quinta-feira, setembro 29, 2016

Exposição fotográfica (XLIX)

Atenas, Setembro de 2016

Túmulo do soldado desconhecido, Praça Sintagma

Academia de Atenas

Túmulo do soldado desconhecido, Praça Sintagma

Av. Vasilissis Sofias

Túmulo do soldado desconhecido, Praça Sintagma

Museu da Acrópole

Av. Vasilissis Sofias

Praça Lycabettus

Av. Elefteros Venizelou

Parlamento

Universidade de Atenas

Sócrates na Academia de Atenas

Praça Sintagma

Av. Elefteros Venizelou

sábado, setembro 10, 2016

Urinol e urinola vão à festa



Mataspeak regressou de banhos. Este ano não apenas de banhos metafóricos, já que as condições climatéricas na costa vicentina aproximaram-se das que se verificam na face de Mercúrio virada para o sol. Tal permitiu-me molhar o pé e ocasionalmente o resto todo, evento que requer umas boas centenas de graus centígrados e possui a raridade das aparições da Virgem em cima de azinheiras.

Em férias, um dos prazeres que mais prezo consiste no calmo folheamento do Público do dia enquanto mandibulo lentamente uma espessa sandes de pão de Porto Covo, prazer que em Lisboa precludem a corrida do rato e a qualidade medíocre da massa do padeiro da rua. Enquanto a casa vai acordando, salto as estatísticas aterradoras dos fogos florestais e das braçadas do Phelps para me deter demoradamente nas pequenas parvoíces que a falta de notícias de Agosto traz às páginas dos jornais supostos sérios, notícias muitas vezes intituladas com alarido “cientistas descobrem que ... uma coisa qualquer”. O que os cientistas vão descobrindo permanentemente nas caixas dos jornais permite-nos descobrir a nós como vai a literacia científica da nossa classe periodista, que simplesmente não vai.


Mas este ano o “silliest of the silly season award” calha indubitavelmente a novas de outra frente, às reportagens que o Público fez do acampamento de Verão da juventude do Bloco de Esquerda, apelidado de “Liberdade” com a modéstia a que o Bloco já nos habituou. E o “silliest of silliest special award” vai para o detalhe dos lavabos do acampamento não estarem divididos no habitual “homens e mulheres”, essas categorias tão subjectivas, mas sim num mais factual “com urinol e sem urinol”. Isto lembra-me uma caricatura numa revista Mad dos anos setenta, onde os lavabos de uma comunidade “hippie”, em vez das tradicionais duas portas “his” and “hers”, tinham sete: “his”, “hers”, “ours”, “theirs”, “somebody’s”, “anybody’s” e “everybody’s”.

Em 1917, Marcel Duchamp trouxe o urinol para o domínio da arte quando propôs sob pseudónimo uma destas peças para exposição pela Society of Indepent Artists nova-iorquina. Foi recusada, a obra original acabou por se perder e se calhar está a funcionar numa parede qualquer de Manhattan. Quase um século depois, a rapaziada bloqueira traz o urinol para o domínio da filosofia política, ao garantir que a separação com e sem urinol é um passo intercalar na direcção da casa de banho unificada que consagrará o fim da dicotomia homem/mulher, “extremamente redutora” segundo os organizadores do acampamento.


Na reportagem saída em 31 de Julho, a jornalista, embevecida, sub-titula que “a política também passa pelo WC”. Tantas vezes, diria eu, e em queda livre. Só que neste caso é a sério: o organizador Ricardo Gouveia quer “chegar um dia e poder dizer que vamos tornar isto misto, porque queremos mesmo desafiar os limites do género e os papéis do género e os pudores”. Ora aqui temos vanguarda a sério. Como é que Lenine não se lembrou de uma coisa destas? Se tivesse pensado, talvez a revolução ainda sobrevivesse, embora na União das Repúblicas das Sanitas Solidárias.

Tentando levar a coisa à prática, em edições anteriores do encontro a juventude bloquista ainda experimentou retretes e duches mistos, mas deparou-se com misteriosas dificuldades: conta Gouveia que uma rapariga, certamente de matriz reaccionária, “se sentiu desconfortável com rapazes que usaram esta experiência para olhar para elas”. Que surpresa! Vá-se lá saber porquê! Provavelmente não leram Trotsky.

