quinta-feira, junho 09, 2011

A noite eleitoral vista do meu sofá

Duas da tarde

A noite eleitoral começa cedo nas têvês. Os telejornais vão repassando a xaropada usual, com o mesmo rigor metódico com que os pilotos aviadores percorrem (espero eu) o “check list” antes da partida.

Temos por isso:

a) O exemplar civismo com que o acto eleitoral está a decorrer

Contra todas as expectativas não há barricadas e forcas nas ruas de Portugal e o sangue não corre nas valetas.

b) O voto dos candidatos

O candidato votou antes do meio-dia na escola secundária cê mais esse D. Fuas Roupinho. Chegou acompanhado da mulher e esperou pela sua vez para exercer o seu dever cívico. Cumprimentou os membros da mesa. À saída, declarou que esperava que o acto eleitoral decorresse com normalidade e que a afluência às urnas fosse elevada. Entrou num café onde bebeu uma bica em frente às câmaras.

Ainda um dia hei-de dar o meu voto ao candidato que vá votar pela seis e meia da tarde, chegue acompanhado de uma gaja que conheceu na noite anterior, motivo desse voto tardio, passe à frente da fila porque está com pressa, mande bugiar os membros da mesa e declare que até podia andar tudo à porrada que para ele era o mesmo e que quanto menos forem às urnas menos papel se gasta. Finalmente, que entre no café onde os outros candidatos beberam as bicas e avie duas imperiais perante o “zoom” arregalado das câmaras.

Talvez quando o Vieira conseguir as assinaturas.

c) Os boicotes ao acto

Há sempre dois ou três cus-de-mundo em que dois ou três caciques locais conseguem um boicote fechando a corrente e cadeado, corajosamente pela calada da noite, o local onde a votação iria decorrer. Afirmam depois aos microfones sôfregos das cadeias televisivas que a população de A-dos-Caracóis está farta de não ter lá uma estação de lançamento de foguetões interplanetários ou outra infraestrutura igualmente fundamental. Os senhores jornalistas tomam a devida nota e esquecem-se sempre de perguntar porque é que se a população está assim tão unânime foi preciso trancar as portas.

Desta vez houve porém alguma originalidade. Num lugarejo obscuro largaram abelhas na sala das mesas de voto, o que permitiu ao presidente da junta confirmar o boicote, não fosse alguém ser picado e morrer com uma reacção alérgica. Noutro ermo qualquer, puseram cola nas fechaduras e uma esmerada selecção das mulheres mais feias de Portugal aos gritos em frente às portas, de permanentes ralas e brincos de minhota, cenário dantesco que desmotivou a GNR de agir com proporção na reposição da legalidade democrática.


Sete da tarde

No continente, porque nos Açores os micaelenses, as corvinas e os picarotos ainda enfiam nas urnas de voto, impedindo a divulgação no “cuuntiineente” de sondagens à boca das mesmas.

À falta de melhor tema, as televisões divulgam a previsão de 40% de abstenção, com mais ou menos casas decimais.

Procuram-se causas racionais. O afastamento dos jovens da política. O afastamento dos idosos da política. O afastamento da malta na força da idade, da política.

Se os vivos se afastam, já os mortos não arredam pé. Os cadernos eleitorais caminham para o milhão de eleitores-fantasma. Mesmo assim não é mau: li hoje que nove mil mortos na Grécia ainda estão a receber a reforma. Cá, pelo menos, os defuntos limitam-se a abster-se.

Na realidade a explicação é mais simples. Na Atenas clássica, a condição de cidadão implicava direitos (como o voto) e deveres (como o voto). Aos cidadãos que não se envolviam na política, os atenienses chamavam-lhes “idiotes”, termo grego que significava “indivíduo” ou “pessoa privada”, mas com um cunho pejorativo. Daí derivou a nossa palavra “idiota”.

Havendo 9,6 milhões de eleitores, os 40% que se abstiveram representam 3,8 milhões. Subtraiam-se os 0,7 milhões de mortos e sobram 3,1 milhões de idiotas. Para o que a gente vê por aí, até diríamos que deviam ser mais.


Oito horas e treze milésimos de segundo da tarde

Pedro Passos Coelho novo primeiro-ministro.

Assim não dá gosto. Quando eu era garoto, a noite eleitoral durava eternidades de incerteza e adrenalina, até altas horas da madrugada. Começavam a existir uns prognósticos lá para as dez, mas certezas só depois da meia-noite, senão mesmo na manhã seguinte.

Hoje no primeiro segundo fica-se a saber tudo, passados quinze minutos já estão contadas metade das freguesias, uma hora depois já se demitiram os derrotados e às onze está tudo a arrumar o estaminé.

Assim mal acomparado, passámos de um prolongado gozo tântrico ao “ejaculatio praecox” dos Romanos, no que a noites de eleições se refere.


Oito e um minuto

A RTP vai mostrando os homens da luta Jel e Falâncio, duas das maiores concentrações de sebo da galáxia, a aproveitar o momento para se publicitar, com megafone, cartaz e bombo, em frente ao hotel que serve de “quartel-general” ao PSD, enviando os parabéns assim que vêem um microfone disponível. Cheira a casaca virada.

O drama de se tentar ser engraçado é que convém ter graça.


Oito e qualquer coisa

Vou “zapando” entre canais. Embora tenham cada qual uma dúzia de comentadores arrebanhados para os prognósticos de fim de jogo, alguns dos quais até interessaria ouvir, as televisões preferem permanentes directos com o Sana, o Altis, o Vitória ou o Largo do Caldas, onde vão perguntando a militantes de base se estão a curtir ou se o galo é grande, consoante a cor.

Com tantos meios, tantos repórteres, tantos quadros digitais, tanta trampa, é completamente impossível ficar informado. Um caso típico de rendimentos marginais decrescentes.


Oito e muito

Um dos canais avança a hipótese do PAN, Partido dos Animais e da Natureza, vir a eleger um deputado por Lisboa. Animais no hemiciclo. Não propriamente uma novidade.


Nove e pouco

O primeiro-ministro desce para o discurso de derrota, cercado por uma camada de seguranças, por sua vez envolta numa capa de jornalistas de microfone em riste e câmaras erguidas em braços como se de halteres se tratassem. A mole ziguezagueia desordenadamente e acaba por arrebentar com uma porta de vidro, em directo. Sócrates sobe ao palanque, sacudindo os cacos de vidro da lapela do Armani.

Conforme os comentaristas haviam prognosticado meia hora antes, Sócrates demite-se, com um descurso de bom perdedor, diga-se.

Começa a caça ao candidato: as câmaras focam-se em Seguro, Assis e Costa, que afectam não ser nada com eles.

Confirma-se também o “vae victis”. Algumas das perguntas dos jornalistas, agora desempoeirados, assim o demonstram.


Não muito tempo depois

Ouço alguém entusiasmado falar de “inequívoca consolidação da expressão eleitoral”, “aumento da percentagem e número de deputados”, “sinal de inegável significado quanto a um mais alargado reconhecimento da acção, propostas e papel...”. Levanto a cabeça. Pelo tom ufano, podia ser o André Villas-Boas a falar do FCP, mas é apenas o Jerónimo de Sousa a rejubilar com a estrondosa vitória do PCP, com sensacionais 7,94% dos votos.

Nós, Sportinguistas, devíamos aprender com esta mentalidade. Festejaríamos convictos os quartos lugares invadindo o Marquês de Pombal, eufóricos.


Talvez pelas nove e meia

O melão da noite. Alongado e graúdo, verde por fora e sumarento por dentro, de talhada firme e semente solta. Saiu em brinde à esquerda Façonnable.

Louçã diz que os resultados significam um “recuo”. Sei que dada a etimologia da palavra “recuo”, talvez o Bloco a veja como mais politicamente correcta do que outras mais apropriadas para a ocasião, como sejam “coça”, “trepa” ou “cabazada”. Mas ainda assim: passaram em dois anos para metade dos votos e dos deputados. Isto não é um recuo, é uma viagem em marcha atrás de Lisboa a Bombaim.

Prevejo que o Bloco de Esquerda vai ser a partir de agora cada vez menos bloco e – se possível for – cada vez menos esquerda.


