sábado, setembro 03, 2011
Férias (III) - O desvio
Férias (II) - London not calling
terça-feira, agosto 23, 2011
Férias (I) - Per doar
sábado, julho 30, 2011
Amor e ferrovia
domingo, julho 24, 2011
Os do “Maracanazo”
terça-feira, julho 12, 2011
Ocean's fourteen
Devo dizer que não fiquei particularmente surpreendido com o gesto da Moody’s. Já há tempos que venho comentando entre amigos e colegas que existe um padrão de comportamento das agências de “rating”que é peculiar (desigualdade no tratamento de realidades iguais, descida bruscas de vários níveis procurando a espectacularidade, “timings” que não podem ser coincidência, no nosso caso sistematicante mesmo antes de uma emissão de dívida pública). Qualquer explicação para esse padrão não consegue ser muito abonatória. Existem quatro possibilidades, por ordem crescente de maquiavelismo: pura incompetência, limpeza da trampa que fizeram em 2008, conflito de interesses e cabala montada contra o euro.
sábado, junho 25, 2011
sexta-feira, junho 24, 2011
Aprender a ler
Mas já concordo com ele que pelos serviços do ministério anda gente em demasia a cerebrar sobre temas bizarros, como seja a melhor maneira de ensinar a crianças de treze ou catorze anos a reconhecer nos Lusíadas metalepses e metáteses. Ora as metáteses estão para o desenvolvimento do gosto pela literatura como as metástases estão para a promoção da nossa saúde. Não me parece que tão erudito exercício induza nas mentes tenras o amor pela leitura. Será como querer promover o gosto pela culinária com cursos teóricos de química orgânica avançada.
(Aparte antes de prosseguir: para os que estão neste momentos extasiados com a minha sapiência, informo que há truque. Eu não sabia de cor, nem de outra forma qualquer, o significado de metalepse ou metátese. Fui ver a um dicionário de figuras de estilo que consta de uma edição dos Lusíadas que há cá por casa. Tem lá termos espectacularmente ininteligíveis, óptimos para tentar levar à loucura os adversários num jogo de “Pictionary”. Por exemplo, sabem o que é uma hendiádis ou um - ou será uma? - paragoge? E um polissíndeto ou uma tmese? Não? Bando de analfabetos! Mas um zeugma devem saber... Também não? Como é que conseguem ler um livro nessa vil escuridão?)
Quanda não está entretida a complicar, a mesma ministerial gente, apiedada perante as dificuldades daqueles que paternalisticamente vê como menos capazes, cai no outro extremo e facilita. Por exemplo, o programa de 10º ano de Português preocupa-se com que jovens de quinze anos saibam “reconhecer diversos tipos de texto” como sejam “textos informativos diversos e os seguintes dos domínios transaccional e educativo: artigos científicos e técnicos; verbetes de dicionários e enciclopédias; declaração; requerimento; contrato; relatório”. Ou então “textos dos media”, que podem ser até radiofónicos. E não aponta nenhuma leitura integral de um livro como obrigatória (só no 11º aparecem o Frei Luís de Sousa e um Eça à escolha, que por algum azar até pode calhar ser “O mandarim”).
Ora eu com essa saudosa idade andava no Liceu Francês a levar antiquadamente com Racine e Zola na tromba, para ler na íntegra, e nunca tive assim a oportunidade fresca de analisar verbetes de dicionários para os poder reconhecer quando os visse. Por razão misteriosa, apesar de não ter beneficiado do modernaço programa do 10º em língua pátria, consigo preencher um requerimento, utilizar um dicionário e até ouvir as notícias na TSF sem me baralhar todo e ficar a pensar que o entendimento a que chegaram Portas e Passos Coelho é sentimental e não político. Devo ser um autodidacta.
Quem arquitecta estes programas comporta-se como um condutor que só andasse ora pela berma esquerda ora pela berma direita, com o carro em zigue-zagues bruscos, nunca conseguindo assentar sossegado com os pneus no raio do alcatrão. O resultado de anos desta condução inebriada são os alunos que apanho no quinto ano do Técnico, à beira do mercado de trabalho, que “axam que puderiam usar uma equacão para calcular a inflaxão”. Já hoje uma larga maioria, infelizmente.
Mas desensinar é fácil, já sabemos. E ensinar? Ensinar a gostar de ler?
O sistema que apanhei no Liceu Francês parece-me a este propósito ter algumas virtudes, desde já com perdão pela pinta “no meu tempo é que era” desta reflexão.
