quinta-feira, dezembro 01, 2011

Contos da Barbárie – parte segunda (de umas quantas)


Graças a Deus, nem todos os alemães têm as vistas curtas de Frau Merkel. Há trinta e quatro anos, os Kraftwerk viram longe e compuseram esta pérola sobre a Europa de hoje que ilustraram num vídeo digno do melhor expressionismo alemão.


Contos da Barbárie – parte primeira (de umas quantas)


Notícia recente anunciava a prisão no sul da Líbia de um dos filhos de Khadafi, Saif al-Islam. O comentador televisivo, papagueando algum despacho da Reuters, dizia que Saif se declarava inocente das acusações que pesam sobre ele, mas que – lembrava o locutor com ar suspicioso - esteve junto ao pai durante toda a recente guerra civil líbia.

Soa a fruta da época que um telejornal ocidental, daquele Ocidente que inocentemente consideramos compostinho e democrático, ache facto suspeito e reprovável um filho estar junto ao pai em tempos de guerra. É a teoria da má semente, que lemos com reprovação nos livros de História mas que volta a galope assim que a estupidez se instala: os filhos partilham dos vícios e das culpas dos pais. Já Pombal condenara à morte as crianças da família Távora, que só se salvaram pela intervenção da rainha Mariana e da princesa Maria Francisca, herdeira do trono. Outros tempos, tempos bárbaros, dirão alguns, infelizmente convencidos do que dizem.

Saif al-Islam não beneficia hoje da protecção simpática das multinacionais que lhe patrocinaram uma exposição de arte, certamente convencidas do seu grande talento pintor, ou da empresa de consultoria cujos serviços bem pagos contribuiram para que ele acabasse a sua tese de doutoramento. Não beneficia sobretudo da asa do pai, que em tempos recentes era recebido com pompa por presidentes e primeiros-ministros, prontos a esquecer o massacre dos seus próprios cidadãos nos céus de Lockherbie em troca de umas concessões rentáveis de exploração petrolífera. Tornou-se agora um vencido e já pode ser alvo da indignação bem-pensante.

Não sou tapado ao ponto de não pensar que muito provavelmente Saif al-Islam não teria as mão limpas. Detinha altas responsabilidades num regime corrupto e brutal. Justamente por isso, seria justo, para ele e para as suas possíveis vítimas, que fosse justamente julgado por um tribunal justo. Infelizmente tal não irá acontecer. Na Líbia, as novas autoridades já anunciaram que a lei será baseada na “sharia”. Com tal ponto de partida e com as carnagens de vingança tribal que se viram duram a guerra civil, não tenho grandes esperanças de um sistema judicial local minimamente potável. E quanto ao Tribunal  Penal Internacional, por mais formalismos e vestes talares que tenha, ainda não me convenceu. A primeira característica da Justiça deve ser a sua universalidade. Ora o TPI só julga vencidos, por conta dos vencedores.

Todo este carnaval de pretensa democraticidade e justiça à volta da revolução líbia e do patrocínio que o Ocidente lhe proporcionou é particularmente peçonhento. Dizer que aquela guerra tribal, que com forte probabilidade irá descambar num regime islâmico, é uma revolução democrática só mostra um de dois: cinismo ou estupidez. Infelizmente, na maioria dos casos, será a segunda opção. E eu sinceramente preferia que ao menos tudo fosse assumido como simples “realpolitik”: pareceria mais honesto e até mais simpático. Quando o chefe gaulês Breno proferiu a sentença imortal “ai dos vencidos”, não estava com teorias vãs de bondade e superioridade moral. Breno tinha derrotado os romanos e exigira um pagamento de mil libras de ouro para retirar o cerco à cidade. Durante a pesagem, quando os romanos protestaram que os pesos trazidos pelos gauleses estavam falsificados, de modo a aumentar o montante de ouro a entregar, Breno mandou a sua espada para cima dos pesos que estavam na balança, aumentando ainda mais a batota e soltando o tal “vae victis”, que é como quem diz “não estejam com tretas, ganhei, sou o mais forte, dito as regras e se protestam ainda é pior”. E o que eu vi passar-se na Líbia foi “vae victis” no seu maior esplendor, só que com a altivez de Breno trocada pela mesquinhez mediatizada de Cameron e do pequeno Nicolas.

 Quando os ventos da História soprarem para longe a poeira do deserto, talvez as imagens mais duradouras deste triste episódio sejam o linchamento em directo de Khadafi por uma matilha de cobardes raivosos, o bimbo do deserto a exibir as pistolas do ditador como se roubá-las a um cadáver fosse um feito apreciável, as filas de básicos em romaria para tirar fotografias ao cadáver com telemóveis e, pior ainda, o silêncio comprometido dos líderes, comentadores e “media” ocidentais em relação a esta panóplia de vergonhas.

