sábado, abril 05, 2014

As coisas boas das coisas boas



Um casal idoso parte da sua terra na província para visitar os filhos que moram na capital. Os filhos recebem-nos com cortesia mas sem disponibilidade, embrenhados que estão no seu dia-a-dia. Só uma nora, viúva de um filho morto na guerra, se desdobra para os levar a passear, sempre com um sorriso. Para os manter ocupados, os filhos pagam-lhes uma estadia num hotel de uma zona turística junto ao mar, mas a agitação nocturna é excessiva para os velhotes que regressam inopinadamente, gerando uma situação embaraçosa uma vez que a filha que os albergava tinha nessa noite convidados a dormir em casa e não tinha lugar para eles. Por isto, a velhota vai dormir a casa da nora viúva e o velhote vai visitar antigos camaradas do serviço militar. Nessa noite, alguma franqueza vem à superfície: mãe e esposa de um homem morto na guerra comungam saudades e, noutro local, o velhote e o amigos bebem um copito a mais e confessam desilusões nas relações com os filhos, cujas carreiras defraudaram as suas inconfessadas expectativas. Depois, o casal regressa à sua terra, onde a senhora adoece gravemente. Os filhos acorrem ao leito de morte. Nesse momento intenso, mesmo os mais pequenos gestos ganham um significado enorme e tal não escapa ao velhote, proporcionando-lhe a ocasião para fazer com que, no final, o Bem triunfe.

Isto é o que se passa em “Viagem a Tóquio”, filme de 1953 de Yasujiro Ozu. Passa-se portanto no Japão e logo com a serenidade, a nitidez e a leveza de traço que encontramos na escrita de Tanizaki, na “manga” de Jiro Taniguchi, nas gravuras de Hokusai, ou mais geralmente na cultura japonesa, uma cultura fortíssima, imperturbável na sua perenidade de séculos reverentes, vergando ao seu poder a luz dos néons de Tóquio ou o glamor dos últimos modelos da electrónica de consumo.

Há certos livros e certos filmes  e certos quadros e certas conversas à volta de uma boa mesa dos quais não saímos os mesmos. Podendo ser mais ligeiros ou mais pesados, mais fáceis ou mais difíceis, mais alegres ou mais tristes, são objectos e momentos poderosos, diferentes e que por isso nos diferenciam. Quase sempre não se dão de graça, implicam um esforço, uma perseverança, por vezes uma luta. Pedem-nos inteligência, rigor, honestidade, tempo. Por serem distintos e por nos transformarem, sem medo poderemos dizer deles que são coisas boas, boas por mais férteis, mais esclarecedoras, mais belas do que a mediania ou pobreza que são o que mais vemos à nossa volta.

“Viagem a Tóquio” pertence certamente a esta privilegiada condição.  Alia um cuidado estético notável – para quem gostar de fotografia a preto-e-branco, cada fotograma é um quadro – a uma reflexão profunda sobre a condição humana, sobre algumas das suas aspirações e incoerências, sobre a importância que podemos ter nas vidas dos outros, sobre o ricochete que as boas acções fazem nos outros e nos tornam a nós pessoas melhores, sobre – sobretudo sobre – a essência do Bem. O tema do Bem é central neste filme, e Ozu convida-nos a desvendar uma visão do Bem completamente diferente do maniqueísmo primário que nos chove em cima nas séries americanas, de que o Bem é o oposto do Mal e que basta combater o Mal para fazer o Bem. Para Ozu, o oposto do Bem não é o Mal mas sim a ausência do Bem, e essa ausência pode ser tão terrível ou às vezes pior que o Mal, por mais insidiosa e menos visível.

As questões sobre as quais Ozu vai reflectindo no seu filme aparecem quase todas, senão todas, em qualquer grande obra, em qualquer coisa boa. São as questões que atormentam os grandes filósofos (e também aqueles que lêem as suas pessegadas herméticas) e que são poucas e simples e sempre mais ou menos as mesmas desde que os nossos antepassados pré-históricos olharam para o céu estrelado e deixaram o espírito vaguear. De onde vimos e para onde vamos? O que aqui fazemos? Existe um sentido para isto tudo? Quem sou eu e quem são os outros? Há uma verdade e uma mentira, um certo e um errado, um belo e um feio?

