domingo, novembro 18, 2012

As bruxas de Aquila




“Quis custodiet ipsos custodes?”

Juvenal


Em 1692, em Salem Village, hoje Danvers no estado do Massachussetts, crianças com um comportamento bizarro são pressionadas por adultos para denunciar quem as enfeitiçou. Acabam por delatar como bruxas alguns nomes fáceis numa sociedade puritana e fechada: uma mendiga, uma velha acamada, uma escrava negra. Rapidamente, a torpeza humana entra em acção e várias dezenas de outras pessoas sofrem acusações de bruxaria e outras rebaldarias com o demo. A essa proliferação terá ajudado certamente o facto de a única maneira que os visados tinham para escapar à pena capital era confessarem e denunciarem outros que como eles fossem culpados de más práticas. A histeria colectiva durou um ano e deixou um rasto de dezenas de mortos, alguns sob baixa tortura ou abandonados no cárcere. Para que nunca nos esqueçamos que pode sempre haver pior quando a estupidez humana sai da jaula, registe-se que uma das acusadas era uma criança de quatro anos.

O episódio das bruxas de Salem marcou a sociedade colonial americana, pela ignorância e pela arbitrariedade dos processos judiciais. Possivelmente os fundadores da nova nação americana tinham na memória esta ocorrência oitenta anos mais tarde quando redigiram algumas das salvaguardas da constituição. A literatura, o teatro e o cinema americanos continuam a recorrer de vez em quando às bruxas de Salem para alertar para a eternidade de certos perigos.

Felizmente, o Massachussetts de hoje é muito diferente do território amedrontado de 1692. Um dos estados mais avançados da união, alberga algumas das melhores universidades do mundo. Só pelo MIT passaram 78 prémios Nobel. A ignorância sectária teve assim que procurar outros terrenos de caça. Neste ano de graça de 2012, instalou-se confortavelmente em Itália: em Outubro passado, seis cientistas e um funcionário italianos foram condenados a seis anos de prisão cada por o comité de análise de riscos a que pertenciam não ter conseguido prever o sismo que destruiu a cidade, três anos antes.

Qualquer um sabe, mesmo sem grande conhecimentos de geofísica, que no actual estado do conhecimento sobre o fenómeno a ocorrência dos terramotos não é previsível. Pela lógica se deduz que a ausência de terramotos também não é previsível. Apesar disso, um juiz italiano contemporâneo, formado em direito numa universidade onde provavelmente nalgum departamento se ensinarão probabilidades e engenharia sísmica, um homem que redigirá os seus laudos num computador e andará de telemóvel no bolso, decidiu mandar para a prisão homens que se limitaram a emitir a sua melhor opinião sobre um fenómeno que todos sabemos imprevisível e que - para azar deles e de outros - falharam nesse julgamento. Condenou-os como se tivessem eles que assumir as culpas dos mortos e dos destroços. Acontece que não foram eles que mataram e que destruíram. Foi o sismo.

Esta sentença conta-nos muito sobre como é vã a nossa pretensão de modernidade ou de civilização. As certezas com que o juiz Marco Billi de 2012 enviou sete homens para a prisão são as mesmas com que o juiz William Stoughton de 1692 enviou dezenas para a forca. Ambas advêm da convicção ignara de que existindo um mal, deve haver um culpado. E as duas satisfazem turbas necessitadas de vingança, e receosas: em 1692, do desconhecido; em 2012, do incerto.

Ora a incerteza viverá com a humanidade até ao fim dos seus dias. A crença na infalibilidade da ciência tem tanto de fé como a crença noutra infalibilidade qualquer, por exemplo a do papa. Resulta tão somente do desconhecimento do que é a ciência, de como se formula e de como avança. Não só o cientista, como o leigo que procura entender a ciência, sabem que ela é conhecimento mas também limite do conhecimento. A existência desse limite implica que a nossa própria existência seja arriscada: podemos morrer porque não sabemos prever um sismo ou curar um cancro. Procurar um culpado para essas tragédias revela apenas que continuamos a não entender a essência da nossa precariedade.

Tá tudo bem...

