domingo, maio 13, 2012

Exposição fotográfica - Edição especial USA - Nova Iorque vertical











EUA (VII) – A derrota total do terrorismo


Esta esteve para estar no “post” anterior, mas merece um só para ela.

Na St. Paul’s Chapel em Nova Iorque, entre outras homenagens a polícias e bombeiros que morreram enquanto tentavam salvar pessoas dos destroços das torres gémeas, há um painel em que estão presas mãozinhas de cartão, pintadas com cores de lápis ou feltro, com letras de criança ou adulto, com uma mensagem de paz, ou uma prece, ou uma promessa de eterna memória.

Bem no meio, comoveu-me uma que entre traços garridos e coraçõezinhos diz muito singelamente: “Leon, obrigado pela última dança”.

A rapariga que escreveu esta frase, dispondo de poucos minutos e de poucas palavras para registar o que sentia, não se focou na dor, na morte ou na saudade. Deslastrou momentaneamente esse fardo e pensou no abraço, nos dois corpos que respiraram abraçados num só sopro, na cabeça que encostou num ombro, nos pés que caminharam o caminho da música, nas mãos que afagaram uma madeixa. E agradeceu: “Leon, obrigado pela última dança”.

Os terroristas que mandaram abaixo as duas torres e sacrificaram a vida de três mil pessoas fizeram-no em nome de uma ideologia totalitária que tem uma das suas imagens de marca na visão da sexualidade como um acto de propriedade e das mulheres como seres impuros. Onde eles mandam, a música, a dança, o amor, as mãos que se dão, constituem crime. Por isso, naquela mãozinha de cartão está gravada a expressão máxima da sua derrota: “Leon, obrigado pela última dança”.

Na sua cegueira, conseguiram mandar abaixo toneladas e toneladas de betão e aço, mas poderiam até ter arrasado Manhattan inteira que aquela memória continuava de pé, a troçar deles: “Leon, obrigado pela última dança”.


sábado, maio 12, 2012

EUA (VI) – Aprendendo com as paredes


Escreveu Paul Simon, que bem cantou as esperanças e as agruras do sonho americano, que as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metro e nos átrios dos prédios de subúrbio. Mas não só... Passeando pela América fui lendo pelas fachadas e tabuletas.


Alexander Hamilton possuía uma granja onde fica hoje o bairro Hamilton Heights, sobre uma colina no noroeste de Manhattan. Em 1889, já Hamilton morrera com um balázio após duelo entre cavalheiros teimosos, a Igreja Episcopal de São Lucas adquiriu o terreno e construiu aí um templo. A granja desceu a rua 141 até lá abaixo, depois voltou a subir até meio da ladeira onde se encontra hoje. Na janela da igreja, alguém, ou talvez o fantasma do próprio Hamilton, colou um papel dizendo:

- A democracia... É o governo de todos para todos. 

A frase é aqui atribuída a um Theodore Parker mas podia ser de qualquer um com dois dedos de testa. Ainda assim, um excelente – e muito necessitado – lembrete.



No Rose Center do Museu de História Natural de Nova Iorque, três painéis com bastante matéria para reflexão.

Primeiro, com Aristóteles, estávamos no centro do universo. Depois, com Copérnico, deixámos de estar. Com os vários que descobriram e teorizaram o “big bang”, voltámos a estar, porque tudo é o centro. Por isso, temos o filme completo, do sempre e do todo, à frente dos nossos olhos. Isso devia-nos imbuir de alguma responsabilidade.

 Absolutas só as leis da física, o livrinho de instruções que vem com o produto cósmico. Outras leis, como as do bom senso ou do mercado, por exemplo, são invenções, quando não grilhetas.

Se Deus existe, deixou-nos assunto suficiente para nos maravilharmos e não ter que pensar muito Nele. Se não existe, a maravilha continua aí e não precisamos de procurar o sentido da vida em gurus ou clérigos. Bem escrevia Shakespeare que há mais coisas no céu e na terra do que aquelas que a nossa filosofia pode sonhar.


