quinta-feira, outubro 21, 2010

Histórias da crise

História 1


Carvalho da Silva da Intersindical e João Proença da UGT foram mancomunadamente entregar no Ministério do Trabalho, na londrina praça, o pré-aviso da segunda greve conjunta desde o vinte e cinco de Abril.

Convocaram as televisões e estas foram, diligentes. À porta, os dois sindicalistas declararam as habituais declarações. Carvalho da Silva antevia uma “boa greve”, com um sorriso de evento de quem antecipa um grande jogo de bola.


Eis senão quando surge uma velhota. Que manifestamente não gostava deles. Começou a invectivá-los, a mandá-los trabalhar, puxando galões de reformada após uma longa vida laboral. E logo diante das câmaras: que maçada! Ao princípio, os dois homens tentaram ignorá-la mas ela, para cão ignorado, ferrava bem a mandíbula. A polícia acudiu democraticamente, não fosse a anciã pôr em risco a sindical compostura. As câmaras viraram-se para a senhora e os dois homens. O caldo entornou e o tom empepinou.


A Carvalho da Silva e João Proença falta-lhes aquela sagacidade milenar das culturas africanas ou japonesa, nas quais um velho não se contradiz: ouve-se ou no limite atura-se com bonomia, que os anos e os cabelos brancos são para respeitar. A certo momento, Carvalho da Silva – como sói dizer-se – passou-se. Dirigindo-se à senhora, largou repetidamente:


- Quem é que a mandou cá?


De facto, a retórica estalinista é uma coisa notável, de uma homogeneidade perene e imaculada. Podem botar em cima doutoramentos em sociologia e gravatas de seda que na hora do aperto o sistema fechado, como lhe chamava Karl Popper, vem ao de cima. E neste sistema o povo não exprime o seu desagrado livremente: foi mandado como é próprio de quem obedece, manipulado como é próprio de quem não pensa, telecomandado por interesses com tempo e paciência para estas coisas.


Quando Carvalho da Silva finalmente foi embora, vieram as equipas dos serviços municipalizados e passaram a tarde a varrer do passeio as lascas do verniz.



História 2


Em 20 de Janeiro de 1961, John F. Kennedy proferiu o seu primeiro discurso como 35º presidente norte-americano: o mais jovem de sempre, com 43 anos, o primeiro irlandês, o único católico e o único, também, a deixar a marca presidencial no maior “sex symbol” do planeta da época coeva. Nessa alocução, consta que inspirado numa frase do poeta libanês Kahlil Gibran, Kennedy disse a célebre “Ask not what your country can do for you - ask what you can do for your country”.


Com certeza aflita com a crise que caiu em cima, a estação de rádio TSF anda a perguntar a toda a gente que vagamente dê ar de figura pública, com a voz de Kennedy em “jingle”, sobre o que é que podem fazer pelo país. Por acaso a frase de Kennedy não se referia a nenhuma acção relacionada com a economia. O contexto do discurso era o da Guerra Fria e a frase alude à defesa da liberdade.


Assim, por estes dias, ligo o rádio do carro e lá vêm os presidentes de uma empresa ou de uma associação agrícola, ou um vereador do Pinhal Interior, ou um promotor cultural de Cinfães, todos intentando tranquilizar-nos com o que têm em mente para ajudar Portugal e nos tirar deste mau passo em que nos achamos. Para minha grande surpresa, todos começam o seu minuto a afirmar que pensam continuar a fazer rigorosamente aquilo que têm feito até agora.


Pois. Mas não foi exactamente assim que aqui chegámos?



História 3


Hoje. No telejornal da TVI, Pedro Passos Coelho afirma à jornalista Constança Cunha e Sá quais as magnas razões que o levaram a escolher o caminho de arame e a alavancar a negociação do Orçamento de Estado. “En passant”, eu acho que ele foi totó e que se vai entalar (o que não me preocupa) e que corre o risco de nos entalar (o que já me inquieta um pouco mais), mas não é disto que quero falar agora.


A dado momento, a periodista, com a voz de um grave tabágico e aquela pose altiva de quem tem um Sá para lá no meio dos apelidos, começa:


- Mas para que os portugueses percebam…

- Os portugueses perceberam muito bem, respondeu Coelho.


De facto eu e todos os portugueses já tínhamos percebido muito bem porque, não possuindo embora as capacidades einsteinianas da Constança, não somos completamente imbecis. Fiquei por isso contente com a resposta de Passos, que me vingou de vezes sem conta em que tive que aturar esta, a Fátima Campos Ferreira, a Maria Elisa, a Manuela Moura Guedes, a Judite de Sousa e esse monte de gajas a quem malfadadamente pespegam um microfone nas mãos, a traduzirem-me para português “do povo” uma frase que se percebia à primeira. Bem hajas, ó Pedro. Só nesta, claro…



Moral das histórias


Moral? Bem, moral não têm, mas explicam muita coisa.


domingo, outubro 17, 2010

Princeps

Príncipe, meu príncipe
Possam ventos de auspício enfunar tuas velas
E cintilar no breu, chamando, tuas estrelas
Possas tu ser artífice
De noites adamantinas, de dias dourados
Que com eles bordejes qual arminho
O longo veludo que feito caminho
Te conduza aos destinos almejados

Príncipe, meu príncipe
Teu reino sem ti agora sombreja, estranho
Bruxas voando sobre memórias d’antanho
Lampejam como ápices
Átomos de esplendor, risos na sala do trono
Um passado sem mácula nem obstáculo
Numa torre em que no mais alto pináculo
Florescia a rama verde do sonho sem sono

Príncipe, meu príncipe
Lá longe, da tua nau bruxuleia a chama
Por cá, de teus passos a saudade clama
Príncipe, meu príncipe
Que venças seguidas tuas duras pelejas
Não erre teu olhar como Orfeu para trás
Sussurremos nós, por onde quer que vás
Prece sofrida pela vitória que ensejas

terça-feira, outubro 12, 2010

A casa meretrícia do Gogol


Dizia o velho Mata, referindo-se a certos agrupamentos políticos, que pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro. Aplico muito essa máxima na aquisição de livros e discos: compro por impulso, pela pinta do invólucro. Aliás a música é palavra feminina, por isso extrema o cuidado com a aparência para melhor seduzir. Boas capas nem sempre significam boa música, mas quem faz boa música não se contenta com uma capeca qualquer. Às vezes nem têm que ser grandes: basta que pisquem o olho. De vez em quando enfio barretes até ao calcanhar, mas felizmente vou não resistindo, com mais sucessos que fracassos.


Ontem fui à FNAC trocar dois “Massive Attack” que o amigo PW me oferecera de aniversário pelas minhas


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(marque com um X a resposta certa)


primaveras. Desconhecia ele o meu poder de antecipação: cumprindo promessa aqui feita, já os tinha comprado todos.

