sábado, julho 24, 2010

Os frequentes

Recomendam as associações de pais aos seus membros que vigiem por onde andam os filhos pela “internet”, porque com facilidade se desemboca em “sites” esquisitos e menos recomendáveis. Pois eu apanhei-me sozinho e assim me aconteceu. Sem saber bem como, fui parar à página da Assembleia da República – que a tem, de pinta modernaça mas velocidade algo lenta e resposta aleatória: os servidores públicos, mesmo quando compostos de circuitos integrados, têm uma relação muito própria com o trabalho.

Serve este intróito para explicar aos “Matareaders” mais suspeitosos por que raio me lembrei eu de ir xeretar no “site” parlamentar. Lá anda o gajo sem nada para fazer, dirão. Mas não: apenas um mero acaso, uma navegadela à deriva no ciberspaço, que ali desembocou. E, como na anedota do alentejano apanhado de calças na mão, já que ali estava…


A primeira coisa que descobri foi que o nosso deputado é um ilustre desconhecido. Aquilo está cheio de malta de quem nunca ninguém ouviu falar. Eu considero-me um tipo razoavelmente informado, leio o jornal todos os dias e papo o noticiário todas as noites. Embora já me vão dando umas brancas, gabo-me de razoável memória. Pois corri o rol dos 230 tribunos e há 167, ou seja 73%, sobre os quais eu nunca ouvi a mais leve referência ou a mais obscura notícia, nem bem, nem mal, nem na quarta fila, nem mais gordos, nada. São nomes que me dizem tanto quanto a lista de suplentes do Sintrense num embate contra o Samora Correia.

Se querem prova do que vos conto, dêem-se a este exercício: Mariana Aiveca, Lucinda Biscoito, Bravo Nico, Paulo Pisco, Antonino Chuta, Marta Copinha. Três deles são deputados da nação. Os outros nomes acabei de inventar. Adivinhem quais e mandem-me uma mensagem que eu dou-vos um doce na volta do correio, se tiverem acertado.

Detalhando a mesma análise por partidos, constato que há 27 conhecidos do PS (28% da bancada), 18 do PSD (18%), 6 do CDS (29%), 6 do Bloco (38%), 5 do PCP (38%) e uma do Partido Ecológico Os Verdes, com o inolvidável e muito arcádio nome de Heloísa Apolinária, que constitui só por si metade do casal parlamentar deste partido tantas vezes injustamente esquecido. As mais altas taxas de notoriedade do Bloco e do PCP podem-se explicar em parte por uma maior militância e por outro lado por eles fazerem como as equipas de hóquei no gelo, que de vez em quando trocam todos a meio do jogo menos o guarda-redes.

Mas mesmo destes conhecidos, muitos são-no por razões que não têm um courato a ver com a sua actividade parlamentar. São exemplos o Afonso Candal (por ser filho do Candal pai), o Arménio Santos (por liderar a discreta tendência social-democrata da UGT), o António Preto (por umas notícias foleiras que vieram nos jornais), o Fernando Negrão (por ter chefiado a judite), a Inês de Medeiros (entra em filmes, dos de celulóide), a Isabel Neto (médica que tratou o meu pai), a Manuela de Melo (foi locutora da RTP Porto), a Maria Rosário Carneiro (por ter dez filhos, se não me falha o conto), o Marques Júnior (militar de Abril), o Mendes Bota (organiza todos os anos no Algarve uma festa que dá no telejornal) ou o Ricardo Rodrigues (gamou os gravadores a uns jornalistas ou foi forçado a contragosto a enfiá-los no bolso, consoante a versão venha da oposição ou do PS). E mais uns antigos ministros agora discretamente refundidos e alguma gente que aparece nos frente-a-frente da SIC Notícias. Tudo somado, sobram muito poucos deputados cuja fama venha de deputarem.

Que fazia esta malta na vida, antes de aterrar no hemiciclo? Nada menos que 80, ou seja 35% do total, são formados em Direito, o que pode explicar muita coisa sobre o torto estado da nação. Economistas constam 25, com a missão de explicar o descalabro. Há quatro médicos, duas farmacêuticas, um dentista e duas enfermeiras. Dava para montar uma pequena clínica. Mas só dois psicólogos, número manifestamente insuficiente para tratar tão alargada clientela. Engenheiros são 16, um dos quais de Minas, que encontrou finalmente um buraco onde se enfiar, mas só dois de Mecânica (a verdadeira fina-flor da nação). Pena! Filósofos temos sete, meio desapontados por na Assembleia, ao contrário da Academia, também entrar quem não é geómetra: antropólogos, sociólogos, agrónomos, biólogos, um geólogo à cata de pedra (deve ser do Bloco), um arquitecto, um silvicultor, três professores de ginástica, quatro geógrafos, nove filólogos e muita malta daqueles cursos manhosos: gestão da comunicação, estudos europeus, serviço social e quejandos. Para guardar este rebanho todo, um único tropa, o supra-citado Marques Júnior.

