sábado, janeiro 03, 2015

Fim-de-semana com Salazar



Notas iniciais:

1) Este texto foi iniciado no domingo do fim-de-semana da detenção de José Sócrates. Não tive tempo de o acabar logo e foi-se arrastando até agora, julgo que sem perda de actualidade. Talvez mais agora. 

2) Regra geral tudo o que vi escrito desde aí sobre a detenção e depois prisão de Sócrates incluía um “disclaimer” que informava o leitor que o autor gostava muito do Sócrates ou então que não o podia ver à frente. Tal género de declaração é essencialmente uma cobardia pelo que eu, apesar de não ser o mais corajoso dos homens, não a vou aqui fazer. Para o que vem abaixo, se eu gosto ou não gosto do tipo, se votei a favor ou contra, é totalmente irrelevante . O que vou dizer aplica-se, penso, fosse o detido este Sócrates ou o outro (o qual, lembremos, foi condenado à cicuta pela democracia ateniense com uma linha de argumentação de carácter bastante parecida com uma que se ouve muito em Portugal nestes dias de cinza), fosse o detido o Jack o Estripador ou a Madre Teresa de Calcutá, fosse o detido um de vós que me ledes ou eu.

3) A todos um bom 2015



1) Salazar, parte I

Na sexta da detenção de José Sócrates, à noite, sem me dar conta das notícias que já davam conta da ocorrência, inaugurei o meu descanso de fim-de-semana com leitura de cadeirão, as patorras em cima da mesa de centro, ironicamente com o "Our Man in Paris" do Dexter Gordon a aveludar o silêncio da casa. Aviei o quinto fascículo da biografia política de Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses e que o Expresso foi publicando ao longo do Verão.

Eu tinha quatro anos quando o Botas, como meu pai lhe chamava, se baldou da cadeira abaixo e ficou balhelhas. Tinha seis quando ele morreu, convencido até ao final que presidia ao Conselho. Nesses tempos, e nos que se lhe seguiram, fui apanhando com os Salazares mitificados.

Primeiro, o santo de altar do meu livro de leitura da terceira classe, aquele cuja capa mostrava miúdos uniformizados à Mocidade Portuguesa transportando a bandeira do Condestável e que ilustrava um texto sobre a família portuguesa com o desenho de um homem magro a assomar de enxada ao ombro à porta de sua modesta casa, ao final da tarde, com a mulher de chancas e saia rodada operando num fogão de lenha. Nesse manual de glórias passadas e humildades presentes, um texto elegíaco propunha às crianças o Salazar oficial, como ele gostava que o vissem: uma vida de extracção modesta e raízes rurais, livre da poluição que o dinheiro e a cidade trazem, que pelo trabalho e pela virtude se elevou até ao lugar cimeiro onde abnegadamente zelava pelo bem daqueles que por serem pequenos de vontade e de propósito fatalmente tinham que ser zelados.

Depois, a seguir ao vinte-e-cinco de Abril, o Salazar oficial metamorfoseou-se: da noite para o dia cresceram-lhe dentes de vampiro e tornou-se um ditador sanguinário a meio caminho entre Hitler e Satanás. Perdeu as coortes de seguidores póstumos e passou a único responsável pelo atraso endémico de um país em teoria antes dele florescente, versão simplista que partilhei frequentemente com entusiasmo e que me foi muito útil para descarregar o mau humor em relação às manifestas insuficiências de uma pátria que às vezes, nos momentos menos lúcidos, me parecia mais pequena e atrasada do que as outras.

Pois agora, nesta leitura, pela mão de Meneses, historiador de uma geração mais nova do que a minha e que trata Salazar e a sua época não desapaixonadamente mas mais distanciadamente, como objecto de análise, recorrendo muito aos documentos e menos às percepções, fui descobrindo um Salazar mais complexo mas mais plausível e talvez mais tenebroso e culpado do que o monstrengo obscurantista que me serviam as rodas de café dos anos setenta.

Nos documentos que Meneses abundantemente transcreve, podemos adivinhar um homem que tinha de si próprio uma imagem sofrida e esquizofrénica, que fundia por um lado o predestinado, eleito por Deus e aparecido nas berças de Santa Comba que nem um Moisés a boiar no Nilo para carregar como um fardo solitário um povo de néscios para longe dos egiptos da desordem política, e por outro o ser apequenado, complexado pelo seu baixo berço, ressentido com o reconhecimento insuficiente que julgava devido após uma vida dedicada à pastorícia do rebanho público. Este último aspecto é manifesto por exemplo no modo como resume o seu diferendo com Armindo Monteiro, seu ministro dos Negócios Estrangeiros e depois embaixador em Londres, a propósito do relacionamento a ter com a Inglaterra durante a segunda Grande Guerra. Monteiro tem, em função da informação que colhe directamente junto do governo inglês, uma visão política e diplomática diferente da de Salazar sobre quais seriam os interesses de Portugal e manifesta-o, aparentemente sempre dentro dos limites da lealdade que o seu posto implicaria. Salazar acaba por o afastar e escreve numa nota que Monteiro discordaria dele porque o desprezaria por ele, Salazar, não sair da elite lisboeta mas de meios  rurais e pobres. Não era a diferença de ideias: era a diferença de classes sociais que explicava Monteiro não concordar com o que Salazar dizia.

Um outro aspecto notório que transparece da narrativa de Meneses é o discurso obsessivo à volta do conceito de ordem, o medo da mobilidade que leva as autoridades do Estado Novo a referir-se a si próprias usando um vocábulo absolutamente estático: "situação". A "situação" implicava automaticamente um país sem dinâmica social, estratificado no poder económico e no saber. Um país que se queria, pelo menos à superfície, pacato, sem chatices, sem divergências, sem ambições, assexuado, hipócrita, de senhores e senhoras donas, arrumado e escuro como um grande salão numa casa fechada. Uma espécie de “morte térmica do universo” isolada do mundo, em contraste com o colorido, a discrepância, a algazarra , a incerteza, o risco, enfim a vida das sociedades livres e libertas.

Mas talvez  o mais extraordinário e revelador na variada documentação que Meneses vai expondo são as afirmações de uma pandilha que cerca Salazar a vários níveis e que pressurosamente se agita para se afirmar sempre mais salazarista do que o próprio. Desde os editoriais do Diário da Manhã aos despachos do Santos Costa, são linhas e linhas e mais linhas de bajulação mental, bafienta, pejada de "V.Exas", sem quaisquer vestígios de um neurónio a espicaçar uma sinapse (há excepções - Marcelo Caetano, por exemplo). Salazar despreza essa reverência ("essas vaidadezitas"), mas precisa dela para que sem crítica se executem os seus desígnios. Os da pandilha prestam-se ao número, por defesa da sua posição ou meramente pelo consolo carneiro de pertencerem ao clube. Uma vez mais podemos constatar que o mau atrai fatalmente o péssimo, que um Abranhos sempre convoca os seus Zagallos. E que possivelmente serão estes, mais do que os que lideram, que constituirão a essência negra dos regimes, aquilo que de mais fundamental nos pesa a todos como lastro e nos puxa como país para baixo, geração após geração. Encontro-os nas linhas mais ácidas de Eça e de Camilo, encontro-os nas cartas dos dignatários do Estado Novo ao amo, pedinchando reverentemente umas massas, e encontro-os hoje no meu dia-a-dia, ao volante dos táxis ou nos painéis de comentadores das televisões.


