Museu da Evolução Humana
Adro da catedral
O peregrino de Santiago
Rua de Santa Agueda
Telhados de Santa Agueda
Porta de San Martin
Praça Maior
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Mas sobre o que realmente interessa na humanidade, tivemos mais e melhor. Neste local descobriu-se um crânio completo de “homo heidelbergensis”. Os arqueólogos puseram-lhe catitamente o nome de Miguelón, em homenagem ao ciclista Miguel Indurain, na altura ás do pedal. Sabe-se que o Miguelón levou violentamente na fronha, por um oponente que era destro, pois apresenta várias pancadas do lado esquerdo do crânio. Uma delas partiu-lhe um dente e provocou-lhe um abcesso (que ficou marcado no osso) e posteriormente a morte por septicemia. Este processo demorou algum tempo. O Miguelón estava todo partido, completamente inoperacional, mas não morreu de fome. Alguém tratou dele. Alguém foi buscar comida para ele e não foi ao Pingo Doce. Alguém arriscou a vida por um moribundo, centenas de milhares de anos antes de Kant escrever sobre imperativos categóricos. Repetindo a conclusão do Doutor David Canales: “O que se passou nesta caverna? Amizade? Amor? Não sei. Os vossos mil e quatrocentos centímetros cúbicos de caixa craniana que respondam”.
“Benjamin felt a nose nuzzling at his shoulder. He looked round. It was Clover. Her old eyes looked dimmer than ever. Without saying anything, she tugged gently at his mane and led him round to the end of the big barn, where the Seven Commandments were written. For a minute or two they stood gazing at the tatted wall with its white lettering.
"My sight is failing," she said finally. "Even when I was young I could not have read what was written there. But it appears to me that that wall looks different. Are the Seven Commandments the same as they used to be, Benjamin?"
For once Benjamin consented to break his rule, and he read out to her what was written on the wall. There was nothing there now except a single Commandment. It ran:
ALL ANIMALS ARE EQUAL
BUT SOME ANIMALS ARE MORE EQUAL THAN OTHERS
After that it did not seem strange when next day the pigs who were supervising the work of the farm all carried whips in their trotters.”
George Orwell, in “Animal farm”
Tenho lido excitações várias a propósito do caso de Julian Assange e das por si desviadas duzentas e tal mil mensagens do Departamento de Estado norte-americano que, a conta-gotas, nos vão dizendo do mundo em que vivemos.
Surpreendentemente, e falando apenas de Portugal, algumas das argumentações mais pindéricas vêm de jornalistas de estatuto, como Miguel Sousa Tavares, Teresa de Sousa ou José Manuel Fernandes, que às vezes parecem ter esquecido qual a carteira profissional que levam na carteira.
A ver:
Argumento 1: o gajo só faz essas maldades aos Estados Unidos e não à Rússia ou à China ou ao Irão; logo está feito com essas potências malévolas.
Não sei se está feito ou não e também é totalmente irrelevante. Acho muito mais provável ele não ter conseguido sacar nada aos russos ou aos chineses, que pelos vistos são mais profissionais nessas coisas do secretismo. Mas pergunto: uma fonte de informação (que é o que ele na prática é) ou um jornal (que são o que são o Le Monde, o El País, o The Guardian, o Der Spiegel e o New York Times) têm que se preocupar com esse equilíbrio do terror na produção de notícias? O Bob Woodward e o Carl Bernstein, quando mandaram o Nixon de carrinho num contexto de Guerra Fria, deveriam ter tido em conta que não estavam a dar o mesmo tratamento ao Brejnev e ter-se patrioticamente recusado a pôr o Watergate nas rotativas?
Argumento 2: o gajo com essas revelações está a pôr em perigo a luta contra o terrorismo.
Não vejo que esteja e assim sendo é totalmente irrelevante. A informação foi entregue a cinco jornais dos mais prestigiados do mundo que vão tratando editorialmente a informação em bruto. Neste aspecto ele foi ou esperto ou prudente. E será ou não importante sabermos (e não apenas suspeitarmos ou conjecturarmos) que uma petrolífera corrompe governos, que uma farmacêutica persegue magistrados que investigam mortes causadas por testes de medicamentos seus ou que o nosso Zé deu o seu aval à utilização do nosso território para transferências de presos para Guantanamo e mentiu sobre esse facto aos eleitos em representação do povo (que, já agora, somos nós)? A mim parece-me de algum interesse público. Que diríamos de um jornalista que mantivesse esta informação para si? Certamente que tinha um jota pequenino.
Argumento 3: o gajo está a usar informação criminosamente roubada.
