Vai em França uma certa escandaleira com a intenção
manifestada pela prestigiada e muito sóbria editora Gallimard, aquela de boas
obras e belíssimas capas, de reeditar as mil páginas de panfletos anti-semitas
de Louis-Ferdinand Céline.
Como seria de esperar organizações judaicas indispuseram-se
contra a publicação, assim como políticos e académicos, tanto à dextra como à
canhota, reclamando a proibição desta reedição. Indo um pouco mais além, até o
governo de Emmanuel Macron convocou o editor, tentando-o convencer a não
publicar ou pelo menos a afogar o texto em notas enquadradoras redigidas por
historiadores de confiança, em benefício das nossas mentes pequenas.
É sabido que Céline foi de facto um anti-semita militante,
racista, beato no pior sentido da palavra, e também a seu modo um
colaboracionista durante a Segunda Guerra Mundial, após a qual se teve que pôr
a andar de França em grande velocidade para que nada de muito grave lhe
acontecesse. Em 1950, à revelia, a França julgou os seus crimes e condenou-o a
um ano de prisão (que considerou cumprido no exílio), a cinquenta mil francos
de coima, ao confisco de metade dos bens e à indignidade nacional, assim, “tel
quel”. No entanto, logo um ano depois, autorizou o seu regresso e Céline viria a
morrer tranquilamente em casa em 1961.
Acontece por coincidência que foi durante Novembro e
Dezembro passados que li “Viagem ao fim da noite”, a obra-mestra de Céline.
Aqui confesso com alguma vergonha que esperei pelos cinquenta e quatro anos
para ler este livro: está mal, foi tarde, deveria ter sido antes, talvez aos
trinta.
“Viagem ao fim da noite” é um dos romances mais bem escritos
que já li. Será também, provavelmente, o livro mais cru ou mais sincero –
hesito no adjectivo – que já me passou pelos olhos. É um livro terrível, na
leitura e depois dela. Lê-lo é como deslocarmo-nos em ruelas escuras numa noite
do maior nevoeiro: um percurso lento, feito de arranques e paragens, de dúvidas
no caminho, de esforço e cansaço, da convicção que não há regresso e de que há
que chegar ao fim por muito que custe. Depois de lê-lo, dificilmente a nossa
visão do mundo e sobretudo de quem o habita continua a mesma. É difícil não
ficarmos a desprezar aqueles personagens (nos quais Céline se inclui, uma vez
que se retratou no narrador, Ferdinand Bardamu) e aquela massa de gente
mesquinha, egoísta, desprovida de valores, arrastando-se pela vida sem destino
e sem dignidade, vítima das suas urgências e medos, disposta ao mal desde que
sem consequências, petulante e patética na sua necessidade de parecer séria e
digna, mitigando a sua desgraça de forma quase animalesca na gula e na luxúria.
E o pior, e nisto reside também o talento de Céline, é que nos dias seguintes esta
humanidade decadente não deixa de ser muito parecida com a que vemos das nossas
janelas. Demora um pouco a limpar a vista ou a retapá-la, sei lá.
Nas entrelinhas de “Viagem ao fim da noite”, revela-se sem
grandes pudores um autor pouco simpático. Não faz cá falta o brilho intelectual
dos académicos franceses para descobrirmos que Céline é racista. Basta lê-lo. É
racista, misógino, puritano, descrente nos valores da humanidade e da vida.
Cínico como poucos diante das instituições humanas, da família à amizade, da
política ao exército, da ciência ao trabalho, do amor à morte. Só a espaços
aparece algo de sublime, que não percebemos se se trata de uma aspiração ou do
seu melhor fundo. Mas é só a espaços e como Céline não se esconde atrás de convenções,
sente-se à vontade para desmontar as barreiras que erguemos à volta das nossas
fragilidades, trazendo-as lá do fundo da caixa craniana para os holofotes das
nossas consciências.
Temos pois um filho-da-puta perspicaz e com talento, que
escreveu mil páginas de violento racismo contra judeus, defendendo inclusive
segundo consta – não as li – o seu extermínio. Devem essas páginas ser
censuradas? Isto porque, sejamos como Céline e deixemos cair os paninhos
quentes, é de censura que em França se está a falar, de censura organizada pelo
Estado. Para mim é evidente que a resposta é não e por várias razões.
