sábado, setembro 03, 2011

Férias (III) - O desvio

Este ano, o caminho usual para os Aivados estava em obras do tipo Santa Engrácia e o trânsito era desviado por uma estradinha que atravessava um bonito trecho de campo









Férias (II) - London not calling

 What a relief!
Feel like a soldier,
Look like a thief!

The Clash, in “Jimmy Jazz”

No meu arranque de férias, entre dentadas em fatias do pão fatiado alentejano, fofo e de travo ázimo, e o café que espirrava perturbado de uma máquina da Delta, inovação do ano do meu senhorio, fui sabendo pela leitura matinal do jornal que Londres estava a ferro e fogo ou outro dramalhão parecido. Nas fotos, um nevoeiro avermelhado envolvia silhuetas de prédios em chamas, já esventrados, as janelas uns quadrados brancos de luz sinistra. Ou então a silhueta negra dos polícias de choque, a metros de encapuçados, diante de lojas com as vitrines estilhaçadas. A faixa de Gaza em Clapham Junction.


“Finalmente começou a revolução”, suspirei entre goles no primeiro dia. Depois fui quotidianamente lendo mais e, apesar dos esforços dos “jornalistas” em escrever uma ode épica aos revoltosos desagradados com o desemprego e das entrevistas a soció”logos” explicando e desculpando uma juventude destruturada, desapontei-me. Aquilo não tinha pinta  revolucionária. Pelo contrário: foi o maior frete possível feito aos Camerons, às Merkels e aos Petit Nicolas deste mundo. Foi “status quo” no seu mais forte.


Voltemos uns anos atrás...


Na Inglaterra do século XIX, a delimitação de terrenos e a mecanização da agricultura criaram uma massa de trabalhadores rurais miseráveis que alimentou as necessidades de mão-de-obra da indústria nascente, através do “pesadelo voraz do trabalho industrial desregulado, mal pago e em condições escravas”, para citar Grayling.


Em 1830, uma rebelião surgiu no sul entre esse campesinato desasado. Um manifesto publicado no Sussex interrogava: “Não temos razão em queixar-nos de há tanto tempo ser obrigados a ir à labuta diária só com batatas nas sacolas e tendo como única bebida para matar a nossa sede a fria fonte; e ao retirar-nos para os nossos casebres ser recebidos pelo magros e meio-esfomeados filhos dos nossos corpos gastos pelo trabalho?” Os rebeldes controlaram totalmente algumas zonas, como Hampshire, atacando todas as quintas que tivessem debulhadoras, vistas como causa da sua condição, e exigindo contribuições para a causa “na casa de cada cavalheiro”.


A revolta foi contida à força. Nove cabecilhas foram enforcados, dependurados à vista do público. Centenas foram presos ou deportados. Um relatório da prisão de Winchester contava que “mulheres, irmãs, mães e filhos esperam diariamente à entrada, e o governador da prisão informou-me que as cenas que tem que testemunhar à hora do fecho das portas são de partir o coração”. Pois deviam ser, coitadinho do governador, com a boa consciência maçada pelas lágrimas dos andrajosos.


O mesmo relatório continuava, sobre a exibição dos cadáveres dos sentenciados: “Olhei para o pátio dos condenados e vi muitos deles chorando amargamente, alguns enterrando a cara nas roupas esfarrapadas, outros agitando as mãos convulsivamente e outros encostando-se para não cair às paredes do pátio e incapazes de olhar para cima.”


Fim de “flash-back”.



Aquilo em que os camponeses ingleses acima descritos estiveram envolvidos merece o nome de revolta: pessoas a quem o sistema político e económico não dava qualquer hipótese de dignamente proverem a si e aos seus revoltaram-se e atacaram tanto aquilo que julgavam (e até era) a causa da sua desdita como o lado poderoso da sociedade, os “cavalheiros”. O movimento supunha riscos enormes, como se viu pelas dramáticas consequências que sofreram.


Provavelmente a sua acção foi quixotesca e sem esperança. Sabemos hoje, vendo o curso da História, que o mundo não voltaria nunca ao tempo anterior às debulhadoras. Mas este detalhe não retira utilidade histórica ao que fizeram.  A legítima revolta é um dos motores de mudança da sociedade. Ao criar risco para o poder, motiva a reforma, cuja ausência pode provocar a revolução. Por isso, estes camponeses são figuras da história das liberdades que o Ocidente construiu e que neste momento não gozam, infelizmente, da melhor das saúdes. Tanto são que retirei a informação acima das páginas 175 e 176 de uma história das liberdades e direitos da autoria de um professor da Universidade de Londres que escreve frequentemente para o Economist e para o Financial Times, um homem mais na tradição “liberal” inglesa do que propriamente na daquilo que tradicionalmente chamamos “esquerda”. O mundo que veio depois deles não era o mesmo que dantes, mas era melhor que o do durante, em parte graças a eles.



Ora o regabofe londrino nada teve a ver com isto. A bandidagem em questão – porque disso se trata – não atingiu nem os símbolos do poder, nem as classes que dele beneficiam. Fraca com os fortes e forte com os fracos, preferiu atacar gratuitamente pessoas mais desmunidas mas mais a jeito, muitas vezes com um comportamento racista, e adquirir telões da Sony, sapatilhas da Nike e “lingerie” da Victoria’s Secret a preços de saldo: zero libras.


Espero não estar enganado ao dizer que nenhuma história das liberdades escrita em 2200 vai dedicar uma linha a estes imbecis que atacaram lojinhas de emigrantes e roubaram bens de uma ostentação medíocre.  A menos que seja para explicar que permitiram uma excelente justificação para o reforço do securitarismo e o isolamento de quem eventualmente quisesse revoltar-se porque tinha razões para isso.


Comparar o gamanço desorganizado de iPhones com a rebelião de quem tinha fome ou de quem quer mudar alguma coisa na sua falta de perspectivas para além de estúpido é falta de respeito. Voltando ao verso dos Clash referido em epígrafe, o rebelde até pode ter ar de ladrão mas tem que sentir-se soldado, servindo uma causa.

terça-feira, agosto 23, 2011

Férias (I) - Per doar


Conta São Mateus que Pedro perguntou a Jesus quantas vezes deveria perdoar a quem o ofendesse, se sete vezes chegariam. Ao que o Cristo respondeu que não sete mas setenta vezes sete.

Esta resposta lembra outra, dois mil anos depois, quando perguntaram ao treinador Malcolm Allison quantos golos o Sporting devia marcar na primeira mão de uma eliminatória europeia para garantir a passagem à fase seguinte. Allison retorquiu que vinte e cinco.

Existe geminação entre estas duas tiradas. Ambas possuem um tom de “toma e embrulha”, ambas revelam espírito – embora o do primeiro seja santo – e ambas usam números absurdos para explicar o inumerável: uma eliminatória nunca está garantida e não há limite ao perdão que não o senso de quem perdoa.

Desde que me lembro, sempre tive em boa conta quem conte com boa capacidade de perdoar. Porquê, não sei dizer: talvez porque algumas vezes na minha vida tive a sorte de ser perdoado sem o merecer, talvez porque tenha aproveitado essas oportunidades que a não existirem não poderiam ter sido aproveitadas, talvez porque tenha visto perdoar e só depois percebido porquê. Em criança, andei cinco anos na catequese com bom aproveitamento, como na altura se dizia. Não encontrei Deus mas encontrei o pai do filho pródigo e esse não o esqueci.

O perdão é um conceito forte e até revolucionário, que mudou a natureza do universo. Na antiguidade greco-romana, mesmo os deuses estavam sujeitos ao “diktat” dessa misteriosa entidade chamada Destino, que zelava pelo respeito por uma espécie de lei de Talião cósmica: o mal feito por alguém, mesmo que involuntário, tinha que ser compensado pelo sofrimento do próprio ou de próximos. As tragédias gregas e os seus sucedâneos seiscentistas estão cheios disto: Édipo que se cega para compensar ter morto pai e seduzido mãe por engano, Orestes que enlouquece quando a sua paixão Hermione se mata após ambos terem tramado Pirro, e Clitemnestra que trata do sarampo ao marido Agamemnon por este ter sacrificado a filha de ambos, Ifigénia, por ordem dos deuses, durante a guerra de Tróia. O perdão não podia existir porque os homens estavam manietados, por muito heróis que fossem. Ainda hoje andam para aí uns equilíbrios “kármicos” que rondam à volta do mesmo pote.