Quase de certeza mas também é totalmente irrelevante. E é por ser totalmente irrelevante que o direito ao sigilo sobre as fontes é uma pedra basilar da actividade jornalística nas democracias. Voltando ao Watergate, quase de certeza que o “Garganta Funda”, quando passou a informação cá para fora, não se chibou em total respeito pela legalidade. Mais uma vez, deveriam por isso Woodward e Bernstein ter ficado calados?
Argumento 4: o gajo andou a dormir com umas suecas.
Que lhe tenha feito bom proveito mas também é totalmente irrelevante. Aqui, os americanos tiveram azar. Logo agora que eles precisavam que isto não acontecesse e que tudo mantivesse um ar respeitável, aparecem estas tipas e fica logo o pessoal todo (que é maldoso) com a pulga atrás da orelha a dizer que estas duas não surgiram por acaso. E para mais com umas acusações que só traduzido do sueco: “sexo de surpresa” ou “sexo com ela meio a dormir”. Maravilha! Até eu já às vezes ando meio a dormir. Ainda vou parar aos tribunais.
Argumento 5: o gajo tem aquela cara.
Sim! Já li este argumento em letra de imprensa! Sem palavras. Totalmente irrelevante, claro.
Vamo-nos cingir ao que interessa. Cinco dos maiores e melhores jornais mundiais estão a seleccionar e publicar informação diplomática norte-americana, confidencial, sobre os mais variados assuntos e países. Obtiveram licitamente esse material de um fulano que o recebeu de terceiros, terceiros esses que ilicitamente promoveram a fuga. A veracidade dos conteúdos não foi desmentida. No global, as duzentas e cinquenta mil mensagens permitem-nos perceber o paternalismo suficiente com que o Império nos trata. Só os ingénuos se surpreenderão. Algumas dessas mensagens indiciam ou provam factos realmente graves. A situação é muito embaraçosa para a diplomacia dos Estados Unidos, que já se viu obrigada a começar a rodar diplomatas.
A única diferença face a outras vulgares fugas de informação está no volume, só possível nestes tempos de “terabytes” fáceis, no facto de a fonte dos jornais – Julian Assange – se manifestar publicamente em vez de ficar quietinha no anonimato e de ter um “site”, o Wikileaks, que tem como propósito divulgar publicamente informação que empresas, estados ou outros gostariam de manter confidencial. No Wikileaks podemos encontrar em bruto as tais duzentas e cinquenta mil mensagens.
Não muito surpreendentemente, os Estados Unidos querem a cabeça do homem e pressionaram empresas fornecedoras de serviços ao “site” (Amazon, Paypal, etc.) para rescindir com ele, tentando vaporizá-lo do ciberespaço. Também não muito surpreendentemente, a manobra não lhes saiu bem. A “internet” é mar para enguias e facilmente o “site” foge e se replica, existindo hoje na rede mais de dois mil espelhos do mesmo.
Mais surpreendentemente, muita imprensa (nomeadamente a portuguesa, mas não só), em vez de se atirar de cabeça a esmiuçar a informação disponibilizada e as suas consequências, prefere conjecturar sobre as “reais” intenções de Assange ou sobre a sua “verdadeira” personalidade ou dissertar sobre o carácter “voyeur” ou anarquista do “site” Wikileaks. Relatórios minoritários. O que admira e preocupa é ninguém se admirar ou preocupar. Deste estado espantoso só ouvi o Lula da Silva comentar, intrigado, no seu jeito pernambucano e com aquela sagacidade de quem perdeu um dedo no torno: “Oi! Ninguém vem defender a liberdade de opinião, não?”
Como gosto de saber sabido, visitei o “site”, julgando – à vista da sanha – que iria encontrar textos de Kropotkine ou arengas de Ossama Bin Laden. As únicas citações de políticos que lá encontrei pertenciam a Thomas Jefferson e James Madison, senhores cuja carantonha circula nas notas de dólar. Encontrei um “site” normalíssimo de uma ONG de recorte anglo-saxónico com um propósito declarado: revelar, da forma mais segura possível para as fontes, segredos que achem que o público deve saber. Apresenta uma política de confirmação de informação com a qual a nossa imprensa poderia aprender qualquer coisa. O “site” refere ter ganho prémios, da Amnistia Internacional e outro patrocinado pelo The Economist, pela sua actividade em prol da liberdade de expressão. Fui verificar e é verdade.
