Põe-se a questão se um comportamento nefasto à sociedade,
vulgar numa fracção significativa da mesma, pode ser erradicado pela exposição
ao opróbio por parte da restante porção dessa sociedade.
Penso que sim e vêm-me à memória um exemplo. Recordo-me,
ainda muito criança, do modo como se cuspia para o chão público na cidade de
Lisboa. A boa escarreta era apanágio de macheza e não apenas nas zonas mais
populares: lembro-me perfeitamente de ver senhores bem postos, de fato, gravata
e pança, o cabelo abrilhantinhado em sulcos colados ao coco, óculos de massa e
senhora dona pelo braço, rascar sonoramente as profundezas da faringe para
atirar com uma clara de ovo para o meio do empedrado. Era de homem!
Claro que já então, e falo dos anos sessenta do século
passado, a langonha projectada era mais provável em certos meios do que outros.
Havia tascos aos quais, quando passando na rua em frente à entrada, convinha
dar uns metros de folga porque se arriscava a levar com uma verde voadora
oriunda do interior. Ouvia-se o rrrrrrrrre inequívoco e lá aparecia a cabeça de
um habilidoso no quadro da porta, puxando o pescoço para trás para dar mais
balanço, preparando-se para tentar depositar os seus bacilos no alcatrão da
estrada, o que se conseguido seria feito aplaudido pelos restantes javardos
acotovelados ao balcão de mármore da taberna. Os passeios da cidade reflectiam
esta mentalidade cuspinhante, obrigando os traseuntes a algum “slalom” pelas
calçadas.
Como as crianças tomam por bons o comportamento que observam
nos adultos, também eu um dia decidi cuspir para o chão na rua, e logo em
frente à minha mãe, para mostar como estava crescido. Deveria ter meia-dúzia de
anos nessa altura, e expeli divertido uma salivazinha inocente, que foi cair
poucos centímetros à frente dos meus pés. Para minha surpresa, levei de
imediato uma rabecada da minha mãe, que me esclareceu que era porco cuspir para
o chão. Fiquei confuso, uma vez que do que eu via escarrar para o chão era
coisa normal nos senhores crescidos, mas esta breve objecção morreu logo ali.
Fui informado que só carroçeiros se comportavam assim e que cuspir era um
péssimo hábito que propagava a tuberculose, a labreguice e outras maleitas
contagiosas. Foi lição que me ficou para sempre.

Outras mães devem ter feito o mesmo bom trabalho, e avós, e
autoridades sanitárias, uma vez que hoje, uma geração depois dos factos acima
narrados, é muito raro ver salivar para o chão. As excepções contam-se pelos
dedos de uma mão: futebolistas após um “sprint” de cinquenta metros, alguns
adolescentes na parvoeira, tipos com a palavra mitra tatuada na testa e poucos
mais. Anos e anos de ralhetes, de olhares de soslaio com ar enojado para os
faltosos, de “parece impossíveis” murmurados em voz suficiente alta, acabaram
por envergonhar os prevaricadores. E assim se eliminou, com tempo e
persistência, um comportamento individualmente saloio e colectivamente
perigoso.
E ainda bem que assim foi, porque mostrou que a panaceia
colectiva é possível, conclusão importante já que comportamentos individualmente
saloios e colectivamente perigosos para demolir não faltam também nos tempos
que correm. Um deles, que agora abordarei, prende-se com o modo liberal com que
nas redes sociais o pessoal debita, lê e partilha palpites irreflectidos e
notícias idiotas. A seu modo, uma nova forma de escarrar no espaço público, só
que enquanto as doenças das antigas escarretas atacavam os pulmões, as destas
novas destroem o cérebro, um orgão menos indispensável à vida mas que não deixa
de dar um certo jeito e cuja degradação em grandes números coloca em risco a
sobrevivência das sociedades civilizadas.
Há três anos e tal escrevi
aqui um texto sobre o Facebook,
que incluía o seguinte parágrafo:
“A tecnologia está aí e vai continuar. O que não quer dizer
que tenha que estar acima de toda a suspeita e fora de todo o controlo. Coisas
como a retenção em base de dados das nossas pesquisas na “internet”, as
tecnologias de reconhecimento facial ou os óculos da Google, se deixados fora
de controlo são o sonho de qualquer sistema ditatorial. O poder de entidades
como o Facebook ou a Google, monopólios de informação e estruturas
multinacionais e não-nacionais que fogem a qualquer escrutínio, constitui um
dos grandes desafios para os regimes de direito e democráticos tais como os conhecemos
desde as revoluções inglesa, francesa e americana dos séculos XVII e XVIII e
que com altos e baixos criaram os modernos espaços de liberdade individual que
erradamente julgamos inamovíveis. O poder dessas empresas tem um potencial –
não tenhamos medo das palavras – fascizante e deveria enquanto cidadãos
preocupar-nos. Perceber que o risco existe e que é fundamental controlá-lo pode
ser um bom ponto de partida.”