Ainda não passara meia hora da demissão do Sócrates

As televisões passam as emissões para o Altis porque António José Seguro vai fazer uma declaração. Os comentadores prevêem que ele vai declarar que não se candidata a líder do PS, com o piedoso raciocínio de que seria de muito mau gosto anunciar a candidatura praticamente em cima do cadáver fumegante do José. Mal sabem eles de que é capaz um homem que esteve à espera.

No Altis, abre-se a porta de um elevador e sai António José, demasiado seguro diante de quarenta microfones e vinte objectivas. Profere umas redondezas sobre a sua eventual candidatura, do género “não é o momento apropriado”, “estou disponível para dar o meu humilde contributo”, “não volto a cara ao meu partido e a Portugal”. Portugal, viram? Ganda pinta.

Resumindo: é candidato e a sua candidatura, tal como a pescada, antes de o ser já o foi.

Alguns jornalistas, daqueles para quem é preciso fazer um desenho, perguntam-lhe porque é que ele os convocou se não era para confirmar a candidatura. Seguro responde:

– Convocar, eu? Os senhores é que aqui estavam à minha espera.

Assim terminou em glória o momento sabujo da noite.


Não sei se antes se depois

Portas, um dos vencedores destas eleições, não escondia a tristeza no seu discurso de triunfo. Apesar de uma campanha em que ostentou mais de cem chapéus diferentes, só subiu 1,3%. Pouco para quem se queria tornar o mais pequeno dos grandes e continua apenas o maior dos pequenos. Apesar de tudo, com a chave do governo na mão.

Já dizia Pirro, rei do Épiro e da Macedónia, depois da difícil batalha de Ásculo: “Mais uma vitória destas e estou perdido.”


Já passava das dez

Passos Coelho sobe ao púlpito como novo primeiro-ministro de Portugal. Para gajo que acaba de ser contratado para um dos piores empregos do planeta nos próximos anos, parece contente. Discursa com fluência e preparação. Canta o hino nacional. Responde num inglês muito razoável a um jornalista estrangeiro. Neste aspecto, certamente, ficámos a ganhar.


Onze e tal

Os carros apitam na rua e agitam bandeiras laranjas. Afinal o PAN não elegeu nenhum deputado. Nos ecrans, os “pivots”, flutuando em cenários virtuais, vão repassando em tom cansado os números finais de Viseu e de Évora. Há algum clima de anti-clímax. Os comentadores de serviço cumprem serviço, largando as últimas tiradas. Desligo a televisão e vou enxotando os gatos para fora da sala.

Amanhã, continua a crise.

sexta-feira, maio 20, 2011

Exposição fotográfica (XXXIV)

Paris, mais da Páscoa 2011


Rue Mouffetard, Jardin des Plantes

Jardin du Luxembourg

Place du18 Juin, Montparnasse


Avenue Mozart, Auteuil

Place des Vosges

Passage des Postes, no Jardin des Plantes. Por aqui se escapou Olrik no "Caso do colar", de Blake e Mortimer

Jardin du Luxembourg

Bassin de la Villette


Jardin du Luxembourg

Tabuísmos


sexta-feira, maio 06, 2011

Exposição Fotográfica (XXXIII)


Paris, Páscoa 2011


Rua Louis Blanc


Canal de St. Martin

Manifestação contra Bashir Al-assad no Trocadéro


Grandes morangos na Rua Mouffetard


Café Poussin em Auteuil


Pombo no telhado da igreja de St. Médard, Jardin des Plantes


O cozinheiro e o velhote dos vasos, em Auteuil

segunda-feira, maio 02, 2011

O passeio a três

Chamou-se sucessivamente Monte do Bispo, Monte das Vinhas e Monte Luís. Teve muitos donos mas foi um remoto ocupante dessa sétima colina parisiense no século XVI, o padre La Chaise, confessor de Luís XIV, que acabou por impor o nome ao “Cemitière de l’Est”, aberto em 1804 no mês revolucionário de “Prairial”, nesse breve período em que os meses falaram de natureza e não de imperadores e deuses romanos.

Os novos cemitérios atendiam à época a uma preocupação de saúde pública, procurando afastar a defunta malta do centro da cidade. No entanto, a aderência da clientela começou por ser fraca. Os mortos achavam pouco fino ser enterrados num monte lá para os arrabaldes: em 1806 houve apenas cinco fregueses e em 1812 somavam os sepultados pouco mais de oitocentos, número escasso numa época em que se morria por tudo e também por nada.

Perante o elefante branco, a câmara de Paris levou avante em 1817 um genial golpe publicitário. Transladou para lá os restos mortais de Molière, La Fontaine, Héloisa – a medieva do amor cortês, não a apolinária dos verdes – e o seu amante Abelardo, que ficara sem eles de castigo por ter engravidado a até então donzela. A talhe de foice, a página em francês da “Wikipedia” garante-nos muito comicamente que Abelardo foi “castrado à força”. Pois sim, franceses néscios, calculamos que não tenha sido por acordo amigável.

A ideia municipal revelou-se um sucesso: em tão distinta companhia, os mortos sentiam-se mais à vontade e afluíram em grande número. Em 1830 atingiam os trinta e três mil, para chegar mais tarde aos setenta milhares que hoje jazem numa necrópole “coquette” e burguesa, que mistura o tétrico do campo de morte com a pompa dos “boulevards”, raiada por avenidas, caminhos retortos e rotundas. Com o número vieram os notáveis: Balzac, Wilde, Chopin, Montand, Proust, Piaf e, claro, Jim Morrisson. E por isso me encontrariam, no passado domingo de Páscoa, perdido por entre jazigos e campas rasas em demanda do túmulo do Rei Lagarto.

Tinha ido em passeio com a minha mãe e aproveitei uma manhã de sol em que vagueáramos a pé ao longo do canal de Saint Martin para visitar finalmente o famoso cemitério do Père Lachaise. Para a rapaziada da minha criação, este nome trazia fatalmente à memória Jim Morrisson e os Doors. Morrisson morrera em 1971 em Paris, provavelmente de “overdose”, e tornara-se o morador mais visitado do Père Lachaise, estatuto que ainda mantém passados quarenta anos, segundo ouvi a uma guia turística que arrastava entre sepulturas uma pequena multidão de turistas arrebanhados. De facto, “rock’n’roll never dies”!

O túmulo de James Douglas Morrisson é uma campa rasa e discreta, perdida no meio de jazigos novecentistas de granito roído pelo musgo e portas entreabertas pelo tempo que dão a ideia que os falecidos se ausentaram momentaneamente para umas dentadinhas nos pescoços parisienses. Como a guia previra, um magote de gente acotovelava-se no pouco espaço existente, fotografando e comentando em tom de férias. Uma árvore, escrevinhada até onde uma mão chegasse, mantinha o registo de quatro décadas de homenagens ao ídolo. Junto à lápide, algumas flores feneciam, acompanhadas de uma fotografia de uma banda de garagem provavelmente ali largada como uma promessa a um santo, pedindo inspiração e sucesso.

A minha mãe seguira-me pelo necrotério com a curiosidade de quem visita um monumento, embora, pelo sim e pelo não, levasse na mão uma pequena Bíblia que traz sempre na mala. Pessoa entendida nessas lides de fronteira entre o cá e o lá garantira-lhe uma vez que tal medida era prudente sempre que se visitasse um cemitério e ela preferiu não arriscar. Já tendo passado dos setenta, a minha mãe não vibrara com os Doors e ter-lhe-á parecido estranho o meu interesse naquela campa banal. Saquei por isso do “iPod” para lhe fazer ouvir a voz do homem que ali jazia.

Seleccionei o “Riders on the storm”. Quando, passados aqueles segundos iniciais em que uma linha de baixo e um rolar de bateria se confundem com a chuva que os cavaleiros atravessam, ouvi a voz de “crooner” de Morrisson, não pude deixar de me surpreender com a relatividade subtil da morte. Qual o Morrisson verdadeiro? O que jazia ali a metros, inerte, já não mais que meras moléculas redisseminadas no ciclo da vida envolvente, ou o fluxo de “bits” e electrões que declamava, nos meus ouvidos, a nossa estranha forma de vida, de “cavaleiros na tempestade atirados para este mundo como um cão sem osso ou um actor solitário”. E este último Morrisson, poderia estar morto? Pode um morto cantar a vida? Não estará vivo quem nos faz instantaneamente bater o pé ao som do “L.A. woman” ou sorrir de boa disposição quando canta “Love street”?

