

Esta senhora há anos que calcula de cabeça o somatório de pesos vezes preços unitários ao dobro da velocidade com que eu o faço. "Intel inside". Só pode.


Esta senhora há anos que calcula de cabeça o somatório de pesos vezes preços unitários ao dobro da velocidade com que eu o faço. "Intel inside". Só pode.
Já vai uma década, participei nuns dias de marcha no sul de França que terminaram num opíparo jantar num “mas” isolado na planura da Camarga, pedaço de Ibéria enxertado em terra gaulesa, onde acompanhei grandes pratadas picando presunto e chouriço de touro.
Para entretenimento dos comensais, um par de ciganos tocava guitarra. Tocavam muito bem, mesmo muito bem. Soados os primeiros acordes, paravam as mandíbulas e viravam-se as cadeiras. Um deles tinha um CD publicado, que por idiotice na altura não comprei.
Num dos “breaks”, tendo esse do CD me ouvido falar português, abordou-me em espanhol e conversámos um pouco. No meio da conversa lembrei-me de lhe perguntar se conhecia Paco de Lucia. Ele, com um sorriso, pousou o pé na cadeira, assentou a guitarra na perna e durante sessenta segundos ouvi o “Rio ancho”. De forma perfeita: tal como quando oiço Lucia na gravação, pareceu-me ver o Guadalquivir a nascer cristalino na serrania, a vencer turbulento as encostas pedregosas e a explanar-se, largo, sereno, mouro, lento no calor abrasador da planície andaluza.
De repente, tendo-me presenteado com esse minuto excelente, travou as cordas com os dedos e disse com ar sério:
- Não gosto de tocar Paco de Lucia. Posso-me enganar e seria uma falta de respeito para com o mestre.
Acarinho desde então esta lembrança tocante. Naquele breve instante, o cigano ensinou-me muito sobre a humildade – que é uma virtude para consigo próprio, sobre o respeito – que é uma virtude para com os outros – e, quando por instantes quebrou a sua regra para me fazer a vontade, sobre a irmandade – que é uma virtude para consigo próprio e para com os outros.
Passados muitos anos desta cena, o meu pai encontrava-se moribundo num hospital de Lisboa. Havia uma auxiliar de enfermagem, um mulherão moreno, de cabelo longo retinto, de uma força impressionante, que muitas vezes vi assistir o meu pai. Pegava no seu corpo minado (e depois vencido) como se uma madona segurando o Menino. Ele quase desaparecia por trás daquele corpanzil de bata verde. Quando ela entrava no quarto, nunca faltava uma palavra simpática, um “senhor”, um nome, um dedo de conversa, mesmo quando ele já não respondia, mesmo quando ele já não percebia, mesmo quando para outros menos cautos poderia parecer que aquelas palavras já não valiam a pena. Ora isto chama-se humanidade e vem caindo em desuso.
Era cigana. Por vezes as visitas ao sabê-lo duvidavam, presas aos seus estereótipos, insistiam se era mesmo e ela, firme no sorriso, ajeitando a orla do lençol, reafirmava:
- Com muito orgulho! De pai e mãe.
Certa vez, quando ela pacientemente, pela vigésima vez do dia, acudiu a uma tarefa que a quase todos repugnaria e eu lhe agradeci, respondeu:
- Não tem que agradecer. Gosto muito do que faço.
Na altura surpreendeu-me mas hoje vejo claro. Como poderia um Anjo não gostar do que faz?
Não temos, nem eu nem a língua portuguesa, palavras para expressar a gratidão e a admiração que eu sinto por ela (e por outras pessoas que sempre aparecem lado-a-lado nestas memórias). Mas uma coisa que na altura jurei foi nunca mais ser estúpido e voltar a cair na ladainha que nos ensinam desde crianças, que o horror chamado “vox populi”destila e que os jornais reverberam, de que os ciganos isto e a ciganada aquilo.
Durante Agosto, li sobre os ciganos romenos que foram corridos de França, às famílias inteiras. Não digo expulsos ou deportados porque eles estavam num espaço, a Comunidade Europeia, onde têm direito a estar. Portanto a palavra que mais se me aproxima é “corridos”. Corridos à má fila. Com argumentos que são um vómito para cima dos tratados europeus e perante um silêncio cobarde da Comissão que só pode espantar por já não espantar. Desgostante.