Os bons escritores e pintores e músicos e realizadores pegam nestas questões eternas e embrulham-nas de novidade, convidando-nos a vê-las por novos ângulos de entre a infinidade que o nosso mundo tri-dimensional permite. Produzem as tais coisas boas e ajudam-nos a que nós, em contacto com elas, pensemos e cresçamos. A arte é muitas vezes o condão de tornar simples o que é complexo e misterioso. Por exemplo: uns dias antes de “Viagem a Tóquio”, vira o “Conto de Inverno” do Eric Rohmer. O assunto: Deus como fonte de luz, a possibilidade da revelação, a graça divina que recompensa a fé, tudo cenas “top level”. O veículo: uma história aparentemente superficial sobre as relações amorosas e as dúvidas existenciais de uma cabeleireira do subúrbio parisiense. A lição: vale a pena procurar a felicidade porque ela acaba por surgir nas nossas vidas, porque a primavera sucede fatalmente ao inverno. Assim, em duas penadas e em duas horas de entretenimento.

A ideia deste texto sobre as boas coisas que as coisas boas nos proporcionam surgiu-me quando escrevia o texto imediatamente anterior e congeminava sobre as razões que levam a sociedade a presenciar acriticamente o mal ou a ausência de bem e a tudo aceitar, não só nos políticos como no vizinho do lado, sem um julgamento inteligente. Não fiz nenhum estudo de carácter científico, mas tenho a forte impressão que este comportamento, que revela ausência de referências senão de valores, vem de vidas pouco expostas às coisas boas das coisas boas.

Eu tenho mais dez anos de escolaridade que o meu pai, mas se no fim da vida tiver lido um terço dos livros que ele leu, vai ser um pau. E, paradoxalmente, sou entre os da minha geração um leitor compulsivo. Entre a geração do meu pai e a dos meus filhos, a televisão e o Facebook, que são meios fanhozíssimos, ocuparam uma grande parte dos tempos livres e fizeram que as pessoas perdessem exposição a coisas boas e às boas coisas que as acompanham. Quando faço afirmações destas, cá em casa olham-me como se estivesse a defender o manuscrito em rolo face ao livro impresso, ou o cilindro de cera face ao CD. E aproveitam a deixa para me olharem de cima da burra e me chamarem velho. Mas a questão não é tanto de suportes, é de conteúdos. O problema da TV não reside na transmissão por fibra óptica ou no visionamento por LEDs, reside no Big Brother, no arengar partidário dos comentadores convidados, no jornalismo oficioso, na violência estrutural das séries da Fox ou na presença sequer do Goucha, do Baião ou da Teresa Guilherme. Ver qualquer programa da Teresa Guilherme uma vez por acidente de “zapping” já não deve fazer bem à saúde. Ver Teresa Guilherme todas as semanas deve ter o mesmo efeito no intelecto que enfiar a cabeça dentro do reactor de Fukushima. Uma sociedade com Teresa Guilherme no topo das audiências está no ponto para ter um lindo enterro.

Não será certamente através da televisão de hoje, nem do pinga-pinga do Facebook, nem das vanidades da Caras que nós, enquanto sociedade, buscaremos os valores de que necessitamos para deixar de ser a marmelada diletante em que nos tornámos nos últimos tempos. Encontraremos valores seguros numa discussão franca com amigos, numa reflexão pessoal crítica e informada e também na vivência das coisas boas das coisas boas, que estão aí à disposição para nos preencherem o dia, de vez em quando. Eu acredito nisto, em parte por preciosa herança, em parte por calhar às vezes encontrar perdida nos bolsos, para surpresa minha, alguma coisa boa de uma coisa boa.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

A escola da rua da palha



Há uma linha de Pessoa, salvo erro pela voz de Alberto Caeiro, que diz que “O único mistério é haver quem pense no mistério”. Embora o poema onde consta trate de assuntos sérios, Deus e o sentido da vida e tal, este verso assim solto assalta-me muitas vezes quando vejo discutir à exaustão aquilo que é indiscutível. Discutir o que nem vale a pena discutir é um dos desportos nacionais a par do futebol e do hóquei em patins. O único mistério para mim é haver quem debata certas questões como se houvesse algum conteúdo para divergência, como se elas tivessem dois lados, como se não fosse evidente aquilo de que estamos a falar. Uma das últimas destas é a questão das praxes académicas, que surpreendentemente só foi suscitada pela morte trágica de seis jovens e não, como deveria ter sido, pelo visionamento recorrente em todos os Setembros de manadas de caloiros levados pela corda por calhandreiros que se gabam do número de chumbos e reinscrições.

