sexta-feira, dezembro 31, 2010

Feliz ano novo de 2009

O momento mais natalício de 2010 li-o num artigo do Público de 22 de Dezembro intitulado “Filha, a mãe está desempregada”. A matéria versava sobre como dizer aos filhos, de forma suave, que se foi parar ao olho da rua. Infelizmente tema de interesse, potencial ou real, para muitos portugueses.

Uma mãe, recém-despedida, contou sobre a reacção da sua filha pequena: “Ela primeiro ficou impávida, a olhar para mim. Mas quando me viu chorar começou logo: ‘Ó mãe, não chores, não faz mal. Se precisares de dinheiro, partimos o meu mealheiro. Vais ver que arranjas um emprego melhor.’”

Esta história pode ter mesmo ocorrido ou resultar apenas da imaginação da jornalista, mas possui aquela realidade intrínseca que qualquer um de nós, que tem ou teve crianças, aceita sem problemas que possa ser verdade. A frase desta criança é uma súmulazinha do verdadeiro espírito natalício, aquele que existia antes de haver filas para embrulhos nos corredores dos centros comerciais e filmes sobre o nazareno na têvê, com apóstolos todos louros e de olhos azuis. A frase desta criança contem amor, partilha, despojamento, alívio e esperança. E representa, tal como no original, um choque entre duas éticas. Antes, a de Cristo contra a dos Herodes, dos Pilatos, dos Caifás. Agora, a desta menina contra a prevalecente no mundo em que nasceu. À dela poderemos chamar, com razoável aproximação, “o Bem”; à última, também com pequena margem de erro, “o Mal”.

Porque hoje – e provavelmente dantes também – tendemos a esquecer-nos destes conceitos simples, o Bem e o Mal. O Natal celebra o nascimento de um homem cuja existência culmina, pela ressurreição, numa vitória exemplar do Bem sobre o Mal. Com o risco de parecer simplista, ou acreditamos que o universo não passa de um local onde partículas interagem sujeitas a regras descritíveis por fórmulas matemáticas ou, se quisermos algo mais, temos que introduzir conceitos de Bem e de Mal que dêem algum sentido às nossas existências. Eu não sou crente e até sei que sou um agregado de partículas aqui a teclar no computador, mas pertenço à segunda categoria.

O Bem e o Mal são noções variáveis, escorregadias, volúveis. Há muitos tons de cinzento para um só de branco e outro de preto. Mas tal não nos deve amedrontar: o sofrimento de uma criança, por exemplo, é uma manifestação do Mal, uma genuína dádiva de solidariedade, uma prova do Bem.

As sociedades justificam-se se servirem para maximizar o Bem e minorar o Mal. Ao longo da História verifica-se uma certa tendência favorável, pelo menos nalgumas geografias: as crianças morrem menos, os velhos vivem mais e melhor, há menos guerras, menos pestes, menos fome na Europa dos nossos dias do que há cem, quinhentos, mil anos atrás. Claro que houve progressos e retrocessos, fracassos e sucessos, incoerências várias. Mas avançou-se.

Para avançar, há que olhar em frente e ter fé que melhor é possível, senão mesmo obrigatório. Foi preciso acreditar que havia terra para lá do mar, que a abóbada não cairia, que as asas sustentariam o voo, que inocular vírus de varíola bovina numa criança a podia salvar da varíola. Do mesmo modo, foi preciso acreditar que era possível acabar com a escravatura, com o analfabetismo, com os direitos divinos. Nalguns sítios e nalguma extensão, conseguiu-se.

Entramos no novo ano com o ânimo de náufragos numa tormenta. Tudo parece inevitável: a crise, a degenerescência, a vinda do FMI, a recessão, a miséria e tudo o mais. O sentimento é de impotência diante das “leis” do mercado, dos ditames dos recém-licenciados das agências de “rating”, da inevitabilidade da falência de uma sociedade mais solidária.

