domingo, julho 29, 2012
Carta militar à escala 1:25000
Quem já fez provas de orientação no campo sabe da utilidade
dos mapas militares emitidos pelo Instituto Geográfico do Exército. Por muito
perdidos que estejamos no meio do mato, um olhar atento e uma análise comparada
da vizinhança com o conteúdo do mapa e as coisas começam a fazer sentido: um
casebre lá ao fundo, uma linha de alta tensão passando mais acima, uma pendente
abrupta à nossa esquerda, um canavial adiante que denuncia uma linha de água.
Concluímos que devemos estar aqui e que o nosso caminho tem que ser por ali.
Ora desde há uns anos que andamos todos no mato sem saber
para onde vamos. Instalou-se no mundo uma tenebrosa unanimidade onde uma
minoria manda palpites e uma maioria repete-os, todos dizendo que só há um
caminho e que é por ali, e alegremente nos empurram, inconscientes se no fim do
trilho há um destino ou um precipício.
Completamente por acaso, veio-me parar às mãos um livrinho
que está para os dias extraviados que correm como a carta militar à escala
1:25000 está para os momentos de desorientação no baixo de uma ribanceira. Encontrei-o
no aeroporto de Schiphol e chamou-me a atenção a capa com uma avestruz em pose economista
e o título “23 coisas que não lhe dizem sobre o capitalismo”. O autor, Ha-Joon
Chang, não pertence, apesar do seu nome e do nome do seu livro, ao comité
central do PC chinês: é sul-coreano e professor de economia na modestinha universidade
de Cambridge. Apesar da capa titular
ainda “The No. 1 international best-seller”, género de referência que me deixa sempre
de pé atrás, acabei por trazer e ainda bem.
O livro organiza-se em 23 capítulos mais uma curta
conclusão. Cada um dos capítulos fala sobre uma “coisa”, uma ideia feita
papagueada pelo grosso dos políticos, dos académicos e dos média, que Chang,
com sabedoria oriental e humor britânico, se entretém a desmontar com
argumentos, contra-exemplos e - pasme-se - números e dados reais. Depois de o
ler, podemos pelo menos alimentar uma dúvida legítima sobre se existe mesmo uma
coisa chamada mercado livre, se as companhias são efectivamente geridas no
melhor interesse dos seus accionistas, se o crescimento da riqueza dos mais
ricos arrasta de facto o crescimento da riqueza de todos, se precisamos para
alguma coisa de mercados financeiros mais eficientes ou se até precisamos deles
menos eficientes, etc., etc., etc.
Desmontando um a um cada um desses chavões que os fazedores
de opinião nos vendem como sendo saber, Chang vai desenvolvendo a tese segundo
a qual a forma de capitalismo que desde os anos oitenta do século passado é
apresentada como a via única e o fim da História não passa de um versão parcial
e ideológica, um pouco como o whabismo saudita que hoje se confunde geralmente
com islamismo não representa a largura do pensamento e a profundidade da
história do Islão. O que Chang diz é que o capitalismo é muito mais do que a
salsada conservadora e neo-liberal que nos tem sido servida. Tem muitas
virtudes mas também defeitos que têm que ser considerados, controlados ou
contornados, usando de juízo e capacidade crítica.
E é a falta desta capacidade crítica que, no último capítulo
(a “coisa” 23, intitulada “Boas políticas não precisam de bons economistas”), mais
consegue revoltar Chang, afastando-o do seu misto de fleugma britânica e
serenidade asiática. Professor de economia, dá uma violenta rabecada na classe
e indigna-se com as desculpas esfarrapadas com que colegas seus da academia
explicam a incapacidade que tiveram de antever a actual crise e, pior ainda, de
ver retrospectivamente o papel que a visão única do chamado neo-liberalismo
teve no acumular e explodir da crise. Chang reconhece que a economia tal como
aplicada nos últimos trinta anos tem sido “pior do que irrelevante”: tem sido
danosa para as pessoas. E adianta que isso acontece porque os economistas
actuais esqueceram que a economia se pensa, que os grandes vultos se estudam e
que olhando para trás ainda há muita informação útil para usar. Comparando, se
o que aconteceu aos economistas acontecesse com os engenheiros, seria como se estes
esquecessem de repente Newton, Maxwell ou Planck para seguir aqueles inventores
charlatães que periodicamente clamam que descobriram o motor contínuo de
primeira espécie que vai tirar a humanidade da miséria.