A St. Paul’s Chapel é o mais antigo edifício de Nova Iorque e sobreviveu milagrosamente à queda das vizinhas torres gémeas. Na altura tornou-se pela proximidade base de apoio dos socorristas e hoje exibe um memorial dos dias e do modo em que pessoas se arriscaram para salvar pessoas. Este testemunho, de um colega engenheiro, recorda como podemos ser grandes perante a adversidade mas lembra também como podemos voltar a ser pequenos com toda a facilidade.


 Não basta dar por frete, deve-se dar generosamente. Ironicamente, como se pode ler no baixo da plaquinha, a igreja matriz fica em Wall Street. A do mundo em que vivemos, também.


 No frontispício do tribunal de Nova Iorque, lê-se que a verdadeira administração da justiça é o mais firme dos pilares de um bom governo. Não um dos. O. Como em Portugal bem sabemos, não é?


No Central Park, recomenda-se: não alimentar a vida selvagem. Desde 2008 que não fazemos outra coisa.


 [...]



Tirada no Museu do Ar e do Espaço em Washington. Tsiolkovsky viveu numa época em que não existia ainda tecnologia para dar corpo às suas ideias, mas esta frase é de quem não tem dúvidas que elas vingariam. Exactamente o contrário do cepticismo, que continua a ser a única coisa que nos puxa para baixo com mais força do que a gravidade.

 

A célebre frase de Kennedy, aqui gravada na pedra em frente ao seu túmulo no cemitério de Arlington. Em Portugal tem-se desvirtuado muito esta tirada, associando-a abusivamente a sacrifícios para sair da crise, como se Kennedy estivesse a falar de economia. Mas a frase é sobre a liberdade, coisa muito mais importante do que a economia, para ele que não para muitos. 


Assim, deste tamanhão, para entrar pelos olhos adentro, na avenida da Constituição em Washington, mesmo em frente ao Capitólio, não se vão os representantes do povo esquecer. Que tal uma destas na rua de S.Bento? Ou à porta do XL?


No monumento a Lincoln, o “Gettysburg adress”, momento belíssimo, já aqui referido.


“Cartoon” no museu de História Americana. Na essência da democracia vive a escolha e a escolha faz-se entre alternativas. Dizer que “não há alternativa” subsume-se a dizer que não há democracia. Tão simplesmente quanto isto.

domingo, maio 06, 2012

EUA (V) – Lendo Lincoln



Livros há como os melões que só depois de abertos se sabe o que lá vem dentro.

Na loja do Smithsonian do Museu de História Americana em Washington, comprei um pequeno volume de discursos de Abraham Lincoln sobre a Guerra Civil Americana. Comprei mais por lembrança do que por leitura, como poderia ter levado qualquer pechisbeque como um íman de frigorífico ou um pisa-papéis em formato de Casa Branca: era pequenino, barato, com uma encadernação engraçada, cabia num canto da mala. Porém, para minha surpresa, ao folheá-lo no avião de regresso, revelou-se grande leitura de viagem e quando aterrei em Lisboa já tinha virado a última página.

O livrito, editado pela Penguin, foi lançado para comemorar os cento e cinquenta anos da guerra e acolhe nove discursos proferidos por Lincoln com o confronto entre nortistas e sulistas como tema central ou pano de fundo. Inclui o célebre “Gettysburg Address”, uma curta alocação proferida na inauguração do cemitério militar local, quatro meses e meio depois da decisiva batalha do mesmo nome, um textozinho em filigrana sobre a responsabilidade que é honrar a memória e a herança dos que morreram pela liberdade dos outros e que inspiraria um século mais tarde o “I have a dream” de Martin Luther King. Inclui a mais documental Declaração de Emancipação, os “Inaugural Addresses”, discursos de tomada de posse como presidente, e discursos de forte combate político sobre o tema da escravatura. No seu conjunto, têm uma escrita agradável e elaborada, uma imagética poderosa – se bem que por vezes um pouco barroca – e sugerem uma oratória convincente.


