domingo, setembro 19, 2010

Férias X : A grande misturada

Em contraponto ao meu post “Ab equo ad asinum”, o meu amigo NF deu-me um livro intitulado “Everything is miscellaneous – the power of the new digital disorder”, de um David Weinberger. Já antes, em revolta contra as opiniões musicais reaccionárias aqui expressas, o NF me presenteara com um CD dos Beck. Incentivo os membros do reduzido clube dos leitores do Mataspeak a seguirem o exemplo do NF e sempre que estiverem em desacordo a me oferecerem qualquer coisa. Também aceito numerário e quase todos os cartões de crédito.

O livro, que li estas férias, aborda as potencialidades (praticamente sempre vistas como virtudes) que o novo mundo computorizado em que vivemos traz à organização da informação e ao acesso que a ela temos e ao uso de que dela podemos fazer. O que nos conta não deixa de ser fascinante, mas já dizia Oscar Wilde que acharmos um livro fascinante é diferente de concordarmos com ele.

A primeira parte do texto foca-se na definição de tipos de organização de informação e na história de sistemas de organização. Até ao advento da informática, a organização de objectos estava enquadrada pela natureza física dos objectos catalogados (por exemplo, livros por ordem alfabética de autores numa estante) ou da meta-informação que os referenciava (por exemplo, as fichas de biblioteca em papel). Ora o que é físico tem limitações físicas e estes sistemas têm muitas falhas de versatilidade, problemas de definição, pouca adaptabilidade, curteza de horizontes, “et caetera”. O autor vai contrapondo a estes exemplos as capacidades de referenciação cruzada e de construção de subconjuntos das modernas bases de dados para concluir, algo pedantemente, sobre as limitações dos átomos (constituintes dos livros ou das fichas) face aos “bits”, imagem que repete inúmeras vezes. Esta má-vontade para com os pobres átomos soa-me algo ingrata. Ele, da próxima vez que for a um urinol e segurar nuns átomos, que filosofe se preferia antes vir equipado com uns “bits”.

Chalaças à parte, até aqui não parece difícil concordar com ele. É óbvio que a informática abriu um mundo novo na gestão e utilização de informação. Tão evidente como ver que o motor de explosão iniciou novas perspectivas na mobilidade, as vacinas na sobrevivência infantil e a fundação do Sporting Clube de Portugal na ética desportiva. Nunca são as potencialidades do progresso que devem ser postas em causa, mas os seus riscos.

E é sobre alguns efeitos que comportam riscos que eu e o autor começamos a divergir. Isto apesar de eu ser meramente eu e Weinberger possuir um doutoramento em filosofia. Mas também ele, que é meramente um doutorado em filosofia, não se ensaia nada em zurzir Aristóteles, que defendia a existência de uma pertença perfeita de cada objecto a uma organização ela própria ideal, noção que o mundo miscelâneo das bases de dados cruzadas veio desmentir. Se Weinberger se pode pôr em bicos de pés, também eu posso. Estamos quites.

Um primeiro aspecto em que divergimos está no extâse que ele sente perante a fartura de informação que as novas ferramentas permitem. Vejamos este exemplo, em tradução livre: “O ISBN – código internacional de numeração de livros – do “Moby Dick” de Herman Melville ilustrado por Rockwell Kent é o 0679600108. No “site” da biblioteca do Congresso, uma pesquisa por esse ISBN revela que o livro foi editado pela Modern Library, possui 822 páginas, 21 centímetros de altura e foi impresso em papel reciclado e isento de ácido. No “Amazon.com”, uma pesquisa por esse ISBN liga-nos a uma análise pela Amazon das frases mais emblemáticas do livro, informa-nos que ontem a edição era o 43631-ésimo livro mais vendido mas que hoje passara para a posição 49581, que continha 208968 palavras, que o seu índice de Fog (uma medida de legibilidade) indica ser de dificuldade média, que a compra permite adquirir 14634 palavras por dólar e que 286 pessoas tinham escrito opiniões que podíamos ler, atribuindo ao livro uma média de quatro estrelas em cinco”. Pois… E o que é que esta merda interessa?

Palavras por dólar? Melville ficará mais em conta que Homero ou Steinbeck? E que tal ler a lista telefónica, com tanta palavra quase de graça? E o índice de Fog? Qual será aqui o índice de Fog do Mataspeak? Aberrante, com certeza. Este exemplo, que Weinberger toma como uma demonstração das maravilhas do novo mundo da informação miscelânea, parece-me a mim o paradigma de alguns dos maiores riscos que a “Internet” proporciona: a saturação de informação irrelevante que mascara aquela que interessa, a suposição que o mercado ou as massas podem definir a valia de um bem cultural ou, ainda mais arriscado, que são detentores da verdade.

Outra noção que Weinberger avança com a qual não concordo é a de que a “Internet” e o acesso a toda esta informação cruzada veio libertar-nos de intermediários (que ele suspeita malévolos) que faziam uma filtragem para nós. Segundo ele, a abundância da informação disponível passa para nós a responsabilidade de a filtrar e isso é muito mais livre e democrático. Estou com ele em que a vasta disponibilidade de informação na “net” cria-nos a obrigação de a seleccionar adequadamente, exigindo-nos esforço adicional. Era aliás este um dos pontos que eu salientava no meu “post” referido no início. Mas onde não concordo é que a oferta de informação por atacado da “Internet” seja estruturalmente melhor que a que pode ser facultada por um bom livro de um bom especialista, ou que esta última seja sempre absorvida passivamente e a primeira implique uma crítica activa.

Por exemplo, como eu não tenho tempo físico para ler e reflectir sobre as centenas de livros relevantes da filosofia ocidental, posso seleccionar um autor que tenha escrito uma síntese que me dê uma panorâmica satisfatória. O meu primeiro papel activo aqui será escolher um autor com credenciais que me proporcionem uma certa garantia de qualidade na análise que vou encontrar. Verificarei em que extensão estudou o tema, o prestígio que tem entre os seus pares, se parece mais ou menos sectário em relação a este ou aquele assunto. Vamos supor que, com base nesses critérios, escolho a “História da filosofia ocidental” de Bertrand Russell. O meu segundo papel activo ocorre durante a leitura. Há assuntos ou opiniões de Russell que me parecerão menos bem elaborados ou estranhos. Para esses eventualmente poderei ir à procura de outras opiniões ou ler os autores originais e julgar por mim próprio, o que será o meu terceiro papel activo.

Se utilizar a “Internet”, poderei certamente ter muitos mais “megabytes” de informação disponível. Mas no processo de filtragem recorrerei a programas de pesquisa que me orientarão segundo critérios que na melhor das hipóteses são algorítmicos e na pior enviesados por questões comerciais. A quantidade de informação será tão grande que me dificultará atingir uma visão global do tema. E, sejamos honestos, a maior parte dos utilizadores da “net” absorve acefalamente o que lhe aparece, sem perguntar porquê.