Primeiro, porque na minha concepção de um mundo civilizado
só há uma pessoa que pode decidir o que cada um lê ou deixa de ler: o próprio.
No meu caso, eu. Qualquer excepção a este princípio é potencialmente
catastrófica. Se colocamos na mãos do senhor Xis a decisão sobre se o senhor
Ípsilon pode ler um determinado texto, o que estamos a dizer implicitamente é
que o senhor Xis é superior ao senhor Ípsilon. Logo, dada a sua superioridade,
nada impede o senhor Xis, forte da sua mais elevada condição, de tomar outras
decisões sobre a vida do senhor Ípsilon: com quem pode falar, contra o que pode
protestar, como deve pensar, com quem deve dormir, se pode ou não procriar,
etc. A este estado de coisas podemos chamar totalitarismo, sem perda de
generalidade como se diz na lógica matemática. Justificar a censura de um texto
justifica de forma mecânica qualquer outra arbitrariedade que se possa
imaginar. Numa sociedade “democrática e liberal”, a censura promovida pelo
Estado só poderá pois ocorrer em situações muito mas muito extremas, previstas na lei,
limitadas no tempo e no âmbito (por exemplo em situações de guerra ou de
catástrofe, com informações que ponham de forma muito provável em risco a vida
de muitas pessoas). E certamente não deverá acontecer com as páginas deixadas
por escritores já falecidos.
Porque de um escritor se trata, e algo que ainda põe o ser
humano um pouco acima da osga ou do carrapato é o facto milagroso de escrever
livros e lê-los. A segunda razão para não censurar os textos mais obnóxios de
Céline é que isso seria censurar o escritor Céline. E censurando o escritor
Céline, não há razão nenhuma para não censurar também os livros de Céline. Em
“Viagem ao fim da noite” há capítulos inteiros em que os negros das colónias
francesas de África, nos anos trinta, são tratados ora como selvagens, ora como
crianças crescidas. Outros em que as mulheres são vistas numa óptica binária:
ou fúteis ou perversas. Como é, rasgam-se esses capítulos, que poderiam
desencaminhar as almas menos preparadas e torná-las racistas ou machistas? Como
rasgar capítulos deixa o livro coxo, e não prima pela discrição, o melhor será
proibir o livro todo, e já agora os outros de Céline e resolve-se tudo não
falando mais desse gajo. A isto chamou Orwell “vaporização” de uma pessoa, num
livro que escreveu contra as ditaduras, estalinistas ou fascistas, mas que
também assentaria bem na descrição de largos aspectos do politicamente correcto
dos nossos dias. Um livro chamado “mil novecentos e oitenta e quatro” que há-de
também ter partes censuráveis, que o senhor Xis não apreciaria deixar em mãos
inábeis.
Tendo dado o primeiro passo e censurado Céline, podemos
continuar o trabalhinho de corte sem que nos trema a mão, porque parece que há
aí muito livro, ou outras obras, engendrados por pessoal de eras menos esclarecidas,
que convém não deixar à solta sem o devido enquadramento. Herculano não é meigo
para a moirama: corta por racismo. Eça, sempre a espetar afrontamentos nas
mulheres, fracas de espírito e de vontade: corta por machismo. E aquele judeu
de Veneza, o Shylock, a usar de usura? Shakespeare, corta, por anti-semitismo. O
filme “Alexandre Nevski”, com os brancos russos a desancar os tártaros, não
será um pouco supremacista? Melhor cortar o Eisenstein todo. E o retrato do
Pessoa pelo Almada Negreiros? O tipo está a fumar e logo tabaco, em vez da mais
politicamente correcta ganza. Quantos novos fumadores tabagistas já terão
começado no vício ao ver esta imagem? Corta, pelo menos dez centímetros à volta
do cigarro. Más ideias podem também vir da estátua de Diana, a caçadora, que se
encontra no Louvre. Caça, essa barbárie? Corta, ou manda do pedestal abaixo. E
já agora por prudência corte-se o trânsito nos acessos ao templo de Diana em
Évora, não vão os alentejanos começar aos tiros. Bocage tem piadas pouco
convenientes sobre os homossexuais. Será de cortar, por homofobia. E Hemingway
descreveu touradas: outra incivilidade, para cortar. Gulbenkian fez fortuna no
petróleo, essa matéria viscosa que todos usamos mas que o politicamente
correcto ambientalista recomenda não gostar, pelo que será de cortar o Centro
de Arte Moderna e a Orquestra. E por falar em orquestras, o Papageno da Flauta
Mágica andava aos passarinhos. Que crueldade com os bichitos! Corta o Mozart
todo.