Para início e fim de conversa, as praxes que vemos hoje nos nossos meios universitários são uma exibição sempre reles e quase sempre criminosa daquilo que pior há no animal-homem se deixado à solta: nos praxantes, o gozo sádico do poder, a vingança comezinha e a indiferença pelo próximo; nos praxados, a cobardia da submissão acéfala ou, pior, a patetice alegre de aspirar pertencer à carneirada; no espectáculo, a boçalidade, a estupidez, a degradação humana, em suma a banalidade do mal – com as minhas desculpas a Hannah Arendt por usar uma expressão dela para falar deste lodaçal.

Não percebo portanto como se litiga ainda o tema, com tempo de antena e páginas de jornais,tanto quanto não perceberia se ministério, reitores, associações de estudantes e comentadores se sentassem a uma mesa a discutir as virtudes e os defeitos das violações colectivas ou dos espancamentos por gangues nos recintos académicos. E o mais grave é que eu não estou a exagerar na comparação.

As razões para este alarido estão muito em se ter perdido o sentido do que é uma universidade. Podemos talvez começar por aqui, manipulando um facto de “petite histoire”. No Quartier Latin, em Paris, existe ainda hoje uma “rue du Fouarre”, onde a primeira universidade parisiense se instalou no século XIII. “Fouarre” é uma deturpação de “feurre”, palavra arcaica que significa “palha” e o nome deve-se ao facto de os estudantes trazerem palha para se sentar nela a ouvir os mestres.  A confusão da rua, bem no coração da cidade, era grande, a ponto de em 1535 o Parlamento ter mandado instalar umas portas nos topos para impedir a passagem de carroças durante os períodos de aulas. Ponho-me a imaginar os alunos, algures à volta de 1300, num dia de inverno, sentados na palha molhada, com a azáfama citadina como ruído de fundo, concentrados a ouvir o professor de pé no púlpito. E esta imagem define para mim o que é uma universidade: um sítio onde pessoas procuram o saber e outras partilham-no. Tudo o resto que lhe ponham à volta é acessório: anfiteatros, cantinas, polidesportivos, sistemas informáticos e o mais que encontramos numa faculdade moderna ajudam ao conforto e à eficiência, mas no limite não são essenciais. Neste sentido dual de professor e alunos e algo de sortilégio a fluir entre eles, a Academia de Platão ou o Liceu de Aristóteles foram universidades, como também o foram muitas escolas primárias onde a paixão de um mestre lançou a centelha que ateou para o resto da vida a curiosidade de uma criança.

Se percebermos que uma universidade é isto, um lugar onde o saber brota e se bebe, onde a nossa procura colectiva se soma e se divide, onde se faz a diferença, onde se constrói pedra a pedra aquilo que mais há de eterno na humanidade, onde se acrescenta um ponto ao conto da ciência, da letra ou da arte, então perceberemos que a praxe e muito especialmente a praxe moderna é a antítese da universidade. A universidade não é um espaço físico ou uma entidade administrativa, é um conceito onde não cabem os “duces veteranorum”, as caras na lama, o riso néscio, as capas e batinas que copiam mal de Coimbra uma tradição da qual não foi percebida a ponta de um corno. Porque a tradição coimbrã era jocosa, marialva e muitas vezes culta, nunca barrasca como a que se sofre agora, conforme poderemos confirmar, de sorriso nos lábios, se lermos o “In illo tempore” de Trindade Coelho.

Pertencer à universidade é um luxo e um privilégio. Eu, que sou filho de pais que não tinham no Portugal salazarista nem o berço nem a condição económica que lhes permitissem estudos superiores, sempre percebi bem percebida a sorte que tive por ter podido entrar no anfiteatro GA1 para ouvir o Prof. Campos Ferreira, de cigarro na boca, explicar a demonstração do teorema de Weierstrass. Apesar de ter feito muitas coisas interessantes em termos profissionais, as aulas que dei durante quase um quarto de século no Técnico serão sempre, a par dos meus filhos, o maior motivo de orgulho e plenitude que levarei desta para melhor. Para mim, um aluno admitido numa universidade deveria ir com a bola baixa e o boné na mão de quem entra numa catedral, não com o pé no chinelo e o arroto fácil de quem se assoma a uma taberna. Vistos do meu ângulo, os auto-denominados veteranos que se divertem alarvemente com miúdas forçadas a simular o sexo que eles gostariam de ter mas lhes deve faltar, ou com rapazes a enfiar a fuça na farinha em sinal de sujeição, não são universitários, por muito que o ministério diga que sim. São uns merdas que para ali andam.