Não será que perpetuamos na vivência de nossas vidas o mais vivo das vidas dos que fisicamente já nos deixaram?

Fazendo-o, confirmamos Camões, que quando se refere nos Lusíadas à “lei da morte” está a falar do esquecimento, não do fim físico.

Tais pensamentos consolaram-me. Congeminara este passeio a Paris já há alguns anos. Imaginara-o como um momento especial com meu pai e minha mãe, um tempo dedicado e exclusivo, um obrigado por tudo. Mas a inércia prega-nos destas: veio a doença e a partida inesperada. De repente falhara o meu intento e já só estávamos dois para o passeio.

Assim julgava eu, mas mal: na realidade andou sempre ao nosso lado, nas memórias fugazes e nas mais perenes, em Auteuil, nos corredores cerâmicos do metropolitano, nos recantos das conversas, descendo a rua Moufetard e os seus estaminés garridos, nas alamedas senhoriais de Monceau, nos risos e nas lágrimas, admirando a manobra das comportas no canal de La Villette, na cor dos quadros de Van Dongen no Palais de Tokyo, nos silêncios, nos espelhos trabalhados do La Coupole em Montparnasse. Afinal, sempre viera.

sábado, abril 09, 2011

Cromos da minha caderneta (II) - A ramona

Em Março de 1975, com onze tenros aninhos, abordei timidamente o meu pai pedindo para ir a Cascais ver um concerto dos Genesis.


A vinda a Portugal dos Genesis no seu auge, meses depois do lançamento do fabuloso “The lamb lies down on Broadway”, passa sem protestos por uma de entre cinco manifestações de carácter divino a ocorrer em Portugal ao longo de oito séculos de história. As outras: o milagre de Ourique, as rosas no regaço de Santa Isabel, a aparição da Virgem aos pastorinhos na Cova da Iria e o sete-a-um ao Benfica no velho Alvalade, esta última a única que presenciei, em estado de êxtase e beatitude.


Em pleno PREC, uma banda de primeiro cartaz constituía novidade revolucionária. Diz quem viu que o concerto deslumbrou. Tudo no genésico grupo era superior nesses anos de ouro: o Peter Gabriel felizmente ainda cantava e o Phil Collins felizmente ainda não cantava, limitando-se a ser um excepcional baterista. Tony Banks, Steve Hackett e Michael Rutherford completavam um quinteto de eleição.


Isto sei eu hoje, porque na altura nem via bem quem eles eram. Apenas tinha ouvido uma música, o “Carpet crawlers”, que vinha num “single” aparecido desgarradamente no meio dos presentes de Natal. À época o que eu queria mesmo era ir a um concerto à noite, nem que fosse da banda dos bombeiros. Só que o meu pai riu à gargalhada da minha pretensão, de um modo tal que eu, conhecendo-o, percebi que não valia a pena insistir.


Depois deste desaire, passou uma olimpíada até eu voltar à carga com o tema. Em Março de 1979, com quinze anos já não tão tenrinhos, abordei menos timidamente o meu pai para lhe pedir para ir a Cascais ver um concerto do Rory Gallagher. Eu também não conhecia o Rory Gallagher, mas era estrangeiro e a malta toda tinha combinado ir porque sendo de fora devia ser bom. Desta vez o meu pai acedeu, com a condição de me ir pôr e buscar. Perante o meu protesto, usou como pretexto que lhe estava a apetecer dar uma volta pelo Estoril, vontade que lhe dava de quinze em quinze anos e por coincidência logo nessa noite.


Assim aconteceu. Fui deixado em frente ao Hotel Baía, onde seria o reencontro. Subi até ao pavilhão do Dramático onde me juntei aos meus amigos. Passámos alegremente, como se uma delícia fora, o suplício da longa fila, das grades colocadas à trouxe-mouxe, dos seguranças meio pedrados. O Dramático de Cascais foi durante esses anos a Meca do rock em Portugal, muito antes dos festivais de verão em arrabaldes poeirentos misturarem bandas londrinas com fado “world music” e dos concertos de estádio trazerem a peso de ouro mega-estrelas cheias de fama e artrite. Recinto de hóquei em patins, com uma acústica miserável, não arcaria mais de dez mil pessoas sem ameaçar ruir. Apesar disto, quando Gallaguer entrou em palco a esgalhar o “Shin kicker”, acompanhado da sua Fender, de Gerry McAvoy e de Ted McKenna, soou-me a música celestial e fiquei amigo dele e do seu “rhytm and blues” irlandês até hoje.


No regresso, os velhotes esperavam-me dentro do carro. Eu oferecera boleia de volta a uns colegas de escola e perguntei ao meu pai se não se importava. Ele disse que sim sem ter o cuidado de os contar e de repente a carrinha Fiat Mirafiori estava apinhada com oito pessoas, três a frente e cinco atrás. Assim arrancámos, que nem o expresso de Bombaim, e o meu pai meteu-se por uma ruazinha estreita que subia da baía até ao local do concerto. Apanhou com dez mil pessoas a descer em sentido contrário, em estados variáveis de alienação. Durante minutos que pareceram infindáveis o carro ficou imobilizado, cercado por uma massa humana fluindo pastosamente, roçando portas e vidros, proferindo bocas jocosas, soltando palavrões e mandando umas murraças ocasionais nos vidros e no tejadilho. O momento alto da cena ocorreu quando uma amiga da malta, reconhecendo-nos no interior da viatura, subiu pelo “capot” e, espalmada contra o pára-brisas, ficou a acenar freneticamente, mandando beijinhos e abraços, perante o olhar esgazeado da minha progenitura. A turba acabou por escoar, libertando a via, e seguimos para Lisboa em silêncio. Chegados a casa, o meu pai comentou que à próxima talvez fosse melhor eu ir de comboio. Bingo!


Foi portanto de comboio e autocarro que durante os dois anos seguintes me desloquei ao Dramático de Cascais ou ao pavilhão do Belenenses para assistir à primeira grande vaga de concertos “rock” que houve em Portugal, muito à base da variedade de oferta da “new wave”: Stranglers, Clash, Ian Dury, Lene Lovich, Ramones, Dr. Feelgood, Police, Elvis Costello, Joe Jackson, mas também Supertramp, Peter Gabriel e as paredes de sintetizadores dos Tangerine Dream.



Cada espectáculo tinha uma banda de suporte, ou própria que fazia toda a “tournée” com os cabeças-de-cartaz (vi os Simples Minds antes de se tornarem conhecidos com a merda do “Don’t you forget about me”, xaropada infame que infelizmente ainda não consegui varrer da memória), ou nacional contratada para o momento (assisti aos Xutos e Pontapés ainda sem papada, aos Delfins, Arte e Ofício, UHF). Toda a gente tinha muito pouca paciência para estas bandas de entrada, considerando que ao pagar trezentos escudos pelo bilhete ganhara o direito a não ter que as aturar. As manifestações de desagrado resumiam-se geralmente a trinta minutos de apupo contínuo, mas podiam ser mais espectaculares. No concerto dos Clash, os UHF fizeram a primeira parte. Eu estava na bancada lateral e de repente vejo um risco vermelho sair da plateia e explodir em estilhaços na testa do José Manuel Ribeiro, que com pose suposta de roqueiro se entretinha a cantarolar pr’aí o “Rua do Carmo” para bocejo da assistência. Uma tomatada podre arremessada a mais de trinta metros, linda, com uma precisão fabulosa, só suplantada mais de trinta anos depois pelo lançamento da miniatura do “Duomo” que partiu os dentes ao Berlusconi.


E dos artistas principais, que lembrar? Escolho o concerto dos Ramones, que assisti na primeira fila da plateia. Eu levara comigo o meu irmão, na altura com doze anos, e em casa fora fortemente recomendado para nunca o perder de vista. Assim que cheguei ao pavilhão encontrei duas amigas que iam para a bancada e consegui que elas tomassem conta do rapaz – recomendando que não o perdessem de vista – e fui lá para baixo, esgueirando-me até me ver no centro da primeira fila, esmagado contra as grades pela pressão de milhares atrás de mim.