De repente, a contra-vapor, apareceu na Galileia um barbudo assim para o mal vestido e adicionou um grau de liberdade ao sistema: já não era obrigatória a desforra cósmica e o destino trágico. Podia-se perdoar ou não perdoar, como parecesse a cada um mais adequado. E ele recomendava que sim, o que representou um salto ético. Perdoar tornou-se um exercício de liberdade e de responsabilidade. Os homens deixaram de ser títeres nas mãos do destino e puderam responder pelos seus actos, o que incluia o modo como decidiam usar ou não da sua faculdade de perdoar. Esta tornou-se uma característica essencial do mais nobre que há na humanidade: o ser humano é o único animal que perdoa.

Perdoar não mostra fraqueza. Pelo contrário, é uma prerrogativa dos fortes, é uma marca de poder. Só o príncipe, que pode exercer o “fait du prince”, consegue ser “bon prince”, expressão que nós traduziríamos recorrendo ao conceito de magnanimidade, palavra onde o prefixo “magna” afirma grandeza. Se quisermos um exemplo, pensemos em Mandela, que com uma palavra podia incendiar a África do Sul mas que com uma convicção de perdão a salvou.

 Relembremos: o perdão não é obrigatório. Podemos não perdoar e a vida continua. O meu pai, um dos homens que conheci que mais e melhor perdoava, disse uma vez ou outra à minha mãe, imitando John Wayne em “Um homem tranquilo”:

- Escreve aí na agenda o nome de fulano. Agora risca por cima.

E esquecia simplesmente. Não remoía, não ansiava. Fulano simplesmente desaparecia da memória, sem ressentimento e sem mossa, como que dissolvido numa tina de ácido sulfúrico. A seu modo, era um “quase-perdão”, discreto e longe das vistas.

Porque me veio agora esta conversa, em tempo de férias? Porque sim. Porque o velho Mata, que passava sempre pelo meu Agosto nem que fosse para almoçar com duzentos quilómetros em cada sentido, ainda tem umas histórias para contar a quem o quiser ouvir.

sábado, julho 30, 2011

Amor e ferrovia

It’s hard to tell
It´s hard to tell
When all your love’s in vain

In “Love in vain”, de Robert Johnson

Calhou calhar, numa das minhas deambulações pela zona antiquária do “youtube”, no magnífico “Love in Vain”, um blues de Robert Johnson interpretado pelos Rolling Stones, cujo vídeo encontrarão no final do texto.

Robert Leroy Johnson nasceu em 1911 e levou uma vida obscura de músico errante pelo Arkansas e pelo delta do seu Mississipi natal, tocando nas esquinas por esmola e em clubes por trocos, sem se dar muito a conhecer, coleccionando amantes de ocasião. Gravou pouco e ainda em 78 rpm mas, quando foi reeditado no início dos anos sessenta, influenciou uma nova geração de músicos ingleses como Mick Jagger e Keith Richards, John Mayall ou Eric Clapton.

Johnson morreu muito novo, com vinte e sete anos apenas, em circunstâncias nunca esclarecidas, aparentemente envenenado com estriquinina colocada numa garrafa de whisky por um marido ciumento. Existe também mistério à volta do seu enterro, podendo hoje ser visitadas três lápides diferentes que reclamam ter Johnson por baixo. A vida nebulosa, a morte trágica e a incerteza sobre onde repousa acabariam por criar a lenda: quando jovem, desejando ardentemente tornar-se um grande músico de “blues”, Johnson teria ido com a sua guitarra a um cruzamento de estradas à meia-noite, onde um homem enorme – na realidade o Diabo – lhe tomou a guitarra, afinou-a, tocou algumas músicas e devolveu-a, dando-lhe a mestria que ele almejava. Um Fausto guitarrista.

Talvez seja mesmo verdade, porque nesta interpretação dos Stones, que como se sabe tinham simpatia pelo Diabo, há algo que não é deste mundo. Neste “Love in vain”, Jagger, no auge da sua boca de sapo, serve-nos um “blues” de um azul profundo, uma tela de Klein sonora, com uma letra despretensiosa e clássica sobre o amor que não vinga e leva à separação.

Conta-nos sobre um homem que acompanha à estação a mulher que o vai deixar, levando-lhe a mala; o trem chega, ele olha-a nos olhos e chora; quando o comboio parte, levando-a, ele vê duas luzes na traseira da carruagem, uma vermelha que representa o seu pensamento e uma azul que simboliza a sua tristeza. Só isto: simples, suave e bonito como a penugem de um pintaínho.

Que isto se passe numa estação de combóios não será de estranhar. Por alguma razão que será essa sim de estranhar, o comboio, produto e símbolo da Revolução Industrial, amálgama de mecanismos estridentes e viscosos, objecto barulhento e poluidor, tornou-se símbolo romântico, tal como a azáfama dos cais das estações e o deslizar gémeo dos carris em direcção ao infinito.

Daí foi cantado, pintado, filmado. Quando chegava, simbolizava a alegria do reencontro, a cara que surgia na porta da carruagem desfazendo a dúvida sobre o regresso, a correria entre estranhos para o abraço há muito ansiado. Mais forte no entanto quando partia: o separar do que não se devia apartar, o aproveitar de cada segundo até ao apito de largada, os olhares que se acompanhavam até não serem mais do que pontos distantes e memórias vivas.

E isto não é teoria. Eu, que bati toda a Europa de comboio de mochila às costas, que dormi no chão dos corredores e nos bancos das salas de espera, que me deliciei horas a mirar o deslizar nervoso da paisagem pelos vidros da carruagem, também vivi as minhas tristezas de cais, os acenos de mão que pediam um regresso rápido ou que sabiam ser o final de um infinito momentâneo. Momentos ferroviários que mantenho em lugar privilegiado e de fácil acesso na minha memória, onde não dê trabalho sacá-los da prateleira e puxar-lhes o lustro de vez em quando.

Recordo outro instante, esse apenas presenciado, numa estação algures longe onde esperava uma ligação. Ela, nos seus vinte e poucos, elegante, bonita, o cabelo moreno apanhado, encostada à composição à beira do cais, trocando os pés num nervoso cheio de graça, como se de dança, olhando pra cima para ele e mordendo ligeiramente os lábios para segurar o sorriso que uma lágrima malandra pretendia desfazer. Ele, pela mesma idade, a cara de fora da janela alta, o braço pendente, não conseguindo chegar com os dedos, tinha uma revista enrolada na mão, com a qual lhe fazia uma carícia na face, nos cabelos, olhando-a com uma serenidade que não mentia e que jurava voltar. E assim se quedaram, longos minutos, vivendo o momento enquanto não chegou o momento de a composição rugir o aviso de partida e se arrastar, pesada, nos primeiros sacões da viagem.  Os passos ondeando, a revista volteando, os dentes de pérola mordiscando lábios onde o sorriso mentia por baixo de uns olhos jurando verdade.

Afinal, talvez o amor nem sempre seja em vão.


domingo, julho 24, 2011

Os do “Maracanazo”



“Ce que je sais de plus sûr sur la morale des hommes, c'est au sport que je le dois, c'est au RUA que je l'ai appris”

Albert Camus


Morei na Avenida do Uruguai, no bairro lisboeta com o nome infame de Benfica, de 1968 a 1990. Mas não será essa nostalgia que me fará estar hoje às oito da noite, poltronado em frente ao ecrã, a torcer pela República Oriental quando esta jogar a final da Copa América para o seu décimo-quinto título, ultrapassando assim em palmarés os colossos vizinhos Brasil e Argentina.

Também não será por a considerar uma das melhores equipas da actualidade, a que mais bonito futebol praticou no último mundial, com um guarda-redes elástico, laterais que marram em frente, centrais para quem a bola é para estar fora da área e um meio-campo operário a servir dois genuínos craques no ataque, Forlan e Suarez. E um todo muito composto, que troca a bola, que mete o pé no choque, que recupera, um mimo de relojoaria ou não apelidassem o Uruguai de “Suiça da América”.