Levei em câmbio um Rigoletto, versão integral da Deutsche Grammophon com o Plácido Domingo como duque de Mântua, a preço de saldo e quando procurava a segunda troca dei com uma coisa chamada Gogol Bordello. Gostei da composição da capa e do ar marialva do bacano nela constante. Fiquei interessado. E depois lembrei-me que o meu pai se gabava, como quem fala com orgulho de uma cicatriz de guerra, de ter lido de fio a pavio os grandes chatos russos, entre os quais destacava Tchekov e Gogol. Era um sinal dos céus: venha!


Chegado a casa, quando mostrei as minhas compras, o meu júnior descartou com desprezo o Verdi para cima do sofá e ficou embevecido a olhar para o segundo: “compraste Gogol Bordello!”. Nesse momento subi quinhentos pontos na consideração dele, o que me permitiu ficar só em 12375 negativos.


O marialva da capa, líder da banda, chama-se Eugene Hütz e nasceu na Ucrânia. A banda é nova-iorquina e os músicos são ucranianos, russos, israelitas, etíopes, americanos, escoceses, equatorianos. Uma sociedade das nações a tocar música cigana enxertada em “Sex Pistols”. Vejam com os vossos próprios ouvidos:





Quando vim para aqui alinhavar isto, o rapaz disse-me: “Ouve Crystal Castles”. Assim fiz enquanto escrevia, cortesia do “Youtube”e gostei. Nisto de música andamos simbióticos: ele faz-me descobrir o brilho do presente e eu apresento-o às glórias passadas. De vez em quando leva um Focus ou um The Clash para o quarto ou para o “iPod”.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Exposição fotográfica (XXIV)

Em Antuérpia, a 12 de Setembro deste ano


Estação Central, junto à praça Rainha Astrid, zona dos diamantes


Na rua Meir.


Junto à Groenplaats, a cor de um café quentinho


Igreja de S.Paulo, de 1517, com um dos interiores mais belos que eu já vi.


Narguilé com vinte por cento de desconto para estudantes. Há que incentivar o estudo!

Fonte Brabo na Grote Markt, a praça do mercado grande. Na Bélgica, o nome das ruas e praças nas zonas antigas das cidades ainda nos conta sobre a vida noutros tempos.

A Grote Markt. Nela tocava este "jazz band", que entusiasmou indígenas e forasteiros com uma versão muito própria do "Smoke on the water". O público aplaudiu de pé, dado não haver cadeiras.

quinta-feira, outubro 07, 2010

A coisa pública

Sempre percebi à minha volta, na minha infância e juventude, uma associação de ideias entre a figura da República e o progresso, a igualdade e a liberdade. Ouvia dizer sobre velhotes venerandos que haviam sido republicanos, o que era uma maneira de afirmar que tinham demonstrado valentia ou propalado ideais. Geralmente complementava-se o “republicano” com “opositor ao regime”. Mau grado o tal regime, o Estado Novo, se corporizar ele próprio numa república. Tal associação entre republicanismo e oposição ao fascismo reforçou a imagem da Primeira República como momento áureo e iluminado das liberdades em Portugal, ideia comummente adoptada pelas fatias da oposição que vieram a dar origem aos dois partidos do actual arco do poder.

Como lado B deste conceito, aparecia a monarquia enquanto anacronismo reaccionário. De “per se”. Ideia ainda frequente nos actuais livros escolares e nas reportagens de televisão neste ano de centenário do 5 de Outubro.

Ora se a estatística não for uma batata, nem a História outra, há aqui muito que não se aguenta bem de pé.

Pegando na lista dos países com maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), uma medida usada pela ONU que agrega indicadores de esperança de vida, literacia e riqueza “per capita”, no topo reside uma monarquia (a Noruega). Dos três primeiros, dois são-no também. E entre os primeiros dez, seis. E nos vinte primeiros, doze. Claro que são monarquias constitucionais, com monarcas com campos de actuação limitados e simbólicos. Por isso se diz, quando alguém não possui nenhum poder efectivo, que é uma rainha de Inglaterra. Exactamente a mesma em quem alguns destes países, sem complexos de soberania, como o Canadá, a Austrália ou a Nova Zelândia, delegaram o papel de “chefe de Estado”: num monarca estrangeiro!

Isto não demonstra que um regime monárquico promova mais o desenvolvimento do que um republicano, nem o inverso. Mas permite pelo menos afirmar que a monarquia não constitui um “handicap” ao progresso ou um óbice à democracia. E impõe alguma prudência: quando chegarmos ao nível de uma Noruega, já não digo em IDH, mas meramente em dedos de testa, talvez os republicanos portugueses não façam figuras ao associar automaticamente regime monárquico e noite das trevas.

Por outro lado, analisando friamente alguns números da nossa Primeira República, podemos concluir que as coisas não correram lá muito bem. Algo que tornou menos fácil viver em Portugal nesse período foi o facto de se morrer mais: entre 1910 e 1920, a mortalidade por mil habitantes aumentou 19% e a mortalidade infantil uns impressionantes 36%. O produto nacional por cabeça, medido em libras-ouro, desceu no mesmo período uns robustos 40%. Entretanto, o valor da moeda dividira-se por sete. O país viu-se mais pobre e emigrava-se duas vezes mais. Apesar do pequeno aumento da população, o número de eleitores inscritos baixou ligeiramente e manteve-se na casa de uns meros 20% da população adulta. O número de hospitais decaiu. Apenas na educação se verificou de facto alguma evolução, especialmente no ensino liceal, e a taxa de analfabetismo baixou nesses anos de 75 para 71%.

A democraticidade do regime seria nos nossos dias qualificada de musculada, apresentando-se com liberdades formais mas tolerando – senão promovendo – assaltos aos jornais adversários e bandos de moca em punho à caça de oponentes. Parece evidente que a defesa e a disseminação da Liberdade não estavam entre as preocupações centrais do regime, ao contrário do que claramente aconteceu a seguir ao 25 de Abril. Neste particular, os progressos face ao período da monarquia não entusiasmam, se por acaso os houve. E o papel das mulheres na vida pública continuou menorizado pelos homens do poder.

À guisa de cereja em cima do bolo, a instabilidade política foi permanente. A dado momento, houve governos que duraram dias… Não surpreende muito que a mesma burguesia que aclamara a República em 1910 aceitasse pacificamente o golpe de 1926 e tudo o que veio a seguir e que a meu ver não trouxe nada de bom.


Apesar do que acima expus, e que serviu apenas para esclarecer que acho a discussão sobre o tema, em Portugal, muito mal centrada e feita de ideias feitas, eu sou republicano. Por duas razões. Uma, porque na prática se verifica que o bom governo da nação é igualmente possível numa república ou em monarquia. A Suécia tem um rei e a Finlândia um presidente. E também se constata que uma péssima governação pode aparecer em qualquer um dos sistemas: no Iémen republicano como na monárquica Arábia Saudita.