Fora o H que no ano anterior me dera a conhecer os Ramones. Vindo de França, o H notabilizara-se na escola por usar uns óculos escuros que lembravam os de um soldador e por vestir como aquela banda peculiar, cuja grandeza publicitava pelos recreios, e que muitos imediatamente caracterizaram como “punk”. O H inconformava-se, quase ofendido: “Não é “punk”, é “rock’n’roll”, ouviram? Rooock’n’roooooll!”.


Fosse o que fosse, o som turbinado de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy Ramone tornou-se indispensável nas tardes de rádio e nas noites de festa, onde o “It’s alive” podia tocar trinta minutos seguidos sem que ninguém saísse da pista. Todos sabíamos que a música era primária, dois minutos com três ou quatro acordes repetidos e uma batida sempre igual e letras básicas de meia dúzia de versos de pé-quebrado. Mas todos gostávamos daquela velocidade em estado puro.


Escolho os Ramones, que vos deixo agora de seguida num concerto de Ano Novo em Londres, muito parecido com o que eu presenciei no Dramático. Escolho os Ramones porque me lembram a rapidez com que, visto à distância, me parece que aqueles anos passaram, para não mais voltar.


Gabba gabba hey!




domingo, março 27, 2011

Exposição fotográfica (XXXII)

"Amigo" é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, "Amigo", in "No reino da Dinamarca"


Na manhã de 9 de Agosto de 2010 tive uma bruta de uma insónia. Deitara-me tarde. Fora ao Festival do Sudoeste ver os Air e os Massive Attack, tema de post antigo. O facto de lá ter deixado o meu filho mais velho com um sorriso no rosto, um automóvel nas mãos e uma carta de condução com quinze dias no bolso não me deixava pregar olho. Faz parte. Fui-me revirando na cama à procura de uma posição soporífera. Em vão. Abri a luz. Garatujei as palavras cruzadas e o "sudoku" no jornal. Li umas páginas de um livro. Fechei a luz. Escutei os ruídos que como formigas apressadas cruzam a tessitura da noite: o vento que sopra nas jelosias, o respirar de menina dela, os cães em conversa uivada. Só não ouvia o barulho que o meu subconsciente conscientemente esperava: um carro a dobrar a esquina, o motor a morrer na rua, a porta de entrada a bater e o cagaçal que eles conseguem fazer às tantas da manhã e que tanto irrita como alivia. No escuro, o brilho de pirilampo dos ponteiros do relógio de pulso, pousado sobre a mesa de cabeceira, circulava lentamente, muito lentamente...


Seriam seis da manhã quando a aurora começou a insinuar-se pelas ripas dos estores. Levantei-me e saí do quarto de sapatos na mão, com o pescoço encolhido, as costas curvadas, o andar desengonçado, como um marido que chega tarde da rambóia, só que em sentido inverso. Um bocado estúpido, porque as costas curvadas fazem o mesmo barulho que umas costas direitas.

Desci a rua em direcção à Praia Grande de Porto Covo.


Estava ainda deserta. De gente, pelo menos. Pela noite houvera trabalho: o concessionário enrolara os toldos, a câmara substituíra os sacos do lixo, que pintalgavam a enseada em tons de azul cobalto e o mar tratara de lavar o areal, deixando-o liso e lustroso aos primeiros e ténues raios de sol matinais.


Era a hora das gaivotas, que podem depenicar sossegadas o quer que seja que haja ali para depenicar. Mais duas ou três horas e a praia vibraria de gente, de cores garridas, do toc-toc das raquetes à beira-mar, dos gritos pelas crianças demasiado afoitas, do serpentear malabirista dos surfistas sobre a espuma de sabão dos tubos a enrolar, do apito esganiçado e arbitral do nadador-salvador. Tudo cenas que as gaivotas consideram má onda. Por isso se reservam para estes horários discretos, em que a humidade ainda pica e a maresia ainda cheira.


Chegavam também os primeiros pescadores, à procura de um lugar jeitoso na escarpa. Na rua principal havia uma tasca, o "Primo Xico", onde um quadro pendurado na parede informava que ali se reuniam caçadores, pescadores e outros mentirosos. Mas para que uma mentira seja razoavelmente credível, há que levantar cedo de manhã.


Subi de novo até à beira da falésia e percorri o trilho para sul, por cima da Praia do Banho. Ao fundo, um barco de pescadores coloria a planura de água como um peixe-palhaço num aquário gigante. Lá em baixo, um homem andava na areia com uma atitude de quem tem todo o tempo do mundo para um passeio matinal. Embora fosse apenas um ponto distante, parecia-me um ponto algo familiar.


Era o meu amigo P. Gritei "ó P! P!", a plenos pulmões, como se o estivesse a avisar de um perigo. O som ecoou pelas paredes milenares da falésia, perturbando o sossego da manhã e a ordem natural das coisas. Vi o P rodar a cabeça em todas as direcções até se fixar num ponto distante e esbracejante que era eu. Aproximou-se para perceber quem chamava, enquanto eu descia um carreiro até lá abaixo.


Estranho. Conheço o P desde criança. Temos muita quilometragem juntos. Encontramo-nos quase todas as semanas. No mês de Agosto, então, é todos os dias. Acabáramos de estar juntos no concerto. Ia-mo-nos ver certamente à tarde na praia. No entanto, senti uma necessidade, vinda de não sei onde cá dentro, de gritar por ele e correr pelo carreiro abaixo, não fosse perder esta oportunidade única de estarmos ambos. Como se sem ele não se cumprisse aquela manhã gloriosa que a insónia me proporcionara.


Caminhámos ao longo do mar, em conversa mole, dissertando sobre assuntos que já se escaparam da minha memória. Também ele não dormira. Subimos ao alto da falésia e fizemos o resto do trilho, que serpenteia entre tojos e armérias, sempre em bate-papo, apesar do sono que nos começava a pesar nas pálpebras. Só nos separámos, com um bacalhau, ao atingir as primeiras vivendas do Bairro Alemão.


Chegado a casa, mais consolado, dormi umas duas ou três horas. Tomava já o pequeno-almoço quando ouvi o roncar de um motor que virou a esquina e se imobilizou lá fora. Passos. O rapaz apareceu, de chapéu-de-palha caipira com uma fita verde a fazer publicidade aos jogos da Santa Casa da Misericórdia. Comeu e foi-se deitar, concluindo este episódio.


O P fez anos ontem. Não o consegui apanhar ao telefone para lhe dar os parabéns. Bom moço, mas um chato do caraças no que toca a ter o telemóvel com som. Talvez por isso me tenha vindo à lembrança a memória daquela madrugada, em que por sorte não o deixei escapar.

Elas

Dia 23 próximo passado, o Técnico, onde burlei cinquenta regentes assegurando assim meu canudo e onde, faz em Dezembro vinte anos, dou uma perninha professoral, promoveu uma bonita iniciativa.


Homenageou as “mulheres do Técnico” através de três senhoras que, cada uma à sua maneira, desafiaram os “cânones da sua época”, expressão fina para “estupidez dos seus contemporâneos”, iniciando carreiras ou atingindo metas até então socialmente reservadas aos homens.


São elas a Engª. Maria Amélia Chaves, a primeira engenheira portuguesa, a Profª. Isabel Maria Gago, a primeira professora numa escola de engenharia nacional e a Profª. Sílvia Marília Costa, a primeira catedrática em engenharia de Portugal. Todas puderam felizmente estar presentes.


A Engª. Maria Amélia Chaves tem hoje cem anos. Contou ela numa entrevista recente o seguinte sobre a sua ida para o IST:


"Quando eu entrei, era suposto ir para Química, e mesmo isso já não era muito do agrado dos homens. Quando viram que eu ia para Civil é que “rebentou a bomba”. Os professores eram meus amigos mas só me diziam “Ó menina, mas o que é que vai fazer? O que é que vai fazer quando sair daqui?”".


Pois que fez a menina quando saiu? Trabalhou em fiscalização de obras na Câmara Municipal de Lisboa, tendo depois feito projecto. Foi a primeira pessoa em Portugal a desenvolver cálculo anti-sísmico aplicado à construção civil. Desenhou o seu último trabalho com oitenta e dois anos. Pelo meio foi mãe de cinco filhos e avó e bisavó.


A Profª. Isabel Maria Gago tem noventa e seis anos e foi uma das duas primeiras licenciadas em engenharia química de Portugal. Não sei se ainda, mas pelo menos até há pouco subia e descia a pé diariamente os três andares do prédio onde mora junto à faculdade, para ir passear.