Um especialista que escreve um livro é de facto um intermediário entre mim e a informação, entre mim e, “soi disant”, a verdade. Mas isso não é obrigatoriamente mau, como o sugere Weinberger. O talhante também é um intermediário entre mim e o boi e eu prefiro usá-lo a ir caçar para a planície e esquartejar depois o bicho. E há muitos talhos, dá para escolher.


O autor apresenta como conclusão final que, nos dias de hoje, com o fartote de informação ao nosso dispor, a questão deixou de ser a construção de conhecimento (“knowledge”) para passar a ser a de sentido (“meaning”) que terá que ser construído pelo receptor a partir de uma base de conhecimento consolidada e infinitamente acessível. Temo que isto não passe de um mero jogo de palavras. Encontrar o sentido e compreender com base na informação disponibilizada é o que gera o conhecimento. E tal é válido com a “net”, com um bom livro ou com as pinturas de Altamira.

A leitura deste “Everything is miscellaneous” não alterou no geral as opiniões que deixei no meu “post”: a “Internet” e outros meios da sociedade da informação são potencialmente utilíssimos, permitem experiências muito interessantes, como a Wikipedia ou a blogosfera, e continuarão a moldar as nossas vidas. Na maioria dos casos, ainda bem. Mas de modo a sermos agentes e não vítimas desta formidável máquina, seremos obrigados a um esforço crítico muito superior, para o qual outras formas de aquisição de cultura mais tradicionais, como a leitura, o visionamento de um filme ou a apreciação de uma pintura serão mais úteis do que nunca.

Como em tudo na vida, vai ser bom e vai ser mau. E o que me surpreende na análise desenvolvida neste livro, por um doutorado em filosofia, é o de o lado mau não merecer sequer uma palavra de comentário. Por exemplo, pode a “net” ser uma arma de libertação? Sim, como os exemplos chinês e iraniano demonstram. Mas pode também transformar-se num veículo de alienação e de opressão com um alcance temível. Aliás, no que a alienação se refere, o próprio Weinberger já me parece ter ficado meio apanhado.

Ainda assim e com toda a sinceridade, obrigado, NF. Venham sempre mais.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Férias IX : Os marcianos divertem-se


Um dos primeiros livros de texto corrido, sem imagens, que eu li, certamente há mais de trinta anos, foi uma compilação brasileira de “short stories” de ficção científica que o meu pai adquirira numa altura em que lhe deu uma urgência pelo género e aviou uns duzentos volumes seguidos da colecção Argonauta. Essa primeira leitura avivou-me o gosto pelo estilo e fui picando na prateleira dos argonautas, apreciando então particularmente as situações delirantes de Clifford Simak e os estranhos mundos de Stefan Wul.


Dessa compilação, que depois levou sumiço, recordo-me apenas de dois contos de entre dezenas e mesmo destes esqueci autores e títulos.


Um deles contava a história de um ataque repentino à Terra por naves vindas do espaço, seguido pelo envio pelos terráqueos de uma expedição punitiva que parte no encalço dos atacantes. Quando depois de muito navegar essa expedição detecta as naves inimigas num planeta, ataca-o violentamente. Aí o fim do conto repete o texto do início e percebe-se que a expedição que atacara a Terra é a mesma que partira em busca de vingança: paradoxo espacio-temporal, universo circular e esses “clichés” clássicos do género.


O outro descrevia a chegada dos primeiros homens a Marte e do seu contacto com os marcianos. Os homens estão orgulhosos da sua proeza e querem falar com as mais altas chefias: “leve-me ao seu líder”. Só que os marcianos não lhes ligam nenhuma. Os astronautas bem tentam fazer notar que vieram da Terra, mas a dona-de-casa marciana à porta da qual bateram está mais preocupada que eles lhe estejam a sujar o chão com as suas botifarras. Os marcianos não se interessam peva, para desespero e confusão de quem julgava estar a entrar para a Eternidade. Vou ficar por aqui e não vos contarei o fim da história, se por acaso vos apetecer lê-la.


Na altura, o que me impressionou neste conto foi a abordagem iconoclasta à ficção científica que o autor propunha: nada de grandes naves ou prodígios tecnológicos. Senhoras mal dispostas e cosmonautas sem interlocutor. Um humor subtil que outros transformaram em paródia pegada como no hilariante “Os marcianos divertem-se”, de Frederic Brown, em que homenzinhos verdes invadem a terra com o único propósito de chatear os seus habitantes.



Nestas férias, voltei a cruzar-me, de forma acidental, com o conto dos astronautas incompreendidos: afinal chama-se “The Earth men” e pertence às Crónicas Marcianas de Ray Bradbury, que despachei neste Agosto. Lido com mais três décadas em cima dos ossos e no contexto das restantes crónicas, a minha percepção deste conto é completamente diversa. Efectivamente os "eu" que o leram nos idos de 1976 e agora são o mesmo, mas são diferentes. Como diferente foi lê-lo nos anos setenta, num mundo de guerra-fria e conquista do espaço e fazê-lo hoje. O livro está algo datado, o que só acrescenta ao brilho da sua “patine”.


As crónicas, algumas longas de dezenas de páginas, outras de uma folha apenas, revelam uma visão ligeira, onírica, sobre uma futura colonização de Marte pelos humanos. Na realidade, Marte é apenas um pretexto. Este livro é sobre nós, sobre os sonhos, os vícios e as capacidades que como espécie partilhamos.


Percebido isto, torna-se claro que os astronautas que se acham assim tão importantes somos nós, sempre a pôr-nos em bicos dos pés, sempre a sobrestimar-nos e confundidos e incapazes de entender quando alguém nos reduz à nossa insignificância.

terça-feira, setembro 07, 2010

Férias VIII : Janelas de Ronda

Aquando dos meus tempos universitários, tinha alguns amigos em Belas Artes. Caí uma vez na asneira de lhes dizer que gostaria de ter uma janela da Maluda. Fui xingado como o último dos cavernícolas. Uma dessas amigas, hoje pintora de algum renome, até me ofereceu um livrinho de iniciação às artes escrito e pintado por ela, uma espécie de "art for dummies", que se encontra emoldurado na minha sala.

Realizei na altura, com o orgulho ferido, que as janelas da Maluda estavam para os jovens artistas como o Dantas estava para o Almada Negreiros. Morra! Pim!

Uma viagem a Ronda nestas férias permite-me agora uma tardia desforra. Ronda, jóia andaluza empoleirada num penhasco a mil metros de altitude é um "pueblo blanco", magnificamente caiada, com soberbas - "guess what?" - janelas gradeadas que vos vou mostrar de seguida. Tipo Maluda, só que fotografadas por mim.

