Em Picadilly, do lado direito para quem vai quase a chegar
ao Circus, fica a livraria que John Hatchard criou em 1797 e que é por isso a
mais antiga de Londres com a porta aberta. Fornecedora de leitura ao palácio de
Buckingham, a Hatchards faz valer o seu direito ao uso do brasão real,
ostentando-o bem grande por cima da entrada, com o mote “Dieu et mon droit” que
Eduardo III engendrou em 1337 quando tomou a sempre útil decisão de chatear os
franceses, iniciando a escaramuça entre primos e sobrinhos que conhecemos como
guerra dos cem anos.
A Hatchards percorre-se com o sentimento de quem visita uma
casa da burguesia abastada de há um século, com boas madeiras na parede, alcatifas
e tapetes, os livros expostos sobre mesas “Regency”. São meia dúzia de pisos
forrados a estantes imaculadamente organizadas por temas e ordem alfabética dos
autores, ordem que o manuseio ordeiro de quem visita nunca altera. Uma secção
está exclusivamente dedicada – marca distintiva da casa – a Churchill, com
biografias, colectâneas, edições antigas das suas memórias da guerra. Nos
sítios de passagem, se nos distrairmos a mirar as lombadas, corremos o risco de
encalhar numa mesa com umas dezenas de livros amontoados, sugeridos pela casa,
irmanados por um tema que consta de um pequeno cartão escrito em letra cursiva:
livros de viagem ou para uma reflexão política ou para cuidar da saúde ou outra
coisa qualquer. Uma dessas mesas, de pernas arqueadas pelos pesos-pesados que
aguentava, propunha coisas do estilo do “Guerra e paz”, do “Os Buddenbrook” ou
do “Crime e Castigo”, com um cartão que achei particularmente sugestivo e que
lia “Everyman’s classics”.

Nesta minha primeira visita à Hatchards encontrei um opúsculo
de George Orwell datado de 1945, “Política e a língua inglesa”, de curtas 24
páginas, que comprei por uns ridículos 99 “pence”. Londres é uma cidade
caríssima, onde tudo se paga e onde uma bica de mau café inglês vai para duas
ou três libras, e portanto Orwell a 0.99£ é o que lá se chama “value for money”
e cá se chama uma pechincha. Acho que a única vez que paguei menos do que isto
por alguma coisa em Londres foi o acesso urgente aos lavabos na estação de
combóios de Paddington, que me custou meia libra. Ainda assim, para quem não
quiser pagar os 99 “pence”, o texto está na íntegra neste
link.
Orwell começa por nos mostrar exemplos de como uma
deficiente escrita, com excesso de metáforas e frases feitas, construções
barrocas, preciosismo na escolha dos vocábulos, palavras vazias de sentido ou
abuso de estrangeirismos, pode tornar a mensagem incompreensível, mesmo quando
– e muitas vezes quando – redigida por doutores e catedráticos. Orwell defende
que se escrevermos escrupulosamente (advérbio dele) perguntar-nos-emos a cada
frase o que queremos dizer, que palavras o expressarão, que imagens melhor o
clarificarão e se estas são suficientemente “frescas” para produzir o efeito
pretendido. De seguida, poderemos interrogar-nos se poderíamos ter sido mais
breves ou se há alguma expressão mais feia que pudéssemos ter evitado. A
alternativa a estes cuidados, continua ele, é simplesmente deixar frases feitas
acumularem-se e serem estas a construir o texto por nós, ou mesmo a pensar as
ideias por nós, escondendo o sentido mesmo de nós próprios. E é aqui, conclui
Orwell, que ocorre a ligação entre a deterioração da linguagem e a política,
porque a ortodoxia política pede, segundo ele, esse mesmo estilo amorfo e
imitativo.
Este amorfismo que impede a emergência da inteligência pode
ser uma forma de inconsciência, se são as palavras que nos manipulam, ou de
cinismo, se somos nós que as manipulamos para que o sentido das coisas não sobressaia.
Orwell, pensando em factos do “seu tempo”, a continuação da presença colonial
britânica na Índia, as purgas estalinistas ou a bomba atómica sobre o Japão, afirma que o
discurso e a escrita políticos desse seu tempo são sobretudo a defesa do
indefensável. Não porque esses factos não pudessem ser defendidos no plano
conceptual, que podiam, mas porque os argumentos dessa defesa seriam brutais
demais para a maioria das pessoas os encarar de frente e incoerentes com as
intenções oficiais das diversas linhas políticas. E daí o recurso ao eufemismo
e à vaguidão como forma de fazer com que as coisas vão ocorrendo sem grande
contestação. E este recurso, esta manipulação voluntária ou a certo momento
automática da deterioração da linguagem para que as pessoas – o povo – não
vejam claro, é um pezinho na porta de entrada do edifício lúgubre do
totalitarismo.