De entre todos, o discurso para mim mais notável e o que mais revela a visão e a estatura de Lincoln como homem de Estado é o que abre o volume e foi dirigido um quarto de século antes da guerra aos alunos do liceu de Springfield no Illinois, sua terra natal. Lincoln tinha então vinte e oito anos e era um jovem advogado e deputado estadual, já com fama de bom paleio mas ainda longe da capital e da presidência. Para este longo discurso (quinze páginas), o tema que escolheu foi a perpetuação das então ainda recentes instituições políticas americanas.

Começa por relembrar a situação geográfica americana para concluir que o perigo nunca virá de fora, mas pode vir de dentro. Lincoln descreve então alguns casos de linchamento ocorridos em vários pontos da União, alguns deles de carácter racial, para concluir que embora sejam casos pontuais e nalguns deles as vítimas até fossem criminosas, o crescimento na população do sentimento de que as leis podem ser continuamente pisadas e desprezadas, que os direitos individuais estão “ao alcance do capricho de uma turba”, alienará mais cedo ou mais tarde o povo dos que o governam. E daí virá o perigo. Para conter esse perigo, a solução que preconiza é difundir uma veneração total pelo primado da Lei: “que cada um se lembre que violar a Lei é chafurdar no sangue dos seus pais, destruir o próprio carácter e a liberdade dos seus filhos”.

Mesmo assim sendo, Lincoln vê nuvens negras no horizonte. Por um lado, tem como muito provável – por inerente à natureza humana – que mais cedo ou mais tarde apareça um homem com génio e ambição suficientes para tentar o poder absoluto; por outro, à medida que vão desaparecendo os homens da geração que participou na revolução americana, as suas memórias e o  seu exemplo, que serviam em cada família de baluarte contra o autoritarismo,  vão pesando menos:

- Eles eram os pilares do templo da liberdade; e agora que ruíram o templo irá cair, a menos que nós, seus descendentes, os substituamos com outros pilares talhados da sólida pedreira da razão sóbria.

E termina com um incentivo aos rapazes que o ouviam que defendam essa herança até ao fim. Isto sintetizando muito a riquíssima verve do homem...

Há em todo o discurso uma notável visão premonitória, vinte e cinco anos antes, de que vinham aí momentos complicados e que aqueles jovens teriam que estar preparados para eles. Isto porque Lincoln tinha claras algumas ideias que só o bom senso, valência rara na nossa espécie, permite. Primeiro, que a liberdade de todos pode permanentemente ser posta em risco por poucos – não há nunca um fim da História. Em segundo, que ao longo do tempo se vai perdendo a componente afetiva dada por aqueles que conquistaram a liberdade e que só a razão pode levar os que se seguem a defendê-la. Finalmente, que quando os componentes mais fundamentais de uma democracia começam, mesmo que episodicamente, a ser contornados ou corroídos, as coisas vão fatalmente acabar mal.

A leitura deste discurso poderia não passar de um curioso exercício intelectual se não nos déssemos ao trabalho de comparar o alcance da visão de Lincoln com a miopia das lideranças de hoje. Onde ele viu a vinte e cinco anos, não se vislumbra hoje a vinte e cinco dias. Ele percebeu que tocar no que é básico, mesmo que só às vezes, é o caminho certo para o desastre enquanto hoje os líderes europeus vão experimentando tirar esta pedrinha aqui e este tijolo acolá, na esperança que o edifício aguente. Ele avisou a malta para estar por isso pronta para tudo, estes nem sabem a que malta se dirigir.

Portanto, como destapa-olhos, vale a pena ler Lincoln.


sábado, abril 28, 2012

Exposição fotográfica - Edição especial USA - Cores de Nova Iorque

 
St Paul's Chapel: homenagem das polícias aos colegas mortos nos salvamentos do 11 de Setembro
 