2) Salazar, parte II

A dado momento desse sábado, percebi que Sócrates tinha sido detido. Surpreendeu-me, claro, mas honestamente encarei o assunto com relativa tranquilidade. Acredito que se o juiz se meteu numa destas é que tinha indícios suficientes para tal, que Sócrates se defenderá em tribunal e que será ilibado ou condenado, e que até lá é obrigação de todo o português civilizado presumir a sua inocência. Tão simples quanto isto e não há crise.

Nesse fim-de-semana, as primeiras reacções dos políticos e dos partidos foram nessa linha, comedidas, resistindo à tentação da politização e partidarização de um processo judicial tão delicado. Houve uma ou outra excepção mais bera, um ou outro momente de sonsice mais hipócrita, mas em geral a reacção da classe política foi mais elevada do que eu estava à espera.

Só que infelizmente, ao longo do sábado e do domingo, nem tudo correu lá muito bem. Começou com o episódio da fuga de informação que permitiu uma detenção quase debaixo das câmaras de televisão, situação já usual que só se resolverá quando alguém for de cana uns anos por abuso do segredo de justiça. E esta prisão em directo (como outras) envergonha-nos a todos, tanto pelo facto em si como sobretudo pelo facto de nem todos (ou mesmo poucos) se envergonharem. Continuou num jornalismo de merda que poluiu todo o fim-de-semana, com especulações que se tornavam insinuações e depois afirmações, com directos permanentes para sítios onde nada se passava e que rapidamente se tornavam pretexto para a revelação do último bitaite de rua como se do Watergate se tratasse, com o decepar da cabeça de um homem na praça pública. E terminou num "tsunami" de comentários anónimos pelos "sites" dos jornais e pelos “twitters” da vida onde entre anónimos e "nicknames" se vomitou fel e dor-de-corno a rodos, pedindo que se matasse e esfolasse, este e todos os outros. É certo que estes sítios se tornaram a sarjeta da sociedade, mas mesmo assim...

...Este género de comportamentos desgosta-me. Recordo-me sempre das palavras simples do meu pai, quando no dia 26 de Abril de 1974 eu, com dez anos, lhe propus que Américo Tomás fosse atado à linha de comboio para ser trucidado como paga pelas suas maldades: "a democracia não é vingativa", dito sem um sorriso. Estas cinco palavras resumem toda a filosofia política, e ao mesmo tempo todo o bom senso e sabedoria, necessários neste contexto.

Nesse fim-de-semana e nos dias frenéticos que lhe seguiram, na comunicação dita “social” e nas redes ditas “sociais”, foi como se a pandilha salazarista se tivesse agitado e saltado das linhas do meu livrinho de Meneses para as colunas dos jornais, as mesas dos estúdios televisivos e os papos do Facebook, revestida do verdete felpudo de um bolor crescido num ambiente pouco arejado pela falta de preceito democrático. Quando constato o tempo de antena que dão a José Gomes Ferreira, esse Beria de Carnaxide, para vir afirmar nos ecrãs que é legítimo nestas situações os jornalistas "suporem", percebo que a única coisa que mudou na pandilha foram os óculos, que eram de massa e agora são de aro fino, e os cortes do fato e do cabelo. Não, José Gomes Ferreira, não é legítimo ao jornalista vir para a televisão supor sobre a vida de um homem, seja ele pequeno ou poderoso. O que é legítimo é investigar, cruzar fontes duas, três e quatro vezes e apresentar factos, tudo coisas que dão trabalho, essa chatice chamada trabalho. Recomendo-lhe o visionamento de "Os homens do presidente" de Alan Pakula, e que atente em particular ao modo como o editor do Washington Post, Ben Bradlee, obriga Woodward e Bernstein a tornar à prova de bala a sua investigação jornalística sobre o caso Watergate.


Este ruído à volta do processo de Sócrates, misturando numa salsada incomestível os eventuais factos jurídicos (cometeu ou não cometeu um ou vários ilícitos) com as responsabilidades políticas (governou bem ou governou mal) com aspectos de carácter (é mentiroso ou arrogante ou não é), mostrou a incapacidade que ainda existe em importantes franjas da nossa sociedade para entender o que são o Estado de Direito e uma Democracia. De ilícitos, se houve, deverá tratar a Justiça e para esse processo não serão relevantes nem as responsabilidades políticas nem os aspectos de carácter. Quanto à responsabilidade de ter governado bem ou mal, essa será dele, será minha e será de todos. É esta a natureza da democracia representativa, se a aceitarmos. Os políticos representam-nos, bem ou mal, mas representam-nos e através dessa representação com eles pomos a cabeça no cepo. Por isso o que Sócrates tenha feito de melhor ou pior na gestão governativa será culpa dele mas responsabilidade de todos. E quanto aos aspectos de carácter serão entre ele a sua consciência e também nada têm a ver com o resto.

Se quisermos considerarmo-nos democratas, a separação entre esses três planos, jurídico, político e pessoal, será um dos aspectos mínimos que teremos que aceitar. Se não aceitarmos, teremos que procurar outra carapuça que não a de “democrata”. Talvez a de “salazarista” sirva.


3) Muco (abaixo de): um salazarista

Claro que pode sempre haver pior. Como por exemplo os valentes que só se aventuram para fora da matilha quando já só há cadáver para morder. Um triste exemplo disto é um deputado da nação, Duarte Mendes, para azar da humanidade nascido e logo por mais azar em Mação, terra do juiz que mandou deter Sócrates. Este Mendes não resistiu a usar esta infausta coincidência para ir para a sua conta do Facebook festejar a prisão de um homem em termos próprios de um garoto.

Admito que tem como vaga atenuante o ter sido líder de uma juventude partidária. Desde os meus próprios tempos de jovem que vejo como péssima coisa o enquadramento político da juventude em “juventudes”, ideia oriunda dos totalitarismos de ambos os lados do século XX e que faz tanto sentido como as velhices partidárias, os morenismos partidários, os benfiquismos partidários ou as magrezas partidárias. Ou seja, nenhum. E do que não faz sentido, dificilmente sai gente ou ideias com sentido. A Academia de Alcochete produz mais esperanças numa época que todas as juventudes partidárias juntas desde o vinte-e-cinco de Abril para cá.

Mesmo com a atenuante, este Mendes não deixa de ser particularmente vomitivo. Felizmente Deus não dorme e afivelou-lhe por cima do pescoço uma cara que é exactamente a cara daquilo que ele é.