Vá lá que - fraca consolação - desta vez não tivemos a líder suprema da Europa, a “ossie” luterana Merkel, a vir publicamente anunciar a sua satisfação com a morte de um homem, como fez quando os americanos despacharam o Bin Laden. Que um chanceler alemão viesse dizer que lamentava ter que se ter chegado a esse ponto, mas que compreendia a acção americana, isso é algo que poderá ser discutível mas que se poderá entender como “realpolitik”. Que a Angela venha a correr para diante dos microfones manifestar alegria por uma execução sumária, só para piscar o olho ao lado de lá do Atlântico, e ninguém comente, diz muito sobre o nível a que estamos a todos a chegar. Explica também muito do que nos está a acontecer nesta Europa em crise.

E para aqueles que neste momento estão a vacilar, a pensar “os gajos eram uns facínoras e tiveram o que mereciam”, não me venham com essa que não tem puto a ver! A democracia não exerce a vingança, pratica a justiça, e nesta vida temos que fazer escolhas: ou somos civilizados ou aceitamos com tranquilidade que homens em bando matem outro indefeso, por muito facínora que tenha sido. Lamentavelmente, não há posição intermédia. A opção é vossa.

terça-feira, novembro 08, 2011

Exposição fotográfica (XXXVI)

 Longo passeio no Porto, a 28 de Novembro de 2010

Pousada do Freixo à noite


 Pousada do Freixo de manhã


 
 As pontes sobre o Douro


 Lendo o jornal na Ribeira


 O tacho da Alzira, na Ribeira


 Ruelas na Ribeira

 





Adegas Calém
 Um bocado a puxar para o postal


Ponte D.Luís vista de Gaia

Só no Porto para darem tal nome...


Ave de rapina


Debaixo da capa, o segredo!


Francesinhas, o pitéu nortenho por excelência!

Férias (IX) – Terceira leitura

O Verão prolongou-se inesperadamente para além das férias estivais e com ele o último “post” sobre as férias. Vindas as primeiras chuvas, há que fechar este capítulo. E já tarde vai.

Contei antes sobre a primeira e segunda leituras dos meus vinte dias a banhos. A terceira deu-se num formato impróprio para praia, um tijolo de setecentos páginas, de capa dura, rebolando permanentemente na areia por acidente: uma “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos e escrita pelo próprio, por Bernardo Vasconcelos e Sousa e por Nuno Gonçalo Monteiro. Mau grado o desconforto que o calhamaço provocava, acabou por ser a leitura mais proveitosa das minhas férias e também dos últimos tempos e também muito a propósito destes últimos tempos de permanente negrume nas notícias, nas políticas, nas mentes.

Eu já lera antes outros livros com o mesmo título e o mesmo difícil objectivo: condensar nuns centos de páginas mais de mil anos de vida daquilo que veio a ser e foi Portugal. E o que me desconcertou neste livro foi a sua novidade. Os autores pegaram num tema batido que eu petulantemente pensava que conhecia e pela selecção dos factos que consideraram mais relevantes, pela escolha de números que lhes pareceram mais indubitáveis, pela crítica por vezes mais desprendida do que correu bem e correu mal, acabam por construir uma panorâmica da nossa história diferente da que nos foi despachada na escola e narrada por outros compêndios.

Só marginalmente me deveria surpreender, porque aí reside uma das riquezas da História: é que ela não é só uma, são muitas.

Tal nova visão talvez resulte do facto de ser a primeira obra deste tipo escrita por historiadores que se formaram já após o 25 de Abril e que por isso estão menos presos a reverências ou falta delas para com eventos ou regimes que, à “esquerda” ou à “direita”, tiveram a simpatia dos que os precederam nessa empreitada de escrever uma “História de Portugal”. Por isso, ao afastarem-se do monolitismo com que certos temas tinham quase obrigatoriamente que ser tratados em gerações anteriores, ao introduzirem matizes no que antes só se ensinava a preto e branco, acabam por formular uma imagem mais rica, mais iconoclasta, mais indutora de reflexão que noutras obras semelhantes que eu já lera. E como cereja em cima do bolo, permitindo retirar lições oportunas para encarar o momento de aperto pelo qual Portugal passa hoje – ou não fosse esse um dos objectivos de conhecer a História.

Na escrita, Rui Ramos, que trata o período contemporâneo (das invasões francesas até ao presente), supera claramente os seus dois colegas. Com uma noção muito mais clara de que divulgar História passa por contá-la e não por dissertá-la, sem medo de usar a anedota ou a “petite Histoire” para ilustrar um período ou vincar um argumento, sem complexos sobre a necessidade de documentar em excesso, escreve sobre o tema como os ingleses, que se lêem bem apesar de pedantes, e não como os franceses, que são uns chatos encartados porque pedantes.

