sábado, março 27, 2010

Exposição fotográfica - Edição especial Amesterdão - "Port d'Amsterdam"

Casa-barco no Oudeschans, com cadeirinha na varanda


No porto, na Osterdok, o frio era tanto que a água estava a gelar.


E os barcos são alegres como os "marins" da canção



E juntam-se para formar frases


Reprodução do Amsterdam, navio da companhia das Índias Orientais que se afundou no lodo em Inglaterra, logo na primeira viagem

Exposição fotográfica - Edição especial Amesterdão - Crazy Amsterdam

"Tee-shirts" na Damrak

Massagens orientais na Rokin


"Coffe shop" na Oudebrug

E um ganda petardo na mesma rua


Farmácia especializada, sempre na Oudebrug


Para quem aprecie o estilo, loja de "slips" masculinos (?) junto à praça Dam


No mercado das flores do canal Singel, todo o tipo de plantas


E casa de tatuagens junto a Waterlooplein

Exposição fotográfica - Edição especial Amesterdão - Amesterdão tradicional

Canais e bicicletas...


O canal Keizer ao anoitecer


Casas incrivelmente inclinadas...


Escolhendo bolbos no mercado de flores flutuante no canal Singel


E queijos Gouda na mesma rua


Torre da Zuiderkerk, numa manhã de nevoeiro


Pedalando na praça Dam


Armazéns Schottenburch, de 1636, hoje apartamentos

O “homo republicanus parvensis”

A cegarrega que os republicanos norte-americanos andam a fazer à volta da reforma do sistema de saúde prometida e cumprida por Barack Obama traz à colação uma das mais fascinantes questões da antropologia actual: será que sobrevivem ainda hoje à face do planeta, hominídeos aparentados com o “homo sapiens” – mas não iguais? É que não consigo arranjar outra explicação para o comportamento dos “Tea partys”, das turbas que ameaçam os congressistas, das Saras Palhinhas e dos senadores do partido do elefante, que não a daquela malta sofrer de um cérebro morfologicamente (e funcionalmente) diferente do resto da humanidade.

Reparem na ironia: andam doutorados em arqueologia no deserto do Gobi e nos recônditos da Sibéria à procura de vestígios de hominídeos diferentes, empoeirados, torrando à soleira ou tiritando de briasco, espanejando pedrinhas enfiados em buracos, dormindo desconfortavelmente em tendas de campanha, a comer rações de combate; ficam todos contentes quando descobrem uma lasca de maxilar; e afinal, calhando, podiam encontrar espécimes inteiros e tribos completas, vivos ainda por cima, nas ruas de Houston ou de Atlanta.


Comecemos por perceber do que é que estamos a falar.

Hoje em dia, cerca de 15% da população americana não tem acesso a sistemas de saúde. Este “não ter acesso” não é bem o mesmo que não ter acesso a uma festa na Quinta da Matinha. Em certas circunstâncias significa morrer por falta de tratamento adequado. Vendo isto com os olhos que temos do lado de cá do Atlântico (e da civilização), constataríamos que 45 milhões de seres humanos, de qualquer idade, podem muito bem bater a bota que nem uns cães sem que isso lá tire o sono a muita gente.

Adicionalmente, se repararmos na distribuição étnica destes desprotegidos, verificamos percentualmente que existem três vezes mais hispânicos, duas vezes mais negros e uma vez e meia mais asiáticos que brancos. Ou seja, “se hablares así” nas ruas de Miami, não tens interesse em ficar muito doente. Há também aqui uma certa questão de equidade.

Ora o que propôs Obama, que tanto escandalizou a América campónia? Quadruplicar os impostos? Obrigar médicos a trabalhar à borla com uma pistola apontada? Criar um serviço nacional de saúde? Não. Baseando-se no actual quadro de seguros, propõe-se aumentar cerca de 10% o orçamento federal da saúde para abranger todos os que dele não fazem parte. Comparado com os mega-sistemas sociais norueguês ou suíço, uma verdadeira mariquice. E, no entanto, milhões e milhões de americanos reagiram como se sabe, criando uma das maiores barreiras de propaganda e agitação política que o Partido Republicano erigiu desde o magno caso da estagiária, do charuto e da mancha no vestido. Como explicar isto?

Por um lado, tenho a impressão que há um certo desconforto em que um preto tenha sucesso numa tarefa complicada onde Truman, Nixon e Clinton, antes dele, falharam.