Catorze deputados não possuem curso superior. Apenas 6% a representar os mais de quatro quintos de portugueses nas mesmas circunstâncias. Nota-se aqui algum enviesamento na representação do povo.

Na verdade, isto são mais habilitações académicas do que carreiras. Sobre percursos profissionais, pouco conseguimos descobrir. Há um imbecil, um dos 80 com uma licença para advogar, que assinala como profissão “jurisconsulto”. Cagão! Nem deve saber o sentido da palavra, que eu lhe recomendo que verifique num dicionário de jeito. Era como se um dos engenheiros pusesse como profissão “génio da ciência”. Uma das nossas deputadas indica como profissão “autora”. Assim, sem vergonha. Só não sabemos se de obras, se dos dias de alguém. Temos felizmente, nas antípodas destes maus exemplos, pessoas como Jerónimo de Sousa, um senhor, que assinala que exerceu o mester de “afinador de máquinas”. Ficamos a saber que se aplicou em trabalho honrado, enquanto de muitos dos outros paira a sensação – lida nas entrelinhas e no currículo partidário – que se foram baldeando de sinecura em sinecura.


Mas o que mais acabou por me impressionar neste breve passeio pelo mundo dos nossos parlamentares foi que 51 deles, 22%, sentiram uma necessidade parva de inscrever como credenciais académicas a frequência de cursos que não terminaram. Tenho para mim que o que se começa acaba-se. Poderão ter ocorrido circunstâncias extraordinárias, que não falta de persistência, que impediram um ou outro de concluir o iniciado. Certamente não o caso de todos. Por isto, parece-me extraordinário que, em vez de demonstrarem algum embaraço pelo falhanço, o publicitem no currículo como se aquela frequência de um mestrado qualquer em gestão de folhas de couve lhes trouxesse aura de sapiência ou laivos de estatuto. É uma atitude que revela o carácter. Em que uma serôdia necessidade de aparência os impele para o abanar fútil de um canudo incompleto, que lhes fica no meio do currículo com o mesmo ar bacoco de um anão de loiça no centro do que poderia ser um jardim honesto.

Serão eles assim em tudo? Gabar-se-ão sempre daquilo que não conseguiram levar a cabo? Imagino dois deles num recanto de um bar, em conversa de saias:

- Então? Que tal o jantar com Beltrana?
- Óptimo! Depois fomos para casa dela e a coisa proporcionou-se…
- Grande leão!
- Bem na realidade não consegui euh… consumar… sabes: tinha já bebido uns copitos!
- Ah! Entendo.
- Mas frequentei! Já cá conta na lista!
- Claro! Também é importante!

Se calhar não leram o “Os Maias”, mas frequentaram no liceu, nas páginas que a professora indicava. Provavelmente frequentaram uma carreira profissional, que deixaram antes do meio por causa do “trabalho político”, por acaso uma das principais justificações para as faltas justificadas dos nossos tribunos, cuja análise também pode ser feita no “site”. Análise que nos permitiria concluir que ser eleito põe em perigo a saúde. Os deputados adoecem em média muitos mais que o pessoal no meu emprego e às vezes padecem à terça e à quinta, só com um dia de saúde pelo meio.

Podíamos pois chamar-lhes “os frequentes”. Frequentam. Têm frequência de…

E infeliz e frequentemente, esses (que são demais) apenas frequentam o lugar para que foram eleitos, sem o levar às últimas consequências. Por isso passam ao de leve e incógnitos, meramente frequentando, como suplentes de alguma comissão de especialidade, levantando o braço ovinamente quando o líder da bancada assim o manda. Nunca correndo o risco de por arrufo de consciência poderem perder um lugar elegível nas eleições que se seguem.

Não percebem que no seu currículo, melhor que a frequência de umas inconsequentes cadeiras de primeiro ano, ficaria a constatação de que votaram sempre pela sua cabeça e por quem os elegeu, mesmo quando tiveram que mandar a disciplina partidária às malvas.

quinta-feira, julho 08, 2010

A carne para canhão

Durante o fim-de-semana que passou (mais depressa do que eu queria), entre mergulhos no tanque onde o termómetro flutuante ia ostentando uns 29 Celsius bem satisfatórios, encetei a leitura de “A Argélia argelina”, um livro de Jean Lacouture sobre o processo de independência daquele país. Reúno muitas vezes com argelinos por osso de ofício e pouco conhecia sobre a sua história. Nem tarde, nem cedo, foi desta, à torreira dos 38 que esbraseavam a serrania alentejana.


