Um casal idoso parte da sua terra na província para visitar
os filhos que moram na capital. Os filhos recebem-nos com cortesia mas sem
disponibilidade, embrenhados que estão no seu dia-a-dia. Só uma nora, viúva de
um filho morto na guerra, se desdobra para os levar a passear, sempre com um
sorriso. Para os manter ocupados, os filhos pagam-lhes uma estadia num hotel de
uma zona turística junto ao mar, mas a agitação nocturna é excessiva para os velhotes
que regressam inopinadamente, gerando uma situação embaraçosa uma vez que a
filha que os albergava tinha nessa noite convidados a dormir em casa e não
tinha lugar para eles. Por isto, a velhota vai dormir a casa da nora viúva e o
velhote vai visitar antigos camaradas do serviço militar. Nessa noite, alguma
franqueza vem à superfície: mãe e esposa de um homem morto na guerra comungam
saudades e, noutro local, o velhote e o amigos bebem um copito a mais e
confessam desilusões nas relações com os filhos, cujas carreiras defraudaram as
suas inconfessadas expectativas. Depois, o casal regressa à sua terra, onde a
senhora adoece gravemente. Os filhos acorrem ao leito de morte. Nesse momento
intenso, mesmo os mais pequenos gestos ganham um significado enorme e tal não
escapa ao velhote, proporcionando-lhe a ocasião para fazer com que, no final, o
Bem triunfe.
Isto é o que se passa em “Viagem a Tóquio”, filme de 1953 de
Yasujiro Ozu. Passa-se portanto no Japão e logo com a serenidade, a nitidez e a
leveza de traço que encontramos na escrita de Tanizaki, na “manga” de Jiro
Taniguchi, nas gravuras de Hokusai, ou mais geralmente na cultura japonesa, uma
cultura fortíssima, imperturbável na sua perenidade de séculos reverentes,
vergando ao seu poder a luz dos néons de Tóquio ou o glamor dos últimos modelos
da electrónica de consumo.

Há certos livros e certos filmes e certos quadros e certas conversas à volta
de uma boa mesa dos quais não saímos os mesmos. Podendo ser mais ligeiros ou
mais pesados, mais fáceis ou mais difíceis, mais alegres ou mais tristes, são
objectos e momentos poderosos, diferentes e que por isso nos diferenciam. Quase
sempre não se dão de graça, implicam um esforço, uma perseverança, por vezes
uma luta. Pedem-nos inteligência, rigor, honestidade, tempo. Por serem
distintos e por nos transformarem, sem medo poderemos dizer deles que são
coisas boas, boas por mais férteis, mais esclarecedoras, mais belas do que a
mediania ou pobreza que são o que mais vemos à nossa volta.
“Viagem a Tóquio” pertence certamente a esta privilegiada
condição. Alia um cuidado estético
notável – para quem gostar de fotografia a preto-e-branco, cada fotograma é um
quadro – a uma reflexão profunda sobre a condição humana, sobre algumas das
suas aspirações e incoerências, sobre a importância que podemos ter nas vidas
dos outros, sobre o ricochete que as boas acções fazem nos outros e nos tornam
a nós pessoas melhores, sobre – sobretudo sobre – a essência do Bem. O tema do
Bem é central neste filme, e Ozu convida-nos a desvendar uma visão do Bem
completamente diferente do maniqueísmo primário que nos chove em cima nas
séries americanas, de que o Bem é o oposto do Mal e que basta combater o Mal
para fazer o Bem. Para Ozu, o oposto do Bem não é o Mal mas sim a ausência do
Bem, e essa ausência pode ser tão terrível ou às vezes pior que o Mal, por mais
insidiosa e menos visível.
As questões sobre as quais Ozu vai reflectindo no seu filme
aparecem quase todas, senão todas, em qualquer grande obra, em qualquer coisa
boa. São as questões que atormentam os grandes filósofos (e também aqueles que lêem
as suas pessegadas herméticas) e que são poucas e simples e sempre mais ou
menos as mesmas desde que os nossos antepassados pré-históricos olharam para o céu
estrelado e deixaram o espírito vaguear. De onde vimos e para onde vamos? O que
aqui fazemos? Existe um sentido para isto tudo? Quem sou eu e quem são os
outros? Há uma verdade e uma mentira, um certo e um errado, um belo e um feio?