A crise que vivemos é uma crise de crença. Não posso aceitar como boa e incontornável uma sociedade em que a ganância seja a mola motora do seu funcionamento, assim sem mais. Adam Smith que me desculpe, mas sabe a pouco e parece obra do demo. Até porque a ganância é a mais vil das causas do Mal: pode ter alguma desculpa o desesperado que rouba para comer, o louco que mata por desvario, mas a ganância, a fria e cerebral ganância… Não é virtude sobre a qual se construa uma sociedade.

Não sei o quê, mas algo terá que ser feito, no futuro. Jenner também não sabia, quando cometeu a loucura improvável de inventar a vacina, mas fez alguma coisa. Terá que haver rasgo, decisão, força, conjunto. Aceitar que a criança do início deste texto tem que sofrer porque é o que convém, situação que é a “conventional wisdom” dos nossos dias, representa um retrocesso civilizacional. E se estamos a andar para trás a única coisa que vos posso desejar é um feliz ano novo de 2009.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Exposição fotográfica (XXVI)

Kerala, Índia, Novembro 2010






sábado, dezembro 18, 2010

Wikinóias

“Benjamin felt a nose nuzzling at his shoulder. He looked round. It was Clover. Her old eyes looked dimmer than ever. Without saying anything, she tugged gently at his mane and led him round to the end of the big barn, where the Seven Commandments were written. For a minute or two they stood gazing at the tatted wall with its white lettering.

"My sight is failing," she said finally. "Even when I was young I could not have read what was written there. But it appears to me that that wall looks different. Are the Seven Commandments the same as they used to be, Benjamin?"

For once Benjamin consented to break his rule, and he read out to her what was written on the wall. There was nothing there now except a single Commandment. It ran:

ALL ANIMALS ARE EQUAL
BUT SOME ANIMALS ARE MORE EQUAL THAN OTHERS


After that it did not seem strange when next day the pigs who were supervising the work of the farm all carried whips in their trotters.”


George Orwell, in “Animal farm”


Tenho lido excitações várias a propósito do caso de Julian Assange e das por si desviadas duzentas e tal mil mensagens do Departamento de Estado norte-americano que, a conta-gotas, nos vão dizendo do mundo em que vivemos.


Surpreendentemente, e falando apenas de Portugal, algumas das argumentações mais pindéricas vêm de jornalistas de estatuto, como Miguel Sousa Tavares, Teresa de Sousa ou José Manuel Fernandes, que às vezes parecem ter esquecido qual a carteira profissional que levam na carteira.


A ver:


Argumento 1: o gajo só faz essas maldades aos Estados Unidos e não à Rússia ou à China ou ao Irão; logo está feito com essas potências malévolas.


Não sei se está feito ou não e também é totalmente irrelevante. Acho muito mais provável ele não ter conseguido sacar nada aos russos ou aos chineses, que pelos vistos são mais profissionais nessas coisas do secretismo. Mas pergunto: uma fonte de informação (que é o que ele na prática é) ou um jornal (que são o que são o Le Monde, o El País, o The Guardian, o Der Spiegel e o New York Times) têm que se preocupar com esse equilíbrio do terror na produção de notícias? O Bob Woodward e o Carl Bernstein, quando mandaram o Nixon de carrinho num contexto de Guerra Fria, deveriam ter tido em conta que não estavam a dar o mesmo tratamento ao Brejnev e ter-se patrioticamente recusado a pôr o Watergate nas rotativas?


Argumento 2: o gajo com essas revelações está a pôr em perigo a luta contra o terrorismo.


Não vejo que esteja e assim sendo é totalmente irrelevante. A informação foi entregue a cinco jornais dos mais prestigiados do mundo que vão tratando editorialmente a informação em bruto. Neste aspecto ele foi ou esperto ou prudente. E será ou não importante sabermos (e não apenas suspeitarmos ou conjecturarmos) que uma petrolífera corrompe governos, que uma farmacêutica persegue magistrados que investigam mortes causadas por testes de medicamentos seus ou que o nosso Zé deu o seu aval à utilização do nosso território para transferências de presos para Guantanamo e mentiu sobre esse facto aos eleitos em representação do povo (que, já agora, somos nós)? A mim parece-me de algum interesse público. Que diríamos de um jornalista que mantivesse esta informação para si? Certamente que tinha um jota pequenino.


