domingo, setembro 05, 2010

Férias VI : Mourarias

Málaga, terra de Picasso, tem a sua "Alcazaba", uma das alcáçovas mouras mais importantes e bem conservadas da península. Foi começada por Abd al-Rahmân I, emir Omeíada que aproveitou a queda do califado de Damasco para se tornar no primeiro monarca de um Al-Andaluz independente. A seu modo, é uma figura da História de Portugal.

A visita vale pela beleza do local e pelo carácter indiscutivelmente mouro do castelo, muito diferente do que nos habituámos a ver por cá. Diferente nos materiais, nas cores, nos arcos, nas geometrias e até no requinte.

Algumas imagens de uma visita ao meio-dia, debaixo de um sol das arábias.

Em primeiro plano teatro romano da época de Augusto, descoberto apenas nos anos 50 e trazido à luz em 1995.








Férias V : Maciçamente atacado

O meu amigo VE fora colega de curso do baixo dos Air nos idos de oitenta e distribuiu amáveis convites para os irmos ver ao Festival do Sudoeste, na poeirada da Zambujeira. Apreciei os Air: foram diáfanos e foram etéreos. Nalguns momentos relembrei os Space, banda sintetizadora que também produziu uns sucessos aí em 75 ou 76.

Fiquei para o número seguinte e teóricas estrelas principais: Massive Attack, que eu pensava que desconhecia mas conhecia, porque já ouvira o “Tear Drop” no genérico do House umas dezenas de vezes.

No que toca a música pop/rock, sou às vezes acusado de reaccionário das cavernas e de só apreciar velharia dos anos oitenta para trás. Protesto inocência. Oiço o que oiço, gosto do que gosto. E adoro ser surpreendido. Às vezes posso andar distraído, o que é diferente. Foi o caso no caso dos Massive Attack.

Há muito tempo que não ouvia nada que me enchesse tanto as medidas. Negrume. Obsessão. Calor e frio. Ritmo compulsivo. Melodia flutuante num mar repetido. Beleza da diferença, diferente da beleza. Política. Vou comprar os álbuns todos.

Para mais, nitidamente vocacionados para espectáculos ao vivo. O público agarrado, com excepção de um casalinho adolescente à minha frente que passou uma hora em mútua endoscopia, obrigando-me a algum contorcionismo para ver o palco. Deve ser da alimentação, mas os putos hoje em dia são altos. E saudavelmente sôfregos, louve-se o Senhor.

Uma estética de palco belíssima, com um jogo de luzes e textos que me lembrou uma instalação permanente da Jenny Holzer no Guggenheim de Bilbao. Ao longo das diversas músicas, letras e números brancos e vermelhos, garrafais, davam-nos conta do estado das coisas no nosso atormentado planeta. Por exemplo, uma linha dizia: “número possível de dias preso sem ser apresentado a um juiz”. Por baixo, os dígitos rodopiavam até se imobilizarem num “Suécia: 1”. Depois num “França: 2”. “Reino Unido: 45”. Até explodir num branco intenso: “Estados Unidos: INDEFINIDO”.

E assim sucessivamente, para os litros de água gastos, para os rendimentos “per capita”, para as tropas no Afeganistão. A estatística como militância. Grande e feroz. Nada solta menos a canela que a mandíbula dos números.

Massive Attack. Como vês, NF, eu sei que há vida depois dos noventa. Como abaixo se demonstra.


sábado, setembro 04, 2010

Férias IV : Gente de Porto Covo

Para lá da turba veraneante, há quem lá viva...





Esta senhora há anos que calcula de cabeça o somatório de pesos vezes preços unitários ao dobro da velocidade com que eu o faço. "Intel inside". Só pode.

Férias III : O nazismo casou com uma italiana jeitosa

Já vai uma década, participei nuns dias de marcha no sul de França que terminaram num opíparo jantar num “mas” isolado na planura da Camarga, pedaço de Ibéria enxertado em terra gaulesa, onde acompanhei grandes pratadas picando presunto e chouriço de touro.


Para entretenimento dos comensais, um par de ciganos tocava guitarra. Tocavam muito bem, mesmo muito bem. Soados os primeiros acordes, paravam as mandíbulas e viravam-se as cadeiras. Um deles tinha um CD publicado, que por idiotice na altura não comprei.


Num dos “breaks”, tendo esse do CD me ouvido falar português, abordou-me em espanhol e conversámos um pouco. No meio da conversa lembrei-me de lhe perguntar se conhecia Paco de Lucia. Ele, com um sorriso, pousou o pé na cadeira, assentou a guitarra na perna e durante sessenta segundos ouvi o “Rio ancho”. De forma perfeita: tal como quando oiço Lucia na gravação, pareceu-me ver o Guadalquivir a nascer cristalino na serrania, a vencer turbulento as encostas pedregosas e a explanar-se, largo, sereno, mouro, lento no calor abrasador da planície andaluza.


De repente, tendo-me presenteado com esse minuto excelente, travou as cordas com os dedos e disse com ar sério:


- Não gosto de tocar Paco de Lucia. Posso-me enganar e seria uma falta de respeito para com o mestre.


Acarinho desde então esta lembrança tocante. Naquele breve instante, o cigano ensinou-me muito sobre a humildade – que é uma virtude para consigo próprio, sobre o respeito – que é uma virtude para com os outros – e, quando por instantes quebrou a sua regra para me fazer a vontade, sobre a irmandade – que é uma virtude para consigo próprio e para com os outros.



Passados muitos anos desta cena, o meu pai encontrava-se moribundo num hospital de Lisboa. Havia uma auxiliar de enfermagem, um mulherão moreno, de cabelo longo retinto, de uma força impressionante, que muitas vezes vi assistir o meu pai. Pegava no seu corpo minado (e depois vencido) como se uma madona segurando o Menino. Ele quase desaparecia por trás daquele corpanzil de bata verde. Quando ela entrava no quarto, nunca faltava uma palavra simpática, um “senhor”, um nome, um dedo de conversa, mesmo quando ele já não respondia, mesmo quando ele já não percebia, mesmo quando para outros menos cautos poderia parecer que aquelas palavras já não valiam a pena. Ora isto chama-se humanidade e vem caindo em desuso.


Era cigana. Por vezes as visitas ao sabê-lo duvidavam, presas aos seus estereótipos, insistiam se era mesmo e ela, firme no sorriso, ajeitando a orla do lençol, reafirmava:


- Com muito orgulho! De pai e mãe.


Certa vez, quando ela pacientemente, pela vigésima vez do dia, acudiu a uma tarefa que a quase todos repugnaria e eu lhe agradeci, respondeu:


- Não tem que agradecer. Gosto muito do que faço.


Na altura surpreendeu-me mas hoje vejo claro. Como poderia um Anjo não gostar do que faz?


Não temos, nem eu nem a língua portuguesa, palavras para expressar a gratidão e a admiração que eu sinto por ela (e por outras pessoas que sempre aparecem lado-a-lado nestas memórias). Mas uma coisa que na altura jurei foi nunca mais ser estúpido e voltar a cair na ladainha que nos ensinam desde crianças, que o horror chamado “vox populi”destila e que os jornais reverberam, de que os ciganos isto e a ciganada aquilo.


Durante Agosto, li sobre os ciganos romenos que foram corridos de França, às famílias inteiras. Não digo expulsos ou deportados porque eles estavam num espaço, a Comunidade Europeia, onde têm direito a estar. Portanto a palavra que mais se me aproxima é “corridos”. Corridos à má fila. Com argumentos que são um vómito para cima dos tratados europeus e perante um silêncio cobarde da Comissão que só pode espantar por já não espantar. Desgostante.


