Dia 9 de Agosto em Sines: reflexos na vizinhança do novo centro cultural
sábado, setembro 08, 2012
Os outros eles
Antes de ir de férias passei na livraria do Instituto Franco-Português, uma aposta sempre sem risco, e comprei ao acaso meia-dúzia de livros de bolso fininhos, daqueles que se propoem no topo de uma pilha e se despacham numa tarde de praia, a maioria de autores que desconhecia para ver ao que sabiam.
Um desses livrinhos intitulava-se “Uma mulher” e escrevera-o
Annie Ernaux, uma professora francesa de letras com uma obra essencialmente
autobiográfica. “Uma mulher” conta a história da mãe da autora, nascida num
meio pobre e rural entre as duas grandes guerras, que ascende a pulso a uma
pequena burguesia comerciante e proporciona à filha o salto cultural para uma
classe média urbana de fim de século, sem nunca a chegar a entender muito bem. Uma
história que quase poderíamos dizer banal, não fosse o facto de cada vida ser
única na sua infinidade de facetas, uma história parecida com muitas que de
perto ou de dentro cada um de nós conheceu. Também eu ouvi aos mais velhos contar
sobre vilas como a vila onde a mãe de Annie explorava um pequeno café, terras socialmente
estratificadas em castas por debaixo da aparência de convivialidade, onde todos
sabiam o lugar que o berço lhes reservara, desde o trabalhador rural ao
operário ao lojista ao patrão ao médico ao senhor da terra, numa espiral de
posses e de letras que só os anos sessenta vieram baralhar um pouco.
O que me surpreendeu na escrita de Annie Ernaux foi o modo
sociológico, a pinça e escalpelo, com que a autora descreveu a vida e a
personalidade e as capacidades e incapacidades da sua mãe, das suas diferentes
mães – a criança nascida pobre, a adolescente trabalhadora, a mulher de armas
que defendia o seu pequeno negócio, a viúva só, a velha senil – com a mesma objectividade
nua com que o biólogo observa ao microscópio as errâncias do micróbio. E isto
sem deixar de transparecer, em frequentes passagens da narrativa, um amor que
se percebe incondicional, sem perguntas e sem a expectativa de respostas. Ernaux separa totalmente a personagem
histórica (todos somos personagens históricas, a História é feita tanto de
mesteirais como de príncipes) da personagem afectiva e relacional. Expõe-nos a
mãe com as suas idiossincracias de classe, enformada pelo seu contexto, com os
seus tiques, aspirações e decepções de muito pequena burguesia ascendente.
Esta crueza chocou-me um pouco, ao fechar e arrumar o livro
na estante, pela sua frieza e quase crueldade. Mas pensando melhor, a autora
não fez mais que transpôr para livro algo que também nós fazemos. Fazemo-lo de
forma institiva, quase automaticamente, mas com uma lucidez que se atentarmos
nos surpreenderá. Também nós, dentro das nossas cabeças, concebemos dualmente aqueles
que nos são queridos, pais, filhos, familiares, amigos, separando-os neles e nos
outros eles. Os primeiros são aquele novelo de emoções, de vínculos, de
experiências convividas, de traços de personalidade, que formam o amor e a amizade.
Os segundos, os outros eles, são seres sociológicos, que percebemos sem o
confessar como fruto das suas circunstâncias, das suas origens e comportamentos
de classe, das suas ascensões e decadências na escala social, das suas
possibilidades e limitações culturais ou económicas. Identificamos esses outros
eles de milhentas formas, numa reverência à autoridade, numa pretensão de
melhor gosto, na defesa de uma aparência, na escolha de uma compra, num tique
de grupo ou no ataque a um terceiro.