Uma das últimas cidades conquistadas aos mouros, em 1485, Ronda distingue-se também por uma das mais antigas praças de touros de Espanha, datada de 1785 e desenhada por Pedro Romero, ele próprio matador de mais de 6000 touros. As meninas do Bloco desmaiariam só ao ouvir o número. Os budistas apostariam que, com tanto ponto de "karma" negativo, Romero terá reencarnado como fungo interdigital ou protozoário, algo verdadeiramente mau.

Rondemos.

A ponte que separa as duas metades da vila, alcandoradas num precipício calcário:



E agora as janelas:








Para terminar, a prova em azulejo de que a virgindade pode ser em qualquer sítio.

Férias VII : O preto dos DVDs

“Is this the world we created?
We made it on our own
Is this the world we devastated
Right to the bone?"


Queen, in “Is this the world we created”


A praia, de pedra negra miúda, serpenteava esguia durante quilómetros pela orla de um Mediterrâneo quase lacustre. De longe a longe, a passagem de um barco distante empurrava uma onda que vinha marulhar o silêncio, como um arfar súbito num sono profundo. A cada poucos metros, as cores garridas de uma toalha ou de um pára-sol e corpos despidos que torravam rosados ao sol, abandonados ao calor opressivo do Agosto malaguenho.


Ao fundo, uma silhueta escura desenhou-se e foi-se aproximando num passo firme, quase veloz. Era um homem, de um negro profundo, vestido com uma camisa preta e umas calças de ganga escuras, a cabeça protegida da torreira inclemente por um boné de beisebol, uma das mãos segurando um saco de plástico que algo enchia. Cada vez que passava junto a alguém adiantava a mão livre na direcção da pessoa, num gesto mecânico, com um olhar de esguelha que de vazio quase não era um olhar. Na mão que ia apontando à esquerda e à direita, uma mão grande, possante, uma garra, tinha um monte de DVDs piratas, embalados em capas quadradas maleáveis, atados com dois elásticos.


Gente ergueu a cabeça para logo a baixar. Ele não diminuiu a passada. Ninguém quis comprar e ele também não esperava vender. Ia, meramente. Foi e desapareceu no horizonte de azul e preto e rosa. Algumas horas depois, voltou no sentido contrário, com o seu caminhar de autómato, provavelmente sem ter vendido nada.


À noite, jantava eu numa esplanada em Torre de la Mar e viu-o de novo, com o mesmo saco verde, a mesma mão oscilante, a mesma indiferença nos olhos, o mesmo andar de mecanismo. Provavelmente fizera muitos quilómetros desde um país para lá do deserto à procura do eldorado que nós sem o saber somos. Possivelmente pagara a um proxeneta das fronteiras uma parte importante das suas poupanças para o levar até às terras da fortuna. Tivera sorte: patrícios seus vão regularmente dando às costas do sul da Espanha, já cadáveres, quando o barco sobrelotado não resiste às correntes do estreito. Outros, descobertos pela polícia são recambiados e ficam entalados entre dois países que não os querem. Este chegara, mas a sua esperança já partira.


As migrações humanas são normalmente representadas nos mapas por longas setas a verde e vermelho e azul. Nessa visão esquemática e remota, parecem ordenadas, sociológicas, inevitáveis. Vistas de perto, são feitas de sonhos traídos, de dor, de brutais anomias e também da mais baixa cupidez: a de quem os explora (uns quantos) e a de quem os ignora (nós, os outros).


Marfinenses para serventes em Espanha, hondurenhos para operários na América, ucranianas para prostitutas em França, filipinos para criados no Dubai. Não são os novos proletários. São os novos escravos, os nossos escravos, que acartam o cimento de nossas casas, apanham os morangos de nossas mesas, cozem os pespontos das bolas com que os nossos filhos jogam e saciam os apetites que muitos, de pouco homens, já não conseguem de outra maneira.


Exploram-nos máfias organizadas ou xico-espertos de ocasião, que os iludem, agridem, ficam com o passaporte, violam, roubam e sugam até que não sobre pinga de sangue ou grama de tutano.


Ignoram-nos os governos que elegemos, com auréola democrática, entalados entre as necessidades de mão-de-obra barata e a vontade de mostrar serviço securitário para tranquilizar as massas eleitoras, inquietas com a diferença que é e será sempre um alvo fácil. Se a decência fosse relevante, perseguir até à exaustão os novos negreiros passaria a prioridade mundial. Mas a decência gasta recursos e não rende votos.


Apesar de tudo isto, eles partem. Talvez porque não saibam o inferno que os espera, talvez porque o inferno onde vivem seja pior, talvez porque achem que vale a pena tentar para ser uma das raras histórias com final feliz. Estima-se a probabilidade de um guatemalteco ou de um nicaraguense morrer numa migração para os Estados Unidos em vinte por cento. Mais do que na roleta russa. Partem centenas todos os dias.

domingo, setembro 05, 2010

Férias VI : Mourarias

Málaga, terra de Picasso, tem a sua "Alcazaba", uma das alcáçovas mouras mais importantes e bem conservadas da península. Foi começada por Abd al-Rahmân I, emir Omeíada que aproveitou a queda do califado de Damasco para se tornar no primeiro monarca de um Al-Andaluz independente. A seu modo, é uma figura da História de Portugal.

A visita vale pela beleza do local e pelo carácter indiscutivelmente mouro do castelo, muito diferente do que nos habituámos a ver por cá. Diferente nos materiais, nas cores, nos arcos, nas geometrias e até no requinte.

Algumas imagens de uma visita ao meio-dia, debaixo de um sol das arábias.

Em primeiro plano teatro romano da época de Augusto, descoberto apenas nos anos 50 e trazido à luz em 1995.








Férias V : Maciçamente atacado

O meu amigo VE fora colega de curso do baixo dos Air nos idos de oitenta e distribuiu amáveis convites para os irmos ver ao Festival do Sudoeste, na poeirada da Zambujeira. Apreciei os Air: foram diáfanos e foram etéreos. Nalguns momentos relembrei os Space, banda sintetizadora que também produziu uns sucessos aí em 75 ou 76.

Fiquei para o número seguinte e teóricas estrelas principais: Massive Attack, que eu pensava que desconhecia mas conhecia, porque já ouvira o “Tear Drop” no genérico do House umas dezenas de vezes.

No que toca a música pop/rock, sou às vezes acusado de reaccionário das cavernas e de só apreciar velharia dos anos oitenta para trás. Protesto inocência. Oiço o que oiço, gosto do que gosto. E adoro ser surpreendido. Às vezes posso andar distraído, o que é diferente. Foi o caso no caso dos Massive Attack.

Há muito tempo que não ouvia nada que me enchesse tanto as medidas. Negrume. Obsessão. Calor e frio. Ritmo compulsivo. Melodia flutuante num mar repetido. Beleza da diferença, diferente da beleza. Política. Vou comprar os álbuns todos.