 Baxter Street em Chinatown: Centro de estudos budistas

 Mott Street em Chinatown: Mercado de rua

 O teatro Cherry Lane em Greenwich Village

 Operário descansando no City Hall Park

 Edifício Daily News na rua 42

 Poste em East Village

Mural em Hamilton Heights

 Pintura de Sol LeWitt no Museum of Modern Arts

 Radio City Music Hall na sexta avenida

 Central Park West
 Bar em Greenwhich Village

Times Square à noite

 Times Square de dia

David Sanborn no Blue Note

EUA (IV) – Um país com medo

Na ponta sul de Manhattan, ali onde os holandeses começaram a construir em 1625 a sua Nova Amesterdão, as ruas abaixo de Wall Street ainda têm aquela geometria anárquica das velhas cidades europeias. Wall Street, onde hoje se fazem fortunas em “high-frequency trading” ou se afundam países ao toque de um teclado, deve o seu nome a ficar junto a uma paliçada que o governador Peter Stuyvesant mandou construir com medo dos índios. E assim começou uma história de medos.

Deambulamos por essas quase-vielas de prédios cor de tijolo, com ares de Mar do Norte, numa manhã de segunda-feira, feriado nacional, dia do Presidente. A folga esvaziara as ruas e parecia distante a azáfama de metrópole que nunca pára nas avenidas mais a norte, como se tivéssemos viajado um oceano e não apenas uma dúzia de paragens de metropolitano. Acabamos na Praça Peter Minuit, onde vamos apanhar o “ferry” para Staten Island, um cacilheiro local que vai e vem àquele subúrbio e que passa mesmo em frente à Estátua da Liberdade e a Ellis Island. Por isso – e por ser a única coisa à borla em Nova Iorque – transporta sobretudo turistas como nós, que vão até ao outro lado e voltam no seguinte e admiram a estátua de caminho.


Na estação fluvial, apinhada por uma multidão multilingue que espera o abrir das cancelas, os medos continuam lá: um cartaz alerta para que estejamos vigilantes e denunciemos coisas suspeitas às autoridades. Ora eu suspeito que deve haver autoridades que não batem bem da bola mas abstenho-me de denunciar, preferindo embarcar sem escândalo juntamente com o resto da marabunta. No interior do barco, no acesso às balustradas, outro cartaz já não alerta, suplica! “Ajudem-nos a combater o terrorismo! Se virem alguma coisa, digam alguma coisa. Liguem para o número XPTO”.

Subo ao “deck” e apoio-me na guarda para tirar umas fotografias do lado de Brooklyn. Sopra um vento grisante que me enregela os dedos. As gaivotas fazem razias, gritando. Para minha surpresa somos escoltados por um barco da guarda costeira, um “zodiac” com ar galáctico onde à proa um tipo coberto de um revestimento à prova de bala, com ar de Darth Vader, está em posição numa metralhadora fixa. Passo para a amurada do outro lado e lá está outro igualzinho, em apetrecho de combate. Seguem-nos lentamente, num passo soturno. Os passageiros apontam e comentam, momentaneamente distraídos da beleza do rio Hudson. Chegado o “ferry” à outra margem, voltam para trás e desaparecem. Ainda cheguei a pensar que seria um procedimento normal em qualquer travessia deste barco, mas no regresso já não vêm. Fico sem saber se acompanham pontualmente, de forma aleatória, ou se alguém viu alguma coisa e telefonou para o número XPTO da linha anti-terroristas maus.


Estes e muitos outros episódios e detalhes durante esta semana na América revelam uma sociedade amedrontada, obcecada pela pancada que levou a onze de Setembro, suspiciosa de um inimigo sem rosto e que se reconforta inabilmente com esta deriva autoritária que alimenta uma indústria de milhões. Um exemplo extremado disto mesmo ocorre nos aeroportos, na apresentação dos passaportes, em que os estrangeiros são tratados como gado perigoso, “scanados” e catalogados  por paquidermes alimentados a “big macs” que fazem perguntas supostamente esclarecedoras como “quando é que vai embora”. Isto debaixo de cartazes de boas-vindas. De cada vez que estou a passar a fronteira num país de terceiro mundo, com os formulários, as filas e os carimbos inúteis, faço por imaginar que poderia estar a entrar nos Estados Unidos e acalmo-me.