... não se passou nada: foram só umas mini-férias por causa de trabalheira a mais e inspiração a menos. Citando o "exterminador implacável" (o dos filmes, não o do ministério das finanças):

- No problema!

sábado, setembro 08, 2012

Exposição fotográfica (XLI)

Dia 9 de Agosto em Sines: reflexos na vizinhança do novo centro cultural







Os outros eles


Antes de ir de férias passei na livraria do Instituto Franco-Português, uma aposta sempre sem risco, e comprei ao acaso meia-dúzia de livros de bolso fininhos, daqueles que se propoem no topo de uma pilha e se despacham numa tarde de praia, a maioria de autores que desconhecia para ver ao que sabiam.

Um desses livrinhos intitulava-se “Uma mulher” e escrevera-o Annie Ernaux, uma professora francesa de letras com uma obra essencialmente autobiográfica. “Uma mulher” conta a história da mãe da autora, nascida num meio pobre e rural entre as duas grandes guerras, que ascende a pulso a uma pequena burguesia comerciante e proporciona à filha o salto cultural para uma classe média urbana de fim de século, sem nunca a chegar a entender muito bem. Uma história que quase poderíamos dizer banal, não fosse o facto de cada vida ser única na sua infinidade de facetas, uma história parecida com muitas que de perto ou de dentro cada um de nós conheceu. Também eu ouvi aos mais velhos contar sobre vilas como a vila onde a mãe de Annie explorava um pequeno café, terras socialmente estratificadas em castas por debaixo da aparência de convivialidade, onde todos sabiam o lugar que o berço lhes reservara, desde o trabalhador rural ao operário ao lojista ao patrão ao médico ao senhor da terra, numa espiral de posses e de letras que só os anos sessenta vieram baralhar um pouco.

O que me surpreendeu na escrita de Annie Ernaux foi o modo sociológico, a pinça e escalpelo, com que a autora descreveu a vida e a personalidade e as capacidades e incapacidades da sua mãe, das suas diferentes mães – a criança nascida pobre, a adolescente trabalhadora, a mulher de armas que defendia o seu pequeno negócio, a viúva só, a velha senil – com a mesma objectividade nua com que o biólogo observa ao microscópio as errâncias do micróbio. E isto sem deixar de transparecer, em frequentes passagens da narrativa, um amor que se percebe incondicional, sem perguntas e sem a expectativa de respostas.  Ernaux separa totalmente a personagem histórica (todos somos personagens históricas, a História é feita tanto de mesteirais como de príncipes) da personagem afectiva e relacional. Expõe-nos a mãe com as suas idiossincracias de classe, enformada pelo seu contexto, com os seus tiques, aspirações e decepções de muito pequena burguesia ascendente. 

Esta crueza chocou-me um pouco, ao fechar e arrumar o livro na estante, pela sua frieza e quase crueldade. Mas pensando melhor, a autora não fez mais que transpôr para livro algo que também nós fazemos. Fazemo-lo de forma institiva, quase automaticamente, mas com uma lucidez que se atentarmos nos surpreenderá. Também nós, dentro das nossas cabeças, concebemos dualmente aqueles que nos são queridos, pais, filhos, familiares, amigos, separando-os neles e nos outros eles. Os primeiros são aquele novelo de emoções, de vínculos, de experiências convividas, de traços de personalidade, que formam o amor e a amizade. Os segundos, os outros eles, são seres sociológicos, que percebemos sem o confessar como fruto das suas circunstâncias, das suas origens e comportamentos de classe, das suas ascensões e decadências na escala social, das suas possibilidades e limitações culturais ou económicas. Identificamos esses outros eles de milhentas formas, numa reverência à autoridade, numa pretensão de melhor gosto, na defesa de uma aparência, na escolha de uma compra, num tique de grupo ou no ataque a um terceiro.

Normalmente não temos destes outros eles uma percepção consciente da sua presença. Vivemos a serenidade ou o  entusiamo do momento e gozamos o amigo, o pai, o filho, independentemente do outrém que eles sejam. Mais raramente, num momento de fastio, de aborrecimento ou de irritação poderemos deixar escapar um vislumbre destes outros eles em frases mal-humoradas como “às vezes tem a mania”, “falta-lhe ali qualquer coisa” ou “não se lhe pode pedir mais”, que usamos como desculpas de um comportamento que não nos agradou. Mas por pouco que estejamos atentos, estamos cientes. Se nos escrutinarmos com atenção e honestidade, acharemos dentro de nós todos esses outros eles. E se usarmos de suficiente franqueza, até o outro eu encontraremos.

domingo, setembro 02, 2012

Exposição fotográfica (XL)