A longevidade destas senhoras, que faço votos que perdure, demonstra que a independência de espírito deve fazer bem à saúde.


Ao ouvir ou ler hoje os seus depoimentos, vemos que estas mulheres assumiram o seu papel de pioneiras e percorreram o seu caminho com a candura e a naturalidade de quem simplesmente quis. Nasceram num mundo imbecil, de marialvismo e hipocrisia, em que a lei e, pior, a norma estigmatizavam a mulher como ser inferior. Pois estiveram-se nas tintas, não ligaram e simplesmente viveram a vida que desejavam viver. O que é a forma mais potente de mudar o mundo à nossa volta.

Enquanto esta celebração decorria, burocratas em Bruxelas, sempre a navegar a onda lodacenta do politicamente correcto, azafamavam-se a engendrar uma directiva que obriga as empresas a reservar quotas para mulheres nos seus conselhos de administração.


Na mesma peça jornalística em que soube deste devaneio comunitário, três mulheres portuguesas administradoras ou presidentes de grandes empresas comentaram a novidade com um “Quotas? Nem pensar!” . A Profª Sílvia Marília Costa, num seu depoimento na “Internet”, refere por acaso o mesmo. Esta posição de rejeição talvez surpreendesse os mal-preenchidos crânios eurocratas. Não entenderão tão focadas mentes que para as mulheres que pelo seu trabalho, seu mérito e suas circunstâncias atingiram ou procuram atingir altos patamares, as quotas representam um insulto.


Sei-o de fonte segura. Descobri-o ao longo da minha vida profissional. Fui chefiado por homens, mas também por senhoras. Com todos aprendi, coisas diferentes, de igual modo. Recordo colegas extraordinárias, mulheres de grande visão e talento, com quem foi um prazer trabalhar. Tenho a sorte de ter hoje, na equipa que coordeno, mulheres que são exemplos de dedicação, lealdade, eficiência e inteligência. Nenhuma destas precisa de quotas para chegar a lado nenhum. Acredito que quase todas, senão mesmo todas, repudiariam quotas e percentagens e facilidades. O mérito chega e sobeja, pelo que encaram a igualdade sem receio. E se alguma diferença há, é a favor delas: tenho a impressão que em média são mais cooperantes, mais concentradas nos objectivos, mais jogadoras de equipa e mais subtis que os homens, cuja irremediável imaturidade os leva muitas vezes a preocupar-se mais em mostrar-se a si do que em mostrar resultados.


Admito que nalgumas situações muito particulares a discriminação positiva seja necessária para resolver iniquidades sociais. Não é o caso. As mulheres não precisam de favores nem de quotas que viriam apenas lançar dúvidas injustas sobre a sua competência e que seriam fatalmente usadas para bocas foleiras de urinol. Precisam, elas como nós, que a sociedade se organize e crie condições para que maternidade e actividade profissional se harmonizem. Uma sociedade que não protege as suas mães e as suas crianças, além de fazer triste figura, não vai longe, até por razões meramente matemáticas.


Como aparte, lembrar que não devemos cair no pólo oposto que trata paternalistamente as mulheres que optam por abandonar o trabalho para se dedicarem exclusivamente aos filhos. Conheço mulheres que, tendo uma sólida carreira e sendo grandes oficiais de seu ofício, optaram por ser mães a tempo inteiro. Dispunham dos apoios necessários e das condições financeiras para compatibilizar o trabalho e a família. Sabiam que, provavelmente, não conseguiriam voltar mais tarde ao mercado de trabalho. Mas livremente escolheram. Não consigo deixar de sentir uma funda admiração pelo exemplo de altruísmo e devoção que personificam. As “pietá” não são todas de mármore.

O machismo ainda atormenta, tal como a fome, a miséria ou a guerra, uma parte substancial da humanidade. Aliás todos estes flagelos parecem andar correlacionados. Em muitos países as mulheres são oficialmente cidadãos de segunda, que por lei não podem guiar um carro, usar umas calças ou desobedecer ao marido. Noutros, se bem que teoricamente protegidas pelo texto legal, são abandonadas à sorte de viver vítimas de “soi disant” homens – pais, irmãos, maridos, vizinhos – que as tratam como gado reprodutor ou como uma sexualidade de serviço. Estes fulanos são pedaços de merda cobardes que se borrariam pelas pernas abaixo se tivessem que estar entre quatro paredes com uma mulher de igual para igual. Mas infelizmente frouxos destes ainda dominam muitas sociedades por esse mundo fora.


No nosso canto do planeta somos algo melhores, mas não estamos livres de formas mais subtis de machismo. Nós, homens, ainda ajudamos mais do que partilhamos as tarefas domésticas – eu, pecador, me confesso. A sociedade continua a tolerar excessivamente o homem que agride uma mulher ou que se pira e não paga a pensão aos filhos. Ainda nos horripilamos pouco com coisas com que devíamos: por exemplo, quantos daqueles que acham legítima uma intervenção militar para proteger os líbios ou os kosovares ou outros quaisquer pensariam o mesmo duma intervenção armada num país africano ou asiático para acabar com práticas de excisão generalizada? Desconfio que poucos. Teríamos a mesma complacência se num dado país dessem para capar sistematicamente todos os rapazes? Não creio. No entanto, a mutilação genital feminina é uma forma de tortura e um abuso de uma barbárie absoluta que afecta cerca de dois milhões de crianças por ano. E praticada, estima a Amnistia Internacional, em cerca de 135 milhões de mulheres actualmente vivas. Haverá maior crime contra a humanidade do que isto?


Evoluímos bastante em Portugal no que toca à igualdade de género desde os tempos em que a presença da Engª. Maria Amélia Chaves numa obra provocava escândalo. Esta senhora provavelmente ainda precisou, por lei, da autorização do marido para viajar para o estrangeiro. Setenta anos volvidos, mais de metade dos nossos estudantes universitários são do sexo feminino. Em 2040, essas raparigas terão uma influência generalizada na sociedade portuguesa. Espero que consigam fazer melhor que os homens que as precederam.

segunda-feira, março 21, 2011

The Prime Minister’s speech (as delivered by the Chancellor of the Exchequer)

Não esta que passou, mas a sexta anterior, foi dia de dois discursos.

À noite, o do rei Jorge VI de Inglaterra. Gostei do filme: foi-se ao que a História tem para dar e ensinar, quis-se fazer bem e saiu bem feito. Às vezes, a perfeição técnica pode tornar-se uma obra de arte – veja-se um Ferrari. Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter actuam esplendidamente ao contar-nos como um homem ajudou outro a vencer-se a si próprio e a cumprir o seu destino.

O enredo de “O discurso do rei” romanceará certamente um pouco as situações, os diálogos, os sentimentos dos personagens, mas o discurso do rei, esse, é igualzinho ao verdadeiro que se pode ouvir aqui na “Internet”.

Calculo que não terá sido um momento fácil. O discurso anuncia uma guerra a um povo que ainda tinha na memória o horror das trincheiras de França e o destroçar de uma geração de jovens. Jorge VI justifica-a pelos valores que estão em jogo, os que a Alemanha queria impor e os que a Inglaterra queria defender. E não usa figuras de estilo quando se trata de dizer o que se passa e o que se vai seguir: “estamos em guerra”, “a tarefa será dura”, “podem vir aí dias negros”, “a guerra hoje já não se resume só ao campo de batalha”. Mas logo de seguida, naquela que é a chave do discurso, se percebe porque não ilude com rodriguinhos as provações que estavam para vir: “we can only do the right as we see the right”, só podemos fazer o que está certo se virmos o que está a certo. Apenas assim, partilhando a verdade, ele podia pedir aos que o ouviam que estivessem “prontos para qualquer tarefa ou sacrifício que possa ser exigido”.

O discurso é curto, simples, directo e, sobretudo, não é paternalista. Não trata os seus destinatários como imbecis porque quem o profere tem a percepção que só pode unir as pessoas numa causa tão difícil se falar verdade e sem rodeios.