Nestes tempos de correcções políticas, os ciganos são objecto de um racismo intolerante e tolerado.


Não só porque são catalogados à cabeça de malandros, senão mesmo de criminosos. Não só porque prevenimos os nossos filhos para terem cuidado. Não só porque viramos a cara. Estes são só os tiques mais evidentes.


Há racismo quando um telejornal relata que “dois indivíduos de etnia cigana assaltaram” mas já não diz que “dois indivíduos de indivíduo de etnia branca assaltaram”.


Há racismo quando a chacina de judeus às mãos nazis na Segunda Guerra se chama Holocausto e a dos ciganos é um detalhe da História.


E também há racismo quando achamos que as crianças ciganas podem abandonar a escola aos doze anos e serem prometidas em casamento aos catorze, “porque eles são assim”. Se são assim, mudam, e temos que os obrigar a mudar, como se faria com qualquer família não-cigana. Não exigir deveres também é uma forma de racismo.


Vários ciganos enveredam pelo crime? Que se prendam. Muitos ciganos trabalham na economia paralela? Controle-se e tribute-se. Há muitas crianças ciganas que se vêem privadas pela família de direitos básicos? Intervenha-se como com qualquer outra criança. Mas deixe-se a cada indivíduo cigano, à partida, o seu direito ao bom-nome, à presunção de inocência e a todas as outras considerações que nos indignaria se nos fossem retiradas.


Julgar um indivíduo pelo comportamento de outros de um todo a que ele pertence é racismo, ponto final. Entre os portugueses há muitos defeitos, mas eu quero ser avaliado pelos meus defeitos, não pelos de outros portugueses. Entre os brancos há muitos vícios, mas eu exijo ser julgado pelos meus vícios, não pelos de outros brancos. Cada cigano tem o direito de ser visto pelo que ele é, não pelo que outros são, sejam esses um, dez ou noventa por cento do total. Não interessa a percentagem. Totalmente irrelevante.


Diz o ministro francês que coordena estas alarvidades que um em cada cinco roubos na região parisiense é cometido por romenos. E dois ou três dos restantes devem ser por franceses. Corra-se então também com os franceses, que mal não faria à França.


As expulsões de famílias inteiras capitaneadas por Sarkozy, por motivos populistas e eleitoralistas, envergonham a França e a silenciosa Europa. Com a ironia adicional de ser o presidente francês filho de emigrantes húngaros, que tiveram a felicidade de não ser expulsos “in illo tempore”.


Por estas e por outras, passo a passo, de Berlusconi em Sarkozy, de “Front National” em “Vlams Block”, de indignidade em indignidade, a civilização europeia, construída com o labor e o sangue dos nossos anciães, vai deslizando para o fundo. Neste momento, quase irremediavelmente conspurcada, já anda a boiar na água da retrete. Que venha mão justa e piedosa e solte o autoclismo.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Férias II : A economia do tereré

Em Agosto, Porto Covo rodopia à volta do largo pombalino. A qualquer hora, a praça pulula. À noite, regurgita. Uma rua pedestre, cuspida na direcção do mar, ladeada de lojas e restaurantes, funciona como uma excrescência do largo. As pessoas abandonam a mole compacta que se afunila entre as quatro paredes do largo e descem a rua, empurrando à sua frente carrinhos de bebé ou barrigas de cerveja, arrastando atrás cães modorrentos ou petizes eléctricos, e depois voltam a subir a rua atraídas para a massa humana por forças mórbidas ou gravíticas, possivelmente ambas.

O largo à noite prova que o “horror vacui” aristotélico funciona e recomenda-se.

Na sua pequena geometria quadrada, oferece dois restaurantes, dois bares, uma pastelaria, uma geladaria, duas lojas de inutilidades baratas e uma loja de inutilidades caras, não contando a igrejinha.

No recanto sudoeste, a pastelaria conhecida por “o 31”, a mais célebre da terra, posiciona-se em segmento alto. Com uma decoração naquele rústico de decorador, produtos de alguma qualidade, empregadas de batinha e uma limpeza cromada que faria as delícias da ASAE, diferenciou-se já nos anos oitenta. Atraiu assim os tiozecos e as tiazocas de cidade, que aborriam a genuinidade das tabernas escuras, onde a bica ladeava com bagaços e petiscos petiscados com palitos de aspecto duvidoso, onde o bru-á-á suburbano em férias dava lugar a histórias da terra em pronúncia inconfundível, ditas de boné diante de um pires de tremoços.

Nas traseiras de uma dessas tabernas, num pátio que servia de armazém e ao qual se acedia por um corredor por trás do balcão, vencendo o cheiro nitroso que exalava das portas entreabertas das casas-de-banho, joguei muitas vezes matraquilhos. Eram uns matrecos à antiga portuguesa, com robustos jogadores de ferro forjado na clássica táctica 2-5-3, equipados à Sporting e à Benfica que o Porto ainda era um Belenenses do norte. Cada equipa tinha um preto no ataque. Os varões negrejavam de óleo e deixavam vergões escuros na roupa, para posterior protesto das mães. Nas cabeceiras, os cinzeiros ostentavam borras de vários cigarros e aí guardávamos as moedas, sem nojo. Metidos cinco paus, puxado o gatilho, a gaveta enchia-se de dose generosa de bolas, de esfericidade variável, da nova redondinha e ainda brilhante ao cubo negro já sem memória da sua circularidade. Este obrigava a jogadas especiais e tendia a parar em sítios de onde se tinha que o deslocar à mão, manobra perigosa da qual resultavam por vezes lesões graves dos dedos. Os bonecos calçavam maçudas patorras de aço, de formato irregular, que proporcionavam fenomenais berlaitadas. O golo directo da defesa era aplaudido, a bola que entrava e voltava a sair da baliza discutida. De vez em quando, no calor da peleja, o esférico voava para fora do estádio em direcção ao infinito, obrigando a demoradas procuras de cu para o ar, até o descobrir entre duas abóboras ou em cima de uma saca de batatas, aos gritos de “tá aqui”.

Que saudades! Hoje esse tasco converteu-se num comedouro asséptico e os matraquilhos desapareceram para sempre. E voltamos assim ao 31, aos tias e às tias que trouxeram outros que não o sendo por alguma panca do demo gostariam de ser e por isso seguem e imitam. Nas noites de Agosto, o 31 parece o comboio de Lahore para Bombaim, onde não cabe um alfinete e os corpos aparentam ir ser cuspidos das portas e das janelas. Para beber um café ou obter uma bola de “stracciatella” num copo de papel, há que tirar senha. Senha! Senha como na loja do cidadão, para pedir o passaporte ou activar a Via Verde! E as pessoas tiram e esperam ovina e asininamente minutos muito largos pelo buzinar do seu vinte-e-oooooito ou quarenta-e-trêêêês, que lhes há-de dar acesso a um “croissant” ou a uma imperial! Depois, disputam as mesas. E obtidas as mesas, disputam as cadeiras.

Eu, que passe a imodéstia não sou totalmente parvo, tomo café na geladaria da fachada leste, a trinta metros. Sou servido mal chego e sento-me na mesa que quiser. Não é nenhum segredo bem guardado. A porta vê-se da fila, melhor dizendo do magote, que no 31 aguarda de senha dobrada na mão. Meramente não é tão fino, por isso a gente não vai. Serei porventura menos requintado, mas bebo a bica com mais conforto. Não me apetece sofrer para ser elegante.