 Porto Covo numa manhã de Agosto, à hora do mercado







sábado, setembro 01, 2012

O estranho caso do homem que não sorria


Agosto é mês de notícias bárbaras, repescadas por estagiários de jornalismo nos cafundós das agências noticiosas e da “internet” para preencher páginas de jornal quando a política e a economia de férias interrompem o fluxo certinho de intrigas e calamidades. Ontem, para fechar o mês, o Público ostentava em última página, no lugar da habitual crónica do Vasco Pulido Valente, a descoberta no Camboja de um espécie de peixes que têm o pénis na cabeça.  Eu por acaso conheço algumas pessoas, homens e mulheres, que têm o pénis na cabeça, só que metaforicamente falando, mas estava longe de imaginar que a selecção natural tinha mesmo pregado à natureza uma partida destas. Pergunto-me se a divulgação desta notícia irá aumentar as receitas turísticas do Camboja, com “charters” de reformadas nórdicas a banhos no delta do rio Mekong.

Mas a nova mais perturbante do mês veio logo no início, nos primeiros dias dos jogos olímpicos de Londres, quando a polícia britânica prendeu um homem que assistia à prova à beira da estrada, no meio da multidão, com base no mui suspeito indício de ele não estar a sorrir - o que a diligente autoridade considerou atitude estranha. Veio depois a verificar-se que o senhor tinha um ricto facial, causado por uma doença, que lhe impedia mover os músculos da cara, tendo sido libertado com um pedido de desculpas pela maçada.                 

Razão tem o jornal humorístico Inimigo Público quando adopta como mote “se não aconteceu, podia ter acontecido”. Por muito que os humoristas se esforcem para ampliar as fronteiras do “non-sense”, a pose bacoca de agentes políticos, autoridades e outra malta que se tem por séria consegue num golpe de asa fácil ir sempre mais além. Nos anos setenta, os Monty Python realizaram um excelente “sketch” intitulado “Um conto de fadas”, que se passava num reino chamado Vale Feliz onde se dançava e cantava o dia todo e onde quem se sentisse triste ou infeliz ou tivesse problemas de qualquer tipo podia ser perseguido por desrespeito à “Lei da Felicidade” que o rei Otto tinha promulgado. No início do “sketch” assiste-se a um julgamento de um homem apanhado a resmungar. O advogado de defesa ainda tenta justificar o comportamento do seu cliente com o facto de a mulher dele ter morrido nessa manhã, mas tal desculpa esfarrapada provoca uma gargalhada no tribunal e leva o juiz a condenar o acusado a ser “pendurado pelo pescoço até que fique bem disposto”. Ao fazer esta rábula, os Python teriam bem ciente que a patetice alegre tem uma pitada totalitária, mas provavelmente nem eles esperariam que, quarenta anos volvidos, a  polícia de Sua Majestade lhes fizesse concorrência, suspeitando de um homem que não sorria e levando-o para averiguações.

Que os jornais tenham visto como uma anedota de verão que um homem seja preso por não sorrir no meio do convescote geral, e não se alarmem diante da evidência de um sintoma grave de mal-estar de uma sociedade amedrontada, diz muito sobre a imprensa que temos, sobre a sociedade que vamos tendo e sobre como ambas se realimentam como cobras mordendo caudas. Mesmo na “silly season”, este evento sabe muito mais a “season” do que a “silly”, infelizmente.

Este episódio lembra-me outro contado por Ray Bradbury. Nos anos de chumbo do McCarthysmo, Bradbury e um amigo passeavam a pé à noite quando um carro da polícia parou ao pé deles e um dos guardas lhes perguntou o que estavam ali a fazer. Bradbury respondeu “a andar”. O polícia pareceu surpreendido com a resposta e retorquiu, meio-desconfiado:

 - Está bem, mas não o voltem a fazer.

Esta ocorrência inspirou a Bradbury o conto “The pedestrian”, sobre um futuro ditatorial em que era proibido andar a pé.