Normalmente não temos destes outros eles uma percepção
consciente da sua presença. Vivemos a serenidade ou o entusiamo do momento e gozamos o amigo, o
pai, o filho, independentemente do outrém que eles sejam. Mais raramente, num
momento de fastio, de aborrecimento ou de irritação poderemos deixar escapar um
vislumbre destes outros eles em frases mal-humoradas como “às vezes tem a mania”,
“falta-lhe ali qualquer coisa” ou “não se lhe pode pedir mais”, que usamos como
desculpas de um comportamento que não nos agradou. Mas por pouco que estejamos
atentos, estamos cientes. Se nos escrutinarmos com atenção e honestidade, acharemos
dentro de nós todos esses outros eles. E se usarmos de suficiente franqueza, até
o outro eu encontraremos.
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domingo, setembro 02, 2012
sábado, setembro 01, 2012
O estranho caso do homem que não sorria
Agosto é mês de notícias bárbaras, repescadas por
estagiários de jornalismo nos cafundós das agências noticiosas e da “internet”
para preencher páginas de jornal quando a política e a economia de férias
interrompem o fluxo certinho de intrigas e calamidades. Ontem, para fechar o
mês, o Público ostentava em última página, no lugar da habitual crónica do
Vasco Pulido Valente, a descoberta no Camboja de um espécie de peixes que têm o
pénis na cabeça. Eu por acaso conheço
algumas pessoas, homens e mulheres, que têm o pénis na cabeça, só que metaforicamente
falando, mas estava longe de imaginar que a selecção natural tinha mesmo pregado
à natureza uma partida destas. Pergunto-me se a divulgação desta notícia irá
aumentar as receitas turísticas do Camboja, com “charters” de reformadas
nórdicas a banhos no delta do rio Mekong.
Mas a nova mais perturbante do mês veio logo no início, nos
primeiros dias dos jogos olímpicos de Londres, quando a polícia britânica
prendeu um homem que assistia à prova à beira da estrada, no meio da multidão,
com base no mui suspeito indício de ele não estar a sorrir - o que a diligente
autoridade considerou atitude estranha. Veio depois a verificar-se que o senhor
tinha um ricto facial, causado por uma doença, que lhe impedia mover os
músculos da cara, tendo sido libertado com um pedido de desculpas pela maçada.
Razão tem o jornal humorístico Inimigo Público quando adopta como mote “se não aconteceu, podia ter acontecido”. Por muito que os humoristas se esforcem para ampliar as fronteiras do “non-sense”, a pose bacoca de agentes políticos, autoridades e outra malta que se tem por séria consegue num golpe de asa fácil ir sempre mais além. Nos anos setenta, os Monty Python realizaram um excelente “sketch” intitulado “Um conto de fadas”, que se passava num reino chamado Vale Feliz onde se dançava e cantava o dia todo e onde quem se sentisse triste ou infeliz ou tivesse problemas de qualquer tipo podia ser perseguido por desrespeito à “Lei da Felicidade” que o rei Otto tinha promulgado. No início do “sketch” assiste-se a um julgamento de um homem apanhado a resmungar. O advogado de defesa ainda tenta justificar o comportamento do seu cliente com o facto de a mulher dele ter morrido nessa manhã, mas tal desculpa esfarrapada provoca uma gargalhada no tribunal e leva o juiz a condenar o acusado a ser “pendurado pelo pescoço até que fique bem disposto”. Ao fazer esta rábula, os Python teriam bem ciente que a patetice alegre tem uma pitada totalitária, mas provavelmente nem eles esperariam que, quarenta anos volvidos, a polícia de Sua Majestade lhes fizesse concorrência, suspeitando de um homem que não sorria e levando-o para averiguações.
Que os jornais tenham visto como uma anedota de verão que um
homem seja preso por não sorrir no meio do convescote geral, e não se alarmem
diante da evidência de um sintoma grave de mal-estar de uma sociedade
amedrontada, diz muito sobre a imprensa que temos, sobre a sociedade que vamos
tendo e sobre como ambas se realimentam como cobras mordendo caudas. Mesmo na “silly
season”, este evento sabe muito mais a “season” do que a “silly”, infelizmente.