Na verdade, o que mais me espanta no Uruguai está no modo como sempre se desembaraçou do peso das regras da estatística. Os países que ganharam o campeonato do mundo de futebol possuiam uma população de várias dezenas de milhões de habitantes. Com mais gente, resulta maior probabilidade de surgirem bons jogadores e logo melhores equipas. Explica-se assim, pela lei dos grandes números, a recorrência no topo de Itália e Alemanha, de Brasil e Argentina.

No meio destes grandes, exceptua-se o Uruguai. Um país de três milhões de habitantes, mais de metade na macrocéfala Montevideu, ganhou jogos olímpicos, dois campeonatos do mundo, catorze campeonatos sul-americanos, entre demais palmarés com a camisola azul de céu. 

Nesta anomalia da lógica matemática, neste intervalo de esperança de que nem sempre o mais forte vence, enraiza a minha condição de fã da “celeste olímpica”.

O ponto alto desta desfaçatez ocorreu no já longíquo “Maracanazo” de 1950, quando o Brasil perdeu a copa e as peneiras em casa, num Maracanã a arrebentar de duzentas e dez mil pessoas, contra o Uruguai capitaneado por Obdúlio Varela, “el Jefe Negro”, pela autoridade e pela cor da pele.

Varela é um personagem de um futebol de outros tempos, mais feito de suor e hombridade do que de milhões e “glamour”. Quando o seu clube, o Peñarol, passou a colocar publicidade nas camisolas, Varela recusou-se a usá-la. “Antes, nós, os negros, éramos puxados por uma argola no nariz. Esse tempo já passou”, disse a propósito. Por isso o Peñarol entrava em campo com dez jogadores anunciantes e Varela com a sua velha camisola. Talvez por este desprendimento orgulhoso tenha morrido pobre, reformado da função pública, morando sempre na mesma casa e conduzindo um Ford velho, “a única coisa que o futebol me deu”, dizia.

A final de 1950 estava feita para o Brasil, ao qual bastava o empate e que tinha goleado nos jogos anteriores a Espanha e a Suécia, contra as quais os uruguaios tinham penado. O Rio de Janeiro amanheceu coberto de faixas de “Brasil campeão”. O presidente da FIFA, Jules Rimet, preparara o discurso de felicitações em português. Tinham sido cunhadas medalhas de ouro com o nome de cada jogador brasileiro para entregar no fim aos inevitáveis ganhadores. A banda trazia ensaiada uma música intitulada “Brasil os vencedores”, composta especialmente para a ocasião.

Na manhã do encontro, o diário “O mundo” trazia já na primeira página uma fotografia do escrete com a manchete “estes são os novos campeões mundiais”. Obdulio Varela comprou vários desses jornais, atapetou o chão do balneário com a fotografia dos adversários e convidou os colegas a urinar-lhes em cima. Depois deste momento de catarse escatológica, proferiu um discurso emocionado sobre a necessidade de desafiar as probabilidades dentro de campo e de ignorar o peso intimidante da torcida brasileira. Terminou com um "Muchachos, los de afuera son de palo. Que comience la función". Entraram e ganharam dois a um com golos de Schiafino e Ghiggia. Celebraram com sanduíches e cerveja, que a vaquinha que fizeram não juntou dinheiro para mais.

Quando se lêem estas histórias de um futebol de outras eras, de homens que não de vedetas, personalizado e romântico, entende-se a frase em epígrafe de Camus, ele próprio futebolista amador, guarda-redes do RUA, o Racing Universitaire Algérois, de que nunca deixou de ser sócio pagante.

E este exemplo da República Oriental do Uruguai, desafiando a lógica fria dos números, anã agigantando-se entre gigantes, ciente de que os que de fora do campo mandam bocas são “de pau” e lá dentro é que as coisas se resolvem, pode bem servir-nos a nós, Portugal,  nos dias difíceis que vão correndo.

terça-feira, julho 12, 2011

Ocean's fourteen

Na semana que passou a Moody’s fez mais pelo discurso de esquerda em Portugal que dez mil arengas hirtas do Louçã ou do Fazenda no parlamento ou nos púlpitos televisivos.

De repente, banqueiros, editorialistas dos diários económicos, políticos dos partidos mais à direita, líderes das patronais e administradores de empresas descobriram que os mercados de capitais não correspondiam àquelas entidades virginais e omniscientes que a teoria descreve lá para o terceiro ou quarto capítulo dos livros de “corporate finance”. Afinal, parece que a informação não é assim tão perfeita como mandam os cânones. Na volta, os agentes de mercado, mal orientados, podem cometer a irracionalidade de seguir as patacoadas publicadas pelas agências de “rating” e de caminho lixar-nos a vida.

Vai daí, toda aquela boa gente se empertigou em frente ao primeiro microfone disponível para zurzir nas agências, utilizando um vocabulário que há uma semana seria considerado perfeitamente irresponsável, desde o “arrogante” ao “deplorável”, desde o “incompetente” ao “superficial”, chegando mesmo ao “terrorista”, palavra que na última década ganhou no mundo do politicamente correcto o estatuto de pior dos insultos, correspondendo aproximadamente em sentido ao “és mau” dos jardins de infância. Até o nosso Presidente Cavaco desceu das alturas para vir a terreiro chamar às agências “ignorantes” e, supremo insulto, “norte-americanas”.

Concordo que mais vale tarde que nunca, que só os burros não mudam de opinião e essas banalidades do costume. Mas que dá uma certa vontade de rir, dá, mau grado o trágico do momento.

Devo dizer que não fiquei particularmente surpreendido com o gesto da Moody’s. Já há tempos que venho comentando entre amigos e colegas que existe um padrão de comportamento das agências de “rating”que é peculiar (desigualdade no tratamento de realidades iguais, descida bruscas de vários níveis procurando a espectacularidade, “timings” que não podem ser coincidência, no nosso caso sistematicante mesmo antes de uma emissão de dívida pública). Qualquer explicação para esse padrão não consegue ser muito abonatória. Existem quatro possibilidades, por ordem crescente de maquiavelismo: pura incompetência, limpeza da trampa que fizeram em 2008, conflito de interesses e cabala montada contra o euro.

A pura incompetência tem sido invocada, mas parece-me curta como explicação. É verdade que se falarmos com pessoas do meio, que conhecem estas agências, descobriremos que quem nelas trabalha é tipicamente gente de segunda escolha: os craques vão para a Goldman Sachs e para a JP Morgan fazer negócio, não para a Moody’s ou para a S&P mandar papos. E consta que os seus modelos matemáticos pesam pouco nas suas decisões, que tendem a ser tomadas a níveis mais elevados com base em opiniões sobre receios que sejam receosamente opinados pela opinião pública. Mas isto não chega para perceber a actuação da Moody’s e companhia: um incompetente tem geralmente um comportamento errático na asneira e estes senhores parecem saber o que andam a fazer.

A tese da limpeza da trampa de 2008 parece razoável, mas soa demasiado piedosa. Segundo esta tese, as agências, depois de terem visto falir bancos e investimentos a quem tinham dado notações triplo-A com a mesma ligeireza com que a extinta Arthur Andersen credenciou os prodígios criativos das contas da Enron, teriam resvalado do oito para o oitenta, começando a ver riscos incontroláveis em tudo o que mexia. Comportar-se-iam como aqueles árbitros que após sancionar por engano um golo com a mão e em fora-de-jogo, vêem as imagens do seu erro ao intervalo e passam a segunda parte a perseguir a equipa marcadora. Pessoalmente, não acredito nesta hipótese. Se fosse verdade, não tolerariam como toleram a incerteza actual à volta do pagamento próximo da dívida pública americana e já lhe teriam arrochado com um bê qualquer coisa com “outlook” negativo.