Mas pior que eles, talvez, é esta sociedade que tudo mira com preguiçosa indiferença, que tudo discute com diletante relativismo. Mesmo que difusamente, mesmo que discutivelmente, continua a haver um Bem e um Mal, continua a haver um Bom e um Mau. Talvez, nesta sociedade encandeada pelo brilho dos ecrãs tácteis e confundida pela catadupa de recados insignificantes cuspidos pelas redes sociais, onde abundam os “sites” e os canais de cabo mas escasseiam os minutos e a paciência para um bom livro, nos faltem agora as referências. Por isso as pessoas vêem jovens levar outros jovens humilhados em fila indiana, como antes os escravos para a galera, e não reparam que as semelhanças entre as duas situações são mais do que as diferenças.

Temos talvez que nos preocupar mais em procurar as coisas boas que as coisas boas têm para nos dar. E então mudaremos e não admitiremos mais estas praxes. Mas isso, das coisas boas, será tema para o “post” seguinte.



domingo, fevereiro 16, 2014

Nada y pues nada



Mataspeak andou mortiço durante 2013. Isto não é exactamente ao quilo ou ao quilómetro, mas quinze textos mais quatro “posts” de fotografias envergonham um bocado. E 2014 começou igual, com um Janeiro de bico calado.

Comecei vários ficheiros, onde arremessei ideias sem a força suficiente para se transformarem em textos, como quando mandamos um seixo, escolhido no cascalho da margem pela sua boa planura,  a rodopiar contra a superfície de um lago e ele se afunda à primeira com um som mole em vez de dar a meia dúzia de ressaltos que esperávamos dele. Quando tal acontece tendemos a acusar o seixo, por pouco hidrodinâmico, ou a água, por falta de densidade. Qualquer especialista em mecânica dos fluidos, ou à falta deste qualquer criança, nos dirão que a culpa é mas é da nossa falta de jeito no lançar.

Pois assim andei-me eu, a justificar-me. Os problemas do trabalho, os atilhos com os filhos, a vontade de sono, a falta de tempo. Tudo retirava inspiração, mas tudo era treta: não sofri nenhuma catástrofe, dormi quando tinha que dormir e estraguei minutos preciosos em actividades de chacha. Nada justifica portanto senão uma injustificável preguiça. Ou às vezes uma abrupta sensação de vazio, de falta de sentido das coisas. Não sei se foram os cinquenta anos que me atropelaram de repente, quando me dei conta que o horizonte estava mais próximo e mais incerto, mas por momentos perguntei-me porque estava aqui a escrever estas coisas. E nesses momentos gravei o ficheiro e fui à vidinha.

Mas há pelo menos um sentido. Há por exemplo um revelado num pequeno texto de Hemingway intitulado “Nada y pues nada”, um texto solto publicado em edições mais recentes do “Paris é uma festa”. Hemingway relata um diálogo que teve em Cuba com um jornalista chamado Evans, que partilhara com ele muito passado, na guerra de Espanha e noutros sítios. Evans estava a fazer a cobertura de umas corridas de cavalos, apesar de sofrer com um cancro do pâncreas em fase terminal e já só se aguentar a muita morfina e de andar com um dreno a expelir a maleita. Desse diálogo consta o seguinte:

“Evans: ...Mas tens que continuar porque escreves por todos nós.

Hemingway: Quem são “todos nós”?

Evans: Não te faças difícil. Quero dizer nós dos primeiros tempos e dos melhores momentos e dos maus momentos de Espanha. E depois este outro e tudo desde então e o tempo de agora. Tens que lá pôr o engraçado e o resto que só nós sabemos, que estivemos nalguns lugares estranhos em momentos estranhos. Fá-lo por favor mesmo que nunca mais queiras pensar nessas coisas. E tens que pôr lá também o agora. Eu estou tão ocupado com os cavalos que já não sei o que é o agora. Só o meu agora.”

Mais à frente, quando vai a sair para o médico, Evans insiste com Hemingway para ele não se esquecer da escrita e Hemingway responde a Evans que sim na última linha do diálogo e confirma-nos a nós leitores, logo no parágrafo seguinte, repetindo que não se esquecerá.