Para mais, nitidamente vocacionados para espectáculos ao vivo. O público agarrado, com excepção de um casalinho adolescente à minha frente que passou uma hora em mútua endoscopia, obrigando-me a algum contorcionismo para ver o palco. Deve ser da alimentação, mas os putos hoje em dia são altos. E saudavelmente sôfregos, louve-se o Senhor.

Uma estética de palco belíssima, com um jogo de luzes e textos que me lembrou uma instalação permanente da Jenny Holzer no Guggenheim de Bilbao. Ao longo das diversas músicas, letras e números brancos e vermelhos, garrafais, davam-nos conta do estado das coisas no nosso atormentado planeta. Por exemplo, uma linha dizia: “número possível de dias preso sem ser apresentado a um juiz”. Por baixo, os dígitos rodopiavam até se imobilizarem num “Suécia: 1”. Depois num “França: 2”. “Reino Unido: 45”. Até explodir num branco intenso: “Estados Unidos: INDEFINIDO”.

E assim sucessivamente, para os litros de água gastos, para os rendimentos “per capita”, para as tropas no Afeganistão. A estatística como militância. Grande e feroz. Nada solta menos a canela que a mandíbula dos números.

Massive Attack. Como vês, NF, eu sei que há vida depois dos noventa. Como abaixo se demonstra.


sábado, setembro 04, 2010

Férias IV : Gente de Porto Covo

Para lá da turba veraneante, há quem lá viva...





Esta senhora há anos que calcula de cabeça o somatório de pesos vezes preços unitários ao dobro da velocidade com que eu o faço. "Intel inside". Só pode.

Férias III : O nazismo casou com uma italiana jeitosa

Já vai uma década, participei nuns dias de marcha no sul de França que terminaram num opíparo jantar num “mas” isolado na planura da Camarga, pedaço de Ibéria enxertado em terra gaulesa, onde acompanhei grandes pratadas picando presunto e chouriço de touro.


Para entretenimento dos comensais, um par de ciganos tocava guitarra. Tocavam muito bem, mesmo muito bem. Soados os primeiros acordes, paravam as mandíbulas e viravam-se as cadeiras. Um deles tinha um CD publicado, que por idiotice na altura não comprei.


Num dos “breaks”, tendo esse do CD me ouvido falar português, abordou-me em espanhol e conversámos um pouco. No meio da conversa lembrei-me de lhe perguntar se conhecia Paco de Lucia. Ele, com um sorriso, pousou o pé na cadeira, assentou a guitarra na perna e durante sessenta segundos ouvi o “Rio ancho”. De forma perfeita: tal como quando oiço Lucia na gravação, pareceu-me ver o Guadalquivir a nascer cristalino na serrania, a vencer turbulento as encostas pedregosas e a explanar-se, largo, sereno, mouro, lento no calor abrasador da planície andaluza.


De repente, tendo-me presenteado com esse minuto excelente, travou as cordas com os dedos e disse com ar sério:


- Não gosto de tocar Paco de Lucia. Posso-me enganar e seria uma falta de respeito para com o mestre.


Acarinho desde então esta lembrança tocante. Naquele breve instante, o cigano ensinou-me muito sobre a humildade – que é uma virtude para consigo próprio, sobre o respeito – que é uma virtude para com os outros – e, quando por instantes quebrou a sua regra para me fazer a vontade, sobre a irmandade – que é uma virtude para consigo próprio e para com os outros.



Passados muitos anos desta cena, o meu pai encontrava-se moribundo num hospital de Lisboa. Havia uma auxiliar de enfermagem, um mulherão moreno, de cabelo longo retinto, de uma força impressionante, que muitas vezes vi assistir o meu pai. Pegava no seu corpo minado (e depois vencido) como se uma madona segurando o Menino. Ele quase desaparecia por trás daquele corpanzil de bata verde. Quando ela entrava no quarto, nunca faltava uma palavra simpática, um “senhor”, um nome, um dedo de conversa, mesmo quando ele já não respondia, mesmo quando ele já não percebia, mesmo quando para outros menos cautos poderia parecer que aquelas palavras já não valiam a pena. Ora isto chama-se humanidade e vem caindo em desuso.


Era cigana. Por vezes as visitas ao sabê-lo duvidavam, presas aos seus estereótipos, insistiam se era mesmo e ela, firme no sorriso, ajeitando a orla do lençol, reafirmava:


- Com muito orgulho! De pai e mãe.


Certa vez, quando ela pacientemente, pela vigésima vez do dia, acudiu a uma tarefa que a quase todos repugnaria e eu lhe agradeci, respondeu:


- Não tem que agradecer. Gosto muito do que faço.


Na altura surpreendeu-me mas hoje vejo claro. Como poderia um Anjo não gostar do que faz?


Não temos, nem eu nem a língua portuguesa, palavras para expressar a gratidão e a admiração que eu sinto por ela (e por outras pessoas que sempre aparecem lado-a-lado nestas memórias). Mas uma coisa que na altura jurei foi nunca mais ser estúpido e voltar a cair na ladainha que nos ensinam desde crianças, que o horror chamado “vox populi”destila e que os jornais reverberam, de que os ciganos isto e a ciganada aquilo.


Durante Agosto, li sobre os ciganos romenos que foram corridos de França, às famílias inteiras. Não digo expulsos ou deportados porque eles estavam num espaço, a Comunidade Europeia, onde têm direito a estar. Portanto a palavra que mais se me aproxima é “corridos”. Corridos à má fila. Com argumentos que são um vómito para cima dos tratados europeus e perante um silêncio cobarde da Comissão que só pode espantar por já não espantar. Desgostante.


Nestes tempos de correcções políticas, os ciganos são objecto de um racismo intolerante e tolerado.


Não só porque são catalogados à cabeça de malandros, senão mesmo de criminosos. Não só porque prevenimos os nossos filhos para terem cuidado. Não só porque viramos a cara. Estes são só os tiques mais evidentes.


Há racismo quando um telejornal relata que “dois indivíduos de etnia cigana assaltaram” mas já não diz que “dois indivíduos de indivíduo de etnia branca assaltaram”.


Há racismo quando a chacina de judeus às mãos nazis na Segunda Guerra se chama Holocausto e a dos ciganos é um detalhe da História.


E também há racismo quando achamos que as crianças ciganas podem abandonar a escola aos doze anos e serem prometidas em casamento aos catorze, “porque eles são assim”. Se são assim, mudam, e temos que os obrigar a mudar, como se faria com qualquer família não-cigana. Não exigir deveres também é uma forma de racismo.


Vários ciganos enveredam pelo crime? Que se prendam. Muitos ciganos trabalham na economia paralela? Controle-se e tribute-se. Há muitas crianças ciganas que se vêem privadas pela família de direitos básicos? Intervenha-se como com qualquer outra criança. Mas deixe-se a cada indivíduo cigano, à partida, o seu direito ao bom-nome, à presunção de inocência e a todas as outras considerações que nos indignaria se nos fossem retiradas.