A segunda, que se esteia na primeira, é que, podendo qualquer um dos sistemas funcionar, não me parece que haja grandes justificações teóricas para que se escolha um regime em que um cidadão tem um certo grau de poder político, por pequeno e ilusório que seja, reservado só para ele e para a família. Tão simples quanto isto.

Entendo que uma família real funcione como referente aglutinador de um povo, como traço de união, como espelho da memória dos tempos. Percebo que nalguns países, como a Bélgica, ou até a Espanha, um rei constitua hoje em dia um dos mais fortes alicerces da unidade nacional. Percebo que noutros a realeza seja um tradicional traço diferenciador de um povo, como acontece no Reino Unido. Mas, percebendo, não me chega.

E em Portugal ainda menos se justifica. O comboio da História não pára e a nossa monarquia quedou-se numa estação já muito lá para trás, no dia em que Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha, “aka” D. Manuel II, embarcou na Ericeira no iate real “Amélia” rumo a Gibraltar. Que me desculpem os meus amigos monárquicos.


Dito isto, não senti grande motivação para celebrar os cem anos da instauração da República. Talvez porque não haja assim muito para festejar. A “res publica” está cada vez mais coisa e cada vez menos pública. Talvez porque não seja um assunto essencial: o que nos distingue da Noruega não é ela ser uma monarquia; o que nos separa é ela ser uma democracia a sério, mais solidária, mais participada, mais equitativa, exemplar até quando a constituição garante que parte dos rendimentos do presente se destinam às gerações futuras, contrariamente a cá, em que vamos chutando para cima dos desgraçados que hão-de vir a dívida, o desemprego, as longas carreiras contributivas e outras malvadezas a que habilidosamente nos safámos.

Mas já que estamos numa de celebração e memória, que daí tiremos pelo menos algum proveito. Para tal, mais do que assinalar como a Primeira República começou, convinha lembrar bem como terminou. Para que a História não se repita. É que o Diabo, tal como os PECs, tece-as.

domingo, setembro 19, 2010

Férias XI : Fim de férias

Para terminar esta sequência de "posts" inspirados nestas férias de Verão, a fotografia que mais gostei de tirar. Nos Aivados, ao lusco-fusco, com 1600 ASA para garantir os derradeiros fotões. Vi o pescador aproximar-se, percebi que ia passar diante da poça e proporcionar um reflexo engraçado. Como já só conseguia uma velocidade de obturação baixa, foquei o sítio onde ele ia passar, pus-me teso que nem um carapau para não tremer e esperei. Esperei, esperei e ele nunca mais passava. Espreitei pelo rabo do olho e estava ele parado, com um sorriso, esperando ele também que eu tirasse a fotografia para avançar. Pareceu um pouco surpreendido quando lhe fiz sinal para andar mas lá foi. Tipo simpático.


Esta foto é dedicada à turma dos Aivados que patrocinou as melhores férias do mundo:

SM, JM, AM, PB, XB, M, FB, SB, CB, PB, JB+M, GB, MB, BM, AS, CS, MS, NT, MJ (F), LT, 2xMT, ZB, AV+I, CL, PC, NB, TC, MC, JC, SR, CR, JC, PC, PW, MAC, ZM, NF, GP+M, VA, AA, PHM, VE, LM e especialmente àqueles que não tendo lá passado este ano estiveram nos nossos corações: PG, PC, FC, FC, SC.

Até para o ano...

Férias X : A grande misturada

Em contraponto ao meu post “Ab equo ad asinum”, o meu amigo NF deu-me um livro intitulado “Everything is miscellaneous – the power of the new digital disorder”, de um David Weinberger. Já antes, em revolta contra as opiniões musicais reaccionárias aqui expressas, o NF me presenteara com um CD dos Beck. Incentivo os membros do reduzido clube dos leitores do Mataspeak a seguirem o exemplo do NF e sempre que estiverem em desacordo a me oferecerem qualquer coisa. Também aceito numerário e quase todos os cartões de crédito.

O livro, que li estas férias, aborda as potencialidades (praticamente sempre vistas como virtudes) que o novo mundo computorizado em que vivemos traz à organização da informação e ao acesso que a ela temos e ao uso de que dela podemos fazer. O que nos conta não deixa de ser fascinante, mas já dizia Oscar Wilde que acharmos um livro fascinante é diferente de concordarmos com ele.

A primeira parte do texto foca-se na definição de tipos de organização de informação e na história de sistemas de organização. Até ao advento da informática, a organização de objectos estava enquadrada pela natureza física dos objectos catalogados (por exemplo, livros por ordem alfabética de autores numa estante) ou da meta-informação que os referenciava (por exemplo, as fichas de biblioteca em papel). Ora o que é físico tem limitações físicas e estes sistemas têm muitas falhas de versatilidade, problemas de definição, pouca adaptabilidade, curteza de horizontes, “et caetera”. O autor vai contrapondo a estes exemplos as capacidades de referenciação cruzada e de construção de subconjuntos das modernas bases de dados para concluir, algo pedantemente, sobre as limitações dos átomos (constituintes dos livros ou das fichas) face aos “bits”, imagem que repete inúmeras vezes. Esta má-vontade para com os pobres átomos soa-me algo ingrata. Ele, da próxima vez que for a um urinol e segurar nuns átomos, que filosofe se preferia antes vir equipado com uns “bits”.

Chalaças à parte, até aqui não parece difícil concordar com ele. É óbvio que a informática abriu um mundo novo na gestão e utilização de informação. Tão evidente como ver que o motor de explosão iniciou novas perspectivas na mobilidade, as vacinas na sobrevivência infantil e a fundação do Sporting Clube de Portugal na ética desportiva. Nunca são as potencialidades do progresso que devem ser postas em causa, mas os seus riscos.

E é sobre alguns efeitos que comportam riscos que eu e o autor começamos a divergir. Isto apesar de eu ser meramente eu e Weinberger possuir um doutoramento em filosofia. Mas também ele, que é meramente um doutorado em filosofia, não se ensaia nada em zurzir Aristóteles, que defendia a existência de uma pertença perfeita de cada objecto a uma organização ela própria ideal, noção que o mundo miscelâneo das bases de dados cruzadas veio desmentir. Se Weinberger se pode pôr em bicos de pés, também eu posso. Estamos quites.