Argumento 3: o gajo está a usar informação criminosamente roubada.


Quase de certeza mas também é totalmente irrelevante. E é por ser totalmente irrelevante que o direito ao sigilo sobre as fontes é uma pedra basilar da actividade jornalística nas democracias. Voltando ao Watergate, quase de certeza que o “Garganta Funda”, quando passou a informação cá para fora, não se chibou em total respeito pela legalidade. Mais uma vez, deveriam por isso Woodward e Bernstein ter ficado calados?


Argumento 4: o gajo andou a dormir com umas suecas.


Que lhe tenha feito bom proveito mas também é totalmente irrelevante. Aqui, os americanos tiveram azar. Logo agora que eles precisavam que isto não acontecesse e que tudo mantivesse um ar respeitável, aparecem estas tipas e fica logo o pessoal todo (que é maldoso) com a pulga atrás da orelha a dizer que estas duas não surgiram por acaso. E para mais com umas acusações que só traduzido do sueco: “sexo de surpresa” ou “sexo com ela meio a dormir”. Maravilha! Até eu já às vezes ando meio a dormir. Ainda vou parar aos tribunais.


Argumento 5: o gajo tem aquela cara.


Sim! Já li este argumento em letra de imprensa! Sem palavras. Totalmente irrelevante, claro.



Vamo-nos cingir ao que interessa. Cinco dos maiores e melhores jornais mundiais estão a seleccionar e publicar informação diplomática norte-americana, confidencial, sobre os mais variados assuntos e países. Obtiveram licitamente esse material de um fulano que o recebeu de terceiros, terceiros esses que ilicitamente promoveram a fuga. A veracidade dos conteúdos não foi desmentida. No global, as duzentas e cinquenta mil mensagens permitem-nos perceber o paternalismo suficiente com que o Império nos trata. Só os ingénuos se surpreenderão. Algumas dessas mensagens indiciam ou provam factos realmente graves. A situação é muito embaraçosa para a diplomacia dos Estados Unidos, que já se viu obrigada a começar a rodar diplomatas.


A única diferença face a outras vulgares fugas de informação está no volume, só possível nestes tempos de “terabytes” fáceis, no facto de a fonte dos jornais – Julian Assange – se manifestar publicamente em vez de ficar quietinha no anonimato e de ter um “site”, o Wikileaks, que tem como propósito divulgar publicamente informação que empresas, estados ou outros gostariam de manter confidencial. No Wikileaks podemos encontrar em bruto as tais duzentas e cinquenta mil mensagens.


Não muito surpreendentemente, os Estados Unidos querem a cabeça do homem e pressionaram empresas fornecedoras de serviços ao “site” (Amazon, Paypal, etc.) para rescindir com ele, tentando vaporizá-lo do ciberespaço. Também não muito surpreendentemente, a manobra não lhes saiu bem. A “internet” é mar para enguias e facilmente o “site” foge e se replica, existindo hoje na rede mais de dois mil espelhos do mesmo.


Mais surpreendentemente, muita imprensa (nomeadamente a portuguesa, mas não só), em vez de se atirar de cabeça a esmiuçar a informação disponibilizada e as suas consequências, prefere conjecturar sobre as “reais” intenções de Assange ou sobre a sua “verdadeira” personalidade ou dissertar sobre o carácter “voyeur” ou anarquista do “site” Wikileaks. Relatórios minoritários. O que admira e preocupa é ninguém se admirar ou preocupar. Deste estado espantoso só ouvi o Lula da Silva comentar, intrigado, no seu jeito pernambucano e com aquela sagacidade de quem perdeu um dedo no torno: “Oi! Ninguém vem defender a liberdade de opinião, não?”


