domingo, março 25, 2012

Exposição fotográfica - Edição especial USA - Nova Iorque

Ponte de Brooklyn

Estátua da Liberdade vista do "ferry"

Christopher Street em Greenwhich Village

Homenagem a John Lennon em Strawberry Fields, no Central Park

Lincoln Center

Ossadas de autarcas portugueses no Museu de História Natural

Rose Center for Earth and Space

Catedral de São João o Divino em Morningside

Cais fluvial em Staten Island

Entrada do "ferry" para Staten Island

Strivers Row no Harlem

O "subway"

Cemitério da Igreja da Trindade, em Lower Manhattan

sábado, março 24, 2012

EUA (II) – Da democracia na América

“Zapping” de fim de tarde pelos quarenta canais disponíveis no quarto de hotel, todos norte-americanos, as pernas moídas por umas quantos milhas de Manhattan nos butes. Aplico o método das observações instantâneas ao que vai aparecendo no ecrã e deduzo que o tempo de antena se distribui a 40% para publicidade e em partes aproximadamente iguais de 20% entre desporto (nesta altura sobretudo basquete universitário), séries (policiais ou “sitcoms” de gargalhada enlatada) e noticiário. De facto muito anúncio para pouco no meio. Pergunto-me se os americanos aguentarão pacientemente ser interrompidos de dez em dez minutos por reclames que entram de chofre sem separador nem aviso prévio. Provavelmente sim, porque aqui na terra dos “mad men” o “marketing” não dá ponto sem nó e se alguém paga milhares pelo anúncio é porque há seguramente muitos mais milhares a vê-lo. Apesar da praga, tento concentrar-me nos noticiários.

Aqui, muitos telejornais são centrados no “pivot” como se de um artista de variedades se tratasse. É o “show” de fulano, o “daily news” com sicrano. Fulano convida os comentadores da notícia, sicrano debate com os seus convidados. Fulano e sicrano opinam. Opinam muito e opinam forte. E seguindo e amplificando uma tradição bem anglo-saxónica da imprensa, tomam partido.

As primárias republicanas são o tema da semana. Sob a pressão da extrema-direita evangélica do “Tea Party”, o candidato oficioso Mitt Romney tem que se fingir muito conservador para ofuscar o oponente Rick Santorum, um imbecil puro e duro para padrões europeus mas que no “deep south”, como aqui chamam às berças, arrasta muita simpatia. Ora o meu quarto de hotel na 45ª avenida de Nova Iorque está bem no meio da Nova Inglaterra, numa zona do país tradicionalmente liberal, no sentido que essa palavra tem na América, que agrega tolerância nos costumes e um certo esquerdismo político traduzido na aceitação de algum papel social do Estado. Hoje (nem sempre foi assim) o partido Democrata vence nestas zonas. Por isso, os canais que apanho têm sobretudo “pivots” alinhados pelos Democratas, que zurzem sem piedade no reaccionarismo dos republicanos. Recordo por exemplo um título de notícia que era “O espectáculo de palhaços continua nos republicanos”.

Para um europeu médio como eu, educado na crença que só a assepsia traduz objectividade, isto pode parecer pouco sério. Mas, vendo bem, não é. É muito sério. Quando Rick Santorum ataca a separação da Igreja e do Estado com expressões como “isso faz-me vomitar” ou defende a proibição de casais casados usarem contraceptivos “porque o Estado tem obrigação de intervir na vida das pessoas”, faz sentido que um “pivot” de televisão diga com todos os efes e erres “é a democracia que este gajo está a pôr em perigo”? Vendo com olhos de ver, faz todo o sentido.

De repente, entre os anúncios a detergentes e os directos ao basquetebol com gazelas negras a afundar a bola no cesto, o meu plasma no quarto 1426 põe-se a debitar discussões acaloradas sobre separação da Igreja e do Estado, sobre a liberdade de consciência, sobre o equilíbrio de poderes entre a esfera legislativa, executiva e judicial,  sobre o simbolismo da democracia. No ecrã, fulano e sicrano esgrimem com os seus convidados um debate ideológico sobre quão perigoso é beliscar sequer as bases do edifício democrático sem que ele comece a ameaçar ruína.

De repente, tudo me parece tão diferente desta Europa em que instituições financeiras conseguem trocar governantes eleitos por tecnocratas recomendados por credores sem que na imprensa ou nas ruas se levante um vozeirão a dizer “é a democracia que estes gajos estão a pôr em perigo”. Em que os países mais fortes impõem aos mais fracos que inscrevam nas suas constituições uma ideologia particular sem que os “pivots” de televisão, normalmente tão excitados com a pequena política dos Passos Perdidos ou dos prefácios presidenciais, se aventurem a pôr a nu que “é a democracia que estes gajos estão a pôr em perigo”. Em que o populismo consegue levar a  julgamento na Islândia um primeiro-ministro por um nóvel crime chamado má governação, sem perceber que a responsabilidade de quem elege é igual à de quem é eleito, e não há uma alminha pensante que se indigne e grite “é a democracia que estes gajos estão a pôr em perigo”.

De repente, baixo a minha bolinha de europeu presunçoso com os meus preconceitos sobre os americanos ignorantes e constato que não é só na economia que eles estão melhor do que nós.  Pelo menos aqui estão a debater os assuntos sérios com ar sério e chamando os bois e os burros pelos nomes. Pelo menos aqui há mais do que um pensamento autorizado. Pelo menos aqui há gente a dizer em “prime time” que há limites e que quando se passa para além dos limites deixa-se de estar do lado de cá dos limites.