Para dar exemplo de uma visão diferente sobre ideias feitas antigas, está o tratamento que se dá ao período filipino, muito menos dramatizado que a versão “oficial” e nacionalista de um interregno sombrio de sujeição a Espanha: o “Estatuto de Tomar” deu a Portugal a condição de reino herdado e não de reino conquistado, permitindo-lhe uma autonomia no seio da monarquia dos Habsburgo que outros reinos integrados na mesma, como Nápoles, não tinham, e com um papel importante das elites portuguesas na condução do país e das colónias. Neste aspecto, os dois primeiros Filipes, pelo menos esses, “jogaram o jogo”. E se calhar tínhamos mais independência então do que agora.

Outro exemplo – cujo referência temo que me vá merecer muita indignação entre alguns amigos e familiares – passa por uma desmontagem da imagem mais idílica que se tem  do vinte e cinco de Abril como processo sem espinhas. Rui Ramos faz notar que no período logo imediatamente após a revolução o tratamento dos direitos individuais em Portugal andou muito por baixo, com mais de mil detidos (cerca de sete vezes o número de presos políticos aquando da queda do Estado Novo), sem motivação criminal, privados de assistência jurídica, por períodos que chegaram a dezassete meses, inclusive com alguns casos de tortura e privação de assistência médica.

E quanto a ilações para o momento presente? Refiro três ou, talvez, quatro.

Uma primeira é que Portugal não desaparecerá desta. Passou por muito pior e contra todas as probabilidades sobreviveu. Foi campo de combate de guerras europeias. Sofreu a maior catástrofe natural de que há memória na Europa. Teve exércitos espanhóis a entrar por aí dentro em números impossíveis de contrariar. Combateu guerras civis. Perdeu a independência. Viu-se excomungado pelo papa. Foi herdado pela coroa de Castela. Falhou pagamentos da dívida soberana (Fontes Pereira de Melo fê-lo uma vez de propósito, resolveu o pagamento das necessidades internas e em três anos “voltou aos mercados”). Perdeu a canela da Índia, o ouro do Brasil, os diamantes de Angola e os subsídios comunitários. O Sporting ficou uma vez em nono lugar no campeonato. Apesar de todas estas desgraças, ainda cá estamos e cá continuaremos.

Outra é: esqueçamos a teoria do “bom aluno europeu”, percamos esta ânsia de sermos admirados ou considerados como iguais por alemães ou ingleses ou franceses. Não vamos ser, pelo menos durante muitas gerações. O racismo gordinho contra os preguiçosos morenos do sul propalado por Angela Merkel e pelo seu ministro das finanças com ar de “unteroffizier” não difere substancialmente dos preconceitos de Junot contra os costumes portugueses, do desprezo de Wellington sentando-se no lugar do rei no S. Carlos ou dos burocratas da CEE que nas negociações do nosso processo de adesão queriam restringir a nossa circulação no espaço europeu. “Realmente” - terão pensado – “deixar portugueses à solta por aí!”

Junot, Wellington e os eurocratas, todos tiveram a sua corte de bem-pensantes nacionais que gostavam de ser civilizados como os franceses, os ingleses ou os europeus. A solução não está aí. Está em ser bom, em ser o melhor possível por comparação com padrões exigentes que nos imponhamos, não por uma reverente equiparação com um ideal europeu. Isto é um contra-relógio, não uma corrida em pelotão em que temos fazer o jogo do chefe-de-fila. A Europa é um pacto, um negócio. Quando negociarmos, devemos estar conscientes de como os outros nos vêem (como uns atrasados) e usarmos isso em nossa vantagem. Façamos – aí sim – como eles: sejamos cínicos e tentemos sacar o máximo.

Em terceiro, é curioso verificar como existe uma recorrência no modo como as sucessivas elites políticas na monarquia constitucional, na primeira república ou no actual regime democrático encontraram um equilíbrio na rotação no poder, na partilha de prebendas e no esgotamento dos recursos do Estado. Tal resultou na anomia desses regimes e, nos dois primeiros, nas suas quedas. Curiosamente, Rui Ramos faz notar que nunca essas elites sentiram que do lado do povo viesse qualquer perigo. Temiam, na monarquia e na primeira república, o que podia acontecer do lado dos militares. Dizia um político do princípio do século passado que desde que a tropa andasse satisfeita, estava tudo bem.