Na fachada oeste, tendo percebido que o homem é um animal irracional, o mesmo proprietário do 31 da senha abriu uma marisqueira, um 31 da amêijoa e da casquinha de santola. Não há marcações e os candidatos a comensais esperam e desesperam, rondando a esplanada como malandrins cobiçando um alvo ou acotovelando-se no interior com ar suspicioso, temendo que alguém dê o golpe, pressionando com o olhar os desgraçados que, sentados, apenas quereriam terminar a sua sobremesa em paz. Quando finalmente uma mesa vaga, um rapaz de camisa fardada abre um caderno garatujado e aponta para os felizes contemplados, que se precipitam sobre o cadeirame como afogados sobre um barrote. Confesso, com vergonha, que também já fiz essa triste figurinha. Tenho apenas como desculpa o facto de estar a acompanhar amigos que merecem todo o sacrifício e que pareciam desesperados por trezentas gramas de camarão, vá-se lá saber porquê...

No canto nordeste, um bar orientou-se para uma clientela “Massamá em Ibiza”. Ele são “shots” com nomes pornográficos que se pretendem graciosos, decibéis desproporcionados, cantores ao vivo de má índole e pior voz e até “karaokes”. Os clientes, abundantes de brincos de vidrinho e crista brilhantinada, emborracham-se e depois deliram. Os vizinhos sofrem, acordados. O dono factura. A Câmara vem limpar pela manhã. Como diria o Eça, justa repartição dos trabalhos.

Em certos dias, quem chegar ao largo notará uma maior concentração de pessoas em frente à igreja, olhando na direcção da porta. Não será devoção: no lajeado que faz as vezes de adro, um suposto artista exibe a sua arte, um chapéu invertido no chão esperando a generosidade dos mecenas a banhos. Por regra números fraquinhos, com malabarismos à Chapitô e tranças à “rastafari” ou “sketches” sem graça esganiçados em falsete. Apesar da pobreza franciscana das “performances”, ninguém arreda pé, os pescoços esticados em tensões de girafa. Deve fazer parte de um ritual: é de borla, vê-se. Viu-se, aplaude-se. Há quatrocentos anos, analfabetos pagavam com sacrifício para encher o Globe e ver Shakespeare. Aqui, malta com pelo menos nove anos de uma suposta escolaridade gasta minutos preciosos da sua vida a assistir a trampa, sem aparentar remorso. Algo se deve ter passado entretanto.

À volta do fontanário que, cercado de um relvado ralo, marca o centro do largo, a autarquia dispôs pequenas bancas de madeira, ocupadas por “artesãos”. “Hippies” tardios vendem pechisbeque, algum de autoria própria, outro fabricado na China. Desenham-se caricaturas a carvão. As inevitáveis peruanas propõem flautas de Pã andinas e fitas de punho. Pintam-se tatuagens de “henna”, às vezes com espectaculares impactos alergológicos se a tinta estiver marada. Dispõem-se “tee-shirts” com dizeres que se supõem jocosos, mas que afinal são ordinários. Fazem-se tererés no cabelo de crianças e adolescentes.

E eu, ao ver toda aquela gente acotovelando-se entre os cuspidores de fogo da igreja e os vendedores da pacotilha, endomingada após o duche das sete, palmilhando acima e abaixo e ao redor, estourando a magreza do subsídio de férias nos restaurantes onde fizeram fila para comer uma massada de peixe infame para o que pagaram ou dormitando de pé, de senha em punho, à espera de uma bica no 31, ou deitando para o chão os copos de plástico que cedo de manhã as mulheres da câmara virão limpar pagas com um dinheiro que já não temos, eu, quando vejo tudo isto, lembro-me de alguém. Sabem quem? Portugal. Olha, olha: Eça outra vez…

quinta-feira, agosto 26, 2010

Férias I : O segundo princípio da termodinâmica

Faz uns anos, adquiri no castelo de Santiago do Cacém uma pequena monografia da Real Sociedade Arqueológica Lusitana, grémio mais que centenário, da autoria de um António Martins Quaresma, intitulada “Porto Covo – um exemplo de urbanismo das Luzes”.


Por ela descobri que Porto Covo, onde há mais de vinte anos veraneio, é das poucas terras portuguesas que nasce da ideia de um homem, Jacinto Fernandes Bandeira, plebeu ligado ao Marquês de Pombal que no final do século XVIII principia uma povoação num lugarejo que continha apenas quatro fogos. Jacinto Bandeira mandou desenhar um plano para a nova aldeia, com uma traça rectilínea entre duas praças principais, uma das quais corresponde ao actual Largo, com projectos de equipamentos sociais em localizações pré-definidas, numa organização racional típica do modo iluminista de pensar da época. Em 1805, Jacinto Bandeira recebe da Coroa o título de Barão de Porto Covo. Numa curiosa injustiça, existe apenas hoje na terra uma rua Conde Bandeira, homenageando um sobrinho e não o fundador.


O Porto Covo que se desenvolveu posteriormente só em parte cumpriu as intenções que o arquitecto Henrique Guilherme de Oliveira deixou estabelecidas nas plantas que hoje repousam na Torre do Tombo. Mas ainda assim a aldeia que eu conheci nos anos oitenta, aí pela altura da malfadada canção do Rui Veloso, mantinha uma coerência e uma graça muito particulares, com o seu casario branco tarjado de azul escorrendo até à arriba em perfeito alinhamento.


Hoje, um estudo arquitectónico sobre Porto Covo teria forçosamente que se chamar “um exemplo do urbanismo das trevas”. A área a construir decuplicará o tamanho natural da terra, estoirando a capacidade das praias e dos comércios que, vivendo do mês de Agosto, não se podem eles expandir. Dois parques de campismo anárquicos garantem ruas entupidas e filas na padaria dignas dos melhores tempos romenos de Ceausescu. Há casas de xisto, outras de tijolo à vista, outras, gongóricas e de janelas ovais, com pretensão a missão católica no Novo México. Junto à Praia Grande um paralelipípedo de betão e vidro, uma Sizada, cercado de estacas pintadas de branco. Resumindo, todas as parolices novo-ricas que possam imaginar, com alumínios e cerâmicas. Gruas erguem-se, erguendo condomínios dependurados sobre o alcatrão da estrada, sôfregos por cada metro quadrado. Os lotes ainda vazios acumulam o entulho dos lotes já preenchidos e o lixo que a nossa crónica falta de civismo por lá vai largando. Nos passeios, abandonados pela autarquia, cresce matagal amazónico que obriga o transeunte a andar pelo meio da rua, sujeito à passa dos aceleras que fulminam de Seat Ibiza vermelho, os baixos ribombando junto às almofadas do vidro traseiro.



Um dos erros trágicos da revolução foi a carta de alforria que se deu às autarquias para licenciar. Poder a mais sem contra-poder. Temos hoje um país desfeado e desfigurado, liderado por construtores de meia-tijela, que ganham construindo e portanto destruindo.