Para o visitante, seja Tocqueville há quase duzentos anos, seja eu agora, a abordagem norte-americana à questão democrática não pode deixar de fascinar. Logo a começar nas origens, em que meia centena de burgueses analisaram a História e construiram a regra e esquadro uma constituição igualitária, baseada na crença que só a dispersão do poder e a sua verificação através de mecanismos de controlo mútuo poderia perpetuar o regime e protegê-lo de ameaças totalitárias. Daí os “checks and balances” entre estados grandes e estados pequenos, entre os estados e o Estado central, entre o poder executivo e o poder judicial, entre a câmara alta e a câmara baixa, entre os poderes formais e os fácticos como a imprensa.

Fascina também o apego reverente que têm ao simbólico da sua democracia, aos nomes dos pais fundadores  que a desenharam, ao significado da representação e da responsabilidade políticas, ao valor da liberdade individual e do seu contributo para a mobilidade social, ao papel da memória colectiva. Fascina até, de uma forma que aos olhos do nosso cinismo parece quase infantil, o respeito aos símbolos da nação - bandeira, hino e presidente - como representações de uma construção colectiva.
 
Obviamente, a sociedade americana tem muitos e graves defeitos, como qualquer amálgama de homens e mulheres. Deles mais à frente falarei. Nela dormem monstros que periodicamente acordam e vêm à superfície e fazem grandes estragos e quase parecem que a vão dominar de forma irresistível: o esclavagismo e depois o racismo instituído, o complexo militar-industrial, a máfia policial de Edgar Hoover, o “McCarthismo”, hoje o fascismo religioso. Apesar disto, a democracia americana conseguiu sobreviver dois séculos e meio. Durante esse tempo, para se defender dos inimigos internos, conseguiu fazer sempre o necessário, por extremas que fossem as consequências: Lincoln combateu uma guerra civil, Roosevelt reergueu o país com o músculo económico do Estado, Kennedy mandou as tropas para garantir que um estudante negro tinha aulas na faculdade, dois jornalistas levaram um presidente à demissão e o povo mostrou votando que, contrariamente ao que ocorre na Europa, um membro de uma minoria étnica pode chegar à Casa Branca.

Parece pois que Washington, Madison, Hamilton, Jefferson, Franklin e os outros que com eles começaram esta curiosa experiência política chamada Estados Unidos podem dormir descansados o seu sono dos justos. O edifício tem-se aguentado e vê-se que há muitos moradores empenhados na boa conservação do prédio.  Já Schumann e Monet, coitados, devem estar às voltas na campa com o que vêem hoje na construção europeia, ameaçando ruína às mãos de um bando de “hooligans”.

sábado, março 03, 2012

Exposição fotográfica - Edição especial USA - Stars and stripes

Empire State Building, NY

St. Paul's Chapel, NY

Trabalhos no "Ground zero", NY

Atravessando o rio Hudson no Staten Island Ferry

Quinta avenida, NY

Peter Minuit Plaza, NY

Vietnam's Memorial, Washington

George Washington Memorial, Washington

EUA (I) - Passeando no Harlem a um domingo de manhã

O forasteiro que saia em Nova Iorque do túnel de metro para a superfície rodopia algumas vezes sobre si próprio de cabeça para o ar e mapa na mão para se localizar na quadrícula ortogonal das ruas de Manhattan. Um erro de orientação e podem ser uns quarteirões em vão, com um ir incerto e um vir desapontado.

Cumprido esse ritual, seguimos pela 125ª, também Martin Luther King Boulevard, para um primeiro passeio nova-iorquino pelas ruas de Harlem. Apesar de ser domingo, muito comércio não perde oportunidade. Bancas na beira das calçadas generosas propõem roupa barata ou enigmáticos perfumes caseiros, embalados em vidrinhos refundidos com etiquetas escritas à mão. A personalidade de bairro da comunidade negra ou, como aqui recomenda o politicamente correcto, afro-americana,  é inequívoca: os quantos brancos e amarelos que se vêem estão a passeio, de máquina fotográfica a tiracolo, guia na mão ou olhar hesitante. De conversa animada à porta dos cafés, carregando pesados sacos com as compras matinais ou janotas e de andar célere a caminho da missa, vê-se que os negros estão em sua casa. Chegam-nos laivos de vozeiro dominical com um sotaque que conhecemos dos filmes discutindo as primárias republicanas ou os resultados do basquete.

Do outro lado da rua, o centenário teatro Apollo aparece como primeira referência. Olho para o mapa, vamos no sentido certo. O Apollo foi construído em 1913 como casa de ópera reservada a brancos. Só em 1934 o empresário Frank Schiffman, ele próprio um branco, o abriu a todas as raças na plateia e a ases de espadas e paus no palco como Duke Ellington ou Billie Holiday. Às quartas-feiras tinha lugar a “amateur night”, um concurso em que o público votava o vencedor, premiando ilustres desconhecidos como a menina Sarah Vaughan ou o jovem James Brown. Todo o grande “jazz” por ali passou com regularidade: as “big bands” de “swing”, Charlie Parker, Thelonius Monk, Dizzy Gillespie, etc., etc. Como infelizmente sofre obras de restauro, deixamos para trás aquele pedaço de História entaipado e viramos para norte na sétima avenida, aqui já crismada Adam Clayton Powell Junior Boulevard em homenagem ao primeiro negro congressista.

A mitologia induzida nas nossas ignorantes cabeças por anos de cinema e séries policiais levava-nos a vir com receio de encontrar um lugar perigoso e algo miserável. Burrice: o Harlem é um bonito bairro residencial seguro, de avenidas largas, passeios amplos e prédios de estatura moderada com a típica arquitectura nova-iorquina do princípio do século XX. Se algo o diferencia dos seus vizinhos brancos mais a sul é a ausência do frenesim perpétuo de Times Square ou da quinta avenida.