Nestes tempos de correcções políticas, os ciganos são objecto de um racismo intolerante e tolerado.
Não só porque são catalogados à cabeça de malandros, senão mesmo de criminosos. Não só porque prevenimos os nossos filhos para terem cuidado. Não só porque viramos a cara. Estes são só os tiques mais evidentes.
Há racismo quando um telejornal relata que “dois indivíduos de etnia cigana assaltaram” mas já não diz que “dois indivíduos de indivíduo de etnia branca assaltaram”.
Há racismo quando a chacina de judeus às mãos nazis na Segunda Guerra se chama Holocausto e a dos ciganos é um detalhe da História.
E também há racismo quando achamos que as crianças ciganas podem abandonar a escola aos doze anos e serem prometidas em casamento aos catorze, “porque eles são assim”. Se são assim, mudam, e temos que os obrigar a mudar, como se faria com qualquer família não-cigana. Não exigir deveres também é uma forma de racismo.
Vários ciganos enveredam pelo crime? Que se prendam. Muitos ciganos trabalham na economia paralela? Controle-se e tribute-se. Há muitas crianças ciganas que se vêem privadas pela família de direitos básicos? Intervenha-se como com qualquer outra criança. Mas deixe-se a cada indivíduo cigano, à partida, o seu direito ao bom-nome, à presunção de inocência e a todas as outras considerações que nos indignaria se nos fossem retiradas.
Julgar um indivíduo pelo comportamento de outros de um todo a que ele pertence é racismo, ponto final. Entre os portugueses há muitos defeitos, mas eu quero ser avaliado pelos meus defeitos, não pelos de outros portugueses. Entre os brancos há muitos vícios, mas eu exijo ser julgado pelos meus vícios, não pelos de outros brancos. Cada cigano tem o direito de ser visto pelo que ele é, não pelo que outros são, sejam esses um, dez ou noventa por cento do total. Não interessa a percentagem. Totalmente irrelevante.
Diz o ministro francês que coordena estas alarvidades que um em cada cinco roubos na região parisiense é cometido por romenos. E dois ou três dos restantes devem ser por franceses. Corra-se então também com os franceses, que mal não faria à França.
As expulsões de famílias inteiras capitaneadas por Sarkozy, por motivos populistas e eleitoralistas, envergonham a França e a silenciosa Europa. Com a ironia adicional de ser o presidente francês filho de emigrantes húngaros, que tiveram a felicidade de não ser expulsos “in illo tempore”.
Por estas e por outras, passo a passo, de Berlusconi em Sarkozy, de “Front National” em “Vlams Block”, de indignidade em indignidade, a civilização europeia, construída com o labor e o sangue dos nossos anciães, vai deslizando para o fundo. Neste momento, quase irremediavelmente conspurcada, já anda a boiar na água da retrete. Que venha mão justa e piedosa e solte o autoclismo.
Faz uns anos, adquiri no castelo de Santiago do Cacém uma pequena monografia da Real Sociedade Arqueológica Lusitana, grémio mais que centenário, da autoria de um António Martins Quaresma, intitulada “Porto Covo – um exemplo de urbanismo das Luzes”.
Por ela descobri que Porto Covo, onde há mais de vinte anos veraneio, é das poucas terras portuguesas que nasce da ideia de um homem, Jacinto Fernandes Bandeira, plebeu ligado ao Marquês de Pombal que no final do século XVIII principia uma povoação num lugarejo que continha apenas quatro fogos. Jacinto Bandeira mandou desenhar um plano para a nova aldeia, com uma traça rectilínea entre duas praças principais, uma das quais corresponde ao actual Largo, com projectos de equipamentos sociais em localizações pré-definidas, numa organização racional típica do modo iluminista de pensar da época. Em 1805, Jacinto Bandeira recebe da Coroa o título de Barão de Porto Covo. Numa curiosa injustiça, existe apenas hoje na terra uma rua Conde Bandeira, homenageando um sobrinho e não o fundador.
