sábado, julho 02, 2016

Regressão



Caso para dizer: “long time no see”. Mataspeak andou entretido noutras frentes e tanto tempo passou desde o “post” anterior que os ingleses, privados da luz esclarecida dos textos que aqui se escrevem, entraram em parafuso e votaram a saída da União Europeia. Aqui ficam algumas impressões sobre este acontecimento momentoso – tradução muito livre de “momentous”.

1)      Democracia não é só quando dá jeito

Da leitura de certas linhas de comentário antes e depois do voto dos britânicos, deduzo que muita gente acha que a democracia é um adereço que só se usa em dia de festa.

A saída do Reino Unido da União Europeia traduz o voto maioritário de um povo numa eleição livre e democrática, povo que não é aliás qualquer um no que a democracia se refere. A convocação do próprio referendo resulta do cumprimento de uma promessa eleitoral de David Cameron num sufrágio anterior que venceu por maioria absoluta e em que anunciou previamente que o iria convocar – o que nunca passaria despercebido como detalhe menor do programa eleitoral. Apesar de ir ficar na História como o dedo que apertou o gatilho num dos maiores tiros no pé  de sempre, Cameron merece o respeito de não ter fugido à promessa, por muito pouco jeito que lhe tenha dado.

Por outro lado, é da natureza da democracia que o voto do velhote rural nos West Midlands valha tanto como o do jovem profissional sofisticado que pode pagar a renda em West London. A mim parece-me muito bem que assim seja porque é a única forma de garantir o respeito por cada voto e logo também pelo meu, quando o exerço. Mas já percebi que esta natureza fungível do voto escapa a algumas mentes superiores - ou que pelo menos assim se acham em frente ao espelho da manhã.

A estas, recomendo a releitura do que vem logo para aí na segunda página do “Espírito das Leis”: “O povo é na democracia em certos aspectos um monarca, noutros um sujeito. Só pode ser monarca através dos seus sufrágios, que são as suas vontades. As leis que estabelecem o direito de sufrágio são pois fundamentais neste tipo de governo.”

Concordo com Montesquieu: para o melhor e para o pior, a vontade do povo só se mede pelo voto, e não pelos papos esclarecidos de qualquer vanguarda, por reluzente que esta pareça.


2)      Os povos têm o direito de decidir sobre o seu destino

Desde que o referendo foi anunciado até hoje, também me fartei de ver e ouvir considerações que tratavam o facto de os britânicos irem discutir a sua permanência na UE como mais uma bizarria além-Mancha, tal como conduzir à esquerda ou beber cerveja morna e morta.

Há que ver duas coisas. Primeiro, qualquer povo tem o direito a decidir se quer aderir, continuar ou sair de uma associação política, medindo as vantagens e inconvenientes e assumindo as consequências. Isto penso eu, mas não estou certo de estar muito numerosamente acompanhado. Fico parvo quando as mesmas vozes que se extasiam com o folclore independentista catalão, como se Espanha fosse um estado opressor, tratam o referendo britânico como se de uma iniquidade fascista se tratasse. Em segundo, a União Europeia tem feito tudo, mas mesmo tudo, para que a discussão sobre ficar ou sair se torne pelo menos um pouco pertinente.

Isto no plano dos princípios. Constato que depois o debate eleitoral sobre a permanência, que deveria ser positivo e que teria muita utilidade para a própria UE, se abastardou pela mão dos partidários do Brexit e se tornou uma discussão pela negativa, onde se esgrimiram medos e mentiras e não ideias. 

No fim do dia, este acabou por ser um plebiscito a uma forma de populismo rasteiro que é hoje o grande inimigo das democracias e que serpenteia traiçoeiro quer nos fantasmas das bases, quer nas peneiras de algumas elites.




3)      A União Europeia pôs-se muuuuito a jeito

Ninguém no mundo ganharia umas eleições a dizer mal do papa Francisco. Qualquer populista de meia-tijela, em qualquer lugar, granjeia votos a cascar na União Europeia. O primeiro tem uma gestão de discurso e imagem perfeita, a segunda põe-se a jeito permanentemente.

