terça-feira, novembro 08, 2011
Férias (IX) – Terceira leitura
domingo, outubro 16, 2011
Férias (VIII) - Um suave milagre
domingo, setembro 25, 2011
Férias (VII) – Do álbum
Torre del Mar
Arredores do Cercal
Torre del Mar
Vendedora, estudante e andaluza, em Torre del Mar
Praia da Vieirinha
sábado, setembro 24, 2011
Férias (VI) – Segunda leitura
domingo, setembro 18, 2011
Férias (V) – Surfismo
domingo, setembro 04, 2011
Férias (IV) – Primeira leitura
sábado, setembro 03, 2011
Férias (III) - O desvio
Férias (II) - London not calling
terça-feira, agosto 23, 2011
Férias (I) - Per doar
sábado, julho 30, 2011
Amor e ferrovia
domingo, julho 24, 2011
Os do “Maracanazo”
terça-feira, julho 12, 2011
Ocean's fourteen
Devo dizer que não fiquei particularmente surpreendido com o gesto da Moody’s. Já há tempos que venho comentando entre amigos e colegas que existe um padrão de comportamento das agências de “rating”que é peculiar (desigualdade no tratamento de realidades iguais, descida bruscas de vários níveis procurando a espectacularidade, “timings” que não podem ser coincidência, no nosso caso sistematicante mesmo antes de uma emissão de dívida pública). Qualquer explicação para esse padrão não consegue ser muito abonatória. Existem quatro possibilidades, por ordem crescente de maquiavelismo: pura incompetência, limpeza da trampa que fizeram em 2008, conflito de interesses e cabala montada contra o euro.
sábado, junho 25, 2011
sexta-feira, junho 24, 2011
Aprender a ler
Mas já concordo com ele que pelos serviços do ministério anda gente em demasia a cerebrar sobre temas bizarros, como seja a melhor maneira de ensinar a crianças de treze ou catorze anos a reconhecer nos Lusíadas metalepses e metáteses. Ora as metáteses estão para o desenvolvimento do gosto pela literatura como as metástases estão para a promoção da nossa saúde. Não me parece que tão erudito exercício induza nas mentes tenras o amor pela leitura. Será como querer promover o gosto pela culinária com cursos teóricos de química orgânica avançada.
(Aparte antes de prosseguir: para os que estão neste momentos extasiados com a minha sapiência, informo que há truque. Eu não sabia de cor, nem de outra forma qualquer, o significado de metalepse ou metátese. Fui ver a um dicionário de figuras de estilo que consta de uma edição dos Lusíadas que há cá por casa. Tem lá termos espectacularmente ininteligíveis, óptimos para tentar levar à loucura os adversários num jogo de “Pictionary”. Por exemplo, sabem o que é uma hendiádis ou um - ou será uma? - paragoge? E um polissíndeto ou uma tmese? Não? Bando de analfabetos! Mas um zeugma devem saber... Também não? Como é que conseguem ler um livro nessa vil escuridão?)
Quanda não está entretida a complicar, a mesma ministerial gente, apiedada perante as dificuldades daqueles que paternalisticamente vê como menos capazes, cai no outro extremo e facilita. Por exemplo, o programa de 10º ano de Português preocupa-se com que jovens de quinze anos saibam “reconhecer diversos tipos de texto” como sejam “textos informativos diversos e os seguintes dos domínios transaccional e educativo: artigos científicos e técnicos; verbetes de dicionários e enciclopédias; declaração; requerimento; contrato; relatório”. Ou então “textos dos media”, que podem ser até radiofónicos. E não aponta nenhuma leitura integral de um livro como obrigatória (só no 11º aparecem o Frei Luís de Sousa e um Eça à escolha, que por algum azar até pode calhar ser “O mandarim”).
Ora eu com essa saudosa idade andava no Liceu Francês a levar antiquadamente com Racine e Zola na tromba, para ler na íntegra, e nunca tive assim a oportunidade fresca de analisar verbetes de dicionários para os poder reconhecer quando os visse. Por razão misteriosa, apesar de não ter beneficiado do modernaço programa do 10º em língua pátria, consigo preencher um requerimento, utilizar um dicionário e até ouvir as notícias na TSF sem me baralhar todo e ficar a pensar que o entendimento a que chegaram Portas e Passos Coelho é sentimental e não político. Devo ser um autodidacta.