A Democracia tem aquela virtude binária que caracteriza a virgindade: ou sim ou não. Claro que faz parte do trabalho dos governos manterem informação confidencial em matérias cuja divulgação possa lesar gravemente o interesse colectivo dos países que governam ou a segurança dos seus habitantes. Convinha já agora que essa componente fosse controlada, por exemplo por comissões parlamentares. Por seu lado, a imprensa pode e deve, quando tem acesso a informação desta, analisá-la e divulgá-la se a considerar do interesse público. E é particularmente do interesse público quando o segredo serve para defender interesses privados. A este escrutínio podemos chamar sem medo “checks and balances”. E os governos democráticos ou aceitam estas regras do jogo ou passam a ser meramente governos, “tout court”.
O Wikileaks não é um fenómeno vulgar. Surge como mais uma das novidades da “Internet” que muda o modo como vivemos o mundo. Traz consigo um comboio de novas interrogações sobre novas formas quer da liberdade, quer da sua irmã gémea, a responsabilidade. Admito que poderá ter aspectos discutíveis e criticáveis – valerá a pena ler sobre isto o que escreveu Pedro Lomba no Público. Mas matar o Wikileaks a golpes de poder político e económico parece-me muito perigoso. E aceitar placidamente ainda mais. O que tenho visto nos dias recentes cheira nauseabundamente a perseguição e não me deixa descansado.
Por isso recuperei para nossa leitura o longo parágrafo em epígrafe tirado de “O triunfo dos porcos”, onde aparece a célebre “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”. A frase faz todo o seu sentido se lermos o que está imediatamente antes e o que vem logo a seguir. Os animais acabaram de ver o porco Squealer andar de pé, de chicote na mão, contradizendo o primeiro dos sete mandamentos da revolução animal que foram pintados na parede do celeiro: “tudo o que anda com dois pés é inimigo”. Baralhada, a égua Clover pede ao burro Benjamim, um dos poucos animais que sabe ler, que lhe diga o que está escrito na parede. Benjamim, que, à medida que os porcos iam alterando em seu proveito os sete mandamentos, várias vezes tinha mentido – por medo, piedade e cinismo – sobre o que lia, diz finalmente a verdade. Mas tarde de mais: no dia seguinte, todos os porcos usavam um chicote.
Se aqueles que podem falar se calarem, ou forem calados, mais facilmente os suínos se põem de chicote. Quanto aos Miguéis, Teresas e José Manuéis deste mundo, Orwell, preclaro, não os esqueceu: a quinta tinha uns carneiros que baliam sempre o que dava jeito aos porcos que fosse balido.
Curiosamente, o meu exemplar de “O triunfo dos porcos” foi-me oferecido nos meus doze anos, nos idos do PREC, por um casal amigo da minha mãe que era de direita e militante cristão, numa altura em que essa posição não era cómoda. Eles não tiveram dúvidas que uma fábula sobre a aspiração dos oprimidos à liberdade e sobre o modo como o poder pode corromper essa aspiração, escrita por um socialista, seria excelente leitura para um miúdo. Perdi-lhes o rasto e aproveito para lhes agradecer, se por improbabilidade lerem este texto. Não esqueci o exemplo do seu gesto. De facto, há pessoas para quem a Democracia é como o ar que se respira e outras para quem é como a roupa que se veste. Ou que se troca.
Os cinco minutos de trajecto de barco entre os dois pólos do hotel foram dos momentos mais agradáveis dos três dias que ali estive. As margens, pujantes de palmeiras, tinham um ar de selva, apesar de estarmos numa cidade maior que Lisboa. Pelo rio desciam farfalhudos magotes de umas plantas aquáticas a quem Darwin instalara uns flutuadores nos caules. A meio-caminho entre os dois ancoradouros havia uma rede chinesa. As redes chinesas são um dos ícones de Cochim: uns aranhiços toscos de madeira, altos como uma casa, que seguram nos braços uma enorme rede de malha fina. Normalmente, os ícones turísticos são mais turísticos que ícones. Lembro-me das casas de telhado de colmo de Santana, que tudo visita e onde já ninguém mora ou dos palheiros da Costa Nova, meros justificativos da barbárie construída que os cerca. Ao contrário, neste ícone indiano trabalho um indiano que dele retira seu sustento. Saindo da barraca de chapa que construiu na margem, mete-se pelas águas espessas, baixa a rede e sobe-a, à distância tão vazia antes como depois.