De facto, um mundo em que a polícia se sente à vontade para suspeitar seja de homens que passeiam, seja de homens que não sorriem, não pode senão levantar receios de uma deriva totalitária a quem tenha dois dedos de testa. E a mim não me serve a desculpa oficial dos responsáveis ingleses, de que a polícia agiu prudentemente tendo em conta a multidão reunida, o mediatismo do evento, o risco do terrorismo, etc. e tal. Repetindo uma tirada de Benjamin Franklin que já aqui citei no blogue, uma sociedade que põe a sua segurança acima da sua liberdade não merece nem uma coisa, nem outra.

domingo, julho 29, 2012

Exposição fotográfica (XXXIX)

Fora e dentro das torres Petronas, em Kuala Lumpur, em Junho passado.


 


 





Carta militar à escala 1:25000


Quem já fez provas de orientação no campo sabe da utilidade dos mapas militares emitidos pelo Instituto Geográfico do Exército. Por muito perdidos que estejamos no meio do mato, um olhar atento e uma análise comparada da vizinhança com o conteúdo do mapa e as coisas começam a fazer sentido: um casebre lá ao fundo, uma linha de alta tensão passando mais acima, uma pendente abrupta à nossa esquerda, um canavial adiante que denuncia uma linha de água. Concluímos que devemos estar aqui e que o nosso caminho tem que ser por ali.

Ora desde há uns anos que andamos todos no mato sem saber para onde vamos. Instalou-se no mundo uma tenebrosa unanimidade onde uma minoria manda palpites e uma maioria repete-os, todos dizendo que só há um caminho e que é por ali, e alegremente nos empurram, inconscientes se no fim do trilho há um destino ou um precipício.

Completamente por acaso, veio-me parar às mãos um livrinho que está para os dias extraviados que correm como a carta militar à escala 1:25000 está para os momentos de desorientação no baixo de uma ribanceira. Encontrei-o no aeroporto de Schiphol e chamou-me a atenção a capa com uma avestruz em pose economista e o título “23 coisas que não lhe dizem sobre o capitalismo”. O autor, Ha-Joon Chang, não pertence, apesar do seu nome e do nome do seu livro, ao comité central do PC chinês: é sul-coreano e professor de economia na modestinha universidade de Cambridge.  Apesar da capa titular ainda “The No. 1 international best-seller”, género de referência que me deixa sempre de pé atrás, acabei por trazer e ainda bem.

O livro organiza-se em 23 capítulos mais uma curta conclusão. Cada um dos capítulos fala sobre uma “coisa”, uma ideia feita papagueada pelo grosso dos políticos, dos académicos e dos média, que Chang, com sabedoria oriental e humor britânico, se entretém a desmontar com argumentos, contra-exemplos e - pasme-se - números e dados reais. Depois de o ler, podemos pelo menos alimentar uma dúvida legítima sobre se existe mesmo uma coisa chamada mercado livre, se as companhias são efectivamente geridas no melhor interesse dos seus accionistas, se o crescimento da riqueza dos mais ricos arrasta de facto o crescimento da riqueza de todos, se precisamos para alguma coisa de mercados financeiros mais eficientes ou se até precisamos deles menos eficientes, etc., etc., etc.

Desmontando um a um cada um desses chavões que os fazedores de opinião nos vendem como sendo saber, Chang vai desenvolvendo a tese segundo a qual a forma de capitalismo que desde os anos oitenta do século passado é apresentada como a via única e o fim da História não passa de um versão parcial e ideológica, um pouco como o whabismo saudita que hoje se confunde geralmente com islamismo não representa a largura do pensamento e a profundidade da história do Islão. O que Chang diz é que o capitalismo é muito mais do que a salsada conservadora e neo-liberal que nos tem sido servida. Tem muitas virtudes mas também defeitos que têm que ser considerados, controlados ou contornados, usando de juízo e capacidade crítica.

E é a falta desta capacidade crítica que, no último capítulo (a “coisa” 23, intitulada “Boas políticas não precisam de bons economistas”), mais consegue revoltar Chang, afastando-o do seu misto de fleugma britânica e serenidade asiática. Professor de economia, dá uma violenta rabecada na classe e indigna-se com as desculpas esfarrapadas com que colegas seus da academia explicam a incapacidade que tiveram de antever a actual crise e, pior ainda, de ver retrospectivamente o papel que a visão única do chamado neo-liberalismo teve no acumular e explodir da crise. Chang reconhece que a economia tal como aplicada nos últimos trinta anos tem sido “pior do que irrelevante”: tem sido danosa para as pessoas. E adianta que isso acontece porque os economistas actuais esqueceram que a economia se pensa, que os grandes vultos se estudam e que olhando para trás ainda há muita informação útil para usar. Comparando, se o que aconteceu aos economistas acontecesse com os engenheiros, seria como se estes esquecessem de repente Newton, Maxwell ou Planck para seguir aqueles inventores charlatães que periodicamente clamam que descobriram o motor contínuo de primeira espécie que vai tirar a humanidade da miséria.

