Como ocorre de costume com as modas informáticas, o Facebook
chegou aos meus ouvidos quando já mais de meio Portugal e três quartos do mundo
sabiam o que era, e usavam, e comentavam, e se esgaseavam todos. Talvez a
primeira vez que dei por ele tenha sido num elevador no emprego, quando uma
daquelas têvêzitas que aproveitam a viagem entre o menos um e o sétimo para nos
vender parvoíces tentou impingir-me uma aplicação que permitia plantar uma
fotografia de uma árvore numa fotografia de uma paisagem. Já as portas abriam
quando o pequena ecrã,
em desespero com
a minha indiferença, arrematou como derradeiro argumento: “Agora também no
Facebook!”. Pensei para com os meus botões que para conseguir que gente com
mais de dois neurónios activos comprasse algo tão fútil e inútil como um programa
informático para plantar árvores irreais em terrenos que não existem, esse
Facebook devia ser coisa poderosa, um leviatã do caraças.
Pela mesma altura, assisti a uma conversa no trabalho em que
duas jovens debatiam com o nosso advogado a natureza do Facebook. O advogado
tinha já opinião formada:
- Para mim, o Facebook é basicamente um sítio de engate!
- Ó doutor! Não diga uma coisa dessas. Aquilo é tão giro.
Permite ver montes de coisas e conhecer gente engraçada e o que é que ela anda
a fazer! – protestava a primeira.
- Está a ver? Está-me a dar razão! É o que eu dizia: engate. – repetia o jurista.
- E é muito útil, sabemos o que as pessoas estão a pensar e
as pessoas partilham informações importantes. – insistia a segunda.
- En-ga-te! – concluía o causídico, determinante na sua
segurança jurídica, como o juiz que lavra sentença definitiva martelando com o
maço na mesa.
Os advogados são peritos em saltos epistemológicos demasiado
ousados, do género “troca de banalidades implica engate”, e por isso fiquei na
dúvida sobre quem teria razão, se ele, se as meninas. Mas dei-lhe a ele o
benefício de uma maior experiência de vida e por isso a minha ainda vaga imagem
do Facebook ficou algo mais condescendente: engate pode de facto ser actividade
mais útil do que plantar árvores binárias em solos digitais. Mas como a minha
curiosidade por novidades computacionais é quase nula e na altura me
considerava razoavelmente satisfeito no que a engate e plantio de árvores se
refere, não me preocupei mais com o Facebook. Ouvia falar à minha volta de pedidos de
amizade e de amigos às arrobas, de gostos e de “likes”, de fotografias da festa
de ontem que já tinham sido partilhadas. Sabia que a seguir ao jantar e também
antes do jantar e às vezes durante o próprio jantar os meus filhos estavam no
Facebook e portanto deduzia que o Facebook seria um sítio onde se estava, como
antigamente a rua ou a praça nas noites quentes de Verão.

No final de 2010, o meu mais velho foi estudar para a
Bélgica e pensei que se me metesse também a estar no Facebook teria um canal
adicional de contacto com ele (e, “en passant”, uma ferramenta de controlo). Portanto
“aderi”, como se diz em voz corrente. Na realidade, conforme vim a observar
mais tarde, as pessoas não aderem ao Facebook. O Facebook é que adere a elas,
na melhor das hipóteses como uma lapa, na pior como uma sanguessuga, mais
normalmente como uma mera carrada de chatos.
Logo na adesão fiquei um pouco incomodado quando me surgiu
um ecrã que dizia “Carlos, tens que fazer não-sei-o-quê”. Tens? Digam que eu
sou bota-de-elástico, mas afino quando um “software” me trata por tu. Procurei
algum sítio onde inserir uma resposta: “conhecemo-nos de algum lado?” – mas não
consegui porque, como me vim a dar posteriormente conta, o Facebook é um
“telescreen”que tal como o seu par de 1984 só debita num sentido. Algo
frustrado, fui clicando por aqui e por ali, explorando um pouco esse novo
mundo, sem encontrar nada de relevante, quanto mais de entusiasmante. Senti-me
como um astronauta que abordasse um planeta desconhecido na expectativa de
encontrar uma civilização avançadíssima e ao abrir a porta da cápsula se
deparasse com um deserto de calhaus e poeira. Para não dar o tempo por
demasiadamente perdido, enviei um pedido de amizade a mulher, filhos e alguns
amigos próximos e fechei a sessão. Passados vinte segundos, no corredor, o meu
filho mais novo atirou-me com ar de desprezo: “já te rejeitei”.