Na altura levei muita pancada por esta heresia e gente amiga
chegou a comparar-me ao autraulopiteco por causa desta audácia, desmerecendo
certamente o nosso ilustre avô. Três anos passados, verifico que contrariamente
ao que é normal pequei por defeito e não por excesso. Entretanto, os progressos
da barbárie populista na Europa – incluindo nesta o Reino Unido – e nos Estados
Unidos, bem como as intromissões manipuladoras da Rússia em processos políticos
no Ocidente, levaram muita gente a pensar que o impacto das redes sociais na
política, no jornalismo, na sociedade, talvez não estivesse a ser o nirvana que
se dizia. Caldos de cultura de uma mentalidade de bufos, que recuperam a
cobardia da turba e os velhos tiques puritanos e beatos, veículos de propagação
de ideias reacionárias alicerçadas na repetição indocumentada da mentira, os
Facebooks e quejandos não são afinal o novo tabernáculo, mas meramente a velha
taberna. E por isso a inquietação sobre como voltar a meter na lâmpada o génio
diabólico já chegou aos políticos de topo e – pasme-se – até o Zuckerberg finge
estar preocupado com o assunto.

Bom, tendo-se constatado que há bronca, poder-se-ia começar
a pensar nalguma regulação das plataformas, mas há sempre o aspecto
desagradável de facilmente se cair na censura, com o risco da emenda ser pior
que o soneto. Será talvez aceitável regular as redes de modo a que não sejam
canais para a prática de crimes, ou classificar a informação de modo a alertar
para o carácter publicitário ou enganoso daquela que falsamente pretenda passar por
notícia ou mesmo criar limites de idade: as redes sociais tendem a ser coisa
badalhoca, pelo que não me chocaria impedir os menores de idade de aceder, tipo
filmes da bolinha vermelha com platinadas e tarzans. Regras destas sim, agora
proibir não, porque a censura é uma encosta a pique: começa-se à beirinha a
apagar o “post” neo-nazi e acaba-se lá no fundo a proibir o Tratado da
Tolerância. Adicionalmente, o princípio de desigualdade entre pessoas implícito
no acto de censura rapidamente induz mais arbitrariedade, uma vez que os que
acham que sabem melhor não se vão impedir de exercer poder sobre os outros em
todos os campos.
Mas o problema mantém-se. Como evitar as torrentes de
peçonha que todos os dias manam do Facebook e do Tweeter, como prevenir que os
“trolls” – um palavrão cibernético que significa “labrego analfabeto” – tomem
conta da agenda política e mediática através de imbecilidades dedilhadas “webi
et orbi”? É verdade que no fim do dia a culpa não reside nos algoritmos
informáticos, que fazem o que se lhes manda, mas no comportamento cavalar,
intencional ou inadvertido, de uma larga percentagem de utilizadores. Como
eliminar esse comportamento? Se calhar como se eliminou a escarreta no chão,
com forte reprovação pública a um conjunto de actuações que muitos hoje
praticam por falta de quem lhes chame a atenção, convencidos que estão de que a
parolice “on-line” é moderna e a parolice falada ou escrita é arcaica.
Uma das formas de sanear as redes sociais passará pois por
criticar com ar de profundo enjôo ou mesmo ostracizar socialmente amigos ou
desconhecidos que saibamos pratiquem em frente ao teclado certos comportamentos
perigosos para a sociedade. Enumero alguns:
- deixar comentários anónimos em
“sites” de jornais, especialmente se forem do tipo “são todos corruptos” ou a
manifestar dor de corno em relação a algum tipo que ganhe bem;
- escrever no Tweeter qualquer
coisa mais longa que “parabéns”, “traz leite”, “passaste a Álgebra” ou “1-0 Bas
Dost”; na realidade o Tweeter tem cento e vinte caractéres a mais;
- partilhar notícias no Facebook,
quem quiser leia um jornal daqueles com parágrafos e tudo;
- ler notícias no Facebook, quem
quiser leia outro jornal, desses com muitas linhas umas abaixo das outras;
- sendo jornalista, usar redes
sociais como fontes sem cruzar à antiga com pelo menos outras três fontes
sérias; ou seja, trabalhar pouco;
- repetir qualquer informação exibida
no Facebook que verse sobre política, economia, ambiente, justiça, história,
religião, ciência ou o inevitável fim da humanidade esta semana; com noventa
por cento de probabilidade a informação será falsa; se a fonte original tiver a
extensão “.BR” a probabilidade passa a noventa e nove por cento;
- comentar no Facebook temas
escorregadios que por azar a rapaziada do Bloco possa curtir: vasos de ganza,
direitos de cães e gatos, cereais transgénicos, formas de energia que não
respeitem o segundo princípio da termodinâmica, sexualidades exóticas, borlas
pagas pelos outros, etc.;
- mandar vir com outras pessoas em
qualquer rede social, o equivalente informático da altercação entre bêbados nos
tascos;
- aderir a qualquer causa que use
“hashtag”;
- formar a opinião sobre qualquer
assunto com base em informação de redes sociais; para pensar sobre qualquer
tema existem como alternativas mais saudáveis o debater com outras pessoas, o ler
e o usar aquela protuberância logo acima do pescoço.
Portanto, se o estimado leitor se aperceber de alguém ao pé
de si a praticar alguma das javardices supracitadas, não hesite em actuar. Se
for um conhecido, a receita da minha mãe serve: um calduço suave na nuca e um
raspanete a sério no ouvido. Qualquer discurso que inclua “és uma besta” será certamente
apropriado. No caso de um desconhecido, à cautela, será civismo suficiente um
olhar de mete-asco e um sonoro suspiro daqueles que significam “há cada
atrasado mental”. Talvez com tempo esta crítica colectiva leve a que a gente de
bem acorde e desmame as redes, só lá ficando a ralé. E com mais algum tempo
pode ser que esta também ganhe tino e as redes morram sózinhas, ressequidas, inúteis,
penduradas nalgum servidor esquecido por aí. Não seria mau momento para a
humanidade.