Demos o passeio recomendado por Brel, de Bruges a Gand. E estava um daqueles céus "si gris qu'il fait l'humilité", como o próprio cantou no "Plat pays". Muito típico mas mau para fotografar: o céu está sempre de chumbo. Mas é mesmo assim.
A Korenlei que, juntamente com a Graslei do outro lado do canal reúne algumas das casas das guildas da cidade mercantil da idade média. Até os medidores de grão tinha a sua orgulhosa casa.
O Gravensteen, castelo condal do séc. XII que chegou a ser fábrica de algodão.
Patershol, bairro de vielas e casas de tijolo que albergou tecelões no século XVII e recebe agora borguistas no século XXI.
Marco postal à esquina da praça do Vrijdag Markt, o mercado das sextas-feiras.
Parte antiga da Stadthuis, a câmara municipal, com o Belfort, campanário da cidade em segundo plano. O Belfort tem um carrilhão de 54 sinos suposto tocar a cada quarto-de-hora, mas não me recordo de o ter ouvido .
Soberba praça, fronteira à St. Baafskathedraal, onde se pode beber uma cervejola para recompor depois de quarenta e cinco minutos de explicação sobre a Adoração do Cordeiro Místico, obra-prima dos irmãos Van Eyck e tesouro máximo da catedral vizinha.
Num destes dias de chuvinha mais grossa, daquela que quase não motiva ingleses e flamengos a abrir o guarda-chuva mas que em Portugal instiga a Protecção Civil a declarar um alerta laranja ou cor que o valha, encontrei-me empecilhado no trânsito a ouvir na rádio o rosário de desastres húmidos que de norte a sul a “intempérie” provocara.
Lamentava-se o locutor, em tom de “que inesperada desgraça”, por em Amarante os proprietários de um empreendimento recente, a Urbanização do Caneiro, andarem de galochas a salvar os pertences que a subida das águas ameaçava.
Eis uma pequena notícia que diz muito sobre este nosso cantinho. Se a urbanização está num caneiro, de que estavam à espera? Qual é a surpresa? Por definição, um caneiro é um ponto baixo por onde a água vai tender a querer passar. Se não a deixarem, acumula-se. Um fenómeno utilíssimo na construção de barragens. Por isso, morar na Urbanização do Caneiro não há-de ser muito diferente de habitar no Casal da Beira do Precipício Deslizante ou na Quinta do Furacão. E não muito mais tranquilo que viver em Sadr City, em Bagdad, ou na favela do Alemão, no Rio. Cedo ou tarde, vai dar raia.
Poderá surpreender o muito distraído como raio alguém autorizou alguém a construir despreocupadamente em cima dum caneiro. Mas só mesmo os mais distraídos. Em Portugal, edificar em leito de cheia tornou-se uma tradição quase tão venerável como estender calçada portuguesa. Provavelmente porque nas câmaras anda tudo do avesso, dos incentivos implícitos no modelo de financiamento à pouca severidade com que são fiscalizadas. Sou daqueles que tem muitas reservas quanto ao modo como, a seguir à revolução, se juntou à palavra “autárquico” a palavra “poder”. Quase quarenta anos depois, ainda não se fez o balanço da obra autárquica. Mas no dia em que se fizer cheira-me que se vai concluir que vão ser precisos um ou dois séculos – ou um terramoto de grau nove – para pôr a coisa no são, no que a urbanismo se refere.
Por causa desta construção desenfreada das autarquias nos sítios mais incríveis, a água em Portugal deixou de ser um corpo grave. Cá, ao mínimo aguaceiro, as águas sobem em vez de descerem como o tio Newton tinha mandado. Graves, graves, só mesmo as consequências.
Passados dias deste aquático incidente, no mesmíssimo concelho de Amarante, um tipo viajava tranquilo da vida no IP4 quando levou com um viaduto inteiro em cima, que estava a ser betonado nesse exacto momento. Morreu.
No dia seguinte, o artigo do Público noticiando o desastre começava com esta pérola: “A inesperada queda da estrutura do viaduto sobre o IP4 não só apanhou toda a gente desprevenida como deixou toda a gente sem explicações.” A jornalista chama-se Luísa Pinto e falhou manifestamente a vocação. A produzir coisas destas deveria estar a escrever textos para os Gato Fedorento ou para os Contemporâneos. Felizmente, ainda não chegámos à fase em que quando se betona um viaduto toda a gente está prevenida e à espera que ele cá venha parar abaixo. Mas já andámos mais longe.