“23 coisas que não lhe dizem sobre o capitalismo” é um livro
livre para leitores livres. Desvenda uma porta até aí secreta no cubículo sem
saídas do pensamento actual. Cabe-nos a nós, leitores, perceber se queremos
sair por essa porta ou ficar onde estamos, à espera que outra apareça.
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Constatações
sábado, julho 28, 2012
As modernas sesmarias
Foi com algum desapontamento que vi no Expresso do último
sábado, naquela secção dos altos e baixos da semana, o ministro Mota Soares
alteado pela sua iniciativa de obrigar os beneficiários do Rendimento Social de
Inserção a trabalhos úteis para a sociedade. É certo que os altos e baixos não
são sítio para jornalismo de jeito, ou jornalismo de todo. E é certo que
vivemos tempos propícios à asneira, tempos pastosos em que as noções de bem e
de mal se perderam no breu da noite de abandono moral que caíu sobre o mundo. Mas ainda assim não
estava à espera de ler no Expresso - um jornal que se reclama de referência, um
jornal que ousava falar de democracia quando publicado nos tempos já longíquos
de uma ditadura formal - um elogio aos trabalhos forçados.
No outro dia, o meu filho mais velho perguntou-me o que eu
achava de ele praticar voluntariado, como agora se diz, numa iniciativa
qualquer da sua universidade. Eu respondi-lhe que me parecia bem, com duas
condições: não se sentir no direito de julgar quem ajudasse e não esperar que
lhe tivessem que ficar agradecidos. Se conseguisse reuni-las, teria sido de
facto generoso e poderia deitar-se ao fim desse dia de consciência tranquila e
dormir o sono de um justo. O papel de um pai é também este, o de alertar um
filho para os perigos desta vida, e não há perigo maior do que pegar num acto
nobre e abastardá-lo pela soberba.
Conheço gente que leva a cabo trabalho do mais meritório, do
mais útil para quem sofre e para quem precisa, seja de um pacote de leite, seja
de uma palavra de consolo. Tenho um grande amigo com obra feita nesse domínio,
merecedora de qualquer encómio, que no entanto diz a quem o quer ouvir que os
beneficiários do subsídio de desemprego deveriam ser obrigados a ajudar em
obras de voluntariado. Perturba-me que ele não perceba que tal pensamento não só
contradiz como apequena a sua excelente prática. Perturba-me isto até mais do que
me confunde a noção de que o voluntariado pode não ser voluntário. Não deveria
então chamar-se obrigatoriado?
Uma sociedade pode organizar-se numa base mutualista, em que
todos pagamos impostos para ter direito a um seguro se por azar perdermos o
emprego ou adoecermos gravemente, ou assistencialista, em que quem está em estado de necessidade tem que
procurar a caridade para ser ajudado. Pessoalmente, acho a primeira via muito
mais eficiente e civilizada do que a segunda e, como tenha a civilização em melhor
conta que a barbárie, recomendo-a vivamente. A caridade deveria agir como último
recurso apenas quando um sistema básico de solidariedade colectiva falhasse.
Lamentavelmente, obrigar quem se ajuda a um qualquer trabalho, por muito socialmente
útil que o mesmo pareça, não é nem mutualista nem assistencialista, do modo que
acima defini. O adjectivo que assim à primeira me ocorre é esclavagista. Coagir
quem se pretende ajudar a um qualquer trabalho ofende a dignidade das pessoas
como ofende a dignidade do trabalho.