“23 coisas que não lhe dizem sobre o capitalismo” é um livro livre para leitores livres. Desvenda uma porta até aí secreta no cubículo sem saídas do pensamento actual. Cabe-nos a nós, leitores, perceber se queremos sair por essa porta ou ficar onde estamos, à espera que outra apareça.  

sábado, julho 28, 2012

As modernas sesmarias



Foi com algum desapontamento que vi no Expresso do último sábado, naquela secção dos altos e baixos da semana, o ministro Mota Soares alteado pela sua iniciativa de obrigar os beneficiários do Rendimento Social de Inserção a trabalhos úteis para a sociedade. É certo que os altos e baixos não são sítio para jornalismo de jeito, ou jornalismo de todo. E é certo que vivemos tempos propícios à asneira, tempos pastosos em que as noções de bem e de mal se perderam no breu da noite de abandono moral  que caíu sobre o mundo. Mas ainda assim não estava à espera de ler no Expresso - um jornal que se reclama de referência, um jornal que ousava falar de democracia quando publicado nos tempos já longíquos de uma ditadura formal - um elogio aos trabalhos forçados.

No outro dia, o meu filho mais velho perguntou-me o que eu achava de ele praticar voluntariado, como agora se diz, numa iniciativa qualquer da sua universidade. Eu respondi-lhe que me parecia bem, com duas condições: não se sentir no direito de julgar quem ajudasse e não esperar que lhe tivessem que ficar agradecidos. Se conseguisse reuni-las, teria sido de facto generoso e poderia deitar-se ao fim desse dia de consciência tranquila e dormir o sono de um justo. O papel de um pai é também este, o de alertar um filho para os perigos desta vida, e não há perigo maior do que pegar num acto nobre e abastardá-lo pela soberba.

Conheço gente que leva a cabo trabalho do mais meritório, do mais útil para quem sofre e para quem precisa, seja de um pacote de leite, seja de uma palavra de consolo. Tenho um grande amigo com obra feita nesse domínio, merecedora de qualquer encómio, que no entanto diz a quem o quer ouvir que os beneficiários do subsídio de desemprego deveriam ser obrigados a ajudar em obras de voluntariado. Perturba-me que ele não perceba que tal pensamento não só contradiz como apequena a sua excelente prática. Perturba-me isto até mais do que me confunde a noção de que o voluntariado pode não ser voluntário. Não deveria então chamar-se obrigatoriado?

Uma sociedade pode organizar-se numa base mutualista, em que todos pagamos impostos para ter direito a um seguro se por azar perdermos o emprego ou adoecermos gravemente, ou assistencialista, em que quem está em estado de necessidade tem que procurar a caridade para ser ajudado. Pessoalmente, acho a primeira via muito mais eficiente e civilizada do que a segunda e, como tenha a civilização em melhor conta que a barbárie, recomendo-a vivamente. A caridade deveria agir como último recurso apenas quando um sistema básico de solidariedade colectiva falhasse. Lamentavelmente, obrigar quem se ajuda a um qualquer trabalho, por muito socialmente útil que o mesmo pareça, não é nem mutualista nem assistencialista, do modo que acima defini. O adjectivo que assim à primeira me ocorre é esclavagista. Coagir quem se pretende ajudar a um qualquer trabalho ofende a dignidade das pessoas como ofende a dignidade do trabalho.

Pelos vistos, a ideia infeliz do meu amigo foi aproximadamente retomada pelo ministro Pedro Mota Soares. Quer o ministro que os beneficiários do Rendimento Social de Inserção procurem activamente emprego, se quiserem manter essa benesse. Parece-me bem que o façam: esses beneficiários estão a utilizar um recurso escasso que é o dinheiro dos nossos impostos que faz falta para que outros não percam o seu emprego, a hipótese de ter os seus filhos ensinados ou a oportunidade de ver o seu cancro tratado. Quer o ministro acabar com as fraudes no RSI. Parece-me excelente que o consiga,  pelas mesmíssimas razões: abusar do RSI é como roubar os medicamentos do coração ao velhote que anseia pela chegada da magra pensão para os poder comprar. Quer o ministro obrigar aqueles que auferem o RSI a trabalhos úteis. Parece-me péssimo. Que trabalhos? Em que condições? Com que paga? Que eu tenha conhecimento, ao longo da História, gente que trabalhava forçadamente ou era escrava, sob diversos nomes (servo, hilota, etc.), ou era prisioneira. Em qual destas categorias enquadraríamos os beneficiários do RSI coagidos a trabalhar? Escravos ou prisioneiros?

