domingo, julho 28, 2013

Coltura em Portugal



Caí no conto do vigário e rumei ao Palácio da Ajuda para ver a tão publicitada exposição de Joana Vasconcelos. Ao redor do paço, prenunciando a fila que teríamos que ultrapassar para entrar, as beiras dos passeios estavam assoberbadas de viaturas pelo que tivemos que deixar o carro no vasto terreno tutelado pela Torre da Paroquial, onde em tempos a família real viveu num palácio de madeira e pano recheado dos maiores luxos. D. José I tinha ficado tão traumatizado pelo terramoto de 1755 que se recusava a viver entre paredes de pedra. Mandou construir no Alto da Ajuda, local suposto de menor actividade sísmica, uma edificação de dois pisos sem alvenaria, a que se chamou “a Real Barraca”. Aí viveu D. José até morrer em 1777. Em 1794 a Real Barraca foi destruída por um incêndio e poucos anos depois começava a construção do que viria a ser o nunca acabado Palácio da Ajuda.

Em jeito de aparte: serve-nos de consolo pensar, num momento em que o nosso presidente da república acabou de montar outra real barraca, que ele não foi o único e que o país vai conseguindo sobreviver ao longo dos séculos apesar desta tendência campista dos nossos máximos dirigentes.  Só que se para a barraca de D.José bastou uma candeia mal apagada para que ela se fosse, para a actual vai ser preciso o pacote inteiro de velas – e calhando nem chega!

Chegados nós ao palácio, comprados os bilhetes, acometemos a bicha que serpenteava pelo pátio interior, ao sol das três da tarde, longa de gente e mais gente apesar dos dez euros de entrada. A última e quase única vez que tinha feito uma fila destas para entrar num museu fora em Paris, no Quai d’Orsay, onde para além da colecção permanente se exibia uma grande exposição com os maiores nomes do impressionismo. Ora é diferente apanhar sol na tola para ver Renoir ou Manet ou para ver Joana Vasconcelos. Será a mesma diferença que entre penar para assistir à final da copa do mundo ou ao Rio Ave-Paços de Ferreira. Por muito que o “marketing” proclame, não é pelo Paços vestir de amarelo que passa a ser o Brasil. E por muito que o “slogan” da exposição o afirme, Joana de Vasconcelos não é a maior artista portuguesa da actualidade, a menos que pelo tamanho das peças. Mas aparentemente a publicidade enganosa consegue enganar, já que as pessoas, que dificilmente vão nos mesmos números à Gulbenkian, continuam a chegar à Ajuda, meses após meses de exposição, engrossando o magote que se alinhava à torreira, tapando o coco com malas de mão e jornais dobrados para não cair de insolação.

A exposição é um fracasso, mas a visita pode ser, para quem quiser, um sucesso. Adiante explico.

Contrariamente ao que a organização anuncia, os trabalhos de Joana Vasconcelos não dialogam nesta exposição com o espaço nem com o tempo das salas do palácio, excepto num único caso, o da conhecida peça Marylin, os sapatos de salto alto gigantes feitos de tachos e panelas. Neste caso de facto é atingido um equilíbrio entre a dimensão da obra e a grandiosidade da sala. Aqueles sapatos gigantes são estranhos à sala, mas não se estranha que ali estejam, e o faíscar das luzes dos candelabros, reflectido nas múltiplas superfícies das duas peças, cria uma unidade entre objecto e espaço que não ocorre em mais nenhum momento da exposição. Há algumas outras instalações curiosas mas em que a sala não se vê (a “Coração Independente Vermelho” ou a “Jardim do Éden”) ou é anulada pelo lado muito pimba da peça (a “Lilicóptero”). De resto abundam os bichos de louça revestidos a croché, quase invisíveis na maioria das salas, esmagados pelo aparato da decoração novecentista. Bichos para todos os gostos, até à náusea: o gato e o cão, a cobra, a tartaruga e o crocodilo, a lagosta e o caranguejo, o sapo, a abelha, o touro, o cavalo. Como sobraram rendas e faltaram bichos e ainda deu para cobrir de croché umas figuras de menina e uma televisão a transmitir o Eurofestival. Provavelmente haverá um sentido oculto em tudo isto, só que o meu débil entendimento não alcança.