Para começar, esse sistema mete livros. Do primeiro ao último ano do liceu, em cada Outubro, quase uma dezena. Sai-se no final da escolaridade com uma meia centena de títulos, o que acaba por constituir um razoável princípio de uma biblioteca pessoal. A escolha varia ao longo do tempo, mas mistura clássicos, literatura mais ligeira, teatro, poesia, originais e traduções. Fui ver a estante do meu mais novo, que está a meio percurso. Tem lá Molière, Voltaire, Balzac e Flaubert, mas também Pagnol. E tem Orwell, Golding e Primo Levi. E Esopo e a Odisseia e contos da mitologia grega. E teatro de Anouilh e poesia moderna. Para equilibrar, Agatha Christie, o Petit Nicolas de Sempé e Goscinny ou o Diário de Adrian Mole.
No quarto do mais velho, que já acabou, há uma prateleira inteira. Para além de alguns dos anteriores encontro entre outros Montaigne e Ronsard, Maupassant e Baudelaire, Le Clézio e Camus, Sófocles, Shakespeare e Puchkine, Racine e Ionesco, Sepúlveda e o planeta dos macacos. E até a Bíblia dada enquanto obra literária.
A isto chama-se diversidade e parece-me ser a lição número um. A literatura é uma janela aberta para um mundo variado e variável. Claro que numa cadeira de literatura francesa há que dar os grandes nomes, que construiram e dão brilho à língua deles. De igual modo, em Português deve-se ler uma boa selecção entre Eça, Camilo, Camões, Sá de Miranda, Pessoa, Herculano, Torga, Cardoso Pires, Nemésio, Miguéis ou Saramago ou Lobo Antunes, e com liberalidade. Mas há espaço para muito mais. Porque não boas traduções de boas obras estrangeiras ou escrita nacional mais contemporânea ou mais ligeira? Mais vale um Hamlet em português ou um romance do Rodrigues dos Santos do que qualquer “texto dos media” ou o que é que essa treta seja.
Depois, estes livros devem-se ler integralmente. Esta será a lição número dois. Claro que nem todos os alunos o fazem e claro que na sala de aula a análise tem que se focar em passagens seleccionadas. Mas os livros são como os paus, têm duas pontas, um princípio e um fim e o resto que está no meio. Um excerto pode quanto muito funcionar como um “teaser”, mas não dá a medida da grandeza de uma obra nem permite o sentimento de preenchimento e partilha que podemos ter quando viramos a última página de um bom livro. Seria como esperar que o “trailer” de um grande filme nos fizesse pensar, rir ou chorar do mesmo modo que as duas horas de visionamento em frente ao ecrã. Só aprendemos a gostar de ler lendo, e não brincando ao “toca e foge” com os livros.
E, finalmente, a terceira lição.
Tive no último ano do liceu um professor de francês que me ensinou como se lia um livro ou um poema: fazendo uso da nossa liberdade. Com ele descobri que uma obra não é uma, são milhares ou milhões. Há a que o autor escreveu e há todas aquelas que os leitores lêem e todas são igualmente verdadeiras e importantes. Com ele aprendi a ler com os meus olhos, com a minha cabeça e com os meus sentimentos. Era um homem calmo, reservado, com um ar quase severo na primeira abordagem, sempre de fato escuro numa escola que primava pela informalidade. Não me lembro de o ver a rir, apenas de sorrir contidamente diante de uma situação cómica. Perguntava-me, preparando-nos para o exame oral final, sobre uma palavra que um poeta usara num verso:
- Porque pensas que o autor escolheu exactamente esta palavra e não outra?
- ...
- Dá a tua opinião.
- Talvez porque “isto”.
- Então se achas “isto”, no dia da oral, di-lo.
- E se o examinador não concordar?
- Se o examinador não concordar diz-lhe que fui eu que te o ensinei.
E não é que ensinara mesmo? Ensinara-me que não somos meros receptáculos de uma narrativa, leitores inertes numa relação de um só sentido. Somos agentes, pares do autor, responsáveis com ele pela construção da obra lida. Por exemplo, Thomas Mann dizia que descrevera no seu “Os Buddenbrook” a decadência de uma família. Ora quando eu o li, esse aspecto pareceu-me meramente instrumental. Achei-o um grande livro sobre a riqueza, a diversidade e a fragilidade da vida. Não há azar, o livro que ele escreveu e aquele que eu li simplesmente não são o mesmo: entes próximos, ligeiramente diferentes e igualmente respeitáveis. Ler é um exercício de homens e mulheres livres. Por isso as ditaduras sempre proibiram e queimaram livros. Até a semelhança fonética das palavras “livro” e “livre” , uma feliz coincidência, reforça essa identidade.