Nos meus tempos de liceu, a dicotomia homem/mulher não só não era “extremamente redutora” como me parecia, a mim e aos meus colegas, mais central na explicação do sentido da vida que qualquer conceito filosófico ou religioso que nos tivesse aparecido pela frente. Fiéis a esta inquietação, assim que chegávamos da aula de ginástica amontoavamo-nos sobre a pesada dupla porta que separava o balneário dos rapazes do das raparigas. A porta encontrava-se claro está trancada – o Liceu Francês era tido por liberal nos costumes, mas não tanto como a juventude do Bloco – mas tinha um buraco no sítio do entretanto desaparecido manípulo que dava para um ângulo morto do lado feminino. As miúdas conheciam aliás perfeitamente o buraco e evitavam ir para esse lado, pelo que o pessoal, contrariamente aos sortudos da juventude bloquista, não via nada.

Ainda assim a tradição instituiu-se e em cada fim de aula a metade masculina de cada turma amontoava-se com grande alarido contra a porta para uma vã espreitadela. Até que um dia os materiais do trinco, menos infatigáveis que nós, acabaram por ceder e as portas do paraíso escancararam-se de par em par. No chão do balneário feminino ficou um amontoado de uns trinta miúdos imberbes nos seus treze anos, um dos quais era eu, enquanto elas gritavam e corriam a esconder-se nos duches. Em consequência deste sucesso, todos os rapazes do ano levaram um castigo colectivo, os que caíram e viram, os que não caíram mas viram e até os que não estavam lá mas que certamente haveriam de querer ter estado, o que pareceu justo a toda gente. Quanto a mim, no meio daquela confusão ainda consegui aperceber-me da minha colega IG em cuecas e sutiã, visão que preencheu a minha vida de sol até pelo menos às férias grandes e me valeu nos dias seguintes vários reparos professorais sobre o meu ar desligado das matérias que estavam no quadro.

Hoje já não ando propriamente a arrombar portas em grupo, mas para mim redutora continua a ser a espécie química que perde electrões para um oxidante, e nunca a dicotomia homem/mulher, uma das melhores invenções do processo evolucionário. Deu-me esta dicotomia excelentes momentos de vida – não o que estais a pensar, seus torpes! – como por exemplo o fazer crescer dois filhos com o auxílio de duas perspectivas tão essencialmente diferentes. E inspirou momentos da maior beleza para usufruto de todos: não estou a imaginar rasgos como Mme. Bovary, O beijo ou Annie Hall, saídos da visão aplainada de um Gouveia do Bloco.

Esta panca bloquista com retretes monocórdicas até poderia vir de um ou outro charrito mais bem servido, já que a juventude bloquista estereotipadamente inala, aliás com o beneplácito da cúpula organizativa porque o cheiro a ganza também cheira a fracturante. Mas veremos que não, que é mesmo assim, já que os organizadores estão desertos para falar à jornalista “de política”, já que “tudo é política, até a intimidade e as experiências que se partilham em espaços de conversa como o feminista e o LGBTQIA+”. Estou a citar, claro, porque eu não sei o que é o LGBTQIA+. Ou melhor, sei até ao T, mas desconheço o que serão o Q, o I, o A e o +: calculo que sejam uma curte e agradeço a quem souber que me esclareça.

Sinceramente, engalinha-me a obsessão bloquista com a temática sexual e as setenta mil formas de diversidade sexual. Para que conste, sou um daquele chatos heterossexuais e monogâmicos. Mas não julgo os outros nem positiva nem negativamente e mais: estou-me violentamente nas tintas para o que o resto da população mundial adulta faz entre quatro paredes, de sexos opostos, do mesmo, sozinhos, aos pares, aos trios, aos batalhões, lenta ou acrobaticamente, de pé ou deitado, com chapéu de aviador, aipo molhado e batedeira de ovos, com voos do alto do guarda-fato, tudo o que quiserem, desde que seja livremente praticado e consentido. E nem é uma questão de tolerância, palavra que acho horrorosa já que o que se tolera é o cheiro a peixe na praça ou o som da televisão do vizinho de cima. Em relação às escolhas sexuais dos outros, não reconheço nem a mim, nem a ninguém, o direito sequer de opinar. E neste particular, passe a imodéstia, se todos fossem como eu o mundo seria um lugar melhor.