Um primeiro aspecto em que divergimos está no extâse que ele sente perante a fartura de informação que as novas ferramentas permitem. Vejamos este exemplo, em tradução livre: “O ISBN – código internacional de numeração de livros – do “Moby Dick” de Herman Melville ilustrado por Rockwell Kent é o 0679600108. No “site” da biblioteca do Congresso, uma pesquisa por esse ISBN revela que o livro foi editado pela Modern Library, possui 822 páginas, 21 centímetros de altura e foi impresso em papel reciclado e isento de ácido. No “Amazon.com”, uma pesquisa por esse ISBN liga-nos a uma análise pela Amazon das frases mais emblemáticas do livro, informa-nos que ontem a edição era o 43631-ésimo livro mais vendido mas que hoje passara para a posição 49581, que continha 208968 palavras, que o seu índice de Fog (uma medida de legibilidade) indica ser de dificuldade média, que a compra permite adquirir 14634 palavras por dólar e que 286 pessoas tinham escrito opiniões que podíamos ler, atribuindo ao livro uma média de quatro estrelas em cinco”. Pois… E o que é que esta merda interessa?

Palavras por dólar? Melville ficará mais em conta que Homero ou Steinbeck? E que tal ler a lista telefónica, com tanta palavra quase de graça? E o índice de Fog? Qual será aqui o índice de Fog do Mataspeak? Aberrante, com certeza. Este exemplo, que Weinberger toma como uma demonstração das maravilhas do novo mundo da informação miscelânea, parece-me a mim o paradigma de alguns dos maiores riscos que a “Internet” proporciona: a saturação de informação irrelevante que mascara aquela que interessa, a suposição que o mercado ou as massas podem definir a valia de um bem cultural ou, ainda mais arriscado, que são detentores da verdade.

Outra noção que Weinberger avança com a qual não concordo é a de que a “Internet” e o acesso a toda esta informação cruzada veio libertar-nos de intermediários (que ele suspeita malévolos) que faziam uma filtragem para nós. Segundo ele, a abundância da informação disponível passa para nós a responsabilidade de a filtrar e isso é muito mais livre e democrático. Estou com ele em que a vasta disponibilidade de informação na “net” cria-nos a obrigação de a seleccionar adequadamente, exigindo-nos esforço adicional. Era aliás este um dos pontos que eu salientava no meu “post” referido no início. Mas onde não concordo é que a oferta de informação por atacado da “Internet” seja estruturalmente melhor que a que pode ser facultada por um bom livro de um bom especialista, ou que esta última seja sempre absorvida passivamente e a primeira implique uma crítica activa.

Por exemplo, como eu não tenho tempo físico para ler e reflectir sobre as centenas de livros relevantes da filosofia ocidental, posso seleccionar um autor que tenha escrito uma síntese que me dê uma panorâmica satisfatória. O meu primeiro papel activo aqui será escolher um autor com credenciais que me proporcionem uma certa garantia de qualidade na análise que vou encontrar. Verificarei em que extensão estudou o tema, o prestígio que tem entre os seus pares, se parece mais ou menos sectário em relação a este ou aquele assunto. Vamos supor que, com base nesses critérios, escolho a “História da filosofia ocidental” de Bertrand Russell. O meu segundo papel activo ocorre durante a leitura. Há assuntos ou opiniões de Russell que me parecerão menos bem elaborados ou estranhos. Para esses eventualmente poderei ir à procura de outras opiniões ou ler os autores originais e julgar por mim próprio, o que será o meu terceiro papel activo.

Se utilizar a “Internet”, poderei certamente ter muitos mais “megabytes” de informação disponível. Mas no processo de filtragem recorrerei a programas de pesquisa que me orientarão segundo critérios que na melhor das hipóteses são algorítmicos e na pior enviesados por questões comerciais. A quantidade de informação será tão grande que me dificultará atingir uma visão global do tema. E, sejamos honestos, a maior parte dos utilizadores da “net” absorve acefalamente o que lhe aparece, sem perguntar porquê.

Um especialista que escreve um livro é de facto um intermediário entre mim e a informação, entre mim e, “soi disant”, a verdade. Mas isso não é obrigatoriamente mau, como o sugere Weinberger. O talhante também é um intermediário entre mim e o boi e eu prefiro usá-lo a ir caçar para a planície e esquartejar depois o bicho. E há muitos talhos, dá para escolher.


O autor apresenta como conclusão final que, nos dias de hoje, com o fartote de informação ao nosso dispor, a questão deixou de ser a construção de conhecimento (“knowledge”) para passar a ser a de sentido (“meaning”) que terá que ser construído pelo receptor a partir de uma base de conhecimento consolidada e infinitamente acessível. Temo que isto não passe de um mero jogo de palavras. Encontrar o sentido e compreender com base na informação disponibilizada é o que gera o conhecimento. E tal é válido com a “net”, com um bom livro ou com as pinturas de Altamira.

A leitura deste “Everything is miscellaneous” não alterou no geral as opiniões que deixei no meu “post”: a “Internet” e outros meios da sociedade da informação são potencialmente utilíssimos, permitem experiências muito interessantes, como a Wikipedia ou a blogosfera, e continuarão a moldar as nossas vidas. Na maioria dos casos, ainda bem. Mas de modo a sermos agentes e não vítimas desta formidável máquina, seremos obrigados a um esforço crítico muito superior, para o qual outras formas de aquisição de cultura mais tradicionais, como a leitura, o visionamento de um filme ou a apreciação de uma pintura serão mais úteis do que nunca.

Como em tudo na vida, vai ser bom e vai ser mau. E o que me surpreende na análise desenvolvida neste livro, por um doutorado em filosofia, é o de o lado mau não merecer sequer uma palavra de comentário. Por exemplo, pode a “net” ser uma arma de libertação? Sim, como os exemplos chinês e iraniano demonstram. Mas pode também transformar-se num veículo de alienação e de opressão com um alcance temível. Aliás, no que a alienação se refere, o próprio Weinberger já me parece ter ficado meio apanhado.

Ainda assim e com toda a sinceridade, obrigado, NF. Venham sempre mais.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Férias IX : Os marcianos divertem-se


Um dos primeiros livros de texto corrido, sem imagens, que eu li, certamente há mais de trinta anos, foi uma compilação brasileira de “short stories” de ficção científica que o meu pai adquirira numa altura em que lhe deu uma urgência pelo género e aviou uns duzentos volumes seguidos da colecção Argonauta. Essa primeira leitura avivou-me o gosto pelo estilo e fui picando na prateleira dos argonautas, apreciando então particularmente as situações delirantes de Clifford Simak e os estranhos mundos de Stefan Wul.


Dessa compilação, que depois levou sumiço, recordo-me apenas de dois contos de entre dezenas e mesmo destes esqueci autores e títulos.


Um deles contava a história de um ataque repentino à Terra por naves vindas do espaço, seguido pelo envio pelos terráqueos de uma expedição punitiva que parte no encalço dos atacantes. Quando depois de muito navegar essa expedição detecta as naves inimigas num planeta, ataca-o violentamente. Aí o fim do conto repete o texto do início e percebe-se que a expedição que atacara a Terra é a mesma que partira em busca de vingança: paradoxo espacio-temporal, universo circular e esses “clichés” clássicos do género.