Mas atentando num dos cartazes que contestatários agitavam frente ao Capitólio, percebe-se a razão talvez mais profunda. Rezava assim: “Americans don’t redistribute wealth. They earn it”.

Não coloquei na frase anterior o verbo “rezar” de forma inocente. A quase totalidade destes contestatários acham-se muito cristãos, não faltam à missa ao domingo e consideram o ateísmo algo de gravíssimo. Mas quando toca a caridade, tá quieto! Não me parece por isso que tenham folheado extensivamente o Novo Testamento. E pergunto-me se, nas suas congregações dominicais, também fazem manifestações destas em redor da caixa das esmolas, abominando e pontapeando tão demoníaco objecto.

Voltando aos tais 45 milhões e resumindo, para o grosso do Partido Republicano, que representa uma quase metade da América, os gajos que se lixem e qualquer tentativa de solidariedade social na sua direcção vem da costela esquerdista e totalitária do actual presidente. Mais: a ideia é mesmo deixá-los de fora.


Isto a nós cá na Europa pode causar uma certa estranheza, porque já ultrapassámos esta fase mental há século e meio. Com o arranque da revolução industrial em Inglaterra, a questão da pobreza tornou-se um problema relevante, prático para os políticos e teórico para os filósofos. A visão mercantilista considerava importante que os pobres se mantivessem pobres, porque só assim poderiam realizar um trabalho honesto sem pedir demais. Um dos mais influentes pensadores britânicos no final do século XVIII, Bernard Mandeville, comentava que “para fazer uma Sociedade Feliz, é requisito que grandes números sejam Ignorantes e também Pobres”. Valha-lhe a franqueza.

No entanto, as hordas de indigentes que vagueavam pelo reino e também o exemplo na altura recente da Revolução Francesa levaram as elites a inquietar-se sobre a questão dos “unprofitable poor”. Algumas das respostas a esta inquietação deixam-nos hoje um sorriso amarelo: quando Richard Arkwright, industrial de fiação, começou a usar crianças na sua fábrica, “por terem dedinhos mais activos e se adaptarem melhor à disciplina da vida fabril”, tal medida foi aplaudida como filantrópica, porque permitiria aliviar a condição dos pais, os tais “pobres não-lucrativos”. E verdade se diga que, ao longo do século XIX, quando o Reino Unido foi passando sucessivas leis regulando ou eliminando o trabalho infantil, estas tiveram a oposição não só de membros da Câmara dos Lordes imbuídos de um liberalismo que ainda anda por aí, que achavam que tais medidas feriam os direitos das crianças porque estas podiam querer mesmo trabalhar, mas também de muitos pais a quem a maçaroca dava jeito.

O problema da pobreza mereceu as atenções de todos os primeiros grandes pensadores económicos, de Adam Smith a David Ricardo, de Parson Malthus a Karl Marx e a John Stuart Mill. E no final, fosse por razões tácticas das classes dominantes (o mesmo Mandeville reconheceu que seria “prudente aliviar, embora uma loucura curar” as necessidades dos pobres), fosse pela acção e exemplo de utópicos como Robert Owen ou de activistas como Richard Oastler ou Lord Shaftesbury, fosse pela dinâmica dos movimentos de trabalhadores e a sua absorção pelo tecido social, fosse simplesmente porque as sociedades ganharam vergonha das condições horrorosas de trabalho e de vida das massas pobres, fosse provavelmente por tudo ao mesmo tempo, a verdade é que a condição das camadas mais desmunidas foi progressivamente melhorando e dignificando-se em toda a Europa industrializada. Simultaneamente, tornou-se um dado adquirido e um valor comummente aceite que as sociedades devem redistribuir razoavelmente a riqueza gerada e ser solidárias com os mais necessitados. Tais noções encontram-se aliás na génese da União Europeia.

Não quero com isto dizer que por cá tenhamos resolvido a questão da pobreza. Longe disso, ainda há muito – tanto – pela frente. Só que não achamos natural nem porreiraço que exista, como muitas dezenas de milhões de norte-americanos fazem, e não ameaçamos de morte os deputados que aprovam leis para acabar com ela.

Na América, metade da população ainda não percebeu estas noções básicas. E não se trata apenas de um problema de massas ignorantes. Trata-se sobretudo de cúpulas ignorantes ou cínicas ou ambas, que apelam ao mais básico e reles que há nas pessoas e que perdida a razão da razão recorrem às razões do medo. Sobre isto, sugiro-lhes que leiam o texto seguinte de Paul Krugman no Herald Tribune da última terça. Uma leitura simpática, já que Krugman é um economista que possui duas coisas que nem todos os economistas têm: um prémio Nobel e sentido de humor. Particularmente notável quando cita as acusações dos Republicanos aos Democratas de tácticas totalitárias e diz que acha que eles se estão a referir a um processo conhecido como “votação”.