A quantidade de acontecimentos deste género ou de semelhante calibre que ocorreram em anos recentes tornou-se escandalosa. Não há muito tempo, numa obra da Brisa ruíram duas betonagens de viadutos no espaço de uma semana. A CREL, a principal via periférica da orgulhosa capital do Império, encontra-se interrompida há semanas por causa de um talude que decidiu acampar inteirinho nas seis faixas de rodagem. Já para não falar da ponte de Entre-os-Rios. Em tempos, os recordes da engenharia civil portuguesa mediam-se em metros de vão vencidos e pelas dificuldades tecnológicas superadas. Agora, contam-se em vidas perdidas e toneladas de destroços.
O que explica isto? Pelas declarações dos “soi-disant” responsáveis, começo a ter a impressão que a culpa tem origem divina. Por vezes do São Pedro que manda chuva num país que projecta obras com vocação solarenga. Outras vezes, da Virgem Maria, em quem o pessoal se fia e que descura escabrosamente a confiança nela depositada. De acordo com os resultados mais recentes, fico com a sensação que o missal mariano substituiu as tabelas técnicas no estirador dos projectistas.
Esta minha desconfiança é confirmada pelas declarações de um tal António Moreno que preside ao Instituto Nacional de Infra-Estruturas Rodoviárias, organismo estatal suposto zelar pela qualidade e segurança da nossa rede viária. Afirmou este sábio que “ninguém, em engenharia, pode garantir a cem por cento que não haverá acidentes”. Se calhar não, mas eu, que sou engenheiro, nunca apanhei no Técnico nenhum professor com tão filosófica abertura de espírito. Lembro-me, numa cadeira de Mecânica de Materiais, de ter calculado uma estrutura do tipo destas de Amarante, que não suportaria a carga que vinha no enunciado e que ruiria se fosse construída. O tacanho do assistente chumbou-me com sete e mandou-me voltar em Setembro para a segunda época, com as ideias mais claras. Eu ainda tentei explicar que ninguém, em engenharia, pode garantir a cem por cento que não haverá acidentes mas ele achou esse género de debates mais próprios da Faculdade de Filosofia, onde se discutem questões ontológicas mas onde graças a Deus não se assinam projectos.
No momento do “acidente”, não houve tornados nem terramotos. Aquela cangalhada veio abaixo a dois terços do processo de betonagem. Como um factor mínimo de segurança seria da ordem dos cinquenta por cento, dado estarem a passar seres vivos por baixo na altura da operação (nenhuma alminha se lembrou de interromper o trânsito), contas feitas nas costas de um envelope permitem concluir que a estrutura de suporte não aguentou nem metade da carga que devia.
Para perceber o que se passou, talvez ajude saber que, num país onde as câmaras pedem um projecto para construir uma marquise ou mudar uns azulejos no muro de uma vivenda, não há regulamentos técnicos que rejam o cálculo de estruturas temporárias em obras desta magnitude, nem procedimentos de segurança que obriguem à interrupção do tráfego que possa ser afectado, melhor dizendo trucidado, por estas operações. E aqui, se calhar, dada a dimensão do disparate, não ficaria mal à Ordem dos Engenheiros opinar sobre o assunto.
Concluo com tristeza que este país anda, ele todo, uma urbanização no caneiro, à mercê da anarquia dialéctica entre as regras que não existem e aquelas que não se cumprem, das responsabilidades que de tão divididas tendem para zero, dos interesses que se sobrepõem ao bem comum e ao bom senso e que só a intempérie e a subida das águas conseguem travar. E pena é que a nossa engenharia, que no passado foi algo de que nos podíamos orgulhar, se arrisque a ir ela própria pelo cano, arrastada pela torrente.
Cinema Nova, numa via cuja tradução seria algo como "Rua da montanha com ervas para a sopa"
Rue des Sables
Hotel Queen Anne, Boulevard Emile Jacqman
Magritte na Place Royale
"Gauffres" junto ao Manneken Pis, Rue de l'Étuve
E "Manneken Pis" logo a seguir às "gauffres", mesma rua
Venha mais uma bojeca, nove e meia da manhã, Place des Martyres
Touro na Place Sainte Gudule
Tocador de Xilofone à saída das galerias St. Hubert, na Rue du Marché aux Poules (tocava bem)
Tocador de "pipeline" na Rue du Midi, por trás da Bolsa. Parecia a sirene de um petroleiro mas é de admirar um tipo que se aguente de cócoras tanto tempo.