A UE foi fundada por homens que viam longe e é agora gerida por gajos que nem ao perto vêem. A gestão de qualquer problema é hoje lenta ao ponto de ineficaz, incompleta, inigual nas exigências aos Estados-membro e o mais das vezes desligada dos valores essenciais e originais que estiveram na origem da ideia europeia. Cada vez que o Schauble ou o Dijsellbloom abrem a bocarra, a união dá um passo no caminho da dissolução.

A UE cresceu demasiado depressa e precipitadamente. Alargou-se a leste a países que ou não tinham ainda a capacidade económica para o embate ou não tinham qualquer tradição liberal ou democrática ou as duas coisas simultaneamente. Criou uma união monetária parcial, mal pensada, que se tornou um pesadelo para todos, presos que estão sem mecanismos para voltar para trás ou lucidez para seguir em frente. Desenvolveu uma burocracia ridícula, que fala em liberalismo mas legisla sobre tudo e mais alguma coisa, do revestimento do chão das pocilgas ao fermento dos queijos, lá do fundo de cubículos no Quartier Européen de Bruxelas. Na questão dos refugiados, falhou miseravelmente, esquecendo as obrigações morais do seu próprio passado, cedendo à pior ralé que musgueia por esse continente fora e varrendo o problema para debaixo do tapete, pagando aos turcos para fazer o trabalho sujo.

Os falhanços mais profundos da UE resultam de se ter esquecido da sua essência original, que foi a de uma construção política e humanista de países democráticos iguais entre si. Deixou que a Alemanha tomasse conta do volante, algo que historicamente foi sempre um passo decisivo a caminho do desastre. Deixou que o fascismo se instalasse em certos governos sem fazer nada contra isso: a Hungria já há muito que devia estar a ser expulsa da união. Deixou desvanecer a aura de autoridade moral que tinha com a sua incapacidade de evitar a maneira porca com que Estados-membro trataram seres humanos que fugiam à morte, veja-se a Dinamarca. Deixou que a economia tomasse o freio nos dentes, incapaz de perceber colectivamente que existem limites políticos à optimização económica e que a História acaba sempre por desvendar quais são, às vezes com muito sangue e dor. 

E é pena, porque a União Europeia continua a ser uma das mais bonitas construções no percurso da Humanidade, que trouxe setenta anos de paz a um continente cronicamente à pancada. A UE teve culpas no “Brexit” e o “Brexit” poderá ter culpas no esboroar da UE. Quando a UE desaparecer,  provavelmente haverá guerra na Europa no espaço de uma geração e aí os saudosos falarão do bom que eram os tempos da União Europeia.


4)      As consequências disto tudo

Não vou falar do desmoronar das bolsas no dia 24, até porque prudentemente vendi no dia 23.

 Mas há muito mais. O “Brexit” abriu as caixas todas que a Pandora trazia no carrinho: pode trazer o fim da União Europeia, o fim do Reino Unido, o recrudescer do conflito na Irlanda e muitas outras coisas. É sem dúvida um facto histórico de primeira grandeza, daqueles após os quais as coisas nunca voltam a ser como eram.

Para o fim da UE, os populistas de pouco coturno já começaram a bradar pelo seu próprio referendozito local: arrancou com Marine Le Pen, continuou com o Geert Wilders e até  tivemos a Catarina Martins entusiasmadíssima do alto de um palanque, desertinha por confirmar a minha teoria que o saco da farinha é todo o mesmo. Enquanto estes dizem mata, os eurocratas dizem esfola. Incapazes de perceber o que aconteceu, como incapazes foram de perceber o que acontecia, o presidente da Comissão Juncker entretem-se no Parlamento Europeu a descer ao nível de Farage e o “wirklicher führer” Schauble decide dar com Portugal um exemplo esplendoroso dos grandes perigos da rigidez luterana. Entre a saltitante Martins e o rolante Schauble, caminhamos com garbo para o ruir da união. E quando esta ruir, repito, dizem-me a minha intuição e as lições da História que no espaço de vinte anos haverá guerra a sério em território da Europa.

Outro efeito relativamente rápido poderá ser a desunião do reino. Voltaremos eventualmente aos tempos gloriosos de Henrique V, em que o exército “britânico” tinha peões ingleses e arqueiros galeses e parava aí. A líder do SNP, Nicole Sturgeon, andava só à procura de um pretexto para desdizer os resultados tangenciais do referendo de 2014 e relançar o tema escocês. Agora já o tem.