Sei pouco de matérias de segurança, mas sempre tive a impressão que este aparato securitário só impressiona quem vem por bem e não impede quem vem por mal. E pergunto-me muitas vezes se o objectivo principal não será exactamente o primeiro: intimidar o cidadão comum, instilar o medo, para mais facilmente exercer o poder. Gostaria que não, que tudo isto não passasse de estupidez pura, como a daquele folheto verde que se tem que preencher à entrada dos Estados Unidos que pergunta se cometemos crimes condenáveis pelo tribunal de Nuremberga. Tantas vezes me apeteceu responder:

- Claro! Fui eu! Para cem anos de idade estou bem conservado, não estou?

Mas nunca tive coragem para o fazer e ser recambiado no avião seguinte.

EUA (III) – Um país pobre


Na minha primeira manhã em Washington, um som surdo na porta do quarto de hotel ergueu-me da cama para ir ver quem era o malandro. Era o jornal. Esparramado no chão, um exemplar do USA Today, a modos que o Correio da Manhã local, informava-me na página de capa que pela terceira vez um mulher ia disputar o campeonato de “stock cars” na oval de Indianapolis. A despropósito, viria depois a vê-la na televisão a partir o carro todo contra o muro periférico e a sair inteirinha.

Folheei. No interior, uma manchete afirmava que o número de famílias em estado de pobreza extrema tinha duplicado nos Estados Unidos, entre 1996 e 2011. Pobreza extrema refere-se aqui a famílias que vivem com menos de dois dólares por dia. Euro e meio. Duas bicas. Um jornal incompleto. Quinze minutos de cinema. São 1,46 milhões de famílias nesta situação ou seja à volta de cinco milhões de pessoas.

Por cabeça, menos de um dólar. Ora no país teoricamente mais pobre do mundo, a República Democrática do Congo, o congolês médio teve que se aguentar em 2010 com 347 dólares, mesmo assim quase um por dia. Melhor do que estes americanos pobres ou pobres americanos, não sei bem. Na Eritreia, na secura do Corno de África e apesar de uma guerrilha permanente, já fazem figura de remediados com o dobro diário. E no Lesoto, a aproximar os cinco dólares por dia, são comparativamente uns nababos.

É verdade que cinco milhões de pessoas representam apenas um por cento da população americana, mas é muita gente e muito indigente. É como se num cantinho da América, nos Apalaches ou nos Grandes Lagos, houvesse um Togo ou um Ruanda, só que mais miserável. E a maior pobreza talvez seja a naturalidade com que estas desgraças se aceitam: na mesma notícia um Robert Rector, abanando o título de “senior research fellow” da Heritage Foundation, um grupo de reflexão(?) conservador, tentava compor a vergonha e a ideologia invocando as ajudas públicas aos pobres, que os devolveriam a um conforto quiçá excessivo. Este “fellow” permitiu-se todavia ir mais longe e tirar a conclusão muito científica de que à vista desarmada estas famílias não parecem passar as privações que os números sugerem. Uso aqui a palavra “números” enquanto plural majestático, porque entre zero e um dólar por dia é tudo número sem esse. 
Tenho que admitir que o “fellow” Rector tem uma certa descontração natural, ao tentar contrapôr o seu olhar clínico social às ferramentas estatísticas de casas modestas como as universidades de Michigan e de Harvard, conhecidos antros de mentecaptos e responsáveis pelo estudo que determinava o crescimento desta pobreza extrema. E eu, como sou cândido, senão mesmo idiota, ainda alimento a vaga esperança de que se o “fellow” Rector conhecesse Magdalyn March, trinta anos de idade, residente nas ruas e abrigos de Birmingham no Alabama, mãe sózinha de dois filhos, trabalhando num “fast food” como empregada de mesa, os olhinhos pequenos de uma miopia que não tem dinheiro para pagar óculos e os dentes podres por falta de um luxo asiático chamado dentista, talvez fechasse a cloaca. É Magdalyn que diz, no final do pequeno artigo do USA Today, a verdade última, a verdade que nem o olho ideológico de Rector, nem as análises numéricas dos professores universitários captam: “Tens que arranjar um esquema qualquer. Sem isso não consegues viver. Não consegues mesmo.”

