, 2011

The Prime Minister’s speech (as delivered by the Chancellor of the Exchequer)

Não esta que passou, mas a sexta anterior, foi dia de dois discursos.

À noite, o do rei Jorge VI de Inglaterra. Gostei do filme: foi-se ao que a História tem para dar e ensinar, quis-se fazer bem e saiu bem feito. Às vezes, a perfeição técnica pode tornar-se uma obra de arte – veja-se um Ferrari. Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter actuam esplendidamente ao contar-nos como um homem ajudou outro a vencer-se a si próprio e a cumprir o seu destino.

O enredo de “O discurso do rei” romanceará certamente um pouco as situações, os diálogos, os sentimentos dos personagens, mas o discurso do rei, esse, é igualzinho ao verdadeiro que se pode ouvir aqui na “Internet”.

Calculo que não terá sido um momento fácil. O discurso anuncia uma guerra a um povo que ainda tinha na memória o horror das trincheiras de França e o destroçar de uma geração de jovens. Jorge VI justifica-a pelos valores que estão em jogo, os que a Alemanha queria impor e os que a Inglaterra queria defender. E não usa figuras de estilo quando se trata de dizer o que se passa e o que se vai seguir: “estamos em guerra”, “a tarefa será dura”, “podem vir aí dias negros”, “a guerra hoje já não se resume só ao campo de batalha”. Mas logo de seguida, naquela que é a chave do discurso, se percebe porque não ilude com rodriguinhos as provações que estavam para vir: “we can only do the right as we see the right”, só podemos fazer o que está certo se virmos o que está a certo. Apenas assim, partilhando a verdade, ele podia pedir aos que o ouviam que estivessem “prontos para qualquer tarefa ou sacrifício que possa ser exigido”.

O discurso é curto, simples, directo e, sobretudo, não é paternalista. Não trata os seus destinatários como imbecis porque quem o profere tem a percepção que só pode unir as pessoas numa causa tão difícil se falar verdade e sem rodeios.

Para além do filme, sabemos hoje que Jorge VI e a sua mulher Isabel granjearam o afecto do seu povo, após alguma hostilidade inicial, partilhando os riscos e (alguns) sacrifícios dos londrinos durante a Batalha de Inglaterra. Escaparam por pouco à morte aquando de um bombardeamento do palácio de Buckingham em 1940. O papel de Isabel na manutenção do moral dos ingleses foi tão de monta que Hitler comentou que ela era a mulher mais perigosa da Europa. Surpreendeu-me há cerca de dez anos atrás, num período em que ia muito a Londres, o respeito e o carinho que ingleses da minha geração ou mais novos ainda sentiam por ela, a “Rainha-mãe”, apesar de na altura a consideração dos súbditos pela monarquia andar muito cá por baixo. A um ponto tal que alguns até achavam exagero. Por exemplo Mark Steele, que em “Vive la révolution”, usa a rainha-mãe como protótipo de um apego dos britânicos à realeza que os pode levar – cito – ao “abandono completo do pensamento racional”:

“Quando a Rainha-mãe morreu fomos todos informados por infindáveis fontes dos seus gloriosos talentos, com um documentário a insistir que ela era uma ‘grande dançarina’ e ‘tremendamente perspicaz’. Fiquei à espera que o locutor continuasse com ‘também inventou o CD ROM e uma vez ganhou 38 a 7 às Índias Ocidentais’. Os noticiários estavam cheios de personagens como Norman St John-Stevas declarando que ‘Sabes, nunca teríamos ganho a guerra sem ela. Todas as noites pegava num Spitfire e enfrentava a Lutwaffe sobre o canal da Mancha. A RAF queria impedi-la mas ela insistia. Sabes, uma noite foi abatida sobre a França ocupada e ainda conseguiu regressar na manhã seguinte a tempo do render da guarda.’”


Acaba por ser um parágrafo simpático para com a memória da senhora: um bom momento de humor britânico ainda constitui a melhor homenagem que um inglês pode receber.


Durante essa mesma sexta, na televisão e na “Internet”, fui apanhando os ecos do outro discurso: o nosso ministro das finanças anunciava a redução das pensões, a redução de comparticipações no IRS, a redução de custos com a saúde e a educação, a subida de alguns impostos. PEC 4, portanto. Alguns dias depois de o governo ter dito que nada disto era necessário.

Esta receita não é obviamente dele, ministro, foi ditada pela União Europeia e em particular pela Alemanha, que hoje nos tutela e convoca como nos séculos XVIII e XIX a Inglaterra o fazia. E o discurso do ministro das finanças não é obviamente dele, é do primeiro-ministro. Que, tristemente, na hora de dar más notícias mandou alguém. Não o vi olhar as pessoas nos olhos e dizer: vêm aí dias negros, a situação do país é esta, o que vai acontecer é isto e senão a alternativa era aquilo.