4) Salazar com molho à espanhola

Para culminar um fim-de-semana de muita agitação política, o Bloco de Esquerda, a esquerda “Façonnable” como meu pai lhe chamava em atenção às camisas do Fernando Rosas, reuniu nesses dias em congresso para fazer um balanço da sua liderança bicéfala. Este exercício viria a acabar, após peripécias várias, numa liderança hexacéfala, que é uma ideia de que só seis cabeças juntas se lembrariam. Tal só por si não é especialmente interessante até porque há anos que do Bloco de Esquerda não sai nada de especialmente interessante. Apenas introduzo este ponto porque a este congresso veio Pablo Iglésias, líder do novo partido espanhol “Podemos” que vai à frente em muitas sondagens aqui no país vizinho. O Podemos nasce do descontentamento anti-regime das manifestações de rua do “15-M”, tem um líder de calça de ganga, camisa pescadora e rabo-de-cavalo que deleita os sempre profundos mídia, e vem sendo apresentado como um fenómeno novo.

Curioso perante a novidade dos fenómenos novos, sentei-me em frente à SIC Notícias para ouvir uma entrevista a Pablo Iglesias. Não sei se foi distracção minha, mas não me apercebi de nada de novo. Tive foi direito a trinta minutos de mais do mesmo, só que de rabo-de-cavalo.

O âmago do ideário político que ouvi a Iglésias nesta entrevista gira à volta da oposição entre por um lado “as pessoas”, que são genericamente e estruturalmente boas, de quem ele faz parte e de quem, suponho, se assume como conveniente porta-voz ou vanguarda, e por outro uma mal-definida “casta” que amalgama de modo obscuro políticos, financeiros, classes mais favorecidas da sociedade e bandidagem de colarinho branco. A palavra “casta” vai e vem e regressa e volta, sempre sem ser exactamente definida, como convém a este tipo de conversa. E opõe-se à palavra “pessoas”, apresentadas como “simples”, “da rua”, e que se “entendem”.

Ora isto não é sequer uma boa e franca luta de classes. Isto é populismo vestido de camisa aos quadrados e de pulseiras de cabedal no punho, é a representação do mundo dividido entre o “nós”, quentinho e honesto,  e o “outros”, pérfido, conluiado e, já agora, eliminável sem prejuízo para ninguém. E este populismo de novo não tem nada: tem a idade da noite dos tempos e podemo-lo ouvir gritado nas matanças  de partidários de Mário ou de Sila, na noite de S. Bartolomeu de 1572, no Terror “robespierrano”, nas purgas de Estaline, no Holocausto de Hitler, em Sabra e Shatila, nos “killing fields” de Pol Pot ou nos avanços do Estado Islâmico. E em tantas outras, demais, vezes. Vezes de sobra para que o género de conversa que este Iglésias debita nos deva preocupar seriamente, especialmente quando corre o risco de ganhar eleições numa das raras democracias deste planeta.


A conversa de Pablo Iglésias sobre os “outros” e as “castas” lembrou-me a passagem para mim mais marcante de “Por quem os sinos dobram”, quando Pilar, a contragosto, quase que obrigada, recorda e conta a Robert Jordan e aos outros companheiros republicanos o massacre que presenciou em Ávila, quando a metade da população republicana matou metodicamente a outra metade, o merceiro, o proprietário, o antigo vizinho, o tal “outro”, fazendo-os passar por um corredor aberto na multidão onde eram zurzidos de todos os lados com paus e mangueiras. Hemingway, um declarado apoiante do lado republicano na Guerra Civil de Espanha, escolheu para exemplo mais negro do horror da guerra e do precipício do Homem um acto perpetrado por republicanos sobre franquistas, pobres coitados que pensaram a coisa errada na hora errada. Suponho que ele sabia que quando as ideias se somem e toca a reunir o toque de matilha, qualquer homem se pode tornar cão. Talvez por isto a certo momento me pareceu durante a entrevista que a cara de Iglésias sofria um “morphing” e ganhava focinho e orelhas e pêlo negro e que da sua boca saiam ladridos. Provavelmente apenas uma ilusão sensorial.

Quanto ao plano de acção prática do Podemos, é muito simples: não pagar a dívida, continuar na moderna Europa, diminuir o desemprego num instante, baixar o custo de vida, trazer o Céu à Terra. Os entrevistadores, como modernos jornalistas que são,  eximiram-se de fazer perguntas complicadas, do género “como se faz”, “quanto custa” ou “quais as consequências sobre a população”. As propostas de Iglésias e de outros populistas, à base de “vamos ter o queque e o dinheiro do queque”, matam qualquer hipótese de discussão séria de alternativas e jogam o jogo da actual “situação”.

E foi assim que Franco se voltou a encontrar com Salazar, desta vez não em Ciudad Rodrigo mas no canal 5 da TV Cabo.

domingo, novembro 02, 2014

Exposição fotográfica (XLVI)

 Veneza, Outubro de 2014

Galeria do Hotel Stucky Molino, uma antiga fábrica de farinha, na ilha dos judeus, a Giudecca

 Cais na ilha de Giudecca

Canal na zona de San Giorgio dei Greci

Janela do Cá d'Oro

Palácio dos Doges

Praça de São Marcos

 Torre do Arsenal

Estátua da Virtude atribuída a Cristoforo Solari, no Cá d'Oro

 Pátio em San Pietro di Castello

 O canal de Cannaregio visto da Ponte dos Três Arcos, a única das muitas de Veneza

 Leão no pátio do Cá d'Oro

 Na igreja de San Maurizio

Após o trabalho na vidraria New Murano Gallery

Orientalismos

Este Outubro andei por acaso um pouco mais a Oriente nas cadeiras da leitura e do cinema.

Terminei o livro "Istambul" de Orhan Pamuk, escritor turco que não tinha ainda lido e prémio Nobel há não muitos anos, prémio que no caso dele não saiu na Farinha Amparo, já que Pamuk é daqueles que mal tocam na bola se vê logo que são craques. Há grandes escritores que têm que ser desbravados até à última página para só então nos darmos conta, com surpreendente surpresa, que nos brindaram com um excelente livro. Aconteceu-me com Hemingway, Remarque ou Cardoso Pires. E outros há que não precisam que viremos uma folha para nos convencerem pela fluidez e pela diferença da sua escrita, gostemos mais ou menos da história. Nos meus últimos anos, destes, os casos de Mann, Joyce ou Mahfouz, e também deste Pamuk.

Em "Istambul", Pamuk fala-nos sobre três coisas em simultâneo e simultâneas, como se a uma santíssima trindade pertencessem: a sua infância e juventude até ao momento em que decide ser escritor, as casas, ruas e vistas da cidade de Istambul e um certo "spleen" nacional turco, feito de pessimismo fatalista, nostalgia da grandeza otomana, consciência da decadência e um recalcamento surdo e complexado diante de um Ocidente idealizado. Este sentimento até poderia lembrar a nossa, portuguesa, relação esquizofrénica com o passado dos Descobrimentos e o actual e hipotético eldorado europeu, não fossemos nós mais marialvas , a espreitar permanentemente uma oportunidade de nos afirmarmos como número um mundial numa treta qualquer para daí tirarmos um absurdo consolo.