A do conflito de interesses é a minha favorita, de tão evidente que parece. As agências são propriedade de investidores. A Standard and Poors é detida pela Capital Ventures, um fundo de investimento do tamanho do fundo de resgate da União Europeia. Intriga-me que os arautos da regulação independente, que acham que os estados não são capazes de supervisionar nada (porque são suspeitos) e devem entregar o seu papel a autoridades impolutas, não se ergam aos berros quando agentes de um mercado tão importante como o financeiro são simultaneamente jogadores e árbitros! Seria admissível que a PT fosse a dona da Anacom? Ou a EDP da ERSE? Basta um “statement” impessoal da Moody’s e os seus proprietários podem comprar acções mais baratas, obrigações de melhor juro, moeda mais em conta. E o que espanta é que perante esta evidência a União Europeia hesite em regular estes senhores, pressionada pelos ingleses que querem manter o seu negócio de serviços financeiros na City.

O conflito de interesses também explica bem a benevolência que têm na análise de investimentos americanos. As autoridades financeiras dos Estados Unidos garantiram à Moody’s, à S&P e à Fitch um exclusivo num gigantesco mercado de notação. Porque haveriam empresas privadas de zurzir o seu melhor cliente e o seu melhor mercado?

O conflito de interesses salta tão à vista que a quarta tese, a da cabala contra o euro, nem é necessária para explicar nada. Podemos pois dispensá-la, não porque não pareça, porque parecer parece. Quem escreve uma justificação como a da Moody’s para baixar o “rating” português, no momento em que o fez, está a pedir para levar com uma teoriazita da conspiração.

Como disse, não me admirei muito quando a Moody’s nos lixou. Fiquei humoradamente surpreendido com o tom bolchevique da indignação que por aí grassou à direita do espectro político. Agora o que me deixa realmente de boca aberta são aqueles que continuam a achar que nada se passa, que as agências se limitam ao seu angelical papel e que a culpa é todinha dos malandros dos países, dos malandros dos políticos, dos malandros dos gregos e dos portugueses que são tão diferentes deles que são sérios e trabalhadores. O que me espanta são os escolásticos do liberalismo que postos perante a evidência dos limites da sua teoria preferem desafivelar o cinto e expor-se a concluir que andaram enganados. Tal como dizia Cristo no Evangelho segundo São Mateus, não vêem a trave no próprio olho (e São Mateus não se importará que eu faça uma interpretação mais lata do seu versículo, que estes gajos justificam).

A União Europeia tem que entender que se quer sobreviver enquanto união de democracias tem que mandar uma porrada violentíssima nas agências de “rating”. Já não interessa a legitimidade da acção, neste momento é preciso algum sangue: regulá-las até ao tutano, proibi-las, extingui-las, processá-las, o que for pior. Porque quando as democracias são mais fracas que empresas privadas e se encolhem diante delas, as pessoas acabam por perceber que quem as governa não é quem elegeram mas quem se impôs aos eleitos. E nesse momento a revolta passa a justificar-se ou até, como recomendava Thomas Jefferson, a impor-se. A questão é pois política e não económica ou técnica. Faça-se, que até se vai descobrir que elas nem fazem falta.

E aos ingleses, que vão ficar rosadamente chateados, explique-se-lhes que é mais ou menos como fez o Cromwell no seu tempo. Ele convenceu-se que cortar o gasganete ao rei Carlos I era a melhor maneira de acabar com a guerra civil, por isso defendeu o indefensável contra todos os prudentes argumentos para não o fazer. E cortou. E embora a guerra ainda durasse mais uns tempos, a Inglaterra não desapareceu por isso.

sábado, junho 25, 2011

Exposição fotográfica (XXXV)

Vila Nova da Barquinha, 17 de Junho









Com fim na Rua Barral Filipe

sexta-feira, junho 24, 2011

Aprender a ler

Descobri esta semana, na minha leitura vezeira de Pedro Lomba no Público, que Camilo Castelo Branco desapareceu do currículo do ensino secundário. Lomba parte deste mote para desenvolver uma interessante crónica sobre o ensino ou melhor o desensino da literatura. Coisa sobre o qual o próprio tem dúvidas fundamentais: refere ele que não tem a certeza se o gosto pela literatura se pode ensinar. Pois eu quase que tenho que pode. Nisto discordo dele.

Mas já concordo com ele que pelos serviços do ministério anda gente em demasia a cerebrar sobre temas bizarros, como seja a melhor maneira de ensinar a crianças de treze ou catorze anos a reconhecer nos Lusíadas metalepses e metáteses. Ora as metáteses estão para o desenvolvimento do gosto pela literatura como as metástases estão para a promoção da nossa saúde. Não me parece que tão erudito exercício induza nas mentes tenras o amor pela leitura. Será como querer promover o gosto pela culinária com cursos teóricos de química orgânica avançada.

(Aparte antes de prosseguir: para os que estão neste momentos extasiados com a minha sapiência, informo que há truque. Eu não sabia de cor, nem de outra forma qualquer, o significado de metalepse ou metátese. Fui ver a um dicionário de figuras de estilo que consta de uma edição dos Lusíadas que há cá por casa. Tem lá termos espectacularmente ininteligíveis, óptimos para tentar levar à loucura os adversários num jogo de “Pictionary”. Por exemplo, sabem o que é uma hendiádis ou um - ou será uma? - paragoge? E um polissíndeto ou uma tmese? Não? Bando de analfabetos! Mas um zeugma devem saber... Também não? Como é que conseguem ler um livro nessa vil escuridão?)

Quanda não está entretida a complicar, a mesma ministerial gente, apiedada perante as dificuldades daqueles que paternalisticamente vê como menos capazes, cai no outro extremo e facilita. Por exemplo, o programa de 10º ano de Português preocupa-se com que jovens de quinze anos saibam “reconhecer diversos tipos de texto” como sejam “textos informativos diversos e os seguintes dos domínios transaccional e educativo: artigos científicos e técnicos; verbetes de dicionários e enciclopédias; declaração; requerimento; contrato; relatório”. Ou então “textos dos media”, que podem ser até radiofónicos. E não aponta nenhuma leitura integral de um livro como obrigatória (só no 11º aparecem o Frei Luís de Sousa e um Eça à escolha, que por algum azar até pode calhar ser “O mandarim”).

Ora eu com essa saudosa idade andava no Liceu Francês a levar antiquadamente com Racine e Zola na tromba, para ler na íntegra, e nunca tive assim a oportunidade fresca de analisar verbetes de dicionários para os poder reconhecer quando os visse. Por razão misteriosa, apesar de não ter beneficiado do modernaço programa do 10º em língua pátria, consigo preencher um requerimento, utilizar um dicionário e até ouvir as notícias na TSF sem me baralhar todo e ficar a pensar que o entendimento a que chegaram Portas e Passos Coelho é sentimental e não político. Devo ser um autodidacta.

Quem arquitecta estes programas comporta-se como um condutor que só andasse ora pela berma esquerda ora pela berma direita, com o carro em zigue-zagues bruscos, nunca conseguindo assentar sossegado com os pneus no raio do alcatrão. O resultado de anos desta condução inebriada são os alunos que apanho no quinto ano do Técnico, à beira do mercado de trabalho, que “axam que puderiam usar uma equacão para calcular a inflaxão”. Já hoje uma larga maioria, infelizmente.

Mas desensinar é fácil, já sabemos. E ensinar? Ensinar a gostar de ler?

O sistema que apanhei no Liceu Francês parece-me a este propósito ter algumas virtudes, desde já com perdão pela pinta “no meu tempo é que era” desta reflexão.

Para começar, esse sistema mete livros. Do primeiro ao último ano do liceu, em cada Outubro, quase uma dezena. Sai-se no final da escolaridade com uma meia centena de títulos, o que acaba por constituir um razoável princípio de uma biblioteca pessoal. A escolha varia ao longo do tempo, mas mistura clássicos, literatura mais ligeira, teatro, poesia, originais e traduções. Fui ver a estante do meu mais novo, que está a meio percurso. Tem lá Molière, Voltaire, Balzac e Flaubert, mas também Pagnol. E tem Orwell, Golding e Primo Levi. E Esopo e a Odisseia e contos da mitologia grega. E teatro de Anouilh e poesia moderna. Para equilibrar, Agatha Christie, o Petit Nicolas de Sempé e Goscinny ou o Diário de Adrian Mole.

