






Com fim na Rua Barral Filipe
Para mais, lá vou sabendo histórias das minhas raízes, sobretudo quando tenho a sorte de coincidir com os mais velhos. Numa terra de apenas 1400 habitantes, já terei ouvido em breve esse mesmo número de memórias contadas ora com saudade ora com riso.
Pois neste fim-de-semana, no dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e de tudo o mais, inaugurou-se no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha a exposição DaNação, da autoria do meu tio Luís da Mata, filho da terra, em que este usou como mote a bandeira nacional para uma sequência plástica, de pintura e instalação, que propõe uma reflexão sobre o caminho trilhado – sobretudo nos tempos mais recentes – pelo nosso país.
Vem a propósito esta exposição, porque passam no próximo dia 19 exactamente cem anos sobre a aprovação do actual modelo de bandeira pelo decreto 141 da Assembleia Nacional Constituinte, selecionada que foi, após concurso de ideias, por uma comissão a que pertenciam Columbano Bordalo Pinheiro, João Pinheiro Chagas e Abel Botelho.
Vem mais a propósito ainda porque a nação do símbolo passa por momentos de aperto que o símbolo da nação não deixaria suspeitar, com o seu verde “de esperança” e o seu vermelho, “cor combativa, quente, viril, por excelência (...) cor da conquista e do riso (...) cor cantante, ardente, alegre (...)”, nas palavras da comissão que a escolheu.
Não tenho a certeza de que a minha leitura do percurso exposto seja exactamente igual aquela que o autor tinha em mente quando produziu a obra. Conhecendo-nos a ambos, admito que não. Fica esta matéria para próxima conversa entre os dois.
Mas digo-vos e assim termino: vão, que vale a viagem e não só por orgulho de sobrinho. É uma visão inovadora, disruptiva e esteticamente apelativa sobre o nosso colectivo. Olhem, admirem, interroguem-se e pensem. E desfrutem, claro está.
Rue Mouffetard, Jardin des Plantes
Jardin du Luxembourg
Place du18 Juin, Montparnasse
Avenue Mozart, Auteuil
Place des Vosges
Passage des Postes, no Jardin des Plantes. Por aqui se escapou Olrik no "Caso do colar", de Blake e Mortimer
Jardin du Luxembourg
Bassin de la Villette
Jardin du Luxembourg
Rua Louis Blanc
Canal de St. Martin
Manifestação contra Bashir Al-assad no Trocadéro
Grandes morangos na Rua Mouffetard
Café Poussin em Auteuil
Pombo no telhado da igreja de St. Médard, Jardin des Plantes
O cozinheiro e o velhote dos vasos, em Auteuil
Em Março de 1975, com onze tenros aninhos, abordei timidamente o meu pai pedindo para ir a Cascais ver um concerto dos Genesis.
A vinda a Portugal dos Genesis no seu auge, meses depois do lançamento do fabuloso “The lamb lies down on Broadway”, passa sem protestos por uma de entre cinco manifestações de carácter divino a ocorrer em Portugal ao longo de oito séculos de história. As outras: o milagre de Ourique, as rosas no regaço de Santa Isabel, a aparição da Virgem aos pastorinhos na Cova da Iria e o sete-a-um ao Benfica no velho Alvalade, esta última a única que presenciei, em estado de êxtase e beatitude.
Em pleno PREC, uma banda de primeiro cartaz constituía novidade revolucionária. Diz quem viu que o concerto deslumbrou. Tudo no genésico grupo era superior nesses anos de ouro: o Peter Gabriel felizmente ainda cantava e o Phil Collins felizmente ainda não cantava, limitando-se a ser um excepcional baterista. Tony Banks, Steve Hackett e Michael Rutherford completavam um quinteto de eleição.
Isto sei eu hoje, porque na altura nem via bem quem eles eram. Apenas tinha ouvido uma música, o “Carpet crawlers”, que vinha num “single” aparecido desgarradamente no meio dos presentes de Natal. À época o que eu queria mesmo era ir a um concerto à noite, nem que fosse da banda dos bombeiros. Só que o meu pai riu à gargalhada da minha pretensão, de um modo tal que eu, conhecendo-o, percebi que não valia a pena insistir.