O outro descrevia a chegada dos primeiros homens a Marte e do seu contacto com os marcianos. Os homens estão orgulhosos da sua proeza e querem falar com as mais altas chefias: “leve-me ao seu líder”. Só que os marcianos não lhes ligam nenhuma. Os astronautas bem tentam fazer notar que vieram da Terra, mas a dona-de-casa marciana à porta da qual bateram está mais preocupada que eles lhe estejam a sujar o chão com as suas botifarras. Os marcianos não se interessam peva, para desespero e confusão de quem julgava estar a entrar para a Eternidade. Vou ficar por aqui e não vos contarei o fim da história, se por acaso vos apetecer lê-la.


Na altura, o que me impressionou neste conto foi a abordagem iconoclasta à ficção científica que o autor propunha: nada de grandes naves ou prodígios tecnológicos. Senhoras mal dispostas e cosmonautas sem interlocutor. Um humor subtil que outros transformaram em paródia pegada como no hilariante “Os marcianos divertem-se”, de Frederic Brown, em que homenzinhos verdes invadem a terra com o único propósito de chatear os seus habitantes.



Nestas férias, voltei a cruzar-me, de forma acidental, com o conto dos astronautas incompreendidos: afinal chama-se “The Earth men” e pertence às Crónicas Marcianas de Ray Bradbury, que despachei neste Agosto. Lido com mais três décadas em cima dos ossos e no contexto das restantes crónicas, a minha percepção deste conto é completamente diversa. Efectivamente os "eu" que o leram nos idos de 1976 e agora são o mesmo, mas são diferentes. Como diferente foi lê-lo nos anos setenta, num mundo de guerra-fria e conquista do espaço e fazê-lo hoje. O livro está algo datado, o que só acrescenta ao brilho da sua “patine”.


As crónicas, algumas longas de dezenas de páginas, outras de uma folha apenas, revelam uma visão ligeira, onírica, sobre uma futura colonização de Marte pelos humanos. Na realidade, Marte é apenas um pretexto. Este livro é sobre nós, sobre os sonhos, os vícios e as capacidades que como espécie partilhamos.


Percebido isto, torna-se claro que os astronautas que se acham assim tão importantes somos nós, sempre a pôr-nos em bicos dos pés, sempre a sobrestimar-nos e confundidos e incapazes de entender quando alguém nos reduz à nossa insignificância.

terça-feira, setembro 07, 2010

Férias VIII : Janelas de Ronda

Aquando dos meus tempos universitários, tinha alguns amigos em Belas Artes. Caí uma vez na asneira de lhes dizer que gostaria de ter uma janela da Maluda. Fui xingado como o último dos cavernícolas. Uma dessas amigas, hoje pintora de algum renome, até me ofereceu um livrinho de iniciação às artes escrito e pintado por ela, uma espécie de "art for dummies", que se encontra emoldurado na minha sala.

Realizei na altura, com o orgulho ferido, que as janelas da Maluda estavam para os jovens artistas como o Dantas estava para o Almada Negreiros. Morra! Pim!

Uma viagem a Ronda nestas férias permite-me agora uma tardia desforra. Ronda, jóia andaluza empoleirada num penhasco a mil metros de altitude é um "pueblo blanco", magnificamente caiada, com soberbas - "guess what?" - janelas gradeadas que vos vou mostrar de seguida. Tipo Maluda, só que fotografadas por mim.

Uma das últimas cidades conquistadas aos mouros, em 1485, Ronda distingue-se também por uma das mais antigas praças de touros de Espanha, datada de 1785 e desenhada por Pedro Romero, ele próprio matador de mais de 6000 touros. As meninas do Bloco desmaiariam só ao ouvir o número. Os budistas apostariam que, com tanto ponto de "karma" negativo, Romero terá reencarnado como fungo interdigital ou protozoário, algo verdadeiramente mau.

Rondemos.

A ponte que separa as duas metades da vila, alcandoradas num precipício calcário:



E agora as janelas:








Para terminar, a prova em azulejo de que a virgindade pode ser em qualquer sítio.

Férias VII : O preto dos DVDs

“Is this the world we created?
We made it on our own
Is this the world we devastated
Right to the bone?"


Queen, in “Is this the world we created”


A praia, de pedra negra miúda, serpenteava esguia durante quilómetros pela orla de um Mediterrâneo quase lacustre. De longe a longe, a passagem de um barco distante empurrava uma onda que vinha marulhar o silêncio, como um arfar súbito num sono profundo. A cada poucos metros, as cores garridas de uma toalha ou de um pára-sol e corpos despidos que torravam rosados ao sol, abandonados ao calor opressivo do Agosto malaguenho.


Ao fundo, uma silhueta escura desenhou-se e foi-se aproximando num passo firme, quase veloz. Era um homem, de um negro profundo, vestido com uma camisa preta e umas calças de ganga escuras, a cabeça protegida da torreira inclemente por um boné de beisebol, uma das mãos segurando um saco de plástico que algo enchia. Cada vez que passava junto a alguém adiantava a mão livre na direcção da pessoa, num gesto mecânico, com um olhar de esguelha que de vazio quase não era um olhar. Na mão que ia apontando à esquerda e à direita, uma mão grande, possante, uma garra, tinha um monte de DVDs piratas, embalados em capas quadradas maleáveis, atados com dois elásticos.


Gente ergueu a cabeça para logo a baixar. Ele não diminuiu a passada. Ninguém quis comprar e ele também não esperava vender. Ia, meramente. Foi e desapareceu no horizonte de azul e preto e rosa. Algumas horas depois, voltou no sentido contrário, com o seu caminhar de autómato, provavelmente sem ter vendido nada.


À noite, jantava eu numa esplanada em Torre de la Mar e viu-o de novo, com o mesmo saco verde, a mesma mão oscilante, a mesma indiferença nos olhos, o mesmo andar de mecanismo. Provavelmente fizera muitos quilómetros desde um país para lá do deserto à procura do eldorado que nós sem o saber somos. Possivelmente pagara a um proxeneta das fronteiras uma parte importante das suas poupanças para o levar até às terras da fortuna. Tivera sorte: patrícios seus vão regularmente dando às costas do sul da Espanha, já cadáveres, quando o barco sobrelotado não resiste às correntes do estreito. Outros, descobertos pela polícia são recambiados e ficam entalados entre dois países que não os querem. Este chegara, mas a sua esperança já partira.


As migrações humanas são normalmente representadas nos mapas por longas setas a verde e vermelho e azul. Nessa visão esquemática e remota, parecem ordenadas, sociológicas, inevitáveis. Vistas de perto, são feitas de sonhos traídos, de dor, de brutais anomias e também da mais baixa cupidez: a de quem os explora (uns quantos) e a de quem os ignora (nós, os outros).