Há pessoas que têm essa característica: só conseguem transmitir boas novas, reais ou imaginárias. À noite lá apareceu no telejornal, em Bruxelas, comentando este pacote com a distância com que se poderia falar de uma ocorrência em Nairobi ou de um acidente no México. A execução orçamental vai bem, para não dizer muito bem – afirmava. Muito bem será expressão grande demais para o momento, julgo eu.


Se o nosso primeiro-ministro ou outros que o precederam estivessem em 1939 sentados no trono do império britânico, mandariam um ministro fazer o seguinte discurso:

“Por razões que se prendem exclusivamente com o contexto político europeu, com o qual não temos nada a ver, iremos manifestar de forma veemente à Alemanha o nosso desagrado com a invasão da Polónia, nos termos dos tratados que temos firmados com os nossos aliados. Tal poderá acarretar alguns sacrifícios, que esperamos breves, por parte dos ingleses, mas o governo irá trabalhar todos os dias para minorar os inconvenientes que esta situação possa acarretar para a maioria dos cidadãos.”

Seguia-se uma conferência de imprensa:

- Senhor ministro, quer isso dizer que estamos em guerra com a Alemanha?
- Sabe, penso que não devemos dramatizar com palavras que só podem contribuir para uma instabilidade que o país não precisa neste momento. O governo vai acompanhar a par e passo a situação e tomará as medidas adequadas em função do desenrolar dos acontecimentos.
- Iremos enviar tropas para o continente?
- As nossas forças armadas estão capacitadas para exercer a sua missão em vários cenários possíveis, em função do que as contingências determinem.
- A Alemanha vai bombardear-nos?
- A nossa previsão aponta para que, mesmo que se confirmasse a eventualidade – que não esperamos – de algum avião sobrevoar o nosso território, as bombas alemãs não atinjam o solo, ficando estáticas a 348 metros de altura, no cenário inferior.
- Mas senhor ministro, a generalidade dos analistas militares têm afirmado que as bombas quando largadas atingem o solo.
- Não quero neste momento especular sobre um cenário que ainda não se verificou nem creio que se venha a verificar.
- Mas senhor ministro, o chefe do gabinete-sombra, Dr. Peter Steps Rabbit afirmou recentemente que uma bomba no chão explode e mata a gente!
- No plano teórico, é possível que uma bomba possa, sob efeito de uma onda de pressão interna inerente a uma reacção química, perder a sua unidade material e perturbar dessa maneira a continuidade de unidades biológicas de carbono que se encontrem na vizinhança. Mas eu não queria embarcar nessa atitude da oposição de politização de uma questão que é do interesse nacional e que requer, antes do mais, estabilidade.

And so on…

Não discuto aqui, neste momento, da necessidade das medidas, nem das causas, nem das culpas. Fico-me para já um passo atrás. A pensar que só podemos fazer o que está certo se virmos o que está a certo, como disse Jorge VI. Que as pessoas só compreenderão se lhes falarem a verdade nos olhos, sem subterfúgios, sem politicamente correctos, sem panos quentes, com a hombridade que os momentos requerem.


Recordo, em tempo da minha vida, duas crises financeiras desta magnitude, com FMI à mistura. E recordo o primeiro-ministro da época, ele próprio e mais ninguém, a dirigir-se aos portugueses a explicar que a coisa estava preta e o que tinha que ser feito. Podia ter muitos defeitos, mas esta lisura ninguém lha tira. Pena que o exemplo não tenha pegado, parece-me que desde então.

sábado, março 05, 2011

Exposição fotográfica (XXXI) - Edição Especial Sierra Nevada - Outras cenas

Passeando ao fim de tarde em Pradollano


Crianças brincando em Pradollano. Alguém deixara uma cadeira de escritório no meio da neve, para contemplar confortavelmente a paisagem.


"Après-ski": esta podia chamar-se "o galã e o invejoso".


Subindo na tele-cadeira Monachil


A tele-cadeira Veleta, em Borreguiles


O arlequim e o professor


Pai é sempre pai, mesmo a 2500 metros


E a propósito de pais, o meu duplo legado ao planeta

Exposição fotográfica (XXX) - Edição especial Sierra Nevada - Esquiadores e "snowboarders"

No cruzamento da Áquila com a Maribel


Descendo a pista Prado de las Monjas


Um SMS rápido ao pé da tele-cadeira Stadium


"Snowboarders" descansando no cruzamento das pistas Maribel e Sol y Nieve


Este reza para que Deus lhe dê jeito


E esta ficou muito tempo quietinha, a olhar o vale


Descendo a pista Copa del Mundo


Fim do dia: chegada a Pradollano