Depois deste desaire, passou uma olimpíada até eu voltar à carga com o tema. Em Março de 1979, com quinze anos já não tão tenrinhos, abordei menos timidamente o meu pai para lhe pedir para ir a Cascais ver um concerto do Rory Gallagher. Eu também não conhecia o Rory Gallagher, mas era estrangeiro e a malta toda tinha combinado ir porque sendo de fora devia ser bom. Desta vez o meu pai acedeu, com a condição de me ir pôr e buscar. Perante o meu protesto, usou como pretexto que lhe estava a apetecer dar uma volta pelo Estoril, vontade que lhe dava de quinze em quinze anos e por coincidência logo nessa noite.
Assim aconteceu. Fui deixado em frente ao Hotel Baía, onde seria o reencontro. Subi até ao pavilhão do Dramático onde me juntei aos meus amigos. Passámos alegremente, como se uma delícia fora, o suplício da longa fila, das grades colocadas à trouxe-mouxe, dos seguranças meio pedrados. O Dramático de Cascais foi durante esses anos a Meca do rock em Portugal, muito antes dos festivais de verão em arrabaldes poeirentos misturarem bandas londrinas com fado “world music” e dos concertos de estádio trazerem a peso de ouro mega-estrelas cheias de fama e artrite. Recinto de hóquei em patins, com uma acústica miserável, não arcaria mais de dez mil pessoas sem ameaçar ruir. Apesar disto, quando Gallaguer entrou em palco a esgalhar o “Shin kicker”, acompanhado da sua Fender, de Gerry McAvoy e de Ted McKenna, soou-me a música celestial e fiquei amigo dele e do seu “rhytm and blues” irlandês até hoje.
No regresso, os velhotes esperavam-me dentro do carro. Eu oferecera boleia de volta a uns colegas de escola e perguntei ao meu pai se não se importava. Ele disse que sim sem ter o cuidado de os contar e de repente a carrinha Fiat Mirafiori estava apinhada com oito pessoas, três a frente e cinco atrás. Assim arrancámos, que nem o expresso de Bombaim, e o meu pai meteu-se por uma ruazinha estreita que subia da baía até ao local do concerto. Apanhou com dez mil pessoas a descer em sentido contrário, em estados variáveis de alienação. Durante minutos que pareceram infindáveis o carro ficou imobilizado, cercado por uma massa humana fluindo pastosamente, roçando portas e vidros, proferindo bocas jocosas, soltando palavrões e mandando umas murraças ocasionais nos vidros e no tejadilho. O momento alto da cena ocorreu quando uma amiga da malta, reconhecendo-nos no interior da viatura, subiu pelo “capot” e, espalmada contra o pára-brisas, ficou a acenar freneticamente, mandando beijinhos e abraços, perante o olhar esgazeado da minha progenitura. A turba acabou por escoar, libertando a via, e seguimos para Lisboa em silêncio. Chegados a casa, o meu pai comentou que à próxima talvez fosse melhor eu ir de comboio. Bingo!
Foi portanto de comboio e autocarro que durante os dois anos seguintes me desloquei ao Dramático de Cascais ou ao pavilhão do Belenenses para assistir à primeira grande vaga de concertos “rock” que houve em Portugal, muito à base da variedade de oferta da “new wave”: Stranglers, Clash, Ian Dury, Lene Lovich, Ramones, Dr. Feelgood, Police, Elvis Costello, Joe Jackson, mas também Supertramp, Peter Gabriel e as paredes de sintetizadores dos Tangerine Dream.