Mas que isto assim seja quando nada se faz para contrariar já eu devia saber desde o segundo ano do Técnico, quando tive que empinar que a energia num sistema fechado se ajusta de modo a tornar a entropia tão grande quanto possível, no mais aleatório dos macro-estados.


sábado, julho 24, 2010

Os frequentes

Recomendam as associações de pais aos seus membros que vigiem por onde andam os filhos pela “internet”, porque com facilidade se desemboca em “sites” esquisitos e menos recomendáveis. Pois eu apanhei-me sozinho e assim me aconteceu. Sem saber bem como, fui parar à página da Assembleia da República – que a tem, de pinta modernaça mas velocidade algo lenta e resposta aleatória: os servidores públicos, mesmo quando compostos de circuitos integrados, têm uma relação muito própria com o trabalho.

Serve este intróito para explicar aos “Matareaders” mais suspeitosos por que raio me lembrei eu de ir xeretar no “site” parlamentar. Lá anda o gajo sem nada para fazer, dirão. Mas não: apenas um mero acaso, uma navegadela à deriva no ciberspaço, que ali desembocou. E, como na anedota do alentejano apanhado de calças na mão, já que ali estava…


A primeira coisa que descobri foi que o nosso deputado é um ilustre desconhecido. Aquilo está cheio de malta de quem nunca ninguém ouviu falar. Eu considero-me um tipo razoavelmente informado, leio o jornal todos os dias e papo o noticiário todas as noites. Embora já me vão dando umas brancas, gabo-me de razoável memória. Pois corri o rol dos 230 tribunos e há 167, ou seja 73%, sobre os quais eu nunca ouvi a mais leve referência ou a mais obscura notícia, nem bem, nem mal, nem na quarta fila, nem mais gordos, nada. São nomes que me dizem tanto quanto a lista de suplentes do Sintrense num embate contra o Samora Correia.

Se querem prova do que vos conto, dêem-se a este exercício: Mariana Aiveca, Lucinda Biscoito, Bravo Nico, Paulo Pisco, Antonino Chuta, Marta Copinha. Três deles são deputados da nação. Os outros nomes acabei de inventar. Adivinhem quais e mandem-me uma mensagem que eu dou-vos um doce na volta do correio, se tiverem acertado.

Detalhando a mesma análise por partidos, constato que há 27 conhecidos do PS (28% da bancada), 18 do PSD (18%), 6 do CDS (29%), 6 do Bloco (38%), 5 do PCP (38%) e uma do Partido Ecológico Os Verdes, com o inolvidável e muito arcádio nome de Heloísa Apolinária, que constitui só por si metade do casal parlamentar deste partido tantas vezes injustamente esquecido. As mais altas taxas de notoriedade do Bloco e do PCP podem-se explicar em parte por uma maior militância e por outro lado por eles fazerem como as equipas de hóquei no gelo, que de vez em quando trocam todos a meio do jogo menos o guarda-redes.

Mas mesmo destes conhecidos, muitos são-no por razões que não têm um courato a ver com a sua actividade parlamentar. São exemplos o Afonso Candal (por ser filho do Candal pai), o Arménio Santos (por liderar a discreta tendência social-democrata da UGT), o António Preto (por umas notícias foleiras que vieram nos jornais), o Fernando Negrão (por ter chefiado a judite), a Inês de Medeiros (entra em filmes, dos de celulóide), a Isabel Neto (médica que tratou o meu pai), a Manuela de Melo (foi locutora da RTP Porto), a Maria Rosário Carneiro (por ter dez filhos, se não me falha o conto), o Marques Júnior (militar de Abril), o Mendes Bota (organiza todos os anos no Algarve uma festa que dá no telejornal) ou o Ricardo Rodrigues (gamou os gravadores a uns jornalistas ou foi forçado a contragosto a enfiá-los no bolso, consoante a versão venha da oposição ou do PS). E mais uns antigos ministros agora discretamente refundidos e alguma gente que aparece nos frente-a-frente da SIC Notícias. Tudo somado, sobram muito poucos deputados cuja fama venha de deputarem.

Que fazia esta malta na vida, antes de aterrar no hemiciclo? Nada menos que 80, ou seja 35% do total, são formados em Direito, o que pode explicar muita coisa sobre o torto estado da nação. Economistas constam 25, com a missão de explicar o descalabro. Há quatro médicos, duas farmacêuticas, um dentista e duas enfermeiras. Dava para montar uma pequena clínica. Mas só dois psicólogos, número manifestamente insuficiente para tratar tão alargada clientela. Engenheiros são 16, um dos quais de Minas, que encontrou finalmente um buraco onde se enfiar, mas só dois de Mecânica (a verdadeira fina-flor da nação). Pena! Filósofos temos sete, meio desapontados por na Assembleia, ao contrário da Academia, também entrar quem não é geómetra: antropólogos, sociólogos, agrónomos, biólogos, um geólogo à cata de pedra (deve ser do Bloco), um arquitecto, um silvicultor, três professores de ginástica, quatro geógrafos, nove filólogos e muita malta daqueles cursos manhosos: gestão da comunicação, estudos europeus, serviço social e quejandos. Para guardar este rebanho todo, um único tropa, o supra-citado Marques Júnior.

Catorze deputados não possuem curso superior. Apenas 6% a representar os mais de quatro quintos de portugueses nas mesmas circunstâncias. Nota-se aqui algum enviesamento na representação do povo.

Na verdade, isto são mais habilitações académicas do que carreiras. Sobre percursos profissionais, pouco conseguimos descobrir. Há um imbecil, um dos 80 com uma licença para advogar, que assinala como profissão “jurisconsulto”. Cagão! Nem deve saber o sentido da palavra, que eu lhe recomendo que verifique num dicionário de jeito. Era como se um dos engenheiros pusesse como profissão “génio da ciência”. Uma das nossas deputadas indica como profissão “autora”. Assim, sem vergonha. Só não sabemos se de obras, se dos dias de alguém. Temos felizmente, nas antípodas destes maus exemplos, pessoas como Jerónimo de Sousa, um senhor, que assinala que exerceu o mester de “afinador de máquinas”. Ficamos a saber que se aplicou em trabalho honrado, enquanto de muitos dos outros paira a sensação – lida nas entrelinhas e no currículo partidário – que se foram baldeando de sinecura em sinecura.


Mas o que mais acabou por me impressionar neste breve passeio pelo mundo dos nossos parlamentares foi que 51 deles, 22%, sentiram uma necessidade parva de inscrever como credenciais académicas a frequência de cursos que não terminaram. Tenho para mim que o que se começa acaba-se. Poderão ter ocorrido circunstâncias extraordinárias, que não falta de persistência, que impediram um ou outro de concluir o iniciado. Certamente não o caso de todos. Por isto, parece-me extraordinário que, em vez de demonstrarem algum embaraço pelo falhanço, o publicitem no currículo como se aquela frequência de um mestrado qualquer em gestão de folhas de couve lhes trouxesse aura de sapiência ou laivos de estatuto. É uma atitude que revela o carácter. Em que uma serôdia necessidade de aparência os impele para o abanar fútil de um canudo incompleto, que lhes fica no meio do currículo com o mesmo ar bacoco de um anão de loiça no centro do que poderia ser um jardim honesto.

Serão eles assim em tudo? Gabar-se-ão sempre daquilo que não conseguiram levar a cabo? Imagino dois deles num recanto de um bar, em conversa de saias:

- Então? Que tal o jantar com Beltrana?
- Óptimo! Depois fomos para casa dela e a coisa proporcionou-se…
- Grande leão!
- Bem na realidade não consegui euh… consumar… sabes: tinha já bebido uns copitos!
- Ah! Entendo.
- Mas frequentei! Já cá conta na lista!
- Claro! Também é importante!