Visita ao Atomium, no parque do Heysel, junto ao estádio onde a moderna civilização britânica se entreteve a esmagar umas dezenas de italianos e onde a UEFA fez jogar uma final da taça dos campeões mesmo ao lado dos cadáveres fresquinhos. Como é que é o "slogan"? Ah, "we love football". Pois, "and cash, too".
Para quem gostar de bolas grandes, um passeio que se recomenda.
Na esfera mais alta, a cem metros de altura, um miradouro de onde se vê a Mini-Europa, no Brupark. Aqui, o castelo de Guimarães, a Torre de Belém e o Oceanário, à escala 1/25.
No interior das esferas do meio, uma interessante mostra da exposição de 1958, que acaba por nos revelar o ambiente optimista e futurista da Europa dos "trinta gloriosos". Aqui, a memória do pavilhão da URSS, na pujança do seu poderio nuclear e espacial.
A dona-de-casa cercada de electrodomésticos. Já o Lenine dizia que o socialismo era o poder dos sovietes mais a electricidade. E em 1958, no Ocidente, a perspectiva andava lá perto: o futuro era o capitalismo mais a electricidade.
A Grande Place não podia faltar. Aqui a magnífica fachada noroeste. A casa à direita foi construída no século XVII pela guilda dos padeiros. Em Bruxelas, eram os padeiros que queriam ser vistos, mais do que os outros a querer vê-los.
A flecha do Hôtel de Ville, construída em 1449 por Jan van Ruysbroeck. Este edifício foi o único que resistiu aos canhões de Luís XIV, em 1695.
"Pub" castiço na Rue Archimède
Villa Germaine, no Square Ambiorix.
Square Ambiorix
Parc de Bruxelles
Palácio do Albert
Galerias St.Hubert
E mais galerias St.Hubert
Praça Sainte Catherine, com o regato gelado.
Place de la Brouckère, com edifício do séc. XIX e bebida do séc. XX
Esta quinta dei uma aula no Técnico às oito da manhã. Entrei na portaria para buscar o comando do projector que uso para explanar a minha magna sapiência. O aparelhómetro flutua nas alturas, a cinco metros de pé direito, solidamente preso ao tecto por uma carapaça metálica que o envolve completamente, talvez para que o futuro da engenharia portuguesa não tenha a tentação de o gamar. Com tão robusto cinto de castidade à volta, não existe onda emitida pelo comando que o penetre. Normalmente passo os primeiros dez minutos de aula percorrendo a sala de pata no ar e comando na mão, carregando furiosamente no “on”, rezando para encontrar o ângulo aleatório e exclusivo que porá a maquineta a ronronar.
Os alunos, compungidos, tentam dar uma ajuda: “Professor! Parece-me que nesta sala é ao pé da última cadeira da fila de trás”. Cada sala de aulas, de entre dezenas, possui o seu sítio mágico onde a persistência do Homem vence as leis da Física que asseguram que uma barreira metálica perturba um feixe electromagnético. Perde-se tempo e dinheiro: minutos vezes pessoas vezes número de aulas vezes o custo unitário desta gentalha toda, olhando ansiosa para o tecto como quem espera um milagre, apesar de estudar numa das catedrais do racionalismo científico em Portugal. Com esse dinheiro comprar-se-iam muitos projectores, se por acaso algum fosse roubado.
Às vezes perco a paciência e atiro de voo o comando para a mole de estudantes, prometendo um valor extra na nota final àquele que conseguir. Perfeitamente legítimo e até pedagógico: a sociedade costuma tratar como heróis os que estão no sítio certo à hora certa para realizar tarefas quase impossíveis.
Enquanto eu preenchia o formulário para levar o comando (não vá um docente lembrar-se de se locupletar com tão útil objecto), apareceu um colega a queixar-se:
- Vou dar aula no anfiteatro 5 e a porta está fechada.
- Mas a porta pequena de trás está aberta, senhor professor! A minha incumbência é só a porta pequena!
