Fui há dias ao CCB, a que eu muitas vezes por lapso cavaquiano
continuo a chamar, passados todos estes anos, Centro Comercial de Belém, ver a trilogia
Oresteia de Ésquilo. Picado o bilhete, um átrio pequeno para tanta gente
abrigava os pagantes do frio da noite de Fevereiro. Não se viam as portas da
sala e civilizadamente uma fila foi-se formando, com fim mas sem princípio, uma
vez que desembocava numa mole desordenada que ocupava o fundo da salinha.
Acabámos por ser dos primeiros a entrar, involuntariamente à tuga.
Apesar de uma acústica deficiente e de um ou outro lapso de
memória dos actores, não dei por perdidos tempo e dinheiro. Era o último dia e
sabia pelas resenhas que lera que nos iriam servir uma versão modernaça,
pontuada pela música dos Dead Combo. Gostei do que vi e ouvi: plasticamente a
encenação é muito bela no seu despojamento e no jogo das luzes e das sombras sobre
um cenário simples de panos translúcidos e o som minimalista mas obsessivo dos
Dead Combo aviva o ambiente de tragédia que vamos acompanhando. Trata-se afinal
de teatro: o que aparece em palco não é como no cinema uma realidade total, fotográfica,
mas meramente os símbolos que são a essência da realidade narrada; portanto um
mínimo basta e mais do que isso até pode ser demais.

Apreciei também que, embora reinventada, o encenador não se
tenha esquecido que de uma peça grega clássica se trata, vergando-se subtil mas
humildemente aos respectivos cânones: as máscaras, as poderosas falas do coro,
os enfáticos monólogos das personagens dilaceradas pela tragédia, até as
botifarras com que os actores entram em palco lembrando os coturnos que há
vinte e cinco séculos os seus antecessores usaram para se altear ao público.
Oresteia compõe-se de três peças, Agamémnon, Coéforas e
Euménides. As duas primeiras vão beber à maldição que atormenta a casa real de
Agamémnon, rei de Micenas e líder dos gregos durante a guerra de Tróia. Ainda
antes de a acção começar, os personagens já vêm marcados pela tragédia. Com efeito,
Atreu, pai de Agamémnon, quando descobre que a sua mulher Aérope o andava a
enganar com o seu irmão gémeo Triestes, decide vingar-se. Em vez de resolver o
caso com uma espadeirada, vá uma cornada, o refinado Atreu assassina os filhos
do irmão e serve a sua carne num banquete para o qual o convida, antes de o
expulsar de Micenas.
Educado nesta família algo disfuncional, em que a mãe come
figuradamente o tio, o pai mata os primos, o tio come não-figuramente os primos
e o pai exila o tio (e à época era pior ignomínia ser exilado do que guisado),
não surpreende que o pobre Agamémnon tenha ideias estranhas. Por isso, quando
um tal Calchas, oráculo de profissão na modalidade de interpretação de voo dos
pássaros, lhe sugere que sacrifique a sua própria filha Ifigénia para ver se os
deuses mandavam algum vento para empurrar até Tróia a encalhada armada grega,
Agamémnon não se faz muito rogado. Hesita inicialmente mas pressionado pelos
restantes comandantes gregos, que lhe vão dizendo que nem a guerra começava nem
eles almoçavam, lá manda vir a cachopa para a degola sob o pretexto enganoso de
a casar com o herói Aquiles. Para apimentar a situação, a falta de vento
devia-se a uma birra da deusa Artemisa, que ficara chateada quando Agamémnon
acidentalmente matara um veado num bosque sagrado que lhe era dedicado –
veja-se o risco dos acidentes de caça. Agamémnon tem portanto dupla
responsabilidade na morte da filha.