O Porto Covo que se desenvolveu posteriormente só em parte cumpriu as intenções que o arquitecto Henrique Guilherme de Oliveira deixou estabelecidas nas plantas que hoje repousam na Torre do Tombo. Mas ainda assim a aldeia que eu conheci nos anos oitenta, aí pela altura da malfadada canção do Rui Veloso, mantinha uma coerência e uma graça muito particulares, com o seu casario branco tarjado de azul escorrendo até à arriba em perfeito alinhamento.
Hoje, um estudo arquitectónico sobre Porto Covo teria forçosamente que se chamar “um exemplo do urbanismo das trevas”. A área a construir decuplicará o tamanho natural da terra, estoirando a capacidade das praias e dos comércios que, vivendo do mês de Agosto, não se podem eles expandir. Dois parques de campismo anárquicos garantem ruas entupidas e filas na padaria dignas dos melhores tempos romenos de Ceausescu. Há casas de xisto, outras de tijolo à vista, outras, gongóricas e de janelas ovais, com pretensão a missão católica no Novo México. Junto à Praia Grande um paralelipípedo de betão e vidro, uma Sizada, cercado de estacas pintadas de branco. Resumindo, todas as parolices novo-ricas que possam imaginar, com alumínios e cerâmicas. Gruas erguem-se, erguendo condomínios dependurados sobre o alcatrão da estrada, sôfregos por cada metro quadrado. Os lotes ainda vazios acumulam o entulho dos lotes já preenchidos e o lixo que a nossa crónica falta de civismo por lá vai largando. Nos passeios, abandonados pela autarquia, cresce matagal amazónico que obriga o transeunte a andar pelo meio da rua, sujeito à passa dos aceleras que fulminam de Seat Ibiza vermelho, os baixos ribombando junto às almofadas do vidro traseiro.
Um dos erros trágicos da revolução foi a carta de alforria que se deu às autarquias para licenciar. Poder a mais sem contra-poder. Temos hoje um país desfeado e desfigurado, liderado por construtores de meia-tijela, que ganham construindo e portanto destruindo.
Mas que isto assim seja quando nada se faz para contrariar já eu devia saber desde o segundo ano do Técnico, quando tive que empinar que a energia num sistema fechado se ajusta de modo a tornar a entropia tão grande quanto possível, no mais aleatório dos macro-estados.
Durante o fim-de-semana que passou (mais depressa do que eu queria), entre mergulhos no tanque onde o termómetro flutuante ia ostentando uns 29 Celsius bem satisfatórios, encetei a leitura de “A Argélia argelina”, um livro de Jean Lacouture sobre o processo de independência daquele país. Reúno muitas vezes com argelinos por osso de ofício e pouco conhecia sobre a sua história. Nem tarde, nem cedo, foi desta, à torreira dos 38 que esbraseavam a serrania alentejana.
Ainda não acabei o volume, mas já fui aprendendo umas coisas que para mim são de utilidade muita relativa mas que para outros poderiam dar algum jeito: por exemplo àqueles que ainda hoje se aventuram na aventura colonizadora.
A França ocupou a Argélia em 1830, terminava o reinado de Carlos X. Até ao final do mono-império de Napoleão III, a política oficial para a colónia oscilou entre uma tutela teoricamente benevolente delegando alguns poderes nos locais e grandes e deliberados ensaios de porrada. Pelo meio foram espoliando terras e trazendo colonos. Contas feitas, estima-se que entre 1830 e 1872 um argelino em cada três morreu de morte violenta, epidemia ou fome, tudo brilhantemente patrocinado pelo humanismo gaulês. Compreende-se que ainda hoje os tipos não gostem deles.
À medida que o tempo passou, que a França perdeu potência e que as condições políticas mundiais se tornaram pouco afáveis para os colonizadores, o problema foi-se complicando. Desde a metrópole, a política oscilava entre uma visão integradora que preconizava que a Argélia fosse parte do território nacional, o que acarretava a chatice de ter que dar aos indígenas os mesmos direitos e voto nas matérias e tudo o mais e outra que a definia como colónia a manter “manu militari”. No local, a tendência era para não ligar puto aos telegramas de Paris. A influência conservadora dos colonos, que tinham tudo a perder (e que acreditavam no “status quo” eterno), e a rédea solta dos militares impediam qualquer actuação que fosse favorável à autonomia, à independência ou mesmo a alguma justiça para a arabiada.