Pelos vistos, a ideia infeliz do meu amigo foi
aproximadamente retomada pelo ministro Pedro Mota Soares. Quer o ministro que
os beneficiários do Rendimento Social de Inserção procurem activamente emprego,
se quiserem manter essa benesse. Parece-me bem que o façam: esses beneficiários
estão a utilizar um recurso escasso que é o dinheiro dos nossos impostos que
faz falta para que outros não percam o seu emprego, a hipótese de ter os seus
filhos ensinados ou a oportunidade de ver o seu cancro tratado. Quer o ministro
acabar com as fraudes no RSI. Parece-me excelente que o consiga, pelas mesmíssimas razões: abusar do RSI é como
roubar os medicamentos do coração ao velhote que anseia pela chegada da magra
pensão para os poder comprar. Quer o ministro obrigar aqueles que auferem o RSI
a trabalhos úteis. Parece-me péssimo. Que trabalhos? Em que condições? Com que
paga? Que eu tenha conhecimento, ao longo da História, gente que trabalhava
forçadamente ou era escrava, sob diversos nomes (servo, hilota, etc.), ou era
prisioneira. Em qual destas categorias enquadraríamos os beneficiários do RSI coagidos
a trabalhar? Escravos ou prisioneiros?
Talvez o ministro devesse tirar sentido do exemplo ocorrido
com a Lei das Sesmarias de el-rei D.Fernando, que aprendemos na quarta classe. Procurara
D.Fernando atender à dramática falta de mão-de-obra rural com um conjunto de
regras, umas que ainda hoje fariam sentido para muita gente, mas outras, como a
que recomendava que os “mendigos em idade e força suficientes fossem presos e
obrigados a trabalhar pelo sustento ou por soldada”, que só fariam sentido àqueles
que acham que a pobreza é pecado. Pois o que aconteceu foi que, apesar destas
obrigatoriedades todas num tempo em que havia tropa suficiente e arbitrariedade
muita para as fazer respeitar, a Lei das Sesmarias poucos resultados deu. O
mesmo D.Fernando, noutra frente, fomentou duas bolsas de seguros marítimos, em
Lisboa e no Porto, organizadas cooperativamente, que cobravam aos armadores dois
por cento dos fretes e garantiam a recuperação do valor do navio àqueles que os
perdessem. Tais bolsas, muito inovadoras à época, tiveram um grande sucesso e
foram fundamentais para o desenvolvimento da actividade naval que suportou o
surto das nossas Descobertas. Onde quis obrigar, fracassou. Onde procurou a
cooperação, teve sucesso.
De todos os tempos, as sociedades de homens livres sempre se
deram melhor que as sociedades de escravos. Porque não também hoje?
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Meditações
segunda-feira, julho 16, 2012
Fumo sobre a água
Morreu hoje de cancro Jon Lord, 71, fundador dos Deep Purple e que partilha com Ray Manzarek dos Doors e Dave Greenfield dos Stranglers o pódio indiscutido dos melhores organistas do "rock".
Lord tem sobre outros que vão indo a vantagem de não só deixar saudades como deixar músicas, grandes momentos à distância de um clique de rato no "youtube".
Mataspeak não é muito dado a obituários, mas o que tem que ser, tem que ser. Os Deep Purple são as minhas primeiras audições de "hard rock", os cabelos compridos que eu queria ter aos doze anos, os únicos acordes de guitarra que eu sabia tocar, o abanar o capacete ao som do "Made in Japan", a festa em Sassoeiros em que o "Highway Star" tocou repetidamente das duas até às oito da manhã após o que apanhámos o comboio e fomos em magote ao Rossio à pastelaria Suiça comer "duchesses" com a alarvidade dos dezasseis que chocou as velhotas matinais. E em todas estas memórias toca lá ao fundo o orgão de Lord.
O álbum Deep Purple in Rock, de 1970, é a ideia platónica de um disco de "hard rock", de que todos os outros são cópias degeneradas. Em homenagem a Jon Lord (e porque vale mais a pena do que desperdiçarem os próximos dez minutos e vinte segundos da vossa vida com outra treta qualquer) ouçam, desse disco, o "Child in time".
Lord tem sobre outros que vão indo a vantagem de não só deixar saudades como deixar músicas, grandes momentos à distância de um clique de rato no "youtube".