Os rios são, em Cochim, ruas e estradas. Em frente à torre onde dormi, um barqueiro transportava gente de uma margem para outra, remando de pé à popa. No último dia da minha estadia demos um passeio de barco até ao esplêndido espelho do lago Kumarakom, onde jantámos juntos, centena e meia de congressistas e vários milhares de besouros e outra bicharada sortida. Seguimos vários braços de água estreitos. Ao longo das margens fluía uma correnteza de casas, lojitas, “outdoors”. Havia paragens para barcos de transporte público, com gente à espera. Aqui e ali um restaurante, um templo, uma igreja, uma loja da Vodafone, pessoas que lavam a roupa, fumam o cigarro, carregam um menino. Cá, os rios separam as margens, lá na Índia ainda as unem.História 1
Carvalho da Silva da Intersindical e João Proença da UGT foram mancomunadamente entregar no Ministério do Trabalho, na londrina praça, o pré-aviso da segunda greve conjunta desde o vinte e cinco de Abril.
Convocaram as televisões e estas foram, diligentes. À porta, os dois sindicalistas declararam as habituais declarações. Carvalho da Silva antevia uma “boa greve”, com um sorriso de evento de quem antecipa um grande jogo de bola.
Eis senão quando surge uma velhota. Que manifestamente não gostava deles. Começou a invectivá-los, a mandá-los trabalhar, puxando galões de reformada após uma longa vida laboral. E logo diante das câmaras: que maçada! Ao princípio, os dois homens tentaram ignorá-la mas ela, para cão ignorado, ferrava bem a mandíbula. A polícia acudiu democraticamente, não fosse a anciã pôr em risco a sindical compostura. As câmaras viraram-se para a senhora e os dois homens. O caldo entornou e o tom empepinou.
A Carvalho da Silva e João Proença falta-lhes aquela sagacidade milenar das culturas africanas ou japonesa, nas quais um velho não se contradiz: ouve-se ou no limite atura-se com bonomia, que os anos e os cabelos brancos são para respeitar. A certo momento, Carvalho da Silva – como sói dizer-se – passou-se. Dirigindo-se à senhora, largou repetidamente:
- Quem é que a mandou cá?
De facto, a retórica estalinista é uma coisa notável, de uma homogeneidade perene e imaculada. Podem botar em cima doutoramentos em sociologia e gravatas de seda que na hora do aperto o sistema fechado, como lhe chamava Karl Popper, vem ao de cima. E neste sistema o povo não exprime o seu desagrado livremente: foi mandado como é próprio de quem obedece, manipulado como é próprio de quem não pensa, telecomandado por interesses com tempo e paciência para estas coisas.
Quando Carvalho da Silva finalmente foi embora, vieram as equipas dos serviços municipalizados e passaram a tarde a varrer do passeio as lascas do verniz.
História 2
Em 20 de Janeiro de 1961, John F. Kennedy proferiu o seu primeiro discurso como 35º presidente norte-americano: o mais jovem de sempre, com 43 anos, o primeiro irlandês, o único católico e o único, também, a deixar a marca presidencial no maior “sex symbol” do planeta da época coeva. Nessa alocução, consta que inspirado numa frase do poeta libanês Kahlil Gibran, Kennedy disse a célebre “Ask not what your country can do for you - ask what you can do for your country”.
Com certeza aflita com a crise que caiu em cima, a estação de rádio TSF anda a perguntar a toda a gente que vagamente dê ar de figura pública, com a voz de Kennedy em “jingle”, sobre o que é que podem fazer pelo país. Por acaso a frase de Kennedy não se referia a nenhuma acção relacionada com a economia. O contexto do discurso era o da Guerra Fria e a frase alude à defesa da liberdade.
Assim, por estes dias, ligo o rádio do carro e lá vêm os presidentes de uma empresa ou de uma associação agrícola, ou um vereador do Pinhal Interior, ou um promotor cultural de Cinfães, todos intentando tranquilizar-nos com o que têm em mente para ajudar Portugal e nos tirar deste mau passo em que nos achamos. Para minha grande surpresa, todos começam o seu minuto a afirmar que pensam continuar a fazer rigorosamente aquilo que têm feito até agora.
Pois. Mas não foi exactamente assim que aqui chegámos?
História 3
Hoje. No telejornal da TVI, Pedro Passos Coelho afirma à jornalista Constança Cunha e Sá quais as magnas razões que o levaram a escolher o caminho de arame e a alavancar a negociação do Orçamento de Estado. “En passant”, eu acho que ele foi totó e que se vai entalar (o que não me preocupa) e que corre o risco de nos entalar (o que já me inquieta um pouco mais), mas não é disto que quero falar agora.
A dado momento, a periodista, com a voz de um grave tabágico e aquela pose altiva de quem tem um Sá para lá no meio dos apelidos, começa:
- Mas para que os portugueses percebam…
- Os portugueses perceberam muito bem, respondeu Coelho.