Como gosto de saber sabido, visitei o “site”, julgando – à vista da sanha – que iria encontrar textos de Kropotkine ou arengas de Ossama Bin Laden. As únicas citações de políticos que lá encontrei pertenciam a Thomas Jefferson e James Madison, senhores cuja carantonha circula nas notas de dólar. Encontrei um “site” normalíssimo de uma ONG de recorte anglo-saxónico com um propósito declarado: revelar, da forma mais segura possível para as fontes, segredos que achem que o público deve saber. Apresenta uma política de confirmação de informação com a qual a nossa imprensa poderia aprender qualquer coisa. O “site” refere ter ganho prémios, da Amnistia Internacional e outro patrocinado pelo The Economist, pela sua actividade em prol da liberdade de expressão. Fui verificar e é verdade.


A Democracia tem aquela virtude binária que caracteriza a virgindade: ou sim ou não. Claro que faz parte do trabalho dos governos manterem informação confidencial em matérias cuja divulgação possa lesar gravemente o interesse colectivo dos países que governam ou a segurança dos seus habitantes. Convinha já agora que essa componente fosse controlada, por exemplo por comissões parlamentares. Por seu lado, a imprensa pode e deve, quando tem acesso a informação desta, analisá-la e divulgá-la se a considerar do interesse público. E é particularmente do interesse público quando o segredo serve para defender interesses privados. A este escrutínio podemos chamar sem medo “checks and balances”. E os governos democráticos ou aceitam estas regras do jogo ou passam a ser meramente governos, “tout court”.


O Wikileaks não é um fenómeno vulgar. Surge como mais uma das novidades da “Internet” que muda o modo como vivemos o mundo. Traz consigo um comboio de novas interrogações sobre novas formas quer da liberdade, quer da sua irmã gémea, a responsabilidade. Admito que poderá ter aspectos discutíveis e criticáveis – valerá a pena ler sobre isto o que escreveu Pedro Lomba no Público. Mas matar o Wikileaks a golpes de poder político e económico parece-me muito perigoso. E aceitar placidamente ainda mais. O que tenho visto nos dias recentes cheira nauseabundamente a perseguição e não me deixa descansado.


Por isso recuperei para nossa leitura o longo parágrafo em epígrafe tirado de “O triunfo dos porcos”, onde aparece a célebre “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. A frase faz todo o seu sentido se lermos o que está imediatamente antes e o que vem logo a seguir. Os animais acabaram de ver o porco Squealer andar de pé, de chicote na mão, contradizendo o primeiro dos sete mandamentos da revolução animal que foram pintados na parede do celeiro: “tudo o que anda com dois pés é inimigo”. Baralhada, a égua Clover pede ao burro Benjamim, um dos poucos animais que sabe ler, que lhe diga o que está escrito na parede. Benjamim, que, à medida que os porcos iam alterando em seu proveito os sete mandamentos, várias vezes tinha mentido – por medo, piedade e cinismo – sobre o que lia, diz finalmente a verdade. Mas tarde de mais: no dia seguinte, todos os porcos usavam um chicote.


Se aqueles que podem falar se calarem, ou forem calados, mais facilmente os suínos se põem de chicote. Quanto aos Miguéis, Teresas e José Manuéis deste mundo, Orwell, preclaro, não os esqueceu: a quinta tinha uns carneiros que baliam sempre o que dava jeito aos porcos que fosse balido.