Domingo de manhã é manhã de missa no Harlem. Nas ruas vemos grupos dirigindo-se de passo estugado para as celebrações ou vindo delas, em alegre conversa. Em Harlem a missa é assunto sério e vai-se como se vai a um casamento: os homens de fato e gravata, as mulheres de vestido de cerimónia. As mais jovens com vestidos coleantes sem ser ousados, as mais idosas com pregadores luzentes e vastos chapéus espectaculares que lembram os das inglesas nas aristocráticas corridas de cavalos em Ascot. Vários pequenos locais de culto espalham-se pela avenida, sumidos no casario dos quarteirões. Quando a porta de um deles se abre, ouve-se o coro num sonoro “gospel” e o pastor num cantar gritado lembrando à congregação que há que louvar o Senhor.

Tentamos ir assistir à cerimónia na Igreja Baptista Abissínia, a mais célebre do bairro. Infelizmente não somos os únicos: a fila de estrangeiros multilingues dá a volta ao quarteirão, organizada por dois ou três paroquianos – se é que esta palavra se aplica entre protestantes, o que duvido. Vão-nos repetindo que apenas há duzentos lugares para visitantes e informando-nos das datas das próximas celebrações. Enquanto aguardamos um rapaz aproveita a aglomeração para tenta vender o seu próprio cêdê pirata, apregoado como o verdadeiro “hip-hop” do Harlem: “the real thing”. A dado momento, um faíscante Ferrari vermelho descapotável estaciona em segunda fila e dele saiem dois jovens negros impecáveis nos seus fatos cinzentos e gravatas lisas. Deixam o Ferrari aberto e seguem tranquilamente para a missa. Manifestamente sabem que não lhes mexerão na viatura, o que nos leva a suspeitar de malta da pesada (cá está a má influência das séries policiais).


Infelizmente não conseguimos entrar nos duzentos eleitos e seguimos caminho. Contornamos o quarteirão e passamos no número 108 da rua 139, onde morou uma Billie Holiday à procura do primeiro emprego, depois pela burguesa Strivers Row onde alguns portões ainda recomendam cautelas de outras eras: “ leve os cavalos a passo”. Deixamos o bairro pela avenida Saint Nicholas, em direcção à vizinhança chique de Hamilton Heights, dominados lá do alto pelo xisto e a arquitectura gótica do “City College” e pela colunata colonial da residência de Alexander Hamilton. Para trás fica o sossego do Harlem de domingo de manhã que apagou da minha memória o Harlem suspeito e inquietante das histórias filmadas como um ficheiro esmaga outro no ronronar de um disco rígido de computador.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Exposição fotográfica - Edição especial USA - People in art

 No Museum of Modern Art, Nova Iorque, a 20 do corrente

 Homem numa pintura de Jackson Pollock

Homem numa pintura de Barnett Newman

 Senhora num bronze de Donald Judd

 Família numa instalação de Daniel Buren

 Jovem numa pintura de Andy Warhol

  Jovem numa pintura de Frank Stella

sábado, fevereiro 11, 2012

Regresso à noite


Tudo começou num SMS do meu amigo P1, apitando façanhudo em cima da cómoda numa quinta já tarde: “Tokio noite amanha. Queres?”

Circula um mito urbano que o P1 não domina bem essa parte do telemóvel, minimizando por isso as mensagens como antigamente se poupava nos caractéres dos telegramas, o que explica as linhas herméticas que costuma enviar. A cripticidade da mensagem, com aroma de serviços secretos, poderia intrigar terceiros mas não a mim: Tokyo, não capital do Japão mas discoteca ao Cais do Sodré. Nos finais dos anos setenta, quando todas as discotecas de Lisboa ribombavam “funky” e “disco”, havia apenas três portos seguros para ouvir outra música, todos alinhados na Rua Nova do Carvalho, imperturbados no meio dos Copenhaga e Arizona de marujos e mulheres da vida que polvilhavam a rua: o Jamaica, o Tokyo e o Shangri-la. Num deles nos encontrariam possivelmente nas noites de sexta e sábado, de cerveja na mão, ouvindo Clash ou Peter Tosh. Ao Tokyo não havia voltado nos últimos trinta anos.

Cheguei ao fim do dia seguinte arrebentado de um dia e de uma semana extenuantes. Pensei em desmarcar a minha ida ao Tokyo, mas tinha empenhado a minha palavra e fiz um esforço, decidindo no entanto que regressaria cedo depois de ter picado o ponto. E assim fui, recolhendo de caminho o P2, a X e a I em casa do primeiro.

Aparcámos no Largo do Corpo Santo, entre árvores que bebem a água salobra do Tejo. Um sem-abrigo aproximou-se, envolto em roupas díspares e mantas que se acumulavam em torno dele como películas de uma cebola, arredondado-lhe o perfil. Pediu-me a moeda da praxe e em retorno informou-me que a cancela abriria à meia-noite, permitindo uma borla. Ambas praticantes de voluntariado, a X e a I inquietaram-se com o homem, perguntando-lhe se já tinha jantado e receberam em troca da bondade uma licenciatura instantânea:

- As doutoras também costumam trazer comida?

Nos painéis digitais, fogachos de contemporaneidade num pedaço de Lisboa adormecido no passado, os termómetros anunciavam três graus. Era a noite mais fria do ano, mas de um frio límpido, seco, invisível, sem névoa, que só se notava nos corpos atabafados e nos pescoços encolhidos dos passantes. Grupos de jovens cruzavam-nos, deixando-nos nos ouvidos farrapos de façanha, risos femininos. Num passeio, dois sem-abrigo ensaiavam uma estranha coreografia, de uma demência etilizada. Um gritava frases soltas enquanto batucava uma pandeireta nos braços erguidos. O outro simplesmente assistia de olhar vazio. Não me lembro de há trinta anos haver tantos homens miseráveis na rua. Na altura não se instalara ainda a patetice desculpabilizante do “politicamente correcto” e chamávamos-lhes vagabundos, embora provavelmente eles não saíssem do seu sítio. Mas ou os meus olhos não estavam então tão abertos – o que é possível – ou então o número aumentou, inflado pelo nosso muito europeu progresso – o que é provável.