No quarto do mais velho, que já acabou, há uma prateleira inteira. Para além de alguns dos anteriores encontro entre outros Montaigne e Ronsard, Maupassant e Baudelaire, Le Clézio e Camus, Sófocles, Shakespeare e Puchkine, Racine e Ionesco, Sepúlveda e o planeta dos macacos. E até a Bíblia dada enquanto obra literária.

A isto chama-se diversidade e parece-me ser a lição número um. A literatura é uma janela aberta para um mundo variado e variável. Claro que numa cadeira de literatura francesa há que dar os grandes nomes, que construiram e dão brilho à língua deles. De igual modo, em Português deve-se ler uma boa selecção entre Eça, Camilo, Camões, Sá de Miranda, Pessoa, Herculano, Torga, Cardoso Pires, Nemésio, Miguéis ou Saramago ou Lobo Antunes, e com liberalidade. Mas há espaço para muito mais. Porque não boas traduções de boas obras estrangeiras ou escrita nacional mais contemporânea ou mais ligeira? Mais vale um Hamlet em português ou um romance do Rodrigues dos Santos do que qualquer “texto dos media” ou o que é que essa treta seja.

Depois, estes livros devem-se ler integralmente. Esta será a lição número dois. Claro que nem todos os alunos o fazem e claro que na sala de aula a análise tem que se focar em passagens seleccionadas. Mas os livros são como os paus, têm duas pontas, um princípio e um fim e o resto que está no meio. Um excerto pode quanto muito funcionar como um “teaser”, mas não dá a medida da grandeza de uma obra nem permite o sentimento de preenchimento e partilha que podemos ter quando viramos a última página de um bom livro. Seria como esperar que o “trailer” de um grande filme nos fizesse pensar, rir ou chorar do mesmo modo que as duas horas de visionamento em frente ao ecrã. Só aprendemos a gostar de ler lendo, e não brincando ao “toca e foge” com os livros.

E, finalmente, a terceira lição.

Tive no último ano do liceu um professor de francês que me ensinou como se lia um livro ou um poema: fazendo uso da nossa liberdade. Com ele descobri que uma obra não é uma, são milhares ou milhões. Há a que o autor escreveu e há todas aquelas que os leitores lêem e todas são igualmente verdadeiras e importantes. Com ele aprendi a ler com os meus olhos, com a minha cabeça e com os meus sentimentos. Era um homem calmo, reservado, com um ar quase severo na primeira abordagem, sempre de fato escuro numa escola que primava pela informalidade. Não me lembro de o ver a rir, apenas de sorrir contidamente diante de uma situação cómica. Perguntava-me, preparando-nos para o exame oral final, sobre uma palavra que um poeta usara num verso:

- Porque pensas que o autor escolheu exactamente esta palavra e não outra?
- ...
- Dá a tua opinião.
- Talvez porque “isto”.

- Então se achas “isto”, no dia da oral, di-lo.

- E se o examinador não concordar?
- Se o examinador não concordar diz-lhe que fui eu que te o ensinei.

E não é que ensinara mesmo? Ensinara-me que não somos meros receptáculos de uma narrativa, leitores inertes numa relação de um só sentido. Somos agentes, pares do autor, responsáveis com ele pela construção da obra lida. Por exemplo, Thomas Mann dizia que descrevera no seu “Os Buddenbrook” a decadência de uma família. Ora quando eu o li, esse aspecto pareceu-me meramente instrumental. Achei-o um grande livro sobre a riqueza, a diversidade e a fragilidade da vida. Não há azar, o livro que ele escreveu e aquele que eu li simplesmente não são o mesmo: entes próximos, ligeiramente diferentes e igualmente respeitáveis. Ler é um exercício de homens e mulheres livres. Por isso as ditaduras sempre proibiram e queimaram livros. Até a semelhança fonética das palavras “livro” e “livre” , uma feliz coincidência, reforça essa identidade.

Para ensinar o gosto pela literatura precisaremos sempre de professores capazes e alunos disponíveis, como em qualquer matéria. Se a esses ingredientes juntarmos, para horror da malta do ministério, alguns livros, lidos de fio a pavio e com espírito de liberdade, a aprendizagem pode ocorrer. Mesmo que no fim ignoremos o significado de “metátese” ou “zeugma”.

segunda-feira, junho 13, 2011

Pub. (Mataspeak em momento de publicidade pouco encapotada)

Como já aqui contado, em Junho de 2008 o meu pai fixou residência na sua terra natal, Vila Nova da Barquinha. Desde então tornei-me barquinhense de ocasião, deleitando-me com a vista do Tejo junto ao Cais Pombeiro, passeando pelos caminhos geométricos do Barquinha Parque ou pela pacatez das ruas desertas ao pino do sol, assinando o jornal Novo Almourol, deliciando-me na Tasquinha da Adélia com um bife com batatas fritas que não foram compradas na Makro, com o sabor pensava eu perdido que as nossas avós lhe sabiam dar, emocionando-me enfim à porta da sede do Sporting Clube Barquinhense, instituição decana de que meu avô foi sócio fundador como atesta um diploma que, encaixilhado a verde, está pendurado no escritório onde escrevo estas linhas.

Para mais, lá vou sabendo histórias das minhas raízes, sobretudo quando tenho a sorte de coincidir com os mais velhos. Numa terra de apenas 1400 habitantes, já terei ouvido em breve esse mesmo número de memórias contadas ora com saudade ora com riso.

Pois neste fim-de-semana, no dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e de tudo o mais, inaugurou-se no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha a exposição DaNação, da autoria do meu tio Luís da Mata, filho da terra, em que este usou como mote a bandeira nacional para uma sequência plástica, de pintura e instalação, que propõe uma reflexão sobre o caminho trilhado – sobretudo nos tempos mais recentes – pelo nosso país.

Vem a propósito esta exposição, porque passam no próximo dia 19 exactamente cem anos sobre a aprovação do actual modelo de bandeira pelo decreto 141 da Assembleia Nacional Constituinte, selecionada que foi, após concurso de ideias, por uma comissão a que pertenciam Columbano Bordalo Pinheiro, João Pinheiro Chagas e Abel Botelho.

Vem mais a propósito ainda porque a nação do símbolo passa por momentos de aperto que o símbolo da nação não deixaria suspeitar, com o seu verde “de esperança” e o seu vermelho, “cor combativa, quente, viril, por excelência (...) cor da conquista e do riso (...) cor cantante, ardente, alegre (...)”, nas palavras da comissão que a escolheu.

Não tenho a certeza de que a minha leitura do percurso exposto seja exactamente igual aquela que o autor tinha em mente quando produziu a obra. Conhecendo-nos a ambos, admito que não. Fica esta matéria para próxima conversa entre os dois.

Mas digo-vos e assim termino: vão, que vale a viagem e não só por orgulho de sobrinho. É uma visão inovadora, disruptiva e esteticamente apelativa sobre o nosso colectivo. Olhem, admirem, interroguem-se e pensem. E desfrutem, claro está.


quinta-feira, junho 09, 2011

A noite eleitoral vista do meu sofá

Duas da tarde

A noite eleitoral começa cedo nas têvês. Os telejornais vão repassando a xaropada usual, com o mesmo rigor metódico com que os pilotos aviadores percorrem (espero eu) o “check list” antes da partida.

Temos por isso:

a) O exemplar civismo com que o acto eleitoral está a decorrer

Contra todas as expectativas não há barricadas e forcas nas ruas de Portugal e o sangue não corre nas valetas.

b) O voto dos candidatos

O candidato votou antes do meio-dia na escola secundária cê mais esse D. Fuas Roupinho. Chegou acompanhado da mulher e esperou pela sua vez para exercer o seu dever cívico. Cumprimentou os membros da mesa. À saída, declarou que esperava que o acto eleitoral decorresse com normalidade e que a afluência às urnas fosse elevada. Entrou num café onde bebeu uma bica em frente às câmaras.

Ainda um dia hei-de dar o meu voto ao candidato que vá votar pela seis e meia da tarde, chegue acompanhado de uma gaja que conheceu na noite anterior, motivo desse voto tardio, passe à frente da fila porque está com pressa, mande bugiar os membros da mesa e declare que até podia andar tudo à porrada que para ele era o mesmo e que quanto menos forem às urnas menos papel se gasta. Finalmente, que entre no café onde os outros candidatos beberam as bicas e avie duas imperiais perante o “zoom” arregalado das câmaras.