Julgar um indivíduo pelo comportamento de outros de um todo a que ele pertence é racismo, ponto final. Entre os portugueses há muitos defeitos, mas eu quero ser avaliado pelos meus defeitos, não pelos de outros portugueses. Entre os brancos há muitos vícios, mas eu exijo ser julgado pelos meus vícios, não pelos de outros brancos. Cada cigano tem o direito de ser visto pelo que ele é, não pelo que outros são, sejam esses um, dez ou noventa por cento do total. Não interessa a percentagem. Totalmente irrelevante.


Diz o ministro francês que coordena estas alarvidades que um em cada cinco roubos na região parisiense é cometido por romenos. E dois ou três dos restantes devem ser por franceses. Corra-se então também com os franceses, que mal não faria à França.


As expulsões de famílias inteiras capitaneadas por Sarkozy, por motivos populistas e eleitoralistas, envergonham a França e a silenciosa Europa. Com a ironia adicional de ser o presidente francês filho de emigrantes húngaros, que tiveram a felicidade de não ser expulsos “in illo tempore”.


Por estas e por outras, passo a passo, de Berlusconi em Sarkozy, de “Front National” em “Vlams Block”, de indignidade em indignidade, a civilização europeia, construída com o labor e o sangue dos nossos anciães, vai deslizando para o fundo. Neste momento, quase irremediavelmente conspurcada, já anda a boiar na água da retrete. Que venha mão justa e piedosa e solte o autoclismo.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Férias II : A economia do tereré

Em Agosto, Porto Covo rodopia à volta do largo pombalino. A qualquer hora, a praça pulula. À noite, regurgita. Uma rua pedestre, cuspida na direcção do mar, ladeada de lojas e restaurantes, funciona como uma excrescência do largo. As pessoas abandonam a mole compacta que se afunila entre as quatro paredes do largo e descem a rua, empurrando à sua frente carrinhos de bebé ou barrigas de cerveja, arrastando atrás cães modorrentos ou petizes eléctricos, e depois voltam a subir a rua atraídas para a massa humana por forças mórbidas ou gravíticas, possivelmente ambas.

O largo à noite prova que o “horror vacui” aristotélico funciona e recomenda-se.

Na sua pequena geometria quadrada, oferece dois restaurantes, dois bares, uma pastelaria, uma geladaria, duas lojas de inutilidades baratas e uma loja de inutilidades caras, não contando a igrejinha.

No recanto sudoeste, a pastelaria conhecida por “o 31”, a mais célebre da terra, posiciona-se em segmento alto. Com uma decoração naquele rústico de decorador, produtos de alguma qualidade, empregadas de batinha e uma limpeza cromada que faria as delícias da ASAE, diferenciou-se já nos anos oitenta. Atraiu assim os tiozecos e as tiazocas de cidade, que aborriam a genuinidade das tabernas escuras, onde a bica ladeava com bagaços e petiscos petiscados com palitos de aspecto duvidoso, onde o bru-á-á suburbano em férias dava lugar a histórias da terra em pronúncia inconfundível, ditas de boné diante de um pires de tremoços.

Nas traseiras de uma dessas tabernas, num pátio que servia de armazém e ao qual se acedia por um corredor por trás do balcão, vencendo o cheiro nitroso que exalava das portas entreabertas das casas-de-banho, joguei muitas vezes matraquilhos. Eram uns matrecos à antiga portuguesa, com robustos jogadores de ferro forjado na clássica táctica 2-5-3, equipados à Sporting e à Benfica que o Porto ainda era um Belenenses do norte. Cada equipa tinha um preto no ataque. Os varões negrejavam de óleo e deixavam vergões escuros na roupa, para posterior protesto das mães. Nas cabeceiras, os cinzeiros ostentavam borras de vários cigarros e aí guardávamos as moedas, sem nojo. Metidos cinco paus, puxado o gatilho, a gaveta enchia-se de dose generosa de bolas, de esfericidade variável, da nova redondinha e ainda brilhante ao cubo negro já sem memória da sua circularidade. Este obrigava a jogadas especiais e tendia a parar em sítios de onde se tinha que o deslocar à mão, manobra perigosa da qual resultavam por vezes lesões graves dos dedos. Os bonecos calçavam maçudas patorras de aço, de formato irregular, que proporcionavam fenomenais berlaitadas. O golo directo da defesa era aplaudido, a bola que entrava e voltava a sair da baliza discutida. De vez em quando, no calor da peleja, o esférico voava para fora do estádio em direcção ao infinito, obrigando a demoradas procuras de cu para o ar, até o descobrir entre duas abóboras ou em cima de uma saca de batatas, aos gritos de “tá aqui”.

Que saudades! Hoje esse tasco converteu-se num comedouro asséptico e os matraquilhos desapareceram para sempre. E voltamos assim ao 31, aos tias e às tias que trouxeram outros que não o sendo por alguma panca do demo gostariam de ser e por isso seguem e imitam. Nas noites de Agosto, o 31 parece o comboio de Lahore para Bombaim, onde não cabe um alfinete e os corpos aparentam ir ser cuspidos das portas e das janelas. Para beber um café ou obter uma bola de “stracciatella” num copo de papel, há que tirar senha. Senha! Senha como na loja do cidadão, para pedir o passaporte ou activar a Via Verde! E as pessoas tiram e esperam ovina e asininamente minutos muito largos pelo buzinar do seu vinte-e-oooooito ou quarenta-e-trêêêês, que lhes há-de dar acesso a um “croissant” ou a uma imperial! Depois, disputam as mesas. E obtidas as mesas, disputam as cadeiras.

Eu, que passe a imodéstia não sou totalmente parvo, tomo café na geladaria da fachada leste, a trinta metros. Sou servido mal chego e sento-me na mesa que quiser. Não é nenhum segredo bem guardado. A porta vê-se da fila, melhor dizendo do magote, que no 31 aguarda de senha dobrada na mão. Meramente não é tão fino, por isso a gente não vai. Serei porventura menos requintado, mas bebo a bica com mais conforto. Não me apetece sofrer para ser elegante.

Na fachada oeste, tendo percebido que o homem é um animal irracional, o mesmo proprietário do 31 da senha abriu uma marisqueira, um 31 da amêijoa e da casquinha de santola. Não há marcações e os candidatos a comensais esperam e desesperam, rondando a esplanada como malandrins cobiçando um alvo ou acotovelando-se no interior com ar suspicioso, temendo que alguém dê o golpe, pressionando com o olhar os desgraçados que, sentados, apenas quereriam terminar a sua sobremesa em paz. Quando finalmente uma mesa vaga, um rapaz de camisa fardada abre um caderno garatujado e aponta para os felizes contemplados, que se precipitam sobre o cadeirame como afogados sobre um barrote. Confesso, com vergonha, que também já fiz essa triste figurinha. Tenho apenas como desculpa o facto de estar a acompanhar amigos que merecem todo o sacrifício e que pareciam desesperados por trezentas gramas de camarão, vá-se lá saber porquê...