Na Rua dos Remolares entrámos na nossa primeira paragem, um bar irlandês revestido a madeiras e debilmente iluminado por uma luz coada por abajures verdes. Ao fundo, empoleirados ao balcão em bancos altos de “saloon”, o P1 e a J já esperavam, de copo na mão. Saudaram frases inaudíveis, sumidas no estrilho da música irlandesa de bandolim e violino e duendes e trevos e mulheres ruivas e pronúncia anasalada que um trio soltava de cima de um estrado perante a indiferença dos clientes. Aproveitei o espírito da coisa e berrei ao ouvido de um empregado que queria uma Guiness. Veio negra, de espuma suave, gosto adocicado e morna o suficiente para saber bem numa noite gélida. Beberiquei. Anunciei a quem me conseguiu ouvir que me iria embora cedo, cansado que estava de uma semana longa, de um dia longo, de muitos anos, e arranquei protestos. Intimamente já sabia que era mentira.

O nosso grupo conseguira arrastar cadeiras suficientes para se estabelecer em círculo, estrategicamente encostado ao balcão onde os empregados, um mulato com porte halterofilista e uma morena razoavelmente furada de “piercings”, nos iam tratando bem. À nossa volta misturavam-se silhuetas de várias idades, do brinco na sobrancelha até às cãs na fonte. Falávamos dois a dois, alternando cadeiras, o único modo de comunicação que a música poderosa permitia. Falámos de trabalho e filhos e dos que lá não estavam e de outras coisas que há trinta anos não interessariam. A certo momento, P1 disse assertivo: “vamos para o Tokio”. Todos foram. Fui também.

Porta fora voltámos à Praça do Duque de Terceira e enfiámos pela viela que se escapa sorrateira da Rua do Alecrim para dentro da Rua Nova do Carvalho. Grupos de gente sucediam-se rua fora, bebendo jolas e gritando alto, dando uma impressão de magote. Juntamente com a iluminação pública e os néons dos bares, transmitiam uma sensação de calor que contrastava com o frio de empedrado e noite escura que deixáramos para trás. A fauna da rua mudara algo em trinta anos. Menos marinheirada e prostitutas de baixo orçamento, mais pessoal novo usando os atributos convencionados pelas modas de hoje, como nós usáramos os de então. À porta do Tokyo, um porteiro com idade para ser o meu porteiro de 1980 abriu-nos a porta para uma pista ainda deserta e uma sala de paredes frias sob as luzes móveis.

Tocava Tubeway Army. Aparentemente só eu me lembrava dos Tubeway Army e do Gary Numan com aquele ar alvar de “zombie” simpático perguntando com voz de falsete se os amigos eram eléctricos. Os meus quase. Nunca pensei que isto ainda tocasse em Lisboa mas o Tokyo sempre foi bom em boas surpresas, nos bons tempos como agora. Àquela hora, seriam uma e meia, o nosso grupo de oito meava com meia dúzia de gatos pingados. Dantes, quando tudo fechava às quatro menos casas suspeitas de entrada quase clandestina, uma e meia já seria hora de ponta e a sala abarrotaria. Hoje, com limite às seis ou além, ninguém entrava antes das duas excepto velhos incautos como nós. Aproveitámos o vazio temporário para marcar uma mesa com casacos e pedir bebidas no balcão liberto. Dançámos.

Na hora seguinte a sala foi-se enchendo, a música foi acelerando e as pessoas foram-se acotovelando, dispostas em círculos imaginários entre os quais se cruzavam outras em demanda do bar ou da casa-de-banho, a qual continua tão genuinamente infecta como dantes, notei com alguma alegria na hora de reciclar a Guiness. A clientela que se meneava era heterogénea. Grupos de estudantes universitários, daqueles já a arrastar o fim do curso, vestidos de negro e um quanto alfinetados, quarentões e cinquentões em “smart casual” já com muita careca e cabelo branco à mistura, trintões vindos quase directamente do trabalho – um, ainda de fato, tirara a gravata e atara-a à volta da cabeça, ao estilo navajo, o que lhe dava uma pinta patusca. Uns bebiam, com ar de quem viera para beber, silenciosos e estáticos no bar ou encostados às paredes. Outros tentavam uma conversa quase impossível, esticando os pescoços e gritando aos ouvidos no meio da algazarra. Noutros grupos havia uma tensão sexual evidente. Nos mais novos, os jovens machos tentavam fazer-se notar bamboleando-se estrepitosamente o mais próximo possível da fêmea pretendida ou, em desespero de causa, invocando o colectivo e apelando pateticamente ao “moshe”. Nos mais velhos, a atitude era mais serena, discreta, apenas como que uma coreografia de prenúncio, mas os olhares, fixos ou fugidios, a contenção simulada, o ligeiro exagero no cuidado da roupa ou do maquilhado não permitiam dúvidas sobre o destino da noite. Nós, entretanto, meramente dançávamos.

Dançávamos como dantes, talvez mais livremente e despreocupadamente que dantes, entre amigos. Dançámos tudo o que veio, do mais eléctrico ao mais electrónico. Dançámos os oito minutos e meio e as quatro partes distintas do “Paradise by the dashboard light” do Meat Loaf. A cada mudança brusca, a X, uns anos mais nova do que eu e portanto de um tempo em que os sucessos só podem ter três minutos e uma melodia, perguntava-me “e isto agora o que é?”, ao que eu respondia “continua a ser Meat Loaf”. Fomos perdendo uns pelo caminho, que cansados acenaram um adeus sorrido no meio da barulheira e saíram. Os que ficámos continuámos dançando.