Talvez quando o Vieira conseguir as assinaturas.

c) Os boicotes ao acto

Há sempre dois ou três cus-de-mundo em que dois ou três caciques locais conseguem um boicote fechando a corrente e cadeado, corajosamente pela calada da noite, o local onde a votação iria decorrer. Afirmam depois aos microfones sôfregos das cadeias televisivas que a população de A-dos-Caracóis está farta de não ter lá uma estação de lançamento de foguetões interplanetários ou outra infraestrutura igualmente fundamental. Os senhores jornalistas tomam a devida nota e esquecem-se sempre de perguntar porque é que se a população está assim tão unânime foi preciso trancar as portas.

Desta vez houve porém alguma originalidade. Num lugarejo obscuro largaram abelhas na sala das mesas de voto, o que permitiu ao presidente da junta confirmar o boicote, não fosse alguém ser picado e morrer com uma reacção alérgica. Noutro ermo qualquer, puseram cola nas fechaduras e uma esmerada selecção das mulheres mais feias de Portugal aos gritos em frente às portas, de permanentes ralas e brincos de minhota, cenário dantesco que desmotivou a GNR de agir com proporção na reposição da legalidade democrática.


Sete da tarde

No continente, porque nos Açores os micaelenses, as corvinas e os picarotos ainda enfiam nas urnas de voto, impedindo a divulgação no “cuuntiineente” de sondagens à boca das mesmas.

À falta de melhor tema, as televisões divulgam a previsão de 40% de abstenção, com mais ou menos casas decimais.

Procuram-se causas racionais. O afastamento dos jovens da política. O afastamento dos idosos da política. O afastamento da malta na força da idade, da política.

Se os vivos se afastam, já os mortos não arredam pé. Os cadernos eleitorais caminham para o milhão de eleitores-fantasma. Mesmo assim não é mau: li hoje que nove mil mortos na Grécia ainda estão a receber a reforma. Cá, pelo menos, os defuntos limitam-se a abster-se.

Na realidade a explicação é mais simples. Na Atenas clássica, a condição de cidadão implicava direitos (como o voto) e deveres (como o voto). Aos cidadãos que não se envolviam na política, os atenienses chamavam-lhes “idiotes”, termo grego que significava “indivíduo” ou “pessoa privada”, mas com um cunho pejorativo. Daí derivou a nossa palavra “idiota”.

Havendo 9,6 milhões de eleitores, os 40% que se abstiveram representam 3,8 milhões. Subtraiam-se os 0,7 milhões de mortos e sobram 3,1 milhões de idiotas. Para o que a gente vê por aí, até diríamos que deviam ser mais.


Oito horas e treze milésimos de segundo da tarde

Pedro Passos Coelho novo primeiro-ministro.

Assim não dá gosto. Quando eu era garoto, a noite eleitoral durava eternidades de incerteza e adrenalina, até altas horas da madrugada. Começavam a existir uns prognósticos lá para as dez, mas certezas só depois da meia-noite, senão mesmo na manhã seguinte.

Hoje no primeiro segundo fica-se a saber tudo, passados quinze minutos já estão contadas metade das freguesias, uma hora depois já se demitiram os derrotados e às onze está tudo a arrumar o estaminé.

Assim mal acomparado, passámos de um prolongado gozo tântrico ao “ejaculatio praecox” dos Romanos, no que a noites de eleições se refere.


Oito e um minuto

A RTP vai mostrando os homens da luta Jel e Falâncio, duas das maiores concentrações de sebo da galáxia, a aproveitar o momento para se publicitar, com megafone, cartaz e bombo, em frente ao hotel que serve de “quartel-general” ao PSD, enviando os parabéns assim que vêem um microfone disponível. Cheira a casaca virada.

O drama de se tentar ser engraçado é que convém ter graça.


Oito e qualquer coisa

Vou “zapando” entre canais. Embora tenham cada qual uma dúzia de comentadores arrebanhados para os prognósticos de fim de jogo, alguns dos quais até interessaria ouvir, as televisões preferem permanentes directos com o Sana, o Altis, o Vitória ou o Largo do Caldas, onde vão perguntando a militantes de base se estão a curtir ou se o galo é grande, consoante a cor.

Com tantos meios, tantos repórteres, tantos quadros digitais, tanta trampa, é completamente impossível ficar informado. Um caso típico de rendimentos marginais decrescentes.


Oito e muito

Um dos canais avança a hipótese do PAN, Partido dos Animais e da Natureza, vir a eleger um deputado por Lisboa. Animais no hemiciclo. Não propriamente uma novidade.


Nove e pouco

O primeiro-ministro desce para o discurso de derrota, cercado por uma camada de seguranças, por sua vez envolta numa capa de jornalistas de microfone em riste e câmaras erguidas em braços como se de halteres se tratassem. A mole ziguezagueia desordenadamente e acaba por arrebentar com uma porta de vidro, em directo. Sócrates sobe ao palanque, sacudindo os cacos de vidro da lapela do Armani.

Conforme os comentaristas haviam prognosticado meia hora antes, Sócrates demite-se, com um descurso de bom perdedor, diga-se.

Começa a caça ao candidato: as câmaras focam-se em Seguro, Assis e Costa, que afectam não ser nada com eles.

Confirma-se também o “vae victis”. Algumas das perguntas dos jornalistas, agora desempoeirados, assim o demonstram.


Não muito tempo depois

Ouço alguém entusiasmado falar de “inequívoca consolidação da expressão eleitoral”, “aumento da percentagem e número de deputados”, “sinal de inegável significado quanto a um mais alargado reconhecimento da acção, propostas e papel...”. Levanto a cabeça. Pelo tom ufano, podia ser o André Villas-Boas a falar do FCP, mas é apenas o Jerónimo de Sousa a rejubilar com a estrondosa vitória do PCP, com sensacionais 7,94% dos votos.

Nós, Sportinguistas, devíamos aprender com esta mentalidade. Festejaríamos convictos os quartos lugares invadindo o Marquês de Pombal, eufóricos.


Talvez pelas nove e meia

O melão da noite. Alongado e graúdo, verde por fora e sumarento por dentro, de talhada firme e semente solta. Saiu em brinde à esquerda Façonnable.

Louçã diz que os resultados significam um “recuo”. Sei que dada a etimologia da palavra “recuo”, talvez o Bloco a veja como mais politicamente correcta do que outras mais apropriadas para a ocasião, como sejam “coça”, “trepa” ou “cabazada”. Mas ainda assim: passaram em dois anos para metade dos votos e dos deputados. Isto não é um recuo, é uma viagem em marcha atrás de Lisboa a Bombaim.

Prevejo que o Bloco de Esquerda vai ser a partir de agora cada vez menos bloco e – se possível for – cada vez menos esquerda.


Ainda não passara meia hora da demissão do Sócrates

As televisões passam as emissões para o Altis porque António José Seguro vai fazer uma declaração. Os comentadores prevêem que ele vai declarar que não se candidata a líder do PS, com o piedoso raciocínio de que seria de muito mau gosto anunciar a candidatura praticamente em cima do cadáver fumegante do José. Mal sabem eles de que é capaz um homem que esteve à espera.

No Altis, abre-se a porta de um elevador e sai António José, demasiado seguro diante de quarenta microfones e vinte objectivas. Profere umas redondezas sobre a sua eventual candidatura, do género “não é o momento apropriado”, “estou disponível para dar o meu humilde contributo”, “não volto a cara ao meu partido e a Portugal”. Portugal, viram? Ganda pinta.

Resumindo: é candidato e a sua candidatura, tal como a pescada, antes de o ser já o foi.

Alguns jornalistas, daqueles para quem é preciso fazer um desenho, perguntam-lhe porque é que ele os convocou se não era para confirmar a candidatura. Seguro responde:

– Convocar, eu? Os senhores é que aqui estavam à minha espera.

Assim terminou em glória o momento sabujo da noite.


Não sei se antes se depois

Portas, um dos vencedores destas eleições, não escondia a tristeza no seu discurso de triunfo. Apesar de uma campanha em que ostentou mais de cem chapéus diferentes, só subiu 1,3%. Pouco para quem se queria tornar o mais pequeno dos grandes e continua apenas o maior dos pequenos. Apesar de tudo, com a chave do governo na mão.