Havia greve nesse dia e o outro porteiro faltara. Percebi então que cada um deles tinha sua responsabilidade e não sei se sua chave: havia o porteiro da porta grande e o porteiro da porta pequena, ambos perfeitamente cientes dos limites da sua “job description”.
Quando finalmente recebi o comando, o porteiro (da porta pequena) revelou-me com ar satisfeito: “Hoje já tem pilha, professor”. Realizei que me deveria considerar feliz por me passarem para a mão um comando que funcionava. Pelo menos iria poder tentar ligar o projector. Chegado diante da sala, o magote de alunos avisou em coro que a porta não abria. Subi as escadas laterais e verifiquei que a portinha do topo do anfiteatro estava apenas encostada. Chamei a malta e entrámos pela porta pequena, em fila sorrateira. Eles sentaram-se e eu comecei a dardejar de comando na mão, perante a indiferença electrónica do projector.
2º Acto
No início de Fevereiro tive o meu primeiro embate com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o afamado SEF. Um dos meus filhos, o de dezassete, viajava para o México em paródia de finalistas com o resto da sua turma. Na mesma semana, viajei eu com o mais pequeno até à Bélgica e à Holanda, apenas os dois porque a minha mulher não podia tirar férias nesses dias.
Começou então a saga das autorizações de saída a assinar pelos pais. Para o mais velho, punha-se a questão do “acompanhante” e do “destino”.
A minuta de autorização constante do “site” do SEF incluía:
“na companhia de* ____, com o BI __, etc.” e um “para __________(país(es)/cidade(s) de destino) pelo período de* _____(dias/meses)”.
Em baixo da minuta, explicava-se que o asterisco significava que se devia preencher “em caso de necessidade”, fosse lá o que isso fosse. Ora o meu filho viajava em regime de turba desorganizada, sem acompanhante responsável. Na agência de viagens disseram-lhe que – em princípio, claro está – a autorização não precisava de referir nem acompanhante nem destino. Aparentemente não havia necessidade.
Só que quando cheguei à notária para reconhecer as assinaturas, esta achou que sem acompanhante havia risco de o rapaz ficar em terra. Citou um caso recente que lhe ocorrera, em que uma moça de dezasseis anos fora barrada no aeroporto, apesar de autorização em devida forma. Sugeriu adicionar uma frase nova à minuta, da sua lavra, que expressamente referisse que o deixávamos viajar sozinho. Fui à procura das muitas leis. Originalmente, havia obrigatoriedade de acompanhante, mas um decreto-lei posterior tornara-o facultativo. Perante os receios da notária, perante as certezas da lei, e não fosse algum funcionário do SEF embirrar que a sacrossanta minuta não tinha sido respeitada na íntegra, acabei por pagar duas autorizações, uma de cada paladar.
Com o mais pequeno, que saía só comigo, as dúvidas agravaram-se. O “site” do SEF afiançava que filhos de pais casados podiam ir com um dos cônjuges sem autorização do outro. Mas uma colega minha, casadinha da Silva e viajando com o marido e com a autorização e com tudo, vira a sua filha ser interrogada pelos zelosos oficiais, que lhe perguntaram, sem que ela entendesse porquê, se conhecia aqueles senhores. Como a página do SEF garantia uma coisa e o pessoal do SEF fazia outra, decidi tirar teimas ligando – erro fatal – para o “call-center” do SEF.
Atendeu-me uma inconfundível voz oriental:
- SEFi, bom díá, fálá Yôko.
- Bom dia, queria confirmar que, sendo eu casado e indo viajar com um filho menor, não preciso de autorização escrita da minha mulher.
- Cómó sinhô, não entendu.
- Se para viajar para o estrangeiro com um filho menor preciso de apresentar autorização escrita da minha…
- Não compriendu sinhô! O sinhô é putuguês?
Apeteceu-me dizer “eu sim, mas parece que sou o único”. Mas contive-me e repeti pausadamente a pergunta, com uma paciência de chinês. A Yoko finalmente compreendeu:
- Ah! Não pódi!
- Como?
- Não pódi!
- Mas na “Internet” o SEF diz que se for casado posso.
- Um mumentu!
Senti aquele vácuo sonoro de quando se é posto “off-line”. Passados dois minutos, ouvi um estalido e reapareceu a Yoko:
- Pódi!
- Perdão?