Este episódio lembra-me outro contado por Ray Bradbury. Nos
anos de chumbo do McCarthysmo, Bradbury e um amigo passeavam a pé à noite
quando um carro da polícia parou ao pé deles e um dos guardas lhes perguntou o
que estavam ali a fazer. Bradbury respondeu “a andar”. O polícia pareceu
surpreendido com a resposta e retorquiu, meio-desconfiado:
- Está bem, mas não o
voltem a fazer.
Esta ocorrência inspirou a Bradbury o conto “The pedestrian”,
sobre um futuro ditatorial em que era proibido andar a pé.
De facto, um mundo em que a polícia se sente à vontade para
suspeitar seja de homens que passeiam, seja de homens que não sorriem, não pode
senão levantar receios de uma deriva totalitária a quem tenha dois dedos de
testa. E a mim não me serve a desculpa oficial dos responsáveis ingleses, de que
a polícia agiu prudentemente tendo em conta a multidão reunida, o mediatismo do
evento, o risco do terrorismo, etc. e tal. Repetindo uma tirada de Benjamin
Franklin que já aqui citei no blogue, uma sociedade que põe a sua segurança
acima da sua liberdade não merece nem uma coisa, nem outra.
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domingo, julho 29, 2012
Carta militar à escala 1:25000
Quem já fez provas de orientação no campo sabe da utilidade
dos mapas militares emitidos pelo Instituto Geográfico do Exército. Por muito
perdidos que estejamos no meio do mato, um olhar atento e uma análise comparada
da vizinhança com o conteúdo do mapa e as coisas começam a fazer sentido: um
casebre lá ao fundo, uma linha de alta tensão passando mais acima, uma pendente
abrupta à nossa esquerda, um canavial adiante que denuncia uma linha de água.
Concluímos que devemos estar aqui e que o nosso caminho tem que ser por ali.
Ora desde há uns anos que andamos todos no mato sem saber
para onde vamos. Instalou-se no mundo uma tenebrosa unanimidade onde uma
minoria manda palpites e uma maioria repete-os, todos dizendo que só há um
caminho e que é por ali, e alegremente nos empurram, inconscientes se no fim do
trilho há um destino ou um precipício.
Completamente por acaso, veio-me parar às mãos um livrinho
que está para os dias extraviados que correm como a carta militar à escala
1:25000 está para os momentos de desorientação no baixo de uma ribanceira. Encontrei-o
no aeroporto de Schiphol e chamou-me a atenção a capa com uma avestruz em pose economista
e o título “23 coisas que não lhe dizem sobre o capitalismo”. O autor, Ha-Joon
Chang, não pertence, apesar do seu nome e do nome do seu livro, ao comité
central do PC chinês: é sul-coreano e professor de economia na modestinha universidade
de Cambridge. Apesar da capa titular
ainda “The No. 1 international best-seller”, género de referência que me deixa sempre
de pé atrás, acabei por trazer e ainda bem.
O livro organiza-se em 23 capítulos mais uma curta
conclusão. Cada um dos capítulos fala sobre uma “coisa”, uma ideia feita
papagueada pelo grosso dos políticos, dos académicos e dos média, que Chang,
com sabedoria oriental e humor britânico, se entretém a desmontar com
argumentos, contra-exemplos e - pasme-se - números e dados reais. Depois de o
ler, podemos pelo menos alimentar uma dúvida legítima sobre se existe mesmo uma
coisa chamada mercado livre, se as companhias são efectivamente geridas no
melhor interesse dos seus accionistas, se o crescimento da riqueza dos mais
ricos arrasta de facto o crescimento da riqueza de todos, se precisamos para
alguma coisa de mercados financeiros mais eficientes ou se até precisamos deles
menos eficientes, etc., etc., etc.