Poderíamos aplicar esta visão de Orwell também ao “nosso
tempo”. Os factos em curso são outros: por exemplo a destruição de povos,
economias, equilíbrios de direitos e dignidades civilizacionais em nome de uma
ideologia e em proveito de uma minoria. Mas a necessidade de não os discutir na
sua crueza e de os dissimular debaixo de paninhos quentes, essa é a mesma e é a
que ouvimos a Passos Coelho, mas também a Seguro, a Portas, mas também a Louçã
e a Cavaco e a Barroso e a Merkel e a Olli Rehn e ao tipo do Syriza na Grécia e
por aí fora. Todos defendendo “ad nauseam” que a sua alternativa não tem
alternativa e mascarando debaixo de palavras flácidas as consequências das
alternativas que sempre existem e que quase sempre representam escolhas
difíceis.

Pego num jornal da pilha e abro ao acaso. O nosso Presidente da República fala de
“coesão nacional” e “ausência de desestruturação social”. Com estes eufemismos
quer significar que ainda não começou tudo à porrada na rua, que é uma imagem
que a classe política teme por razões várias, uma das quais sendo o interesse
próprio. Como ainda não desatou tudo ao soco, Cavaco Silva conclui que o povo
tem um “grande sentido de responsabilidade”. Ora isto é um exemplo chapado do
que o texto de Orwell define como frase vazia de sentido, porque o povo, que é
um somatório de pessoas, circunstâncias e comportamentos, não tem sentido de
responsabilidade, como não tem inteligência, nem perfídia, nem preguiça, nem
dinamismo, nem nada que não seja a aparente resultante de milhões de acções
individuais. Por outro lado, o comportamento colectivo que Cavaco aqui
convenientemente elogia como responsabilidade do povo (a leniência diante da
opressão) é exactamente o oposto daqueloutro (a revolta diante da opressão) que
os livros com que ensinamos História às nossas crianças elogiam como grandeza
ou coragem do povo, por exemplo quando no século XIV o povo de Lisboa se
mobiliza para defender o Mestre de Avis numa luta dinástica cujo resultado
expectável seria tão incerto e os riscos tão elevados quanto hoje seriam uma saída
do euro ou um bater do pé à “troika”.
Do nosso primeiro-ministro foi difícil encontrar discurso
directo que servisse aqui de exemplo, porque agora o governo contratou na
academia um ministro maduro que se poiou para câmaras e microfones e que fala
por todo o executivo, chefe incluído. A cada dia, tal como um pescador do
Índico, Maduro mergulha em apneia nas águas turvas dos ministérios e emerge à
hora do telejornal com as mais recentes pérolas da verborreia governativa. Num
jornal de uma quarta recente leio que este porta-voz, ao ser inquirido sobre
divergências na coligação PSD-CDS, responde que “por comparação”, Portugal tem
uma coligação muito coesa. Ora isto é nada dizer, porque por comparação é
melhor ter cinco metástases no cérebro do que dez ou perder três filhos num
acidente do que quatro. Ainda na mesma tirada, refuta que o governo queira
despedir funcionários, embora não prometa que não o fará, um exercício bastante
clássico de dizer uma coisa e o seu contrário, e que o quer é “requalificá-los”.
Tecnicamente, o uso do termo “requalificação” até pode ser besuntado com um
verniz de verdade, porque o que se propõe é mudar a qualidade dos alvos de “funcionário”
para “desempregado”. Mas eticamente utilizar esta palavra remete para algumas
grandes mentiras da História, como por exemplo a de que o trabalho liberta. Sair-se
com uma palavra como requalificação significa apenas que não há coragem para se
afirmar o que efectivamente se pensa. Dizia Mark Twain que há três categorias de
mentiras: as mentiras, as mentiras abomináveis e as mentiras estatísticas.
Acima temos os três tipos.
Poderia continuar com o líder daquele arrufo a que por cá se
chama oposição, com as suas inexplicadas “novas ousadias” e “novas políticas”,
ou com a comissão liquidatária da Europa e o seu “entusiasmo” com o “sucesso”
da “solidariedade” para com os países “auxiliados” ou com a chanceler alemã e o
raio do “rigor” ou com qualquer outro falante destes tristes tempos, mas poupo-vos
ao sacrifício, até para não avariar de vez a tecla das aspas.
Depois desta travessia no deserto de ideias, regressemos ao
oásis de clarividência de Orwell, que resumia este vínculo entre má linguagem e
má política na frase “o maior inimigo de uma linguagem clara é a insinceridade”.
A linguagem política - concluía ele - é feita para fazer a mentira parecer
verdadeira e o assassinato respeitável. Como em Portugal somos um povo de
brandos costumes que, como gozava Solnado, só mata assim-assim, talvez cá a
linguagem política se foque mais em tornar respeitáveis a vacuidade e a
pequenez do que propriamente o assassinato. Mas cá ou lá, então como agora, o
esforço de fuga ao sentido das palavras revela apenas a relação fácil que os
homens têm com os seus piores defeitos.
Em directo da natureza humana para o
Mataspeak, foi o repórter George Orwell.