Quem arquitecta estes programas comporta-se como um condutor que só andasse ora pela berma esquerda ora pela berma direita, com o carro em zigue-zagues bruscos, nunca conseguindo assentar sossegado com os pneus no raio do alcatrão. O resultado de anos desta condução inebriada são os alunos que apanho no quinto ano do Técnico, à beira do mercado de trabalho, que “axam que puderiam usar uma equacão para calcular a inflaxão”. Já hoje uma larga maioria, infelizmente.
Mas desensinar é fácil, já sabemos. E ensinar? Ensinar a gostar de ler?
O sistema que apanhei no Liceu Francês parece-me a este propósito ter algumas virtudes, desde já com perdão pela pinta “no meu tempo é que era” desta reflexão.
Para começar, esse sistema mete livros. Do primeiro ao último ano do liceu, em cada Outubro, quase uma dezena. Sai-se no final da escolaridade com uma meia centena de títulos, o que acaba por constituir um razoável princípio de uma biblioteca pessoal. A escolha varia ao longo do tempo, mas mistura clássicos, literatura mais ligeira, teatro, poesia, originais e traduções. Fui ver a estante do meu mais novo, que está a meio percurso. Tem lá Molière, Voltaire, Balzac e Flaubert, mas também Pagnol. E tem Orwell, Golding e Primo Levi. E Esopo e a Odisseia e contos da mitologia grega. E teatro de Anouilh e poesia moderna. Para equilibrar, Agatha Christie, o Petit Nicolas de Sempé e Goscinny ou o Diário de Adrian Mole.
No quarto do mais velho, que já acabou, há uma prateleira inteira. Para além de alguns dos anteriores encontro entre outros Montaigne e Ronsard, Maupassant e Baudelaire, Le Clézio e Camus, Sófocles, Shakespeare e Puchkine, Racine e Ionesco, Sepúlveda e o planeta dos macacos. E até a Bíblia dada enquanto obra literária.
A isto chama-se diversidade e parece-me ser a lição número um. A literatura é uma janela aberta para um mundo variado e variável. Claro que numa cadeira de literatura francesa há que dar os grandes nomes, que construiram e dão brilho à língua deles. De igual modo, em Português deve-se ler uma boa selecção entre Eça, Camilo, Camões, Sá de Miranda, Pessoa, Herculano, Torga, Cardoso Pires, Nemésio, Miguéis ou Saramago ou Lobo Antunes, e com liberalidade. Mas há espaço para muito mais. Porque não boas traduções de boas obras estrangeiras ou escrita nacional mais contemporânea ou mais ligeira? Mais vale um Hamlet em português ou um romance do Rodrigues dos Santos do que qualquer “texto dos media” ou o que é que essa treta seja.
Depois, estes livros devem-se ler integralmente. Esta será a lição número dois. Claro que nem todos os alunos o fazem e claro que na sala de aula a análise tem que se focar em passagens seleccionadas. Mas os livros são como os paus, têm duas pontas, um princípio e um fim e o resto que está no meio. Um excerto pode quanto muito funcionar como um “teaser”, mas não dá a medida da grandeza de uma obra nem permite o sentimento de preenchimento e partilha que podemos ter quando viramos a última página de um bom livro. Seria como esperar que o “trailer” de um grande filme nos fizesse pensar, rir ou chorar do mesmo modo que as duas horas de visionamento em frente ao ecrã. Só aprendemos a gostar de ler lendo, e não brincando ao “toca e foge” com os livros.
E, finalmente, a terceira lição.