A ver vamos se nos safamos melhor desta e se a esfrega que vamos levar agora é de modo a que nunca mais toleremos a perpetuação de certos regabofes. Talvez agora percebamos finalmente que acabamos sempre todos por pagar com língua de palmo e taxas agravadas de imposto as obras faraónicas, as desorçamentações espertalhaças, os direitos inalienáveis insustentáveis e tudo o mais que os Albertos Joões Jardins, os Fernandos Ruas ou os Mários Nogueiras deste país nos queiram atirar para cima.

Por último – e é a tal quarta. Dá sempre gosto ler a História deste país. Não somos os maiores, mas somos dos maiores, só por aqui ter chegado com todo aquele passado na bagagem, do mais sublime ao mais infame. É tão fácil amar Portugal. Hoje mais do que nunca.

domingo, outubro 16, 2011

Férias (VIII) - Um suave milagre

Nos dias de Agosto que passámos no sul de Espanha, àquela hora lusco-fusca em que o sol partindo leva com ele a brasa africana da tarde, reparámos em muitas famílias que passeavam pela marginal que bordeja a praia empurrando carrinhos ou cadeiras de rodas levando crianças com deficiências.

Sei que o termo “deficiência” pode levantar protestos de horror afectado entre aqueles que pensam que o que importa são os vocábulos. Pois não quero saber. Gostaria que a sociedade gastasse menos tempo a indignar-se por não se dizer “pessoa de mobilidade reduzida” ou “portador do síndrome de Down” ou qualquer outro termo de hipócrita satisfação de consciências e mais a horrorizar-se por os recursos dos nossos impostos não serem afectados na proporção necessária a essas pessoas e às suas famílias. O politicamente correcto é uma sarna da nossa sociedade, uma erupção de pele originada pelo mal colectivo de que padecemos. Não deveríamos ter medo das palavras. Afinal, um coxo é um coxo, um paralítico é um paralítico e um liberal que tenta usar as leis do mercado para explicar que não é papel do Estado ajudar essas crianças é um atrasado mental.

Mas, voltando, espantámo-nos pelo número. Não me recordo de em Portugal, nas zonas de férias, nas ruas mercantes em que se passeia de alto a baixo ao final do dia, serem comparativamente tantas. Espero que por casualidade. Quero acreditar que já não vigorará por cá aquela mentalidade de que me lembro de presenciar em criança, quando um filho deficiente era uma culpa que se expiava e uma vergonha que se escondia. Em todo o caso, ali, fosse pela largura do calçadão que convidava ao passeio, fosse pela largura das ideias, lá andavam grupos em fim de tarde, gozando o crepúsculo de Verão, iguais aos outros e apenas um pouco diferentes dos outros.

Numa dessas noites, em que jantámos no “chiringuito” Varela, uma esplanada humilde de cadeiras da Pepsi à babuja da areia, entrou a dado momento uma destas famílias: pai, mãe, avó e uma criança de pouca idade num carrinho, cuja deformação do crânio não deixava dúvidas. Ficaram próximos de nós e pudemos assistir a como durante toda a refeição pai e mãe sorriam para aquele filho, lhe falavam, lhe acenavam com brinquedos, o apaparicavam e lhe voltavam a sorrir um sorriso genuinamente feliz, de jovens pais que curtem a meninice do seu filho. Aquele bebé não viera apenas por ter que vir, por não ter onde ficar. Estava a jantar com eles de pleno direito, por distante que parecesse.

Ora eu, que com os anos esfolados me vou comovendo mais com estas coisas, maravilhei-me e pensei cá para comigo que aquela cena era o mundo ao contrário do mundo que por aí anda à nossa volta. Ali estavam dois pais que certamente sofriam as limitações do filho, que possivelmente penavam entre médicos ou terapeutas, que talvez fizessem das fraquezas forças ao fim de um dia de trabalho para lhe dar a atenção especial que aquela criança especial requeria, mas que pegavam em todas essas provações, trituravam, processavam e as transformavam num amor incondicional que parecia a quem assistia do mais genuíno que pode haver. E este quadro, feito de devoção e entreajuda, de vitória da essência sobre a aparência, de abnegação substituindo o egocentrismo, contrastava de modo berrante com os tempos que vivemos, de individualismos de freio nos dentes, de “darwinismos” sociais, de belezas de celofane e sensualidades recortadas a bisturi, em que as leis ditas do mercado justificam uma certa insídia de eugenia social e em que a solidariedade se abastardou frequentemente em caridadezinha, por vezes promovida a ferramenta de “marketing” empresarial, segundo novas modas, por vezes em modalidades paternalistas que por erro julgámos arcaicas.