Para ensinar o gosto pela literatura precisaremos sempre de professores capazes e alunos disponíveis, como em qualquer matéria. Se a esses ingredientes juntarmos, para horror da malta do ministério, alguns livros, lidos de fio a pavio e com espírito de liberdade, a aprendizagem pode ocorrer. Mesmo que no fim ignoremos o significado de “metátese” ou “zeugma”.
segunda-feira, junho 13, 2011
Pub. (Mataspeak em momento de publicidade pouco encapotada)
Para mais, lá vou sabendo histórias das minhas raízes, sobretudo quando tenho a sorte de coincidir com os mais velhos. Numa terra de apenas 1400 habitantes, já terei ouvido em breve esse mesmo número de memórias contadas ora com saudade ora com riso.
Pois neste fim-de-semana, no dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e de tudo o mais, inaugurou-se no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha a exposição DaNação, da autoria do meu tio Luís da Mata, filho da terra, em que este usou como mote a bandeira nacional para uma sequência plástica, de pintura e instalação, que propõe uma reflexão sobre o caminho trilhado – sobretudo nos tempos mais recentes – pelo nosso país.
Vem a propósito esta exposição, porque passam no próximo dia 19 exactamente cem anos sobre a aprovação do actual modelo de bandeira pelo decreto 141 da Assembleia Nacional Constituinte, selecionada que foi, após concurso de ideias, por uma comissão a que pertenciam Columbano Bordalo Pinheiro, João Pinheiro Chagas e Abel Botelho.
Vem mais a propósito ainda porque a nação do símbolo passa por momentos de aperto que o símbolo da nação não deixaria suspeitar, com o seu verde “de esperança” e o seu vermelho, “cor combativa, quente, viril, por excelência (...) cor da conquista e do riso (...) cor cantante, ardente, alegre (...)”, nas palavras da comissão que a escolheu.
Não tenho a certeza de que a minha leitura do percurso exposto seja exactamente igual aquela que o autor tinha em mente quando produziu a obra. Conhecendo-nos a ambos, admito que não. Fica esta matéria para próxima conversa entre os dois.
Mas digo-vos e assim termino: vão, que vale a viagem e não só por orgulho de sobrinho. É uma visão inovadora, disruptiva e esteticamente apelativa sobre o nosso colectivo. Olhem, admirem, interroguem-se e pensem. E desfrutem, claro está.
quinta-feira, junho 09, 2011
A noite eleitoral vista do meu sofá
A noite eleitoral começa cedo nas têvês. Os telejornais vão repassando a xaropada usual, com o mesmo rigor metódico com que os pilotos aviadores percorrem (espero eu) o “check list” antes da partida.
Temos por isso:
a) O exemplar civismo com que o acto eleitoral está a decorrer
Contra todas as expectativas não há barricadas e forcas nas ruas de Portugal e o sangue não corre nas valetas.
b) O voto dos candidatos
O candidato votou antes do meio-dia na escola secundária cê mais esse D. Fuas Roupinho. Chegou acompanhado da mulher e esperou pela sua vez para exercer o seu dever cívico. Cumprimentou os membros da mesa. À saída, declarou que esperava que o acto eleitoral decorresse com normalidade e que a afluência às urnas fosse elevada. Entrou num café onde bebeu uma bica em frente às câmaras.
Ainda um dia hei-de dar o meu voto ao candidato que vá votar pela seis e meia da tarde, chegue acompanhado de uma gaja que conheceu na noite anterior, motivo desse voto tardio, passe à frente da fila porque está com pressa, mande bugiar os membros da mesa e declare que até podia andar tudo à porrada que para ele era o mesmo e que quanto menos forem às urnas menos papel se gasta. Finalmente, que entre no café onde os outros candidatos beberam as bicas e avie duas imperiais perante o “zoom” arregalado das câmaras.
Talvez quando o Vieira conseguir as assinaturas.
c) Os boicotes ao acto
Há sempre dois ou três cus-de-mundo em que dois ou três caciques locais conseguem um boicote fechando a corrente e cadeado, corajosamente pela calada da noite, o local onde a votação iria decorrer. Afirmam depois aos microfones sôfregos das cadeias televisivas que a população de A-dos-Caracóis está farta de não ter lá uma estação de lançamento de foguetões interplanetários ou outra infraestrutura igualmente fundamental. Os senhores jornalistas tomam a devida nota e esquecem-se sempre de perguntar porque é que se a população está assim tão unânime foi preciso trancar as portas.
Desta vez houve porém alguma originalidade. Num lugarejo obscuro largaram abelhas na sala das mesas de voto, o que permitiu ao presidente da junta confirmar o boicote, não fosse alguém ser picado e morrer com uma reacção alérgica. Noutro ermo qualquer, puseram cola nas fechaduras e uma esmerada selecção das mulheres mais feias de Portugal aos gritos em frente às portas, de permanentes ralas e brincos de minhota, cenário dantesco que desmotivou a GNR de agir com proporção na reposição da legalidade democrática.