Mataspeak não é muito dado a obituários, mas o que tem que ser, tem que ser. Os Deep Purple são as minhas primeiras audições de "hard rock", os cabelos compridos que eu queria ter aos doze anos, os únicos acordes de guitarra que eu sabia tocar, o abanar o capacete ao som do "Made in Japan", a festa em Sassoeiros em que o "Highway Star" tocou repetidamente das duas até às oito da manhã após o que apanhámos o comboio e fomos em magote ao Rossio à pastelaria Suiça comer "duchesses" com a alarvidade dos dezasseis que chocou as velhotas matinais. E em todas estas memórias toca lá ao fundo o orgão de Lord.
O álbum Deep Purple in Rock, de 1970, é a ideia platónica de um disco de "hard rock", de que todos os outros são cópias degeneradas. Em homenagem a Jon Lord (e porque vale mais a pena do que desperdiçarem os próximos dez minutos e vinte segundos da vossa vida com outra treta qualquer) ouçam, desse disco, o "Child in time".
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Nostalgias
domingo, julho 15, 2012
Exposição fotográfica (XXXVIII)
Hoje voltei a Vila Nova da Barquinha visitar o velho Mata. No cais Pombeiro, o Tejo corria vazo.
O sol entretinha-se a pintar a carvão nos empedrados e paredes.
Mas há cores que só a cor pode reproduzir. Uma instalação do artista plástico Xana, residente em Lagos, com uma casa alentejana feita em caixas de mercado plantada em pleno Ribatejo.
NOTA: Durante algum tempo a legenda da imagem acima continha dois erros: Xana era dado como mulher algarvia quando é homem lisboeta. Os erros resultam ambos de precipitação minha: retirei o nome do autor e a referência a Lagos da plaquinha ao lado da obra e, sem o conhecer, deduzi o que não devia. As minhas desculpas ao Xana e o meu agradecimento à leitora que me comunicou o erro.
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Exposição fotográfica
sexta-feira, junho 15, 2012
Cenas malaias
Infelizmente de toca e foge como é frequente em trabalho,
passei três dias em Kuala Lumpur, na Malásia. O meu dia passava-se entre Bukit Bintang,
uma zona de modernos e pujantes centros comerciais onde ficava o meu hotel, e o
centro de congressos das torres gémeas da Petronas, outra zona de modernos e
pujantes centros comerciais. Entre uma e outra, um passeio de cinco minutos a
pé por um ponte pedestre, fechada e com ar condicionado, que me salvou de uma
morte certa destilado no meu fato e gravata pelos trinta e muito graus e
noventa por cento de humidade que esperavam cá fora.
Não sei se se pode aprender alguma coisa sobre um país
cirandando entre centros comerciais de aço e vidro, mais duas viagens de táxi
por modernas autoestradas de e até ao aeroporto. Talvez sim.
Modesto centro comercial em Bukit Bitang, onde começava o meu dia.
A bendita passadeira com ar condicionado.
As
torres gémeas da Petronas, até 2004 o maior edifício do mundo, 452
metros de aço, vidro e orgulho nacional junto às quais eu congressava.
Ainda a passadeira, agora vista de dentro.
Tirei
esta foto num corredor pouco iluminado num centro comercial, com 1/4 de
segundo de velocidade de obturação e com um gesto rápido para não me
fazer notar, sabendo que iria ficar tremida. Mas esta imagem capta muito
da cor desta cidade, que é também trazida pelas pessoas e pelos trajes
tradicionais que convivem com naturalidade com a roupa ocidentalizada,
ou melhor dizendo, universal nos dias de hoje.
A
Malásia é multi-étnica. Localmente, definem-se como malaios de estirpe,
ou "bumiputra", aqueles que professam a religião muçulmana e seguem os
costumes tradicionais. Os "bumiputra" são um pouco mais de metade da
população e a constituição local dá-lhes um estatuto politicamente
preferencial. Independentemente da etnia, os malaios são atenciosos,
sorridentes e simpáticos.
É
manifesto que o islamismo em Kuala Lumpur é muito mais tolerante do que
noutras partes do globo. É normal ver raparigas jovens que usam o véu
sobre o cabelo, mas estão de "tee-shirt" justa, "jeans" apertados ou
"leggings" e vão de mão dada com o namorado, coisa impensável no mundo
árabe, mesmo nos mais abertos Dubai ou Qatar. Kuala Lumpur mostra-nos
que o fundamentalismo islâmico é fundamentalista porque é
fundamentalista e não porque é islâmico, coisa que nós, portugueses,
deveríamos saber lendo a História do nosso país.