Mas quem não quiser dar por perdido tempo e dinheiro, e tornar em sucesso o possível fracasso, pode sempre dedicar-se a admirar o palácio e o seu recheio e imaginar a vida quotidiana que lá viveram D. Luís e Dª. Maria Pia, um intervalo de aparente felicidade entre dois destinos trágicos, o de D. Pedro V e o de D. Carlos. Para ajudar à imaginação, basta ler os textos colocados em cada sala em pequenas tabuletas, enriquecidos com passagens de livros de memórias de quem com eles conviveu. Assim salvará a visita. Destaque aqui para as várias transcrições de Thomaz de Mello Breyner, quarto Conde de Mafra, médico e político, companheiro de brincadeiras do jovem infante D.Carlos, que nos descreve aqueles tempos com uma escrita garrida e plena de humor. Fiquei cheio de vontade de ler esse volume de memórias, mas uma pesquisa na “internet” permitiu-me concluir que não é reeditado desde 1930 e só se encontra já em alfarrabistas.

Não deixa de ser uma curiosa ironia sobre o estado do apreço pela cultura em Portugal que se faça fila na rua para ver Joana Vasconcelos e que se deixem cair no esquecimento as memórias de Thomaz de Mello Breyner e outras pérolas da nossa memória, quando não grandes vultos da nossa literatura. A título de exemplo, tentem lá arranjar Sá de Miranda. Numa livraria, impossível: mais facilmente compram uma “obra” de um locutor de têvê, essa magna escola literária, ou três cartuchos de tinta preta pelo preço de uma impressora.

domingo, junho 30, 2013

Exposição fotográfica (XLIV)

Passeio por Léon a 17 de Março pp.

Barrio Humedo
Plaza Mayor

Plaza Mayor
Claustro da catedral
Catedral
Catedral 
Feixe de luz nos bancos da catedral

Plaza de Regla, fronteira à catedral
Calle Ancha, que coincide com o eixo do acampamento da legião romana que deu o nome à cidade
Escola de arte na (obviamente) Calle Pablo Florez

Por cima da velha muralha
Fumando um "puro" na Calle San Lorenzo
O gótico um pouco por todo o lado
Padaria

Orwell escrevendo sobre Cavaco, Coelho, Seguro e quase todos por aí fora



Em Picadilly, do lado direito para quem vai quase a chegar ao Circus, fica a livraria que John Hatchard criou em 1797 e que é por isso a mais antiga de Londres com a porta aberta. Fornecedora de leitura ao palácio de Buckingham, a Hatchards faz valer o seu direito ao uso do brasão real, ostentando-o bem grande por cima da entrada, com o mote “Dieu et mon droit” que Eduardo III engendrou em 1337 quando tomou a sempre útil decisão de chatear os franceses, iniciando a escaramuça entre primos e sobrinhos que conhecemos como guerra dos cem anos.

A Hatchards percorre-se com o sentimento de quem visita uma casa da burguesia abastada de há um século, com boas madeiras na parede, alcatifas e tapetes, os livros expostos sobre mesas “Regency”. São meia dúzia de pisos forrados a estantes imaculadamente organizadas por temas e ordem alfabética dos autores, ordem que o manuseio ordeiro de quem visita nunca altera. Uma secção está exclusivamente dedicada – marca distintiva da casa – a Churchill, com biografias, colectâneas, edições antigas das suas memórias da guerra. Nos sítios de passagem, se nos distrairmos a mirar as lombadas, corremos o risco de encalhar numa mesa com umas dezenas de livros amontoados, sugeridos pela casa, irmanados por um tema que consta de um pequeno cartão escrito em letra cursiva: livros de viagem ou para uma reflexão política ou para cuidar da saúde ou outra coisa qualquer. Uma dessas mesas, de pernas arqueadas pelos pesos-pesados que aguentava, propunha coisas do estilo do “Guerra e paz”, do “Os Buddenbrook” ou do “Crime e Castigo”, com um cartão que achei particularmente sugestivo e que lia “Everyman’s classics”.

Nesta minha primeira visita à Hatchards encontrei um opúsculo de George Orwell datado de 1945, “Política e a língua inglesa”, de curtas 24 páginas, que comprei por uns ridículos 99 “pence”. Londres é uma cidade caríssima, onde tudo se paga e onde uma bica de mau café inglês vai para duas ou três libras, e portanto Orwell a 0.99£ é o que lá se chama “value for money” e cá se chama uma pechincha. Acho que a única vez que paguei menos do que isto por alguma coisa em Londres foi o acesso urgente aos lavabos na estação de combóios de Paddington, que me custou meia libra. Ainda assim, para quem não quiser pagar os 99 “pence”, o texto está na íntegra neste link.