Sete da tarde
No continente, porque nos Açores os micaelenses, as corvinas e os picarotos ainda enfiam nas urnas de voto, impedindo a divulgação no “cuuntiineente” de sondagens à boca das mesmas.
À falta de melhor tema, as televisões divulgam a previsão de 40% de abstenção, com mais ou menos casas decimais.
Procuram-se causas racionais. O afastamento dos jovens da política. O afastamento dos idosos da política. O afastamento da malta na força da idade, da política.
Se os vivos se afastam, já os mortos não arredam pé. Os cadernos eleitorais caminham para o milhão de eleitores-fantasma. Mesmo assim não é mau: li hoje que nove mil mortos na Grécia ainda estão a receber a reforma. Cá, pelo menos, os defuntos limitam-se a abster-se.
Na realidade a explicação é mais simples. Na Atenas clássica, a condição de cidadão implicava direitos (como o voto) e deveres (como o voto). Aos cidadãos que não se envolviam na política, os atenienses chamavam-lhes “idiotes”, termo grego que significava “indivíduo” ou “pessoa privada”, mas com um cunho pejorativo. Daí derivou a nossa palavra “idiota”.
Havendo 9,6 milhões de eleitores, os 40% que se abstiveram representam 3,8 milhões. Subtraiam-se os 0,7 milhões de mortos e sobram 3,1 milhões de idiotas. Para o que a gente vê por aí, até diríamos que deviam ser mais.
Oito horas e treze milésimos de segundo da tarde
Pedro Passos Coelho novo primeiro-ministro.
Assim não dá gosto. Quando eu era garoto, a noite eleitoral durava eternidades de incerteza e adrenalina, até altas horas da madrugada. Começavam a existir uns prognósticos lá para as dez, mas certezas só depois da meia-noite, senão mesmo na manhã seguinte.
Hoje no primeiro segundo fica-se a saber tudo, passados quinze minutos já estão contadas metade das freguesias, uma hora depois já se demitiram os derrotados e às onze está tudo a arrumar o estaminé.
Assim mal acomparado, passámos de um prolongado gozo tântrico ao “ejaculatio praecox” dos Romanos, no que a noites de eleições se refere.
Oito e um minuto
A RTP vai mostrando os homens da luta Jel e Falâncio, duas das maiores concentrações de sebo da galáxia, a aproveitar o momento para se publicitar, com megafone, cartaz e bombo, em frente ao hotel que serve de “quartel-general” ao PSD, enviando os parabéns assim que vêem um microfone disponível. Cheira a casaca virada.
O drama de se tentar ser engraçado é que convém ter graça.
Oito e qualquer coisa
Vou “zapando” entre canais. Embora tenham cada qual uma dúzia de comentadores arrebanhados para os prognósticos de fim de jogo, alguns dos quais até interessaria ouvir, as televisões preferem permanentes directos com o Sana, o Altis, o Vitória ou o Largo do Caldas, onde vão perguntando a militantes de base se estão a curtir ou se o galo é grande, consoante a cor.
Com tantos meios, tantos repórteres, tantos quadros digitais, tanta trampa, é completamente impossível ficar informado. Um caso típico de rendimentos marginais decrescentes.
Oito e muito
Um dos canais avança a hipótese do PAN, Partido dos Animais e da Natureza, vir a eleger um deputado por Lisboa. Animais no hemiciclo. Não propriamente uma novidade.
Nove e pouco
O primeiro-ministro desce para o discurso de derrota, cercado por uma camada de seguranças, por sua vez envolta numa capa de jornalistas de microfone em riste e câmaras erguidas em braços como se de halteres se tratassem. A mole ziguezagueia desordenadamente e acaba por arrebentar com uma porta de vidro, em directo. Sócrates sobe ao palanque, sacudindo os cacos de vidro da lapela do Armani.
Conforme os comentaristas haviam prognosticado meia hora antes, Sócrates demite-se, com um descurso de bom perdedor, diga-se.
Começa a caça ao candidato: as câmaras focam-se em Seguro, Assis e Costa, que afectam não ser nada com eles.
Confirma-se também o “vae victis”. Algumas das perguntas dos jornalistas, agora desempoeirados, assim o demonstram.
Não muito tempo depois
Ouço alguém entusiasmado falar de “inequívoca consolidação da expressão eleitoral”, “aumento da percentagem e número de deputados”, “sinal de inegável significado quanto a um mais alargado reconhecimento da acção, propostas e papel...”. Levanto a cabeça. Pelo tom ufano, podia ser o André Villas-Boas a falar do FCP, mas é apenas o Jerónimo de Sousa a rejubilar com a estrondosa vitória do PCP, com sensacionais 7,94% dos votos.