- Pódi!
- Tem a certeza?
- Pódi!
- Muito obrigado e boa tarde.
- Pódi!
Desliguei, ainda assim aliviado por não me ter calhado um operador de pronúncia ucraniana ou kibunda. Mas não fiquei muito tranquilo com a volatilidade de opiniões da Yoko. Telefonei para o atendimento ao cliente da TAP. Exposto o problema, a pessoa que atendeu aconselhou-me a levar uma autorização. Retorqui que o “site” do SEF informava que não era necessário, ao que o interlocutor, quase paternal, comentou:
- Convém levar. Eles às vezes pedem.
Lá marchei eu para o cartório notarial, para mais um reconhecimento. Ao todo foram três vezes vinte euros e muitas horas, por três papéis dos quais só um a lei o exigia.
Obviamente, na hora da verdade, o SEF não pediu papéis a ninguém e pudemos embarcar na paz do Senhor. Ao fim e ao cabo, a Yoko tinha razão: pódi!
3º Acto
Esta foi há mais tempo – e mais triste.
Na sala de espera da radioterapia do hospital de Santa Maria, mínima, soturna, atravancada pelas macas elevadas onde jazia gente que a morte cobiçava, havia uma televisão. Sempre ligada, debitava em volume alto, inapagável e indiferente ao sofrimento das pessoas que ali esperavam, que pediam recolhimento e não a voz estridente do Vítor Mendes a apregoar cafeteiras e atoalhados turcos.
Só que essa têvê não tinha imagem, apenas um ziguezaguear de cores. A antena exterior quebrara e não havia orçamento para a reparar.
O som abominável daquele aparelho avariado lembra-me, ainda hoje, a orquestra que tocava em Auschwitz enquanto o fogo crepitava nos fornos.
Um dos homens deitados nessas macas era o meu pai, que tanto amava Portugal. E que não merecia, ele como os outros, levar como última imagem desta terra sem desculpa uma sala de espera aos caídos com uma televisão que, tal como o próprio país, fazia de conta que funcionava.
Passanço final
Tudo isto seria cómico se não fosse trágico, costuma dizer-se.
São apenas três exemplos de um país que se compraz a fingir.
A fingir que há organização porque cada porteiro abre sua porta. A isto chama-se sub-emprego e é típico de países do terceiro mundo.
A fingir que há leis quando afinal a necessidade de autorizações de saída é ditada pela boa vontade ou pelo mau humor do funcionário do SEF que nos olhe desde a guarita.
A fingir que há atenção pelos utentes (palavra tão portuguesa que significa vítima do sistema) quando o que se passa é desprezo do mais profundo.
Depois admiram-se que apareçam défices malucos. Um país onde existem porteiros da porta pequena há-de sair por essa mesma porta.
A bandeira do Brasil tem no centro uma fita que diz “ordem e progresso”. Cá, podiam aproveitar o centenário da instauração da república para colocar na bandeira, à volta da esfera armilar, uma tarja onde se lesse “granel e pagode”.
Há luxos que excedem as posses do possessor. Carros de marca que mirram o orçamento em revisões e reparações de farolins. Cavalos que necessitam de estábulo, tratador, veterinário. Barcos atracados em marinas usurárias, chupando galões de combustível em cada trajecto entre ancoradouros. Amantes exigentes, requerendo jantares exclusivos e suites presidenciais.
E esta verdade, se verdadeira para as pessoas, também o é para os países. Portugal arrasta um luxo pesado demais para a sua parca bolsa: as regiões autónomas. Em particular, a da Madeira.
Da primeira vez que fui à Madeira, em 1991, levei quase duas horas de carro do Funchal a Porto Moniz, numa estrada serpenteando pelas levadas. Da segunda, há três anos, foi coisa para vinte minutos em auto-estrada sem estrada, uma vez que praticamente uma sequência de túneis e viadutos, com um custo por quilómetro semelhante ao de uma expedição lunar da NASA. Entre essas duas visitas, no Lido, os hotéis tinham crescido como cogumelos; os clubes de futebol da região disputavam lugares europeus; o rendimento por cabeça ultrapassara a média nacional. Para lembrar a Madeira de outrora sobravam apenas as crianças de Câmara de Lobos que continuavam com o mesmo ar de miséria e a mesma fama de malandras na boca da burguesia funchalense.