Num supermercado, a zona do talho tranquiliza o consumidor: a carne é "halal", como o Profeta faz questão.
Cerca
de um quarto da população da Malásia é chinesa e budista. A comunidade
chinesa, muito presente no comércio, distingue-se bem da malaia (em
particular por não usar véu).
Esta imagem poderia simbolizar a convivência natural entre duas culturas: chinesa e malaia cruzam-se em Jalan Raja.
Kuala
Lumpur oferece de facto mil grandes possibilidades de refeição, para
quem tenha o estômago recauchutado. Um dos meus pequenos-almoços foi
arroz com camarão picante.
Os
táxis de Kuala Lumpur dão muita cor à cidade. A minha única conversa a
sério com um malaio, tive-a com o taxista que me levou ao aeroporto.
Começámos a trocar bolas sobre Cristiano Ronaldo, continuámos com a má forma da
seleção da Malásia, com o tempo instável que fazia, a construção do novo bairro
governamental, a política local, a obra do anterior presidente da
república e acabámos a falar dos nossos filhos (os dele, de oito e dez
anos, gostavam muito de McDonalds). Tudo com uma naturalidade que eu
julgaria impossível num carro de praça. Em Kuala Lumpur não se constata
só que se pode ser muçulmano sem se ser fundamentalista. Também se
descobre que se pode ser taxista sem se ser básico.
A
economia malaia está com uma saúde que nós, europeus, andamos a
invejar. Muito desse dinheiro passa por bancos islâmicos, como este.
Estes bancos fazem finança sem fazer empréstimos com juros, que são proibidos
pelo Corão. É a finança islâmica. Como é que funciona? Já me tentaram
explicar, mas eu não captei a subtileza e fiquei com a impressão que
faziam o mesmo que os outros, só que com outro nome.
Essa
saúde económica traduz-se numa cidade moderna, uma pequena Manhattan
dos trópicos. Aqui, à direita, o luxuoso hotel Mandarin Oriental.
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Exposição fotográfica
sábado, junho 09, 2012
O milagre de cada dia nos dai hoje
“Então Jesus disse às autoridades dos Judeus: “Eu vos
garanto: o Filho não pode fazer nada por sua própria conta; Ele faz apenas o
que vê fazer ao Pai. O que o Pai faz, o Filho também o faz.””
João 5,19
O meu sogro esperava pela visita num banco do bonito claustro do Hospital de Santa Marta, numa tarde de sábado primaveril após uma delicada operação em que substituíra ambas as carótidas. Assim que chegámos levantou-se e perguntou, com um ligeiro tremor na voz, com aquela ânsia por um momento de quem certamente pensou que poderia não ter mais momentos e por isso lhes dá um novo valor:
Respondemos-lhe mentindo que não viera e ele esboçou um ar
desapontado. De repente, o meu primeiro filho, à altura seu único neto, surgiu
de trás da sebe pela mão da minha sogra, bamboleando no andar trôpego próprio
do seu ano de idade. E imediatamente, ao vê-lo, o meu sogro sorriu incontido,
um sorriso feito de uma felicidade radiante e de olhos embargados por lágrimas.
Há dias, o meu sogro precisou de mais uma manutenção, desta
vez de motor aberto para substituir uma válvula da aorta. O menino que saíra de
trás da sebe foi visitá-lo após a intervenção ao mesmo hospital de Santa Marta,
só que desta vez conduzindo o seu carro. Tinham passado vinte anos na vida de
ambos.
Ora isto parece-me caber razoavelmente na descrição de
milagre, tal como a afiança o dicionário: acto ou acontecimento fora do comum,
inexplicável pelas leis naturais. Pelas leis naturais, o meu sogro teria
morrido aos cinquenta e tal anos e não teria tido a hipótese de uma segunda, e
agora terceira, oportunidades. Há trinta ou quarenta anos, seria o que teria
acontecido. Entretanto a ciência e a vontade dos homens de boa vontade
permitiram que se desenvolvesse e divulgasse esta coisa tão bizarra: abrir o
pescoço a um tipo à facada, cortar-lhe as artérias, pôr-lhe lá umas novas e
fechar deixando tudo a funcionar mais ou menos como dantes: milagre, sem
dúvida.