Nós, Sportinguistas, devíamos aprender com esta mentalidade. Festejaríamos convictos os quartos lugares invadindo o Marquês de Pombal, eufóricos.
Talvez pelas nove e meia
O melão da noite. Alongado e graúdo, verde por fora e sumarento por dentro, de talhada firme e semente solta. Saiu em brinde à esquerda Façonnable.
Louçã diz que os resultados significam um “recuo”. Sei que dada a etimologia da palavra “recuo”, talvez o Bloco a veja como mais politicamente correcta do que outras mais apropriadas para a ocasião, como sejam “coça”, “trepa” ou “cabazada”. Mas ainda assim: passaram em dois anos para metade dos votos e dos deputados. Isto não é um recuo, é uma viagem em marcha atrás de Lisboa a Bombaim.
Prevejo que o Bloco de Esquerda vai ser a partir de agora cada vez menos bloco e – se possível for – cada vez menos esquerda.
Ainda não passara meia hora da demissão do Sócrates
As televisões passam as emissões para o Altis porque António José Seguro vai fazer uma declaração. Os comentadores prevêem que ele vai declarar que não se candidata a líder do PS, com o piedoso raciocínio de que seria de muito mau gosto anunciar a candidatura praticamente em cima do cadáver fumegante do José. Mal sabem eles de que é capaz um homem que esteve à espera.
No Altis, abre-se a porta de um elevador e sai António José, demasiado seguro diante de quarenta microfones e vinte objectivas. Profere umas redondezas sobre a sua eventual candidatura, do género “não é o momento apropriado”, “estou disponível para dar o meu humilde contributo”, “não volto a cara ao meu partido e a Portugal”. Portugal, viram? Ganda pinta.
Resumindo: é candidato e a sua candidatura, tal como a pescada, antes de o ser já o foi.
Alguns jornalistas, daqueles para quem é preciso fazer um desenho, perguntam-lhe porque é que ele os convocou se não era para confirmar a candidatura. Seguro responde:
– Convocar, eu? Os senhores é que aqui estavam à minha espera.
Assim terminou em glória o momento sabujo da noite.
Não sei se antes se depois
Portas, um dos vencedores destas eleições, não escondia a tristeza no seu discurso de triunfo. Apesar de uma campanha em que ostentou mais de cem chapéus diferentes, só subiu 1,3%. Pouco para quem se queria tornar o mais pequeno dos grandes e continua apenas o maior dos pequenos. Apesar de tudo, com a chave do governo na mão.
Já dizia Pirro, rei do Épiro e da Macedónia, depois da difícil batalha de Ásculo: “Mais uma vitória destas e estou perdido.”
Já passava das dez
Passos Coelho sobe ao púlpito como novo primeiro-ministro de Portugal. Para gajo que acaba de ser contratado para um dos piores empregos do planeta nos próximos anos, parece contente. Discursa com fluência e preparação. Canta o hino nacional. Responde num inglês muito razoável a um jornalista estrangeiro. Neste aspecto, certamente, ficámos a ganhar.
Onze e tal
Os carros apitam na rua e agitam bandeiras laranjas. Afinal o PAN não elegeu nenhum deputado. Nos ecrans, os “pivots”, flutuando em cenários virtuais, vão repassando em tom cansado os números finais de Viseu e de Évora. Há algum clima de anti-clímax. Os comentadores de serviço cumprem serviço, largando as últimas tiradas. Desligo a televisão e vou enxotando os gatos para fora da sala.
Amanhã, continua a crise.
sexta-feira, maio 20, 2011
Exposição fotográfica (XXXIV)
Rue Mouffetard, Jardin des Plantes
Jardin du Luxembourg
Place du18 Juin, Montparnasse
Avenue Mozart, Auteuil
Place des Vosges
Passage des Postes, no Jardin des Plantes. Por aqui se escapou Olrik no "Caso do colar", de Blake e Mortimer
Jardin du Luxembourg
Bassin de la Villette
Jardin du Luxembourg
sexta-feira, maio 06, 2011
Exposição Fotográfica (XXXIII)
Paris, Páscoa 2011
Rua Louis Blanc
Canal de St. Martin
Manifestação contra Bashir Al-assad no Trocadéro
Grandes morangos na Rua Mouffetard
Café Poussin em Auteuil
Pombo no telhado da igreja de St. Médard, Jardin des Plantes
O cozinheiro e o velhote dos vasos, em Auteuil
segunda-feira, maio 02, 2011
O passeio a três
Os novos cemitérios atendiam à época a uma preocupação de saúde pública, procurando afastar a defunta malta do centro da cidade. No entanto, a aderência da clientela começou por ser fraca. Os mortos achavam pouco fino ser enterrados num monte lá para os arrabaldes: em 1806 houve apenas cinco fregueses e em 1812 somavam os sepultados pouco mais de oitocentos, número escasso numa época em que se morria por tudo e também por nada.