Claro que o Bloco tem um pequeno problema, que tenta exorcizar com esta folestria pseudo-libertária: é que a corrente política e os partidos que formaram o Bloco (e que não desapareceram de todo, ainda lá andam) sempre foram tradicionalmente algo, muito ou extremamente reaccionários no que toca a moral sexual, consoante as épocas e os locais. O “homem novo” do marxismo-leninismo era muito homem e não tinha vícios nem degenerescências burguesas, não havia espaço para grandes variedades e muito menos para o L, o G, o B, o T e o resto do alfabeto. Há portanto aqui um pecado original para expiar.

Como um moralista, no pior sentido da palavra, dificilmente deixa de o ser, os bloquistas continuam nestas matérias a meter o nariz onde não são chamados. Enquanto os avós ideológicos dos meninos e meninas deste acampamento Liberdade reprovavam e, tendo o poder, reprimiam os homossexuais, os netos continuam a querer impor comportamentos e acham que isso é que é liberdade. Atentem neste pedaço de reportagem: “Quanto aos jogos, há um em que duas pessoas do mesmo género (binário ou não) trocam uma laranja com o pescoço. Normalmente cai. É um desastre sempre, mas é divertido, porque colocamos as pessoas a interagir fisicamente muitas vezes com pessoas do mesmo género e isso pode ser algo a que não estão habituadas”. Ou este: “Também fazem um comboio de massagens – as pessoas têm de fazer massagens nas costas das outras ou na cintura. São, diz Ricardo Gouveia, mais uma vez, gestos muitas vezes sexualizados, que se evitam dentro do mesmo género, mas que ali conseguem, de forma pacífica e sem obrigar ninguém a nada, desconstruir algumas ideias”.

Apetece-me dizer: vai mas é tu, ó Gouveia. Este rapaz, a jornalista que o entrevista e a turba saltitante que vota no Bloco não percebem a linha ténue que há entre uma força política reprimir a homossexualidade ou promovê-la. Em ambos os casos há uma suposta vanguarda bem-pensante que se acha no direito de achar o que os outros têm que fazer. E isso é perigoso e é retrógrado: não será novidade porque para mim o Bloco de Esquerda é um partido perigoso e retrógrado. Em matéria sexual, a única responsabilidade do Estado, ou do colectivo, é garantir que o espaço de liberdade privado existe e não é molestado. É pôr lá a arena. Depois cada um faz a tourada que quiser. Só que este conceito já é libertário de mais para os Gouveias desta vida.

O socialista Álvaro Beleza, chateado com o PS quando António Costa montou a chamada geringonça, referiu publicamente que o Bloco de Esquerda era um partido adolescente. Só em parte tem razão. O Bloco é o partido “hippie chique” da política portuguesa. E a parte “hippie” é de facto adolescente no sentido mais pateta da palavra, com as suas festas em que acham que evitam o sexismo e o machismo com mulheres transgénero a pôr música – uma vez mais, “Gouveia dixit”. Mas verdadeiramente tenebrosos são os mais velhos, a parte chique do partido, com as suas camisas Façonnable. Durante estas mesmas férias acabei o livro “Os burgueses”, da autoria de Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Jorge Costa, três pesos-pesados do partido. Com estes já é política a sério, não há cá LGBTQIA+, nem sequer -. Sobre o que lá li, que não achei simpático, conto deixar-vos um “post” muito em breve.

Como palavra final: estas cenas fracturantes promovidas pelo BE acabaram por ser um bom golpe de “marketing” para capturar uma certa franja do eleitorado que sente necessidade de se achar moderno, ou lá o que acham que isto é. Mas quando oiço estes Gouveias, ou a Catarina Martins com a sua permanente certeza de superioridade moral, vêm-me umas saudades danadas do Américo Duarte, deputado único da UDP à Assembleia Constituinte de 1975. Aquilo era barba cerrada, blusão de ganga, boas tiradas sobre o patronato e um ar inequívoco a cintura industrial de Lisboa, tudo aquilo de que hoje a imagem pop do Bloco foge a sete pés. Só tinha 1% dos votos, mas era genuíno e por isso eu gostava dele.



sábado, julho 02, 2016

Regressão



Caso para dizer: “long time no see”. Mataspeak andou entretido noutras frentes e tanto tempo passou desde o “post” anterior que os ingleses, privados da luz esclarecida dos textos que aqui se escrevem, entraram em parafuso e votaram a saída da União Europeia. Aqui ficam algumas impressões sobre este acontecimento momentoso – tradução muito livre de “momentous”.

1)      Democracia não é só quando dá jeito

Da leitura de certas linhas de comentário antes e depois do voto dos britânicos, deduzo que muita gente acha que a democracia é um adereço que só se usa em dia de festa.