Ora aqui está um sentido plausível para escrever: como obrigação para com os outros, os que não tiveram oportunidade ou os que já não podem ou os que merecem umas linhas para que o agora deles não se perca. E se pelo menos um sentido existe, é muito possível que haja mais: escrever por respeito aos que usam do seu tempo, do seu agora, para nos ler; ou então por nós, para nos dar um sentido aos dias, ao nosso agora; ou simplesmente porque sim, porque de facto porque não?

Vou pois fazer como Hemingway e atravessar-me. Prometo não me esquecer da escrita, doravante. Não que eu tenha pretensões a Hemingway, como não tenho ambições de Maradona só porque jogo umas futeboladas. Acontece que nós, os pequeninos, acabamos por procurar lições nos grandes e imitamos, à falta de mais. Hemingway pegava no seu dia-a-dia e no dos outros e transformava-o em eternidade, muitas vezes à força de murros. Eu alinho umas linhas, sem mais gasganete do que alinhá-las, o que já constitui arrogância suficiente da minha parte.

Por isso, “nada y pues nada”.



terça-feira, dezembro 24, 2013

O homem que acabou com os bancos "net blankes"

De repente, tudo o que é gato e cão se pôs a comentar Mandela como se o conhecesse dos bancos da quarta classe e fosse admirador do ANC desde pequenino. Nada como o arrepio da morte e uma boa histeria mediática para transformar em santos homens que apenas quiseram cumprir o seu dever de homens na sua passagem por este planeta.

De repente, vejo e leio muitos senhores engravatados, de vidas tranquilas à sombra do arco do poder, a agradecer-lhe o pacifismo, a descrevê-lo como um anjo baixado à terra e a tratá-lo por Madiba como se fossem íntimos de algum lado. Alguns desses que agora se posicionam tu cá-tu lá com a memória indefesa de Mandela são uns de entre muitos que em 1990 se inquietavam com os riscos para o equilíbrio da África Austral de libertar um turra.

Mandela foi de facto um homem notável, mas para sorte dele e nossa por mais razões e outras razões do que aquelas que a hagiografia oficiosa agora repete até à exaustão.

Se atentarmos nos passos da sua vida encontramos um personagem complexo, fruto de muitas vivências e influências, com humores e paixões, com erros como todos. Podemos pois ficar mais sossegados: Mandela era um ser humano e não um extra-terrestre. E também mais consolados: as suas qualidades mostram o melhor que o Homem tem para dar e que secretamente está ao alcance de cada um de nós. Mandela construiu muita da sua vida a golpes de ousadia e resiliência, virtudes que admiramos nos nossos maiores. Só que tão admirável nos deve parecer o presidente triunfante que procura a unidade dos seus povos e não a vingança, como o jovem que estudava Direito em condições paupérrimas, à luz de uma candeia. Tão espectacular é a serenidade com que sai de três décadas de cárcere e se senta à mesa de negociação com os carcereiros, como o é a força de vontade que o faz ser o único estudante negro da Universidade de Witwaterstand, enfrentando o racismo de colegas e sociedade.


Hoje, há quem se compraza com oportuno esquecimento a descrever Mandela como o último dos pacifistas, como uma pomba arredia do conflito. Não me parece. Mandela era provavelmente pacifista como a maioria de nós o somos: temos por evidente que a paz é preferível à guerra. E foi efectivamente um homem superior quando soube pôr para trás das costas as contas pessoais que pudesse ter pendentes com os Afrikaanders para construir um projecto de país multirracial. Mandela podia ter lançado com meia-dúzia de palavras a África do Sul no ferro e no fogo. Mas escolheu a paz porque, citando-o, era a única via possível. Foi uma decisão de um político lúcido e dedicado a uma causa, que sabia ler a relação de poderes e os sinais dos tempos. Aproximadamente o mesmo político lúcido que em 1955, face à opressão do regime do “apartheid” sobre os negros que protestavam contra a demolição de um subúrbio de Joanesburgo, concluiu que a luta armada era o caminho que o ANC devia seguir. Por isto chamaram-lhe nessa altura, e durante muito tempo, terrorista.