Perante o elefante branco, a câmara de Paris levou avante em 1817 um genial golpe publicitário. Transladou para lá os restos mortais de Molière, La Fontaine, Héloisa – a medieva do amor cortês, não a apolinária dos verdes – e o seu amante Abelardo, que ficara sem eles de castigo por ter engravidado a até então donzela. A talhe de foice, a página em francês da “Wikipedia” garante-nos muito comicamente que Abelardo foi “castrado à força”. Pois sim, franceses néscios, calculamos que não tenha sido por acordo amigável.
A ideia municipal revelou-se um sucesso: em tão distinta companhia, os mortos sentiam-se mais à vontade e afluíram em grande número. Em 1830 atingiam os trinta e três mil, para chegar mais tarde aos setenta milhares que hoje jazem numa necrópole “coquette” e burguesa, que mistura o tétrico do campo de morte com a pompa dos “boulevards”, raiada por avenidas, caminhos retortos e rotundas. Com o número vieram os notáveis: Balzac, Wilde, Chopin, Montand, Proust, Piaf e, claro, Jim Morrisson. E por isso me encontrariam, no passado domingo de Páscoa, perdido por entre jazigos e campas rasas em demanda do túmulo do Rei Lagarto.
Tinha ido em passeio com a minha mãe e aproveitei uma manhã de sol em que vagueáramos a pé ao longo do canal de Saint Martin para visitar finalmente o famoso cemitério do Père Lachaise. Para a rapaziada da minha criação, este nome trazia fatalmente à memória Jim Morrisson e os Doors. Morrisson morrera em 1971 em Paris, provavelmente de “overdose”, e tornara-se o morador mais visitado do Père Lachaise, estatuto que ainda mantém passados quarenta anos, segundo ouvi a uma guia turística que arrastava entre sepulturas uma pequena multidão de turistas arrebanhados. De facto, “rock’n’roll never dies”!
O túmulo de James Douglas Morrisson é uma campa rasa e discreta, perdida no meio de jazigos novecentistas de granito roído pelo musgo e portas entreabertas pelo tempo que dão a ideia que os falecidos se ausentaram momentaneamente para umas dentadinhas nos pescoços parisienses. Como a guia previra, um magote de gente acotovelava-se no pouco espaço existente, fotografando e comentando em tom de férias. Uma árvore, escrevinhada até onde uma mão chegasse, mantinha o registo de quatro décadas de homenagens ao ídolo. Junto à lápide, algumas flores feneciam, acompanhadas de uma fotografia de uma banda de garagem provavelmente ali largada como uma promessa a um santo, pedindo inspiração e sucesso.
A minha mãe seguira-me pelo necrotério com a curiosidade de quem visita um monumento, embora, pelo sim e pelo não, levasse na mão uma pequena Bíblia que traz sempre na mala. Pessoa entendida nessas lides de fronteira entre o cá e o lá garantira-lhe uma vez que tal medida era prudente sempre que se visitasse um cemitério e ela preferiu não arriscar. Já tendo passado dos setenta, a minha mãe não vibrara com os Doors e ter-lhe-á parecido estranho o meu interesse naquela campa banal. Saquei por isso do “iPod” para lhe fazer ouvir a voz do homem que ali jazia.
Seleccionei o “Riders on the storm”. Quando, passados aqueles segundos iniciais em que uma linha de baixo e um rolar de bateria se confundem com a chuva que os cavaleiros atravessam, ouvi a voz de “crooner” de Morrisson, não pude deixar de me surpreender com a relatividade subtil da morte. Qual o Morrisson verdadeiro? O que jazia ali a metros, inerte, já não mais que meras moléculas redisseminadas no ciclo da vida envolvente, ou o fluxo de “bits” e electrões que declamava, nos meus ouvidos, a nossa estranha forma de vida, de “cavaleiros na tempestade atirados para este mundo como um cão sem osso ou um actor solitário”. E este último Morrisson, poderia estar morto? Pode um morto cantar a vida? Não estará vivo quem nos faz instantaneamente bater o pé ao som do “L.A. woman” ou sorrir de boa disposição quando canta “Love street”?
Não será que perpetuamos na vivência de nossas vidas o mais vivo das vidas dos que fisicamente já nos deixaram?