No canto nordeste, um bar orientou-se para uma clientela “Massamá em Ibiza”. Ele são “shots” com nomes pornográficos que se pretendem graciosos, decibéis desproporcionados, cantores ao vivo de má índole e pior voz e até “karaokes”. Os clientes, abundantes de brincos de vidrinho e crista brilhantinada, emborracham-se e depois deliram. Os vizinhos sofrem, acordados. O dono factura. A Câmara vem limpar pela manhã. Como diria o Eça, justa repartição dos trabalhos.

Em certos dias, quem chegar ao largo notará uma maior concentração de pessoas em frente à igreja, olhando na direcção da porta. Não será devoção: no lajeado que faz as vezes de adro, um suposto artista exibe a sua arte, um chapéu invertido no chão esperando a generosidade dos mecenas a banhos. Por regra números fraquinhos, com malabarismos à Chapitô e tranças à “rastafari” ou “sketches” sem graça esganiçados em falsete. Apesar da pobreza franciscana das “performances”, ninguém arreda pé, os pescoços esticados em tensões de girafa. Deve fazer parte de um ritual: é de borla, vê-se. Viu-se, aplaude-se. Há quatrocentos anos, analfabetos pagavam com sacrifício para encher o Globe e ver Shakespeare. Aqui, malta com pelo menos nove anos de uma suposta escolaridade gasta minutos preciosos da sua vida a assistir a trampa, sem aparentar remorso. Algo se deve ter passado entretanto.

À volta do fontanário que, cercado de um relvado ralo, marca o centro do largo, a autarquia dispôs pequenas bancas de madeira, ocupadas por “artesãos”. “Hippies” tardios vendem pechisbeque, algum de autoria própria, outro fabricado na China. Desenham-se caricaturas a carvão. As inevitáveis peruanas propõem flautas de Pã andinas e fitas de punho. Pintam-se tatuagens de “henna”, às vezes com espectaculares impactos alergológicos se a tinta estiver marada. Dispõem-se “tee-shirts” com dizeres que se supõem jocosos, mas que afinal são ordinários. Fazem-se tererés no cabelo de crianças e adolescentes.

E eu, ao ver toda aquela gente acotovelando-se entre os cuspidores de fogo da igreja e os vendedores da pacotilha, endomingada após o duche das sete, palmilhando acima e abaixo e ao redor, estourando a magreza do subsídio de férias nos restaurantes onde fizeram fila para comer uma massada de peixe infame para o que pagaram ou dormitando de pé, de senha em punho, à espera de uma bica no 31, ou deitando para o chão os copos de plástico que cedo de manhã as mulheres da câmara virão limpar pagas com um dinheiro que já não temos, eu, quando vejo tudo isto, lembro-me de alguém. Sabem quem? Portugal. Olha, olha: Eça outra vez…

quinta-feira, agosto 26, 2010

Férias I : O segundo princípio da termodinâmica

Faz uns anos, adquiri no castelo de Santiago do Cacém uma pequena monografia da Real Sociedade Arqueológica Lusitana, grémio mais que centenário, da autoria de um António Martins Quaresma, intitulada “Porto Covo – um exemplo de urbanismo das Luzes”.


Por ela descobri que Porto Covo, onde há mais de vinte anos veraneio, é das poucas terras portuguesas que nasce da ideia de um homem, Jacinto Fernandes Bandeira, plebeu ligado ao Marquês de Pombal que no final do século XVIII principia uma povoação num lugarejo que continha apenas quatro fogos. Jacinto Bandeira mandou desenhar um plano para a nova aldeia, com uma traça rectilínea entre duas praças principais, uma das quais corresponde ao actual Largo, com projectos de equipamentos sociais em localizações pré-definidas, numa organização racional típica do modo iluminista de pensar da época. Em 1805, Jacinto Bandeira recebe da Coroa o título de Barão de Porto Covo. Numa curiosa injustiça, existe apenas hoje na terra uma rua Conde Bandeira, homenageando um sobrinho e não o fundador.


O Porto Covo que se desenvolveu posteriormente só em parte cumpriu as intenções que o arquitecto Henrique Guilherme de Oliveira deixou estabelecidas nas plantas que hoje repousam na Torre do Tombo. Mas ainda assim a aldeia que eu conheci nos anos oitenta, aí pela altura da malfadada canção do Rui Veloso, mantinha uma coerência e uma graça muito particulares, com o seu casario branco tarjado de azul escorrendo até à arriba em perfeito alinhamento.


Hoje, um estudo arquitectónico sobre Porto Covo teria forçosamente que se chamar “um exemplo do urbanismo das trevas”. A área a construir decuplicará o tamanho natural da terra, estoirando a capacidade das praias e dos comércios que, vivendo do mês de Agosto, não se podem eles expandir. Dois parques de campismo anárquicos garantem ruas entupidas e filas na padaria dignas dos melhores tempos romenos de Ceausescu. Há casas de xisto, outras de tijolo à vista, outras, gongóricas e de janelas ovais, com pretensão a missão católica no Novo México. Junto à Praia Grande um paralelipípedo de betão e vidro, uma Sizada, cercado de estacas pintadas de branco. Resumindo, todas as parolices novo-ricas que possam imaginar, com alumínios e cerâmicas. Gruas erguem-se, erguendo condomínios dependurados sobre o alcatrão da estrada, sôfregos por cada metro quadrado. Os lotes ainda vazios acumulam o entulho dos lotes já preenchidos e o lixo que a nossa crónica falta de civismo por lá vai largando. Nos passeios, abandonados pela autarquia, cresce matagal amazónico que obriga o transeunte a andar pelo meio da rua, sujeito à passa dos aceleras que fulminam de Seat Ibiza vermelho, os baixos ribombando junto às almofadas do vidro traseiro.



Um dos erros trágicos da revolução foi a carta de alforria que se deu às autarquias para licenciar. Poder a mais sem contra-poder. Temos hoje um país desfeado e desfigurado, liderado por construtores de meia-tijela, que ganham construindo e portanto destruindo.


Mas que isto assim seja quando nada se faz para contrariar já eu devia saber desde o segundo ano do Técnico, quando tive que empinar que a energia num sistema fechado se ajusta de modo a tornar a entropia tão grande quanto possível, no mais aleatório dos macro-estados.


sábado, julho 24, 2010

Os frequentes

Recomendam as associações de pais aos seus membros que vigiem por onde andam os filhos pela “internet”, porque com facilidade se desemboca em “sites” esquisitos e menos recomendáveis. Pois eu apanhei-me sozinho e assim me aconteceu. Sem saber bem como, fui parar à página da Assembleia da República – que a tem, de pinta modernaça mas velocidade algo lenta e resposta aleatória: os servidores públicos, mesmo quando compostos de circuitos integrados, têm uma relação muito própria com o trabalho.