Voltando ao ponto de partida, continuo perplexo com o que vai na cabeça dessa gente. Será que têm a mesma mioleira que nós? Ou serão mesmo uma variante misteriosamente sobreviva do “homo sapiens sapiens”, com um sistema límbico mais atrofiado, menos sinapses entre aqueles neurónios ou outro encalhanço qualquer? Eu sei lá! Só sei que ter esse pessoal todo a votar num país que é a maior potência mundial não é muito tranquilizador para o resto da humanidade, como se viu pelo mandato glorioso do rapaz George W.

sábado, março 20, 2010

Dois quadros

“E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”


Vinicius de Moraes, in “Soneto de fidelidade”



Nota: Hesitei muito, por pudor, antes de contar o que vou contar. Porque me foi revelado num momento breve em que me abriram a porta do sacrossanto de uma vida que não me pertence. Acabei por lhe dar uma volta, tentando usar de discrição para levar até ao fim a homenagem que me custava deixar fugir.



Primeiro quadro: Rijksmuseum, Amesterdão


Na minha recente volta flamenga com o meu mais novo voltei ao Rijksmuseum e a uns minutos de contemplação diante de um pequeno quadro de Jan Vermeer: “Rua de Delft”. Na minha primeira visita a esse museu, já lá vão uns anitos, essa pintura agarrou-me pelo pescoço quando eu passeava distraído entre telas matulonas de outros nomes sonantes. “Põe-te aí”, ordenou-me e eu pus-me, momentaneamente surpreendido mas logo rendido.


Retrata uma imagem que seria comum na Delft renascentista e mercante: um casario de tijolo já com as marcas do tempo, rasgado por janelas altas e sedentas da luz metálica do céu da Flandres, uma mulher à porta trabalhando a sua renda, outra que se afadiga num pátio, crianças brincando no passeio e ao fundo nuvens anunciando a hora do recolhimento.


Aquelas crianças e mulheres, se realmente Vermeer as viu e não apenas imaginou, já se foram. Talvez a rua ainda exista em Delft, quase imudada, porque os holandeses têm aquele modo antiquado de preservar o património que falta aos nossos progressivos autarcas, impelidos para o betão e para a rotunda pelo farfalho do bigode.


O que certamente continua, em Delft como noutros sítios de sorte, é a paz dos momentos simples e a felicidade que ela inspira aos homens.


Muito dos quadros que a mesma sala exibe ostentam, com dimensões generosas e cores graves, gente que se cobriu de glória na guerra ou fez fortuna no comércio. Ou então deuses da antiguidade ou momentos bíblicos. Tudo eternidades de pequeno gabarito: uma placa de poucos centímetros ao lado da moldura que se lê em dois segundos e se esquece no outro.


O de Vermeer, pelo contrário, parece uma gelosia sobre um tempo que reconhecemos na essência como igual àquele que nos foi dado para por cá andar. Tivesse o museu tido a lembrança de me pôr ali uma cadeira e eu sentava-me, descansando um pouco, pensando na vida, olhando no quadro aquelas minhas vizinhas nas suas lides diárias.


Claro, depois há o virtuosismo. Aproximamos a cara da tela e percebemos que aquele rosto de mulher, que quase imaginamos concentrado e suave no seu trabalho é uma mera pincelada rosa ou que a urdidura da renda que víamos à distância resulta de uma amálgama de brancos, num impressionismo “avant la lettre”. Tudo são pigmentos, texturas, traços quase sem propósito. Recuamos e a rua de Delft reaparece, na sua serenidade sem princípio nem fim. São assim os criadores, que do caos tiram a ordem. Deus precisou de seis dias, a Vermeer bastam-lhe dois passos para trás para nos dar, em concisão e beleza, aquilo que de mais precioso temos para usufruir: a vida, a felicidade, estas coisas pequenas.




Segundo quadro: vilazita, algures no Ribatejo


Levei a minha mãe a visitar uma prima afastada, já muito idosa, a quem o marido morrera dias antes. Perdemo-nos no meio do casario e parámos junto ao café perguntando pela rua. As caras pareciam indecisas na resposta, mas quando dissemos o nome da pessoa os braços apontaram sem hesitação.