Quanto à Irlanda do Norte, pior ainda. Um território com duas comunidades de dimensão paritária, que se odeiam, pode dar tudo. Se ficar integrado na Irlanda, revolta da comunidade protestante. Se num Reino Unido isolado e totalmente inglês, revolta da comunidade católica. Se independente, tensão interna. Não nos devíamos esquecer que durante os anos setenta e oitenta houve muitos mas muitos mais mortos por acções terroristas na Europa do que nestes anos recentes, e que a maioria foi em acções do IRA. Este assunto deveria ter sido mais pensado, mas Farage estava preocupado com os seus pequenos traumas de classe média-baixa e Boris com as suas pequenas ambições de classe média-alta.

Finalmente, logo no dia seguinte ao referendo, começou-se a verificar um aumento dos insultos e ataques racistas contra os polacos, os muçulmanos, os portugueses, para cerca de cinco vezes mais do que dantes. Não pode surpreender ninguém: os milhões que compram o “The Sun” e o “Daily Mirror” tinham que estar em algum lado. Este tipo de gente é cobarde pelo que prefere a matilha e o Brexit deu-lhe essa sensação de pertença. Basta muito pouco para libertar o camisa negra que há em nós.

As consequências são pois muitas e graves. Mas tal não justifica desrespeitar os resultados do referendo ou indo-lo repetindo até dar “o que se quer”. Também é da essência das democracias que os povos sejam adultos e vivam com o resultado das suas escolhas.
 
 

5)      O populismo como moderno cancro político

Poderá ser uma generalização grosseira, mas parece-me que o Brexit é apenas mais uma manifestação de um fenómeno que varre a Europa (e não só) com maior ou menor intensidade e que à falta de melhor vocábulo chamo populismo. O populismo tem agentes, destinatários e uma essência.

A essência é uma recusa colectiva de encarar a realidade e uma abdicação, também muito colectiva, de utilizar os meios que permitem compreendê-la. Umberto Eco traduziu-a numa frase que explica perfeitamente as disformidades do mundo contemporâneo: a mentira é mil vezes mais atraente do que a verdade. A realidade é insegura, turbulenta, difícil de apreender, multifacetada, arriscada. Compreendê-la implica um esforço de conhecimento e análise, bem como a utilização de ferramentas mentais como a dúvida, que nos é contra-natura, ao revés da mais humana e aconchegante certeza. A certeza sabe-nos bem, mesmo quando é irreal.

Os destinatários desta essência somos todos nós e hoje a maioria de nós está disponível para ela. Informamo-nos por telejornais e partilhas de Facebook, o que equivale a dizer que não nos informamos, vamos buscar pouco à leitura dos nossos melhores, sejam passados ou presentes, e preferimos o sossego de nos arrumarmos na ideia fácil que há sempre um outro odioso e um nós imaculado. Por isso basta dizerem-nos o que queremos ouvir e aderimos a correr.

E isto não tem só a ver com o Brexit, tem a ver com muitos desvarios aparentemente diversos mas unidos por uma mesma atitude de preguiça diante da natureza exigente da verdade, uma atitude de recusa do debate, da reflexão, da ciência, da possibilidade de erro, da noção de compromisso. Pode materializar-se no medo do estrangeiro na Polónia ou em Inglaterra, na estigmatização das minorias na Hungria, no mito da preguiça mediterrânica na Alemanha, na subida dos fascismos um pouco por todo o lado, nos esquerdismos fáceis, nos direitismos cegos, no novo totalitarismo ambientalista que recupera os velhos mitos dos paraísos bucólicos, e em milhares de causas porreiraças que desviam o pessoal das coisas que deviam ser sérias, causas que vão da – para mim perigosíssima - equiparação dos direitos dos animais aos dos homens ao magno e pitoresco tema do “fracking”, causas que não são causas mas sim meras bandeiras num convescote porque quem as promove não está minimamente interessado em debater mas apenas em ter “razão” e sentir-se o maior por isso.

Os agentes, esses, são os que por crença ou por interesse, quais deles os piores, se resumem a dizer o que é simpático ouvir-se. São os Farages e os Johnsons, as Le Pens e as Petrys, os Orbans e as Szydlos, mas também os Iglésias e as Martins e tantos outros que só conhecem como método político o agitar das águas lamacentas do populismo.