Orwell começa por nos mostrar exemplos de como uma deficiente escrita, com excesso de metáforas e frases feitas, construções barrocas, preciosismo na escolha dos vocábulos, palavras vazias de sentido ou abuso de estrangeirismos, pode tornar a mensagem incompreensível, mesmo quando – e muitas vezes quando – redigida por doutores e catedráticos. Orwell defende que se escrevermos escrupulosamente (advérbio dele) perguntar-nos-emos a cada frase o que queremos dizer, que palavras o expressarão, que imagens melhor o clarificarão e se estas são suficientemente “frescas” para produzir o efeito pretendido. De seguida, poderemos interrogar-nos se poderíamos ter sido mais breves ou se há alguma expressão mais feia que pudéssemos ter evitado. A alternativa a estes cuidados, continua ele, é simplesmente deixar frases feitas acumularem-se e serem estas a construir o texto por nós, ou mesmo a pensar as ideias por nós, escondendo o sentido mesmo de nós próprios. E é aqui, conclui Orwell, que ocorre a ligação entre a deterioração da linguagem e a política, porque a ortodoxia política pede, segundo ele, esse mesmo estilo amorfo e imitativo.


Este amorfismo que impede a emergência da inteligência pode ser uma forma de inconsciência, se são as palavras que nos manipulam, ou de cinismo, se somos nós que as manipulamos para que o sentido das coisas não sobressaia. Orwell, pensando em factos do “seu tempo”, a continuação da presença colonial britânica na Índia, as purgas estalinistas ou  a bomba atómica sobre o Japão, afirma que o discurso e a escrita políticos desse seu tempo são sobretudo a defesa do indefensável. Não porque esses factos não pudessem ser defendidos no plano conceptual, que podiam, mas porque os argumentos dessa defesa seriam brutais demais para a maioria das pessoas os encarar de frente e incoerentes com as intenções oficiais das diversas linhas políticas. E daí o recurso ao eufemismo e à vaguidão como forma de fazer com que as coisas vão ocorrendo sem grande contestação. E este recurso, esta manipulação voluntária ou a certo momento automática da deterioração da linguagem para que as pessoas – o povo – não vejam claro, é um pezinho na porta de entrada do edifício lúgubre do totalitarismo.

Poderíamos aplicar esta visão de Orwell também ao “nosso tempo”. Os factos em curso são outros: por exemplo a destruição de povos, economias, equilíbrios de direitos e dignidades civilizacionais em nome de uma ideologia e em proveito de uma minoria. Mas a necessidade de não os discutir na sua crueza e de os dissimular debaixo de paninhos quentes, essa é a mesma e é a que ouvimos a Passos Coelho, mas também a Seguro, a Portas, mas também a Louçã e a Cavaco e a Barroso e a Merkel e a Olli Rehn e ao tipo do Syriza na Grécia e por aí fora. Todos defendendo “ad nauseam” que a sua alternativa não tem alternativa e mascarando debaixo de palavras flácidas as consequências das alternativas que sempre existem e que quase sempre representam escolhas difíceis.

Pego num jornal da pilha e abro ao acaso.  O nosso Presidente da República fala de “coesão nacional” e “ausência de desestruturação social”. Com estes eufemismos quer significar que ainda não começou tudo à porrada na rua, que é uma imagem que a classe política teme por razões várias, uma das quais sendo o interesse próprio. Como ainda não desatou tudo ao soco, Cavaco Silva conclui que o povo tem um “grande sentido de responsabilidade”. Ora isto é um exemplo chapado do que o texto de Orwell define como frase vazia de sentido, porque o povo, que é um somatório de pessoas, circunstâncias e comportamentos, não tem sentido de responsabilidade, como não tem inteligência, nem perfídia, nem preguiça, nem dinamismo, nem nada que não seja a aparente resultante de milhões de acções individuais. Por outro lado, o comportamento colectivo que Cavaco aqui convenientemente elogia como responsabilidade do povo (a leniência diante da opressão) é exactamente o oposto daqueloutro (a revolta diante da opressão) que os livros com que ensinamos História às nossas crianças elogiam como grandeza ou coragem do povo, por exemplo quando no século XIV o povo de Lisboa se mobiliza para defender o Mestre de Avis numa luta dinástica cujo resultado expectável seria tão incerto e os riscos tão elevados quanto hoje seriam uma saída do euro ou um bater do pé à “troika”.