Marfinenses para serventes em Espanha, hondurenhos para operários na América, ucranianas para prostitutas em França, filipinos para criados no Dubai. Não são os novos proletários. São os novos escravos, os nossos escravos, que acartam o cimento de nossas casas, apanham os morangos de nossas mesas, cozem os pespontos das bolas com que os nossos filhos jogam e saciam os apetites que muitos, de pouco homens, já não conseguem de outra maneira.


Exploram-nos máfias organizadas ou xico-espertos de ocasião, que os iludem, agridem, ficam com o passaporte, violam, roubam e sugam até que não sobre pinga de sangue ou grama de tutano.


Ignoram-nos os governos que elegemos, com auréola democrática, entalados entre as necessidades de mão-de-obra barata e a vontade de mostrar serviço securitário para tranquilizar as massas eleitoras, inquietas com a diferença que é e será sempre um alvo fácil. Se a decência fosse relevante, perseguir até à exaustão os novos negreiros passaria a prioridade mundial. Mas a decência gasta recursos e não rende votos.


Apesar de tudo isto, eles partem. Talvez porque não saibam o inferno que os espera, talvez porque o inferno onde vivem seja pior, talvez porque achem que vale a pena tentar para ser uma das raras histórias com final feliz. Estima-se a probabilidade de um guatemalteco ou de um nicaraguense morrer numa migração para os Estados Unidos em vinte por cento. Mais do que na roleta russa. Partem centenas todos os dias.

domingo, setembro 05, 2010

Férias VI : Mourarias

Málaga, terra de Picasso, tem a sua "Alcazaba", uma das alcáçovas mouras mais importantes e bem conservadas da península. Foi começada por Abd al-Rahmân I, emir Omeíada que aproveitou a queda do califado de Damasco para se tornar no primeiro monarca de um Al-Andaluz independente. A seu modo, é uma figura da História de Portugal.

A visita vale pela beleza do local e pelo carácter indiscutivelmente mouro do castelo, muito diferente do que nos habituámos a ver por cá. Diferente nos materiais, nas cores, nos arcos, nas geometrias e até no requinte.

Algumas imagens de uma visita ao meio-dia, debaixo de um sol das arábias.

Em primeiro plano teatro romano da época de Augusto, descoberto apenas nos anos 50 e trazido à luz em 1995.








Férias V : Maciçamente atacado

O meu amigo VE fora colega de curso do baixo dos Air nos idos de oitenta e distribuiu amáveis convites para os irmos ver ao Festival do Sudoeste, na poeirada da Zambujeira. Apreciei os Air: foram diáfanos e foram etéreos. Nalguns momentos relembrei os Space, banda sintetizadora que também produziu uns sucessos aí em 75 ou 76.

Fiquei para o número seguinte e teóricas estrelas principais: Massive Attack, que eu pensava que desconhecia mas conhecia, porque já ouvira o “Tear Drop” no genérico do House umas dezenas de vezes.

No que toca a música pop/rock, sou às vezes acusado de reaccionário das cavernas e de só apreciar velharia dos anos oitenta para trás. Protesto inocência. Oiço o que oiço, gosto do que gosto. E adoro ser surpreendido. Às vezes posso andar distraído, o que é diferente. Foi o caso no caso dos Massive Attack.

Há muito tempo que não ouvia nada que me enchesse tanto as medidas. Negrume. Obsessão. Calor e frio. Ritmo compulsivo. Melodia flutuante num mar repetido. Beleza da diferença, diferente da beleza. Política. Vou comprar os álbuns todos.

Para mais, nitidamente vocacionados para espectáculos ao vivo. O público agarrado, com excepção de um casalinho adolescente à minha frente que passou uma hora em mútua endoscopia, obrigando-me a algum contorcionismo para ver o palco. Deve ser da alimentação, mas os putos hoje em dia são altos. E saudavelmente sôfregos, louve-se o Senhor.

Uma estética de palco belíssima, com um jogo de luzes e textos que me lembrou uma instalação permanente da Jenny Holzer no Guggenheim de Bilbao. Ao longo das diversas músicas, letras e números brancos e vermelhos, garrafais, davam-nos conta do estado das coisas no nosso atormentado planeta. Por exemplo, uma linha dizia: “número possível de dias preso sem ser apresentado a um juiz”. Por baixo, os dígitos rodopiavam até se imobilizarem num “Suécia: 1”. Depois num “França: 2”. “Reino Unido: 45”. Até explodir num branco intenso: “Estados Unidos: INDEFINIDO”.

E assim sucessivamente, para os litros de água gastos, para os rendimentos “per capita”, para as tropas no Afeganistão. A estatística como militância. Grande e feroz. Nada solta menos a canela que a mandíbula dos números.

Massive Attack. Como vês, NF, eu sei que há vida depois dos noventa. Como abaixo se demonstra.


sábado, setembro 04, 2010

Férias IV : Gente de Porto Covo

Para lá da turba veraneante, há quem lá viva...





Esta senhora há anos que calcula de cabeça o somatório de pesos vezes preços unitários ao dobro da velocidade com que eu o faço. "Intel inside". Só pode.

Férias III : O nazismo casou com uma italiana jeitosa

Já vai uma década, participei nuns dias de marcha no sul de França que terminaram num opíparo jantar num “mas” isolado na planura da Camarga, pedaço de Ibéria enxertado em terra gaulesa, onde acompanhei grandes pratadas picando presunto e chouriço de touro.


Para entretenimento dos comensais, um par de ciganos tocava guitarra. Tocavam muito bem, mesmo muito bem. Soados os primeiros acordes, paravam as mandíbulas e viravam-se as cadeiras. Um deles tinha um CD publicado, que por idiotice na altura não comprei.


Num dos “breaks”, tendo esse do CD me ouvido falar português, abordou-me em espanhol e conversámos um pouco. No meio da conversa lembrei-me de lhe perguntar se conhecia Paco de Lucia. Ele, com um sorriso, pousou o pé na cadeira, assentou a guitarra na perna e durante sessenta segundos ouvi o “Rio ancho”. De forma perfeita: tal como quando oiço Lucia na gravação, pareceu-me ver o Guadalquivir a nascer cristalino na serrania, a vencer turbulento as encostas pedregosas e a explanar-se, largo, sereno, mouro, lento no calor abrasador da planície andaluza.


De repente, tendo-me presenteado com esse minuto excelente, travou as cordas com os dedos e disse com ar sério:


- Não gosto de tocar Paco de Lucia. Posso-me enganar e seria uma falta de respeito para com o mestre.