Serve este intróito para explicar aos “Matareaders” mais suspeitosos por que raio me lembrei eu de ir xeretar no “site” parlamentar. Lá anda o gajo sem nada para fazer, dirão. Mas não: apenas um mero acaso, uma navegadela à deriva no ciberspaço, que ali desembocou. E, como na anedota do alentejano apanhado de calças na mão, já que ali estava…


A primeira coisa que descobri foi que o nosso deputado é um ilustre desconhecido. Aquilo está cheio de malta de quem nunca ninguém ouviu falar. Eu considero-me um tipo razoavelmente informado, leio o jornal todos os dias e papo o noticiário todas as noites. Embora já me vão dando umas brancas, gabo-me de razoável memória. Pois corri o rol dos 230 tribunos e há 167, ou seja 73%, sobre os quais eu nunca ouvi a mais leve referência ou a mais obscura notícia, nem bem, nem mal, nem na quarta fila, nem mais gordos, nada. São nomes que me dizem tanto quanto a lista de suplentes do Sintrense num embate contra o Samora Correia.

Se querem prova do que vos conto, dêem-se a este exercício: Mariana Aiveca, Lucinda Biscoito, Bravo Nico, Paulo Pisco, Antonino Chuta, Marta Copinha. Três deles são deputados da nação. Os outros nomes acabei de inventar. Adivinhem quais e mandem-me uma mensagem que eu dou-vos um doce na volta do correio, se tiverem acertado.

Detalhando a mesma análise por partidos, constato que há 27 conhecidos do PS (28% da bancada), 18 do PSD (18%), 6 do CDS (29%), 6 do Bloco (38%), 5 do PCP (38%) e uma do Partido Ecológico Os Verdes, com o inolvidável e muito arcádio nome de Heloísa Apolinária, que constitui só por si metade do casal parlamentar deste partido tantas vezes injustamente esquecido. As mais altas taxas de notoriedade do Bloco e do PCP podem-se explicar em parte por uma maior militância e por outro lado por eles fazerem como as equipas de hóquei no gelo, que de vez em quando trocam todos a meio do jogo menos o guarda-redes.

Mas mesmo destes conhecidos, muitos são-no por razões que não têm um courato a ver com a sua actividade parlamentar. São exemplos o Afonso Candal (por ser filho do Candal pai), o Arménio Santos (por liderar a discreta tendência social-democrata da UGT), o António Preto (por umas notícias foleiras que vieram nos jornais), o Fernando Negrão (por ter chefiado a judite), a Inês de Medeiros (entra em filmes, dos de celulóide), a Isabel Neto (médica que tratou o meu pai), a Manuela de Melo (foi locutora da RTP Porto), a Maria Rosário Carneiro (por ter dez filhos, se não me falha o conto), o Marques Júnior (militar de Abril), o Mendes Bota (organiza todos os anos no Algarve uma festa que dá no telejornal) ou o Ricardo Rodrigues (gamou os gravadores a uns jornalistas ou foi forçado a contragosto a enfiá-los no bolso, consoante a versão venha da oposição ou do PS). E mais uns antigos ministros agora discretamente refundidos e alguma gente que aparece nos frente-a-frente da SIC Notícias. Tudo somado, sobram muito poucos deputados cuja fama venha de deputarem.

Que fazia esta malta na vida, antes de aterrar no hemiciclo? Nada menos que 80, ou seja 35% do total, são formados em Direito, o que pode explicar muita coisa sobre o torto estado da nação. Economistas constam 25, com a missão de explicar o descalabro. Há quatro médicos, duas farmacêuticas, um dentista e duas enfermeiras. Dava para montar uma pequena clínica. Mas só dois psicólogos, número manifestamente insuficiente para tratar tão alargada clientela. Engenheiros são 16, um dos quais de Minas, que encontrou finalmente um buraco onde se enfiar, mas só dois de Mecânica (a verdadeira fina-flor da nação). Pena! Filósofos temos sete, meio desapontados por na Assembleia, ao contrário da Academia, também entrar quem não é geómetra: antropólogos, sociólogos, agrónomos, biólogos, um geólogo à cata de pedra (deve ser do Bloco), um arquitecto, um silvicultor, três professores de ginástica, quatro geógrafos, nove filólogos e muita malta daqueles cursos manhosos: gestão da comunicação, estudos europeus, serviço social e quejandos. Para guardar este rebanho todo, um único tropa, o supra-citado Marques Júnior.

Catorze deputados não possuem curso superior. Apenas 6% a representar os mais de quatro quintos de portugueses nas mesmas circunstâncias. Nota-se aqui algum enviesamento na representação do povo.

Na verdade, isto são mais habilitações académicas do que carreiras. Sobre percursos profissionais, pouco conseguimos descobrir. Há um imbecil, um dos 80 com uma licença para advogar, que assinala como profissão “jurisconsulto”. Cagão! Nem deve saber o sentido da palavra, que eu lhe recomendo que verifique num dicionário de jeito. Era como se um dos engenheiros pusesse como profissão “génio da ciência”. Uma das nossas deputadas indica como profissão “autora”. Assim, sem vergonha. Só não sabemos se de obras, se dos dias de alguém. Temos felizmente, nas antípodas destes maus exemplos, pessoas como Jerónimo de Sousa, um senhor, que assinala que exerceu o mester de “afinador de máquinas”. Ficamos a saber que se aplicou em trabalho honrado, enquanto de muitos dos outros paira a sensação – lida nas entrelinhas e no currículo partidário – que se foram baldeando de sinecura em sinecura.


Mas o que mais acabou por me impressionar neste breve passeio pelo mundo dos nossos parlamentares foi que 51 deles, 22%, sentiram uma necessidade parva de inscrever como credenciais académicas a frequência de cursos que não terminaram. Tenho para mim que o que se começa acaba-se. Poderão ter ocorrido circunstâncias extraordinárias, que não falta de persistência, que impediram um ou outro de concluir o iniciado. Certamente não o caso de todos. Por isto, parece-me extraordinário que, em vez de demonstrarem algum embaraço pelo falhanço, o publicitem no currículo como se aquela frequência de um mestrado qualquer em gestão de folhas de couve lhes trouxesse aura de sapiência ou laivos de estatuto. É uma atitude que revela o carácter. Em que uma serôdia necessidade de aparência os impele para o abanar fútil de um canudo incompleto, que lhes fica no meio do currículo com o mesmo ar bacoco de um anão de loiça no centro do que poderia ser um jardim honesto.