Cada espectáculo tinha uma banda de suporte, ou própria que fazia toda a “tournée” com os cabeças-de-cartaz (vi os Simples Minds antes de se tornarem conhecidos com a merda do “Don’t you forget about me”, xaropada infame que infelizmente ainda não consegui varrer da memória), ou nacional contratada para o momento (assisti aos Xutos e Pontapés ainda sem papada, aos Delfins, Arte e Ofício, UHF). Toda a gente tinha muito pouca paciência para estas bandas de entrada, considerando que ao pagar trezentos escudos pelo bilhete ganhara o direito a não ter que as aturar. As manifestações de desagrado resumiam-se geralmente a trinta minutos de apupo contínuo, mas podiam ser mais espectaculares. No concerto dos Clash, os UHF fizeram a primeira parte. Eu estava na bancada lateral e de repente vejo um risco vermelho sair da plateia e explodir em estilhaços na testa do José Manuel Ribeiro, que com pose suposta de roqueiro se entretinha a cantarolar pr’aí o “Rua do Carmo” para bocejo da assistência. Uma tomatada podre arremessada a mais de trinta metros, linda, com uma precisão fabulosa, só suplantada mais de trinta anos depois pelo lançamento da miniatura do “Duomo” que partiu os dentes ao Berlusconi.
E dos artistas principais, que lembrar? Escolho o concerto dos Ramones, que assisti na primeira fila da plateia. Eu levara comigo o meu irmão, na altura com doze anos, e em casa fora fortemente recomendado para nunca o perder de vista. Assim que cheguei ao pavilhão encontrei duas amigas que iam para a bancada e consegui que elas tomassem conta do rapaz – recomendando que não o perdessem de vista – e fui lá para baixo, esgueirando-me até me ver no centro da primeira fila, esmagado contra as grades pela pressão de milhares atrás de mim.
Fora o H que no ano anterior me dera a conhecer os Ramones. Vindo de França, o H notabilizara-se na escola por usar uns óculos escuros que lembravam os de um soldador e por vestir como aquela banda peculiar, cuja grandeza publicitava pelos recreios, e que muitos imediatamente caracterizaram como “punk”. O H inconformava-se, quase ofendido: “Não é “punk”, é “rock’n’roll”, ouviram? Rooock’n’roooooll!”.
Fosse o que fosse, o som turbinado de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone tornou-se indispensável nas tardes de rádio e nas noites de festa, onde o “It’s alive” podia tocar trinta minutos seguidos sem que ninguém saísse da pista. Todos sabíamos que a música era primária, dois minutos com três ou quatro acordes repetidos e uma batida sempre igual e letras básicas de meia dúzia de versos de pé-quebrado. Mas todos gostávamos daquela velocidade em estado puro.
Escolho os Ramones, que vos deixo agora de seguida num concerto de Ano Novo em Londres, muito parecido com o que eu presenciei no Dramático. Escolho os Ramones porque me lembram a rapidez com que, visto à distância, me parece que aqueles anos passaram, para não mais voltar.
Gabba gabba hey!
Na manhã de 9 de Agosto de 2010 tive uma bruta de uma insónia. Deitara-me tarde. Fora ao Festival do Sudoeste ver os Air e os Massive Attack, tema de post antigo. O facto de lá ter deixado o meu filho mais velho com um sorriso no rosto, um automóvel nas mãos e uma carta de condução com quinze dias no bolso não me deixava pregar olho. Faz parte. Fui-me revirando na cama à procura de uma posição soporífera. Em vão. Abri a luz. Garatujei as palavras cruzadas e o "sudoku" no jornal. Li umas páginas de um livro. Fechei a luz. Escutei os ruídos que como formigas apressadas cruzam a tessitura da noite: o vento que sopra nas jelosias, o respirar de menina dela, os cães em conversa uivada. Só não ouvia o barulho que o meu subconsciente conscientemente esperava: um carro a dobrar a esquina, o motor a morrer na rua, a porta de entrada a bater e o cagaçal que eles conseguem fazer às tantas da manhã e que tanto irrita como alivia. No escuro, o brilho de pirilampo dos ponteiros do relógio de pulso, pousado sobre a mesa de cabeceira, circulava lentamente, muito lentamente...
Seriam seis da manhã quando a aurora começou a insinuar-se pelas ripas dos estores. Levantei-me e saí do quarto de sapatos na mão, com o pescoço encolhido, as costas curvadas, o andar desengonçado, como um marido que chega tarde da rambóia, só que em sentido inverso. Um bocado estúpido, porque as costas curvadas fazem o mesmo barulho que umas costas direitas.