Para além do filme, sabemos hoje que Jorge VI e a sua mulher Isabel granjearam o afecto do seu povo, após alguma hostilidade inicial, partilhando os riscos e (alguns) sacrifícios dos londrinos durante a Batalha de Inglaterra. Escaparam por pouco à morte aquando de um bombardeamento do palácio de Buckingham em 1940. O papel de Isabel na manutenção do moral dos ingleses foi tão de monta que Hitler comentou que ela era a mulher mais perigosa da Europa. Surpreendeu-me há cerca de dez anos atrás, num período em que ia muito a Londres, o respeito e o carinho que ingleses da minha geração ou mais novos ainda sentiam por ela, a “Rainha-mãe”, apesar de na altura a consideração dos súbditos pela monarquia andar muito cá por baixo. A um ponto tal que alguns até achavam exagero. Por exemplo Mark Steele, que em “Vive la révolution”, usa a rainha-mãe como protótipo de um apego dos britânicos à realeza que os pode levar – cito – ao “abandono completo do pensamento racional”:

“Quando a Rainha-mãe morreu fomos todos informados por infindáveis fontes dos seus gloriosos talentos, com um documentário a insistir que ela era uma ‘grande dançarina’ e ‘tremendamente perspicaz’. Fiquei à espera que o locutor continuasse com ‘também inventou o CD ROM e uma vez ganhou 38 a 7 às Índias Ocidentais’. Os noticiários estavam cheios de personagens como Norman St John-Stevas declarando que ‘Sabes, nunca teríamos ganho a guerra sem ela. Todas as noites pegava num Spitfire e enfrentava a Lutwaffe sobre o canal da Mancha. A RAF queria impedi-la mas ela insistia. Sabes, uma noite foi abatida sobre a França ocupada e ainda conseguiu regressar na manhã seguinte a tempo do render da guarda.’”


Acaba por ser um parágrafo simpático para com a memória da senhora: um bom momento de humor britânico ainda constitui a melhor homenagem que um inglês pode receber.


Durante essa mesma sexta, na televisão e na “Internet”, fui apanhando os ecos do outro discurso: o nosso ministro das finanças anunciava a redução das pensões, a redução de comparticipações no IRS, a redução de custos com a saúde e a educação, a subida de alguns impostos. PEC 4, portanto. Alguns dias depois de o governo ter dito que nada disto era necessário.

Esta receita não é obviamente dele, ministro, foi ditada pela União Europeia e em particular pela Alemanha, que hoje nos tutela e convoca como nos séculos XVIII e XIX a Inglaterra o fazia. E o discurso do ministro das finanças não é obviamente dele, é do primeiro-ministro. Que, tristemente, na hora de dar más notícias mandou alguém. Não o vi olhar as pessoas nos olhos e dizer: vêm aí dias negros, a situação do país é esta, o que vai acontecer é isto e senão a alternativa era aquilo.

Há pessoas que têm essa característica: só conseguem transmitir boas novas, reais ou imaginárias. À noite lá apareceu no telejornal, em Bruxelas, comentando este pacote com a distância com que se poderia falar de uma ocorrência em Nairobi ou de um acidente no México. A execução orçamental vai bem, para não dizer muito bem – afirmava. Muito bem será expressão grande demais para o momento, julgo eu.


Se o nosso primeiro-ministro ou outros que o precederam estivessem em 1939 sentados no trono do império britânico, mandariam um ministro fazer o seguinte discurso:

“Por razões que se prendem exclusivamente com o contexto político europeu, com o qual não temos nada a ver, iremos manifestar de forma veemente à Alemanha o nosso desagrado com a invasão da Polónia, nos termos dos tratados que temos firmados com os nossos aliados. Tal poderá acarretar alguns sacrifícios, que esperamos breves, por parte dos ingleses, mas o governo irá trabalhar todos os dias para minorar os inconvenientes que esta situação possa acarretar para a maioria dos cidadãos.”

Seguia-se uma conferência de imprensa:

- Senhor ministro, quer isso dizer que estamos em guerra com a Alemanha?
- Sabe, penso que não devemos dramatizar com palavras que só podem contribuir para uma instabilidade que o país não precisa neste momento. O governo vai acompanhar a par e passo a situação e tomará as medidas adequadas em função do desenrolar dos acontecimentos.
- Iremos enviar tropas para o continente?
- As nossas forças armadas estão capacitadas para exercer a sua missão em vários cenários possíveis, em função do que as contingências determinem.
- A Alemanha vai bombardear-nos?
- A nossa previsão aponta para que, mesmo que se confirmasse a eventualidade – que não esperamos – de algum avião sobrevoar o nosso território, as bombas alemãs não atinjam o solo, ficando estáticas a 348 metros de altura, no cenário inferior.
- Mas senhor ministro, a generalidade dos analistas militares têm afirmado que as bombas quando largadas atingem o solo.
- Não quero neste momento especular sobre um cenário que ainda não se verificou nem creio que se venha a verificar.
- Mas senhor ministro, o chefe do gabinete-sombra, Dr. Peter Steps Rabbit afirmou recentemente que uma bomba no chão explode e mata a gente!
- No plano teórico, é possível que uma bomba possa, sob efeito de uma onda de pressão interna inerente a uma reacção química, perder a sua unidade material e perturbar dessa maneira a continuidade de unidades biológicas de carbono que se encontrem na vizinhança. Mas eu não queria embarcar nessa atitude da oposição de politização de uma questão que é do interesse nacional e que requer, antes do mais, estabilidade.

And so on…

Não discuto aqui, neste momento, da necessidade das medidas, nem das causas, nem das culpas. Fico-me para já um passo atrás. A pensar que só podemos fazer o que está certo se virmos o que está a certo, como disse Jorge VI. Que as pessoas só compreenderão se lhes falarem a verdade nos olhos, sem subterfúgios, sem politicamente correctos, sem panos quentes, com a hombridade que os momentos requerem.


Recordo, em tempo da minha vida, duas crises financeiras desta magnitude, com FMI à mistura. E recordo o primeiro-ministro da época, ele próprio e mais ninguém, a dirigir-se aos portugueses a explicar que a coisa estava preta e o que tinha que ser feito. Podia ter muitos defeitos, mas esta lisura ninguém lha tira. Pena que o exemplo não tenha pegado, parece-me que desde então.

sábado, março 05, 2011

Exposição fotográfica (XXXI) - Edição Especial Sierra Nevada - Outras cenas

Passeando ao fim de tarde em Pradollano


Crianças brincando em Pradollano. Alguém deixara uma cadeira de escritório no meio da neve, para contemplar confortavelmente a paisagem.


"Après-ski": esta podia chamar-se "o galã e o invejoso".


Subindo na tele-cadeira Monachil


A tele-cadeira Veleta, em Borreguiles


O arlequim e o professor


Pai é sempre pai, mesmo a 2500 metros


E a propósito de pais, o meu duplo legado ao planeta

Exposição fotográfica (XXX) - Edição especial Sierra Nevada - Esquiadores e "snowboarders"

No cruzamento da Áquila com a Maribel


Descendo a pista Prado de las Monjas


Um SMS rápido ao pé da tele-cadeira Stadium


"Snowboarders" descansando no cruzamento das pistas Maribel e Sol y Nieve


Este reza para que Deus lhe dê jeito


E esta ficou muito tempo quietinha, a olhar o vale


Descendo a pista Copa del Mundo


Fim do dia: chegada a Pradollano

Exposição fotográfica (XXIX) - Edição especial Sierra Nevada - Paisagem

Pradollano visto da pista Loma Dílar


Subindo na "bolha" até Borreguiles


A lua sobre a Loma de Dílar


Vista desde Pradollano


As primeiras casas de Pradollano


A pista Universíada

A pista Universíada com um tipo espetado lá no meio


Pôr-do-sol sobre Pradollano

Notas de uma semana nevada


Do domingo anterior ao sábado que passou, uma semana de família e de esqui nas alturas da Sierra Nevada. Algumas notas desses dias.


On the road

Sempre são setecentos e tal quilómetros e eu não perdi o meu velho hábito de dormir pouco na noite anterior a grandes viagens. Entre a adrenalina da partida, o fecho das malas, a sua reabertura, o seu refecho e o que falta à vigésima quinta hora e que não se encontra nem por nada, passam as três e tal da manhã e eu não prego olho. Às sete o despertador buzina impenitente o seu vagido electrónico, arrancando-me ao primeiro sono. Espeto com a cara debaixo da torneira, bebo a cafézada da ordem mas é com as pálpebras a meia-haste que me sento no carro, para mais uma jornada de terror nas estradas.