Neste contexto, vão-se esvaziando os partidos que fizeram a Democracia europeia (veja-se as recentes eleições para a presidência austríaca e para a câmara de Roma) em prol de todo o tipo de malta perigosa. A nova dicotomia não é entre esquerda e direita, como em Portugal castiça e puerilmente se apregoa. É entre um centro democrático, degradado, cego e meio perdido, e uma periferia populista que se alimenta dos receios dos abandonados da globalização, crescendo no sentido do totalitarismo. Cheira a anos trinta que se farta. A culpa será dos agentes, mas também dos destinatários. Sem destinatários não há agentes. 

Perante isto que fazer? Talvez falar um pouco mais alto, escrever umas coisas, dizer o que aqui digo no círculo dos meus amigos, ser exigente com eles. Quando alguns vêm com os chavões populistas, não os deixar escapar sem uma boa conversa. Tornar-me um chato. Mais ainda.

sábado, março 05, 2016

Exposição fotográfica (XLVIII)

Voltinha por Berlim, Fevereiro de 2016

Alexanderplatz
Catedral de Berlim
Aquadom no átrio do hotel Radisson Blu (com mergulhador e tudo!)
Hotel Radisson Blu, que teve a honra de albergar Mataspeak durante a sua estadia

Neue Wache, monumento às vítimas dos totalitarismos
Embaixada da Rússia em Unter der Linden
Porta de Brandenburgo
Mauerstrasse
Potsdamer Platz
Leipzigerstrasse com sol, neve e torradeira VW
Pedaço do muro no Checkpoint Charlie
Checkpoint Charlie visto de Berlim Ocidental
Autoretrato no ministério das finanças, onde mora quem manda em Portugal: Wolfgang Schauble.

A incongruência tem duas mães



Na semana anterior à que ora finda, a política nacional tremelicou-se toda com um cartaz da lavra do Bloco de Esquerda em que a um Cristo em tonalidades delicodoces se associava a frase “Jesus também tinha dois pais”. Como se a coisa merecesse tanto, a Igreja, a direita política e o reaccionarismo sociológico abespinharam-se. Usaram palavras caras demais para o dinheiro que as circunstâncias traziam no bolso, como sejam blasfémia ou afronta, palavras que se deviam guardar para assuntos efectivamente graves. 

No “As cidades e as serras” há um jantar oferecido por Jacinto no 202 em que um dos comensais se lamenta: “Que pena! Só falta aqui um general e um bispo!”. Sorte a dele estar em Paris, porque por cá nunca faltam bispos. Tivemos logo que levar com a Conferência Episcopal Portuguesa a invocar o respeito pelo próximo como a misteriosa essência primeira da liberdade de expressão, a qual seria assim mais respeitadora do que livre.

Bom! Vamos começar pelo acessório e logo à frente falaremos do essencial. E o acessório é que os bloquistas são uns chatos de uns imbecis, que conseguiram trazer para a política a pior prosápia da adolescência, toda superficialidade e mania. Eu também tive catorze ou quinze anos e lembro-me de nessa altura ler um livro do surrealista francês Benjamin Péret – “Les rouilles encagées” – em que numa fotografia bastante desfocada alguém fazia um manguito a um vulto vestido de escuro que passava. A legenda explicava: o autor, insultando um padre. De trás das minhas borbulhas, achei aquilo o máximo de ousadia intelectual. Fui mostrar ao meu pai que nem perdeu tempo a me explicar a falta de espessura daquela imagem e do meu entusiasmo. Esperou pacientemente que os anos e alguns sucessos na frente hormonal me trouxessem juízo, o que creio veio a acontecer.

Aconteceu comigo, vai acontecendo com os meus filhos, mas nunca mais acontece com o pessoal do Bloco. Chegam os trinta e os quarenta e continuam a achar que as questões são simples e monolaterais, que os outros que não concordam a cem por cento são uns mentecaptos e provavelmente uns perversos lacaios do obscurantismo, e que os temas de moral privada num pais genericamente liberal em que se pode fumar, beber e folgar à vontade sem que ninguém chateie é que são bons para bandeira e “slogan”.