Próximo das quatro, só sobravam eu, a X e a I e com uns sinais no escuro combinámos ir embora. Na rua silenciosa, enquanto apertávamos os casacos, percebemos pela conversa que saíramos por pensar que os outros queriam sair. Reentrámos. Dançámos mais vinte minutos. Finalmente saímos de vez.

O frio da noite adensara-se com as horas e com o esvaziamento das ruas. Mas sentia-me magnificamente: para quem queria ir cedo para casa, não me tinha aguentado mal. Se tivesse que escolher uma palavra para me definir naquele momento, seria “exorcizado”. Tinha bebido um ou dois copos a mais, tinha abanado o capacete numa figura indecente e tinha mandado os demónios de um dia lixado para os fundos do inferno em folga de fim-de-semana. Como escreveria depois a I no seu “facebook”, dançara com a madrugada e soube-me que nem ginjas.


Junto ao carro verifiquei que tinha a cancela do parque aberta, tal como o vagabundo prometera. Distribuí as senhoras pelas casas respectivas. Cheguei à minha depois dos meus filhos, feito glorioso numa sexta à noite. Dormi que nem um calhau com sono. Ao acordar tinha para fechar esta história outro SMS do P1 no telemóvel: “gostei muito”. Respondi “eu também”. 



sábado, janeiro 14, 2012

A melhor hora


“-This could be the worst disaster NASA's ever faced.
-With all due respect, sir, I believe this is gonna be our finest hour.”

Resposta de Gene Kranz, director de vôo da Apollo XIII,
a um dos directores da NASA, no filme com o mesmo nome

No outro fim-de-semana, rodando os canais da têvê de braço esticado, aconteceu apanhar a menos de meio o “Apollo XIII”. Ora eu já vi o filme por inteiro duas vezes, mas apesar disso deixei-me ficar e voltei a viver as peripécias verídicas de Jim Lovell, John Swigert e Fred Haise à deriva pelo espaço numa casca de noz analógica arrebentada por uma explosão. E voltei a vibrar com os esforços de toda aquela gente de camisa branca e óculos de massa, sentada diante de ecrãs remotamente pré-históricos na sala de controlo da NASA em Houston, para os trazer para casa. E, estranhamente, já é a segunda ou terceira vez que isto acontece precisamente com este filme e pus-me a perguntar aos meus botões porque será que perco sempre duas horas a rever o já muito visto. Certamente não por ser uma grande obra: uma fita quadradona, certinha e sem riscos, quase um documentário, com uma costela patrioteira ianque ainda por cima.

Talvez porque retrate um estranho mundo, que parece tão peculiarmente distante e perdido no tempo que me pergunto se alguma vez existiu, em que as coisas que pareciam impossíveis pareciam possíveis. Em que os corpos graves se tornavam ligeiros e as distâncias insuperáveis curtos saltos. Em que sonhos milenares da humanidade se cumpriam e perguntas sem resposta eram respondidas, mesmo que só pela metade, porque sempre traziam novas perguntas. Em que a fé tinha-se na espessura da ciência e não na película ténue da tecnologia de pechisbeque dos “smartphones”, dos ecrãs de plasma e de outros expositores de menus deslizantes.

Mas existiu, sim. Nesse mundo, para aqueles homens de carne e osso que aqueles actores encarnam,  o fracasso não constituia opção enquanto o último esforço não fosse tentado, a derradeira solução não fosse pensada, o último murro na consola não fosse dado. E deles dependia a vida que outros homens arriscavam quase impensadamente e por isso era tão preciosa. Homens estes que atravessaram o muro do som sem saber o que estava do outro lado só porque havia um muro para passar e um outro lado para ver o que havia. E que depois se montaram num petardo de trinta e tal andares e entraram em órbita, acreditando que voltariam e voltaram.

Poderão dizer aqueles a quem este entusiasmo possa parecer pueril que havia um contexto político e ideológico e etc., e que nada daquilo passava por inocente no meio de uma guerra fria. Sei disso tudo, mas pouco interessa. Tais detalhes são a espuma da História. Relevante, relevante, foi cumprirem-se em menos de um decénio as palavras de Kennedy: “iremos à Lua e faremos outras coisas, não por serem fáceis, mas por serem difíceis.”

Nesse mundo dei eu os meus primeiros passos e vi nascer alguns dos meus interesses e formei a minha visão de e para onde devemos ir, visão que partilhava com muitos da minha idade e que marcou o que quis estudar, o que quis ler, que profissão escolhi e como a levei por diante – de um certo modo, o que quis ser.  Porque por diante era o caminho e o desconhecido resolvia-se apenas com um pouco mais de esforço. Os da minha idade, que leram as bandas desenhadas dos personagens da Disney naquelas versões brasileiras que comprávamos nos quiosques, recordarão talvez a frase publicitária que o inventor maluco Prof. Pardal tinha na parede do seu “atelier”: inventa-se tudo; o impossível demora mais um dia.

De vez em quando há mundos desses, em que a Lua ou a Índia ficam à mão de semear, em que as abóbadas não caem, em que as crianças deixam de morrer de varíola, em que se mede com rigor o diâmetro da terra contando o número de passos entre Alexandria e Assuão. Hoje esses mundos parecem longíquos, e os povos cabisbaixos reduzem a bitola e vergam-se aos ditames medíocres do possível. Reúnem-se em cimeiras estéreis e proferem num comunicado em papel “sound bites” que perduram um dia em vez de afirmar de cima do púlpito frases que marcam uma década.