No dia seguinte, reentrei no Facebook. À parte o meu
filhote, todos os restantes tinham aceite a minha oferta de amizade. Recebera
também uma dezena de pedidos, alguns de reais amigos, que vira ontem ou que há
anos que não via, outros de pessoas com quem partilhara o recreio da escola
durante catorze anos sem que alguma vez tivéssemos trocado uma palavra e que
agora, trinta anos depois, queriam ser minhas amigas. Bom, mais vale tarde do
que nunca por isso aceitei todos, a eito. Comecei a partir daí a receber na
parte central do meu ecrã informações avulsas enviadas pelos meus “amigos”:
fulana dava-me as boas vindas, beltrano gostava de um videoclipe, sicrano
exibia fotografia do cão a passear à beira-mar. De repente, para meu espanto,
recebi uma mensagem do Fela Kuti. Não me lembrava de ter aceite nenhum pedido
de amizade de Kuti, o pai do “afro-beat”, músico nigeriano que muito aprecio. E
havia também a dificuldade teórica de Kuti ter já morrido há uns bons anos. Instalou-se-me
a dúvida se no Além também usariam o Facebook e foi com algum tremor diante do Desconhecido
e do Mistério que comentei ao jantar a tenebrosa aparição. Com um suspiro de
incompreensão perante a minha burrice, lá me explicaram que todos os livros,
músicos, filmes e actividades de que eu declarara gostar no acto de adesão
passariam também a partilhar comigo os seus estados de alma, como se amigos
fossem.

Ao terceiro dia, uma das minhas novas amigas declarava
oferecer-me umas maçãs e umas maçarocas de milho. Supus que se trataria de
algum ritual de boas vindas, como nas séries da BBC em que um tipo não pode
alugar uma casa de campo sem que apareça logo à porta a inevitável
velha-vizinha-do-lado a oferecer uma tarte de rubarbo ou outra glória qualquer
da culinária inglesa, aproveitando para meter o nariz. Aceitei por educação as
maçãs e as maçarocas e corri a chamar um dos 112es informáticos cá de casa, na
ocasião o mais velho, para me explicar onde é que eu metia aquilo. Ele
mostrou-me que na minha deambulação inicial eu tinha entrado acidentalmente num
sítio chamada “Farmville” e que passara acto contínuo a ser proprietário de um
talhão de terreno de plantio algures no ciberespaço, onde graças à generosidade
da minha amiga poderia agora semear macieiras e milho. Semeei e fechei a
sessão, exausto com tanto novidade.
Depois do choque tecnológico inicial, lá me fui habituando
ao formato e funcionamento do Facebook e pude então cirandar pelos conteúdos, a
ver se aprendia alguma coisa. A verdade é que até hoje não.
Muitos dos meus “amigos” publicam pequenas informações
anódinas sobre o seu dia, o vídeo da música que ouviram, a foto do sítio onde
passearam ontem, a fotografia dos filhos num momento feliz. Ou então recomendam
um filme ou um concerto. Ou afirmam ir participar ou talvez participar num evento
qualquer, festa ou concerto. Ou que se indignaram com uma certa situação. Este
é o género de pequenas novidades que os amigos trocam quando estão juntos e que
entram na composição da argamassa com que se cimentam as amizades, só que sem o
calor, o sorriso, o timbre de voz e a cumplicidade. É uma cópia degenerada de
uma relação humana, por muitos “likes” e comentários que lhe carreguem. Mas reconheço
que, só por si, não traz grande mal ao mundo.
