A SIC, por sua vez, usou de imaginação e, na noite de vinte e quatro, apresenta-nos ao serão o natal de uma família alemã que vive em eremita algures na serra do Marvão, e que de vez em quando as televisões se comprazem a exibir num paralelo com o lobo da Peneda-Gerês e o lince da Malcata.
O pequeno clã teutónico, pai, mãe e ranchada de filhos, vive numa eco-casa de fabrico próprio, erigida com materiais reciclados e dotada de ventilação natural, também conhecida em certos anéis de periferia urbana pelo nome injusto de barraca. Cultiva umas cenas ali à volta, nas quais baseia um regime alimentar crudívoro. A câmara indiscreta não se poupou a primeiros planos sobre malgas cheias de caules de plantas rasteiras, com pinta de dieta de tempo de penúria, mas hoje muito em voga nos restaurantes finos franceses sob o nome de guerra de “crudités”.

Num tom justiceiro, a SIC faz-nos notar que, este Natal, o senhor tem uma preocupação adicional. Recebeu uma carta da Segurança Social que lhe quer fazer umas perguntas sobre os seus filhos. O homem lamenta-se que se metam na vida dele e inquieta-se que lhe queiram vacinar as crianças, o que “vai ter” consequências graves e imediatas para a saúde delas. Em nota de rodapé a finalizar a peça, a SIC ventila a ameaça, proferida pelo patriarca, de pegar nos tarecos e na prole e marchar-se para a Guiné-Bissau, onde julgará – a meu ver mal – que lhe vão chatear menos a corneta. Ficamos incomodados.
Não vou dizer que esta reportagem fosse apologética do modo de vida deste senhor, porque seria exagero afirmá-lo, mas o tom, por vezes, foi um pouco “burocracia cega que ataca a liberdade individual e o direito à diferença do coitado do alemão que come legumes crus”. E, como é costume numa peça jornalística, passou ao lado do essencial.
E o que é essencial? Vejamos: este senhor tem todo o direito a gozar a liberdade de apanhar frio à noite e de papar agrião a toda a hora. Que lhe faça bom proveito. Mesmo achando eu que a visão deste homem nasce do medo e da ignorância e que é profunda e caracteristicamente reaccionária, detestaria viver numa sociedade onde ele não tivesse o espaço para a praticar. Tem até o direito de afirmar, com a segurança de um catedrático de Imunologia, que as vacinas causam danos imediatos e graves nas crianças que as tomam. Defendo este seu direito, como defendo o meu de considerar o homem um perfeito idiota, desavergonhadamente a falar do que não sabe. Há sempre doutores astrónomos da mula russa a garantir que a Terra é plana, mas desde que não interfiram com o bem-estar de terceiros, não me incomoda que o façam.
Só que os direitos do alemão acabam onde começam os direitos dos filhos do alemão. E aqui já me parece bem que a sociedade inquira se certos mínimos estão a ser cumpridos. Porque os filhos têm que estar ao abrigo da inépcia dos pais. Vejamos o caso das vacinas. Eu, por exemplo, não tenho a vacina do tétano em dia. Cada vez que vou ao médico ele recomenda-me que a tome e cada vez que me corto arrependo-me de não o ter feito ainda. Sei que não me fazia mal nenhum, antes pelo contrário. Mas o Estado não anda atrás de mim de seringa na mão, e a meu ver bem, porque sendo eu maior, embora no caso em apreço não-vacinado, se quero ser parvo é cá comigo. Conheço as vantagens e os riscos, estou informado, tenho capacidade de decisão, eu que me apresente no posto médico de manga arregaçada, se quiser.

Mas existem excepções e por vezes há parentes que, de forma mais ou menos evidente, falham nas suas obrigações. Antigamente, quando tal ocorria, a sociedade resignava-se. Se alguém arrebentava com os filhos à pancada de grosso que estava ou não os enviava à escola: coitadinhos, tinham nascido em mau berço. Entre pai e filho, como entre marido e mulher, não se metia a colher. Hoje, felizmente, a sociedade tem evoluído para uma atitude de firme reprovação destes casos. Já se aceita pacificamente que o Estado intervenha quando os direitos da criança à vida, à saúde ou à educação se encontram em risco sério. Não compreenderíamos, aliás, que não o fizesse e por isso vemos indignação para com as instituições quando uma criança morre vítima de maus-tratos dos pais porque a Segurança Social não a retirou atempadamente aos progenitores.
Lá no alemão do Marvão, de uma forma subtil mas evidente, é o direito dos filhos à vida e à saúde que está essencialmente em causa. Se demonstração fosse necessária, podia-se pegar nos gráficos de evolução da mortalidade infantil nos últimos cem anos e ver o papel que a vacinação teve no aspecto descendente da curva. Por isto, do mesmo modo que nos pareceria a todos intolerável que o homem desancasse as crianças ou as tivesse à fome, devemos também indignarmo-nos que as crianças corram riscos desnecessários por, por opção pessoal dos pais, não estarem vacinadas. Acho pois bem que a Segurança Social lhes faça umas perguntas, que promova as vacinações que forem necessárias e, já agora, que verifique se essa pequenada tem as letras que devia ter.