Fazendo-o, confirmamos Camões, que quando se refere nos Lusíadas à “lei da morte” está a falar do esquecimento, não do fim físico.
Tais pensamentos consolaram-me. Congeminara este passeio a Paris já há alguns anos. Imaginara-o como um momento especial com meu pai e minha mãe, um tempo dedicado e exclusivo, um obrigado por tudo. Mas a inércia prega-nos destas: veio a doença e a partida inesperada. De repente falhara o meu intento e já só estávamos dois para o passeio.
Assim julgava eu, mas mal: na realidade andou sempre ao nosso lado, nas memórias fugazes e nas mais perenes, em Auteuil, nos corredores cerâmicos do metropolitano, nos recantos das conversas, descendo a rua Moufetard e os seus estaminés garridos, nas alamedas senhoriais de Monceau, nos risos e nas lágrimas, admirando a manobra das comportas no canal de La Villette, na cor dos quadros de Van Dongen no Palais de Tokyo, nos silêncios, nos espelhos trabalhados do La Coupole em Montparnasse. Afinal, sempre viera.
sábado, abril 09, 2011
Cromos da minha caderneta (II) - A ramona
Em Março de 1975, com onze tenros aninhos, abordei timidamente o meu pai pedindo para ir a Cascais ver um concerto dos Genesis.
A vinda a Portugal dos Genesis no seu auge, meses depois do lançamento do fabuloso “The lamb lies down on Broadway”, passa sem protestos por uma de entre cinco manifestações de carácter divino a ocorrer em Portugal ao longo de oito séculos de história. As outras: o milagre de Ourique, as rosas no regaço de Santa Isabel, a aparição da Virgem aos pastorinhos na Cova da Iria e o sete-a-um ao Benfica no velho Alvalade, esta última a única que presenciei, em estado de êxtase e beatitude.
Em pleno PREC, uma banda de primeiro cartaz constituía novidade revolucionária. Diz quem viu que o concerto deslumbrou. Tudo no genésico grupo era superior nesses anos de ouro: o Peter Gabriel felizmente ainda cantava e o Phil Collins felizmente ainda não cantava, limitando-se a ser um excepcional baterista. Tony Banks, Steve Hackett e Michael Rutherford completavam um quinteto de eleição.
Isto sei eu hoje, porque na altura nem via bem quem eles eram. Apenas tinha ouvido uma música, o “Carpet crawlers”, que vinha num “single” aparecido desgarradamente no meio dos presentes de Natal. À época o que eu queria mesmo era ir a um concerto à noite, nem que fosse da banda dos bombeiros. Só que o meu pai riu à gargalhada da minha pretensão, de um modo tal que eu, conhecendo-o, percebi que não valia a pena insistir.
Depois deste desaire, passou uma olimpíada até eu voltar à carga com o tema. Em Março de 1979, com quinze anos já não tão tenrinhos, abordei menos timidamente o meu pai para lhe pedir para ir a Cascais ver um concerto do Rory Gallagher. Eu também não conhecia o Rory Gallagher, mas era estrangeiro e a malta toda tinha combinado ir porque sendo de fora devia ser bom. Desta vez o meu pai acedeu, com a condição de me ir pôr e buscar. Perante o meu protesto, usou como pretexto que lhe estava a apetecer dar uma volta pelo Estoril, vontade que lhe dava de quinze em quinze anos e por coincidência logo nessa noite.
Assim aconteceu. Fui deixado em frente ao Hotel Baía, onde seria o reencontro. Subi até ao pavilhão do Dramático onde me juntei aos meus amigos. Passámos alegremente, como se uma delícia fora, o suplício da longa fila, das grades colocadas à trouxe-mouxe, dos seguranças meio pedrados. O Dramático de Cascais foi durante esses anos a Meca do rock em Portugal, muito antes dos festivais de verão em arrabaldes poeirentos misturarem bandas londrinas com fado “world music” e dos concertos de estádio trazerem a peso de ouro mega-estrelas cheias de fama e artrite. Recinto de hóquei em patins, com uma acústica miserável, não arcaria mais de dez mil pessoas sem ameaçar ruir. Apesar disto, quando Gallaguer entrou em palco a esgalhar o “Shin kicker”, acompanhado da sua Fender, de Gerry McAvoy e de Ted McKenna, soou-me a música celestial e fiquei amigo dele e do seu “rhytm and blues” irlandês até hoje.