Desmontando um a um cada um desses chavões que os fazedores
de opinião nos vendem como sendo saber, Chang vai desenvolvendo a tese segundo
a qual a forma de capitalismo que desde os anos oitenta do século passado é
apresentada como a via única e o fim da História não passa de um versão parcial
e ideológica, um pouco como o whabismo saudita que hoje se confunde geralmente
com islamismo não representa a largura do pensamento e a profundidade da
história do Islão. O que Chang diz é que o capitalismo é muito mais do que a
salsada conservadora e neo-liberal que nos tem sido servida. Tem muitas
virtudes mas também defeitos que têm que ser considerados, controlados ou
contornados, usando de juízo e capacidade crítica.
E é a falta desta capacidade crítica que, no último capítulo
(a “coisa” 23, intitulada “Boas políticas não precisam de bons economistas”), mais
consegue revoltar Chang, afastando-o do seu misto de fleugma britânica e
serenidade asiática. Professor de economia, dá uma violenta rabecada na classe
e indigna-se com as desculpas esfarrapadas com que colegas seus da academia
explicam a incapacidade que tiveram de antever a actual crise e, pior ainda, de
ver retrospectivamente o papel que a visão única do chamado neo-liberalismo
teve no acumular e explodir da crise. Chang reconhece que a economia tal como
aplicada nos últimos trinta anos tem sido “pior do que irrelevante”: tem sido
danosa para as pessoas. E adianta que isso acontece porque os economistas
actuais esqueceram que a economia se pensa, que os grandes vultos se estudam e
que olhando para trás ainda há muita informação útil para usar. Comparando, se
o que aconteceu aos economistas acontecesse com os engenheiros, seria como se estes
esquecessem de repente Newton, Maxwell ou Planck para seguir aqueles inventores
charlatães que periodicamente clamam que descobriram o motor contínuo de
primeira espécie que vai tirar a humanidade da miséria.
“23 coisas que não lhe dizem sobre o capitalismo” é um livro
livre para leitores livres. Desvenda uma porta até aí secreta no cubículo sem
saídas do pensamento actual. Cabe-nos a nós, leitores, perceber se queremos
sair por essa porta ou ficar onde estamos, à espera que outra apareça.
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sábado, julho 28, 2012
As modernas sesmarias
Foi com algum desapontamento que vi no Expresso do último
sábado, naquela secção dos altos e baixos da semana, o ministro Mota Soares
alteado pela sua iniciativa de obrigar os beneficiários do Rendimento Social de
Inserção a trabalhos úteis para a sociedade. É certo que os altos e baixos não
são sítio para jornalismo de jeito, ou jornalismo de todo. E é certo que
vivemos tempos propícios à asneira, tempos pastosos em que as noções de bem e
de mal se perderam no breu da noite de abandono moral que caíu sobre o mundo. Mas ainda assim não
estava à espera de ler no Expresso - um jornal que se reclama de referência, um
jornal que ousava falar de democracia quando publicado nos tempos já longíquos
de uma ditadura formal - um elogio aos trabalhos forçados.
No outro dia, o meu filho mais velho perguntou-me o que eu
achava de ele praticar voluntariado, como agora se diz, numa iniciativa
qualquer da sua universidade. Eu respondi-lhe que me parecia bem, com duas
condições: não se sentir no direito de julgar quem ajudasse e não esperar que
lhe tivessem que ficar agradecidos. Se conseguisse reuni-las, teria sido de
facto generoso e poderia deitar-se ao fim desse dia de consciência tranquila e
dormir o sono de um justo. O papel de um pai é também este, o de alertar um
filho para os perigos desta vida, e não há perigo maior do que pegar num acto
nobre e abastardá-lo pela soberba.
Conheço gente que leva a cabo trabalho do mais meritório, do
mais útil para quem sofre e para quem precisa, seja de um pacote de leite, seja
de uma palavra de consolo. Tenho um grande amigo com obra feita nesse domínio,
merecedora de qualquer encómio, que no entanto diz a quem o quer ouvir que os
beneficiários do subsídio de desemprego deveriam ser obrigados a ajudar em
obras de voluntariado. Perturba-me que ele não perceba que tal pensamento não só
contradiz como apequena a sua excelente prática. Perturba-me isto até mais do que
me confunde a noção de que o voluntariado pode não ser voluntário. Não deveria
então chamar-se obrigatoriado?