Nestes dias ideologicamente espapaçados, verificamos que se instalou nas sociedades ocidentais uma ideia perversa que a opressão se deve tolerar porque não há alternativa. Para o pensamento mediano que por aí vigora, a palavra revolução e o conceito de que há um direito a usar de força diante de uma maldade insuportável, encontram-se associados a comportamentos antiquados, praticados por coitados algo incivilizados que perderam o comboio da história e ficaram perdidos no tempo algures entre o assalto ao Palácio de Inverno e a Grande Marcha. É mais uma das ignorâncias correntes.

A noção de que existe justiça em responder com força a um abuso reiterado ou exagerado é muito mais antiga. Está na Magna Carta, quando o rei João de Inglaterra aceita que, se cometer alguma “transgressão” à lei, os barões do reino, juntamente com toda a comunidade, poderão: “…  ocupar-nos as terras e causar-nos pena de todas as maneiras possíveis, nomeadamente, apoderando-se dos nossos castelos, terras, posses e de qualquer outro modo que consigam, até que compensação seja obtida conforme vejam adequado, ...”.

Está também nas palavras de João das Regras nas Cortes de Coimbra de 1385, quando conclui que, a propósito da eventual obediência ao rei de Castela, “não queira Deus que tal erro passe por nós, mas defendamos nossa terra, que justamente o podemos fazer”.

Ou ainda, muito da pena de Thomas Jefferson,  na Declaração de Independência dos Estados Unidos: “Quando uma longa sequência de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indiciam um desígnio de os reduzir a um despotismo absoluto, é seu direito, é seu dever, de mandar abaixo tal governo e providenciar novos guardas para a sua futura segurança.”


Para os vinte e cinco barões que pegaram na mão do rei João e o obrigaram a assinar a Magna Carta, para o doutor João das Regras, para Jefferson e os restantes “Founding Fathers”, cada qual dentro das suas circunstâncias históricas, usar de força, com risco de vida, para resolver uma iniquidade violenta podia ser justo, um direito e um dever. Por isso, talvez achassem legítimo, como Mandela a certo momento concluiu, que homens pegassem em armas para lutar contra um regime que proibia homens e mulheres de passear numa praia por causa da cor da pele.



O Mandela que entendeu em 1955 que só pela força podia combater a desigualdade foi o mesmo que em 1990 percebeu que só pela paz conseguiria construir a igualdade. Um como o outro representam um homem com um destino singular, uma daquelas vidas raras a quem metem uma caneta na mão para que deixe umas linhas escritas no livro da História. O respeito que nos merece Mandela advém de ser um político que, com grande sacrifício pessoal e sem se servir, serviu uma causa que transformou vidas, que trouxe liberdade a milhões e que desenvergonhou os milhares de milhões que somos todos nós, que vivíamos na vergonha de viver num mundo em que uma lei proibia pessoas de se sentar num banco de jardim se não fossem brancas. Não caíamos pois no engano de dele ver só a parte e não o todo, porque se perdermos a visão do todo perdemos a lição que ele deixou para a posteridade.

domingo, novembro 03, 2013

Passeio de domingo



Num dos cadernos do Expresso deste sábado, a Clara Ferreira Alves, uma das campeãs nacionais do mandar-se para fora de pé, escreve a propósito do centenário do nascimento de Camus que este é um autor que já não se lê. Não é bem verdade: esta semana, em Paris, no aeroporto Charles de Gaulle, encontrei os escaparates das tabacarias a abundarem de estrangeiros, homens revoltados e justos. Ora nos aeroportos vende-se aquilo que se vende e por isso certamente Camus continua lido, pelo menos nas salas vidradas onde se espera o embarque.

Eu voava uma vez mais para Argel, onde o tempo se anunciava chuvoso e até de trovoada. No regresso, aliás, levaria com o segundo raio em avião da minha carreira: uma pancada seca no casco, aparentemente junto às nossas orelhas, e um “flash” mais efémero que o das máquinas fotográficas, tão rápido que apenas nos deixa no cérebro uma ideia de luminosidade violenta, que na realidade não vimos. O primeiro fora sobre Barcelona e então como agora o Faraday fez bem as coisas, conduzindo pela sua gaiola a descarga eléctrica de uma ponta à outra do aparelho e mandando-a borda fora, sem outros danos que a ansiedade de alguns passageiros.