Isto passa-se antes do início da Oresteia, já que neste assistimos
ao regresso a casa de Agamémnon, após dez anos de guerra de Tróia. Regressa
vitorioso e com ele traz Cassandra, uma vidente. Clitemnestra, a mulher de
Agamémnon – serão o casal com os nomes mais trava-línguas da história – andou
dez anos a remoer a morte da filha e também não fica muito satisfeita com a
presença de Cassandra, que ela vê imediatamente que serve mais para o marido
ver o padeiro do que ver o futuro. Ressabiada, apunhala o marido na banheira –
aos olhos da época uma agravante já que não só mata como fá-lo no sacrossanto
recato do lar, onde o seu dever é atender o marido e não assassiná-lo – e de
caminho limpa a Cassandra também, indo-se depois justificar em conversa com o
coro. Nisto aparece Egisto, o amante de Clitemnestra – dez anos são muito tempo
para quem não se chama Penélope – e este revela que a morte de Agamémnon foi
premeditada e planeada também por ele. Para Egisto, trata-se de uma vingança já
que ele é um filho não jantado de Triestes. Neste ambiente algo filme série bê
acaba a primeira peça da trilogia.

Na segunda, Orestes, filho de Agamémnon e Clitemnestra e
portanto irmão de Ifigénia, regressa a casa de um longo exílio na companhia do
seu primo Pilades. Orestes também consultou o oráculo, onde o próprio deus
Apolo lhe mandou matar a mãe para vingar o pai para ficar tudo quite. Orestes
encontra a outra irmã, Electra, e envolve-a no plano assassino. Usando o velho
truque de não ser reconhecido (para isso é que eles ficavam muitos anos fora) e
com alguma ajuda do pessoal do coro, entra no palácio e trata primeiro do
Egisto. Nesse momento a mãe entra na sala. Orestes hesita em matá-la tal como o
pai hesitou em matar Ifigénia, só que está lá o Apolo em pessoa – melhor
dizendo, em divindade – que o aperta um bocado, lembrando-lhe o combinado.
Orestes acaba por perpetrar o matricídio o que tem como consequência
desencadear a fúria das deusas Fúrias, umas precursoras do trio Mr. Smith/Mr.
Brown/Mr. Jones do Matrix. Perseguido por estas, Orestas foge galhardamente do
palácio pondo fim à segunda peça.
Até aqui, temos
tragédia grega no seu normal: os azares acontecem e há que pagar a conta, cumprindo
o destino, repondo equilíbrios cósmicos. Atreu matou os filhos de Triestes, um
outro filho de Triestes mata o filho de Atreu, Agamémnon. Agamémnon matou
Ifigénia, a mãe de Ifigénia mata também Agamémnon, que leva por dois lados.
Orestes, filho de Agamémnon, tem que reequilibrar o marcador matando os
matantes do pai. Por muito bons que sejam os seus motivos, um crime tão
horrível não pode ficar sem desforra e à falta de pessoas de carne e osso que o
façam, as deusas Fúrias vão tratar do assunto.
Só que ao entrarmos na terceira peça, Eumenídes, o conceito
muda radicalmente. As Fúrias perseguem implacavelmente Orestes e este, com
alguma ajuda de Apolo, lá se vai safando até encontrar a deusa Atena, a quem
pede ajuda. Atena cria então um tribunal no areópago de Atenas, onde a decisão
vai ser tomada por jurados (nesta encenação o próprio público) que constituem
um júri. Após ouvir Apolo e a Fúria-chefe, que funcionam como advogados de
defesa e acusação, Atena conta os votos dos jurados: metade dizem culpado, a
outra metade inocente. Atena usa o seu voto de qualidade para inocentar Orestes
e quebrar a cadeia trágica de morte e vingança. Consegue convencer as Fúrias a
aceitar o veredicto e muda-lhes o nome para Euménides, que significa “as
amáveis”, pedindo-lhes que sejam uma força de vigilância e não de vingança.
Atena acaba de criar o primeiro tribunal entre os homens, passando-lhes de
caminho a responsabilidade pelos seus actos. Será o Direito dos homens e não
mais os oráculos dos deuses ou a força do Destino que decidirão da culpa e da
inocência.