Uma sociedade pode organizar-se numa base mutualista, em que
todos pagamos impostos para ter direito a um seguro se por azar perdermos o
emprego ou adoecermos gravemente, ou assistencialista, em que quem está em estado de necessidade tem que
procurar a caridade para ser ajudado. Pessoalmente, acho a primeira via muito
mais eficiente e civilizada do que a segunda e, como tenha a civilização em melhor
conta que a barbárie, recomendo-a vivamente. A caridade deveria agir como último
recurso apenas quando um sistema básico de solidariedade colectiva falhasse.
Lamentavelmente, obrigar quem se ajuda a um qualquer trabalho, por muito socialmente
útil que o mesmo pareça, não é nem mutualista nem assistencialista, do modo que
acima defini. O adjectivo que assim à primeira me ocorre é esclavagista. Coagir
quem se pretende ajudar a um qualquer trabalho ofende a dignidade das pessoas
como ofende a dignidade do trabalho.
Pelos vistos, a ideia infeliz do meu amigo foi
aproximadamente retomada pelo ministro Pedro Mota Soares. Quer o ministro que
os beneficiários do Rendimento Social de Inserção procurem activamente emprego,
se quiserem manter essa benesse. Parece-me bem que o façam: esses beneficiários
estão a utilizar um recurso escasso que é o dinheiro dos nossos impostos que
faz falta para que outros não percam o seu emprego, a hipótese de ter os seus
filhos ensinados ou a oportunidade de ver o seu cancro tratado. Quer o ministro
acabar com as fraudes no RSI. Parece-me excelente que o consiga, pelas mesmíssimas razões: abusar do RSI é como
roubar os medicamentos do coração ao velhote que anseia pela chegada da magra
pensão para os poder comprar. Quer o ministro obrigar aqueles que auferem o RSI
a trabalhos úteis. Parece-me péssimo. Que trabalhos? Em que condições? Com que
paga? Que eu tenha conhecimento, ao longo da História, gente que trabalhava
forçadamente ou era escrava, sob diversos nomes (servo, hilota, etc.), ou era
prisioneira. Em qual destas categorias enquadraríamos os beneficiários do RSI coagidos
a trabalhar? Escravos ou prisioneiros?
Talvez o ministro devesse tirar sentido do exemplo ocorrido
com a Lei das Sesmarias de el-rei D.Fernando, que aprendemos na quarta classe. Procurara
D.Fernando atender à dramática falta de mão-de-obra rural com um conjunto de
regras, umas que ainda hoje fariam sentido para muita gente, mas outras, como a
que recomendava que os “mendigos em idade e força suficientes fossem presos e
obrigados a trabalhar pelo sustento ou por soldada”, que só fariam sentido àqueles
que acham que a pobreza é pecado. Pois o que aconteceu foi que, apesar destas
obrigatoriedades todas num tempo em que havia tropa suficiente e arbitrariedade
muita para as fazer respeitar, a Lei das Sesmarias poucos resultados deu. O
mesmo D.Fernando, noutra frente, fomentou duas bolsas de seguros marítimos, em
Lisboa e no Porto, organizadas cooperativamente, que cobravam aos armadores dois
por cento dos fretes e garantiam a recuperação do valor do navio àqueles que os
perdessem. Tais bolsas, muito inovadoras à época, tiveram um grande sucesso e
foram fundamentais para o desenvolvimento da actividade naval que suportou o
surto das nossas Descobertas. Onde quis obrigar, fracassou. Onde procurou a
cooperação, teve sucesso.
De todos os tempos, as sociedades de homens livres sempre se
deram melhor que as sociedades de escravos. Porque não também hoje?
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segunda-feira, julho 16, 2012
Fumo sobre a água
Morreu hoje de cancro Jon Lord, 71, fundador dos Deep Purple e que partilha com Ray Manzarek dos Doors e Dave Greenfield dos Stranglers o pódio indiscutido dos melhores organistas do "rock".