No cinema Nimas, vi os seis filmes de um ciclo dedicado ao realizador indiano Satyajit Ray, que também desconhecia, facto que evidencia que por muito que façamos somos sempre ignorantes. Ray é sem dúvida um realizador fantástico, no enquadramento dos planos, na utilização da profundidade de campo, no uso da luz, na humanidade comovente dos dilemas que se põem aos seus personagens. Gostei muito dos seis que vi, mas sobretudo do "A grande cidade", um grande filme sobre o Bem, sobre as nossas capacidades de superação perante a adversidade e de defesa da nossa dignidade perante o abuso do poder.

Com a vantagem adicional de o Nimas ser o paraíso na Terra feito sala de cinema: arrumamos o carro na rua, compramos bilhete à antiga em menos de trinta segundos e sentamos logo, não apanhamos com o "trailer" da Lusomundo a dizer para desligar o telemóvel, pôr o lixo no lixo e lavar as mãos antes de ir para a mesa, e não temos que gramar com os ruminantes das pipocas porque simplesmente não há pipocas. Comer pipocas no cinema é das poucas coisas que vai abalando a minha forte posição de princípio contra a pena de morte. Quando são miúdos da idade dos meus ainda condescendo paternalmente, mas quando apanho ao meu lado com um gajo cinquentão como eu pendurado num balde de cinco litros de pipoca, tenho que me conter com todas as forças para não lhe dizer que já devia ter ou juízo ou níveis de glicémia suficientes para não vir gargarejar ruidosamente pipoca para cima do meu espaço vital.
 

 Por coincidência, também há dias o telejornal da RTP se aventurou a Oriente, numa reportagem sobre a procura que os portugueses cada vez mais fariam da "sabedoria oriental", por exemplo sob a forma de ioga. Pelo menos era o que dizia o "trailer" que ia passando entre notícias sobre o Estado Islâmico ou sobre o estado da nossa economia, porque quando chegou a suposta reportagem era uma peça desenxabida sobre uma beta da linha que deixou um lugar de directora de "marketing" para fazer surfe pela manhã e ioga pela tarde. Tivemos direito a fotografias da senhora em frente ao Taj Mahal e ao lado de uns bonzos, a dois ou três "asanas" não muito acrobáticos filmados num jardim público com a senhora de calça de ganga e túnica daquelas usadas pelos ecologistas quando vão queimar milho transgénico ao terreno de um velhinho, e a meia-dúzia de inevitáveis considerações sobre a supremacia da felicidade oriental sobre a "rat race" que torturadamente sofremos entre reuniões para discutir a margem do terceiro trimestre e jantares no Bairro Alto.

Já perdi há muito a ilusão de que poderia ser informado por telejornais, mas esta peça jornalística abusava, mais parecendo um frete feito a uma amiga por alguém da RTP, por acaso com dinheiro dos meus impostos mas é assim a vida. Serviu no entanto para exemplificar uma tendência que de facto tenho encontrado por vezes no meu círculo de amigos e conhecidos, de um certo orientalismo. Um orientalismo reverente mais do que curioso, que assume uma superioridade mística e arcana provinda algures da Índia ou do Tibete que guia súbditos felizes e obedientes num caminho em que só podem ir até meio do caminho.

A curiosidade orientalista tem séculos de existência no que se refere à apetência pelo exótico. Esteve forte no século XVIII quando Montesquieu a aproveitou nas Cartas Persas para pôr o persa a dizer da França o que ele próprio não poderia dizer sem se entalar; esteve forte no século XIX quando o vapor e os hotéis já permitiam ao endinheirado a sua volta pelo Cairo, Beirute, Damasco, Constantinopla e Atenas, em razoável conforto e segurança (relativa já que Flaubert regressou sifilítico); esteve forte nos anos "hippies" do século passado quando Katmandu era o destino idílico de quem queria apanhar grandes mocas com algum sossego; regressou forte neste início de milénio, juntando à demanda pelo exotismo uma costela hermética e mística.

Roendo um pouco essa costela, encontraremos o que é habitual no hermético e no místico. Diante de um mundo complicado, é sempre tranquilizador o conforto das mensagens simples: basta acreditarmos numa sabedoria antiga e indiscutível, oculta mas acessível através da inevitável nomenclatura dos iluminados, e o sossego parece de novo possível mesmo que seja fora da realidade. Quando descobrimos com pasmo que a dor e a doença existem e nos esperam lá mais à frente, e que a ciência que julgávamos divina afinal tem as suas limitações, reconforta-nos a voz da sereia que nos garante existir uma medicina não apenas diferente mas superior, porque baseada em conhecimentos anteriores e irrefutáveis, que a moderna medicina critica apenas por despeito diante deste rival sereno e imbatível na sua "espiritualidade", palavra que dá para tudo menos para aquilo que realmente significa. Isto apesar dos números falarem por si no que toca às boas coisas que a medicina moderna nos trouxe, seja em menos crianças que morreram, seja em mais e melhores anos que os velhos viveram, nas doenças que desapareceram e por aí fora. Mas isto já é realidade e diante da vida real, que tem tanto de porreira como de tramada, o místico e o hermético fogem a sete pés. Para contrapor aos factos, há sempre uma inalcançável prima da tia da sobrinha do senhor da outra rua que tomou uma qualquer mezinha e ficou sem metástases.

Juntando a esta salada o exotismo oriental, é só misturar com vigor e temos o produto final em que a sapiência mística e hermética ganha contornos territoriais e étnicos, em que a cor de pele e a pertença a um sítio trazem só por si felicidade e autoridade. Eu na minha ignorância chamaria a isto um discreto racismo mas dizem-me que não, que é - adivinhem - "espiritualidade". E assim os habitantes do Butão são os mais felizes do mundo, apesar da posição 136 no índice de desenvolvimento da ONU, e todo o saber ocidental já tinha sido descoberto na Índia no quinto milénio antes de Cristo. Consequências de uma diferença e de uma superioridade inatas e indiscutíveis, já que resultam - adivinhem outra vez - de uma maior "espiritualidade".
 
Que diriam os Orientais de tudo isto? Que nos contam Pamuk ou Ray sobre a sua oriental superioridade? Contam-nos exactamente o contrário. Que de superioridade, nada. Pamuk ou Ray mostram-nos uma Turquia ou uma Índia onde as mulheres e os homens se deparam essencialmente com os mesmos sonhos e angústias que os de Oslo, Sevilha ou Vancouver: a amizade e o amor, o sucesso, a dignidade, a liberdade, a felicidade e a infelicidade, a aparência e a essência, o destino, a morte e a imortalidade. Os habitantes dos mundos de Pamuk e Ray são na sua diversidade contextual e cultural incrivelmente próximos de nós, são vizinhos de patamar e primos de almoço de Páscoa com quem podemos comungar risos e choros, são irmãos de sangue. Têm as mesmas grandezas e as mesmas fraquezas e as deles ajudam-nos a melhor perceber e resolver as nossas, e suponho que vice-versa. E como como nós têm defeitos, sofrem por vezes de ocidentalismo como nós de orientalismo: um ocidentalismo que Pamuk aborda explicitamente, como estruturante da mentalidade turca nas classes altas, e Ray discreta e ironicamente, através dos tiques britânicos dos seus personagens.