A saída do Reino Unido da União Europeia traduz o voto maioritário de um povo numa eleição livre e democrática, povo que não é aliás qualquer um no que a democracia se refere. A convocação do próprio referendo resulta do cumprimento de uma promessa eleitoral de David Cameron num sufrágio anterior que venceu por maioria absoluta e em que anunciou previamente que o iria convocar – o que nunca passaria despercebido como detalhe menor do programa eleitoral. Apesar de ir ficar na História como o dedo que apertou o gatilho num dos maiores tiros no pé  de sempre, Cameron merece o respeito de não ter fugido à promessa, por muito pouco jeito que lhe tenha dado.

Por outro lado, é da natureza da democracia que o voto do velhote rural nos West Midlands valha tanto como o do jovem profissional sofisticado que pode pagar a renda em West London. A mim parece-me muito bem que assim seja porque é a única forma de garantir o respeito por cada voto e logo também pelo meu, quando o exerço. Mas já percebi que esta natureza fungível do voto escapa a algumas mentes superiores - ou que pelo menos assim se acham em frente ao espelho da manhã.

A estas, recomendo a releitura do que vem logo para aí na segunda página do “Espírito das Leis”: “O povo é na democracia em certos aspectos um monarca, noutros um sujeito. Só pode ser monarca através dos seus sufrágios, que são as suas vontades. As leis que estabelecem o direito de sufrágio são pois fundamentais neste tipo de governo.”

Concordo com Montesquieu: para o melhor e para o pior, a vontade do povo só se mede pelo voto, e não pelos papos esclarecidos de qualquer vanguarda, por reluzente que esta pareça.


2)      Os povos têm o direito de decidir sobre o seu destino

Desde que o referendo foi anunciado até hoje, também me fartei de ver e ouvir considerações que tratavam o facto de os britânicos irem discutir a sua permanência na UE como mais uma bizarria além-Mancha, tal como conduzir à esquerda ou beber cerveja morna e morta.

Há que ver duas coisas. Primeiro, qualquer povo tem o direito a decidir se quer aderir, continuar ou sair de uma associação política, medindo as vantagens e inconvenientes e assumindo as consequências. Isto penso eu, mas não estou certo de estar muito numerosamente acompanhado. Fico parvo quando as mesmas vozes que se extasiam com o folclore independentista catalão, como se Espanha fosse um estado opressor, tratam o referendo britânico como se de uma iniquidade fascista se tratasse. Em segundo, a União Europeia tem feito tudo, mas mesmo tudo, para que a discussão sobre ficar ou sair se torne pelo menos um pouco pertinente.

Isto no plano dos princípios. Constato que depois o debate eleitoral sobre a permanência, que deveria ser positivo e que teria muita utilidade para a própria UE, se abastardou pela mão dos partidários do Brexit e se tornou uma discussão pela negativa, onde se esgrimiram medos e mentiras e não ideias. 

No fim do dia, este acabou por ser um plebiscito a uma forma de populismo rasteiro que é hoje o grande inimigo das democracias e que serpenteia traiçoeiro quer nos fantasmas das bases, quer nas peneiras de algumas elites.




3)      A União Europeia pôs-se muuuuito a jeito

Ninguém no mundo ganharia umas eleições a dizer mal do papa Francisco. Qualquer populista de meia-tijela, em qualquer lugar, granjeia votos a cascar na União Europeia. O primeiro tem uma gestão de discurso e imagem perfeita, a segunda põe-se a jeito permanentemente.

A UE foi fundada por homens que viam longe e é agora gerida por gajos que nem ao perto vêem. A gestão de qualquer problema é hoje lenta ao ponto de ineficaz, incompleta, inigual nas exigências aos Estados-membro e o mais das vezes desligada dos valores essenciais e originais que estiveram na origem da ideia europeia. Cada vez que o Schauble ou o Dijsellbloom abrem a bocarra, a união dá um passo no caminho da dissolução.