Desci a rua em direcção à Praia Grande de Porto Covo.

Era a hora das gaivotas, que podem depenicar sossegadas o quer que seja que haja ali para depenicar. Mais duas ou três horas e a praia vibraria de gente, de cores garridas, do toc-toc das raquetes à beira-mar, dos gritos pelas crianças demasiado afoitas, do serpentear malabirista dos surfistas sobre a espuma de sabão dos tubos a enrolar, do apito esganiçado e arbitral do nadador-salvador. Tudo cenas que as gaivotas consideram má onda. Por isso se reservam para estes horários discretos, em que a humidade ainda pica e a maresia ainda cheira.
Chegavam também os primeiros pescadores, à procura de um lugar jeitoso na escarpa. Na rua principal havia uma tasca, o "Primo Xico", onde um quadro pendurado na parede informava que ali se reuniam caçadores, pescadores e outros mentirosos. Mas para que uma mentira seja razoavelmente credível, há que levantar cedo de manhã.
Subi de novo até à beira da falésia e percorri o trilho para sul, por cima da Praia do Banho. Ao fundo, um barco de pescadores coloria a planura de água como um peixe-palhaço num aquário gigante. Lá em baixo, um homem andava na areia com uma atitude de quem tem todo o tempo do mundo para um passeio matinal. Embora fosse apenas um ponto distante, parecia-me um ponto algo familiar.

Estranho. Conheço o P desde criança. Temos muita quilometragem juntos. Encontramo-nos quase todas as semanas. No mês de Agosto, então, é todos os dias. Acabáramos de estar juntos no concerto. Ia-mo-nos ver certamente à tarde na praia. No entanto, senti uma necessidade, vinda de não sei onde cá dentro, de gritar por ele e correr pelo carreiro abaixo, não fosse perder esta oportunidade única de estarmos ambos. Como se sem ele não se cumprisse aquela manhã gloriosa que a insónia me proporcionara.
Caminhámos ao longo do mar, em conversa mole, dissertando sobre assuntos que já se escaparam da minha memória. Também ele não dormira. Subimos ao alto da falésia e fizemos o resto do trilho, que serpenteia entre tojos e armérias, sempre em bate-papo, apesar do sono que nos começava a pesar nas pálpebras. Só nos separámos, com um bacalhau, ao atingir as primeiras vivendas do Bairro Alemão.
Chegado a casa, mais consolado, dormi umas duas ou três horas. Tomava já o pequeno-almoço quando ouvi o roncar de um motor que virou a esquina e se imobilizou lá fora. Passos. O rapaz apareceu, de chapéu-de-palha caipira com uma fita verde a fazer publicidade aos jogos da Santa Casa da Misericórdia. Comeu e foi-se deitar, concluindo este episódio.
O P fez anos ontem. Não o consegui apanhar ao telefone para lhe dar os parabéns. Bom moço, mas um chato do caraças no que toca a ter o telemóvel com som. Talvez por isso me tenha vindo à lembrança a memória daquela madrugada, em que por sorte não o deixei escapar.
Dia 23 próximo passado, o Técnico, onde burlei cinquenta regentes assegurando assim meu canudo e onde, faz em Dezembro vinte anos, dou uma perninha professoral, promoveu uma bonita iniciativa.
Homenageou as “mulheres do Técnico” através de três senhoras que, cada uma à sua maneira, desafiaram os “cânones da sua época”, expressão fina para “estupidez dos seus contemporâneos”, iniciando carreiras ou atingindo metas até então socialmente reservadas aos homens.
São elas a Engª. Maria Amélia Chaves, a primeira engenheira portuguesa, a Profª. Isabel Maria Gago, a primeira professora numa escola de engenharia nacional e a Profª. Sílvia Marília Costa, a primeira catedrática em engenharia de Portugal. Todas puderam felizmente estar presentes.