Tal imberbidade intelectual não seria particularmente grave se não estivesse a contagiar completamente a classe média, que em vez de discutir aquilo que interessa (por exemplo quais as funções do Estado que queremos mesmo assegurar e como as podemos financiar com a riqueza que o pais gera ou como podemos fazer para eliminar o clientelismo partidário) passa o tempo no Facebook a achar-se vanguardista com partilhas sobre temas da treta: o fim das touradas, os riscos do “fracking”, os perigos do milho transgénico e outras relevâncias do mesmo quilate. Sobre este contágio conto escrever muito em breve.


Mas, como acima referi, a imaturidade dos bloquistas é um detalhe nesta história. O essencial está em que neste país a liberdade de expressão continua a ser a minha liberdade de expressão com exclusão da liberdade de expressão do outro ou do todo. Há sempre um argumento de direito da maioria para calar uma minoria e há sempre um argumento de respeito pela minoria para silenciar a maioria. Tudo se alvitra, em prejuízo de qualquer coerência, para justificar que o outro lado da questão não tem direito a existir.

E isto vale para aquilo que por cá se chama Direita, como se viu há uma semana com o cartaz do Cristo bi-filho, como para aquilo que por cá se denomina Esquerda, que esta semana fez triste figura por causa de um livro do Henrique Raposo sobre o Alentejo, que mereceu ameaças ao autor, um artigo como seria de esperar asqueroso do Louçã e até um vídeo no Youtube com um idiota qualquer a queimar exemplares do livro, coisa que é sintomática da cultura da Internet e que não incomodou muito os comentadores à canhota. Eu não li o livro do Raposo, nem precisava de ter lido para ter opinião sobre estas opiniões. Bastam-me as palavras proféticas do poeta alemão Heine: onde se queimarem livros, a seguir queimar-se-ão pessoas.

Na minha esfera de conhecimentos, foram muitos os que se apressaram a ir ao Facebook partilhar a sua indignação com o desrespeito do cartaz do Jesus bloquista. Muitos deles, senão todos, aquando do ataque ao Charlie Hebdo, tinham acorrido ao mesmo foro para se afirmarem solidários com o jornal, enchendo as páginas de tarjas negras “Je suis Charlie”. Ora o humor do Bloco é copinho de leite comparado com o ácido clorídrico da sátira do Charlie Hebdo. Onde ficamos? Somos Charlie ou não somos Charlie? Quando é com a moirama pode-se malhar até ao tutano mas com a figura de Cristo nem um toquezinho se aceita? Um pouco curto para conceito de liberdade, parece-me.

O problema é de fundo. O respeito pela liberdade é um trabalho de sapa, que dura séculos. E nisto não temos séculos, nem temos trabalhado muito. Gostamos de ter liberdade para falar, mas não aceitamos a obrigatoriedade de ouvir. O regime democrático criou na lei os direitos mas ainda não conseguiu infundir nas pessoas a cultura da liberdade, que é uma cultura de debate, de confronto de ideias, de respeito pela liberdade do próximo como parte integrante e indissociável da nossa liberdade, de valorização da existência de uma pluralidade de conceitos como essência de uma vida livre. Mas infelizmente não é isso que ensinamos nas escolas, nem o que ouvimos nas ruas ou nas televisões. Convençamo-nos disto: como povo, valorizamos pouco a liberdade de expressão e confundimo-la demasiadas vezes com o direito a dizer aquilo que nos apetece. Ora são coisas diferentes.

A liberdade de expressão não é o monocromática nem isotrópica. Não é a liberdade de impormos aos outros a cor com que se pinta a sala de estar colectiva e a música que nela se ouve. É a consciência de que ao entrar nessa sala seremos assaltados por uma multiplicidade de imagens e de sons, que poderemos sentar-nos numa cadeira a apreciar aqueles que escolhermos e que estaremos ao lado de outras pessoas que terão feito escolhas diferentes. E é sermos felizes assim e acharmos que assim é que deve ser.

Só que em Portugal estamos longe disto. Por cá, a liberdade de expressão é um chavão que serve para tudo e qualquer coisa, decorando uma incongruência de discurso que tem sempre duas mães: a Esquerda e a Direita.