Do lado dos argelinos, uma elite pensante foi-se desenvolvendo e dividindo entre os que preconizavam uma via reformista, de lenta aquisição de direitos, de uma Argélia argelina dentro de uma França amiga, e os que preconizavam a acção directa e violenta para uma separação total entre povos que tinham apenas em comum os metros quadrados que pisavam. A tendência francesa foi a de perseguir uns e outros.
A seguir à guerra mundial, a situação agudizou-se após os massacres de Constantine, em Maio de 1945, quando cerca de uma centena de colonos foram mortos por extremistas argelinos e a reacção francesa foi completamente desproporcionada: estimam-se quinze mil mortos. Quando no final dos anos quarenta os franceses foram à procura dos moderados argelinos para falar, já não os encontraram. Só a guerra e a independência estavam em cima da mesa. O confronto armado, uma guerra suja de parte a parte, começou em 1954 e os franciús fecharam discretamente a sua loja colonial em 19 de Março de 1962. Quanto aos colonos, piraram-se em massa para o outro lado do Mediterrâneo, às centenas de milhar, muitos com uma mão à frente e outra atrás. Afinal, aquele peito todo não lhes serviu de muito.
Ao ler este pedaço de tempo passado, não me pude impedir de fazer um paralelo com a situação dos colonatos que Israel vai alegremente estabelecendo pelos territórios palestinos da vizinhança, aproveitando o facto de não se lhe aplicarem as resoluções da ONU que se lhe aplicam. O uso da força, o sentimento de superioridade, a criação de uma massa de colonos como força de bloqueio, a hesitação entre o discurso da integração e o da divisão, tudo parece tirado a papel químico.
O que o governo israelita está a fazer àquela gente, à sua gente, raia a indecência. É pô-la do lado errado da História onde será fatalmente atropelada, mais cedo ou mais tarde. Se não ela, os seus filhos ou netos. A força pode aguentar a situação dez, vinte, cinquenta, cem anos, mas um dia fraqueja. Depois vai tudo a eito como foi na Argélia. E aí, tarde demais, vão perceber que os usaram como carne para canhão.
As situações meta-estáveis têm destas coisas: um dia, de repente, instabilizam mesmo.
Com fogo,
Água,
Terra,





Hoje calha-me dizer bem. Para variar.
Escrevi aqui há tempos que não há actualmente em Portugal classe mais reles que a dos jornalistas. Mantenho. Mas dificilmente se generaliza sem se ser injusto, por vezes tremendamente. Encontram-se excepções. Existirão taxistas polidos, autarcas sem rotundas e benfiquistas com uma orientação sexual tradicional.
Exceptuando então, venho falar-vos de uma enorme jornalista.
Acabei de ler dois trabalhos de Alexandra Lucas Coelho no Público de ontem, escritos na África do Sul. Uma pequena crónica sobre Neil Aggett, um jovem médico branco que no fim dos anos setenta foi trabalhar para um hospital de negros no Soweto, se tornou activista e morreu sob tortura nas prisões do regime segregacionista com vinte e oito anos apenas. Cuja existência eu desconhecia e cujo exemplo em boa hora ela reavivou. E uma reportagem mais extensa sobre a baixa de Joanesburgo, uma área pesada e violenta, outrora nobre mas hoje desertada pelos brancos e pelos bancos.
Enquanto as notícias que as dúzias de enviados especiais ao Mundial nos remetem hoje em dia desde a África do Sul se resumem integralmente a banalidades ao som de vuvuzelas, ilustradas por imagens gravadas em restaurantes de madeirenses, com orgasmos ligeiros sempre que avistam uma bandeira das quinas nalgum recanto e hossanas à popularidade dos portugueses por esse mundo fora, Alexandra Lucas Coelho procura a memória do que foi um país dividido pelo ódio, um ódio função da concentração na derme de uma molécula chamada melanina, um ódio que expulsou o advogado Gandhi do comboio por ter melanina a mais.
Enquanto a curiosidade dos assim chamados repórteres da SIC e da RTP se foca no “fait-divers” dos mil e quinhentos euros roubados nos quartos de jogadores gregos, que lhes devem fazer uma falta danada, ou se resume a entrevistar mexicanos de sombrero a garantir que o México vai ganhar e ingleses de bojeca em pulso a augurar a vitória da Inglaterra, Alexandra Lucas Coelho procura, em bairros em que outros teriam medo de entrar, a essência do país que sucedeu ao “apartheid”.