O gosto pelo exotismo não tem em si nada de negativo. O prefixo "exo" refere-se ao exterior e a melhor maneira de crescermos é olhar para fora, aprender e interiorizar. Mas devemos fazê-lo para enriquecer as nossas vidas e não para substituí-las por outras ou pelas de outros. Por isso, a Oriente, rogo aos meus amigos orientalistas que procurem mais os Pamukes e os Rays, e descurem gurus e rimpochés.

sábado, outubro 04, 2014

As areias que vão à vida delas

Este Verão, quando assomei ao topo da última duna e olhei para baixo, vi que a praia das minhas férias de muitos anos, tantos anos, aquele areal branco, quente e concâvo como os braços de uma mãe, que nos aconchegara Agosto após Agosto, tinha desaparecido. Não totalmente, não tão dramaticamente que não o intuíssemos aqui e ali, que não nos sentíssemos nele quando nos sentávamos nele, ou que não o chamássemos como a um amigo pelo nome de sempre: os Aivados. Mas o suficiente para todos os que ali íamos interiorizarmos sem sequer falar nisso que já não era o  mesmo, quem sabe se para sempre. No seu lugar deixara largas zonas de seixal que empurravam os grupos de pessoas mais para cima uns dos outros, forçando um convívio antes inédito. Na maré enchente, os seixos acordavam e lastimavam a sua sorte, entrechocando-se num clamor de pedra.


Como explicação para tal razia, ouvi aqui e ali que o Inverno fora rigoroso como nunca se vira,  como se os anos ou vá lá as décadas de memória de uma pessoa tivessem alguma coisa a ver com o “nunca” ou com o “sempre”. Escutei que o mar revolto tinha “levado a areia” e “destruído a praia”, ali e por toda a costa. Uns, convictos, garantiam que a areia fora para não mais voltar e se depositara em parte incerta, mas certamente longe. Outros, tão convictos como os primeiros, que não, que estava ali mais à frente, debaixo das águas e que no próximo ano regressaria. Uns culpavam a natureza, por cada vez pior. Outros a perfídia do homem, por construir espigões, quebra-mares, casas ou estradas demasiado próximas. Ao ouvi-los, fiquei sem perceber: todos me pareceram afirmar mais com boca de falar do que com olhos de ver, quanto mais de saber sabido. Não me parece que a natureza ou o mar destruam, antes moldam à vontade deles. O mar já cá estava quando nós chegámos e continuará quando nós partirmos, desenhando e redesenhando: é ele o artista e nós meramente temos o privilégio de assistir à exposição, entrando e saindo em passo apressado, compreendendo melhor ou pior o segredo da obra. Quanto à perfídia do homem, será muita presunção nossa. Mais um geocentrismo de pacote.
  
Durante o ano que precedeu este Verão, o mar da minha vida também se agitou, pedindo meças, entre o bravio e o revolto. Quando as águas amainaram, a minha praia também estava diferente só que aqui, secretamente sei-o, de forma definitiva. Areias foram à vida delas, deixando seixos rolados à vista. Flutuaram ao sabor das correntes e depositaram-se em enseadas novas, longínquas, onde as esperam vidas de mãos dadas a quem fazem mais falta do que a mim e onde testemunharão risos novos e novos suspiros. E eu por cá me quedei, procurando entre calhaus um fofo para plantar o meu chapéu-de-sol.

Felizmente, nos Aivados como na minha vida, areias foram, mas muito fica. Na praia de Agosto há menos espaço e mais seixo, mas continua aquele por-do-sol visto do caminho nas dunas com a sua promessa de raio verde, sempre esperada e nunca cumprida, e sempre a presença cálida dos amigos de sempre, com uma ou outra nova ruga a testemunhar que há coisas que não mudam. Na da minha vida, sobram-me os gestos repetidos de muitos anos, que são votos diariamente renovados de felicidade: o livro aberto que se retira com cuidado de mãos que adormeceram, a porta que bate a meio da noite soltando-nos para um sono mais tranquilo, a carta batida na mesa com entusiasmo precedendo o corte inesperado ou a conversa que flutua sobre um cálice onde marina um fundo de bom vinho tinto. Certo que havia sons que ecoavam pelas paredes da casa que agora já só reverberam na minha memória, quotidianamente. Mas ganhei em contrapartida uma deliciosa saudade, que sabe ao salgado da lágrima e ao doce do reencontro. 

E quanto aos espigões, planos, quebra-mares, controlos e outras construções de areia, o mar e a vida estão-se nas tintas para eles, passando-lhes por cima, rindo-se da prosápia de quem atravessa insignificâncias no seu caminho e fazendo o que bem lhes apetece. Por isso, àqueles que acham que riscamos alguma coisa, deixo-lhes abaixo um provocador de excelente qualidade.




domingo, junho 29, 2014

Em defesa do que (quase) ninguém defende




Hoje sou eu e Maradona (mais os uruguaios) contra o resto do mundo. 

Só eu e o grande Diego é que achamos que o castigo de quatro meses e noves jogos ao uruguaio Luis Suarez foi uma crime de lesa-futebol, um atentado ao mais alto património da humanidade que compara em sebo com a destruição dos budas de Bamiyan.

Sobre o pretexto que demonstrarei irrisório de que Suarez afinfou uma dentada no ombro débil do Chiellini, todos os jornais do mundo, todos os analistas de bancada e de ecrã, todos os furiosos que cospem chispas na páginas de comentário da “net”, se uniram numa corrente solidária para considerar que Suarez cometera na pessoa do meigo Chiellini, com os seus olhinhos doces de ferrolho com metro e oitenta e seis, um crime contra a humanidade que faz Pol Pot parecer um filantropo. 

Até o meu filho me diz: “Pai, ele mordeu-lhe!”

Pois mordeu e então? Foi uma estupidez. Deveria ter levado um vermelho e rua. Como o Neymar deveria ter pela cotovelada nos dentes do croata no jogo inaugural do Mundial. Só que o Neymar, com a sua popa capilar e a sua camiseta amarela, é um produto que para muitos interesses tem que sair da prova cheio de “goodwill” ou seja a valer mais no mercado do que o valor que efectivamente tem nas pernas. Se para mim há uma diferença entre os dois é que no caso do Suarez me parece uma reacção de garoto e no de Neymar uma manha de sabido, bastante mais nojenta aliás.