Outros aderem à moda de “partilhar” umas imagens com uma
frase solta, tidas como pérolas de sabedoria, do tipo “2014 seja incrível por
favor” ou “Seja você mesmo, todos os outros já existem”, geralmente em inglês
ou português do Brasil, por norma com um fundo de pôr-do-sol à beira-mar ou de
paisagem idílica com regatos e cordeiros. O propósito destas frases será tornar
melhor a miserável vida dos outros e por isso são normalmente recompensadas com
alqueires de “gostos” e “smileys” à guisa de comentário. Ora se é coisa
positiva que pensemos nas nossas vidas e no que será um recto caminho, não é
com estas frases avulsas que lá vamos. Uma boa reflexão precisa de pelo menos alguns
parágrafos. Estas frases estão para uma verdadeira filosofia como os quadros de
gatinhos e crianças de olhos grandes com lágrima estão para a pintura. Mas
algumas até têm espírito e também aqui reconheço que, só por si, não trazem
grande mal ao mundo.

Outros ainda aproveitam a plateia electrónica para darem
largas a considerações políticas. Os assuntos coincidem quase sempre com a fruta
da época: todos os políticos são corruptos, tudo o que é “ecológico” é bom,
“eles” só se querem encher, se “me” tivessem ouvido e outras afirmações a
preto-e-branco, daquelas que se podem escutar com um suspiro em auditórios da
especialidade como sejam por exemplo os carros de praça.
Quando comparo o nível do típico comentário ao comentário
político no Facebook ao discurso dos taxistas estou, reconheço, a exagerar e a
pecar por injustiça. Na realidade, o taxista médio até parece um doutorado em
ciência política, e simultaneamente um “gentleman” rural inglês, quando
comparado com os selvagens de AK-47 verbal que se escondem no matagal de
setenta e três comentários apoiando qualquer reflexão do género “se foram
eleitos devem andar a roubar”, uns dizendo mata e outros dizendo esfola. Por
exemplo, no dia em que em Espanha uma autarca foi morta a tiro na rua pela mãe
de um desempregado, li o seguinte comentário sobre um “post” que relatava o
voto de uma presidente de junta de freguesia a um plano de urbanização em
Carcavelos: “Em Espanha a gaja já percebeu. Agora falta esta.” Para minha
surpresa, esta elevada pérola não foi solta por um avatar neo-nazi, mas por uma
fotografia de um copinho-de-leite com nome de duplo apelido ao melhor estilo da
linha do Estoril.
A única regra segura quando surgem estas sequências de
comentários ululantes é não tentar contrariar. Os desgraçados que se aventuram
a introduzir alguma racionalidade na conversa, lembrando por exemplo que os
eleitos por acaso até foram eleitos, sujeitam-se a meia centena de respostas
tortas, normalmente à volta do mote “também deves ter alguma coisa a ganhar”.
Mais vale não descer ao nível e deixar a turba com os seus dois minutos de ódio
diários em letras azuis e com polegarzinhos para cima.
Certamente estou a generalizar excessivamente, porque de vez
em quando até aparecem algumas considerações interessantes que mereceriam uma
mesa e um bom conhaque para serem continuadas numa conversa, aquela actividade
arcaica que o Facebook vê como concorrente a abater. No entanto, são momentos
raros e que se perdem no meio do populismo demagógico, sem raciocínio e sem
contraditório, feito de suspeita fácil e insulto ligeiro e que infelizmente
serve de introdução à política para muitos adolescentes. Por isto, aqui já não
tenho tanto a certeza que nenhum mal venha ao mundo por via do Facebook. Este é,
neste seu aspecto mais sombrio, um palco em que encontramos uma versão moderna
das certezas que partilhavam na Idade Média os espectadores nos largos do
pelourinho.
A minha curiosidade inicial para com o Facebook começou a esmorecer
dia-a-dia. Para piorar as coisas a um dado momento comecei a receber sugestões
publicitárias, em teoria sugeridas por um amigo. Pelo que percebi, bastava
algum dos meus “facebookianos” amigos colocar um “like” na página da Retrosaria
Ermengarda para que o Facebook me espetasse com um “post” no mural. Tentei desactivar
a recepção de publicidade, mas verifiquei que não era possível. O Facebook
começava a deixar cair a máscara: não passava afinal de uma máquina
publicitária, de um modelo de negócio à cata dos nossos tostões, usando e
abusando da informação pessoal que imprudentemente os utilizadores lhe iam
dispensando. Com o tempo, o peso da publicidade cresceu e representa agora
próximo de metade da informação que recebo, um pouco como acontece na caixa de
correio do meu prédio, mas com a diferença de não poder mandar aquela porcaria
para o lixo.