Se calhar não leram o “Os Maias”, mas frequentaram no liceu, nas páginas que a professora indicava. Provavelmente frequentaram uma carreira profissional, que deixaram antes do meio por causa do “trabalho político”, por acaso uma das principais justificações para as faltas justificadas dos nossos tribunos, cuja análise também pode ser feita no “site”. Análise que nos permitiria concluir que ser eleito põe em perigo a saúde. Os deputados adoecem em média muitos mais que o pessoal no meu emprego e às vezes padecem à terça e à quinta, só com um dia de saúde pelo meio.

Podíamos pois chamar-lhes “os frequentes”. Frequentam. Têm frequência de…

E infeliz e frequentemente, esses (que são demais) apenas frequentam o lugar para que foram eleitos, sem o levar às últimas consequências. Por isso passam ao de leve e incógnitos, meramente frequentando, como suplentes de alguma comissão de especialidade, levantando o braço ovinamente quando o líder da bancada assim o manda. Nunca correndo o risco de por arrufo de consciência poderem perder um lugar elegível nas eleições que se seguem.

Não percebem que no seu currículo, melhor que a frequência de umas inconsequentes cadeiras de primeiro ano, ficaria a constatação de que votaram sempre pela sua cabeça e por quem os elegeu, mesmo quando tiveram que mandar a disciplina partidária às malvas.

quinta-feira, julho 08, 2010

A carne para canhão

Durante o fim-de-semana que passou (mais depressa do que eu queria), entre mergulhos no tanque onde o termómetro flutuante ia ostentando uns 29 Celsius bem satisfatórios, encetei a leitura de “A Argélia argelina”, um livro de Jean Lacouture sobre o processo de independência daquele país. Reúno muitas vezes com argelinos por osso de ofício e pouco conhecia sobre a sua história. Nem tarde, nem cedo, foi desta, à torreira dos 38 que esbraseavam a serrania alentejana.


Ainda não acabei o volume, mas já fui aprendendo umas coisas que para mim são de utilidade muita relativa mas que para outros poderiam dar algum jeito: por exemplo àqueles que ainda hoje se aventuram na aventura colonizadora.


A França ocupou a Argélia em 1830, terminava o reinado de Carlos X. Até ao final do mono-império de Napoleão III, a política oficial para a colónia oscilou entre uma tutela teoricamente benevolente delegando alguns poderes nos locais e grandes e deliberados ensaios de porrada. Pelo meio foram espoliando terras e trazendo colonos. Contas feitas, estima-se que entre 1830 e 1872 um argelino em cada três morreu de morte violenta, epidemia ou fome, tudo brilhantemente patrocinado pelo humanismo gaulês. Compreende-se que ainda hoje os tipos não gostem deles.


À medida que o tempo passou, que a França perdeu potência e que as condições políticas mundiais se tornaram pouco afáveis para os colonizadores, o problema foi-se complicando. Desde a metrópole, a política oscilava entre uma visão integradora que preconizava que a Argélia fosse parte do território nacional, o que acarretava a chatice de ter que dar aos indígenas os mesmos direitos e voto nas matérias e tudo o mais e outra que a definia como colónia a manter “manu militari”. No local, a tendência era para não ligar puto aos telegramas de Paris. A influência conservadora dos colonos, que tinham tudo a perder (e que acreditavam no “status quo” eterno), e a rédea solta dos militares impediam qualquer actuação que fosse favorável à autonomia, à independência ou mesmo a alguma justiça para a arabiada.


Do lado dos argelinos, uma elite pensante foi-se desenvolvendo e dividindo entre os que preconizavam uma via reformista, de lenta aquisição de direitos, de uma Argélia argelina dentro de uma França amiga, e os que preconizavam a acção directa e violenta para uma separação total entre povos que tinham apenas em comum os metros quadrados que pisavam. A tendência francesa foi a de perseguir uns e outros.


A seguir à guerra mundial, a situação agudizou-se após os massacres de Constantine, em Maio de 1945, quando cerca de uma centena de colonos foram mortos por extremistas argelinos e a reacção francesa foi completamente desproporcionada: estimam-se quinze mil mortos. Quando no final dos anos quarenta os franceses foram à procura dos moderados argelinos para falar, já não os encontraram. Só a guerra e a independência estavam em cima da mesa. O confronto armado, uma guerra suja de parte a parte, começou em 1954 e os franciús fecharam discretamente a sua loja colonial em 19 de Março de 1962. Quanto aos colonos, piraram-se em massa para o outro lado do Mediterrâneo, às centenas de milhar, muitos com uma mão à frente e outra atrás. Afinal, aquele peito todo não lhes serviu de muito.


Ao ler este pedaço de tempo passado, não me pude impedir de fazer um paralelo com a situação dos colonatos que Israel vai alegremente estabelecendo pelos territórios palestinos da vizinhança, aproveitando o facto de não se lhe aplicarem as resoluções da ONU que se lhe aplicam. O uso da força, o sentimento de superioridade, a criação de uma massa de colonos como força de bloqueio, a hesitação entre o discurso da integração e o da divisão, tudo parece tirado a papel químico.


O que o governo israelita está a fazer àquela gente, à sua gente, raia a indecência. É pô-la do lado errado da História onde será fatalmente atropelada, mais cedo ou mais tarde. Se não ela, os seus filhos ou netos. A força pode aguentar a situação dez, vinte, cinquenta, cem anos, mas um dia fraqueja. Depois vai tudo a eito como foi na Argélia. E aí, tarde demais, vão perceber que os usaram como carne para canhão.


As situações meta-estáveis têm destas coisas: um dia, de repente, instabilizam mesmo.

segunda-feira, julho 05, 2010

Disclaimer on orthographic obsolescence

Parece que arrancou final e oficialmente a aplicação do acordo ortográfico e por esses jornais e revistas fora houve muita consoante que perdeu o pio de vez.

Pois aqui no Mataspeak vai ficar tudo na mesmíssima: burro velho não aprende línguas e eu já qualifico nas duas categorias.

O fim-de-semana...

Los mosquitos - pégasos del rocío -
vuelan, el aire en calma.
La Penélope inmensa de la luz
teje una noche clara.

Federico Garcia Lorca, in "Se ha puesto el sol"


... que me andava a fazer falta, no fundo do Alentejo profundo.


Com fogo,

Água,

Terra,


E ar, entre outras.







sábado, junho 12, 2010

Uma senhora


Hoje calha-me dizer bem. Para variar.


Escrevi aqui há tempos que não há actualmente em Portugal classe mais reles que a dos jornalistas. Mantenho. Mas dificilmente se generaliza sem se ser injusto, por vezes tremendamente. Encontram-se excepções. Existirão taxistas polidos, autarcas sem rotundas e benfiquistas com uma orientação sexual tradicional.


Exceptuando então, venho falar-vos de uma enorme jornalista.


Acabei de ler dois trabalhos de Alexandra Lucas Coelho no Público de ontem, escritos na África do Sul. Uma pequena crónica sobre Neil Aggett, um jovem médico branco que no fim dos anos setenta foi trabalhar para um hospital de negros no Soweto, se tornou activista e morreu sob tortura nas prisões do regime segregacionista com vinte e oito anos apenas. Cuja existência eu desconhecia e cujo exemplo em boa hora ela reavivou. E uma reportagem mais extensa sobre a baixa de Joanesburgo, uma área pesada e violenta, outrora nobre mas hoje desertada pelos brancos e pelos bancos.