Quando eu era criança, nos tempos desse outro mundo, à casa onde eu passava férias ia uma senhora de quem os mais velhos diziam “ela não acredita que o homem foi à Lua”. E nós, os mais pequenos, íamos ter com ela enquanto passava a ferro, estranhados com esse cepticismo:

- Ó Céu, tu não acreditas que o homem foi à Lua?
- Eu não, meninos.
- Mas tens que acreditar, é verdade, não viste na televisão?
- Isso são filmes, meninos, eles não estavam mesmo lá. Alguma vez aquilo podia ser?
- Ó Céu, nós vamos arranjar uns livros com fotografias para te mostrar.
- Meninos, isso já não é para mim, é para vocês.

E com este final diplomático lá continuava a dar ao braço, imperturbada na sua descrença, pousando sobre a nossa decepção um olhar terno nos olhos repisados por setenta anos de muito labor e um sorriso de misteriosa sabedoria. A Céu tinha todas as desculpas para a sua desconfiança: era uma mulher de grande simplicidade, que não tivera estudos e que se construira a si própria sem ajuda. Ganhara o direito a acreditar ou deixar de acreditar no que lhe apetecesse.  Mas mesmo ela sabia que o mundo poderia ser outro, como se deduz da sua última resposta. Hoje, ao revés, a descrença da Céu está no poder nos palácios e nas chancelarias, pela mão de pessoas que beneficiaram de todas as oportunidades e teriam portanto outras obrigações, mas que como ela se reduzem ao seu pequeno mundo próximo de limitações e receios – ainda por cima sem o viço da Céu e com muitos mais vícios.

Dantes, fomos à Lua. Agora, nem à Terra conseguimos chegar.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Exposição fotográfica (XXXVII)

Passeio em Serralves a 27 de Novembro de 2010 

  








 



 

Contos da barbárie – parte terceira de umas quantas

Há um quarto de século atrás eu estava a terminar a universidade e no verão passeei de mochila às costas por uma Europa de postos fronteiriços e moedas variadas. Sem plano traçado, achei-me a dado momento em Heraclion, capital de Creta, num hotelzito decrépito do centro onde por menos de mil dracmas a água saía quente da torneira se o sol estivesse a dar com força em cima dos painéis colectores situados no terraço.

Heraclion é uma cidade pequena, muito mediterrânica, onde sabe bem sentar à tardinha numa esplanada de cadeiras baixas numa viela sombreada e beber um “ouzo” frio ou então passear entre os vestígios venezianos do velho porto, olhando a azáfama de um noite de Agosto, para cá e para lá em busca do restaurante mais apelativo, do “retsina” mais fresco, cedendo ao empregado mais insistente, que nos puxa pelo braço no meio da rua, gozando a brisa última que o mar sopra como consolo de um dia de fogo a quarenta e tal graus.


A um bilhete de autocarro de distância fica Cnossos, a principal atracção turística. Lá fui eu a quarenta à hora num chaço velho, as janelas abertas como único ar condicionado, no meio de uma sociedade das nações de cabelo louro ou de olhos em bico, cercado de chapéus de palha, óculos de sol e máquinas “reflex” em punho, em busca da civilização minóica.

Diz o Mito que o Palácio de Cnossos foi projectado por Dédalo, célebre precursor da aeronáutica, criador das asas com que o seu filho Ícaro, célebre precursor do acidente de aviação, se partiu todo no mar Egeu junto à ilha de Icaria, por ter querido voar alto de mais (faltou a Dédalo inventar o altímetro ou o plano de vôo). Continua o sempre falador Mito que o palácio foi construído para o rei Minos, filho de Zeus e de Europa, uma betinha fenícia jeitosa e de bom “pedigree” que Zeus raptou disfarçado de touro para seguidamento levar a cabo as suas más intenções. Esta atração fatal por gado “vacuum” continuou na geração seguinte, quando Minos foi encornado – como verão, é o termo – por um touro branco com quem a sua mulher Pasiphae manteve um “affaire” dentro de uma alcova de madeira em forma de vaca, desenhada pelo sempre prestável Dédalo. Tanta confusão bovina estava destinada a dar raia e a união contra-natura gerou naturalmente um monstro, o Minotauro, meio homem-meio touro, que se alimentava de pessoas. Recorrendo novamente ao estirador de Dédalo, Minos mandou construir junto ao palácio um estrutura confusa como a legislação portuguesa, o Labirinto, para guardar o filho bicho. Quem entrasse já não conseguia encontrar a saída e acabava devorado pelo Minotauro. Este regabofe só terminou quando o ateniense Teseu, filho do rei Egeu, entrou no labirinto para limpar o sebo ao monstro e conseguiu voltar graças ao truque reles do fio de Ariana, filha de Minos e portanto meia-irmã do Minotauro, que ajudou Teseu em troca de uns favores sexuais.

Só para acabar a história, no caminho de volta Teseu deu uma tampa em Ariana, deixando-a pendurada na ilha de Naxos, porque afinal andava com outra, Fedra, nem mais nem menos que a irmã de Ariana. Talvez  meio distraído com estas baldrocas, Teseu esqueceu-se de trocar a vela preta do navio para outra branca, sinal combinado com o pai para indicar o sucesso da missão (não havia na altura “roaming” entre Creta e Atenas). Egeu, vendo chegar ao longe a vela negra, julgou que Teseu tinha sido comido pelo Minotauro e lançou-se do penhasco ao mar, que passou a ter o seu nome. Como os incompetentes acabam às vezes por ser compensados, na sequência da argolada Teseu recebeu o trono de Atenas.

Perante esta novela da TVI em versão minóica, somos levados a pensar que a tal menina Europa era capaz de ter maus genes, que desde então se disseminaram por aí, e quase apetece desculpar as orelhas do Sarkozy e as bochechas da Merkel. 