A Engª. Maria Amélia Chaves tem hoje cem anos. Contou ela numa entrevista recente o seguinte sobre a sua ida para o IST:
"Quando eu entrei, era suposto ir para Química, e mesmo isso já não era muito do agrado dos homens. Quando viram que eu ia para Civil é que “rebentou a bomba”. Os professores eram meus amigos mas só me diziam “Ó menina, mas o que é que vai fazer? O que é que vai fazer quando sair daqui?”".
Pois que fez a menina quando saiu? Trabalhou em fiscalização de obras na Câmara Municipal de Lisboa, tendo depois feito projecto. Foi a primeira pessoa em Portugal a desenvolver cálculo anti-sísmico aplicado à construção civil. Desenhou o seu último trabalho com oitenta e dois anos. Pelo meio foi mãe de cinco filhos e avó e bisavó.
A Profª. Isabel Maria Gago tem noventa e seis anos e foi uma das duas primeiras licenciadas em engenharia química de Portugal. Não sei se ainda, mas pelo menos até há pouco subia e descia a pé diariamente os três andares do prédio onde mora junto à faculdade, para ir passear.
A longevidade destas senhoras, que faço votos que perdure, demonstra que a independência de espírito deve fazer bem à saúde.
Ao ouvir ou ler hoje os seus depoimentos, vemos que estas mulheres assumiram o seu papel de pioneiras e percorreram o seu caminho com a candura e a naturalidade de quem simplesmente quis. Nasceram num mundo imbecil, de marialvismo e hipocrisia, em que a lei e, pior, a norma estigmatizavam a mulher como ser inferior. Pois estiveram-se nas tintas, não ligaram e simplesmente viveram a vida que desejavam viver. O que é a forma mais potente de mudar o mundo à nossa volta.
Enquanto esta celebração decorria, burocratas em Bruxelas, sempre a navegar a onda lodacenta do politicamente correcto, azafamavam-se a engendrar uma directiva que obriga as empresas a reservar quotas para mulheres nos seus conselhos de administração.
Na mesma peça jornalística em que soube deste devaneio comunitário, três mulheres portuguesas administradoras ou presidentes de grandes empresas comentaram a novidade com um “Quotas? Nem pensar!” . A Profª Sílvia Marília Costa, num seu depoimento na “Internet”, refere por acaso o mesmo. Esta posição de rejeição talvez surpreendesse os mal-preenchidos crânios eurocratas. Não entenderão tão focadas mentes que para as mulheres que pelo seu trabalho, seu mérito e suas circunstâncias atingiram ou procuram atingir altos patamares, as quotas representam um insulto.
Sei-o de fonte segura. Descobri-o ao longo da minha vida profissional. Fui chefiado por homens, mas também por senhoras. Com todos aprendi, coisas diferentes, de igual modo. Recordo colegas extraordinárias, mulheres de grande visão e talento, com quem foi um prazer trabalhar. Tenho a sorte de ter hoje, na equipa que coordeno, mulheres que são exemplos de dedicação, lealdade, eficiência e inteligência. Nenhuma destas precisa de quotas para chegar a lado nenhum. Acredito que quase todas, senão mesmo todas, repudiariam quotas e percentagens e facilidades. O mérito chega e sobeja, pelo que encaram a igualdade sem receio. E se alguma diferença há, é a favor delas: tenho a impressão que em média são mais cooperantes, mais concentradas nos objectivos, mais jogadoras de equipa e mais subtis que os homens, cuja irremediável imaturidade os leva muitas vezes a preocupar-se mais em mostrar-se a si do que em mostrar resultados.
Admito que nalgumas situações muito particulares a discriminação positiva seja necessária para resolver iniquidades sociais. Não é o caso. As mulheres não precisam de favores nem de quotas que viriam apenas lançar dúvidas injustas sobre a sua competência e que seriam fatalmente usadas para bocas foleiras de urinol. Precisam, elas como nós, que a sociedade se organize e crie condições para que maternidade e actividade profissional se harmonizem. Uma sociedade que não protege as suas mães e as suas crianças, além de fazer triste figura, não vai longe, até por razões meramente matemáticas.