Acarinho desde então esta lembrança tocante. Naquele breve instante, o cigano ensinou-me muito sobre a humildade – que é uma virtude para consigo próprio, sobre o respeito – que é uma virtude para com os outros – e, quando por instantes quebrou a sua regra para me fazer a vontade, sobre a irmandade – que é uma virtude para consigo próprio e para com os outros.



Passados muitos anos desta cena, o meu pai encontrava-se moribundo num hospital de Lisboa. Havia uma auxiliar de enfermagem, um mulherão moreno, de cabelo longo retinto, de uma força impressionante, que muitas vezes vi assistir o meu pai. Pegava no seu corpo minado (e depois vencido) como se uma madona segurando o Menino. Ele quase desaparecia por trás daquele corpanzil de bata verde. Quando ela entrava no quarto, nunca faltava uma palavra simpática, um “senhor”, um nome, um dedo de conversa, mesmo quando ele já não respondia, mesmo quando ele já não percebia, mesmo quando para outros menos cautos poderia parecer que aquelas palavras já não valiam a pena. Ora isto chama-se humanidade e vem caindo em desuso.


Era cigana. Por vezes as visitas ao sabê-lo duvidavam, presas aos seus estereótipos, insistiam se era mesmo e ela, firme no sorriso, ajeitando a orla do lençol, reafirmava:


- Com muito orgulho! De pai e mãe.


Certa vez, quando ela pacientemente, pela vigésima vez do dia, acudiu a uma tarefa que a quase todos repugnaria e eu lhe agradeci, respondeu:


- Não tem que agradecer. Gosto muito do que faço.


Na altura surpreendeu-me mas hoje vejo claro. Como poderia um Anjo não gostar do que faz?


Não temos, nem eu nem a língua portuguesa, palavras para expressar a gratidão e a admiração que eu sinto por ela (e por outras pessoas que sempre aparecem lado-a-lado nestas memórias). Mas uma coisa que na altura jurei foi nunca mais ser estúpido e voltar a cair na ladainha que nos ensinam desde crianças, que o horror chamado “vox populi”destila e que os jornais reverberam, de que os ciganos isto e a ciganada aquilo.


Durante Agosto, li sobre os ciganos romenos que foram corridos de França, às famílias inteiras. Não digo expulsos ou deportados porque eles estavam num espaço, a Comunidade Europeia, onde têm direito a estar. Portanto a palavra que mais se me aproxima é “corridos”. Corridos à má fila. Com argumentos que são um vómito para cima dos tratados europeus e perante um silêncio cobarde da Comissão que só pode espantar por já não espantar. Desgostante.


Nestes tempos de correcções políticas, os ciganos são objecto de um racismo intolerante e tolerado.


Não só porque são catalogados à cabeça de malandros, senão mesmo de criminosos. Não só porque prevenimos os nossos filhos para terem cuidado. Não só porque viramos a cara. Estes são só os tiques mais evidentes.


Há racismo quando um telejornal relata que “dois indivíduos de etnia cigana assaltaram” mas já não diz que “dois indivíduos de indivíduo de etnia branca assaltaram”.


Há racismo quando a chacina de judeus às mãos nazis na Segunda Guerra se chama Holocausto e a dos ciganos é um detalhe da História.


E também há racismo quando achamos que as crianças ciganas podem abandonar a escola aos doze anos e serem prometidas em casamento aos catorze, “porque eles são assim”. Se são assim, mudam, e temos que os obrigar a mudar, como se faria com qualquer família não-cigana. Não exigir deveres também é uma forma de racismo.


Vários ciganos enveredam pelo crime? Que se prendam. Muitos ciganos trabalham na economia paralela? Controle-se e tribute-se. Há muitas crianças ciganas que se vêem privadas pela família de direitos básicos? Intervenha-se como com qualquer outra criança. Mas deixe-se a cada indivíduo cigano, à partida, o seu direito ao bom-nome, à presunção de inocência e a todas as outras considerações que nos indignaria se nos fossem retiradas.


Julgar um indivíduo pelo comportamento de outros de um todo a que ele pertence é racismo, ponto final. Entre os portugueses há muitos defeitos, mas eu quero ser avaliado pelos meus defeitos, não pelos de outros portugueses. Entre os brancos há muitos vícios, mas eu exijo ser julgado pelos meus vícios, não pelos de outros brancos. Cada cigano tem o direito de ser visto pelo que ele é, não pelo que outros são, sejam esses um, dez ou noventa por cento do total. Não interessa a percentagem. Totalmente irrelevante.


Diz o ministro francês que coordena estas alarvidades que um em cada cinco roubos na região parisiense é cometido por romenos. E dois ou três dos restantes devem ser por franceses. Corra-se então também com os franceses, que mal não faria à França.


As expulsões de famílias inteiras capitaneadas por Sarkozy, por motivos populistas e eleitoralistas, envergonham a França e a silenciosa Europa. Com a ironia adicional de ser o presidente francês filho de emigrantes húngaros, que tiveram a felicidade de não ser expulsos “in illo tempore”.


Por estas e por outras, passo a passo, de Berlusconi em Sarkozy, de “Front National” em “Vlams Block”, de indignidade em indignidade, a civilização europeia, construída com o labor e o sangue dos nossos anciães, vai deslizando para o fundo. Neste momento, quase irremediavelmente conspurcada, já anda a boiar na água da retrete. Que venha mão justa e piedosa e solte o autoclismo.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Férias II : A economia do tereré

Em Agosto, Porto Covo rodopia à volta do largo pombalino. A qualquer hora, a praça pulula. À noite, regurgita. Uma rua pedestre, cuspida na direcção do mar, ladeada de lojas e restaurantes, funciona como uma excrescência do largo. As pessoas abandonam a mole compacta que se afunila entre as quatro paredes do largo e descem a rua, empurrando à sua frente carrinhos de bebé ou barrigas de cerveja, arrastando atrás cães modorrentos ou petizes eléctricos, e depois voltam a subir a rua atraídas para a massa humana por forças mórbidas ou gravíticas, possivelmente ambas.

O largo à noite prova que o “horror vacui” aristotélico funciona e recomenda-se.

Na sua pequena geometria quadrada, oferece dois restaurantes, dois bares, uma pastelaria, uma geladaria, duas lojas de inutilidades baratas e uma loja de inutilidades caras, não contando a igrejinha.

No recanto sudoeste, a pastelaria conhecida por “o 31”, a mais célebre da terra, posiciona-se em segmento alto. Com uma decoração naquele rústico de decorador, produtos de alguma qualidade, empregadas de batinha e uma limpeza cromada que faria as delícias da ASAE, diferenciou-se já nos anos oitenta. Atraiu assim os tiozecos e as tiazocas de cidade, que aborriam a genuinidade das tabernas escuras, onde a bica ladeava com bagaços e petiscos petiscados com palitos de aspecto duvidoso, onde o bru-á-á suburbano em férias dava lugar a histórias da terra em pronúncia inconfundível, ditas de boné diante de um pires de tremoços.