Do nosso primeiro-ministro foi difícil encontrar discurso directo que servisse aqui de exemplo, porque agora o governo contratou na academia um ministro maduro que se poiou para câmaras e microfones e que fala por todo o executivo, chefe incluído. A cada dia, tal como um pescador do Índico, Maduro mergulha em apneia nas águas turvas dos ministérios e emerge à hora do telejornal com as mais recentes pérolas da verborreia governativa. Num jornal de uma quarta recente leio que este porta-voz, ao ser inquirido sobre divergências na coligação PSD-CDS, responde que “por comparação”, Portugal tem uma coligação muito coesa. Ora isto é nada dizer, porque por comparação é melhor ter cinco metástases no cérebro do que dez ou perder três filhos num acidente do que quatro. Ainda na mesma tirada, refuta que o governo queira despedir funcionários, embora não prometa que não o fará, um exercício bastante clássico de dizer uma coisa e o seu contrário, e que o quer é “requalificá-los”. Tecnicamente, o uso do termo “requalificação” até pode ser besuntado com um verniz de verdade, porque o que se propõe é mudar a qualidade dos alvos de “funcionário” para “desempregado”. Mas eticamente utilizar esta palavra remete para algumas grandes mentiras da História, como por exemplo a de que o trabalho liberta. Sair-se com uma palavra como requalificação significa apenas que não há coragem para se afirmar o que efectivamente se pensa. Dizia Mark Twain que há três categorias de mentiras: as mentiras, as mentiras abomináveis e as mentiras estatísticas. Acima temos os três tipos.

Poderia continuar com o líder daquele arrufo a que por cá se chama oposição, com as suas inexplicadas “novas ousadias” e “novas políticas”, ou com a comissão liquidatária da Europa e o seu “entusiasmo” com o “sucesso” da “solidariedade” para com os países “auxiliados” ou com a chanceler alemã e o raio do “rigor” ou com qualquer outro falante destes tristes tempos, mas poupo-vos ao sacrifício, até para não avariar de vez a tecla das aspas.

Depois desta travessia no deserto de ideias, regressemos ao oásis de clarividência de Orwell, que resumia este vínculo entre má linguagem e má política na frase “o maior inimigo de uma linguagem clara é a insinceridade”. A linguagem política - concluía ele - é feita para fazer a mentira parecer verdadeira e o assassinato respeitável. Como em Portugal somos um povo de brandos costumes que, como gozava Solnado, só mata assim-assim, talvez cá a linguagem política se foque mais em tornar respeitáveis a vacuidade e a pequenez do que propriamente o assassinato. Mas cá ou lá, então como agora, o esforço de fuga ao sentido das palavras revela apenas a relação fácil que os homens têm com os seus piores defeitos.

Em directo da natureza humana para o Mataspeak, foi o repórter George Orwell.  

sábado, junho 08, 2013

Cromos da minha caderneta (III) – Moustaki dans ma voiture



1982 foi na minha vida um ano diferente e de diferenças: abandonei o conforto côncavo da escola que me berçou dos desenhos do jardim infantil ao diploma liceal, e troquei-o pelo ambiente marialva e um tanto caótico de uma turma quase exclusivamente masculina de mecânicos do Técnico; perdi amigos, que foram para longe, tendo outros batido ao postigo e instalado-se com algum à-vontade na sala de estar dos meus dias; fiz uma das viagens da minha vida onde conheci uma das mulheres da minha vida mesmo que durante breves duas semanas (mas essas duas semanas são tão parte da minha vida como outras duas semanas quaisquer); e a minha idade rodou no BI para dezoito anos, o que me deu direito a votar, conduzir automóvel emprestado e com alguma petulância julgar-me adulto.