Comecei a acompanhar os seus escritos quando ela foi residir para Israel, onde é correspondente do jornal Público. As suas notícias sobre acontecimentos políticos notórios têm rigor, eficácia, perspectiva, um visível conhecimento dos meandros da política local, enfim, aquilo que se espera de um correspondente que se veja. Mas onde ela excele é nas suas crónicas sobre as pessoas, a vida, os dois lados de um mundo dividido por muros de betão e de inimizade. Num canto do planeta em que com facilidade se pode deslizar para o sectarismo, Alexandra Lucas Coelho parece imune. Com pinceladas de forte humanidade, em momentos de guerra ou nos intervalos de paz, descreve-nos o que vê de parte e doutra: pessoas, com sentimentos, com dores, com raivas, com alegrias e com esperanças. Com ela, a máxima de Protágoras torna-se um programa de acção: o homem é a medida de todas as coisas. Fá-lo com árabes e judeus, israelitas ou palestinianos, de forma equilibrada mas não sem tomar partido, que o jornalismo não tem que ser asséptico. O partido que toma é o da verdade e da decência, da simpatia pela liberdade e da repulsa pela opressão. E consegue-o de uma forma suave, sem maniqueísmos, plena de respeito, dando-se como um espelho que reflecte a realidade, diferente, de diferente gente.
Alexandra Lucas Coelho possui outra virtude que vai rareando na imprensa que leio e mesmo na que ouço. Trata muito bem o português. Hoje, pega-se num jornal ou ouve-se um noticiário e leva-se com um arrazoado de anglicismos, fruto das traduções apressadas dos despachos da Reuters, onde a concordância do sujeito com o verbo é uma feliz coincidência e não mais uma obrigatoriedade natural. Quem não ouviu já na rádio que as acções da PT seguem a subir? Seguem? Para onde? Para Espanha, se calhar, de onde veio esse castelhanismo que infectou o jornalismo económico. Às vezes, vendo o que esses marrecos escrevinham, parece inacreditável que fulanos como Hemingway, Camus ou o próprio Eça tenham partilhado a mesma profissão. Mas com ela não. Dá gosto ler. Usa uma escrita depurada, figurativa, nada pretensiosa, factual mas tantas vezes tocante.
Conheci muito brevemente Alexandra Lucas Coelho há uns anos, numa festa de aniversário de uma amiga comum, passada num fim-de-semana na Quinta da Matinha, um turismo rural isolado na serra alentejana junto ao Cercal, onde o céu estrelado não consente que o nosso olhar desça e onde o Alfredo nos mima com esperadas e inesperadas proezas gastronómicas. Tenho uma memória leve de uma pessoa simples e discreta, nas antípodas do espalhafatoso que caracteriza alguns escribas menores da praça. O que aumenta ainda mais a minha admiração por alguém que tranquilamente nos traz histórias de sítios em que muitos de nós recearíamos viver ou meramente passear.
Nos dois artigos sobre a África do Sul que lhe li ontem, sem que tal alguma vez seja referido explicitamente, percebe-se que o “apartheid” não morreu ainda, modificou-se apenas. Já não manda, mas ainda reina um bocadinho, como é normal na sequência de longas ditaduras. Com o salazarismo passa-se o mesmo. O caminho a percorrer pelos sul-africanos tem pois muita quilometragem pela frente, mas vale a pena ser percorrido. No último parágrafo da sua crónica sobre Neil Aggett, Alexandra relembra a frase que está gravada à saída do Museu do Apartheid: “Pense no que aconteceu e no que virá. E depois saia em liberdade.” Muito bem escolhida.
Nota - Não sei quanto tempo estará “on-line”, mas eis o “link” para um dos artigos referidos:
http://jornal.publico.pt/noticia/11-06-2010/quem-tem-medo--da-baixa-de-joanesburgo-19582722.htm







“Time is a funny thing. Time is a very peculiar item. You see when you're young, you're a kid, you got time, you got nothing but time. Throw away a couple of years, a couple of years there... it doesn't matter. You know. The older you get you say, "Jesus, how much I got? I got thirty-five summers left." Think about it. Thirty-five summers.”