Já dizia Pirro, rei do Épiro e da Macedónia, depois da difícil batalha de Ásculo: “Mais uma vitória destas e estou perdido.”


Já passava das dez

Passos Coelho sobe ao púlpito como novo primeiro-ministro de Portugal. Para gajo que acaba de ser contratado para um dos piores empregos do planeta nos próximos anos, parece contente. Discursa com fluência e preparação. Canta o hino nacional. Responde num inglês muito razoável a um jornalista estrangeiro. Neste aspecto, certamente, ficámos a ganhar.


Onze e tal

Os carros apitam na rua e agitam bandeiras laranjas. Afinal o PAN não elegeu nenhum deputado. Nos ecrans, os “pivots”, flutuando em cenários virtuais, vão repassando em tom cansado os números finais de Viseu e de Évora. Há algum clima de anti-clímax. Os comentadores de serviço cumprem serviço, largando as últimas tiradas. Desligo a televisão e vou enxotando os gatos para fora da sala.

Amanhã, continua a crise.

sexta-feira, maio 20, 2011

Exposição fotográfica (XXXIV)

Paris, mais da Páscoa 2011


Rue Mouffetard, Jardin des Plantes

Jardin du Luxembourg

Place du18 Juin, Montparnasse


Avenue Mozart, Auteuil

Place des Vosges

Passage des Postes, no Jardin des Plantes. Por aqui se escapou Olrik no "Caso do colar", de Blake e Mortimer

Jardin du Luxembourg

Bassin de la Villette


Jardin du Luxembourg

Tabuísmos


sexta-feira, maio 06, 2011

Exposição Fotográfica (XXXIII)


Paris, Páscoa 2011


Rua Louis Blanc


Canal de St. Martin

Manifestação contra Bashir Al-assad no Trocadéro


Grandes morangos na Rua Mouffetard


Café Poussin em Auteuil


Pombo no telhado da igreja de St. Médard, Jardin des Plantes


O cozinheiro e o velhote dos vasos, em Auteuil

segunda-feira, maio 02, 2011

O passeio a três

Chamou-se sucessivamente Monte do Bispo, Monte das Vinhas e Monte Luís. Teve muitos donos mas foi um remoto ocupante dessa sétima colina parisiense no século XVI, o padre La Chaise, confessor de Luís XIV, que acabou por impor o nome ao “Cemitière de l’Est”, aberto em 1804 no mês revolucionário de “Prairial”, nesse breve período em que os meses falaram de natureza e não de imperadores e deuses romanos.

Os novos cemitérios atendiam à época a uma preocupação de saúde pública, procurando afastar a defunta malta do centro da cidade. No entanto, a aderência da clientela começou por ser fraca. Os mortos achavam pouco fino ser enterrados num monte lá para os arrabaldes: em 1806 houve apenas cinco fregueses e em 1812 somavam os sepultados pouco mais de oitocentos, número escasso numa época em que se morria por tudo e também por nada.

Perante o elefante branco, a câmara de Paris levou avante em 1817 um genial golpe publicitário. Transladou para lá os restos mortais de Molière, La Fontaine, Héloisa – a medieva do amor cortês, não a apolinária dos verdes – e o seu amante Abelardo, que ficara sem eles de castigo por ter engravidado a até então donzela. A talhe de foice, a página em francês da “Wikipedia” garante-nos muito comicamente que Abelardo foi “castrado à força”. Pois sim, franceses néscios, calculamos que não tenha sido por acordo amigável.

A ideia municipal revelou-se um sucesso: em tão distinta companhia, os mortos sentiam-se mais à vontade e afluíram em grande número. Em 1830 atingiam os trinta e três mil, para chegar mais tarde aos setenta milhares que hoje jazem numa necrópole “coquette” e burguesa, que mistura o tétrico do campo de morte com a pompa dos “boulevards”, raiada por avenidas, caminhos retortos e rotundas. Com o número vieram os notáveis: Balzac, Wilde, Chopin, Montand, Proust, Piaf e, claro, Jim Morrisson. E por isso me encontrariam, no passado domingo de Páscoa, perdido por entre jazigos e campas rasas em demanda do túmulo do Rei Lagarto.

Tinha ido em passeio com a minha mãe e aproveitei uma manhã de sol em que vagueáramos a pé ao longo do canal de Saint Martin para visitar finalmente o famoso cemitério do Père Lachaise. Para a rapaziada da minha criação, este nome trazia fatalmente à memória Jim Morrisson e os Doors. Morrisson morrera em 1971 em Paris, provavelmente de “overdose”, e tornara-se o morador mais visitado do Père Lachaise, estatuto que ainda mantém passados quarenta anos, segundo ouvi a uma guia turística que arrastava entre sepulturas uma pequena multidão de turistas arrebanhados. De facto, “rock’n’roll never dies”!

O túmulo de James Douglas Morrisson é uma campa rasa e discreta, perdida no meio de jazigos novecentistas de granito roído pelo musgo e portas entreabertas pelo tempo que dão a ideia que os falecidos se ausentaram momentaneamente para umas dentadinhas nos pescoços parisienses. Como a guia previra, um magote de gente acotovelava-se no pouco espaço existente, fotografando e comentando em tom de férias. Uma árvore, escrevinhada até onde uma mão chegasse, mantinha o registo de quatro décadas de homenagens ao ídolo. Junto à lápide, algumas flores feneciam, acompanhadas de uma fotografia de uma banda de garagem provavelmente ali largada como uma promessa a um santo, pedindo inspiração e sucesso.

A minha mãe seguira-me pelo necrotério com a curiosidade de quem visita um monumento, embora, pelo sim e pelo não, levasse na mão uma pequena Bíblia que traz sempre na mala. Pessoa entendida nessas lides de fronteira entre o cá e o lá garantira-lhe uma vez que tal medida era prudente sempre que se visitasse um cemitério e ela preferiu não arriscar. Já tendo passado dos setenta, a minha mãe não vibrara com os Doors e ter-lhe-á parecido estranho o meu interesse naquela campa banal. Saquei por isso do “iPod” para lhe fazer ouvir a voz do homem que ali jazia.

Seleccionei o “Riders on the storm”. Quando, passados aqueles segundos iniciais em que uma linha de baixo e um rolar de bateria se confundem com a chuva que os cavaleiros atravessam, ouvi a voz de “crooner” de Morrisson, não pude deixar de me surpreender com a relatividade subtil da morte. Qual o Morrisson verdadeiro? O que jazia ali a metros, inerte, já não mais que meras moléculas redisseminadas no ciclo da vida envolvente, ou o fluxo de “bits” e electrões que declamava, nos meus ouvidos, a nossa estranha forma de vida, de “cavaleiros na tempestade atirados para este mundo como um cão sem osso ou um actor solitário”. E este último Morrisson, poderia estar morto? Pode um morto cantar a vida? Não estará vivo quem nos faz instantaneamente bater o pé ao som do “L.A. woman” ou sorrir de boa disposição quando canta “Love street”?

Não será que perpetuamos na vivência de nossas vidas o mais vivo das vidas dos que fisicamente já nos deixaram?

Fazendo-o, confirmamos Camões, que quando se refere nos Lusíadas à “lei da morte” está a falar do esquecimento, não do fim físico.

Tais pensamentos consolaram-me. Congeminara este passeio a Paris já há alguns anos. Imaginara-o como um momento especial com meu pai e minha mãe, um tempo dedicado e exclusivo, um obrigado por tudo. Mas a inércia prega-nos destas: veio a doença e a partida inesperada. De repente falhara o meu intento e já só estávamos dois para o passeio.

Assim julgava eu, mas mal: na realidade andou sempre ao nosso lado, nas memórias fugazes e nas mais perenes, em Auteuil, nos corredores cerâmicos do metropolitano, nos recantos das conversas, descendo a rua Moufetard e os seus estaminés garridos, nas alamedas senhoriais de Monceau, nos risos e nas lágrimas, admirando a manobra das comportas no canal de La Villette, na cor dos quadros de Van Dongen no Palais de Tokyo, nos silêncios, nos espelhos trabalhados do La Coupole em Montparnasse. Afinal, sempre viera.

sábado, abril 09, 2011

Cromos da minha caderneta (II) - A ramona

Em Março de 1975, com onze tenros aninhos, abordei timidamente o meu pai pedindo para ir a Cascais ver um concerto dos Genesis.