A casa ficava ao fundo de um beco, e atentando percebemos que a construção humilde cresceu com o tempo e as possibilidades, com a mesma lógica com que os ninhos são fabricados: uma amálgama de materiais dispersos que se vão entrelaçando com paciência, criando concavidade e conforto.


Na sala mínima, atravancada, a viúva errava de olhos marejados e fala embargada, andando de fotografia em fotografia, pondo-nos as molduras nas mãos em silêncio como que pedindo para partilhar a sua incredulidade. Compreendo que custe a crer: tinham sido quase sessenta e dois anos em comum e de repente aquela brutal aparente ausência, o silêncio inabitual, a vista dos objectos agora inúteis, as paredes a emanar memória.


Enquanto a minha mãe lhe falava, repetindo-lhe as poucas palavras que o léxico tem para estas ocasiões e que ela já ouvira com certeza vezes sem conta, reparei num quadrinho numa estante. Era um trabalho a ponto-cruz, que ela fizera, com duas fotografias do tipo passe coladas (ele e ela, talvez na meia-idade) e com letras garridas que afirmavam contra um fundo de pano branco: “O nosso amor é lindo”.


De volta a Lisboa, conduzindo em silêncio, ocorreu-me que no imo mais fundo aquele quadro nada devia ao meu Vermeer de estimação. Com uma pujança feita de candura e arrebatamento, ali estavam emoldurados sessenta e dois anos do melhor que nos melhores momentos a condição humana tem para dar: dedicação, fidelidade, amizade, devoção, entusiasmo. E amor, claro está.


E isto não é puxar à lágrima, fácil ou difícil. Sei que para a maior parte das pessoas que conheço, e numa primeira reacção também para mim mesmo, que não sou menos estúpido e condicionado que o resto, aquele quadro seria apelidado de piroso, em resultado daquela necessidade pequeno-urbana de afirmação a que anafadamente chamamos “gosto”. Dito “gosto” esse que, se virmos bem, tantas vezes não é mais do que uma forma de papaguear (e de pagar) aquilo que alguns departamentos de “marketing” por esse mundo fora querem que pensemos que pensamos.


Enrodilhados nesta teia de convenções em que nos movemos como autómatos comandados por um protocolo, quantos de nós, mulheres ou homens, não teríamos vergonha de afirmar os nossos sentimentos como o fez aquela velhinha, que abriu na sua sala uma janela a ponto-cruz para berrar a plenos pulmões, para que todos a ouvissem, o seu amor?



“O nosso amor é lindo”. Pois é. E não chore, prima: continua a ser. Contrariamente à tanga que o padre vos deu, não há morte que vos separe.

Exposição fotográfica - Edição especial Bélgica - Bruges histórica

No coração da Flandres, Bruges/Brugge é uma das cidades mais belas da Europa e um exemplo de conservação.

Mas não é um museu, é uma cidade onde vivem pessoas, confortavelmente, atrás de fachadas com séculos.


Aquela janela a meio veio criar algum equívoco.


Pequenos detalhes por todo o lado


Santa à esquina, ao pé da igreja de S.Salvador

Praça do Mercado, que aqui se realiza há mais de mil anos


Base do Belfort, na mesma praça, campanário onde se guarda a Carta de Direitos da cidade

Ainda nessa praça, a Huis Bouchotte, exemplo de gótico flamejante a flamejar e modesta residência de Carlos II de Inglaterra durante o seu exílio holandês, a safar o pescocinho durante a república de Cromwell, a que os britânicos chamam pudicamente "English Interregnum"


Basílica do Sangue Sagrado na praça Burg. Alegadamente, um pequeno frasco de vidro no pináculo contem algumas gotas de sangue de Cristo colhidas por José de Arimateia. O frasco foi trazido de Jerusalem por um cruzado chamado Diederick da Alsácia. Dá para o próximo livro do Dan Brown


Cervejaria castiça nas traseiras da rua do Burro Cego


Mapa da cidade em renda (de Bruges, claro) à beira do canal Dijver. Ninguém mexe, ninguém estraga.

domingo, março 14, 2010

Exposição fotográfica - Edição especial Bélgica - Canais de Bruges

Canal sobre o Zoneke Meers. Uma excelente maneira de admirar Bruges é nesses barquitos como aquele que aí se vê.


Hospital do século XII, o St Janshospitaal, que funcionou até 1976.





No cruzamento da Nieuwstraat e da Dijver, numa casa de passeios de barco, soca comunitária...


... e socas nacionais.