Certo dia, não tendo aprendido grande coisa com o que o
Facebook me propunha, e cansado de receber recomendações de amigos para ir à
casa de pneus Fagundes, decidi voltar ao meu talhão no Farmville para ver como
tinha evoluído a safra. Para minha surpresa, as macieiras tinham morrido e os pés
de milho que eu plantara jaziam por terra, tão apodrecidos que até parecia que
saia cheiro do ecrã. Perguntei aos meus filhos o que se tinha passado e eles
perguntaram-me:
- Foste lá regar?
Não, de facto não fora, porque nunca pensei que fosse
preciso regar pés de milho e macieiras computacionais, porque julguei erradamente
que eles se regariam sozinhos só por serem electrónicos. E foi talvez esta a
única lição que eu recebi no Facebook: foi lembrar-me que as coisas não
florescem se não forem tratadas, que os jardins não se mantêm bonitos se não
forem cuidados. É a mensagem que metaforicamente nos deixou Voltaire no seu “Candide”:
“Il faut arroser son jardin”.
Isto é verdade para as macieiras verdadeiras, pelos vistos para
as macieiras digitais, e também para o nosso saber e para a nossa liberdade. Antecipo
que vá levar montes de porrada ao afirmar o que se segue, mas cultivar o nosso
jardim implica perceber que o Facebook é um planta infestante, uma praga de
jacintos-de-água asfixiando valores sociais que demorámos séculos a implantar. Pode
até ser uma ferramenta muito útil de trabalho, para partilhar informação, para
enviar mensagens, e não duvido que o possa ser, mas podia sê-lo sem o lado negro.
Sem incentivar a abdicação da privacidade, que hoje parece nas gerações mais
jovens algo caduco mas que é um valor central das sociedades livres. Sem abusar
da informação que generosamente lhe é dispensada pelos seus utilizadores para lhes
espetar produtos que não pedem, sem que disso se possam defender. Sem fazer
tábua rasa de todos os mecanismos de defesa do consumidor que as sociedades
democráticas foram criando. Sem aquele moralismo bacoco que o leva a censurar a
foto de um seio e a rejeitar pedidos para retirar o vídeo de uma decapitação de
um homem. Sem aquele horror à crítica que representa a impossibilidade de
colocar um “don’t like”. Sem ser um terreno de pasto para os monstros mais
rasteiros da política, os mesmos monstros que assistiram sorrindo às purgas
estalinistas e à “Kristallnacht”.
A tecnologia está aí e vai continuar. O que não quer dizer
que tenha que estar acima de toda a suspeita e fora de todo o controlo. Coisas
como a retenção em base de dados das nossas pesquisas na “internet”, as
tecnologias de reconhecimento facial ou os óculos da Google, se deixados fora
de controlo são o sonho de qualquer sistema ditatorial. O poder de entidades
como o Facebook ou a Google, monopólios de informação e estruturas
multinacionais e não-nacionais que fogem a qualquer escrutínio, constitui um
dos grandes desafios para os regimes de direito e democráticos tais como os
conhecemos desde as revoluções inglesa, francesa e americana dos séculos XVII e
XVIII e que com altos e baixos criaram os modernos espaços de liberdade
individual que erradamente julgamos inamovíveis. O poder dessas empresas tem um
potencial – não tenhamos medo das palavras – fascizante e deveria enquanto
cidadãos preocupar-nos. Perceber que o risco existe e que é fundamental controlá-lo
pode ser um bom ponto de partida.

Hoje já pouco vou ao livro das caras. Por vezes entro e
deslizo em dois ou três minutos alguns dias de “posts” no mural. Muito
raramente me detenho em algo que me chame a atenção. Assim fazendo, estou-lhe a
dar a atenção que ele merece, talvez mesmo um pouco mais. Um destes dias fecho
de vez a conta ou se tal não for possível (não me admirava) esqueço-a como fiz
ao talhão no Farmville e espero que o Facebook morra espezinhado pelos pés da “the
next big thing” que na informática, como Steve Jobs dizia, sempre acaba por
aparecer.