Fala em “off” de Benny, dita por Tom Waits, in “Rumble Fish” de Francis Ford Coppola
Recordo o tempo em que, ainda os meus dezoito anos vinham a alguma distância, o tempo me parecia um caminho sem fim. Vogando entre uma consciência indiferente e uma inconsciência adormecida, um saber social dizia-me que um dia trabalharia, que talvez viesse a ter filhos e que fatalmente morreria, se possível de velho. Mas tudo isso morava muito para lá da linha do horizonte. O tempo era enorme.
Há duas quintas correram dezoito anos sobre o momento em que por uma porta traseira da maternidade Alfredo da Costa, quase clandestinamente, me vieram mostrar um embrulho que continha um olhar negro, inscrito num crânio ainda ameloado pelo efeito dos fórceps, e cuja co-autoria me pertencia.
Curiosamente, recordo não ter percepcionado novidade naquele momento. Certamente um dos mais marcantes da minha vida, mas senti-o como se fosse o culminar, a extremidade de um segmento de tempo, não um elo isolado que valesse por si próprio mas o último de um processo quase ordenado, de uma cadeia sequencial, feita de expectativas, de sonhos, de preparos, de ânsias, mas que no meu âmago nunca imaginei terminar noutro instante que não naquele.
Senti, por outro lado, uma identidade forte. Como se aquele ser, símbolo e centro daquele momento, me estivesse meramente reencontrando, como um camarada de colégio que desaparece de circulação e com que chocamos acidentalmente ao virar de uma esquina. Como se aquele instante, de uma forma esconsa e que não apreendi ainda muito bem, fosse uma repetição, um retorno, a intercepção de um ciclo infinito com o plano sempre mutante do presente sobre qual vou erraticamente passeando.
Ora estes dezoito anos passaram que nem um fósforo, que nem minutos, voláteis e dramaticamente curtos como os segundos preciosos que sobram para o apito do árbitro quando uma equipa procura o golo que lhe falta. Cá dentro das nossas mentes (pelo menos da minha), há uma frase feita que algo nos sopra ao ouvido do espírito: “parece que foi ontem”. E a nossa razão embarca nessa história mal contada e diz que sim com a cabeça, como se entre o olhar negro inquieto da porta da maternidade e o olhar negro confiante que me olha hoje de cima para baixo apenas houvesse um rasgo no tecido crónico, como se não se tivessem escoado 216 meses, 936 semanas, 6574 dias, 157776 horas e tantos milhões de minutos e segundos que a calculadora até capitulou, acusando erro por “overdose” de dígitos. Muito tempo de facto, mas que cabe todo num hiato de memória entre dois olhares. O tempo é compressível até ao diminuto, quase até ao infinitamente pequeno.
Para o aniversário, quis oferecer um cartão com uma fotografia específica desse tempo longínquo, uma memória forte simultaneamente em papel e nos estranhos circuitos neuronais que ronronam no interior do meu crânio. Se me recordava bem dela, não me lembrava no entanto onde a pusera e por isso percorri anos de fotos e álbuns, milhares de imagens, desde as marcas dos ferros na cara da primeira hora ao jovem apinocado em fato escuro de há poucos meses. Revelou-se um exercício curioso e inesperado.
Dedilhei por sorrisos já mal lembrados e de dentes ainda anárquicos, pelos gritos atmosféricos das festas de anos, os embrulhos arrancados dos primeiros natais, a ansiedade da marca de partida nos saraus de natação, as pinturas e caraças de Carnaval, as fotografias da praxe com sorrisos de careta diante da torre Eiffel ou do palácio de Buckingham. Vi como eles eram pequenos e frágeis e como nós ficámos mais velhos e frágeis. Lembrei as modas mutantes, nos penteados, nos óculos, nas gravatas, nas sapatilhas, esticando, minguando, frisando, cromatizando. Encontrei também aqui acolá alguns que já cá não estão (fisicamente), outros que não sei por onde andam e que foram tão próximos que pasmei como pôde a vida separar-nos.