Enquanto as notícias que as dúzias de enviados especiais ao Mundial nos remetem hoje em dia desde a África do Sul se resumem integralmente a banalidades ao som de vuvuzelas, ilustradas por imagens gravadas em restaurantes de madeirenses, com orgasmos ligeiros sempre que avistam uma bandeira das quinas nalgum recanto e hossanas à popularidade dos portugueses por esse mundo fora, Alexandra Lucas Coelho procura a memória do que foi um país dividido pelo ódio, um ódio função da concentração na derme de uma molécula chamada melanina, um ódio que expulsou o advogado Gandhi do comboio por ter melanina a mais.


Enquanto a curiosidade dos assim chamados repórteres da SIC e da RTP se foca no “fait-divers” dos mil e quinhentos euros roubados nos quartos de jogadores gregos, que lhes devem fazer uma falta danada, ou se resume a entrevistar mexicanos de sombrero a garantir que o México vai ganhar e ingleses de bojeca em pulso a augurar a vitória da Inglaterra, Alexandra Lucas Coelho procura, em bairros em que outros teriam medo de entrar, a essência do país que sucedeu ao “apartheid”.


Comecei a acompanhar os seus escritos quando ela foi residir para Israel, onde é correspondente do jornal Público. As suas notícias sobre acontecimentos políticos notórios têm rigor, eficácia, perspectiva, um visível conhecimento dos meandros da política local, enfim, aquilo que se espera de um correspondente que se veja. Mas onde ela excele é nas suas crónicas sobre as pessoas, a vida, os dois lados de um mundo dividido por muros de betão e de inimizade. Num canto do planeta em que com facilidade se pode deslizar para o sectarismo, Alexandra Lucas Coelho parece imune. Com pinceladas de forte humanidade, em momentos de guerra ou nos intervalos de paz, descreve-nos o que vê de parte e doutra: pessoas, com sentimentos, com dores, com raivas, com alegrias e com esperanças. Com ela, a máxima de Protágoras torna-se um programa de acção: o homem é a medida de todas as coisas. Fá-lo com árabes e judeus, israelitas ou palestinianos, de forma equilibrada mas não sem tomar partido, que o jornalismo não tem que ser asséptico. O partido que toma é o da verdade e da decência, da simpatia pela liberdade e da repulsa pela opressão. E consegue-o de uma forma suave, sem maniqueísmos, plena de respeito, dando-se como um espelho que reflecte a realidade, diferente, de diferente gente.


Alexandra Lucas Coelho possui outra virtude que vai rareando na imprensa que leio e mesmo na que ouço. Trata muito bem o português. Hoje, pega-se num jornal ou ouve-se um noticiário e leva-se com um arrazoado de anglicismos, fruto das traduções apressadas dos despachos da Reuters, onde a concordância do sujeito com o verbo é uma feliz coincidência e não mais uma obrigatoriedade natural. Quem não ouviu já na rádio que as acções da PT seguem a subir? Seguem? Para onde? Para Espanha, se calhar, de onde veio esse castelhanismo que infectou o jornalismo económico. Às vezes, vendo o que esses marrecos escrevinham, parece inacreditável que fulanos como Hemingway, Camus ou o próprio Eça tenham partilhado a mesma profissão. Mas com ela não. Dá gosto ler. Usa uma escrita depurada, figurativa, nada pretensiosa, factual mas tantas vezes tocante.


Conheci muito brevemente Alexandra Lucas Coelho há uns anos, numa festa de aniversário de uma amiga comum, passada num fim-de-semana na Quinta da Matinha, um turismo rural isolado na serra alentejana junto ao Cercal, onde o céu estrelado não consente que o nosso olhar desça e onde o Alfredo nos mima com esperadas e inesperadas proezas gastronómicas. Tenho uma memória leve de uma pessoa simples e discreta, nas antípodas do espalhafatoso que caracteriza alguns escribas menores da praça. O que aumenta ainda mais a minha admiração por alguém que tranquilamente nos traz histórias de sítios em que muitos de nós recearíamos viver ou meramente passear.


Nos dois artigos sobre a África do Sul que lhe li ontem, sem que tal alguma vez seja referido explicitamente, percebe-se que o “apartheid” não morreu ainda, modificou-se apenas. Já não manda, mas ainda reina um bocadinho, como é normal na sequência de longas ditaduras. Com o salazarismo passa-se o mesmo. O caminho a percorrer pelos sul-africanos tem pois muita quilometragem pela frente, mas vale a pena ser percorrido. No último parágrafo da sua crónica sobre Neil Aggett, Alexandra relembra a frase que está gravada à saída do Museu do Apartheid: “Pense no que aconteceu e no que virá. E depois saia em liberdade.” Muito bem escolhida.



Nota - Não sei quanto tempo estará “on-line”, mas eis o “link” para um dos artigos referidos:


http://jornal.publico.pt/noticia/11-06-2010/quem-tem-medo--da-baixa-de-joanesburgo-19582722.htm

domingo, junho 06, 2010

Isto ainda vai ser engraçado…

Na sexta saiu no Público um artigo sobre a presente crise de Joschka Fisher, ex-dirigente dos Verdes alemães e ex-ministro dos negócios estrangeiros do governo Schroeder. O escrito de Fischer é muito interessante por abordar a situação que vivemos numa óptica essencialmente política e histórica, muito diferente da histeria microeconómica e microcéfala que nos tem sido servida em doses cavalares nos jornais, na têvê e nas declarações de quem está encarregue de mandar nisto.

Fischer faz notar que há sessenta anos uma crise destas teria o potencial de gerar uma guerra mundial, coisa que hoje, com o equilíbrio do terror nuclear e a maior afluência das sociedades ocidentais, será muito menos provável. Mas tal não impede que a situação gere tensões sociais que são potencialmente transformadoras, isto se não quisermos usar um termo mais conotado, por exemplo “perigosas”. Fischer inquieta-se também com o facto de os actuais dirigentes mundiais ainda não terem percebido o que está em jogo – concordo – e alerta para que nos preocupemos sobre onde se irão precipitar as “energias libertadas por esta crise”, porque, como ele diz, “não há dúvida que elas vão descarregar-se em algum lado”. Fischer não sabe bem onde, mas pelo menos sabe História, virtude que não possuem os arautos da desgraça que hoje pululam na esfera mediática e de que são exemplos acabados o Roubini, a nível internacional, e o João Duque, para consumo interno.

Estes são apenas dois de muitos, porque esta crise não se limita a económica e financeira: também é uma crise de continência verbal. Não há pixote que não queira botar faladura. O Roubini, até recentemente obscuro professor universitário em Nova Iorque, tornou-se célebre por aparentemente ter previsto a derrocada do “sub-prime” de 2008. Não causa grande admiração: os académicos económicos em todo o mundo vão produzindo “papers” para subir na carreira onde prevêem tudo e mais alguma coisa, com igual incerteza. Há sempre a possibilidade de algum coincidir com a realidade, exactamente pela mesma razão que há gente a quem sai o Euromilhões: por paia. Só que agora não há quem o cale. Roubini consegue dizer em dois dias seguidos uma coisa e o seu contrário, com igual desfaçatez e impacto nos jornais e nas cotações. Querem um exemplo: numa segunda, o plano europeu para a Grécia deverá chegar para aguentar o euro; na terça pode já não ser suficiente. Que se passou no mundo entretanto que justifique a diferença? Nada. Talvez meramente a Sra. Roubini estivesse indisposta e indisponível, e vai daí as bolsas ressentem-se.