Curiosamente, o meu exemplar de “O triunfo dos porcos” foi-me oferecido nos meus doze anos, nos idos do PREC, por um casal amigo da minha mãe que era de direita e militante cristão, numa altura em que essa posição não era cómoda. Eles não tiveram dúvidas que uma fábula sobre a aspiração dos oprimidos à liberdade e sobre o modo como o poder pode corromper essa aspiração, escrita por um socialista, seria excelente leitura para um miúdo. Perdi-lhes o rasto e aproveito para lhes agradecer, se por improbabilidade lerem este texto. Não esqueci o exemplo do seu gesto. De facto, há pessoas para quem a Democracia é como o ar que se respira e outras para quem é como a roupa que se veste. Ou que se troca.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Passagem pela Índia

Novembro de 2010 foi o primeiro mês sem “post” desde o início do Mataspeak. Trabalho, trabalho, muito trabalho, o “stress” da crise, preocupações várias mataram no ovo os poucos fogachos de inspiração e vontade que possam ter crepitado nos meus neurónios. Pelo meio uma viagem a Cochim, capital do estado de Kerala, “terra natal de Deus” como eles lá se orgulham.


Em Cochim morreu o homem da volta do mar largo, o alentejano Vasco da Gama, e aí ficaram seus ossos até o seu irmão Paulo os recuperar e levar para casa. Em Cochim aterrei eu após escalas em Veneza e Dubai, depois de um dia inteiro para voar meio mundo: ainda assim pouco comparado com os seis meses de caravela do meu ilustre antecessor naquelas paragens.


Na ida larguei de Dubai à noite: a filigrana que luzia cá em baixo não diferia de qualquer outra cidade do mundo. Por sorte, aterrei no regresso com a alvorada. Olhando pela janela à medida que o Airbus descia mansinho vi sucessivamente a vastidão ocre do deserto bordando o Índico, apenas riscada pelas linhas negras de estradas imperturbadas, rectilíneas durante quilómetros e quilómetros. Depois bairros e mais bairros de vivendas de açoteia, pardacentas do pó que sopra do interior da península arábica. À medida que o avião rodava para aproximar à pista, desenharam-se no horizonte já cálido da manhã os arranha-céus multiformes da Dubai dos negócios, milagres da tecnologia e da finança improvavelmente nascidos num antigo acampamento nómada. Apesar de àquela hora as ruas já regurgitarem de SUVs brancos e táxis, ao longe Dubai parece uma cidade fantasma de tão imóvel, uma metrópole de outro planeta cuja população antes gloriosa tivesse desaparecido misteriosamente.


Mas não é. O aeroporto de Dubai fervilha. Na enorme nave, de um luxo ostentatório que grita a nova riqueza em berros de cromado e néon, cruzam-se árabes de “dish-dash-ha” imaculadamente branco, a cabeça coberta pelo “shumagg” de reticulado vermelho, anglo-saxónicas de um rosado ridículo em trânsito para a Ásia, grupos nipónicos em sentido contrário, indianos de regresso a casa, apinhados de bagagem, filipinos de volta ao trabalho nos restaurantes e nas obras dos Emirados. Passeiam com ar interessado nas lojas da Rolex e da Boss, abocanham “Big Macs”, fazem filas enormes junto às portas de embarque onde altifalantes num inglês de sotaque oriental chamam para Roma, Bombaim, Cairo ou Dacca, num burburinho miscelâneo que reverbera pelas paredes de cristal. O Dubai é digno sucessor dos entrepostos comerciais de outras eras, onde se cruzavam rotas da seda e das especiarias e as muitas e desvairadas gentes que Fernão Lopes citava na Lisboa quinhentista.


Já o aeroporto de Cochim é modesto. Em vez das formas arrojadas dos mais caros estiradores de arquitectura, dos vidros e dos perfis metálicos, linhas quadradas, em alvenaria pintada de rosa, com telhados de quatro águas em telha de barro vermelho. Nos serviços fronteiriços, o meu primeiro indiano é circunspecto, pequeno, de bigode fino. Olha para os meus documentos com desconfiança, passa-os num leitor com desconfiança e escrutina o ecrã do computador com desconfiança. Pergunto-me se no sistema informático ainda estarão crimes ou dívidas dos meus antepassados por estas bandas. Não seria de admirar. Os historiadores indianos têm dos portugueses a imagem que os polacos terão dos russos, ou os gregos dos otomanos. Facínoras sacanas, provavelmente merecida. Pergunta-me a que venho e parece reconfortá-lo o facto de eu vir assistir a uma conferência e não estabelecer uma feitoria. Desata num festival de enérgicas carimbadelas no passaporte, nos formulários, talvez mesmo em cima da mesa. O som surdo que sai das várias cabines soma-se num exótico festival de percussão. Devidamente carimbado, saio para o bafo da manhã de Kerala.