Com as boas repetições que a têvê brasileira tem mostrado, farto-me de ver trincos já com muita tarimba a entrar com os pitons ao calcanhar-de-Aquiles dos adversários, deixando estar o pé e rodando-o devagarinho para ter alguma probabilidade de lesionar. E levam uma repreensão ou um cartão amarelo. Cada vôo de muitos defesas-centrais graduados é feito de braço puxado atrás para melhor cotovelar, num movimento de grande naturalidade, o nariz dos avançados. E à quinta ou sexta lá vêem um amarelito para não abusarem. Por isso repito: Suarez mordeu e então? Foi uma criancice e a uma criança que faz uma asneira não se proíbe de durante quatro meses ir à escola. O futebol, na sua melhor essência, é coisa de crianças, de meninos que nunca crescem. Não há lugar para racionalidades, quanto mais para calvinismos. Em criança, joguei partidas no recreio em que a bola era uma pedra e garanto-vos que a todos parecia redonda. Em que as balizas eram dois bancos de jardim lado-a-lado e em que para se passar o meio-campo se tinha que ir lá ao fundo. Nesse futebol não-euclidiano havia no entanto uma coisa que era linear: em caso de falta ninguém era expulso. As coisas resolviam-se com uma discussão ou uma pancadaria mas depois tudo seguia porque estávamos lá todos para jogar antes que a campaínha da escola apitasse para o final da partida.

E quando temos a sorte de ter um Suarez em campo, é dar graças ao Senhor. O gozo que me deu aquele golo aos ingleses, ele correndo matreiro por trás dos defesas como um miúdo que vai ao pote do doce e com um pulinho curvando de cabeça para dentro da baliza o passe perfeito de Cavani. Mas isto é para quem gosta de futebol, não é para os guardas suiços da Fifa. Suarez tem um toque de genialidade e os génios desculpam-se e aproveitam-se. Van Gogh não batia bem da bola e felizmente ninguém se lembrou de lhe tirar os pincéis. Newton não jogava com o baralho todo, mas nenhuma Fifa das físicas foi lá mandá-lo para casa, o que teria sido um drama para o avanço da ciência.

Em todo o caso, quando eu li as primeiras notícias, quando reparei que os jornais dos ingleses, esse povo tão dado ao castigo exemplar  especialmente se houver 379 indianos e uma metralhadora à mão de semear, falavam mais da mordidela do Suarez do que dos golos que lhes meteu, quando ouvi os comentadores “desportivos” da nossa televisão, essas bestas iletradas, dissertar a propósito de Suarez sobre ética e psiquiatria num português sem fluência nem predicados, dando vazão a esse sentimento tão rasteiro no ser humano que é o espírito de matilha, percebi que Suarez estava feito.

E percebi-o também porque a Fifa é basicamente a Fifa. A Fifa só não é a Máfia siciliana porque não tem a componente de apoio às viúvas que esta última originalmente tinha. A Fifa é uma entidade que organiza campeonatos do mundo no deserto. Uma entidade em que o secretário-geral, um burocrata francês de quinta tabela, afirma que se trabalha melhor em regime ditatoriais. E em que o presidente, Sepp Blatter, talvez não por coincidência, partilha o apelido com um célebre almanaque satírico nazi, o Lustigge Blatter. Com este pessoal, não admira que pareçam mais vocacionados para gerir campos de concentração, com as suas necessidades de registos em escrita cursiva, do que campos de futebol, com a sua alegria e irracionalidade. Desgostou-me particularmente ver o tal francês de quinta casa, Jérôme Valcke, falar da necessidade de um castigo exemplar a Suarez com um ar de ranço que provavelmente teria servido ao general alemão Heinz Lammerding da divisão “Das Reich”, se este alguma vez tivesse tido que justificar em público o “castigo exemplar” de Oradour-sur-Glane, momento a que se safou graças à surpreendente benevolência das autoridades – “guess who ?” – britânicas.

A Fifa tem como “slogan” um mentiroso “We love football”. Mais real seria “We hate football” e mais sincero “We love money”. 

Felizmente, logo no dia seguinte à barbárie, apareceu Maradona. Ele sabe o que é estar isolado contra muitos, porque em 1986 levou sózinho a Argentina ao colo. Eram 529 adversários e se aparecessem todos ao mesmo tempo seriam todos fintados, contra tudo o que seria razoável esperar. Seis ingleses pela frente: golo! Quatro belgas pela frente: golo! E na final aquele passe telepático pelo meio dos alemães para Burruchaga matar o jogo e levar a copa. E Maradona, sózinho mais uma vez contra todos, expôs o assunto como ele é, denunciando o ridículo: “porque não o levam algemado para Guantanamo?”. Temo apenas que a ironia que Maradona usa seja demasiado complexa para os equiláteros suiços sequer perceberem o sentido.

Os uruguaios, esses, defenderam e bem Suarez. E o seleccionador do Uruguai, Oscar Tabarez, deu uma lição de cavalheirismo, pedagogia e decência que poderia servir não apenas à esquadria helvética mas também aos Ribeiros Cristovãos e Costas Lobos desta vida (vide neste “link”). 

Comentário final: contrariamente ao que se possa pensar, este “post” não é sobre futebol. É sobre algo mais do que isso.

domingo, junho 22, 2014

Exposição fotográfica (XLV)

Passeio de barco pelos canais de Amesterdão, ao cair da noite.








sábado, junho 21, 2014

O livro das caras e eu


Como ocorre de costume com as modas informáticas, o Facebook chegou aos meus ouvidos quando já mais de meio Portugal e três quartos do mundo sabiam o que era, e usavam, e comentavam, e se esgaseavam todos. Talvez a primeira vez que dei por ele tenha sido num elevador no emprego, quando uma daquelas têvêzitas que aproveitam a viagem entre o menos um e o sétimo para nos vender parvoíces tentou impingir-me uma aplicação que permitia plantar uma fotografia de uma árvore numa fotografia de uma paisagem. Já as portas abriam quando o pequena ecrã,  em desespero com a minha indiferença, arrematou como derradeiro argumento: “Agora também no Facebook!”. Pensei para com os meus botões que para conseguir que gente com mais de dois neurónios activos comprasse algo tão fútil e inútil como um programa informático para plantar árvores irreais em terrenos que não existem, esse Facebook devia ser coisa poderosa, um leviatã do caraças.

Pela mesma altura, assisti a uma conversa no trabalho em que duas jovens debatiam com o nosso advogado a natureza do Facebook. O advogado tinha já opinião formada:

- Para mim, o Facebook é basicamente um sítio de engate!
- Ó doutor! Não diga uma coisa dessas. Aquilo é tão giro. Permite ver montes de coisas e conhecer gente engraçada e o que é que ela anda a fazer! – protestava a primeira.
- Está a ver? Está-me a dar razão!  É o que eu dizia: engate. – repetia o jurista.
- E é muito útil, sabemos o que as pessoas estão a pensar e as pessoas partilham informações importantes. – insistia a segunda.
- En-ga-te! – concluía o causídico, determinante na sua segurança jurídica, como o juiz que lavra sentença definitiva martelando com o maço na mesa.