Não sei onde fica a Heritage Foundation, mas não deve ficar em Washington, capital do império, senão o “fellow” Rector veria como eu vi, regressando ao hotel à noite, a cada porta dos edifícios de escritórios, um homem dormindo no chão sobre um cartão, enrolado numa manta que o separava de uma neblina a dois graus centígrados. Veria como eu vi fieiras de catres pelas beiras dos passeios onde uma silhueta jazente exalava um bafo que o frio tornava névoa e suspirava um pedido de dez cêntimos. E veria que isto não se passava num arrabalde sombrio e deserdado, mas na Avenida F do Penn Quarter, que culmina na Casa Branca.

Mas, enfim, o “fellow” Rector não passa de um pobre cretino, como seria de esperar de um tipo cuja sonoridade do apelido faz lembrar troços finais do intestino grosso.


Um país não é rico por ter ricos ou riquezas, é rico por não ter pobres. Um país é pobre em duas situações, que normalmente coexistem: ter pobres que palmilham as ruas e pobres de espírito como o “fellow” Rector com tempo de antena para os seus dislates. Neste sentido os Estados Unidos, independentemente da tonelagem dos seus porta-aviões e da pujança dos seus índices de bolsa, são um país pobre. São-no exactamente pela mesma razão que faz com que uma camisa com uma pequena nódoa não esteja limpa, um corpo com um pequeno tumor não seja saudável e uma verruga no meio da penca torne feia a mais bela carinha.

sábado, abril 07, 2012

As crianças que não faz mal que morram

“Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações... Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume.”

Eça de Queirós, in “Bilhetes de Paris”


Num dos seus bilhetes de Paris, Eça discorre com a sua prosa inigualável sobre o modo como nos emocionamos mais com o pequeno sofrimento da vizinha do que com a grande catástrofe ocorrida nos antípodas, com mortos aos milhares. Muito positivista, chega a enunciar uma lei da física a propósito, afirmando que a distância actua sobre a emoção exactamente como actua sobre o som, enfraquecendo-o até que se some.

Será mais uma lei humana do que uma lei da física, porque continua hoje tão válida como em vida do escritor. Vê-se no modo como se alinham as notícias: um deslizamento de terras que desaloje uma família algarvia merece por cá honras de primeira página, enquanto um descarrilamento de uma composição apinhada em Bombaim, morrendo passageiros às dezenas, dá para uma curta nas folhas interiores. Lembrei-me desta lei e deste texto, que eu estudara nas aulas de Português pelos meus treze anos, a propósito de desgraças recentes.

Março de 2012 foi um mês mais nefasto do que o habitual para esta pobre humanidade. No princípio do mês, um soldado americano entrou de noite em três casas de Kandahar no Afeganistão e matou dezassete pessoas, entre as quais nove crianças. A 14, vinte e oito pessoas, entre elas vinte e duas crianças belgas, morriam num acidente de autocarro num túnel da Suiça, quando regressavam de férias escolares na neve. E a 19 um homem matou um professor e três crianças numa escola judia de Toulouse.

A morte de uma pessoa traz sempre dor a quem é próximo e pelo menos perplexidade diante da fragilidade da nossa essência a quem está mais distante. Isto até quando falamos de pessoas que viveram uma existência plena e longa, cujo fim resulta sem mais de uma lei da vida que todos racionalmente compreendemos e aceitamos, mesmo que a contragosto. Mas a morte de crianças marca-nos mais, muito mais. É ilógica e é injusta. Mexe por mimetismo com o melhor e mais profundo vínculo que como espécie desenvolvemos, que é a relação com um filho. De uma certa maneira, qualquer criança que morra é uma parte de nós que morre também. E se na morte de um velho podemos encontrar consolo na memória da vida vivida, na de uma criança não conseguimos deixar de sentir a derrota por um futuro que não se cumpriu, por uma promessa que poderia ser a melhor hora da humanidade e para mal dos nossos pecados já não o será. Por estas razões, Março foi mês para nos comovermos com isto tudo.