A UE cresceu demasiado depressa e precipitadamente. Alargou-se a leste a países que ou não tinham ainda a capacidade económica para o embate ou não tinham qualquer tradição liberal ou democrática ou as duas coisas simultaneamente. Criou uma união monetária parcial, mal pensada, que se tornou um pesadelo para todos, presos que estão sem mecanismos para voltar para trás ou lucidez para seguir em frente. Desenvolveu uma burocracia ridícula, que fala em liberalismo mas legisla sobre tudo e mais alguma coisa, do revestimento do chão das pocilgas ao fermento dos queijos, lá do fundo de cubículos no Quartier Européen de Bruxelas. Na questão dos refugiados, falhou miseravelmente, esquecendo as obrigações morais do seu próprio passado, cedendo à pior ralé que musgueia por esse continente fora e varrendo o problema para debaixo do tapete, pagando aos turcos para fazer o trabalho sujo.

Os falhanços mais profundos da UE resultam de se ter esquecido da sua essência original, que foi a de uma construção política e humanista de países democráticos iguais entre si. Deixou que a Alemanha tomasse conta do volante, algo que historicamente foi sempre um passo decisivo a caminho do desastre. Deixou que o fascismo se instalasse em certos governos sem fazer nada contra isso: a Hungria já há muito que devia estar a ser expulsa da união. Deixou desvanecer a aura de autoridade moral que tinha com a sua incapacidade de evitar a maneira porca com que Estados-membro trataram seres humanos que fugiam à morte, veja-se a Dinamarca. Deixou que a economia tomasse o freio nos dentes, incapaz de perceber colectivamente que existem limites políticos à optimização económica e que a História acaba sempre por desvendar quais são, às vezes com muito sangue e dor. 

E é pena, porque a União Europeia continua a ser uma das mais bonitas construções no percurso da Humanidade, que trouxe setenta anos de paz a um continente cronicamente à pancada. A UE teve culpas no “Brexit” e o “Brexit” poderá ter culpas no esboroar da UE. Quando a UE desaparecer,  provavelmente haverá guerra na Europa no espaço de uma geração e aí os saudosos falarão do bom que eram os tempos da União Europeia.


4)      As consequências disto tudo

Não vou falar do desmoronar das bolsas no dia 24, até porque prudentemente vendi no dia 23.

 Mas há muito mais. O “Brexit” abriu as caixas todas que a Pandora trazia no carrinho: pode trazer o fim da União Europeia, o fim do Reino Unido, o recrudescer do conflito na Irlanda e muitas outras coisas. É sem dúvida um facto histórico de primeira grandeza, daqueles após os quais as coisas nunca voltam a ser como eram.

Para o fim da UE, os populistas de pouco coturno já começaram a bradar pelo seu próprio referendozito local: arrancou com Marine Le Pen, continuou com o Geert Wilders e até  tivemos a Catarina Martins entusiasmadíssima do alto de um palanque, desertinha por confirmar a minha teoria que o saco da farinha é todo o mesmo. Enquanto estes dizem mata, os eurocratas dizem esfola. Incapazes de perceber o que aconteceu, como incapazes foram de perceber o que acontecia, o presidente da Comissão Juncker entretem-se no Parlamento Europeu a descer ao nível de Farage e o “wirklicher führer” Schauble decide dar com Portugal um exemplo esplendoroso dos grandes perigos da rigidez luterana. Entre a saltitante Martins e o rolante Schauble, caminhamos com garbo para o ruir da união. E quando esta ruir, repito, dizem-me a minha intuição e as lições da História que no espaço de vinte anos haverá guerra a sério em território da Europa.

Outro efeito relativamente rápido poderá ser a desunião do reino. Voltaremos eventualmente aos tempos gloriosos de Henrique V, em que o exército “britânico” tinha peões ingleses e arqueiros galeses e parava aí. A líder do SNP, Nicole Sturgeon, andava só à procura de um pretexto para desdizer os resultados tangenciais do referendo de 2014 e relançar o tema escocês. Agora já o tem.

Quanto à Irlanda do Norte, pior ainda. Um território com duas comunidades de dimensão paritária, que se odeiam, pode dar tudo. Se ficar integrado na Irlanda, revolta da comunidade protestante. Se num Reino Unido isolado e totalmente inglês, revolta da comunidade católica. Se independente, tensão interna. Não nos devíamos esquecer que durante os anos setenta e oitenta houve muitos mas muitos mais mortos por acções terroristas na Europa do que nestes anos recentes, e que a maioria foi em acções do IRA. Este assunto deveria ter sido mais pensado, mas Farage estava preocupado com os seus pequenos traumas de classe média-baixa e Boris com as suas pequenas ambições de classe média-alta.