Exposição fotográfica - Edição especial Bélgica - Outra Gand

Vista parcial do parque de bicicletas na estação de Gand. Muito pedala aquela gente.


FIgura de proa junto à Ópera Flamenga.


Grafitti no Patershol.

Postais dos anos cinquenta, à venda numa tabacaria na Breydelstraat. Sintetiza a minha atitude alimentar durante a viagem.


Este é machista, ordinário, porco, chauvinista, com as cores do Benfica e tudo o que de mais rasteiro quiserem. Mas está um espectáculo...


A casa do povo mais finória que vi na minha vida, na Vrijdag Markt. O edifício ao lado, actualmente um cinema, ainda ostenta, nas mesmas letras douradas "Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!"

Exposição fotográfica - Edição especial Bélgica - Gand histórica

Demos o passeio recomendado por Brel, de Bruges a Gand. E estava um daqueles céus "si gris qu'il fait l'humilité", como o próprio cantou no "Plat pays". Muito típico mas mau para fotografar: o céu está sempre de chumbo. Mas é mesmo assim.


A Korenlei que, juntamente com a Graslei do outro lado do canal reúne algumas das casas das guildas da cidade mercantil da idade média. Até os medidores de grão tinha a sua orgulhosa casa.

O Gravensteen, castelo condal do séc. XII que chegou a ser fábrica de algodão.


Patershol, bairro de vielas e casas de tijolo que albergou tecelões no século XVII e recebe agora borguistas no século XXI.


Marco postal à esquina da praça do Vrijdag Markt, o mercado das sextas-feiras.


Parte antiga da Stadthuis, a câmara municipal, com o Belfort, campanário da cidade em segundo plano. O Belfort tem um carrilhão de 54 sinos suposto tocar a cada quarto-de-hora, mas não me recordo de o ter ouvido .


Soberba praça, fronteira à St. Baafskathedraal, onde se pode beber uma cervejola para recompor depois de quarenta e cinco minutos de explicação sobre a Adoração do Cordeiro Místico, obra-prima dos irmãos Van Eyck e tesouro máximo da catedral vizinha.

A urbanização do caneiro

Num destes dias de chuvinha mais grossa, daquela que quase não motiva ingleses e flamengos a abrir o guarda-chuva mas que em Portugal instiga a Protecção Civil a declarar um alerta laranja ou cor que o valha, encontrei-me empecilhado no trânsito a ouvir na rádio o rosário de desastres húmidos que de norte a sul a “intempérie” provocara.

Lamentava-se o locutor, em tom de “que inesperada desgraça”, por em Amarante os proprietários de um empreendimento recente, a Urbanização do Caneiro, andarem de galochas a salvar os pertences que a subida das águas ameaçava.

Eis uma pequena notícia que diz muito sobre este nosso cantinho. Se a urbanização está num caneiro, de que estavam à espera? Qual é a surpresa? Por definição, um caneiro é um ponto baixo por onde a água vai tender a querer passar. Se não a deixarem, acumula-se. Um fenómeno utilíssimo na construção de barragens. Por isso, morar na Urbanização do Caneiro não há-de ser muito diferente de habitar no Casal da Beira do Precipício Deslizante ou na Quinta do Furacão. E não muito mais tranquilo que viver em Sadr City, em Bagdad, ou na favela do Alemão, no Rio. Cedo ou tarde, vai dar raia.

Poderá surpreender o muito distraído como raio alguém autorizou alguém a construir despreocupadamente em cima dum caneiro. Mas só mesmo os mais distraídos. Em Portugal, edificar em leito de cheia tornou-se uma tradição quase tão venerável como estender calçada portuguesa. Provavelmente porque nas câmaras anda tudo do avesso, dos incentivos implícitos no modelo de financiamento à pouca severidade com que são fiscalizadas. Sou daqueles que tem muitas reservas quanto ao modo como, a seguir à revolução, se juntou à palavra “autárquico” a palavra “poder”. Quase quarenta anos depois, ainda não se fez o balanço da obra autárquica. Mas no dia em que se fizer cheira-me que se vai concluir que vão ser precisos um ou dois séculos – ou um terramoto de grau nove – para pôr a coisa no são, no que a urbanismo se refere.

Por causa desta construção desenfreada das autarquias nos sítios mais incríveis, a água em Portugal deixou de ser um corpo grave. Cá, ao mínimo aguaceiro, as águas sobem em vez de descerem como o tio Newton tinha mandado. Graves, graves, só mesmo as consequências.