Os advogados são peritos em saltos epistemológicos demasiado ousados, do género “troca de banalidades implica engate”, e por isso fiquei na dúvida sobre quem teria razão, se ele, se as meninas. Mas dei-lhe a ele o benefício de uma maior experiência de vida e por isso a minha ainda vaga imagem do Facebook ficou algo mais condescendente: engate pode de facto ser actividade mais útil do que plantar árvores binárias em solos digitais. Mas como a minha curiosidade por novidades computacionais é quase nula e na altura me considerava razoavelmente satisfeito no que a engate e plantio de árvores se refere, não me preocupei mais com o Facebook.  Ouvia falar à minha volta de pedidos de amizade e de amigos às arrobas, de gostos e de “likes”, de fotografias da festa de ontem que já tinham sido partilhadas. Sabia que a seguir ao jantar e também antes do jantar e às vezes durante o próprio jantar os meus filhos estavam no Facebook e portanto deduzia que o Facebook seria um sítio onde se estava, como antigamente a rua ou a praça nas noites quentes de Verão.

No final de 2010, o meu mais velho foi estudar para a Bélgica e pensei que se me metesse também a estar no Facebook teria um canal adicional de contacto com ele (e, “en passant”, uma ferramenta de controlo). Portanto “aderi”, como se diz em voz corrente. Na realidade, conforme vim a observar mais tarde, as pessoas não aderem ao Facebook. O Facebook é que adere a elas, na melhor das hipóteses como uma lapa, na pior como uma sanguessuga, mais normalmente como uma mera carrada de chatos.

Logo na adesão fiquei um pouco incomodado quando me surgiu um ecrã que dizia “Carlos, tens que fazer não-sei-o-quê”. Tens? Digam que eu sou bota-de-elástico, mas afino quando um “software” me trata por tu. Procurei algum sítio onde inserir uma resposta: “conhecemo-nos de algum lado?” – mas não consegui porque, como me vim a dar posteriormente conta, o Facebook é um “telescreen”que tal como o seu par de 1984 só debita num sentido. Algo frustrado, fui clicando por aqui e por ali, explorando um pouco esse novo mundo, sem encontrar nada de relevante, quanto mais de entusiasmante. Senti-me como um astronauta que abordasse um planeta desconhecido na expectativa de encontrar uma civilização avançadíssima e ao abrir a porta da cápsula se deparasse com um deserto de calhaus e poeira. Para não dar o tempo por demasiadamente perdido, enviei um pedido de amizade a mulher, filhos e alguns amigos próximos e fechei a sessão. Passados vinte segundos, no corredor, o meu filho mais novo atirou-me com ar de desprezo: “já te rejeitei”.

No dia seguinte, reentrei no Facebook. À parte o meu filhote, todos os restantes tinham aceite a minha oferta de amizade. Recebera também uma dezena de pedidos, alguns de reais amigos, que vira ontem ou que há anos que não via, outros de pessoas com quem partilhara o recreio da escola durante catorze anos sem que alguma vez tivéssemos trocado uma palavra e que agora, trinta anos depois, queriam ser minhas amigas. Bom, mais vale tarde do que nunca por isso aceitei todos, a eito. Comecei a partir daí a receber na parte central do meu ecrã informações avulsas enviadas pelos meus “amigos”: fulana dava-me as boas vindas, beltrano gostava de um videoclipe, sicrano exibia fotografia do cão a passear à beira-mar. De repente, para meu espanto, recebi uma mensagem do Fela Kuti. Não me lembrava de ter aceite nenhum pedido de amizade de Kuti, o pai do “afro-beat”, músico nigeriano que muito aprecio. E havia também a dificuldade teórica de Kuti ter já morrido há uns bons anos. Instalou-se-me a dúvida se no Além também usariam o Facebook e foi com algum tremor diante do Desconhecido e do Mistério que comentei ao jantar a tenebrosa aparição. Com um suspiro de incompreensão perante a minha burrice, lá me explicaram que todos os livros, músicos, filmes e actividades de que eu declarara gostar no acto de adesão passariam também a partilhar comigo os seus estados de alma, como se amigos fossem.

Ao terceiro dia, uma das minhas novas amigas declarava oferecer-me umas maçãs e umas maçarocas de milho. Supus que se trataria de algum ritual de boas vindas, como nas séries da BBC em que um tipo não pode alugar uma casa de campo sem que apareça logo à porta a inevitável velha-vizinha-do-lado a oferecer uma tarte de rubarbo ou outra glória qualquer da culinária inglesa, aproveitando para meter o nariz. Aceitei por educação as maçãs e as maçarocas e corri a chamar um dos 112es informáticos cá de casa, na ocasião o mais velho, para me explicar onde é que eu metia aquilo. Ele mostrou-me que na minha deambulação inicial eu tinha entrado acidentalmente num sítio chamada “Farmville” e que passara acto contínuo a ser proprietário de um talhão de terreno de plantio algures no ciberespaço, onde graças à generosidade da minha amiga poderia agora semear macieiras e milho. Semeei e fechei a sessão, exausto com tanto novidade.

Depois do choque tecnológico inicial, lá me fui habituando ao formato e funcionamento do Facebook e pude então cirandar pelos conteúdos, a ver se aprendia alguma coisa. A verdade é que até hoje não.

Muitos dos meus “amigos” publicam pequenas informações anódinas sobre o seu dia, o vídeo da música que ouviram, a foto do sítio onde passearam ontem, a fotografia dos filhos num momento feliz. Ou então recomendam um filme ou um concerto. Ou afirmam ir participar ou talvez participar num evento qualquer, festa ou concerto. Ou que se indignaram com uma certa situação. Este é o género de pequenas novidades que os amigos trocam quando estão juntos e que entram na composição da argamassa com que se cimentam as amizades, só que sem o calor, o sorriso, o timbre de voz e a cumplicidade. É uma cópia degenerada de uma relação humana, por muitos “likes” e comentários que lhe carreguem. Mas reconheço que, só por si, não traz grande mal ao mundo.

Outros aderem à moda de “partilhar” umas imagens com uma frase solta, tidas como pérolas de sabedoria, do tipo “2014 seja incrível por favor” ou “Seja você mesmo, todos os outros já existem”, geralmente em inglês ou português do Brasil, por norma com um fundo de pôr-do-sol à beira-mar ou de paisagem idílica com regatos e cordeiros. O propósito destas frases será tornar melhor a miserável vida dos outros e por isso são normalmente recompensadas com alqueires de “gostos” e “smileys” à guisa de comentário. Ora se é coisa positiva que pensemos nas nossas vidas e no que será um recto caminho, não é com estas frases avulsas que lá vamos. Uma boa reflexão precisa de pelo menos alguns parágrafos. Estas frases estão para uma verdadeira filosofia como os quadros de gatinhos e crianças de olhos grandes com lágrima estão para a pintura. Mas algumas até têm espírito e também aqui reconheço que, só por si, não trazem grande mal ao mundo.

Outros ainda aproveitam a plateia electrónica para darem largas a considerações políticas. Os assuntos coincidem quase sempre com a fruta da época: todos os políticos são corruptos, tudo o que é “ecológico” é bom, “eles” só se querem encher, se “me” tivessem ouvido e outras afirmações a preto-e-branco, daquelas que se podem escutar com um suspiro em auditórios da especialidade como sejam por exemplo os carros de praça.