Como aparte, lembrar que não devemos cair no pólo oposto que trata paternalistamente as mulheres que optam por abandonar o trabalho para se dedicarem exclusivamente aos filhos. Conheço mulheres que, tendo uma sólida carreira e sendo grandes oficiais de seu ofício, optaram por ser mães a tempo inteiro. Dispunham dos apoios necessários e das condições financeiras para compatibilizar o trabalho e a família. Sabiam que, provavelmente, não conseguiriam voltar mais tarde ao mercado de trabalho. Mas livremente escolheram. Não consigo deixar de sentir uma funda admiração pelo exemplo de altruísmo e devoção que personificam. As “pietá” não são todas de mármore.
O machismo ainda atormenta, tal como a fome, a miséria ou a guerra, uma parte substancial da humanidade. Aliás todos estes flagelos parecem andar correlacionados. Em muitos países as mulheres são oficialmente cidadãos de segunda, que por lei não podem guiar um carro, usar umas calças ou desobedecer ao marido. Noutros, se bem que teoricamente protegidas pelo texto legal, são abandonadas à sorte de viver vítimas de “soi disant” homens – pais, irmãos, maridos, vizinhos – que as tratam como gado reprodutor ou como uma sexualidade de serviço. Estes fulanos são pedaços de merda cobardes que se borrariam pelas pernas abaixo se tivessem que estar entre quatro paredes com uma mulher de igual para igual. Mas infelizmente frouxos destes ainda dominam muitas sociedades por esse mundo fora.
No nosso canto do planeta somos algo melhores, mas não estamos livres de formas mais subtis de machismo. Nós, homens, ainda ajudamos mais do que partilhamos as tarefas domésticas – eu, pecador, me confesso. A sociedade continua a tolerar excessivamente o homem que agride uma mulher ou que se pira e não paga a pensão aos filhos. Ainda nos horripilamos pouco com coisas com que devíamos: por exemplo, quantos daqueles que acham legítima uma intervenção militar para proteger os líbios ou os kosovares ou outros quaisquer pensariam o mesmo duma intervenção armada num país africano ou asiático para acabar com práticas de excisão generalizada? Desconfio que poucos. Teríamos a mesma complacência se num dado país dessem para capar sistematicamente todos os rapazes? Não creio. No entanto, a mutilação genital feminina é uma forma de tortura e um abuso de uma barbárie absoluta que afecta cerca de dois milhões de crianças por ano. E praticada, estima a Amnistia Internacional, em cerca de 135 milhões de mulheres actualmente vivas. Haverá maior crime contra a humanidade do que isto?
Evoluímos bastante em Portugal no que toca à igualdade de género desde os tempos em que a presença da Engª. Maria Amélia Chaves numa obra provocava escândalo. Esta senhora provavelmente ainda precisou, por lei, da autorização do marido para viajar para o estrangeiro. Setenta anos volvidos, mais de metade dos nossos estudantes universitários são do sexo feminino. Em 2040, essas raparigas terão uma influência generalizada na sociedade portuguesa. Espero que consigam fazer melhor que os homens que as precederam.
Passeando ao fim de tarde em Pradollano
Crianças brincando em Pradollano. Alguém deixara uma cadeira de escritório no meio da neve, para contemplar confortavelmente a paisagem.
"Après-ski": esta podia chamar-se "o galã e o invejoso".
Subindo na tele-cadeira Monachil
A tele-cadeira Veleta, em Borreguiles
O arlequim e o professor
Pai é sempre pai, mesmo a 2500 metros
E a propósito de pais, o meu duplo legado ao planeta
No cruzamento da Áquila com a Maribel
Descendo a pista Prado de las Monjas
Um SMS rápido ao pé da tele-cadeira Stadium
"Snowboarders" descansando no cruzamento das pistas Maribel e Sol y Nieve
Este reza para que Deus lhe dê jeito
E esta ficou muito tempo quietinha, a olhar o vale
Descendo a pista Copa del Mundo
Fim do dia: chegada a Pradollano