Nesse ano de 1982, o poiso da malta estabelecera-se na casa da da C, na Avenida de Roma, a dez minutos do IST. A C ainda hoje me azucrina a cabeça numa base semanal, graças a Deus, mas na altura a base era praticamente diária: íamos lá para uma converseta, para ver quem mais lá estava, para uma cartada, para assaltar o frigorífico, para um futebol na têvê (foi também o ano do Brasil de Falcão, Zico, Sócrates, Toninho Cerezzo, Eder, Júnior, Oscar, uma equipa de sonho a arrastar um perú na baliza e um perneta na frente e que por isso – e por excesso de peneiras – perdeu a copa para a Itália bisonha mas rata de Rossi e Tardelli). Para retribuir a generosa hospitalidade, introduzíamos a C e mais umas amigas nas aulas do Técnico. Sentadas nas filas de trás do anfiteatro Qa1, davam um ar floral a uma turma de imberbes e mal-escanhoados e eram miradas com torpe interesse pelos alunos e com desconfiança pelo Prof. Ventura, que ia alinhando no quadro negro as equações do movimento relativo enquanto mandava em vão calar o burburinho permanente.

Em casa da C ouvia-se quase exclusivamente canção francesa, a começar na belga: muito Brel, sobretudo a “Ne me quitte pas” repetida e suspirada à exaustão, Brassens (em particular as picantes “Fernande” e “Le gorille”), Moustaki, com destaque para a “17 ans” que a C adorava, Reggiani ou o hoje menos lembrado Maxime Le Forestier, que tinha uns versos sobre uma casa azul que se aplicam que nem uma luva às casas da C, tanto a da Avenida de Roma de então como a da lonjura onde agora mora: “On n’y frappe pas/Ceux qui vivent lá/Ont jeté la clé”.

Nesse mesmo ano de 1982, Moustaki veio dar um concerto ao Coliseu de Lisboa e lá fomos um grupinho. O espectáculo saiu tristonho, possivelmente pela fraca casa: bem mais de metade das cadeiras apareciam vazias, o que pintalgava a sala, parcamente iluminada, com tons de fim de festa. Moustaki lá deu o seu melhor, apoiado por uma bandazita. À medida que o reportório ia decorrendo, a C ia-se inquietando: “Nunca mais toca o 17 ans”.  Amigo diligente, aproveitei uma pausa em que Moustaki, sentado num banco alto, afinava a viola, para rasgar o silêncio que me separava dele com um “Chante 17 ans!” gritado a plenos pulmões. Ele, sem tirar os olhos do que estava a fazer, respondeu placidamente ao microfone: “Oui, mon capitaine”, provocando uma risota na sala. Apesar desta aparente promessa pública, o concerto terminou sem que a canção pedida fosse tocada e foi algo desapontados que decidimos continuar a noite com um copo no Hot Clube, na Praça da Alegria.

Quando o Hot fechou, à hora hoje ridícula que impunha à época o ditame do Governo Civil de Lisboa, também as outras casas de entretenimento da praça despejaram na rua a clientela mais resistente. Entre esta – surpresa, surpresa – estava o Moustaki, que os organizadores do concerto tinham trazido a uma casa de fados ao lado, para cear. Aproximei-me e soltei-lhe:

- Alors, on n’obéit pas à son capitaine?

Ele respondeu atrapalhado algo como “ah era você desculpe lá mas a banda não tinha essa música ensaiada” e assim começou uma conversa que o juntou ao nosso grupo. Moustaki andaria nessa altura pelos seus cinquenta anos. Magro, a barba e o cabelo crespo a grisalhar e anárquicos davam-lhe um ar sem dúvida de meteco, embora talvez não tanto de judeu errante ou pastor grego, como asseverava a estrofe. De poucas palavras, parecia tímido, de uma distância mais reverente que altaneira, o que soava estranho a meio de uma noite em que nós éramos uns miúdos e ele era uma quase-vedeta. E mais estranho ainda foi quando a T sugeriu que todos fossemos a casa dela, na Estados Unidos da América, para um último copo e ele aceitou. Mais uma vez, enchi o Fiat 600 verde-tropa com aquela gente, Moustaki no lugar do pendura, resto ao molho lá atrás, e lá arrancámos com o motor em sobrecarga para casa da T.