O João Duque (Prof.) é uma versão portuguesa mais mirrada e satisfeitinha. Anuncia catástrofes com um sorriso meio pouco másculo, julgando-se imune à porrada que vem aí e mostrando-se contente por aparecer num ecrã. Que eu saiba, nem acertou nenhuma previsão de relevo.

Como uma desgraça nunca vem só, são ambos feios como a noite dos trovões, o que acrescenta ao tétrico das suas intervenções. Para quando uma “guru” da Economia que se pareça com a rapariga do anúncio da Calzedonia que invadiu agora os “outdoors” de Lisboa, tornando o minuto de espera no sinal vermelho uma experiência inebriante? Essa podia anunciar o fim da humanidade que todos ouviríamos com um sorriso.


Mas voltando a assuntos sérios, o aviso de Fischer tem muita razão de ser. As grandes transformações da História nascem de uma pluralidade de factores. Quase sempre um deles foi uma tensão social com origem em dificuldades económicas que depois entroncaram em componentes nacionalistas, religiosas, ideológicas, de luta de classes, etc., catalizando o rasgo histórico.

Na origem da Revolução Francesa podemos encontrar uma posição das finanças públicas ao lado da qual a actual situação grega até não fazia má figura. Em 1781, quando Necker, director-geral das finanças, cometeu o deslize de divulgar publicamente o orçamento da coroa, as receitas limitavam-se a 503 milhões de libras para 620 de despesas, sendo exactamente metade destas para serviço da dívida. Por outro lado, mais de cinco por cento da despesa destinava-se a festas e pensões a membros da corte, facto que não caiu muito bem entre a população. Ainda assim, as escassas receitas resultavam de uma carga fiscal iníqua e sucessivamente agravada ao longo do século XVIII, já que o desequilíbrio das contas do Estado tinha um carácter crónico. Durante a década de 1780, a coroa encontrou uma oposição crescente à introdução de reformas fiscais que aumentassem os impostos, mesmo entre as classes mais abastadas. Note-se que a Luís XVI também não lhe passou pela cabeça reduzir a despesa. Em 1788, a agitação em Grenoble chegou a um ponto tal que as tropas foram enviadas para restabelecer a ordem. Os habitantes receberam-nas com projecções de telhas do alto das casas, levando os soldados com elas no alto da telha. Na sequência desta “jornada das telhas”, a nobreza, o clero e o povo da região do Dauphiné reuniram e declaram greve aos impostos. Teso e incapaz de pôr cobro à desordem que crescia no reino, o rei não teve outro remédio senão convocar os Estados Gerais para o dia 1 de Maio de 1789. O resto já se sabe: começa na Bastilha e acaba em Waterloo.

Na Revolução Inglesa os factores sociais e religiosos terão possivelmente preponderância, mas a componente económica também lá está. O rei Carlos I passou a década de 1630 à rasca de finanças, tentando dar a volta permanentemente com legislação fiscal extra-parlamentar que causava repúdio e foi acrescendo às tensões sociais que a questão religiosa motivava em Inglaterra. A partir de 1639, após tentar forçar a sua política religiosa sobre a Igreja Escocesa, os homens de “kilt” rebelaram-se e invadiram a Inglaterra. Carlos I foi pedir dinheiro ao Parlamento para reprimir a revolta, só que os parlamentares aproveitaram para apresentar uma lista de reclamações sobre a conduta real. O soberano não gostou, dissolveu o Parlamento e foi à guerra sozinho, mas a coisa correu-lhe mal: a dado momento tinha todo o norte de Inglaterra ocupado pelos escoceses, que lhe começaram a cobrar 850 libras por dia para não vir mais para sul (ao fim e ao cabo, eram escoceses), montante que se veio adicionar ao custo dos exércitos ingleses. Completamente à míngua, Carlos I acabou por convocar um novo parlamento em Novembro de 1640. Este revelou-se ainda mais hostil para com o rei, impedindo-o nomeadamente de promulgar novos impostos sem a sua autorização. Para ganhar umas massas, o monarca atribui contratos de drenagem de terras alagadiças nos “Fens”, no leste de Inglaterra. O impacto negativo destes trabalhos sobre a vida da população local causou muita indignação, atraindo grande parte do leste de Inglaterra para a facção parlamentar na disputa cada vez mais aberta que a opunha ao rei. Uma das pessoas que foi levada a tomar partido por causa desta situação de injustiça foi Oliver Cromwell. No rescaldo das guerras civis que sucederam, Carlos I foi decapitado em 1649, em frente à Casa de Banquetes de Whitehall e Cromwell governou o Reino Unido até à sua morte em 1658.

A nossa revolução de 1383 teria sido igual se a crise dinástica não tivesse ocorrido num cenário de crise económica, resultante do descontrolo financeiro de D. Fernando na sua guerra com Castela? Teria havido o mesmo papel activamente interveniente da burguesia urbana no apoio a um bastardo, o futuro D. João I? Fernão Lopes, nas suas crónicas sobre D. Fernando, fala dos “males que recebeu o Reino”, males que “os povos depois muito sentiram”. Esses males foram o desbaratar das reservas de moeda, primeiro, e depois “o gasto de grande multidão de prata com a mudança das moedas para satisfazer as grandes despesas de soldos e pagar cousas necessárias à guerra. Por causa disto as cousas subiram depois a tamanhos e tão loucos preços que el-rei foi obrigado a pôr a todas almotaçaria e a mudar o valor que ao princípio pusera a tais moedas”. Nos nossos dias, diríamos que D. Fernando pôs-se a criar moeda, originou uma espiral inflacionária e a seguir viu-se obrigado a intervir com controlos administrativos de preços (a tal almotaçaria). Conseguimos imaginar o impacto quer de uma coisa quer doutra sobre a vida das pessoas na época.

Num último exemplo, poderíamos lembrar o efeito decisivo que a crise de 1929 teve no destroçar da República de Weimar, abrindo as portas à ascensão do nazismo. O pessoal devia estar mesmo por tudo.


O que Joschka Fisher nos rememora, no seu artigo, é que a História não terminou, por muito que a miopia dos nossos dirigentes o proclame. Os casos acima descritos de forma simplista demonstram que crises económicas profundas podem propiciar as condições sociais para que os acontecimentos evoluam de uma maneira e não de outra, às vezes num sentido dramático. Fischer acha que simplesmente não se pode pôr um continente inteiro a apertar loucamente o cinto sem consequências sérias. Corre o risco de acertar.

Se os governos não perceberem a tempo o perigo que supõe o avolumar de tensões sociais trazidos pelo desemprego, pela diminuição das prestações sociais, pela incerteza do amanhã, pelo sentimento que a situação aproveita a uns poucos em prejuízo de muitos, vão se calhar ter um lindo enterro. Isto já para não falar do banzé que seria um descalabro financeiro sério, como por exemplo o que resultaria do desmembramento do Euro. Porque essas tensões, se não se fizer nada para que esmoreçam, hão-de ir parar a qualquer lado, se calhar a barricadas. E então passaremos momentos mesmo difíceis, embora porventura clarificadores.