Este choradinho poder-vos-á parecer um lugar-comum. Provavelmente será, concordo convosco. Mas não creio que deixe por isso de ser verdade. Os lugares-comuns também são gente.

domingo, setembro 25, 2011

Férias (VII) – Do álbum

 "Frisbee" na praia dos Aivados

 Torre del Mar

 Arredores do Cercal

 Torre del Mar

 Vendedora, estudante e andaluza, em Torre del Mar

Praia da Vieirinha

sábado, setembro 24, 2011

Férias (VI) – Segunda leitura

 
Sex and drugs and rock’n’roll
Is all my brain and body need
Sex and drugs and rock’n’roll
Is very good indeed

Ian Dury, in “Sex&Drugs&Rock’n’Roll”

Este foi o Verão das leituras pesadas. Depois das provações terríveis de uma humanidade cega (vide aqui), seguiu-se uma viagem aos abismos mais tenebrosos da trilogia sexo-drogas-rock’n’roll com “Please kill me”, subtitulado “The uncensored oral history of Punk”.  São quinhentas páginas de letra miúda exclusivamente com testemunhos de cerca de duzentas pessoas que viveram por dentro o “punk” americano, fenómeno essencialmente nova-iorquino. Compilaram Legs McNeil e Gillian McCain. 

São páginas deprimentes. No que nos é contado nada foi “very good indeed” como na paródia britânica de Ian Dury acima citada. O sexo era mecânico e sem amanhã, as drogas eram duras e sem liberdade e o “rock’n’roll” soava de uma violência sem destinatário ao lado da qual os Sex Pistols pareciam um chá das cinco (que por acaso até tomavam, como bifes que eram).

Esta história do “punk” vai muito atrás, muito antes da explosão britânica de 76. Começa em 1967 com Lou Reed, John Cale e os Velvet Underground no ambiente peneirento-intelectual da Factory de Andy Warhol e segue sobretudo com Iggy Pop e os Stooges, todos profetas antes da sua hora que criaram as raízes de um “rock” acerado, negro, exultante de negatividade e violência numa época em que paz e amor californianos dominavam as tabelas.

Depois esta semente medrou no momento apropriado, através de nomes como Tom Verlaine, Patti Smith, Richard Hell, Johny Thunders, Jerry Nolan ou Dee Dee Ramone, mas quase sem sair dos habituais clubes como o CBGB, até que um rapaz inglês dado à produção, Malcolm McLaren, viu, voltou à pátria e copiou, montando o seu produto à imagem e semelhança do que vira no “bas-fond” nova-iorquino: os Pistols. Como ele confessa aliás sem remorso em “The great rock’n’roll swindle”, em excertos como este:

- There was Steve Jones. Eighteen years of age. A brilliant cat burglar. I nominated him guitarist.

E acabou por ser no Reino Unido que o movimentou estourou em fama e abriu as portas a um renovar do “rock” dos dois lados do Atlântico, com muitos momentos gloriosos e imorredouros.

Mas “Please kill me” não fala apenas pela voz dos nomes que perduraram. Conta também a visão dos produtores, preocupados em espremer o potencial lucro de um produto potencialmente auto-destrutivo, das “groupies” que saltavam de leito em leito e de banda em banda até não ter mais para onde saltar senão para a sarjeta, dos poucos que, como o “stooge” Ron Asheton, apenas queriam tocar e olhavam de cima para o pantanal onde se moviam e de muitos que meramente enxameavam ao redor.

“Please kill me” acaba por ser uma leitura formativa sobre estranhos numa terra estranha que julgam ser a dos seus sonhos de adolescência mas que para muitos e sobretudo para os menos bem-nascidos acaba por ser um pesadelo lento, denso, amargado e terminando para alguns num beco. Honra lhe seja feita, vale pela franqueza.



domingo, setembro 18, 2011

Férias (V) – Surfismo

Nas praias das minhas férias, processionários nas dunas, as pranchas a tiracolo ou amparadas pelo braço, vão os surfistas.

O surfismo é uma religião que nasceu nos EUA em meados do século XX e se estabeleceu nas duas últimas décadas do mesmo século na orla marítima portuguesa e noutras zonas costeiras da Europa.

Os mais distraídos poderiam pensar, cingindo-se às aparências, que o surfista pratica um desporto, o surfe (que é como aquela coisa se escreve em português). Nada de mais míope. O surfista adere a um credo, com os seus ritos, os seus sacramentos e as suas hieraquias, que lhe orienta o modo como veste, o modo como fala, o modo como pensa e até o modo como vive. Na esplanada do café, em férias, dificilmente topamos ao nosso lado o andebolista amador ou o amante da maratona. Fora do recinto ou da pista, despido o equipamento, tornam-se pessoas como as outras, misturando-se na multidão. Ao contrário, os surfistas da vizinhança não nos escaparão certamente, pela carinha e pelos tiques. E então se abrirem a boca para falar, nem se fala.