Para este milagre económico contribuíram algum crescendo da actividade local, em particular turística, bastantes fundos comunitários, os capitais que circulam pela zona franca, mas, sobretudo, eu e você. Apesar de no final dos anos noventa a República ter perdoado duas vezes um montão de caroço devido pela região, a Madeira continuou a cravar e aguenta hoje um serviço de dívida que excede o seu produto. O conjunto dos Portugueses tem 4600 milhões de euros de obrigações financeiras associadas a região. Só cá em casa são quase dois mil euros de património que estão de alguma forma onerados pelas necessidades madeirenses, praticamente o mesmo valor que para com o total dos municípios do “Continente”, como eles dizem, provavelmente assim chamado por ter que se conter nas suas próprias despesas para poder ajudar ao desmando insular.
Esperar-se-ia que a Madeira ficasse um poucochinho grata por esta demonstração de simpática coesão nacional. De algum modo, ando eu a lixar as suspensões do carro nos buracos da minha rua em Lisboa para que os mil habitantes de Santana cheguem num tirinho ao centro do Funchal. Enquanto eu tremo que nem varas verdes quando chega a carta do IRS, o madeirense abre-a tranquilo, sereno nas suas excepcionais condições fiscais. Mas não: afinal, pela voz do soba local, eleito sistematicamente com maiorias quase tão gordas como as peles da sua papada, verifica-se que não se acham satisfeitos. Mais: insultam-nos, apodando-nos de cubanos nos dias amenos e de imbecis para cima nos dias restantes, mordendo a mão que, mais do que lhes dar de comer, os banqueteia opiparamente.
A condescendência com que no tal “Continente” tratamos as sacanices e as alarvidades de Alberto João Jardim sempre me intrigou como um dos maiores mistérios da vida política portuguesa. Talvez porque eu seja ingénuo e pense que a covardia tem limites. De facto, aquela reacção que se vê nos partidos e em muita imprensa, de lhe achar graça por ser um palhaço inimputável, uma espécie de bobo da corte a quem tudo se perdoa, é uma forma de fingir amedrontadamente que nada se passa e que não há ali muitas questões a resolver, nem que seja em nome da decência. Os bobos da corte medievais estavam autorizados a desbocar-se à frente do rei, mas não andavam a derreter o tesouro real e sabiam que se pisassem o risco respondiam com o seu pescocinho.
E eu cá não acho piada nenhuma a Jardim. Nem o creio louco. Pelo contrário: é um autocrata inteligente que sabe manipular quer os anseios e receios dos madeirenses, quer os complexos e defeitos dos continentais para financiar e perpetuar uma coutada de poucos paga com o dinheiro de todos. E que envergonha o país com o simulacro de democracia que ocorre no território, mais até que quando passeia de cueca na avenida ou nos insulta de chapéu de palha no comício do Chão da Lagoa.
A inacção da República face a Jardim surpreende-me tanto mais que tirá-lo de lá não me parece complicado. Para um primeiro-ministro, existem tarefas fáceis mas aborrecidas e outras difíceis mas divertidas. Ver-se livre de Jardim será simultaneamente fácil e divertido e um desígnio nacional. Não se percebe pois que nunca dedicaram a tão útil missão o tempo necessário.
Bastaria uma auditoria fiscal permanente e exaustiva, vinda de Lisboa, sobre as empresas de algumas famílias da região, seleccionadas, descobrindo tudo e punindo pelo máximo. Passado pouco tempo as tais famílias perceberiam. Passado um pouco mais Jardim sairia pelo próprio pé. Aquele tipo de regimes funciona assim.
Outra hipótese, que reconheço viola o respeito que os políticos devem à integridade do território nacional, seria ameaçar com a concessão da independência, deixando-a tornar-se uma república das bananas de corpo inteiro. Imagino o pânico na ilha perante a perspectiva de terem que se desenrascar sozinhos. Da maneira como se endividam em menos de nada tornar-se-iam uma Guiné flutuante.
Compreendo, obviamente, a especificidade dos Açores e da Madeira no todo português. Mas não entendo como é que a Madeira, que são só duas ilhas e não nove, tendo por isso menos repetição de infra-estruturas, acumula cinco vezes mais dívida que os Açores. A estes níveis, já não podemos falar de custos de periferia. Com perdão da má palavra, isto é chulice pura e dura.