Passados dias deste aquático incidente, no mesmíssimo concelho de Amarante, um tipo viajava tranquilo da vida no IP4 quando levou com um viaduto inteiro em cima, que estava a ser betonado nesse exacto momento. Morreu.

No dia seguinte, o artigo do Público noticiando o desastre começava com esta pérola: “A inesperada queda da estrutura do viaduto sobre o IP4 não só apanhou toda a gente desprevenida como deixou toda a gente sem explicações.” A jornalista chama-se Luísa Pinto e falhou manifestamente a vocação. A produzir coisas destas deveria estar a escrever textos para os Gato Fedorento ou para os Contemporâneos. Felizmente, ainda não chegámos à fase em que quando se betona um viaduto toda a gente está prevenida e à espera que ele cá venha parar abaixo. Mas já andámos mais longe.

A quantidade de acontecimentos deste género ou de semelhante calibre que ocorreram em anos recentes tornou-se escandalosa. Não há muito tempo, numa obra da Brisa ruíram duas betonagens de viadutos no espaço de uma semana. A CREL, a principal via periférica da orgulhosa capital do Império, encontra-se interrompida há semanas por causa de um talude que decidiu acampar inteirinho nas seis faixas de rodagem. Já para não falar da ponte de Entre-os-Rios. Em tempos, os recordes da engenharia civil portuguesa mediam-se em metros de vão vencidos e pelas dificuldades tecnológicas superadas. Agora, contam-se em vidas perdidas e toneladas de destroços.

O que explica isto? Pelas declarações dos “soi-disant” responsáveis, começo a ter a impressão que a culpa tem origem divina. Por vezes do São Pedro que manda chuva num país que projecta obras com vocação solarenga. Outras vezes, da Virgem Maria, em quem o pessoal se fia e que descura escabrosamente a confiança nela depositada. De acordo com os resultados mais recentes, fico com a sensação que o missal mariano substituiu as tabelas técnicas no estirador dos projectistas.

Esta minha desconfiança é confirmada pelas declarações de um tal António Moreno que preside ao Instituto Nacional de Infra-Estruturas Rodoviárias, organismo estatal suposto zelar pela qualidade e segurança da nossa rede viária. Afirmou este sábio que “ninguém, em engenharia, pode garantir a cem por cento que não haverá acidentes”. Se calhar não, mas eu, que sou engenheiro, nunca apanhei no Técnico nenhum professor com tão filosófica abertura de espírito. Lembro-me, numa cadeira de Mecânica de Materiais, de ter calculado uma estrutura do tipo destas de Amarante, que não suportaria a carga que vinha no enunciado e que ruiria se fosse construída. O tacanho do assistente chumbou-me com sete e mandou-me voltar em Setembro para a segunda época, com as ideias mais claras. Eu ainda tentei explicar que ninguém, em engenharia, pode garantir a cem por cento que não haverá acidentes mas ele achou esse género de debates mais próprios da Faculdade de Filosofia, onde se discutem questões ontológicas mas onde graças a Deus não se assinam projectos.


No momento do “acidente”, não houve tornados nem terramotos. Aquela cangalhada veio abaixo a dois terços do processo de betonagem. Como um factor mínimo de segurança seria da ordem dos cinquenta por cento, dado estarem a passar seres vivos por baixo na altura da operação (nenhuma alminha se lembrou de interromper o trânsito), contas feitas nas costas de um envelope permitem concluir que a estrutura de suporte não aguentou nem metade da carga que devia.

Para perceber o que se passou, talvez ajude saber que, num país onde as câmaras pedem um projecto para construir uma marquise ou mudar uns azulejos no muro de uma vivenda, não há regulamentos técnicos que rejam o cálculo de estruturas temporárias em obras desta magnitude, nem procedimentos de segurança que obriguem à interrupção do tráfego que possa ser afectado, melhor dizendo trucidado, por estas operações. E aqui, se calhar, dada a dimensão do disparate, não ficaria mal à Ordem dos Engenheiros opinar sobre o assunto.

Concluo com tristeza que este país anda, ele todo, uma urbanização no caneiro, à mercê da anarquia dialéctica entre as regras que não existem e aquelas que não se cumprem, das responsabilidades que de tão divididas tendem para zero, dos interesses que se sobrepõem ao bem comum e ao bom senso e que só a intempérie e a subida das águas conseguem travar. E pena é que a nossa engenharia, que no passado foi algo de que nos podíamos orgulhar, se arrisque a ir ela própria pelo cano, arrastada pela torrente.