Nas traseiras de uma dessas tabernas, num pátio que servia de armazém e ao qual se acedia por um corredor por trás do balcão, vencendo o cheiro nitroso que exalava das portas entreabertas das casas-de-banho, joguei muitas vezes matraquilhos. Eram uns matrecos à antiga portuguesa, com robustos jogadores de ferro forjado na clássica táctica 2-5-3, equipados à Sporting e à Benfica que o Porto ainda era um Belenenses do norte. Cada equipa tinha um preto no ataque. Os varões negrejavam de óleo e deixavam vergões escuros na roupa, para posterior protesto das mães. Nas cabeceiras, os cinzeiros ostentavam borras de vários cigarros e aí guardávamos as moedas, sem nojo. Metidos cinco paus, puxado o gatilho, a gaveta enchia-se de dose generosa de bolas, de esfericidade variável, da nova redondinha e ainda brilhante ao cubo negro já sem memória da sua circularidade. Este obrigava a jogadas especiais e tendia a parar em sítios de onde se tinha que o deslocar à mão, manobra perigosa da qual resultavam por vezes lesões graves dos dedos. Os bonecos calçavam maçudas patorras de aço, de formato irregular, que proporcionavam fenomenais berlaitadas. O golo directo da defesa era aplaudido, a bola que entrava e voltava a sair da baliza discutida. De vez em quando, no calor da peleja, o esférico voava para fora do estádio em direcção ao infinito, obrigando a demoradas procuras de cu para o ar, até o descobrir entre duas abóboras ou em cima de uma saca de batatas, aos gritos de “tá aqui”.

Que saudades! Hoje esse tasco converteu-se num comedouro asséptico e os matraquilhos desapareceram para sempre. E voltamos assim ao 31, aos tias e às tias que trouxeram outros que não o sendo por alguma panca do demo gostariam de ser e por isso seguem e imitam. Nas noites de Agosto, o 31 parece o comboio de Lahore para Bombaim, onde não cabe um alfinete e os corpos aparentam ir ser cuspidos das portas e das janelas. Para beber um café ou obter uma bola de “stracciatella” num copo de papel, há que tirar senha. Senha! Senha como na loja do cidadão, para pedir o passaporte ou activar a Via Verde! E as pessoas tiram e esperam ovina e asininamente minutos muito largos pelo buzinar do seu vinte-e-oooooito ou quarenta-e-trêêêês, que lhes há-de dar acesso a um “croissant” ou a uma imperial! Depois, disputam as mesas. E obtidas as mesas, disputam as cadeiras.

Eu, que passe a imodéstia não sou totalmente parvo, tomo café na geladaria da fachada leste, a trinta metros. Sou servido mal chego e sento-me na mesa que quiser. Não é nenhum segredo bem guardado. A porta vê-se da fila, melhor dizendo do magote, que no 31 aguarda de senha dobrada na mão. Meramente não é tão fino, por isso a gente não vai. Serei porventura menos requintado, mas bebo a bica com mais conforto. Não me apetece sofrer para ser elegante.

Na fachada oeste, tendo percebido que o homem é um animal irracional, o mesmo proprietário do 31 da senha abriu uma marisqueira, um 31 da amêijoa e da casquinha de santola. Não há marcações e os candidatos a comensais esperam e desesperam, rondando a esplanada como malandrins cobiçando um alvo ou acotovelando-se no interior com ar suspicioso, temendo que alguém dê o golpe, pressionando com o olhar os desgraçados que, sentados, apenas quereriam terminar a sua sobremesa em paz. Quando finalmente uma mesa vaga, um rapaz de camisa fardada abre um caderno garatujado e aponta para os felizes contemplados, que se precipitam sobre o cadeirame como afogados sobre um barrote. Confesso, com vergonha, que também já fiz essa triste figurinha. Tenho apenas como desculpa o facto de estar a acompanhar amigos que merecem todo o sacrifício e que pareciam desesperados por trezentas gramas de camarão, vá-se lá saber porquê...

No canto nordeste, um bar orientou-se para uma clientela “Massamá em Ibiza”. Ele são “shots” com nomes pornográficos que se pretendem graciosos, decibéis desproporcionados, cantores ao vivo de má índole e pior voz e até “karaokes”. Os clientes, abundantes de brincos de vidrinho e crista brilhantinada, emborracham-se e depois deliram. Os vizinhos sofrem, acordados. O dono factura. A Câmara vem limpar pela manhã. Como diria o Eça, justa repartição dos trabalhos.

Em certos dias, quem chegar ao largo notará uma maior concentração de pessoas em frente à igreja, olhando na direcção da porta. Não será devoção: no lajeado que faz as vezes de adro, um suposto artista exibe a sua arte, um chapéu invertido no chão esperando a generosidade dos mecenas a banhos. Por regra números fraquinhos, com malabarismos à Chapitô e tranças à “rastafari” ou “sketches” sem graça esganiçados em falsete. Apesar da pobreza franciscana das “performances”, ninguém arreda pé, os pescoços esticados em tensões de girafa. Deve fazer parte de um ritual: é de borla, vê-se. Viu-se, aplaude-se. Há quatrocentos anos, analfabetos pagavam com sacrifício para encher o Globe e ver Shakespeare. Aqui, malta com pelo menos nove anos de uma suposta escolaridade gasta minutos preciosos da sua vida a assistir a trampa, sem aparentar remorso. Algo se deve ter passado entretanto.

À volta do fontanário que, cercado de um relvado ralo, marca o centro do largo, a autarquia dispôs pequenas bancas de madeira, ocupadas por “artesãos”. “Hippies” tardios vendem pechisbeque, algum de autoria própria, outro fabricado na China. Desenham-se caricaturas a carvão. As inevitáveis peruanas propõem flautas de Pã andinas e fitas de punho. Pintam-se tatuagens de “henna”, às vezes com espectaculares impactos alergológicos se a tinta estiver marada. Dispõem-se “tee-shirts” com dizeres que se supõem jocosos, mas que afinal são ordinários. Fazem-se tererés no cabelo de crianças e adolescentes.

E eu, ao ver toda aquela gente acotovelando-se entre os cuspidores de fogo da igreja e os vendedores da pacotilha, endomingada após o duche das sete, palmilhando acima e abaixo e ao redor, estourando a magreza do subsídio de férias nos restaurantes onde fizeram fila para comer uma massada de peixe infame para o que pagaram ou dormitando de pé, de senha em punho, à espera de uma bica no 31, ou deitando para o chão os copos de plástico que cedo de manhã as mulheres da câmara virão limpar pagas com um dinheiro que já não temos, eu, quando vejo tudo isto, lembro-me de alguém. Sabem quem? Portugal. Olha, olha: Eça outra vez…