E a propósito de palavrões, nesta sexta-feira Jardim conseguiu ch… obter mais umas centenas de milhões, em pleno quadro de uma crise de credibilidade de Portugal nos mercados financeiros que vamos pagar com língua de palmo. Fazendo valer o peso dos militantes do PSD Madeira numa altura em que as eleições para um novo líder estão aí à porta, vergou a seu bel-prazer o PSD, arrastando ainda o PCP, o Bloco e o PP, todos numa de quanto pior, melhor, para a aprovação de uma lei de finanças regionais que já seria indecente em tempos normais, quanto mais agora.
Ficámos pelo menos a saber quanto vale este PSD. Achei particularmente indecoroso o Aguiar Branco, com o penteadinho marialva e o seu ar mais verdadeiro, a garantir aos portugueses que a baratíssima aprovação desta lei não influenciaria o “rating” internacional do Estado português, exactamente na mesma altura em que em toda a “Internet”, da Reuters ao Financial Times, os analistas anunciavam que a capacidade do governo em travar a lei seria um sinal da seriedade com que Portugal iria enfrentar a questão do défice.
Escreveu Camões, sobre o nosso D. Fernando, que um fraco rei faz fraca a forte gente. Com a oposição que temos, passa-se o efeito inverso. Ao lado das Leites e dos Pachecos, até o Luís Filipe Menezes, dos poucos do PSD a quem ouvi dizer que esta aprovação era um disparate, parece um estadista. Até o Teixeira dos Santos bota figura de mago das finanças. Pasme-se: até o Sócrates soa a salvador da pátria!
I can turn
And walk away
Or I can fire the gun
Staring at the sky
Staring at the sun
Whichever I choose
It amounts to the same
Absolutely nothing
I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
The Cure, in “Killing an Arab”
Passaram esta semana cinquenta anos sobre a morte de Albert Camus, num automóvel enfeixado contra uma árvore. A efeméride deslizou discreta pelo meio do esquecimento geral. Poucas mas honrosas excepções, entre as quais cinco minutos num telejornal da RTP.
Neste blogue, não será anormal que se faça esta referência. Porque Camus anda por aí de passeio, discreto mas presente, nas linhas e entrelinhas dos cento e tal textos que aqui pus a público.
De facto, Camus é certamente o escritor e o pensador que mais me influenciou ou, melhor, modificou. Apanhou-me na altura certa. Li quase toda a sua obra entre os quinze e os vinte anos, que é quando os livros ferram mais. Li o romancista, o dramaturgo, o jornalista e o filósofo. Destes, gostei menos do último, porque lhe faltava a clareza cristalina dos outros. Aliás, o próprio escreveu: se queres ser filósofo, escreve romances.
Antes de Camus, antes de Meursault e de Rieux, o planeta que eu via à minha volta parecia bem-encaminhado, rumo aos amanhãs canoros em que seríamos todos amigos e iguais. Havia certezas e até convinham.
Depois do estrangeiro e da peste, as coisas já não se mostravam tão simples. A dúvida instalou-se, descobri que bem-vinda. O sentido deixou de ser evidente. Mas existe e até faz mais sentido.
Recordo, da minha primeira leitura de “O estrangeiro”, a diferença e a crueza que senti. Ali estava um tipo que não se punha com tretas e descrevia as coisas como elas eram. Ali estava um livro que não mentia sobre um homem que tinha para com a vida toda a franqueza do mundo. E o mundo tinha ao fim e ao cabo o seu quê de absurdo. Aqueles personagens que se iludiam encontravam uma felicidade de periferia, suportadas por aparências de glória, honradez ou felicidade. O estrangeiro, Meursault, que não mentia a si próprio, percebia que os homens eram erráticos como as partículas no movimento browniano, impelidas por moléculas invisíveis a olho nu. Percebia que o destino de cada um podia traçar-se por um acaso, por um reflexo de sol no mar ou pelo torvelinho de circunstâncias que o levou a matar um árabe e a morrer por isso, aceitante.
“O estrangeiro” instalou em mim a dúvida metódica, que cultivo até hoje ou que até hoje me apoquenta, não sei bem. A minha pergunta deixou de ser “para onde vamos” para se tornar “quem ou o quê nos empurra”.