Os bons escritores e pintores e músicos e realizadores pegam
nestas questões eternas e embrulham-nas de novidade, convidando-nos a vê-las
por novos ângulos de entre a infinidade que o nosso mundo tri-dimensional
permite. Produzem as tais coisas boas e ajudam-nos a que nós, em contacto com
elas, pensemos e cresçamos. A arte é muitas vezes o condão de tornar simples o
que é complexo e misterioso. Por exemplo: uns dias antes de “Viagem a Tóquio”,
vira o “Conto de Inverno” do Eric Rohmer. O assunto: Deus como fonte de luz, a possibilidade
da revelação, a graça divina que recompensa a fé, tudo cenas “top level”. O veículo:
uma história aparentemente superficial sobre as relações amorosas e as dúvidas
existenciais de uma cabeleireira do subúrbio parisiense. A
lição: vale a pena procurar a felicidade porque ela acaba por surgir nas nossas
vidas, porque a primavera sucede fatalmente ao inverno. Assim, em duas penadas
e em duas horas de entretenimento.

A ideia deste texto sobre as boas coisas que as coisas boas
nos proporcionam surgiu-me quando escrevia o texto imediatamente anterior e
congeminava sobre as razões que levam a sociedade a presenciar acriticamente o
mal ou a ausência de bem e a tudo aceitar, não só nos políticos como no vizinho
do lado, sem um julgamento inteligente. Não fiz nenhum estudo de carácter
científico, mas tenho a forte impressão que este comportamento, que revela
ausência de referências senão de valores, vem de vidas pouco expostas às coisas
boas das coisas boas.
Eu tenho mais dez anos de escolaridade que o meu pai, mas se
no fim da vida tiver lido um terço dos livros que ele leu, vai ser um pau. E,
paradoxalmente, sou entre os da minha geração um leitor compulsivo. Entre a
geração do meu pai e a dos meus filhos, a televisão e o Facebook, que são meios
fanhozíssimos, ocuparam uma grande parte dos tempos livres e fizeram que as
pessoas perdessem exposição a coisas boas e às boas coisas que as acompanham.
Quando faço afirmações destas, cá em casa olham-me como se estivesse a defender
o manuscrito em rolo face ao livro impresso, ou o cilindro de cera face ao CD.
E aproveitam a deixa para me olharem de cima da burra e me chamarem velho. Mas a
questão não é tanto de suportes, é de conteúdos. O problema da TV não reside na
transmissão por fibra óptica ou no visionamento por LEDs, reside no Big
Brother, no arengar partidário dos comentadores convidados, no jornalismo
oficioso, na violência estrutural das séries da Fox ou na presença sequer do
Goucha, do Baião ou da Teresa Guilherme. Ver qualquer programa da Teresa
Guilherme uma vez por acidente de “zapping” já não deve fazer bem à saúde. Ver
Teresa Guilherme todas as semanas deve ter o mesmo efeito no intelecto que
enfiar a cabeça dentro do reactor de Fukushima. Uma sociedade com Teresa
Guilherme no topo das audiências está no ponto para ter um lindo enterro.
Não será certamente através da televisão de hoje, nem do
pinga-pinga do Facebook, nem das vanidades da Caras que nós, enquanto sociedade,
buscaremos os valores de que necessitamos para deixar de ser a marmelada
diletante em que nos tornámos nos últimos tempos. Encontraremos valores seguros
numa discussão franca com amigos, numa reflexão pessoal crítica e informada e
também na vivência das coisas boas das coisas boas, que estão aí à disposição
para nos preencherem o dia, de vez em quando. Eu acredito nisto, em parte por
preciosa herança, em parte por calhar às vezes encontrar perdida nos bolsos,
para surpresa minha, alguma coisa boa de uma coisa boa.