Ficámos umas horas na sala da T. Ele tocou para nós, bebeu um bocadinho, falou poucochinho, ouviu bastante. A certo momento, quando a noite já se arrastava cansada, desenhou-se uma atmosfera ou – como dizem no Brasil – pintou um clima entre a T e o Moustaki. Foi a deixa dos restantes para levantar e zarpar. Soubemos mais tarde que a mãe da T, ao acordar de madrugada, encontrou o Moustaki na sua sala e o pôs na rua sem remorso, à portuguesa. Imagino agora o Moustaki às seis da matina, despejado no cruzamento com a Avenida de Roma, sem fazer ideia de onde estava. Provavelmente terá conseguido apanhar um táxi, porque há evidências fortes que pôde regressar a França, onde faleceu este Maio passado, por sorte dele no dia de aniversário do meu pai.

À notícia da sua morte, logo os asneirentos clichés do costume vieram afirmar, nos jornais e na boca dos políticos em homenagem, que a canção francesa ficara mais pobre. Não vejo como: está tudo gravado, para lembrar e para gozar enquanto houver orelhas, coração, neurónios e glândulas lacrimais com que ouvir tudo o que de muito bom ele por aí deixou. Poemas sobre homens livres e bastante mais sobre mulheres belas (que nos seus versos são todas, afinal) e sobre o amor entre ambos, um amor que arranca as máscaras sociais como no “Milord” que compôs para Edith Piaf, o amor que se transcende com o passar do tempo como em “Sarah”, o amor que emana da mulher idealizada da “Chanson pour elle” que arranca com o memorável “elle ne fait pas l’amour, elle aime”, que é para ficarmos logo esclarecidos.

Exposta a matéria de facto, para fechar este cromo vai de seguida o tradicional vídeo. Escolha difícil, mas talvez este “Votre fille a 20 ans”, interpretado por um Moustaki mais idoso e sereno que aquele que eu transportei na minha viatura, funcione bem como homenagem ao homem que partiu e à obra que ficou.  É uma melodia simples e bonita sobre a beleza da mulher, sobre o amor maternal, sobre o tempo que passa, sobre as coisas que são eternas, sobre a fatalidade, a naturalidade e o sublime da primeira vez (“Ils se font un jardin d’un coin de mauvaise herbe”), tudo isto em dois minutos e quarenta e sete segundos. O tipo tinha capacidade de síntese.


domingo, março 31, 2013

Escatologia de viagem



A minha profissão tem-me levado até meio-mundo e permitido presenciar hábitos variados no pensar, no vestir, no comer e até no acto menos nobre a que por comer a biologia nos obriga, isto para usar uma perifrase e não o verbo brejeiro sobre o tema que nos traz aqui hoje. De facto, desenvolvemos um incómodo tão grande em relação a este assunto que nos referimos a ele usando o último dos eufemismos, “ir à casa-de-banho”, quando banho é coisa que de certeza não vamos tomar nessa ida.

Tão selectivo é o nosso cérebro em relação a isto que por norma só nos recordamos de experiências traumáticas, de desespero incontido ou nojo extremo. Eu ainda tremo ao recordar a visão da retrete nos sanitários de uma selecta pastelaria do centro histórico de Viana do Castelo, vai para vinte anos. Quem viu o filme “Trainspotting”, com a sua célebre cena intitulada “A casa de banho mais nojenta da Escócia”, poderá ficar com uma ideia do que aquilo era, mas uma ideia ténue. A nojeira de Glasgow, ao lado da de Viana, parecia a imaculada assepsia de um bloco operatório. Hércules teve como quinto trabalho lavar o esterco das cavalariças de Aúgias, para o que desviou o rio Alfeu. Pois se tivesse tido que limpar a retrete de Viana, os trabalhos de Hércules seriam onze e não doze, porque mesmo para um semi-deus aquilo era demais.  

Outra perspectiva dantesca tive-a no aeroporto internacional de Hassi Messaoud, no coração da Argélia, em pleno deserto do Sahara. Este aeroporto é internacional porque alberga serviços fronteiriços mas é basicamente uma pista perdida no meio das dunas, onde cães atravessam de um lado ao outro indiferentes aos Boeings que aterram ou levantam carregados de trabalhadores das vizinhas instalações petrolíferas. A aerogare é um caixote de betão de pinta soviética. Enquanto lá esperava pela ligação a Argel, pensei ir aos lavabos tratar de um assunto. Nesse momento, o meu colega PP, que de lá regressava, disse-me com cara de quem vira um fantasma:

- É melhor nem entrares.