Um carro espera-me para me conduzir ao hotel. Como é habitual a leste do Suez, o ar condicionado está calibrado para os dez graus centígrados. O médico avisara-me sobre a malária, mas o verdadeiro risco é a pneumonia. Vou tiritando e observando a paisagem. Do céu, pudera ver uma vegetação generosa e densa de palmeiral, raiada de rios curvando e recurvando. No chão, vou passando as palmeiras e cruzando pontes. Guia-se teoricamente à esquerda, uma das heranças coloniais que os ingleses deixaram, juntamente com o críquete e a “common law”, para além de uns milhões de mortos, claro. Mas o meu condutor divide-se equitativamente entre as duas faixas, evitando “in extremis” a sucessão de obstáculos buzinantes que vão aparecendo na longa recta. Em miúdo, jogava no Apolo 70 numa máquina cujo objectivo era exactamente este: evitar o acidente tanto tempo quanto possível. Provavelmente para cortar o ângulo de visão e evitar que eu me assuste em demasia, o carro ostenta suspenso do retrovisor um penduricalho gigantesco, o maior que eu já vi, e que poderia servir de “abat-jour” numa sala de jantar senhorial.


Entramos em Cochim. O trânsito adensa, sem se tornar caótico. Há carros, motoretas-táxi, motas com o pai de capacete e a família de cabeça descoberta, camiões de carga batidos, cisternas para águas limpas e águas sujas. Um enxame de cores etiópicas, ziguezagueando de amarelo e encarnado e letras hindus verdes, buzinando, ultrapassando-se, evitando peões ligeiros que safam a pele no último segundo. Nem todos: os autocarros, uns caixotões Tata batidos, sem vidros nas janelas e pintados de um vermelhão vivo, são conhecidos por “red killers” pela mossa que fazem nas estatísticas de mortalidade. Verifico que enquanto o motor aguentar, não há conceito de carga máxima. Na faixa ao lado crepita uma lambreta puxando um atrelado de um metro quadrado no qual se empoleiram duas vacas que tremelicam assustadas, as pernas magricelas bamboleando.


Cochim não tem passeios. Entre o alcatrão e as casas ou os muros há um espaço de lama, poça, lixo e erva rala que ondula por quilómetros e que une democraticamente vivendas finórias, barracos de venda de fruta, modernos stands de automóveis, prédios baixos com ar cansado. Quando a correnteza de construção hesita, dando espaço a um baldio, logo se acumulam montes de lixo em sacos brancos, que os corvos vêm depenicar.


Apesar da sujidade, Cochim revela-se bonita na sua anárquica girândola de cores. Aparentemente, os indianos adoram cores fortes. Óptimo, eu também. Os cartazes nos comércios, os “outdoors”, desproporcionados, as casas, os veículos, compõem-se num festival de tons. Não há camionista que não combine o amarelo vivo, o vermelhão, o azul forte. As igrejas (há muitas em Kerala) parecem casas de bonecas azuis e laranjas com uma cruz num pináculo. Os hotéis populares, à beira da estrada, são encimados por um anúncio berrante de lado a lado, identificando-se como vegetarianos ou mistos “vegetarian and non-vegetarian”. A este caleidoscópio ajuda o apurado sentido de “marketing” dos indianos. Qualquer boteco em chapa de zinco com uma mesa e duas cadeiras, onde sirvam chá, possuiu um gigantesco cartaz encarnado com letras garrafais a anunciar o “great deluxe international coffee shop”.