Percorrendo Cnossos quatro mil e quinhentos anos depois, quando momentaneamente me via sózinho diante daqueles frescos coloridos, de um restauro voluntarista, admirando aquelas imagens alegres e vivas de mulheres de cabelo solto e jovens pulando festivamente nas costas de touros, não era a tragédia de Minos que me vinha à cabeça, mas o pensamento que naquele sítio, durante mais de mil anos, viveram ali uns tipos que começaram isto tudo: trabalharam metais e barro, plantaram e colheram, desenvolveram uma arquitectura, misturando arte e tecnologia (usavam medidas anti-sísmicas elementares), fizeram-se ao mar, venderam o que tinham e compraram o que não tinham, começaram uma escrita, distribuiram entre si riqueza, divertiram-se em festas. E de repente, algo se passou que feneceram. Teorias dizem que sofreram as consequências de uma erupção catastrófica em Santorini; outras um incêndio descontrolado numa ilha muito florestada; outras ainda – e que me parecem mais prováveis – uma invasão por guerreiros do continente grego. Um dia chegaram os bárbaros e aquela civilização brilhante foi soterrada.


No final deste Dezembro que terminou, na mesma Heraclion onde reinou como primeira raínha de Creta a Europa que deu nome ao continente, um aluno de liceu de treze anos desmaiou de fome em plena sala de aulas. A opinião pública grega chocou-se ao saber que em sua casa, a casa de uma funcionária municipal com quatro filhos, não se comia nada há dois dias. E que esta subnutrição, eufemismo tecnocrata para fome, se estava a propagar na antiga classe média grega. Também aqui, à Creta de hoje,  chegaram um dia os bárbaros. Não pessoalmente, mas por interpostos sicários. E esses bárbaros longíquos e afirmativos acham que aquele rapaz que cai de fraqueza é um preguiçoso, que tem o que merece e que a sua fome é um facto económico que como tal não pode ser resolvido. Não será de estranhar que assim pensem: é essa inteligência sofrível e essa ética duvidosa que lhes define a barbárie.

Os avós desse rapaz e de outros mais resistentes que tenham conseguido enganar a dor de estômago, lembrar-se-ão ainda dos trezentos mil gregos que morreram de fome no inverno de 1941-42, quando chegaram um dia outros bárbaros – ou seriam os mesmos? – procurando impôr à Europa um império de mil anos. Os bárbaros de hoje aparentarão menos agressividade que esses de há setenta anos e os efeitos ainda não são tão extremos, mas a convicção, essa, essa parece já perigosamente a mesma. A História é marreca e dá muita curva para trás. Como escrevia Camus, o bacilo da peste não morre.

Triste é que a esta união política em que crianças passam fome por falta de solidariedade e excesso de sectarismo insistam os bárbaros em chamar Europa, por ironia a mãe do espírito que renegam. Se querem assim tanto dar um nome grego à coisa, usem um mais adequado: por exemplo, Hades.


domingo, dezembro 25, 2011

O pipi dele, outras leituras e um a-propósito natalício

Tinha prometido a mim próprio não comprar mais livros enquanto não desse um bom avanço no monte que lá está em casa por abrir. Dantes pensava ler tudo o que sobrasse quando me reformasse, mas como nestes tempos “troikaneiros” a idade da reforma se vai afastando de nós de cada vez que chegamos próximo, como a tartaruga do Zenão de Eleia, esse plano gorou-se. Para não ter que voltar do além para acabar as leituras em dívida, com susto dos que cá ficarem, decidi acabar com as aquisições.

Mas no fim-de-semanada passado, a braços com as compras da quadra, entrei numa livraria e fraquejei: vieram-me acidentalmente agarrados aos coutos cinco pequenos volumes que tratei de despachar imediatamente, numa lógica de “last in,first out”, apressando-me a esconder da minha má consciência o corpo do delito.

Comecei pelo “Sermões” da autoria de “O meu pipi”. Quando há cerca de oito anos o mesmo incógnito autor editara o seu “Diário”, vários amigos e colegas me gabaram então a excelência do pipi, recomendando a leitura. À época não calhou. Despachei agora as cem páginas dos sermões e ri alarvemente durante uma hora, ficando de alma lavada que nem de molho em lixívia. Estes sermões são um desafio e uma homenagem à inteligência: por detrás do chorrilho incontinente de asneiras, deduzimos o homem culto e subtil, de uma ironia fina, que manobra a língua com extrema perícia (refiro-me obviamente à língua pátria).

Do que me lembro de leituras diversas, para se escrever sobre sexo sem dar ar de parvo só há duas vias: ou o implícito ou o barrasco. Entre estes dois extremos, entre a frase singela que sugere o acto e passa ao assunto seguinte e o arrazoado de palavreado forte e ordinário há um vazio inacessível, como o espaço entre duas orbitais do átomo.  O meu pipi, seja ele quem fôr, percebeu que tinha que dar esse salto quântico para fugir àquela imagética melosa e falsamente sensível, em que o acto sexual se consuma com o auxílio de arpões divinos, rosas em botão, êxtases sublimes e outras hipérboles manhosas do género. Com o meu pipi, não há cá disso. Seguindo uma tradição portuguesa que vem de longe e culmina no Elmano Sadino, arma-se do exagero brejeiro e de uma improvável fineza de escrita e é só rir. E por esse efeito até se ajusta a estes momentos adventícios, supostos ser de alegria.


Logo de seguida fui a um “Short movies” de Gonçalo M. Tavares, jovem escritor que a crítica muito tem aclamado e ademais genro de pessoa amiga, e que eu não conhecia ainda. São contos curtíssimos, indo de algumas linhas até página e meia, descrevendo algo que se vê, como se de um filmezito se tratasse, com o plano focando no detalhe ou alargando-se para a panorâmica. Quase todos os episódios são estranhos, alguns chegam a perturbar. Com uma escrita depurada, “Short stories” funciona como acepipe e convida a ler outras obras do autor. Não será na verdade livro muito natalício ou só o será de uma forma oblíqua, porque quando inquieta recorda-nos que existe um lado inquietante do Natal em que o papel brilhante de embrulho esconde vidas alquebradas pela desgraça.