Serão eles assim em tudo? Gabar-se-ão sempre daquilo que não conseguiram levar a cabo? Imagino dois deles num recanto de um bar, em conversa de saias:

- Então? Que tal o jantar com Beltrana?
- Óptimo! Depois fomos para casa dela e a coisa proporcionou-se…
- Grande leão!
- Bem na realidade não consegui euh… consumar… sabes: tinha já bebido uns copitos!
- Ah! Entendo.
- Mas frequentei! Já cá conta na lista!
- Claro! Também é importante!

Se calhar não leram o “Os Maias”, mas frequentaram no liceu, nas páginas que a professora indicava. Provavelmente frequentaram uma carreira profissional, que deixaram antes do meio por causa do “trabalho político”, por acaso uma das principais justificações para as faltas justificadas dos nossos tribunos, cuja análise também pode ser feita no “site”. Análise que nos permitiria concluir que ser eleito põe em perigo a saúde. Os deputados adoecem em média muitos mais que o pessoal no meu emprego e às vezes padecem à terça e à quinta, só com um dia de saúde pelo meio.

Podíamos pois chamar-lhes “os frequentes”. Frequentam. Têm frequência de…

E infeliz e frequentemente, esses (que são demais) apenas frequentam o lugar para que foram eleitos, sem o levar às últimas consequências. Por isso passam ao de leve e incógnitos, meramente frequentando, como suplentes de alguma comissão de especialidade, levantando o braço ovinamente quando o líder da bancada assim o manda. Nunca correndo o risco de por arrufo de consciência poderem perder um lugar elegível nas eleições que se seguem.

Não percebem que no seu currículo, melhor que a frequência de umas inconsequentes cadeiras de primeiro ano, ficaria a constatação de que votaram sempre pela sua cabeça e por quem os elegeu, mesmo quando tiveram que mandar a disciplina partidária às malvas.

quinta-feira, julho 08, 2010

A carne para canhão

Durante o fim-de-semana que passou (mais depressa do que eu queria), entre mergulhos no tanque onde o termómetro flutuante ia ostentando uns 29 Celsius bem satisfatórios, encetei a leitura de “A Argélia argelina”, um livro de Jean Lacouture sobre o processo de independência daquele país. Reúno muitas vezes com argelinos por osso de ofício e pouco conhecia sobre a sua história. Nem tarde, nem cedo, foi desta, à torreira dos 38 que esbraseavam a serrania alentejana.


Ainda não acabei o volume, mas já fui aprendendo umas coisas que para mim são de utilidade muita relativa mas que para outros poderiam dar algum jeito: por exemplo àqueles que ainda hoje se aventuram na aventura colonizadora.


A França ocupou a Argélia em 1830, terminava o reinado de Carlos X. Até ao final do mono-império de Napoleão III, a política oficial para a colónia oscilou entre uma tutela teoricamente benevolente delegando alguns poderes nos locais e grandes e deliberados ensaios de porrada. Pelo meio foram espoliando terras e trazendo colonos. Contas feitas, estima-se que entre 1830 e 1872 um argelino em cada três morreu de morte violenta, epidemia ou fome, tudo brilhantemente patrocinado pelo humanismo gaulês. Compreende-se que ainda hoje os tipos não gostem deles.


À medida que o tempo passou, que a França perdeu potência e que as condições políticas mundiais se tornaram pouco afáveis para os colonizadores, o problema foi-se complicando. Desde a metrópole, a política oscilava entre uma visão integradora que preconizava que a Argélia fosse parte do território nacional, o que acarretava a chatice de ter que dar aos indígenas os mesmos direitos e voto nas matérias e tudo o mais e outra que a definia como colónia a manter “manu militari”. No local, a tendência era para não ligar puto aos telegramas de Paris. A influência conservadora dos colonos, que tinham tudo a perder (e que acreditavam no “status quo” eterno), e a rédea solta dos militares impediam qualquer actuação que fosse favorável à autonomia, à independência ou mesmo a alguma justiça para a arabiada.


Do lado dos argelinos, uma elite pensante foi-se desenvolvendo e dividindo entre os que preconizavam uma via reformista, de lenta aquisição de direitos, de uma Argélia argelina dentro de uma França amiga, e os que preconizavam a acção directa e violenta para uma separação total entre povos que tinham apenas em comum os metros quadrados que pisavam. A tendência francesa foi a de perseguir uns e outros.


A seguir à guerra mundial, a situação agudizou-se após os massacres de Constantine, em Maio de 1945, quando cerca de uma centena de colonos foram mortos por extremistas argelinos e a reacção francesa foi completamente desproporcionada: estimam-se quinze mil mortos. Quando no final dos anos quarenta os franceses foram à procura dos moderados argelinos para falar, já não os encontraram. Só a guerra e a independência estavam em cima da mesa. O confronto armado, uma guerra suja de parte a parte, começou em 1954 e os franciús fecharam discretamente a sua loja colonial em 19 de Março de 1962. Quanto aos colonos, piraram-se em massa para o outro lado do Mediterrâneo, às centenas de milhar, muitos com uma mão à frente e outra atrás. Afinal, aquele peito todo não lhes serviu de muito.


Ao ler este pedaço de tempo passado, não me pude impedir de fazer um paralelo com a situação dos colonatos que Israel vai alegremente estabelecendo pelos territórios palestinos da vizinhança, aproveitando o facto de não se lhe aplicarem as resoluções da ONU que se lhe aplicam. O uso da força, o sentimento de superioridade, a criação de uma massa de colonos como força de bloqueio, a hesitação entre o discurso da integração e o da divisão, tudo parece tirado a papel químico.


O que o governo israelita está a fazer àquela gente, à sua gente, raia a indecência. É pô-la do lado errado da História onde será fatalmente atropelada, mais cedo ou mais tarde. Se não ela, os seus filhos ou netos. A força pode aguentar a situação dez, vinte, cinquenta, cem anos, mas um dia fraqueja. Depois vai tudo a eito como foi na Argélia. E aí, tarde demais, vão perceber que os usaram como carne para canhão.


As situações meta-estáveis têm destas coisas: um dia, de repente, instabilizam mesmo.

segunda-feira, julho 05, 2010

Disclaimer on orthographic obsolescence

Parece que arrancou final e oficialmente a aplicação do acordo ortográfico e por esses jornais e revistas fora houve muita consoante que perdeu o pio de vez.

Pois aqui no Mataspeak vai ficar tudo na mesmíssima: burro velho não aprende línguas e eu já qualifico nas duas categorias.

O fim-de-semana...

Los mosquitos - pégasos del rocío -
vuelan, el aire en calma.
La Penélope inmensa de la luz
teje una noche clara.

Federico Garcia Lorca, in "Se ha puesto el sol"


... que me andava a fazer falta, no fundo do Alentejo profundo.


Com fogo,

Água,

Terra,


E ar, entre outras.