A vinda a Portugal dos Genesis no seu auge, meses depois do lançamento do fabuloso “The lamb lies down on Broadway”, passa sem protestos por uma de entre cinco manifestações de carácter divino a ocorrer em Portugal ao longo de oito séculos de história. As outras: o milagre de Ourique, as rosas no regaço de Santa Isabel, a aparição da Virgem aos pastorinhos na Cova da Iria e o sete-a-um ao Benfica no velho Alvalade, esta última a única que presenciei, em estado de êxtase e beatitude.


Em pleno PREC, uma banda de primeiro cartaz constituía novidade revolucionária. Diz quem viu que o concerto deslumbrou. Tudo no genésico grupo era superior nesses anos de ouro: o Peter Gabriel felizmente ainda cantava e o Phil Collins felizmente ainda não cantava, limitando-se a ser um excepcional baterista. Tony Banks, Steve Hackett e Michael Rutherford completavam um quinteto de eleição.


Isto sei eu hoje, porque na altura nem via bem quem eles eram. Apenas tinha ouvido uma música, o “Carpet crawlers”, que vinha num “single” aparecido desgarradamente no meio dos presentes de Natal. À época o que eu queria mesmo era ir a um concerto à noite, nem que fosse da banda dos bombeiros. Só que o meu pai riu à gargalhada da minha pretensão, de um modo tal que eu, conhecendo-o, percebi que não valia a pena insistir.


Depois deste desaire, passou uma olimpíada até eu voltar à carga com o tema. Em Março de 1979, com quinze anos já não tão tenrinhos, abordei menos timidamente o meu pai para lhe pedir para ir a Cascais ver um concerto do Rory Gallagher. Eu também não conhecia o Rory Gallagher, mas era estrangeiro e a malta toda tinha combinado ir porque sendo de fora devia ser bom. Desta vez o meu pai acedeu, com a condição de me ir pôr e buscar. Perante o meu protesto, usou como pretexto que lhe estava a apetecer dar uma volta pelo Estoril, vontade que lhe dava de quinze em quinze anos e por coincidência logo nessa noite.


Assim aconteceu. Fui deixado em frente ao Hotel Baía, onde seria o reencontro. Subi até ao pavilhão do Dramático onde me juntei aos meus amigos. Passámos alegremente, como se uma delícia fora, o suplício da longa fila, das grades colocadas à trouxe-mouxe, dos seguranças meio pedrados. O Dramático de Cascais foi durante esses anos a Meca do rock em Portugal, muito antes dos festivais de verão em arrabaldes poeirentos misturarem bandas londrinas com fado “world music” e dos concertos de estádio trazerem a peso de ouro mega-estrelas cheias de fama e artrite. Recinto de hóquei em patins, com uma acústica miserável, não arcaria mais de dez mil pessoas sem ameaçar ruir. Apesar disto, quando Gallaguer entrou em palco a esgalhar o “Shin kicker”, acompanhado da sua Fender, de Gerry McAvoy e de Ted McKenna, soou-me a música celestial e fiquei amigo dele e do seu “rhytm and blues” irlandês até hoje.


No regresso, os velhotes esperavam-me dentro do carro. Eu oferecera boleia de volta a uns colegas de escola e perguntei ao meu pai se não se importava. Ele disse que sim sem ter o cuidado de os contar e de repente a carrinha Fiat Mirafiori estava apinhada com oito pessoas, três a frente e cinco atrás. Assim arrancámos, que nem o expresso de Bombaim, e o meu pai meteu-se por uma ruazinha estreita que subia da baía até ao local do concerto. Apanhou com dez mil pessoas a descer em sentido contrário, em estados variáveis de alienação. Durante minutos que pareceram infindáveis o carro ficou imobilizado, cercado por uma massa humana fluindo pastosamente, roçando portas e vidros, proferindo bocas jocosas, soltando palavrões e mandando umas murraças ocasionais nos vidros e no tejadilho. O momento alto da cena ocorreu quando uma amiga da malta, reconhecendo-nos no interior da viatura, subiu pelo “capot” e, espalmada contra o pára-brisas, ficou a acenar freneticamente, mandando beijinhos e abraços, perante o olhar esgazeado da minha progenitura. A turba acabou por escoar, libertando a via, e seguimos para Lisboa em silêncio. Chegados a casa, o meu pai comentou que à próxima talvez fosse melhor eu ir de comboio. Bingo!


Foi portanto de comboio e autocarro que durante os dois anos seguintes me desloquei ao Dramático de Cascais ou ao pavilhão do Belenenses para assistir à primeira grande vaga de concertos “rock” que houve em Portugal, muito à base da variedade de oferta da “new wave”: Stranglers, Clash, Ian Dury, Lene Lovich, Ramones, Dr. Feelgood, Police, Elvis Costello, Joe Jackson, mas também Supertramp, Peter Gabriel e as paredes de sintetizadores dos Tangerine Dream.



Cada espectáculo tinha uma banda de suporte, ou própria que fazia toda a “tournée” com os cabeças-de-cartaz (vi os Simples Minds antes de se tornarem conhecidos com a merda do “Don’t you forget about me”, xaropada infame que infelizmente ainda não consegui varrer da memória), ou nacional contratada para o momento (assisti aos Xutos e Pontapés ainda sem papada, aos Delfins, Arte e Ofício, UHF). Toda a gente tinha muito pouca paciência para estas bandas de entrada, considerando que ao pagar trezentos escudos pelo bilhete ganhara o direito a não ter que as aturar. As manifestações de desagrado resumiam-se geralmente a trinta minutos de apupo contínuo, mas podiam ser mais espectaculares. No concerto dos Clash, os UHF fizeram a primeira parte. Eu estava na bancada lateral e de repente vejo um risco vermelho sair da plateia e explodir em estilhaços na testa do José Manuel Ribeiro, que com pose suposta de roqueiro se entretinha a cantarolar pr’aí o “Rua do Carmo” para bocejo da assistência. Uma tomatada podre arremessada a mais de trinta metros, linda, com uma precisão fabulosa, só suplantada mais de trinta anos depois pelo lançamento da miniatura do “Duomo” que partiu os dentes ao Berlusconi.


E dos artistas principais, que lembrar? Escolho o concerto dos Ramones, que assisti na primeira fila da plateia. Eu levara comigo o meu irmão, na altura com doze anos, e em casa fora fortemente recomendado para nunca o perder de vista. Assim que cheguei ao pavilhão encontrei duas amigas que iam para a bancada e consegui que elas tomassem conta do rapaz – recomendando que não o perdessem de vista – e fui lá para baixo, esgueirando-me até me ver no centro da primeira fila, esmagado contra as grades pela pressão de milhares atrás de mim.


Fora o H que no ano anterior me dera a conhecer os Ramones. Vindo de França, o H notabilizara-se na escola por usar uns óculos escuros que lembravam os de um soldador e por vestir como aquela banda peculiar, cuja grandeza publicitava pelos recreios, e que muitos imediatamente caracterizaram como “punk”. O H inconformava-se, quase ofendido: “Não é “punk”, é “rock’n’roll”, ouviram? Rooock’n’roooooll!”.


Fosse o que fosse, o som turbinado de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone tornou-se indispensável nas tardes de rádio e nas noites de festa, onde o “It’s alive” podia tocar trinta minutos seguidos sem que ninguém saísse da pista. Todos sabíamos que a música era primária, dois minutos com três ou quatro acordes repetidos e uma batida sempre igual e letras básicas de meia dúzia de versos de pé-quebrado. Mas todos gostávamos daquela velocidade em estado puro.


Escolho os Ramones, que vos deixo agora de seguida num concerto de Ano Novo em Londres, muito parecido com o que eu presenciei no Dramático. Escolho os Ramones porque me lembram a rapidez com que, visto à distância, me parece que aqueles anos passaram, para não mais voltar.


Gabba gabba hey!