Lord tem sobre outros que vão indo a vantagem de não só deixar saudades como deixar músicas, grandes momentos à distância de um clique de rato no "youtube".
Mataspeak não é muito dado a obituários, mas o que tem que ser, tem que ser. Os Deep Purple são as minhas primeiras audições de "hard rock", os cabelos compridos que eu queria ter aos doze anos, os únicos acordes de guitarra que eu sabia tocar, o abanar o capacete ao som do "Made in Japan", a festa em Sassoeiros em que o "Highway Star" tocou repetidamente das duas até às oito da manhã após o que apanhámos o comboio e fomos em magote ao Rossio à pastelaria Suiça comer "duchesses" com a alarvidade dos dezasseis que chocou as velhotas matinais. E em todas estas memórias toca lá ao fundo o orgão de Lord.
O álbum Deep Purple in Rock, de 1970, é a ideia platónica de um disco de "hard rock", de que todos os outros são cópias degeneradas. Em homenagem a Jon Lord (e porque vale mais a pena do que desperdiçarem os próximos dez minutos e vinte segundos da vossa vida com outra treta qualquer) ouçam, desse disco, o "Child in time".
Lord tem sobre outros que vão indo a vantagem de não só deixar saudades como deixar músicas, grandes momentos à distância de um clique de rato no "youtube".
Mataspeak não é muito dado a obituários, mas o que tem que ser, tem que ser. Os Deep Purple são as minhas primeiras audições de "hard rock", os cabelos compridos que eu queria ter aos doze anos, os únicos acordes de guitarra que eu sabia tocar, o abanar o capacete ao som do "Made in Japan", a festa em Sassoeiros em que o "Highway Star" tocou repetidamente das duas até às oito da manhã após o que apanhámos o comboio e fomos em magote ao Rossio à pastelaria Suiça comer "duchesses" com a alarvidade dos dezasseis que chocou as velhotas matinais. E em todas estas memórias toca lá ao fundo o orgão de Lord.
O álbum Deep Purple in Rock, de 1970, é a ideia platónica de um disco de "hard rock", de que todos os outros são cópias degeneradas. Em homenagem a Jon Lord (e porque vale mais a pena do que desperdiçarem os próximos dez minutos e vinte segundos da vossa vida com outra treta qualquer) ouçam, desse disco, o "Child in time".
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Nostalgias
domingo, julho 15, 2012
Exposição fotográfica (XXXVIII)
Hoje voltei a Vila Nova da Barquinha visitar o velho Mata. No cais Pombeiro, o Tejo corria vazo.
O sol entretinha-se a pintar a carvão nos empedrados e paredes.
Mas há cores que só a cor pode reproduzir. Uma instalação do artista plástico Xana, residente em Lagos, com uma casa alentejana feita em caixas de mercado plantada em pleno Ribatejo.
NOTA: Durante algum tempo a legenda da imagem acima continha dois erros: Xana era dado como mulher algarvia quando é homem lisboeta. Os erros resultam ambos de precipitação minha: retirei o nome do autor e a referência a Lagos da plaquinha ao lado da obra e, sem o conhecer, deduzi o que não devia. As minhas desculpas ao Xana e o meu agradecimento à leitora que me comunicou o erro.
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Exposição fotográfica
sexta-feira, junho 15, 2012
Cenas malaias
Infelizmente de toca e foge como é frequente em trabalho,
passei três dias em Kuala Lumpur, na Malásia. O meu dia passava-se entre Bukit Bintang,
uma zona de modernos e pujantes centros comerciais onde ficava o meu hotel, e o
centro de congressos das torres gémeas da Petronas, outra zona de modernos e
pujantes centros comerciais. Entre uma e outra, um passeio de cinco minutos a
pé por um ponte pedestre, fechada e com ar condicionado, que me salvou de uma
morte certa destilado no meu fato e gravata pelos trinta e muito graus e
noventa por cento de humidade que esperavam cá fora.