Os cirurgiões que levaram a cabo essa proeza, uma de muitas
no seu dia e na sua semana, concentrados que estavam na minúcia que o seu labor
exige, não pensaram provavelmente que com os seus golpes de bisturi estavam a
criar tempo. Mais vinte anos de neto para este avô e mais vinte anos de avô
para este neto. Vinte mais vinte somam quarenta anos, o que faz já meia vida
bem vivida. E se adicionarmos os vinte anos do marido, os da esposa, do pai, da
filha, do filho, dos netos que ainda não tinham nascido, para além dos do
próprio, começamos a falar de séculos de vida que tiveram origem naquela sala
de operações, nas mãos enluvadas daqueles médicos e enfermeiros que como num
retábulo desenharam o peculiar milagre. Um milagre que não aconteceu nas
azinheiras de Fátima nem nas águas do lago Tiberíades, mas sim na Rua de Santa
Marta, na freguesia do Coração de Jesus em Lisboa. O nome da freguesia não
podia ser aliás melhor coincidência porque, ao fim e ao cabo, entre Aquele que deu
vida à filha de Jairo e aqueles que deram vida ao meu sogro, a única diferença
relevante são dois mil anos. Um como outros partilharam um dom divino, como bem
explica São João Evangelista no versículo em epígrafe.
Com maravilhas tão quotidianas e tão evidentes no meio da
sala à vista de todos, espanta-me que tantos neste mundo procurem milagres
esotéricos por detrás dos cortinados herméticos do saber dito verdadeiro ou do
conhecimento dito ancestral. Apetece-me gritar-lhes, como no “Ensaio sobre a
Cegueira”: se puderem olhar, vejam; se puderem ver, reparem.
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domingo, maio 13, 2012
EUA (VII) – A derrota total do terrorismo
Esta
esteve para estar no “post” anterior, mas merece um só para ela.
Na St.
Paul’s Chapel em Nova Iorque, entre outras homenagens a polícias e bombeiros
que morreram enquanto tentavam salvar pessoas dos destroços das torres gémeas,
há um painel em que estão presas mãozinhas de cartão, pintadas com cores de
lápis ou feltro, com letras de criança ou adulto, com uma mensagem de paz, ou
uma prece, ou uma promessa de eterna memória.
Bem no
meio, comoveu-me uma que entre traços garridos e coraçõezinhos diz muito
singelamente: “Leon, obrigado pela última dança”.
A
rapariga que escreveu esta frase, dispondo de poucos minutos e de poucas
palavras para registar o que sentia, não se focou na dor, na morte ou na
saudade. Deslastrou momentaneamente esse fardo e pensou no abraço, nos dois corpos
que respiraram abraçados num só sopro, na cabeça que encostou num ombro, nos
pés que caminharam o caminho da música, nas mãos que afagaram uma madeixa. E
agradeceu: “Leon, obrigado pela última dança”.
Os
terroristas que mandaram abaixo as duas torres e sacrificaram a vida de três
mil pessoas fizeram-no em nome de uma ideologia totalitária que tem uma das
suas imagens de marca na visão da sexualidade como um acto de propriedade e das
mulheres como seres impuros. Onde eles mandam, a música, a dança, o amor, as
mãos que se dão, constituem crime. Por isso, naquela mãozinha de cartão está
gravada a expressão máxima da sua derrota: “Leon, obrigado pela última dança”.
Na sua
cegueira, conseguiram mandar abaixo toneladas e toneladas de betão e aço, mas
poderiam até ter arrasado Manhattan inteira que aquela memória continuava de pé,
a troçar deles: “Leon, obrigado pela última dança”.
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Admirações
sábado, maio 12, 2012
EUA (VI) – Aprendendo com as paredes
Escreveu Paul Simon, que bem cantou as esperanças e as
agruras do sonho americano, que as palavras dos profetas estão escritas nas
paredes do metro e nos átrios dos prédios de subúrbio. Mas não só... Passeando
pela América fui lendo pelas fachadas e tabuletas.