Evito o habitual atalho pitoresco de Ficalho, Rosal de la Frontera, Jabugo e Aracena, com paragem nesta última para excelentes tapas no Manzano. Vou antes directo ao Algarve para depois rumar a Espanha, aproveitando que o Zapatero ainda não recebeu ordens de Berlim para portajar as autoestradas. De modo a não adormecer ao volante, recorro ao meu vezeiro e infalível truque: música da pesada, que chegue para me manter desperto durante todo o caminho. Desta feita e dado o comprido trajecto:

- o “Live at Leeds” dos The Who, edição alargada com a ópera “Tommy” em bónus;
- um “best of” do Frank Zappa;
- uma compilação de “reggae” de Trinidade e Tobago que comprei no aeroporto de Port-of-Spain; para quem não sabe, no que toca a potência, Trinidade 1 – Jamaica 0;
- o “2001 Odisseia no chaço” dos Ena Pá 2000;
- o “Viva!” dos Roxy Music, o melhor álbum ao vivo de sempre – desculpa lá, ó NF.

Já rolamos há mais de uma hora na infindável A92, entre Sevilha e Granada, quando me aventuro a fazer deslizar o cêdê dos Ena Pá pela fenda do leitor. De imediato há protestos e há tumulto. Uma das coisas que me une à minha cara-metade, para além dos laços do matrimónio, é o não conseguirmos ficar indiferentes a Manuel João Vieira. Só que com sinais opostos: ela acha-o o último dos barrascos, eu acho-o um Gil Vicente dos nossos tempos.

Vieira canta: “Tenho pança de Super Bock/E o fígado é o do Capitão Haddock”. Tento argumentar que temos que ir prá aí a Cesário Verde ou a Camilo Pessanha para encontrar palavras tão rombas arrumadas com tamanho aprumo. Mas não a comovo. Ejecto por isso os Ena Pá, de modo a não estragar o início de férias e é aquecidos pela voz de galã roqueiro do Brian Ferry e pelo som dos Roxy que assistimos com um deleite sempre renovado ao crescendo em altura das montanhas da serra nevada.



A room with a view

Nas outras vindas à Sierra Nevada, ficáramos num Meliá, o Sol y Nieve. Desta feita, com atitude de crise, baixámos umas coroas valentes no orçamento e uma estrela no hotel e experimentámos o vizinho Zyriab. Em boa hora o fizemos: o Ziryab tem quartos mais aconchegantes, um aquecimento mais eficaz, uma melhor cozinha e os armários dos esquis encostadinhos à bolha que nos ascende até Borreguiles, sítio de onde partimos a esquiar, poupando-nos assim a duas travessias diárias da aldeia de Pradollano de esquis às costas e botas nos pés. E tem também um nome que faz sentido nestas paragens que viram partir os últimos mouros, há pouco mais de quinhentos anos. Adiante veremos.

O hotel foi construído adossado à escarpa. Entra-se pelo piso zero, ao nível da praça principal, onde se trata da papelada e desce-se aos quartos, todos orientados para a montanha, todos com uma vista que lembra um quadro. Ou melhor vários, porque um quadro que vai mudando consoante a hora, o vigor do sol, os caprichos do tempo. De manhã, a encosta que sobe para a Loma de Dílar e que ocupa grande parte da nossa janela no 334 amanhece de um cinzento metálico, mas por pouco tempo: o sol, vencendo finalmente os picos de Alcazaba e de Mulhacén, rapidamente a dardeja e a inunda de um branco luminoso, apenas interrompido pela fuligem de algumas rochas mais temerárias, que ofusca com o seu vigor um céu de um azul fundo e sem mácula. As nuvens, quando vêm, não chegam tão alto: arrumam-se como um rebanho de ovelhas celestes no fundo do vale que serpenteia à nossa frente, pastam tranquilas a vegetação rala que cresce ao longo dos arroios e tapam a sucessão sem fim de cumeadas. À tarde, à medida que o sol roda para oeste, o branco vai azulando, até que desaparece de escuro quando o crepúsculo pinta de vermelho e amarelo a linha do horizonte. Caída a noite, a montanha torna-se um fantasma, uma presença, difusa mas certa: é a hora das raposas, que a pintalgam com as pegadas delicadas que nos intrigarão no dia seguinte, aproximando-se dos homens adormecidos. Cheguei a ver uma a altas horas no parque de estacionamento, possivelmente ao cheiro dos caixotes, deslizando ligeira entre os carros.

Tudo isto por três estrelas. Fico sem entender quais os estelares critérios de atribuição.


Zyriab

Que eu nunca tivesse ouvido falar de Zyriab diz muito sobre o pouco que sei, mas também sobre a ignorância que temos, em Portugal, em relação a um período da nossa história quase tão longo como o que começa com Afonso Henriques.

Zyriab significa melro em árabe e foi alcunha de Abu l-Hasan Ali Ibn Nafi’, músico nascido em Bagdad no século IX. Melro pela tez escura e pela veloz melodiosa. A lenda diz que Zyriab trabalhou no palácio do califa Harum El-Rashid, onde deu nas vistas pelo talento e atraiu o ciúme do seu mentor, Al-Mawsili, que se tinha por favorito do califa. Como ainda nos nossos dias acontece, Al-Mawsili sentiu-se ameaçado e montou uma estrangeirinha a Zyriab, que teve que se exilar, primeiro para o norte de África, depois para a Córdoba omeíada, onde o califa Abd al-Rahman II o acolheu e fez dele o músico da corte.

Zyriab foi, como muitos sábios muçulmanos dessa época, um enciclopedista ainda antes do conceito ter sido enunciado. Para além de músico, cantor e compositor, trabalhou em astronomia e geografia e introduziu na península vários hábitos refinados trazidos da capital do império. Consta que a ele devemos a partição da refeição em sopa, prato e sobremesa, a utilização de copos de cristal, o consumo de espargos, o uso de pasta de dentes, a depilação feminina, o corte da franja e outras maldades do género.

Compôs mais de mil canções, integrando elementos das diversas regiões por onde passou e criou um estilo que ainda hoje sobrevive como o mais tradicional no Magrebe, com um nome que não deixa dúvidas sobre a sua origem, o “andalou”. Ouvi pela primeira vez “andalou” ao vivo num almoço em Argel. Comentei com um comensal argelino sobre a tristeza da sonoridade, tão diferente do saltitante “raï” que se houve nas ruas. Explicou-me ele: “está para nós como o fado está para vocês”.

Modificou ainda o alaúde, o seu instrumento preferido. Na altura tinha quatro cordas, representando os quatro humores da medicina antiga (sangue, linfa, bílis e atrabílis). Zyriab introduziu uma quinta, no meio das outras, que disse representar a alma. Apreciei a poesia contida neste gesto: a música será coisa de gente de carne e osso, mas não deixa nunca de ter o seu toque divino. Nisto terá pensado certamente Paco de Lucia quando escreveu a homenagem a Zyriab que vos deixo já a seguir.


A perfeição das crianças

Inscrevi-me como usualmente nas aulas de esqui. A triagem fez-se numa encosta moderada e tentei um “slalom” o mais escorreito possível mas não enganei o olhar treinado dos monitores. Fui colocado num nível “cê menos”, equivalente a nabo com alguma experiência.

O meu professor chamava-se Valter e era italiano das Dolomitas, mas falava um espanhol perfeito. E bom inglês também, o que fez com que na nossa aula, que era de adultos, fosse colocada a pequena Lucy, inglesa de oito anos, que se tornou a mascote da turma, composta por dois portugueses e quatro espanhóis.

As aulas de esqui têm algo de recruta. Terminado um exercício, o Valter, com ar de sargento desapontado com o pelotão, alinhava-nos a todos na pendente e lia-nos o rol das desgraças: “Ninguém inclinou o corpo como devia. Numa pista inclinada a sério iam todos por ali abaixo. Carlos, o joelho de jusante tem que ser flectido; Margarida, o corpo inclina-se para o vale; Vicente, o torso não se roda para trás; etc.”.