Não sei se se pode aprender alguma coisa sobre um país
cirandando entre centros comerciais de aço e vidro, mais duas viagens de táxi
por modernas autoestradas de e até ao aeroporto. Talvez sim.
Modesto centro comercial em Bukit Bitang, onde começava o meu dia.
A bendita passadeira com ar condicionado.
As
torres gémeas da Petronas, até 2004 o maior edifício do mundo, 452
metros de aço, vidro e orgulho nacional junto às quais eu congressava.
Ainda a passadeira, agora vista de dentro.
Tirei
esta foto num corredor pouco iluminado num centro comercial, com 1/4 de
segundo de velocidade de obturação e com um gesto rápido para não me
fazer notar, sabendo que iria ficar tremida. Mas esta imagem capta muito
da cor desta cidade, que é também trazida pelas pessoas e pelos trajes
tradicionais que convivem com naturalidade com a roupa ocidentalizada,
ou melhor dizendo, universal nos dias de hoje.
A
Malásia é multi-étnica. Localmente, definem-se como malaios de estirpe,
ou "bumiputra", aqueles que professam a religião muçulmana e seguem os
costumes tradicionais. Os "bumiputra" são um pouco mais de metade da
população e a constituição local dá-lhes um estatuto politicamente
preferencial. Independentemente da etnia, os malaios são atenciosos,
sorridentes e simpáticos.
É
manifesto que o islamismo em Kuala Lumpur é muito mais tolerante do que
noutras partes do globo. É normal ver raparigas jovens que usam o véu
sobre o cabelo, mas estão de "tee-shirt" justa, "jeans" apertados ou
"leggings" e vão de mão dada com o namorado, coisa impensável no mundo
árabe, mesmo nos mais abertos Dubai ou Qatar. Kuala Lumpur mostra-nos
que o fundamentalismo islâmico é fundamentalista porque é
fundamentalista e não porque é islâmico, coisa que nós, portugueses,
deveríamos saber lendo a História do nosso país.
Num supermercado, a zona do talho tranquiliza o consumidor: a carne é "halal", como o Profeta faz questão.
Cerca
de um quarto da população da Malásia é chinesa e budista. A comunidade
chinesa, muito presente no comércio, distingue-se bem da malaia (em
particular por não usar véu).
Esta imagem poderia simbolizar a convivência natural entre duas culturas: chinesa e malaia cruzam-se em Jalan Raja.
Kuala
Lumpur oferece de facto mil grandes possibilidades de refeição, para
quem tenha o estômago recauchutado. Um dos meus pequenos-almoços foi
arroz com camarão picante.
Os
táxis de Kuala Lumpur dão muita cor à cidade. A minha única conversa a
sério com um malaio, tive-a com o taxista que me levou ao aeroporto.
Começámos a trocar bolas sobre Cristiano Ronaldo, continuámos com a má forma da
seleção da Malásia, com o tempo instável que fazia, a construção do novo bairro
governamental, a política local, a obra do anterior presidente da
república e acabámos a falar dos nossos filhos (os dele, de oito e dez
anos, gostavam muito de McDonalds). Tudo com uma naturalidade que eu
julgaria impossível num carro de praça. Em Kuala Lumpur não se constata
só que se pode ser muçulmano sem se ser fundamentalista. Também se
descobre que se pode ser taxista sem se ser básico.
A
economia malaia está com uma saúde que nós, europeus, andamos a
invejar. Muito desse dinheiro passa por bancos islâmicos, como este.
Estes bancos fazem finança sem fazer empréstimos com juros, que são proibidos
pelo Corão. É a finança islâmica. Como é que funciona? Já me tentaram
explicar, mas eu não captei a subtileza e fiquei com a impressão que
faziam o mesmo que os outros, só que com outro nome.
Essa
saúde económica traduz-se numa cidade moderna, uma pequena Manhattan
dos trópicos. Aqui, à direita, o luxuoso hotel Mandarin Oriental.