Poder-se-ia até estabelecer um paralelo entre a religião surfista e a sua homófona sufista, a versão mística do islamismo. Os estudiosos do sufismo definem um dos seus objectivos como o afastamento de tudo menos de Deus. O surfismo respira a mesma costela extática, levando ao afastamento de tudo o que não leve à boa onda. O sufista manifesta o seu transe rodopiando sobre si próprio, como se vê nos derviches. O surfista fá-lo bamboleando o rabo em cima de uma tábua de espuma de poliuretano.

 
O rito surfista começa na praia, acartando as pranchas do carro para o areal. Estas são manufacturadas por uns tipos chamados “shapers” utilizando espuma chamada “foam” e colocando-se para estabilidade umas alhetas que se chamam “fins”. Chegados ao destino, enceram a tábua (que se chama “board”) com uma cera (que se chama “wax”) . Trazem para lanchar uns pães chamados “breads” nuns sacos chamados “bags” que acompanham com umas cervejas chamadas “beers”... Bem, esta última frase já será exagero meu, mas tal como o latim se tornou a língua do catolicismo, o inglês é mesmo a do surfismo, presumivelmente para dar a pinta cosmopolita que pode sempre fazer falta a quem não a tem.

Durante o enceramento da prancha, começa-se a distinguir a hierarquia. O surfista experiente esquece-se sempre da cera, inquirindo diletantemente junto dos demais: “tens wax?”. Normalmente há sempre um surfista mais maçarico, que conseguiu cravar aos pais dinheiro para a parafernália toda, que se apressa a ceder a sua ao graduado. Este esquema começa a funcionar pior à medida que os diversos surfistas da praia vão ganhando experiência e logo começando a fazer valer os seus direitos, esquecendo também a sua “wax”, o que pode provocar grandes romarias de surfistas desencerados a rondar-se uns aos outros em demanda da cerúlea substâcia.

Preparada a prancha, o surfista coloca os paramentos. Estes consistem num fato de material borrachento, negro nas pernas e na maior parte do corpo. O fato veste-se, sobretudo nas pernas, com a mesma dificuldade aparente com que um senegalês colocaria um preservativo de dimensões inglesas. Cada centímetro de coxa é vencido aos sacões, os pelos arrepelados, com um esgar de dor na face. Não raras vezes, sobretudo no despir, precisam da ajuda dos companheiros. Colocada finalmente a vestimenta, fecham o fecho-éclair das costas uns aos outros como senhoras em dia de baile.

Esta volúpia em meter um revestimento de borracha preta quando podem ferver quarenta graus à sombra parecerá um pouco “sado-maso”, mas não. O fato térmico tem real utilidade porque a principal actividade do surfista é estar parado dentro de água. Com efeito, o surfista, entrado no oceano, nada de bruços até à zona onde as vagas iniciam o seu encruamento e aguarda, deitado sobre a prancha ou a cavalo nela, esperando a onda ideal como se espera um Godot dos mares. Na praia dos Aivados, onde testemunhei os factos que aqui narro, é ver ao longe a linha que se forma de cabecinhas flutuantes, subindo e descendo com a ondulação durante horas. De vez em quando, lá há um audaz que se afoita a empoleirar numa onda mais vincada para logo se baldar da tábua abaixo uns metros mais à frente, quando não imediatamente. Poderá surpreender, mas tal parece ser satisfatório. Ao regressar a terra, a prancha debaixo do braço, ouviremos o surfista ensopado e sorridente a dizer ao confrade que vai entrar:

- Hoje tão muito boas. Consegui fazer duas ondas, “man”!

Estranho porque num jogo de futebol os comentadores comentarão, sobre um jogador que só tocou duas vezes na bola durante hora e meia, que “passou completamente ao lado do jogo”. Ao invés, no surfismo, duas ondas manhosas em noventa minutos e é a glória total e absoluta. 
 
Fora de água, em ambiente urbano, o surfista arrasta os pés e socializa quando encontra outros que tal. Os surfistas cumprimentam-se com um aperto de mão especial, de braço erguido, batendo as palmas com força. Como concebem com dificuldade que o mundo não seja todo composto por surfistas, tendem a alargar esse cumprimento brejeiro ao resto da população, fazendo alguma figura de urso aqui e ali, baixando a pata desengonçadamente quando alguém lhes estica um mais normal passou-bem. 

Tal como a das beatas que se ajuntam no adro, a conversa típica dos surfistas cobre uma grande amplitude de temas. Versará possivelmente o surfe, mas em alternativa também o surfe, podendo ainda acontecer por vezes que se fale de surfe. Para os leigos que os ouvem, a discussão tenderá a parecer de mentecaptos, mas isso deve-se apenas às trevas em que vivem esses leigos, ignorantes que são da sapiência que se esconde por trás daquele discurso hermético de ladaínha.