Este final parece-me tanto mais notável ao constituir um
rasgo com um conceito muito enraizado entre os gregos antigos, que é a
inexorabilidade do destino: um mal não pode ficar sem vingança e esta ocorre
mais cedo ou mais tarde, senão ao causador do mal então a alguém do seu sangue
que sofrerá um mal de grau comparável. Nesta visão, o Destino é uma estrutura
essencial do universo e mesmo os deuses lhe estão sujeitos. Tal é amplamente
retratado nas tragédias gregas em que os personagens, por muito virtuosos e
heróicos que sejam, sofrem o seu destino por pouca ou nenhuma culpa directa que
tenham: Ifigénia não tinha nada a ver com que o pai por acidente ofendesse a
deusa Artemisa. Mas tinha o mesmo sangue e por isso o seu destino ficou selado:
a sua morte aplacou a deusa e reequilibrou o cosmos. Neste conceito de universo,
dois males anulavam-se em vez de se adicionar.
Mas neste final Atena, deusa da sabedoria, acaba com isso. Há
aqui um reconhecimento de que a justiça não pode ser perfeita, não sendo melhor
a dos deuses que a dos homens, e que a complexidade das coisas requer debate,
reflexão e julgamento. Nem sempre a culpa é um conceito fácil: todos os
espectadores sabem que Orestes matou a mãe, o mais nuclearmente sórdido e
contra-natura dos crimes, mas Ésquilo foi suficientemente hábil para induzir
nos espectadores o melhor da natureza humana e levá-los a alinhar-se com o
veredicto do tribunal.
Ora reparem como isto parece todo o contrário da voz que é
corrente na nossa sociedade, tal como emana das redes parece que sociais e dos
tablóides, entendendo-se por tablóides não apenas o Correio da Manhã mas também
por exemplo os telejornais da Sic Notícias ou da TVI 24, com aqueles “pivots” que
se auto-intitulam jornalistas como noutras ocasiões se auto-nomeiam escritores.
A visão de justiça que sai dos ecrãs é infelizmente a das Fúrias e não a de
Atena, é a de Micenas e não a de Atenas. Hoje, o julgamento faz-se na praça
pública, regido pela aparência dos factos e pela aparência das pessoas, sem
contraditório e com um desprezo indisfarçado pelas garantias da lei, que
existem no entanto para proteger a Orestes como a cada um de nós de uma justiça
que não seja mera vingança social. O que interessa neste nosso mundo de cento e
quarenta caracteres máximos de reflexão é que haja sangue e aquela mindinha
presunção de superioridade moral, “a la Bloco de Esquerda”.
Suponho que para Ésquilo o trágico fosse a condenação de um
inocente e não a absolvição de um culpado. Para mim e estou convencido que para
muitos outros, também. O homem civilizado, passe a imodéstia, vive bem com os
riscos da vida: os terramotos, a doença e a morte, a imperfeição da lei dos
homens que na dúvida liberta o culpado; mas não pode sofrer a ideia que por
excesso de zelo ou falta de humanidade se condene um inocente, ou até que se
transforme a justiça num espectáculo circense ao nível do comentário da jornada
futebolística. Não sei se os que assim pensam são maioritários ou minoritários no
Portugal de hoje, mas certamente carecem de visibilidade.

Pouco se conhece sobre Ésquilo. Nasceu em Eleusis à volta de
523 A.C. e morreu próximo de 456 A.C. Escreveu setenta a noventa peças das
quais só sete chegaram aos nossos dias, nem sabemos se as melhores. Foi pai de
família, teve dois filhos. Possivelmente vestiria uma túnica, calçaria umas
sandálias toscas e comeria com os dedos. Não tinha telefone inteligente. E há
dois mil e quinhentos anos escreveu e partilhou com os seus conterrâneos
conceitos que hoje parecem esquecidos numa sociedade que se julga sofisticada, formada
e informada: que a democracia e a justiça são uma preciosa dádiva dos deuses. E
fê-lo de uma forma tão poderosa que pelo menos durante as duas horas da peça,
ali no CCB, venceu a sanha dos tablóides.