Lembrei-me disso ontem quando parei num semáforo no topo da Marquês da Fronteira, a caminho de umas compras tardias. À porta do Estabelecimento Prisional de Lisboa, uma fila de umas dezenas de pessoas, maioritariamente mulheres e crianças, esperava ao frio de Dezembro pela hora da visita. Os adultos aguardavam quedos, atabafados de casacos, as mãos pendentes segurando sacos garridos e prendas berrantes nos seus papéis de embrulho. As crianças cirandavam à volta. A porta, essa, mantinha-se fechada, emperrada pelos regulamentos que hão-de determinar uma hora de entrada, hora que é sempre à mesma hora mesmo em dia de paz e amor, mesmo em dia em que está frio lá fora e lá fora crianças correm excitadas com a melhor prenda que vão ter: encontrar-se finalmente com um pai que se encontra preso. O semáforo abriu e eu arranquei, continuando sem saber se aquilo não era Natal ou se o Natal era afinal aquilo.


A terceira leitura chamou-se “O ódio à democracia”, ensaio do filósofo francês Jacques Rancière. Leitura provocadora para estes tempos em que a democracia começa a andar mais nas bocas e nas desculpas do que nas cabeças e nos propósitos. Rancière desafia os nossos próprios preconceitos sobre a democracia, fazendo-nos notar que qualquer distribuição de poder que não seja por tiragem à sorte (como existiu na Grécia antiga) reflecte uma deriva oligárquica (para uma classe bem-nascida ou mais rica ou mais culta, mas que inevitavelmente se julga com um direito natural ao poder e é portanto não-democrática na essência). Daqui evolui para um conceito de democracia não como um sistema político em si, mas como a característica de um sistema político que tem suficientes mecanismos de contra-poder para ir contrariando essa deriva. Isto se percebi bem, porque Rancière, como qualquer intelectual francês, tenta escrever da forma mais complicada possível, provavelmente para se sentir ele próprio como pertencente a uma elite qualquer.

No final, Rancière zurze no actual estado de coisas na Europa, concluindo que a oligarquia desavergonhada que governa hoje o Ocidente está a perder quaisquer travões democráticos que ainda mantivesse. E como aqui reside a causa primeira de muitas consoadas tristes por essa Europa fora, este até poderá ser um volume de leitura apropriada nesta quadra natalícia.


A quarta leitura, onde ainda estou, é uma biografia de uma das minhas bandas-fetiche, os “The Clash”, pela voz de cada um dos seus membros. Grupo de miúdos menos afortunados das ruas de Londres, sem qualquer formação musical, arrojados no companheirismo (Paul Simonon foi convidado para ocupar o baixo eléctrico sem saber tocar, só porque era um tipo porreiro: os outros ensinaram-no, inclusive no meio dos primeiros concertos), tornou-se um grande grupo de “rock”, de “hits” e de causas, uma banda militante, com coisas para dizer e indignações para cantar (mesmo que eu não concorde com muitas, ou com a maior parte), o que hoje nos parece um exotismo do passado, impregnados que estamos da gelatina do pensamento único. 

E foi neste livro, na voz do seu guitarrista Mick Jones, o que passou a infância mais difícil, com pais violentos que o deixariam aos oito anos a cargo de uma avó, que encontrei o pensamento de Natal deste Natal. É quando ele recorda essa avó, a quem chama carinhosamente “my nan”:

- She nurtured me, rescued me from all the fighting and stuff when I was really young, and protected me as much as she could and she never questioned it.

De facto, a generosidade não está apenas em dar, reside sobretudo em não esperar nada em troca.

E vendo com atenção, os Clash jogam bem com o espírito da época natalícia, festa que celebra o nascimento de um militante. Razão para considerar que o vídeo abaixo passa bem por um cântico de Natal.



sábado, dezembro 03, 2011

Cinco anos


Faz hoje o blogue Mataspeak. 

Quando comecei esta empreitada, não pensei que se tornasse obra de Santa Engrácia, arrastando-se no tempo, aqui mais uma parede, ali mais um desvão, sem plano nem fim definido: vai-se fazendo e logo se vê como parece.

O balanço? 233 entradas, dos quais mais de 150 foram crónicas, para cima de 500 páginas de texto se não me falham as contas, alguns centos de fotografias, tudo com razoável regularidade. Partilhei sentimentos, com maior ou menor sinceridade, tentei o humor, com mais ou menos piada, procurei interrogar quando achei que falava de coisa séria. Sempre que releio os textos, passados meses ou anos, acho alguns jeitosos, outros já roídos pelo tempo, outros ainda levam-me a interrogar-me sobre o que teria bebido naquele dia. Tudo somado, tenho em relação ao Mataspeak o mesmo sentimento que constava da letra de um fado vadio que costumava trautear um colega meu de faculdade: “É feia, mas gosto dela, e até tenho uma certa vaidade...”

Vaidade alimentada sobretudo pelos leitores que vão aparecendo, incrementando o contador de visitas, deixando um comentário, enviando uma mensagem, recomendando que prossiga  ou simplesmente lendo. Como dizia a minha avó Palmira, numa carta que me escreveu quando eu fiz dezoito anos e que para meu grande desgosto extraviei (mas não esqueci): sem leitores não há escritores.

E felizmente vai havendo leitores, alguns até entusiastas, como aquela senhora que me bateu hoje à porta insistindo em oferecer um bolo de aniversário. Não posso obviamente identificar a pessoa, por isso cortei a cara, mas deixo aqui uma foto dela segurando o bolo, que era bonito e soube bem.