É do género de frases que acirra a curiosidade e por isso não resisti a espreitar. A casa-de-banho do aeroporto internacional de Hassi Messaoud era uma vasta dependência, de uns vinte e cinco metros quadrados, de paredes lisas de cimento caiado e uma chão de betonilha. No centro da laje tinha um buraco de cerca de vinte centímetros de diâmetro. Numa das paredes existia uma torneira com um metro de mangueira agarrado, para efeitos de pós-processamento. E era isto: mais minimalista do que um quadro do Stella. Utilizar esta instalação sanitária seria um excelente treino para uma modalidade de biatlo que combinasse ginástica artística com tiro ao alvo. Pelo chão, poças de água erráticas e de natureza incerta devolviam irisada a luz forte que entrava coada por um vidro fosco na parede do fundo. Ao redor do orifício que era o centro daquele universo, manchas duvidosas insinuavam tentativas mal sucedidas de viajantes menos habilidosos. Fechei a porta atrás de mim e mentalizei-me para esperar pelo avião. Ali, um sucesso seria heróico, mas uma queda seria catastrófica.

No pólo oposto a estes soturnos exemplos está o aparato tecnológico que encontrei na casa-de-banho do meu quarto no Shilla, o hotel em que fiquei em Jeju, na Coreia do Sul. Durante os três dias que lá passei nunca deixei de sentir que havia ali um ser pensante: assim que entrava no quarto e metia o cartão na fresta que ligava a electricidade, a retrete manifestava a sua presença com uns zumbidos electrónicos satisfeitos, como que a dizer “hás-de cá vir parar”.  



O aspecto dessa retrete, de linhas aerodinâmicas, era o de uma consola Nintendo em louça de Sacavém. Um conjunto de botões num ressalto lateral, do mais moderno recorte estético, prometia funcionalidades desconhecidas a Ocidente: um traseiro estilizado suportava um esguicho; uma figura feminina, outro; um terceiro botão sugeria a libertação de um tsunami. Carreguei num que tinha uma seta e imediatamente com um ruído robótico uma haste saíu de um esconderijo na cerâmica, apontando-se sem pudor às privacidades dos utentes. Pois daqui sairiam os esguichos: lembrei-me do “sketch” do Solnado, com a história do repuxo de cima e do repuxo de baixo. Depois de ver o protuberante tubo a estender-se tão automático, decidi não carregar em mais botão nenhum. Tive medo que de algum esconderijo saísse uma mão mecânica, enluvada como as dos mecanismos do Prof. Pardal, e que se desse a liberalidades. 


 Mas mesmo não tocando em botões, o perigo espreitava de dentro. No fundo da pia distinguia-se um ponto azul, um feixe de luz, através do qual a retrete detectava a minha presença como se de um olho se tratasse. Assim que me eu me sentava, trocávamos olhares e a loiça dava-me as boas vindas ligando imediatamente o aquecimento do assento. Aquele ponto de luz lembrava-me a câmara com que o computador HAL, no “2001 - Odisseia no espaço”, via os astronautas. Por isso, de todas as vezes que me dediquei a reciclar a temperada comida coreana, estive sempre à espera de ouvir sair de algum altifalante dissimulado a célebre e recorrente tirada do filme de Kubrick:

- What are you doing, Dave?

E receei que tal como na película, a inteligência cibernética da retrete decidisse vingar a afronta engendrando algum esquema para me tramar, eventualmente com recurso a uma haste servocontrolada.


Durante esta mesma viagem à Coreia terminei de ler as memórias de Gene Kranz, director de vôo dos programas espaciais Gemini e Apollo. O que é notável no relato de Kranz é a fragilidade e o experimentalismo do conhecimento e das tecnologias que foram usadas para realizar aquele que provavelmente é o maior feito de sempre da Humanidade: pisar a Lua. Quer nos motores, quer nos computadores, quer nas comunicações, tudo era precário quando comparado com o que há hoje disponível, o que só traz mais brilho ainda à coragem dos cosmonautas e ao engenho dos cientistas. Qualquer dos nossos telemóveis tem mais capacidade de processamento que o Centro de Comando em Houston. Até a retrete do meu quarto na Coreia tinha mais tecnologia do que o Módulo Lunar. O que não fariam homens com o arrojo de um Armstrong ou de um Aldrin se a tivessem disponível? Possivelmente, se em vez de num foguetão Saturno V se tivessem montado neste cagueiro, não teriam só ido à Lua mas teriam pousado em Marte.