A única consolação que então talvez venhamos a ter será a de ver nessas barricadas a cabeça do Roubini e de mais alguns “gurus” de pacotilha, espetadas num pau e a rapariga da Calzedonia, de seio descoberto e barrete frígio, a liderar o povo em fúria. As revoluções, mau grado o lado caótico, também têm a sua justiça e a sua beleza.

sábado, junho 05, 2010

Exposição fotográfica (XXIII)

Neste feriado fui passear ao fim da tarde para o parque Eduardo VII. Os jacarandás estão em flor.





As publicidades também.


Na rotunda, preparava-se o palco para um piquenique popular. Patrocina o Belmiro, canta o Tony Carreira, a Selecção é pau para toda a obra


O pessoal dos andaimes vai-se equilibrando.



Autocarro de passagem, com câmara em movimento. Não saíu mal...


Reflexo na fachada do Tiara, antigo Méridien

Estado da nação

Conto pronunciar-me sobre este assunto um dia destes, porque a crise bate forte. Enquanto não, cedo momentaneamente o Mataspeak a Manuel João Vieira, para o seu ferino e sagaz diagnóstico:

Temos táxis e hotéis
Temos pontes e bordéis
Temos ceguinhos e trutas
E bolachas ararutas
Temos castelos nos montes
Temos tractores e fontes
Temos incineradoras
Temos morenas e louras
Temos muita insegurança
E emigrantes em França
Temos o 13 de Maio
Temos queijo e temos paio
Temos o céu sempre azul
Temos São Pedro do Sul
Temos o rei que não é
Lavamo-nos no bidé
Deputados às dezenas
Contas bancárias pequenas
As pinturas do Malhoa
E as gravuras de Foz Côa
Temos Lisboa e o Porto
Temos o não do aborto
Temos marcas importadas
Cidades degradadas
E prisões superlotadas
Temos cada vez mais estradas
Muito mal pavimentadas
Lixeiras a céu aberto
E meio pais deserto
Temos muitos tubarões
E buracos de milhões
Portugal alcatifado
Bebe vinho e canta o fado

O tempo maleável

“Time is a funny thing. Time is a very peculiar item. You see when you're young, you're a kid, you got time, you got nothing but time. Throw away a couple of years, a couple of years there... it doesn't matter. You know. The older you get you say, "Jesus, how much I got? I got thirty-five summers left." Think about it. Thirty-five summers.”


Fala em “off” de Benny, dita por Tom Waits, in “Rumble Fish” de Francis Ford Coppola



Recordo o tempo em que, ainda os meus dezoito anos vinham a alguma distância, o tempo me parecia um caminho sem fim. Vogando entre uma consciência indiferente e uma inconsciência adormecida, um saber social dizia-me que um dia trabalharia, que talvez viesse a ter filhos e que fatalmente morreria, se possível de velho. Mas tudo isso morava muito para lá da linha do horizonte. O tempo era enorme.


Há duas quintas correram dezoito anos sobre o momento em que por uma porta traseira da maternidade Alfredo da Costa, quase clandestinamente, me vieram mostrar um embrulho que continha um olhar negro, inscrito num crânio ainda ameloado pelo efeito dos fórceps, e cuja co-autoria me pertencia.


Curiosamente, recordo não ter percepcionado novidade naquele momento. Certamente um dos mais marcantes da minha vida, mas senti-o como se fosse o culminar, a extremidade de um segmento de tempo, não um elo isolado que valesse por si próprio mas o último de um processo quase ordenado, de uma cadeia sequencial, feita de expectativas, de sonhos, de preparos, de ânsias, mas que no meu âmago nunca imaginei terminar noutro instante que não naquele.


Senti, por outro lado, uma identidade forte. Como se aquele ser, símbolo e centro daquele momento, me estivesse meramente reencontrando, como um camarada de colégio que desaparece de circulação e com que chocamos acidentalmente ao virar de uma esquina. Como se aquele instante, de uma forma esconsa e que não apreendi ainda muito bem, fosse uma repetição, um retorno, a intercepção de um ciclo infinito com o plano sempre mutante do presente sobre qual vou erraticamente passeando.


Ora estes dezoito anos passaram que nem um fósforo, que nem minutos, voláteis e dramaticamente curtos como os segundos preciosos que sobram para o apito do árbitro quando uma equipa procura o golo que lhe falta. Cá dentro das nossas mentes (pelo menos da minha), há uma frase feita que algo nos sopra ao ouvido do espírito: “parece que foi ontem”. E a nossa razão embarca nessa história mal contada e diz que sim com a cabeça, como se entre o olhar negro inquieto da porta da maternidade e o olhar negro confiante que me olha hoje de cima para baixo apenas houvesse um rasgo no tecido crónico, como se não se tivessem escoado 216 meses, 936 semanas, 6574 dias, 157776 horas e tantos milhões de minutos e segundos que a calculadora até capitulou, acusando erro por “overdose” de dígitos. Muito tempo de facto, mas que cabe todo num hiato de memória entre dois olhares. O tempo é compressível até ao diminuto, quase até ao infinitamente pequeno.


Para o aniversário, quis oferecer um cartão com uma fotografia específica desse tempo longínquo, uma memória forte simultaneamente em papel e nos estranhos circuitos neuronais que ronronam no interior do meu crânio. Se me recordava bem dela, não me lembrava no entanto onde a pusera e por isso percorri anos de fotos e álbuns, milhares de imagens, desde as marcas dos ferros na cara da primeira hora ao jovem apinocado em fato escuro de há poucos meses. Revelou-se um exercício curioso e inesperado.


Dedilhei por sorrisos já mal lembrados e de dentes ainda anárquicos, pelos gritos atmosféricos das festas de anos, os embrulhos arrancados dos primeiros natais, a ansiedade da marca de partida nos saraus de natação, as pinturas e caraças de Carnaval, as fotografias da praxe com sorrisos de careta diante da torre Eiffel ou do palácio de Buckingham. Vi como eles eram pequenos e frágeis e como nós ficámos mais velhos e frágeis. Lembrei as modas mutantes, nos penteados, nos óculos, nas gravatas, nas sapatilhas, esticando, minguando, frisando, cromatizando. Encontrei também aqui acolá alguns que já cá não estão (fisicamente), outros que não sei por onde andam e que foram tão próximos que pasmei como pôde a vida separar-nos.


Sim, o tempo passou e longo e rico e cheio. E ali estavam apenas os marcos miliares de uma estrada de dezoito anos, subindo e descendo as encostas das nossas vidas. Os marcos são importantes: marcam. Mas entre eles houve que percorrer o lajeado do dia-a-dia, feito de corridas matinais para a porta da escola, dos pequenos sucessos e insucessos, das pequenas alegrias e tristezas, da sucessão dos amigos inseparáveis, da maturação lenta das personalidades, do entrechocar desajeitado dos talheres nos pratos do jantar, do respirar nocturno que como um alívio escutávamos pelas portas entreabertas. Uma existência pletórica, densa, quase espessa, mesmo que todavia mais discreta.


Vendo isto, concluo que afinal o tempo é como os matemáticos o concebem: um troço de recta que por pequeno que seja contem infinitos pontos, tantos quantos os que existem num troço maior ou fora dele. A vida de cada um, à sua maneira, tem a riqueza de todas as que vieram antes e depois.


E com esta cegada toda, assim caíram as folhas de calendário entre os meus vinte e oito de boa memória e os quarenta e seis que agora protestam no meu bilhete de identidade. Se aguentar mais trinta e cinco verões, como dizia o outro, já vai ser uma fezada. E também se forem menos não há azar. Sou um tipo com sorte: de certo modo, já tive todo o tempo do mundo.