Quando comparo o nível do típico comentário ao comentário político no Facebook ao discurso dos taxistas estou, reconheço, a exagerar e a pecar por injustiça. Na realidade, o taxista médio até parece um doutorado em ciência política, e simultaneamente um “gentleman” rural inglês, quando comparado com os selvagens de AK-47 verbal que se escondem no matagal de setenta e três comentários apoiando qualquer reflexão do género “se foram eleitos devem andar a roubar”, uns dizendo mata e outros dizendo esfola. Por exemplo, no dia em que em Espanha uma autarca foi morta a tiro na rua pela mãe de um desempregado, li o seguinte comentário sobre um “post” que relatava o voto de uma presidente de junta de freguesia a um plano de urbanização em Carcavelos: “Em Espanha a gaja já percebeu. Agora falta esta.” Para minha surpresa, esta elevada pérola não foi solta por um avatar neo-nazi, mas por uma fotografia de um copinho-de-leite com nome de duplo apelido ao melhor estilo da linha do Estoril.

A única regra segura quando surgem estas sequências de comentários ululantes é não tentar contrariar. Os desgraçados que se aventuram a introduzir alguma racionalidade na conversa, lembrando por exemplo que os eleitos por acaso até foram eleitos, sujeitam-se a meia centena de respostas tortas, normalmente à volta do mote “também deves ter alguma coisa a ganhar”. Mais vale não descer ao nível e deixar a turba com os seus dois minutos de ódio diários em letras azuis e com polegarzinhos para cima.

Certamente estou a generalizar excessivamente, porque de vez em quando até aparecem algumas considerações interessantes que mereceriam uma mesa e um bom conhaque para serem continuadas numa conversa, aquela actividade arcaica que o Facebook vê como concorrente a abater. No entanto, são momentos raros e que se perdem no meio do populismo demagógico, sem raciocínio e sem contraditório, feito de suspeita fácil e insulto ligeiro e que infelizmente serve de introdução à política para muitos adolescentes. Por isto, aqui já não tenho tanto a certeza que nenhum mal venha ao mundo por via do Facebook. Este é, neste seu aspecto mais sombrio, um palco em que encontramos uma versão moderna das certezas que partilhavam na Idade Média os espectadores nos largos do pelourinho.

A minha curiosidade inicial para com o Facebook começou a esmorecer dia-a-dia. Para piorar as coisas a um dado momento comecei a receber sugestões publicitárias, em teoria sugeridas por um amigo. Pelo que percebi, bastava algum dos meus “facebookianos” amigos colocar um “like” na página da Retrosaria Ermengarda para que o Facebook me espetasse com um “post” no mural. Tentei desactivar a recepção de publicidade, mas verifiquei que não era possível. O Facebook começava a deixar cair a máscara: não passava afinal de uma máquina publicitária, de um modelo de negócio à cata dos nossos tostões, usando e abusando da informação pessoal que imprudentemente os utilizadores lhe iam dispensando. Com o tempo, o peso da publicidade cresceu e representa agora próximo de metade da informação que recebo, um pouco como acontece na caixa de correio do meu prédio, mas com a diferença de não poder mandar aquela porcaria para o lixo.

Certo dia, não tendo aprendido grande coisa com o que o Facebook me propunha, e cansado de receber recomendações de amigos para ir à casa de pneus Fagundes, decidi voltar ao meu talhão no Farmville para ver como tinha evoluído a safra. Para minha surpresa, as macieiras tinham morrido e os pés de milho que eu plantara jaziam por terra, tão apodrecidos que até parecia que saia cheiro do ecrã. Perguntei aos meus filhos o que se tinha passado e eles perguntaram-me:

- Foste lá regar?

Não, de facto não fora, porque nunca pensei que fosse preciso regar pés de milho e macieiras computacionais, porque julguei erradamente que eles se regariam sozinhos só por serem electrónicos. E foi talvez esta a única lição que eu recebi no Facebook: foi lembrar-me que as coisas não florescem se não forem tratadas, que os jardins não se mantêm bonitos se não forem cuidados. É a mensagem que metaforicamente nos deixou Voltaire no seu “Candide”: “Il faut arroser son jardin”.

Isto é verdade para as macieiras verdadeiras, pelos vistos para as macieiras digitais, e também para o nosso saber e para a nossa liberdade. Antecipo que vá levar montes de porrada ao afirmar o que se segue, mas cultivar o nosso jardim implica perceber que o Facebook é um planta infestante, uma praga de jacintos-de-água asfixiando valores sociais que demorámos séculos a implantar. Pode até ser uma ferramenta muito útil de trabalho, para partilhar informação, para enviar mensagens, e não duvido que o possa ser, mas podia sê-lo sem o lado negro. Sem incentivar a abdicação da privacidade, que hoje parece nas gerações mais jovens algo caduco mas que é um valor central das sociedades livres. Sem abusar da informação que generosamente lhe é dispensada pelos seus utilizadores para lhes espetar produtos que não pedem, sem que disso se possam defender. Sem fazer tábua rasa de todos os mecanismos de defesa do consumidor que as sociedades democráticas foram criando. Sem aquele moralismo bacoco que o leva a censurar a foto de um seio e a rejeitar pedidos para retirar o vídeo de uma decapitação de um homem. Sem aquele horror à crítica que representa a impossibilidade de colocar um “don’t like”. Sem ser um terreno de pasto para os monstros mais rasteiros da política, os mesmos monstros que assistiram sorrindo às purgas estalinistas e à “Kristallnacht”.

A tecnologia está aí e vai continuar. O que não quer dizer que tenha que estar acima de toda a suspeita e fora de todo o controlo. Coisas como a retenção em base de dados das nossas pesquisas na “internet”, as tecnologias de reconhecimento facial ou os óculos da Google, se deixados fora de controlo são o sonho de qualquer sistema ditatorial. O poder de entidades como o Facebook ou a Google, monopólios de informação e estruturas multinacionais e não-nacionais que fogem a qualquer escrutínio, constitui um dos grandes desafios para os regimes de direito e democráticos tais como os conhecemos desde as revoluções inglesa, francesa e americana dos séculos XVII e XVIII e que com altos e baixos criaram os modernos espaços de liberdade individual que erradamente julgamos inamovíveis. O poder dessas empresas tem um potencial – não tenhamos medo das palavras – fascizante e deveria enquanto cidadãos preocupar-nos. Perceber que o risco existe e que é fundamental controlá-lo pode ser um bom ponto de partida.

Hoje já pouco vou ao livro das caras. Por vezes entro e deslizo em dois ou três minutos alguns dias de “posts” no mural. Muito raramente me detenho em algo que me chame a atenção. Assim fazendo, estou-lhe a dar a atenção que ele merece, talvez mesmo um pouco mais. Um destes dias fecho de vez a conta ou se tal não for possível (não me admirava) esqueço-a como fiz ao talhão no Farmville e espero que o Facebook morra espezinhado pelos pés da “the next big thing” que na informática, como Steve Jobs dizia, sempre acaba por aparecer.