O hotel que albergou a conferência (e, mais importante, a mim), um Méridien, é tido como um dos melhores de Cochim. O acesso dá-se por umas cancelas fabricadas na metalo-mecânica da esquina. À sua frente, alguns bidões batidos e garatujados com um “stop” ingénuo formam uma chicana para prevenir imaginários arrombamentos. A recepção e as zonas comuns do hotel são numa construção baixa e quase luxuosa. Por trás, um longo passadiço conduz a um cais onde se apanha o barco para uma torre modesta, onde ficam os quartos. É a primeira vez que fico num hotel com rio pelo meio. Também é a primeira vez que o meu hotel oferece ioga às seis da manhã. Prescindi em prol de um muito ocidental roncanço até às oito.


Os cinco minutos de trajecto de barco entre os dois pólos do hotel foram dos momentos mais agradáveis dos três dias que ali estive. As margens, pujantes de palmeiras, tinham um ar de selva, apesar de estarmos numa cidade maior que Lisboa. Pelo rio desciam farfalhudos magotes de umas plantas aquáticas a quem Darwin instalara uns flutuadores nos caules. A meio-caminho entre os dois ancoradouros havia uma rede chinesa. As redes chinesas são um dos ícones de Cochim: uns aranhiços toscos de madeira, altos como uma casa, que seguram nos braços uma enorme rede de malha fina. Normalmente, os ícones turísticos são mais turísticos que ícones. Lembro-me das casas de telhado de colmo de Santana, que tudo visita e onde já ninguém mora ou dos palheiros da Costa Nova, meros justificativos da barbárie construída que os cerca. Ao contrário, neste ícone indiano trabalho um indiano que dele retira seu sustento. Saindo da barraca de chapa que construiu na margem, mete-se pelas águas espessas, baixa a rede e sobe-a, à distância tão vazia antes como depois.


Os rios são, em Cochim, ruas e estradas. Em frente à torre onde dormi, um barqueiro transportava gente de uma margem para outra, remando de pé à popa. No último dia da minha estadia demos um passeio de barco até ao esplêndido espelho do lago Kumarakom, onde jantámos juntos, centena e meia de congressistas e vários milhares de besouros e outra bicharada sortida. Seguimos vários braços de água estreitos. Ao longo das margens fluía uma correnteza de casas, lojitas, “outdoors”. Havia paragens para barcos de transporte público, com gente à espera. Aqui e ali um restaurante, um templo, uma igreja, uma loja da Vodafone, pessoas que lavam a roupa, fumam o cigarro, carregam um menino. Cá, os rios separam as margens, lá na Índia ainda as unem.


No regresso, de autocarro, seguíamos por uma longa recta ladeada de boas moradias com jardins generosos quando o motorista travou a fundo, de repente. Uma jibóia com bons três metros, gorda como um braço, arrastou-se lentamente pelo alcatrão e a camioneta só arrancou quando a cauda desapareceu na vegetação da beira da estrada. Suponho que os privilegiados proprietários daquelas casas deverão ter de vez em quando direito a uma jibóia na cozinha, como nós temos aranhiços ou lagartixas. Talvez Índia sem uma cobrazita não seja Índia.


Três dias de Índia não são nada. Pouco sabia dela, pouco continuo a saber. Deram para perceber que é pobre, suja, desigual, injusta. Aqueles que invejam o dinamismo da jovem sociedade indiana e lamentam a inércia da velha Europa não sabem do que falam e ignoram o tiro nos pés que dão com essa filosofia barata. A maior parte dos muitos indianos que vi mudava-se para a periferia de Lisboa, Berlim ou Milão na horinha, sem pestanejar.


Mas só as três primeiras horas chegaram para entender que a Índia é diferente de tudo o mais e bela para além das suas chagas. Fiquei marcado para voltar. Por pouca Índia que fosse, esta visita pareceu o olhar de um rapariga que se cruza com o nosso numa estação de metro e que, mesmo nada sendo, nunca se esquece.