Nestes acontecimentos, funcionou um pouco nos noticiários a lei do Eça. Vinda de longe, do Afeganistão, de um sítio esquecido pela fortuna, a matança dos nove pequenos afegãos fez notícia mas não abriu noticiários, enquanto a das três crianças francesas e o brutal acidente que levou os vinte e dois belgas, já mais próximos, já na Europa, mereceu primeiras páginas e abertura de telejornais, análises e explicações, imagens do luto das terras e das lágrimas dos amigos que perderam amigos.

A lei do Eça, se pensarmos bem, é mais uma lei da imperfeição do que da perfeição humana. Não faz sentido que sintamos mais a perda do pequeno Jean do que a do pequeno Ali, só porque uma ocorre a dois mil quilómetros e outra a vinte mil. Ambas são definitivas, ambas são infinitas e para gente de bem não há crianças de primeira e crianças de segunda. Sei que haverá certamente quem não pense assim mas este “post” não se dirige a essa escumalha. Talvez a lei do Eça seja uma defesa: perante a nossa incapacidade em suportar tanto sofrimento, arranjámos um mecanismo de filtragem, que nos protege de uma qualquer demência. Aceito portanto que sejamos assim, mas com alguma pena.

Nestes dias de Março, comecei no entanto a ler e ouvir coisas que já iam para além da lei do Eça e que essas já não consigo engolir sem um reflexo de vómito. Nos dois casos que tinham uma envolvente política, os políticos e sobretudo a imprensa deram em fazer uma destrinça no tratamento dos dois assassinos que na prática resultava na tal tese insuportável das crianças de primeira e das crianças de segunda, ou terceira, ou última.

Dizia-se que as crianças de França eram “vítimas de um terrorista”, enquanto as do Afeganistão tinham sido “mortas pelo soldado norte-americano”. O abuso e a manipulação da palavra “terrorista”, usada reles e selectivamente ao sabor das imbecilidades e das conveniências, tem sido uma chaga na política e na comunicação social ocidentais desde o onze de Setembro. Para a criança a quem apontam a arma à entrada da sua escola de Toulouse ou no seu quartinho de Kandahar, o terror é exactamente o mesmo. Para os pais sobreviventes condenados na mais dura das penas à memória dos filhos partidos e à imaginação do medo que eles terão sentido nesses segundos fatídicos e ao sentimento de culpa por não os terem conseguido defender, o terror é exactamente o mesmo. Para as comunidades vergastadas no seu âmago pelo ódio mais rasteiro, o terror é exactamente o mesmo.

 Enquanto ao “terrorista” se inquiriam ligações funestas, irmãos salafitas, derivas religiosas, viagens de treino aos santuários fundamentalistas, ao “soldado”  procuravam-se explicações racionais e razoáveis desculpas: o stresse da guerra, um acesso de loucura num bom pai de família, só faltando terminar o assunto com um “desculpem lá qualquer coisinha”. Mas para as lágrimas que correm ou ao futuro que se gorou, essas considerações fazem alguma diferença? Não poderíamos afirmar serem ambos os assassinos terroristas, sem perda de verdade? Será que os terroristas assassinam e os soldados desembestados só matam? Será que umas crianças são vítimas de terroristas e outras meros danos colaterais numa guerra que não pediram?

Não consigo tolerar este “doublespeak” que se apoderou do discurso ocidental, iniciado pelos políticos, amplificado pelos jornalistas e aceite pelos votantes. Posso até entender os primeiros, mas nunca os outros, o que nos inclui a nós. Se aceitarmos este género de conversa, se nos deixarmos manipular desta maneira pacóvia, já estaremos a ir muito para além da lei do Eça: estaremos a dizer com a maior das serenidades que há crianças que não devem morrer e outras que não importa que morram. Que um francesito rosado é precioso e que um afegãozito moreno é descartável. Isto é r-a-c-i-s-m-o, com todas as letras. Que os fins justificam os meios e que há causas que desculpam um tiro numa cara de seis anos e outras não. Isto é to-ta-li-ta-ris-mo, com todas as sílabas.

Pensem nisso e revoltem-se um bocadinho, da próxima vez que ouvirem alarvadidades dessas na vossa rádio ou têvê.