A seguir vinha o castigo, normalmente um exercício que nos parecia de grande complexidade: “Descemos em fila até ao fim da pista, todos atrás de mim. Em cada início de curva, passamos progressivamente o peso da perna de jusante para a de montante, no momento em que o peso está equilibrado devemos estar de pé no ponto médio da curva e rodamos e transferimos o peso para a perna que está agora do lado do vale, terminamos a curva flectindo o joelho um pouco para dentro para sentir bem a aderência do canto do esqui, a anca um pouco para montante e os ombros um pouco para jusante mas sem rodar o tronco para trás, fazemos a diagonal com o olhar na ponta do esqui de jusante e com o esqui de montante sem estar solto. Perceberam?”

Mentíamos, afirmando que sim e o Valter virava-se para a Lucy, que assistira a toda a conversa muito direita, com um sorriso de bonequita e sem perceber obviamente uma única palavra e dizia-lhe: “Lucy, you just look at me when we go down and do exactly what I do”.

Descíamos. A Lucy fazia bem e nós fazíamos mal.


A montanha ciosa

Nevou muito este ano na Sierra Nevada. A neve acumulou-se nas pistas, engolindo vedações e baixando sinais das alturas para o nível chão.

Dias antes da nossa chegada ocorrera uma avalanche num vale contíguo à estância que colhera quatro montanhistas. Uma parede de três por três metros que varrera um quilómetro. Três deles conseguiram safar-se. O outro ainda não apareceu. O Valter concluía, pesaroso: “só o encontrarão na primavera, quando as neves fundirem”.

A montanha, tal como o mar, reclama o seu quinhão para se dar aos homens. Muitas vezes o mar leva os menos preparados, os mais incautos. A montanha, essa, escolhe entre os mais aptos e afoitos, como se não suportasse que chegassem tão alto quanto ela.


As cores

Uma semana na neve recauchuta-me a alma.

Nas subidas nas cadeiras, terminado o esforço, as pernas baloiçando no vazio, o vento silvando nos ouvidos, bebo uma paz ímpar na visão dos cumes namorando o azul forte do céu e dos mantos brancos ondulando montanha abaixo, pontilhados apenas pelas pequenas formigas de esquis ou tábuas nos pés.

Mas quando olho mais de perto, parando para descansar à beira de uma pista, encanto-me talvez mais ainda com as cores pintando arte sobre a tela branca de neve e gelo. Pode ser o traço único e nervoso, azul ou vermelho, de um esquiador descendo veloz por uma pendente estreita ou a dança caleidoscópica de dezenas de pedaços de arco-íris ziguezagueando de largo em largo, percorrendo o leito do Rio em direcção a Pradollano.

A montanha é uma feira. A montanha é uma festa.


O incentivo das mulheres

Durante cinco dias esquiei próximo de quatro horas de manhã e entre uma e três a seguir ao almoço. Nesta parte da tarde, fi-lo com os meus filhos, muito melhores praticantes do que eu, em troços difíceis e fisicamente mais puxados.

Chegava ao hotel esfalfado e abatia-me sobre a cama, os bofes do lado errado, os joelhos em petição de miséria, mas com o sentimento do dever cumprido.

Aí ouvia aquelas palavras de incentivo de que só uma mulher é capaz: “Julgas que ainda tens vinte anos!”. Nesse momento, ficava com setenta. E muitos…


A parede que não separa

O único defeito que encontrámos no Zyriab residia numa insonorização manifestamente deficiente.

Sempre que chegava ou partia uma família, por vezes a desoras, rolando malas, ouvia-se um tropel que quando passava a nossa porta soava como o vigésimo de cavalaria chegando uma vez mais atrasado ao combate.

Rapidamente descobrimos também que no quarto por cima do nosso se alojara uma família espanhola, em que o pequeno Javier maltratava a sua irmã mais nova, provocando a ira apopléctica do pai, o que por sua vez suscitava apelos à calma da mãe. Certa vez ouvimos o progenitor gritando mais desesperada e lancinantemente que o normal – “No, Javier, no!” – e temi ver passar a irmãzinha em voo picado diante da nossa janela. Noutra ouvimos algo cair pesadamente no chão, com um estrondo de terramoto, e logo pus a hipótese do coração sofrido do senhor não ter aguentado mais uma graçola do filho. Mas não, continuámos a ouvi-los nos restantes dias.

No quarto ao lado, separado do dossel da nossa cama por uma fieira simples de tijolo, dormia um compressor a gasóleo. Ouvíamos um ruído grave, contínuo, modulado, de uma intensidade mecânica. Ainda pusemos a hipótese de ser um ser humano a ressonar, mas o som era demasiado forte. Um compressor, definitivamente, provavelmente um Atlas-Copco.

A meio da semana, a turbomáquina foi substituída por uns gemidos “sui generis” que nos motivaram, da primeira vez que os ouvimos, uns comentários marotos. Este não deve ter ido esquiar, dizíamos, perante o sonoro afinco. Só que o vagido prosseguiu noite fora, levando-nos a suspeitar de sexo tântrico, e repetiu-se nas noites seguintes, o que nos fez pensar que teríamos o Zézé Camarinha no 333. Mas tântrico ou não, tanto era demais e de modo a não ficar desmoralizados optámos por concluir que não seria pagode, mas que de facto o nosso vizinho produzia mesmo aqueles sons enquanto dormia, sonhando com sabe-se lá o quê.

O meu pai, hoteleiro de uma vida, possuía um livrinho que ainda lá deve estar numa das estantes, de título “A hotel is a very funny place” ou coisa parecida. É-o de facto.


A visita do velho Mata

Pois já que falámos nele, digo que não pôde faltar, mas fez-se esperar até ao último dia.

Levo sempre muita leitura para a semana na neve, não vá passá-la num sofá de perna engessada. A questão acabou por não se pôr, mas sempre fui avançando num “The idea of justice”, de Amartya Sen, professor de filosofia e de economia em Cambridge e Harvard, prémio Nobel da economia em 1998. Como diz a nova geração, um ganda “nerd”.

É um livro que não se lê: desbrava-se, à catanada. E depois há que examinar cada corte, cada folhagem decepada para perceber para onde fica o caminho naquele matagal de reflexão.

Na sexta-feira, consegui entrar no segundo capítulo, onde Sen fala da teoria da justiça de John Rawls, o mais importante autor sobre o tema da segunda metade do século XX, descrevendo-a para depois melhor discordar dela.

Sintetizando, Rawls diz que se pessoas em certas condições de imparcialidade (a cuja descrição vos vou poupar) discutirem quais os princípios que deverão reger o funcionamento e as instituições de uma sociedade idealmente justa, vão eleger de forma unânime dois deles.

O primeiro desses dois princípios afirma que cada pessoa tem igual direito a um esquema adequado e igual de liberdades básicas que seja compatível com todos usufruírem do mesmo esquema.

Quando li estas linhas, a minha mente viajou até um dia de 1975, em que eu acabara de lhe afirmar que podia fazer não-sei-o-quê porque agora havia liberdade. Estávamos no Verão Quente e tal certeza numa liberdade incontinente era fruta da época.

Ele respondeu, de um modo que eu entendi como um misto de firmeza e iluminação:

- Estás enganado. A tua liberdade acaba onde começa a liberdade dos outros.

Embora fosse uma frase feita que ele estava a aproveitar, o tom com que a disse e a consciência que de imediato tive que não estava diante de uma teoria, mas de um modo de estar que ele praticava todos os dias, fizeram-me adoptar como minha esta máxima que não é outra coisa que o primeiro princípio de Rawls, só que exibido como ponto de partida e não como de chegada. Só que gerado pela virtude e não pela dedução lógica.

Desde aí, procuro honrar aquelas palavras. Às vezes falho. Quando tal acontece, tento arrepender-me.

Bem, obrigado pela visita.

Já agora, o segundo princípio de Rawls estabelece que as desigualdades sociais e económicas só podem existir sob duas condições: a primeira é que tais desigualdades resultem de posições e lugares acessíveis a todos com igualdade de oportunidades; a segunda que essas desigualdades acabem por contribuir para uma melhor situação das pessoas em posição mais desfavorecida.

Cheira-me que o velho Mata também não desdenharia deste segundo. Só que, infelizmente, não descreve o mundo em que estamos. Nem o caminho em que seguimos. O liberal Rawls teria vergonha destes liberais de ocasião.


Declaração final

Trinta horas com os pés em cima de duas tábuas em materiais compósitos. Duas ou três vezes estive vai-não-vai, balancei, tangueei e tudo o mais mas acabei por me aguentar de pé.

“La garde meurt mais ne tombe pas”.