Uma entidade mítica muito referida, provavelmente deus maior do panteão surfista, chama-se “swell”. O “swell” manifesta-se intermitentemente (nem sempre “está”) mas quando “está” vem sempre “grande” ou, mais frequentemente, “ganda”:

- Tive na praia das caracoletas e tava um “ganda swell”, “man”!

O entusiasmo reverente com que é mencionado contrasta com o desapontamento evidente nas caras dos surfistas quando, chegados à praia das caracoletas após uma penitência de quinze quilómetros de condução, guiando de pescoço a quarenta e cinco graus por causa da prancha entalada entre o vidro de trás do carro e o pára-brisas, verificam que o grande “swell” afinal não “está”. A ausência de “swell” equivale a uma deserção do mundo por Deus, uma vez que impede a prática. A esta praga do Egipto surfista dá-se o nome de mar “flat”. Que suponho que queira significar plano. “Probably”.

Outros entes recorrentes, provavelmente de menor patente, são os “tubos”. Os “tubos” podem aparecer – ou não – quando o “swell está”. Pelo que entendo, são uma espécie de anjos que acompanham a divindade. A prova que os tubos têm uma importância secundária reside no facto de o seu nome ser português, idioma obviamente pouco fresco – perdão – pouco “cool”. A especificidade teológica dos tubos vem de que não só “estão”, como se “fazem” (mas só a partir de um certo diâmetro; dizem os surfistas que “fiz um ganda tubo”, nunca um “mero tubo” ou um “pequeno tubo”).

Se o comportamento do surfista seco é algo gregário, na água torna-se agressivo, podendo chegar a perigoso. Infestam largos troços de praia aparentemente sem compreender que o bico de uma prancha espetado num crânio humano pode causar perturbações graves nos sinais vitais. Ziguezagueiam no limite entre surfistas caídos e banhistas inocentes com a atitude impúdica de Arnaud Amaury, legado do papa na expedição de massacre dos cátaros em 1209: “Matem-nos a todos. Deus reconhecerá os seus”. Claro que os não-surfistas acabam por se afastar, porque não são doidos. O resultado final é um usocapião dos surfistas sobre uma tranche de metade da área de banhos, que passa a ser a tradicional “zona dos surfistas”. Que remédio!

A religião surfista reclama para si grandes preocupações ecologistas, com o pretexto de “conviver com a natureza” ou outra balela do género. Na prática, a ecologia termina inúmeras vezes onde começa a falta de saco, nomeadamente sacos de plástico para levar da praia os grandes amontoados de lixo que sobram após a partida dos surfistas, constituídos por latas de cerveja e detritos orgânicos. Felizmente existem por vezes alguns sacristãos involutários que, desgostados com a nojeira, recolhem e levam até ao contentor os vestígios da vocação verde desses surfistas mais descuidados.

Nesta onda pretensamente ecológica surgem ainda os temores dramáticos e dramatizados com a “destruição” de uma onda, que é a única causa político-social que parece conseguir agregar os surfistas. Entende-se porquê: a destruição das ondas corresponde ao que nas outras religiões significa a pilhagem e incêndio de templos. 

Só que qualquer obra costeira a menos de quinze milhas de uma praia ocupada por surfistas, seja um castelo de areia ou um terminal petroquímico, é suspeita de poder destruir “a melhor onda da Europa”. Toda a onda em risco se torna invariavelmente “a melhor”, e logo “da Europa”! Pode ser na Madeira à segunda, em Carcavelos à terça, na Ericeira à quarta e na banheira do banho à quinta, mas nunca perde o adjectivo. Para inferir o risco de destruição, os surfistas não utilizam estudos científicos, modelações hidrodinâmicas ou outras minudências do género. Sabem de saber seguro que a onda desaparecerá “porque conhecem muito bem o mar”. Provavelmente absorvem as equações de Navier-Stokes por osmose, durante a hora e meia diária em que estão de molho à espera da onda possível.

Para quem os vê ao longe, caídos no charco, esta preocupação não faz sentido. A maior parte dos surfistas não se aguenta com ondas medianas, quanto mais com a “melhor da Europa”. Com as pequeninas é que eles se deviam preocupar. Glosando o antigo provérbio que Gil Vicente retratou na Farsa de Inês Pereira, “mais quero uma ondinha que me carregue, do que vagalhão que me derrube”.

domingo, setembro 04, 2011

Férias (IV) – Primeira leitura


Vou de férias com uma mala de livros. Não os leio todos. Já a banhos, vou ao monte e decido a próxima leitura em função da disposição do momento.