Sim, o tempo passou e longo e rico e cheio. E ali estavam apenas os marcos miliares de uma estrada de dezoito anos, subindo e descendo as encostas das nossas vidas. Os marcos são importantes: marcam. Mas entre eles houve que percorrer o lajeado do dia-a-dia, feito de corridas matinais para a porta da escola, dos pequenos sucessos e insucessos, das pequenas alegrias e tristezas, da sucessão dos amigos inseparáveis, da maturação lenta das personalidades, do entrechocar desajeitado dos talheres nos pratos do jantar, do respirar nocturno que como um alívio escutávamos pelas portas entreabertas. Uma existência pletórica, densa, quase espessa, mesmo que todavia mais discreta.
Vendo isto, concluo que afinal o tempo é como os matemáticos o concebem: um troço de recta que por pequeno que seja contem infinitos pontos, tantos quantos os que existem num troço maior ou fora dele. A vida de cada um, à sua maneira, tem a riqueza de todas as que vieram antes e depois.
E com esta cegada toda, assim caíram as folhas de calendário entre os meus vinte e oito de boa memória e os quarenta e seis que agora protestam no meu bilhete de identidade. Se aguentar mais trinta e cinco verões, como dizia o outro, já vai ser uma fezada. E também se forem menos não há azar. Sou um tipo com sorte: de certo modo, já tive todo o tempo do mundo.
Todos os anos, a associação de alunos do Liceu Francês de Lisboa, minha escola de sempre, a quem confiei os meus filhos para que se lhes dessem umas luzes, organiza um espectáculo de beneficência. Chama-se S.M.I.L.E. Nunca falto. Ignoro o que significa a sigla, se é que algo se esconde por trás daqueles pontos. Sei que a entrada custa um euro e a fatia de bolo um euro e o copo de plástico a desbordar sumo um euro também. No final, na caixa, não muito dinheiro, mas que sempre dará algum jeito no Camboja, destino tradicional da colecta, por razões que já se perderam no tempo.
Smile, portanto.
Ao palco, cada um traz o que sabe, mesmo que não saiba. Uns tocam, por vezes mal. Canta-se, desafina-se também, esganiça-se a espaços. Dança-se, entre o síncrono e o assíncrono. Crianças trazem pequenos “sketches” com vozes e poses de crianças. Em anos, exibem-se artes marciais. Noutros, concursos de teatro. Os microfones falham e quando não falham as apresentadoras falam para a frente e para o lado, deixando cair palavras ao chão. Vai-se percebendo. Ora não se ouvem os instrumentos, gerando-se protestos de silêncio na sala, ora as colunas distorcem, lançando mãos aos ouvidos. Com tudo isto, um dos maiores espectáculos do mundo.
Smile, relembro.
Desde o palco, dá-se. Na plateia, recebemos. Lá em cima, vence-se a verdura dos anos, vence-se a vergonha de encarar uma sala cheia, vence-se o riso que espreita, dobra-se a falta de tempo de ensaio. Cá em baixo, os amigos não se importam, ululam, aplaudem, comungam, vivem, agitam isqueiros e telemóveis iluminados. Uma rapariga entoa o “Summer of 69”: “those were the best days of my life”. São, de facto. E nós, os mais velhos, temos saudade da generosidade, da intensidade, da urgência, do riso sem mácula e do beijo que num recanto escuro da sala dois corpos ainda não acabados trocam, com um enlace como se fosse o único, com uma sofreguidão como se fosse o último. Saudade é uma palavra simpática para inveja.
Smile, dizia.
A alegria, por muito que esfuzie, não esquece. Há uma semana viveram a dor da morte de um colega, mas não deixaram de o levar à festa. Um amigo, que com ele tocara no passado, fecha o espectáculo tocando em sua memória uma música dos Radiohead, que certamente ouviram lado-a-lado. Uma moça, quase pequena para a guitarra que segura, dedica-lhe com voz hesitante uma das músicas que interpreta e que compôs. Fala de um bom rapaz que foi e do sentimento dos que ficaram: “free falling”. Acabado o seu momento, com um cantar certinho, desce os degraus laterais, sai para o fundo da sala e chora em sossego.
Smile, tá certo.
O espectáculo termina, como sempre, com todos ao estrado, para um último coro, um derradeiro aplauso, um abraço que vai de uma cortina à outra.
Por coincidência, tenho um amigo inquieto que parte amanhã para o outro lado do mundo, julgo que para ver gente feliz. Procuramos sempre longe à brava aquilo que sobeja à nossa porta.
Smile, já disse!