De facto eu e todos os portugueses já tínhamos percebido muito bem porque, não possuindo embora as capacidades einsteinianas da Constança, não somos completamente imbecis. Fiquei por isso contente com a resposta de Passos, que me vingou de vezes sem conta em que tive que aturar esta, a Fátima Campos Ferreira, a Maria Elisa, a Manuela Moura Guedes, a Judite de Sousa e esse monte de gajas a quem malfadadamente pespegam um microfone nas mãos, a traduzirem-me para português “do povo” uma frase que se percebia à primeira. Bem hajas, ó Pedro. Só nesta, claro…
Moral das histórias
Moral? Bem, moral não têm, mas explicam muita coisa.
Dizia o velho Mata, referindo-se a certos agrupamentos políticos, que pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro. Aplico muito essa máxima na aquisição de livros e discos: compro por impulso, pela pinta do invólucro. Aliás a música é palavra feminina, por isso extrema o cuidado com a aparência para melhor seduzir. Boas capas nem sempre significam boa música, mas quem faz boa música não se contenta com uma capeca qualquer. Às vezes nem têm que ser grandes: basta que pisquem o olho. De vez em quando enfio barretes até ao calcanhar, mas felizmente vou não resistindo, com mais sucessos que fracassos.
Ontem fui à FNAC trocar dois “Massive Attack” que o amigo PW me oferecera de aniversário pelas minhas
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(marque com um X a resposta certa)
primaveras. Desconhecia ele o meu poder de antecipação: cumprindo promessa aqui feita, já os tinha comprado todos.
Levei em câmbio um Rigoletto, versão integral da Deutsche Grammophon com o Plácido Domingo como duque de Mântua, a preço de saldo e quando procurava a segunda troca dei com uma coisa chamada Gogol Bordello. Gostei da composição da capa e do ar marialva do bacano nela constante. Fiquei interessado. E depois lembrei-me que o meu pai se gabava, como quem fala com orgulho de uma cicatriz de guerra, de ter lido de fio a pavio os grandes chatos russos, entre os quais destacava Tchekov e Gogol. Era um sinal dos céus: venha!
Chegado a casa, quando mostrei as minhas compras, o meu júnior descartou com desprezo o Verdi para cima do sofá e ficou embevecido a olhar para o segundo: “compraste Gogol Bordello!”. Nesse momento subi quinhentos pontos na consideração dele, o que me permitiu ficar só em 12375 negativos.
O marialva da capa, líder da banda, chama-se Eugene Hütz e nasceu na Ucrânia. A banda é nova-iorquina e os músicos são ucranianos, russos, israelitas, etíopes, americanos, escoceses, equatorianos. Uma sociedade das nações a tocar música cigana enxertada em “Sex Pistols”. Vejam com os vossos próprios ouvidos:
Quando vim para aqui alinhavar isto, o rapaz disse-me: “Ouve Crystal Castles”. Assim fiz enquanto escrevia, cortesia do “Youtube”e gostei. Nisto de música andamos simbióticos: ele faz-me descobrir o brilho do presente e eu apresento-o às glórias passadas. De vez em quando leva um Focus ou um The Clash para o quarto ou para o “iPod”.
Estação Central, junto à praça Rainha Astrid, zona dos diamantes
Na rua Meir.
Junto à Groenplaats, a cor de um café quentinho
Igreja de S.Paulo, de 1517, com um dos interiores mais belos que eu já vi.
Narguilé com vinte por cento de desconto para estudantes. Há que incentivar o estudo!
Fonte Brabo na Grote Markt, a praça do mercado grande. Na Bélgica, o nome das ruas e praças nas zonas antigas das cidades ainda nos conta sobre a vida noutros tempos.
A Grote Markt. Nela tocava este "jazz band", que entusiasmou indígenas e forasteiros com uma versão muito própria do "Smoke on the water". O público aplaudiu de pé, dado não haver cadeiras.
Por outro lado, analisando friamente alguns números da nossa Primeira República, podemos concluir que as coisas não correram lá muito bem. Algo que tornou menos fácil viver em Portugal nesse período foi o facto de se morrer mais: entre 1910 e 1920, a mortalidade por mil habitantes aumentou 19% e a mortalidade infantil uns impressionantes 36%. O produto nacional por cabeça, medido em libras-ouro, desceu no mesmo período uns robustos 40%. Entretanto, o valor da moeda dividira-se por sete. O país viu-se mais pobre e emigrava-se duas vezes mais. Apesar do pequeno aumento da população, o número de eleitores inscritos baixou ligeiramente e manteve-se na casa de uns meros 20% da população adulta. O número de hospitais decaiu. Apenas na educação se verificou de facto alguma evolução, especialmente no ensino liceal, e a taxa de analfabetismo baixou nesses anos de 75 para 71%.