As mulheres têm mais capacidade de fazer corar os homens do que o contrário.
Verdade. Dei-me pela primeira vez conta dessa realidade no início da minha carreira, quando fiz parte de uma equipa que realizou uma coisa chamada “caracterização dinâmica da barragem do Alto Lindoso”. Basicamente consistia em passar o dia num buraco no paredão da barragem, na altura em construção, em frente a uns computadores que hoje nos fariam rir, daqueles com letras verdes em ecrãs pretos, a ver como é que aquilo abanava.
À hora de almoço, descíamos por uma estrada sinuosa, evitando “in extremis” camiões gigantes e bois barrosões razoavelmente grandes até um restaurante frequentado exclusivamente por homens da obra. Ficava numa casa de quinta antiga, com uma sala grande atravancada pelo amesamento e um fogão a lenha em ferro preto que ainda funcionava. As proprietárias, duas irmãs velhinhas, daquelas minhotas trigueiras com uma pele lisa que a idade sulca mas não enruga, circulavam entre mesas distribuindo rojões, dobradas, feijoadas e outras levezas da culinária nortenha. À época, as preocupações com o agá-dê-éle ainda não constavam.
Um dos dias, durante o almoço, tocou um telefone de parede daqueles de baquelite e sonora sineta. Atendeu uma das irmãs e foi falando, alto para vencer o murmúrio colectivo dos mastigantes. Percebia-se que falava com um filho que morava no Porto. Não sei o que este lhe disse, mas a dada passo a velhota interrompeu-o: “já não estou a gostar do c… da conversa!”. E vai daí desancou-o de alto a baixo, soltando mais palavrões em cinco minutos do que todos aqueles que se haviam proferido nessa manhã na obra, onde moinava cerca de um milhar de gajos.
Na sala, o ambiente era constrangido e o murmurar tinha-se silenciado. Só se ouvia a velha, de bata florida e lenço na cabeça, aos impropérios e bujardas. Recordo-me de na mesa à minha frente um operário de macacão de ganga, um homenzarrão ruivo e barbudo, com quase dois metros, baixar o olhar para o prato e corar, mas corar vermelhão.

Esta cena volta-me à memória por vezes em certos jantares em que entre o fim da sobremesa e o sorver do café, os homens olham embaraçados uns para os outros, sem saber o que dizer, no limite do coranço, quando elas se põe a debater assuntos que noutros tempos da fidalguia passariam por ser de alguma intimidade.
Nas ocasiões mais recentes, o tema que está a dar é a depilação. A conversa normalmente começa nas axilas e depois vai descendo. Exactamente até aí. E nesse preciso momento os rapazes ruborizam e um deles desafia os outros para uma cartada, para fugir ao embaraço.
Elas vão discutindo métodos e vantagens, extensões e penteados, cortes e metodologias. Comparam os custos e as dores e contrapõem face à excelência dos resultados. Pelo que não podemos deixar de ouvir, o que está a dar agora é a depilação a “laser”, pagando-se bem mas de resultado definitivo. Tal como com o cavalo de Átila, a relva não volta a crescer.
Quem estabeleceu as bases teóricas do “laser” foi nem mais nem menos do que Einstein, num artigo de 1917 intitulado “Sobre a teoria quântica da radiação”. Nunca pensou o guedelhudo e bigodudo génio que as suas ideias pudessem vir a servir tão acarecante propósito.
Embora eu ainda tenha trabalhado com “lasers” na universidade, certamente em aplicações menos nobres, tive alguma dificuldade em visualizar como se daria a utilização da amplificação de luz por emissão estimulada de radiação nestas recônditas circunstâncias da depilação íntima. Como funcionaria? Pus-me a imaginar laboratórios escuros, raios verdes e vermelhos atravessando tubos transparentes, cientistas de bata branca. De repente, atingiu-me uma epifania e no meu cérebro materializou-se a seguinte cena:

Na sala de depilação a “laser”, entra a figura negra e capeada de Lord Darth Vader:
- I can f
eel a hairy disturbance in the F
orce. You have f
ailed to depilate effectivel
y. I will
not toler
ate this again.
A depilante, pendurada no ar pela força mental do Jedi e um pouco nervosa:
- É a porcaria daquela cera, Lord Vader, não …
- Wax is the depil
ator of the w
eak. I will proc
eed immediatel
y to a more definitive terminati
on!
- Sim, Lord Vader, mas com jeitinho…
- I will
use the power of the Force to make you ass
ume the depila
ting position!
A depilante, nua da cintura para baixo, é rodopiada no ar no centro da sala até atingir a configuração propícia. Lord Vader aproxima-se:
- Using the power of the Force to control two legs and a torso is m
ore tiresome than strang
ling an incompetent Death Star lieutenant. You will have to pay
well…
- Hi,hi! Já paguei o sinal ao robô que está à entrada do consultório, Lord Vader!
- G
ooood!
Nesse momento houve-se um “uoooooon” característico e o Jedi negro desembainha o seu sabre de luz, que pulsa, avermelhado, no centro da sala. Aproxima-se e inicia a operação…
Mais tarde, Lord Vader ajoelha-se diante do Imperador Galáctico, Palpatine:
- Reporting as requested, My L
ord.
- Have you performed today the depilating task as planned, Lord Vader?
- Yes, My L
ord. All her hair is now
gone. I accidentally cut off one leg and both buttocks in the process.
- That is a minor side-effect in the pursuit of baldness. I’m overall satisfied, Lord Vader.
- Thank
you, My L
ord.
- What about the rebels? Are they epilated?
- Han
Solo is currently stuck in a carbonite slab and impossible to r
each. L
uke Skywalker is as baby fa
ced down there as below his n
ose, so no work to
do. According to intelligence, Princess L
eia, as most female earth
lings, has already epilated herself down to the
core. I am now focusing on
Chewbacca, My L
ord.
- And when do you foresee that this task will be terminated?
-
Chewbacca is quite
hairy, My Lord! L
ooks like an Austrian earthling fe
male. But I expect to be able to finish
him in episode VIII of the
saga.
- Do better, Lord Vader. Episode VI is the limit. No pubic hair must survive after then anywhere in the Galaxy!
- (Glup) I will
do as you wish, My L
ord.

Pois. Deve ser mais ou menos assim que a coisa se passa.
Regressei à Terra, onde elas continuavam a debater o problema do pelo persistente. Deu-me para fazer a pergunta incorrecta:
- Se essa cena é definitiva, como é que vocês fazem quando a moda mudar?
Olharam para mim com ar transviado. Insisti:
- Sim. Isso deve ser como as gravatas e as abas do casaco, que alargam e estreitam com um intervalo de dez anos. Se calhar, daqui a uns tempos volta a moda “afro”. E nessa altura? Se isso do “laser” é definitivo?
Pintou um clima silencioso. As bocas delas entreabriam-se procurando facilitar a resposta que não surgia.
De repente, uma dos homens quebrou o gelo para dar a opinião que se impunha:
- Nessa altura, vão ao mesmo sítio onde lhes passaram o “laser” e pagam uma fortuna igual para fazer um implante.