Alexander Hamilton possuía uma granja onde fica hoje o
bairro Hamilton Heights, sobre uma colina no noroeste de Manhattan. Em 1889, já
Hamilton morrera com um balázio após duelo entre cavalheiros teimosos, a Igreja
Episcopal de São Lucas adquiriu o terreno e construiu aí um templo. A granja
desceu a rua 141 até lá abaixo, depois voltou a subir até meio da ladeira onde
se encontra hoje. Na janela da igreja, alguém, ou talvez o fantasma do próprio
Hamilton, colou um papel dizendo:
- A democracia... É o governo de todos para todos.
A frase é aqui atribuída a um Theodore Parker mas podia ser
de qualquer um com dois dedos de testa. Ainda assim, um excelente – e muito
necessitado – lembrete.
No Rose Center do Museu de História Natural de Nova Iorque,
três painéis com bastante matéria para reflexão.
Primeiro, com Aristóteles, estávamos no centro do universo.
Depois, com Copérnico, deixámos de estar. Com os vários que descobriram e
teorizaram o “big bang”, voltámos a estar, porque tudo é o centro. Por isso,
temos o filme completo, do sempre e do todo, à frente dos nossos olhos. Isso
devia-nos imbuir de alguma responsabilidade.
Absolutas só as leis da física, o livrinho de instruções que
vem com o produto cósmico. Outras leis, como as do bom senso ou do mercado, por
exemplo, são invenções, quando não grilhetas.
Se Deus existe, deixou-nos assunto suficiente para nos
maravilharmos e não ter que pensar muito Nele. Se não existe, a maravilha
continua aí e não precisamos de procurar o sentido da vida em gurus ou clérigos.
Bem escrevia Shakespeare que há mais coisas no céu e na terra do que aquelas
que a nossa filosofia pode sonhar.
A St. Paul’s Chapel é o mais antigo edifício de Nova Iorque
e sobreviveu milagrosamente à queda das vizinhas torres gémeas. Na altura
tornou-se pela proximidade base de apoio dos socorristas e hoje exibe um memorial
dos dias e do modo em que pessoas se arriscaram para salvar pessoas. Este
testemunho, de um colega engenheiro, recorda como podemos ser grandes perante a
adversidade mas lembra também como podemos voltar a ser pequenos com toda a
facilidade.
Não basta dar por frete, deve-se dar generosamente.
Ironicamente, como se pode ler no baixo da plaquinha, a igreja matriz fica em
Wall Street. A do mundo em que vivemos, também.
No frontispício do tribunal de Nova Iorque, lê-se que a verdadeira
administração da justiça é o mais firme dos pilares de um bom governo. Não um
dos. O. Como em Portugal bem sabemos, não é?
No Central Park, recomenda-se: não alimentar a vida selvagem. Desde 2008 que não fazemos
outra coisa.
[...]
Tirada no Museu do Ar e do Espaço em Washington. Tsiolkovsky
viveu numa época em que não existia ainda tecnologia para dar corpo às suas ideias,
mas esta frase é de quem não tem dúvidas que elas vingariam. Exactamente o contrário
do cepticismo, que continua a ser a única coisa que nos puxa para baixo com
mais força do que a gravidade.
A célebre frase de Kennedy, aqui gravada na pedra em frente
ao seu túmulo no cemitério de Arlington. Em Portugal tem-se desvirtuado muito
esta tirada, associando-a abusivamente a sacrifícios para sair da crise, como
se Kennedy estivesse a falar de economia. Mas a frase é sobre a liberdade,
coisa muito mais importante do que a economia, para ele que não para muitos.
Assim, deste tamanhão, para entrar pelos olhos adentro, na
avenida da Constituição em Washington, mesmo em frente ao Capitólio, não se vão
os representantes do povo esquecer. Que tal uma destas na rua de S.Bento? Ou à
porta do XL?
No monumento a Lincoln, o “Gettysburg adress”, momento
belíssimo, já aqui referido.
“Cartoon” no museu de História Americana. Na essência da
democracia vive a escolha e a escolha faz-se entre alternativas. Dizer que “não
há alternativa” subsume-se a dizer que não há democracia. Tão simplesmente
quanto isto.
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