No regresso, os velhotes esperavam-me dentro do carro. Eu oferecera boleia de volta a uns colegas de escola e perguntei ao meu pai se não se importava. Ele disse que sim sem ter o cuidado de os contar e de repente a carrinha Fiat Mirafiori estava apinhada com oito pessoas, três a frente e cinco atrás. Assim arrancámos, que nem o expresso de Bombaim, e o meu pai meteu-se por uma ruazinha estreita que subia da baía até ao local do concerto. Apanhou com dez mil pessoas a descer em sentido contrário, em estados variáveis de alienação. Durante minutos que pareceram infindáveis o carro ficou imobilizado, cercado por uma massa humana fluindo pastosamente, roçando portas e vidros, proferindo bocas jocosas, soltando palavrões e mandando umas murraças ocasionais nos vidros e no tejadilho. O momento alto da cena ocorreu quando uma amiga da malta, reconhecendo-nos no interior da viatura, subiu pelo “capot” e, espalmada contra o pára-brisas, ficou a acenar freneticamente, mandando beijinhos e abraços, perante o olhar esgazeado da minha progenitura. A turba acabou por escoar, libertando a via, e seguimos para Lisboa em silêncio. Chegados a casa, o meu pai comentou que à próxima talvez fosse melhor eu ir de comboio. Bingo!
Foi portanto de comboio e autocarro que durante os dois anos seguintes me desloquei ao Dramático de Cascais ou ao pavilhão do Belenenses para assistir à primeira grande vaga de concertos “rock” que houve em Portugal, muito à base da variedade de oferta da “new wave”: Stranglers, Clash, Ian Dury, Lene Lovich, Ramones, Dr. Feelgood, Police, Elvis Costello, Joe Jackson, mas também Supertramp, Peter Gabriel e as paredes de sintetizadores dos Tangerine Dream.
Cada espectáculo tinha uma banda de suporte, ou própria que fazia toda a “tournée” com os cabeças-de-cartaz (vi os Simples Minds antes de se tornarem conhecidos com a merda do “Don’t you forget about me”, xaropada infame que infelizmente ainda não consegui varrer da memória), ou nacional contratada para o momento (assisti aos Xutos e Pontapés ainda sem papada, aos Delfins, Arte e Ofício, UHF). Toda a gente tinha muito pouca paciência para estas bandas de entrada, considerando que ao pagar trezentos escudos pelo bilhete ganhara o direito a não ter que as aturar. As manifestações de desagrado resumiam-se geralmente a trinta minutos de apupo contínuo, mas podiam ser mais espectaculares. No concerto dos Clash, os UHF fizeram a primeira parte. Eu estava na bancada lateral e de repente vejo um risco vermelho sair da plateia e explodir em estilhaços na testa do José Manuel Ribeiro, que com pose suposta de roqueiro se entretinha a cantarolar pr’aí o “Rua do Carmo” para bocejo da assistência. Uma tomatada podre arremessada a mais de trinta metros, linda, com uma precisão fabulosa, só suplantada mais de trinta anos depois pelo lançamento da miniatura do “Duomo” que partiu os dentes ao Berlusconi.
E dos artistas principais, que lembrar? Escolho o concerto dos Ramones, que assisti na primeira fila da plateia. Eu levara comigo o meu irmão, na altura com doze anos, e em casa fora fortemente recomendado para nunca o perder de vista. Assim que cheguei ao pavilhão encontrei duas amigas que iam para a bancada e consegui que elas tomassem conta do rapaz – recomendando que não o perdessem de vista – e fui lá para baixo, esgueirando-me até me ver no centro da primeira fila, esmagado contra as grades pela pressão de milhares atrás de mim.
Fora o H que no ano anterior me dera a conhecer os Ramones. Vindo de França, o H notabilizara-se na escola por usar uns óculos escuros que lembravam os de um soldador e por vestir como aquela banda peculiar, cuja grandeza publicitava pelos recreios, e que muitos imediatamente caracterizaram como “punk”. O H inconformava-se, quase ofendido: “Não é “punk”, é “rock’n’roll”, ouviram? Rooock’n’roooooll!”.
Fosse o que fosse, o som turbinado de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone tornou-se indispensável nas tardes de rádio e nas noites de festa, onde o “It’s alive” podia tocar trinta minutos seguidos sem que ninguém saísse da pista. Todos sabíamos que a música era primária, dois minutos com três ou quatro acordes repetidos e uma batida sempre igual e letras básicas de meia dúzia de versos de pé-quebrado. Mas todos gostávamos daquela velocidade em estado puro.
Escolho os Ramones, que vos deixo agora de seguida num concerto de Ano Novo em Londres, muito parecido com o que eu presenciei no Dramático. Escolho os Ramones porque me lembram a rapidez com que, visto à distância, me parece que aqueles anos passaram, para não mais voltar.
Gabba gabba hey!