Talvez o ministro devesse tirar sentido do exemplo ocorrido com a Lei das Sesmarias de el-rei D.Fernando, que aprendemos na quarta classe. Procurara D.Fernando atender à dramática falta de mão-de-obra rural com um conjunto de regras, umas que ainda hoje fariam sentido para muita gente, mas outras, como a que recomendava que os “mendigos em idade e força suficientes fossem presos e obrigados a trabalhar pelo sustento ou por soldada”, que só fariam sentido àqueles que acham que a pobreza é pecado. Pois o que aconteceu foi que, apesar destas obrigatoriedades todas num tempo em que havia tropa suficiente e arbitrariedade muita para as fazer respeitar, a Lei das Sesmarias poucos resultados deu. O mesmo D.Fernando, noutra frente, fomentou duas bolsas de seguros marítimos, em Lisboa e no Porto, organizadas cooperativamente, que cobravam aos armadores dois por cento dos fretes e garantiam a recuperação do valor do navio àqueles que os perdessem. Tais bolsas, muito inovadoras à época, tiveram um grande sucesso e foram fundamentais para o desenvolvimento da actividade naval que suportou o surto das nossas Descobertas. Onde quis obrigar, fracassou. Onde procurou a cooperação, teve sucesso.

De todos os tempos, as sociedades de homens livres sempre se deram melhor que as sociedades de escravos. Porque não também hoje?

segunda-feira, julho 16, 2012

Fumo sobre a água

Morreu hoje de cancro Jon Lord, 71, fundador dos Deep Purple e que partilha com Ray Manzarek dos Doors e Dave Greenfield dos Stranglers o pódio indiscutido dos melhores organistas do "rock".

Lord tem sobre outros que vão indo a vantagem de não só deixar saudades como deixar músicas, grandes momentos à distância de um clique de rato no "youtube".

Mataspeak não é muito dado a obituários, mas o que tem que ser, tem que ser. Os Deep Purple são as minhas primeiras audições de "hard rock", os cabelos compridos que eu queria ter aos doze anos, os únicos acordes de guitarra que eu sabia tocar, o abanar o capacete ao som do "Made in Japan", a festa em Sassoeiros em que o "Highway Star" tocou repetidamente das duas até às oito da manhã após o que apanhámos o comboio e fomos em magote ao Rossio à pastelaria Suiça comer "duchesses" com a alarvidade dos dezasseis que chocou as velhotas matinais. E em todas estas memórias toca lá ao fundo o orgão de Lord.

O álbum Deep Purple in Rock, de 1970, é a ideia platónica de um disco de "hard rock", de que todos os outros são cópias degeneradas. Em homenagem a Jon Lord (e porque vale mais a pena do que desperdiçarem os próximos dez minutos e vinte segundos da vossa vida com outra treta qualquer) ouçam, desse disco, o "Child in time".



domingo, julho 15, 2012

Exposição fotográfica (XXXVIII)

Hoje voltei a Vila Nova da Barquinha visitar o velho Mata. No cais Pombeiro, o Tejo corria vazo.

 Pelas onze, já a vila se escondia nas sombras fugindo ao calor inclemente.

 O sol entretinha-se a pintar a carvão nos empedrados e paredes.






Mas há cores que só a cor pode reproduzir. Uma instalação do artista plástico Xana, residente em Lagos, com uma casa alentejana feita em caixas de mercado plantada em pleno Ribatejo.

NOTA: Durante algum tempo a legenda da imagem acima continha dois erros: Xana era dado como mulher algarvia quando é homem lisboeta. Os erros resultam ambos de precipitação minha: retirei o nome do autor e a referência a Lagos da plaquinha ao lado da obra e, sem o conhecer, deduzi o que não devia. As minhas desculpas ao Xana e o meu agradecimento à leitora que me comunicou o erro.