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Exposição fotográfica
sábado, junho 09, 2012
O milagre de cada dia nos dai hoje
“Então Jesus disse às autoridades dos Judeus: “Eu vos
garanto: o Filho não pode fazer nada por sua própria conta; Ele faz apenas o
que vê fazer ao Pai. O que o Pai faz, o Filho também o faz.””
João 5,19
O meu sogro esperava pela visita num banco do bonito claustro do Hospital de Santa Marta, numa tarde de sábado primaveril após uma delicada operação em que substituíra ambas as carótidas. Assim que chegámos levantou-se e perguntou, com um ligeiro tremor na voz, com aquela ânsia por um momento de quem certamente pensou que poderia não ter mais momentos e por isso lhes dá um novo valor:
Respondemos-lhe mentindo que não viera e ele esboçou um ar
desapontado. De repente, o meu primeiro filho, à altura seu único neto, surgiu
de trás da sebe pela mão da minha sogra, bamboleando no andar trôpego próprio
do seu ano de idade. E imediatamente, ao vê-lo, o meu sogro sorriu incontido,
um sorriso feito de uma felicidade radiante e de olhos embargados por lágrimas.
Há dias, o meu sogro precisou de mais uma manutenção, desta
vez de motor aberto para substituir uma válvula da aorta. O menino que saíra de
trás da sebe foi visitá-lo após a intervenção ao mesmo hospital de Santa Marta,
só que desta vez conduzindo o seu carro. Tinham passado vinte anos na vida de
ambos.
Ora isto parece-me caber razoavelmente na descrição de
milagre, tal como a afiança o dicionário: acto ou acontecimento fora do comum,
inexplicável pelas leis naturais. Pelas leis naturais, o meu sogro teria
morrido aos cinquenta e tal anos e não teria tido a hipótese de uma segunda, e
agora terceira, oportunidades. Há trinta ou quarenta anos, seria o que teria
acontecido. Entretanto a ciência e a vontade dos homens de boa vontade
permitiram que se desenvolvesse e divulgasse esta coisa tão bizarra: abrir o
pescoço a um tipo à facada, cortar-lhe as artérias, pôr-lhe lá umas novas e
fechar deixando tudo a funcionar mais ou menos como dantes: milagre, sem
dúvida.
Os cirurgiões que levaram a cabo essa proeza, uma de muitas
no seu dia e na sua semana, concentrados que estavam na minúcia que o seu labor
exige, não pensaram provavelmente que com os seus golpes de bisturi estavam a
criar tempo. Mais vinte anos de neto para este avô e mais vinte anos de avô
para este neto. Vinte mais vinte somam quarenta anos, o que faz já meia vida
bem vivida. E se adicionarmos os vinte anos do marido, os da esposa, do pai, da
filha, do filho, dos netos que ainda não tinham nascido, para além dos do
próprio, começamos a falar de séculos de vida que tiveram origem naquela sala
de operações, nas mãos enluvadas daqueles médicos e enfermeiros que como num
retábulo desenharam o peculiar milagre. Um milagre que não aconteceu nas
azinheiras de Fátima nem nas águas do lago Tiberíades, mas sim na Rua de Santa
Marta, na freguesia do Coração de Jesus em Lisboa. O nome da freguesia não
podia ser aliás melhor coincidência porque, ao fim e ao cabo, entre Aquele que deu
vida à filha de Jairo e aqueles que deram vida ao meu sogro, a única diferença
relevante são dois mil anos. Um como outros partilharam um dom divino, como bem
explica São João Evangelista no versículo em epígrafe.
Com maravilhas tão quotidianas e tão evidentes no meio da
sala à vista de todos, espanta-me que tantos neste mundo procurem milagres
esotéricos por detrás dos cortinados herméticos do saber dito verdadeiro ou do
conhecimento dito ancestral. Apetece-me gritar-lhes, como no “Ensaio sobre a
Cegueira”: se puderem olhar, vejam; se puderem ver, reparem.
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