Normalmente acabo por alternar uma correnteza de livros não muito pesados, nem muito espessos. Este ano, fiquei-me por três apenas, mas dois mais para o calhamaço. O outro, o primeiro, já tinha ido na mala nos dois verões anteriores e não saíra dela. Achei injusto dar-lhe mais uma nega e acabei por pegar-lhe, apesar de quase sem vontade. Era o “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago.

Só tinha lido antes dois livros de Saramago e não ficara deslumbrado. O “Memorial do convento”, uma história original e interessante, tinha trechos mesmo muito bem escritos, por exemplo a pancadaria entre aleijados logo ao início, mas outros que eram longas e chatas travessias do deserto. Do “Levantado do chão” recordo um escrito sectário e de uma dor de corno classista, com exemplo nas crianças filhas dos latifundiários, essencialmente más, a trepidar de gozo com as judiarias que faziam aos trabalhadores rurais.

Já depois destas leituras veio o Nobel e, como muitos portugueses, senti aquele assomo de orgulho nacionalista algo idiota, como se a andorinha de um prémio trouxesse a primavera de um país mais culto, menos vedor do Big Brother e leitor da Nova Gente. Foi por essas alturas que comprei o meu exemplar do “Ensaio da Cegueira”, que acabou por ficar anos à minha espera.

Não sei dizer porque esperou tanto. Muitos dos livros que compro estão anos aguardando a sua hora. Neste caso, talvez me tenham desgostado o pedantismo pseudo-intelectual que se criou à volta do Nobel Saramago e a construção pelos média da personagem patriarcal e catedrática, remetendo periodicamente novos volumes desde a sua torre de Lanzarote para uma nação ingrata e algo bárbara que não o merecia e arrotando a sua sentença em entrevistas de jornal ilustradas por fotografias esfíngicas iluminadas por uma luz lateral. Talvez sentisse uma certa injustiça de o Nobel não ter ido para outros escritores que cá pra mim mereciam mais distinção, como Lobo Antunes ou Cardoso Pires. Talvez porque tivesse algumas dúvidas que o Saramago que o “establishment” idolatrava existisse, de asséptico que era, limpo que tinha sido do director Saramago que saneara jornalistas do DN por delito de opinião. Talvez me faltasse saco para o Saramago que motivava a polémica e depois se enfadava com ela.

Mas se há algo que as páginas me ensinaram foi que os livros não têm culpa de quem os escreve. E eu nem conhecia o senhor, só conhecia o produto. Por isso, dia um de Agosto, meti o dito ensaio no saco da praia.

A ideia de partida é brilhante: uma epidemia de cegueira, altamente contagiosa, afecta a humanidade. As autoridades em pânico começam por confinar os cegos a um antigo manicómio, mas rapidamente a doença atinge toda a humanidade. Tanto no espaço fechado do manicómio como, mais tarde, nas ruas da cidade, o livro descreve-nos um mundo em que a cegueira reduziu a humanidade à sua componente mais brutal e animalesca. Apenas um personagem escapa milagrosamente à maleita e atravessa o livro com olhos de ver.

Ao terminar a leitura, tinha uma certa vontade de dar um tiro na cabeça. A narração não poupa na maldade, nem na escatologia. Mas bem escrito. Apesar da fantasia, há plausibilidade. O estilo está mais personalizado que os dois anteriores que li. Aqui e ali ainda aflora o sectário de “Levantado do chão”, acolá aparece por vezes um outro momento de um gosto duvidoso. Mas tudo somado é uma boa obra: não sendo um dos livros da minha vida, deixou-me pelo menos a vontade de ler mais Saramago.

A parábola que nos conta Saramago é fundamentalmente pessimista sobre a essência da natureza humana: regressado ao estado de natureza, o homem não é um bom selvagem mas um lobo em guerra com os outros lobos. No entanto – e este é o lado positivo – existe uma “visão” que lhe permite evoluir desse estado e sem a qual ele regride. No livro essa visão é física, a dos olhos, mas claramente representa outras formas de visão como a sabedoria, a inteligência, a cultura, a ética, como quisermos.

Assim compreendido, “Ensaio sobre a cegueira” torna-se um bom manual para percebermos os tempos que correm, de Merkels e Murdochs, de “Tea Partys” e verdadeiros finlandeses, de lideranças fracas e influências fortes, em que a nossa sociedade parece ter deixado de ver o que há anos teria saltado à vista.

E se diferença existe, está em que hoje o problema não é de cegueira mas de falta de vista. O cego tem pelo menos a vantagem da consciência da sua condição. Aos nossos tempos apoquenta a falta de vista, uma miopia extrema, que nos devolve uma imagem distorcida, que tomamos irreflectidamente como realidade.