Finalmente, logo no dia seguinte ao referendo, começou-se a verificar um aumento dos insultos e ataques racistas contra os polacos, os muçulmanos, os portugueses, para cerca de cinco vezes mais do que dantes. Não pode surpreender ninguém: os milhões que compram o “The Sun” e o “Daily Mirror” tinham que estar em algum lado. Este tipo de gente é cobarde pelo que prefere a matilha e o Brexit deu-lhe essa sensação de pertença. Basta muito pouco para libertar o camisa negra que há em nós.

As consequências são pois muitas e graves. Mas tal não justifica desrespeitar os resultados do referendo ou indo-lo repetindo até dar “o que se quer”. Também é da essência das democracias que os povos sejam adultos e vivam com o resultado das suas escolhas.
 
 

5)      O populismo como moderno cancro político

Poderá ser uma generalização grosseira, mas parece-me que o Brexit é apenas mais uma manifestação de um fenómeno que varre a Europa (e não só) com maior ou menor intensidade e que à falta de melhor vocábulo chamo populismo. O populismo tem agentes, destinatários e uma essência.

A essência é uma recusa colectiva de encarar a realidade e uma abdicação, também muito colectiva, de utilizar os meios que permitem compreendê-la. Umberto Eco traduziu-a numa frase que explica perfeitamente as disformidades do mundo contemporâneo: a mentira é mil vezes mais atraente do que a verdade. A realidade é insegura, turbulenta, difícil de apreender, multifacetada, arriscada. Compreendê-la implica um esforço de conhecimento e análise, bem como a utilização de ferramentas mentais como a dúvida, que nos é contra-natura, ao revés da mais humana e aconchegante certeza. A certeza sabe-nos bem, mesmo quando é irreal.

Os destinatários desta essência somos todos nós e hoje a maioria de nós está disponível para ela. Informamo-nos por telejornais e partilhas de Facebook, o que equivale a dizer que não nos informamos, vamos buscar pouco à leitura dos nossos melhores, sejam passados ou presentes, e preferimos o sossego de nos arrumarmos na ideia fácil que há sempre um outro odioso e um nós imaculado. Por isso basta dizerem-nos o que queremos ouvir e aderimos a correr.

E isto não tem só a ver com o Brexit, tem a ver com muitos desvarios aparentemente diversos mas unidos por uma mesma atitude de preguiça diante da natureza exigente da verdade, uma atitude de recusa do debate, da reflexão, da ciência, da possibilidade de erro, da noção de compromisso. Pode materializar-se no medo do estrangeiro na Polónia ou em Inglaterra, na estigmatização das minorias na Hungria, no mito da preguiça mediterrânica na Alemanha, na subida dos fascismos um pouco por todo o lado, nos esquerdismos fáceis, nos direitismos cegos, no novo totalitarismo ambientalista que recupera os velhos mitos dos paraísos bucólicos, e em milhares de causas porreiraças que desviam o pessoal das coisas que deviam ser sérias, causas que vão da – para mim perigosíssima - equiparação dos direitos dos animais aos dos homens ao magno e pitoresco tema do “fracking”, causas que não são causas mas sim meras bandeiras num convescote porque quem as promove não está minimamente interessado em debater mas apenas em ter “razão” e sentir-se o maior por isso.

Os agentes, esses, são os que por crença ou por interesse, quais deles os piores, se resumem a dizer o que é simpático ouvir-se. São os Farages e os Johnsons, as Le Pens e as Petrys, os Orbans e as Szydlos, mas também os Iglésias e as Martins e tantos outros que só conhecem como método político o agitar das águas lamacentas do populismo.

Neste contexto, vão-se esvaziando os partidos que fizeram a Democracia europeia (veja-se as recentes eleições para a presidência austríaca e para a câmara de Roma) em prol de todo o tipo de malta perigosa. A nova dicotomia não é entre esquerda e direita, como em Portugal castiça e puerilmente se apregoa. É entre um centro democrático, degradado, cego e meio perdido, e uma periferia populista que se alimenta dos receios dos abandonados da globalização, crescendo no sentido do totalitarismo. Cheira a anos trinta que se farta. A culpa será dos agentes, mas também dos destinatários. Sem destinatários não há agentes. 

Perante isto que fazer? Talvez falar um pouco mais alto, escrever umas coisas, dizer o que aqui digo no círculo dos meus amigos, ser exigente com eles. Quando alguns vêm com os chavões populistas, não os deixar escapar sem uma boa conversa. Tornar-me um chato. Mais ainda.