Tive no último ano do liceu um professor de francês que me ensinou como se lia um livro ou um poema: fazendo uso da nossa liberdade. Com ele descobri que uma obra não é uma, são milhares ou milhões. Há a que o autor escreveu e há todas aquelas que os leitores lêem e todas são igualmente verdadeiras e importantes. Com ele aprendi a ler com os meus olhos, com a minha cabeça e com os meus sentimentos. Era um homem calmo, reservado, com um ar quase severo na primeira abordagem, sempre de fato escuro numa escola que primava pela informalidade. Não me lembro de o ver a rir, apenas de sorrir contidamente diante de uma situação cómica. Perguntava-me, preparando-nos para o exame oral final, sobre uma palavra que um poeta usara num verso:
- Porque pensas que o autor escolheu exactamente esta palavra e não outra?
- ...
- Dá a tua opinião.
- Talvez porque “isto”.
- Então se achas “isto”, no dia da oral, di-lo.
- E se o examinador não concordar?
- Se o examinador não concordar diz-lhe que fui eu que te o ensinei.
E não é que ensinara mesmo? Ensinara-me que não somos meros receptáculos de uma narrativa, leitores inertes numa relação de um só sentido. Somos agentes, pares do autor, responsáveis com ele pela construção da obra lida. Por exemplo, Thomas Mann dizia que descrevera no seu “Os Buddenbrook” a decadência de uma família. Ora quando eu o li, esse aspecto pareceu-me meramente instrumental. Achei-o um grande livro sobre a riqueza, a diversidade e a fragilidade da vida. Não há azar, o livro que ele escreveu e aquele que eu li simplesmente não são o mesmo: entes próximos, ligeiramente diferentes e igualmente respeitáveis. Ler é um exercício de homens e mulheres livres. Por isso as ditaduras sempre proibiram e queimaram livros. Até a semelhança fonética das palavras “livro” e “livre” , uma feliz coincidência, reforça essa identidade.
Para ensinar o gosto pela literatura precisaremos sempre de professores capazes e alunos disponíveis, como em qualquer matéria. Se a esses ingredientes juntarmos, para horror da malta do ministério, alguns livros, lidos de fio a pavio e com espírito de liberdade, a aprendizagem pode ocorrer. Mesmo que no fim ignoremos o significado de “metátese” ou “zeugma”.
segunda-feira, junho 13, 2011
Pub. (Mataspeak em momento de publicidade pouco encapotada)
Para mais, lá vou sabendo histórias das minhas raízes, sobretudo quando tenho a sorte de coincidir com os mais velhos. Numa terra de apenas 1400 habitantes, já terei ouvido em breve esse mesmo número de memórias contadas ora com saudade ora com riso.
Pois neste fim-de-semana, no dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e de tudo o mais, inaugurou-se no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha a exposição DaNação, da autoria do meu tio Luís da Mata, filho da terra, em que este usou como mote a bandeira nacional para uma sequência plástica, de pintura e instalação, que propõe uma reflexão sobre o caminho trilhado – sobretudo nos tempos mais recentes – pelo nosso país.
Vem a propósito esta exposição, porque passam no próximo dia 19 exactamente cem anos sobre a aprovação do actual modelo de bandeira pelo decreto 141 da Assembleia Nacional Constituinte, selecionada que foi, após concurso de ideias, por uma comissão a que pertenciam Columbano Bordalo Pinheiro, João Pinheiro Chagas e Abel Botelho.
Vem mais a propósito ainda porque a nação do símbolo passa por momentos de aperto que o símbolo da nação não deixaria suspeitar, com o seu verde “de esperança” e o seu vermelho, “cor combativa, quente, viril, por excelência (...) cor da conquista e do riso (...) cor cantante, ardente, alegre (...)”, nas palavras da comissão que a escolheu.
Não tenho a certeza de que a minha leitura do percurso exposto seja exactamente igual aquela que o autor tinha em mente quando produziu a obra. Conhecendo-nos a ambos, admito que não. Fica esta matéria para próxima conversa entre os dois.
Mas digo-vos e assim termino: vão, que vale a viagem e não só por orgulho de sobrinho. É uma visão inovadora, disruptiva e esteticamente apelativa sobre o nosso colectivo. Olhem, admirem, interroguem-se e pensem. E desfrutem, claro está.




