Ao aterrar em Argel, havia poças no chão reflectindo o sol que caía radiante, aproveitando o descanso da tormenta. Iluminadas pela luz branca, as palmeiras, com a ramagem amarrada para o inverno, as mulheres de cabelos cobertos pelo véu, as ruas pintalgadas de cartazes em árabe, faziam pressentir o Sahara que espreitava lá no horizonte, por trás das montanhas do Atlas. Argel, a “Alger la blanche” que se tornou mítica para os franceses, tem hoje em dia a sua cara de cidade linda desfeada por uma adolescência de guindastes, betão anárquico e contentores à beira do mar. Certamente, quando passada esta fase de crescimento perturbado Argel assentar como cidade madura, como a senhora que é, encostada ao monte Bouzareah a olhar para o marulhar da baía, o que continuará igual será essa luz, esse tesouro único que banha Argel e Lisboa, Roma e Tanger, Nice e o Cairo, Atenas e Sevilha.

Quando eu andava na primária, ofereceram-me um livro que me marcou chamado “La civilization du soleil” que à volta deste título unificador narrava, em pequenos textos ilustrados por figuras coloridas que me deleitaram, as grandezas dos povos que ao redor do Mediterrâneo até fizeram umas coisas engraçadas em prol da humanidade: a agricultura, a escrita, a matemática, a filosofia, os aquedutos e as redes viárias, o Partenon e o tecto da Capela Sistina, a descoberta do caminho para a Índia por terra e mil anos depois por mar. Será talvez o efeito de uma memória ingénua dessa leitura de criança, mas em qualquer das cidades que referi sinto sempre algo de privilegiado, de destino senhorial que as agruras momentâneas do tempo podem moer mas não matam, de quintessencialmente humano e anárquico, algo de civilizacional que se opõe à barbárie, uma intuição de grandeza que vem das lonjuras do tempo e que esta dádiva do sol alimentou, mantém e nos faz comungar. É este sol que insistiu em brilhar em Argel contra os ditames da previsão meteorológica, este sol que faz medrar e civiliza, que nos une de Lisboa a Beirute e que os países do norte da Europa, presos no seu cinzento a régua e esquadro, não podem deixar de secretamente invejar.

Curiosamente, esta semana encontrara esse mesmo sol argelino pintado por Jacques Ferrandez, um autor francês de banda desenhada cujos trabalhos procuram justamente a luz desse sol, seja em Lisboa, para a qual ilustrou as crónicas de uma viagem imaginária, seja em Argel, sua terra natal, onde localizou muito da sua principal obra, os “Carnets d’Orient” sobre a Argélia ainda colonial. Desta feita li-lhe uma adaptação de “O estrangeiro” de – outra vez curiosamente – Camus, o Camus que capturou para as suas linhas o saber dessa luminosidade que o banhou nos pátios da escola primária de Oran ou nos jogos em que defendia a baliza do Racing Universitaire Algérois. Fascina-me como as boas obras são férteis, inspirando outras coisas boas, nem que sejam boas adaptações. Este estrangeiro, por exemplo, motivou esta razoável versão de Ferrandez, quente e meridional, e uma excelente canção dos Cure, que do original guarda a reflexão inquieta mas troca o ambiente, que passa a frio e distante.

Regresso ao artigo do Expresso do primeiro parágrafo, onde ainda assim aprendi alguma coisa. Camus, que tinha tuberculose, foi albergado por um tio talhante quando aos dezassete anos se lhe declarou a doença. Este senhor, para além de um talho tinha uma biblioteca bem recheada, o que permitiu ao jovem Camus tomar contacto com a literatura clássica, encontro que até aí a sua pobreza lhe negara. Não creio que hoje em dia se encontrem muitos talhantes com largas bibliotecas, nem provavelmente muitos licenciados. Mas que naquele tempo o tio de Camus ao fim de um dia de trabalho retirasse o avental sujo de sangue e se afundasse num cadeirão e num Balzac, tal não me surpreende. Afinal, o meu pai, oriundo de uma burguesia pequena de serviços, que não tivera acesso à faculdade, tinha em casa próximo de três milhares de livros, de boa cepa, e isto estava longe de ser caso único entre a sua roda de amigos ou conhecidos, quase todos da mesma condição social.  Nessa altura prezava-se a leitura como hoje se preza os telemóveis e o livro das faces. Portanto a Clara Ferreira Alves, citada lá em cima, não está a ver bem a coisa. Não só Camus deixou de ser lido: foram os livros em geral.

Lá fora, o sol da civilização do sol convida ao passeio. Vou pegar em mim e sair.