Casa degradada, com vista para o Gilão
Rua Dr. António Cabreira, no enfiamento da ponte romana
Palácio da Galeria
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Infelizmente, não fazia parte da dieta recomendada
De um dia para o outro, qualquer alimento se tornou perigosíssimo: em cada esquina, um enfarte. Até o inocente Compal de fruta, durante décadas modelo de saúde para as criancinhas beberem, já matava por muitos açúcares e oxidantes que lá boiavam. Estes últimos, os oxidantes, letais e muito de moda, depois de séculos de obscura existência. Os efeitos da presença de oxigénio no ar já aparecem descritos em experiências levadas a cabo no século III a.c. pelo grego Philo de Bizâncio. O vital gás foi descoberto no final do século XVIII, mais ou menos ao mesmo tempo (os correios já não primavam, à época, pela rapidez) pelo farmacêutico sueco Carl Scheele, pelo químico francês Antoine Lavoisier e pelo clérigo inglês Joseph Priestley, sendo que este último devia andar a reinar, a fazer experiências com gases em vez de cuidar do seu rebanho. Mas foi preciso atingir o ocaso do século XX para o mundo cair em si e dar-se conta que se andava para aí a oxidar à maluca que nem varões de aço empilhados à beira-mar. E entrou tudo em pânico, com o pessoal a pagar magotes para ingurgitar bebidas à base de mirtilos e outras bagas, vendidas com parangonas e supostas conter doses maciças de anti-oxidantes.
Eu cá também me inquietei com os sacanas dos oxidantes, mas com a minha lógica mais cartesiana pensei para comigo: para quê andar a anti-oxidantes se uma pessoa pode não se oxidar? E comecei a inalar o mínimo de oxigénio possível, num exercício de disciplina respiratória. Só que, possivelmente por pouca prática da apneia, davam-me umas faltas de ar muito grandes, umas aflições que até ficava azul e acabei por desistir. Mas mais por preguiça do que por a ideia não prestar, porque até fazia sentido.
Se em casa a logística estava controlada e a minha dispensa emanava saúde, almoçar fora era um martírio e um atentado à minha existência. Quando em Lisboa, ainda os menus ostentam alguns pratos tidos como saudáveis, embora por regra intragáveis. Existem mesmo restaurantes só de verdes, autênticas manjedouras dos tempos modernos, frequentadas por sessentonas em busca do tempo perdido e estudantes de rabo-de-cavalo e barba à bode, onde o carácter clorofilino da ementa se disfarça com molhos coloridos e nomes orientais como “seitan” ou “tofu”. Mas experimentem lá alimentar-se dieteticamente no Pimpão, às Caldas do Gerês, no coração da terra minhota, onde as meias-doses chegam para três ou quatro pessoas? Na ementa, rojões, papas de sarrabulho, bacalhau com broa, costeletão de cinquenta centímetros, tudo com a batata frita em azeite. E nem vale a pena tentar:
- To-fu? Esse não é aquele gaijo chinês qu’era pra ser muita bom e qu’o Benfica emprestou ao Bizela?
- Não esse é o Yu Dabao e está no Desportivo das Aves. Tofu é uma espécie de bife de soja.
- Pois, ó amigo, isso nã temos. Temos lombo, bazia e acém, soja não. Posso perguntar ao talhante se sabe chegar à peça e cortar isso qu’o senhor quer, mas só se boltar para a semana.
- Deixe estar, não se mace. O que tem assim de mais levezinho?
- Só se for uma saladita mista. Aquilo é só berdura, se não faz mal às bacas não lhe há-de fazer a si.
E toca de vir para a mesa uma travessa de alface e tomate que pede meças à Estufa Fria.
Percebo agora o drama de um amigo vegetariano, que sempre que saímos em grupo se vê na contingência de parlamentar largos minutos com o empregado de mesa a ver o que inventam lá na cozinha para lhe dar, e que invariavelmente acaba por comer uma sopa e arroz branco, se tiver sorte com algum agrião ao lado. O atendimento que recebe do pessoal de restauração oscila entre o grunhido desagradado e a ameaça física. Tudo somado, acaba por passar fome. Mas ninguém lhe mandou ser vegetariano, para mais com um colesterol próximo do zero. Dá Deus nozes a quem não tem dentes, nozes que por acaso até estão na lista dos alimentos proibidos. Há que sanitizar os provérbios portugueses.Em todo o negrume, acaba-se sempre por avistar uma luz de esperança. A minha surgiu-me num jantar em Bilbao com um grupo de portugueses que lá trabalha e que se inquietou de eu não atacar no bom presunto que em Espanha nunca falha à mesa. Expliquei que estava de dieta, pelo colesterol. Um colega comensal, quase dez anos mais novo que eu, comentou:
- Eu também tinha. Duzentos e sessenta!
- E está a dar assim no presunto?
- Tomei uns comprimidos que o médico receitou e em dois meses passou para cento e oitenta. Já tenho colesterol a menos, preciso de presunto para repor os níveis – dizendo isto, soltou uma gargalhada.
- E não sofreu efeitos secundários, mal-estar?
- Nada! Uma maravilha!
Observei o presunto a desaparecer do prato e jantei um peixe grelhado, enquanto o resto da mesa se entregava às delícias da carne basca. Assim que aterrei em Lisboa, agarrei nas análises e fui ao médico. Este folheou os resultados com a lentidão estudada de quem cobra uma fortuna pela sua sapiência. E soltou a bomba:
- Não estão muito más.
- Não estão más, doutor? Tenho o colesterol a duzentos e trinta. Risco moderado! Posso patinar a qualquer momento! Quer ter um cadáver aqui no consultório?
O clínico riu-se:
- Acalme-se lá. O colesterol a 234 não é nenhuma doença. É simplesmente um de muitos factores de risco. E você não tem outros. Um factor de risco não se trata, controla-se.
- Doutor! 234 é a distância de Lisboa ao Algarve por auto-estrada. Quase o número de deputados que andam lá pela assembleia. È enorme!
- Aqui há uns anos, 250 era considerado normal. Depois passou-se para 220. Agora, o valor de referência é 200, que eu acho aliás um bom número, para onde deveríamos apontar.
- Excelente, doutor! Estamos a chegar ao ponto. Receite aí os tais comprimidos!
- Quais comprimidos? – inquiriu, algo surpreendido.
- Daqueles que baixam isto em menos de um mês.
- Olhe, eu não lhe vou dar um medicamento que pode provocar efeitos secundários numa situação em que você não tem nada de grave, nem risco sério.
- Não me dá os comprimidos! O doutor quer a minha morte? Que fazemos?
- Fazemos o seguinte…
Preencheu uma requisição para mais umas análises e entregou-ma:
- Daqui a uns quatro ou cinco meses, vai repetir as análises para ver como é que isso está. Até lá – e tirou de uma gaveta um bloquinho com folhas impressas com uns desenhos – até lá vai seguir estas indicações e estou convencido que os números vão melhorar.