Estou a exagerar? Não, estou apenas a brincar com coisas
sérias. Se lermos a longa lista dos autores e das obras que já foram censurados
no mundo, ao longo da história, entre os quais alguns dos que referi acima,
perceberemos que não estou nada a exagerar.
E com isto chego à terceira razão para não censurar os
textos anti-semitas de Céline. Porque isso constituiria mais uma concessão a
esse fascismo contemporâneo chamado “politicamente correcto”, que quer
delimitar aquilo que podemos pensar ou gostar a uma pequena caixa de coisinhas
simpáticas, fofinhas e cor-de-rosa, e que pune qualquer pequeno desvio como se
fosse um crime de honra ou de sangue, vomitando indignações de duas linhas no “Tweeter”
ou no “Facebook”, induzindo crónicas jornalísticas tão inflamadas como acéfalas
nos superlativos de que abusam, e acocorando os políticos, receosos do voto, entalados
entre a populaça e os populistas, em narrativas ocas para o telejornal das
nove.
Céline será muito provavelmente um fascista nojento que
escreveu textos de ódio num tempo em que o ódio matou milhões. Mas do lado
desse ódio estavam os que queimavam e censuravam livros, como agora o
politicamente correcto quer fazer. E do outro, do lado que com muito sangue e
coragem derrotou esse ódio, estavam aqueles que defendiam uma sociedade
certamente imperfeita mas em que todos podiam ler o que bem entendessem e
julgar pela sua cabeça, constituindo-se assim como cidadãos livres, seres pensantes
que por natureza tendem a ser diversos e a fugir da prensa hidráulica da
cartilha “correctista”.
Eu abomino as ideias de Céline, mas quero ser livre de poder
lê-las e não preciso de intermediários para julgá-las. E sei distinguir entre o
Céline nazi e a repulsa que me traz e o Céline escritor, magistral, cujo
talento e alguns livros só honram a humanidade. Tenho pena de hoje me sentir algo
só nesta distinção. O meu pai, que me recomendou tanto a leitura do comunista
John Reed como a do fascista Franco Nogueira, não sendo certamente nem uma
coisa nem outra, faz-me aqui alguma falta. Dizia Oscar Wilde, ele próprio
perseguido pelo que escreveu, que não há livros morais ou imorais, há livros
bons e livros maus. Céline escreveu bons livros, o que faz dele um património
colectivo e um todo do qual ninguém tem o direito de retirar pedaços para
parecer mais conveniente. Por outro lado, o Holocausto não surgiu assim do nada,
teve um contexto histórico. Teve na altura o apoio ou pelo menos a anuência de
milhões de alemães, de franceses, de polacos. Convinha perceber porquê e os
textos que retratam o ódio de Céline talvez possam ajudar. Esconder essa
conivência histórica e os documentos que a ilustram não me parece bom caminho
para que uma desgraça parecida não volte a acontecer.
Publique portanto a Gallimard as mil páginas anti-semitas de
Louis-Ferdinand Céline. Fico satisfeito de ter direito a lê-las se um dia assim o
entender, embora esteja convencido que quase certamente não o farei, que poucos as lerão e ainda menos se converterão ao que pregam. Hoje em dia, quer as nojeiras nazistas quer a
vulgata politicamente correcta não se aprendem em livros, partilham-se no
Facebook.
P.S. Ontem, Trump tentou evitar a publicação de um livro
sobre a presidência, há dias o governo francês de um livro de Céline. “Les bons
esprits se rencontrent”, como lá se diz.