Mas essa nova visão, sendo rica, não me chegava, como não lhe chegou a ele. Veio a Segunda Guerra, a França foi ocupada e martirizada. Camus poderia ter aceite esse destino com indiferença, como Meursault aceitou o seu. Mas não. Lutou, participou na resistência, escreveu na clandestinidade, com grande risco pessoal. Os seus magníficos ensaios no jornal “Combat” são um monumento de tolerância e humanidade, redigidos num momento tenso em que o sectarismo poderia aceitar-se (por outros, que nunca por ele). Escreveu, a 25 de Agosto de 1944, no último dia de combates pela libertação de Paris, o seguinte: “Nada é dado aos homens e o pouco que podem conquistar paga-se com mortes injustas. Mas não é aí que está a grandeza do homem. Está na decisão de ser mais forte que a sua condição. E se a condição é injusta, não há outro modo de a ultrapassar que não seja ser justo. A nossa verdade esta noite, a que plana neste céu de Agosto, é a que traz o consolo ao homem. E é a paz do nosso coração, como seria a dos nossos camaradas mortos, poder dizer diante da vitória regressada, sem espírito de retorno ou de reivindicação: “Fizemos o que era preciso”.”
Afinal sempre existia um sentido para a vida: fazer o que era preciso e vencer as nossas limitações, revoltando-nos contra o absurdo e trazendo ao de cima o melhor que há em nós, em cada um de nós. Dizia ele: “Creio no homem, não na humanidade”. Tudo isto, que aqui descrevi em termos simplistas, escreveu-o ele em “A peste”, num dos mais belos romances que se possa ler.
“O estrangeiro” e “A peste” não são apenas duas fases do pensamento e da vida do seu autor. São duas caras do mesmo Janus, olhando o mundo segundo duas direcções diferentes, mas partes de um todo. A segunda, surpreendentemente, possibilita-nos um optimismo que nos falha na primeira. Mas sem perder a lucidez. No último parágrafo de “A peste”, quando na cidade se celebra o fim da epidemia, o personagem principal, o doutor Rieux, reflectia que “…este contentamento estava sempre ameaçado. Porque ele sabia o que a multidão alegre ignorava, e que se pode ler nos livros, que o bacilo da peste não morre nem nunca desaparece, que pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, que espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e nas papeladas, e que, talvez, viria o dia em que para desgraça e lição dos homens a peste acordaria os seus ratos e enviá-los-ia para morrer na cidade feliz.”
Passa-se o mesmo com os bacilos da intolerância, da ignorância, da soberba e outros igualmente mortais. Mas, diz o ditado, enquanto o pau vai e vem folgam as costas.
Para além de um pensador e de um combatente, Camus foi um grande escritor, com uma prosa depurada e elegante mas densa, onde cada palavra tinha o seu papel. Um exemplo: descrevendo a sua ida para o liceu, oriundo de um meio social muito simples (a mãe era analfabeta), diz “conheci a comparação”. Não fala da discriminação ou da rejeição ou da humilhação, que são efeitos e que são os vocábulos que normalmente usaríamos. Usando a palavra certa, fala da causa, a comparação. E faz pensar: com que direito, no dia-a-dia, comparamos pessoas, quando deveríamos comparar atitudes e comportamentos?
Lendo a sua obra e conhecendo a sua vida, verifico ainda que por feliz coincidência Camus, tendo certamente os seus defeitos, foi um tipo porreiro e decente, características que nem sempre andam juntas: conheço gente decente que se porta como uma besta e malta porreira que esfaquearia sem hesitar pelas costas. Quando ganhou o prémio Nobel da literatura escreveu ao seu antigo professor primário, Louis Germain, que dera pelas suas qualidades numa escola pobre da Oran colonial e diligenciara para que ele pudesse continuar a estudar. Nessa carta, entre outros momentos que vale a pena ler, disse-lhe: “… apesar da idade, não deixei de ser o seu reconhecido aluno.” Humildade e gratidão, que tanto falham hoje em dia.
O mundo em que vivemos não diferirá muito, naquilo que mais importa, daquele que Meursault e Rieux contemplavam das suas janelas. Continua absurdo, urdidura de aparências e convenientes correcções que como uma cortina tapam a incoerência essencial. Hoje, o que nos falta é a mão estrangeira de um Camus, que levante a cortina, e a sua voz, que nos peça para pensarmos sobre o que vemos.