Ainda não acabei o volume, mas já fui aprendendo umas coisas que para mim são de utilidade muita relativa mas que para outros poderiam dar algum jeito: por exemplo àqueles que ainda hoje se aventuram na aventura colonizadora.


A França ocupou a Argélia em 1830, terminava o reinado de Carlos X. Até ao final do mono-império de Napoleão III, a política oficial para a colónia oscilou entre uma tutela teoricamente benevolente delegando alguns poderes nos locais e grandes e deliberados ensaios de porrada. Pelo meio foram espoliando terras e trazendo colonos. Contas feitas, estima-se que entre 1830 e 1872 um argelino em cada três morreu de morte violenta, epidemia ou fome, tudo brilhantemente patrocinado pelo humanismo gaulês. Compreende-se que ainda hoje os tipos não gostem deles.


À medida que o tempo passou, que a França perdeu potência e que as condições políticas mundiais se tornaram pouco afáveis para os colonizadores, o problema foi-se complicando. Desde a metrópole, a política oscilava entre uma visão integradora que preconizava que a Argélia fosse parte do território nacional, o que acarretava a chatice de ter que dar aos indígenas os mesmos direitos e voto nas matérias e tudo o mais e outra que a definia como colónia a manter “manu militari”. No local, a tendência era para não ligar puto aos telegramas de Paris. A influência conservadora dos colonos, que tinham tudo a perder (e que acreditavam no “status quo” eterno), e a rédea solta dos militares impediam qualquer actuação que fosse favorável à autonomia, à independência ou mesmo a alguma justiça para a arabiada.


Do lado dos argelinos, uma elite pensante foi-se desenvolvendo e dividindo entre os que preconizavam uma via reformista, de lenta aquisição de direitos, de uma Argélia argelina dentro de uma França amiga, e os que preconizavam a acção directa e violenta para uma separação total entre povos que tinham apenas em comum os metros quadrados que pisavam. A tendência francesa foi a de perseguir uns e outros.


A seguir à guerra mundial, a situação agudizou-se após os massacres de Constantine, em Maio de 1945, quando cerca de uma centena de colonos foram mortos por extremistas argelinos e a reacção francesa foi completamente desproporcionada: estimam-se quinze mil mortos. Quando no final dos anos quarenta os franceses foram à procura dos moderados argelinos para falar, já não os encontraram. Só a guerra e a independência estavam em cima da mesa. O confronto armado, uma guerra suja de parte a parte, começou em 1954 e os franciús fecharam discretamente a sua loja colonial em 19 de Março de 1962. Quanto aos colonos, piraram-se em massa para o outro lado do Mediterrâneo, às centenas de milhar, muitos com uma mão à frente e outra atrás. Afinal, aquele peito todo não lhes serviu de muito.


Ao ler este pedaço de tempo passado, não me pude impedir de fazer um paralelo com a situação dos colonatos que Israel vai alegremente estabelecendo pelos territórios palestinos da vizinhança, aproveitando o facto de não se lhe aplicarem as resoluções da ONU que se lhe aplicam. O uso da força, o sentimento de superioridade, a criação de uma massa de colonos como força de bloqueio, a hesitação entre o discurso da integração e o da divisão, tudo parece tirado a papel químico.


O que o governo israelita está a fazer àquela gente, à sua gente, raia a indecência. É pô-la do lado errado da História onde será fatalmente atropelada, mais cedo ou mais tarde. Se não ela, os seus filhos ou netos. A força pode aguentar a situação dez, vinte, cinquenta, cem anos, mas um dia fraqueja. Depois vai tudo a eito como foi na Argélia. E aí, tarde demais, vão perceber que os usaram como carne para canhão.


As situações meta-estáveis têm destas coisas: um dia, de repente, instabilizam mesmo.

segunda-feira, julho 05, 2010

Disclaimer on orthographic obsolescence

Parece que arrancou final e oficialmente a aplicação do acordo ortográfico e por esses jornais e revistas fora houve muita consoante que perdeu o pio de vez.

Pois aqui no Mataspeak vai ficar tudo na mesmíssima: burro velho não aprende línguas e eu já qualifico nas duas categorias.

O fim-de-semana...

Los mosquitos - pégasos del rocío -
vuelan, el aire en calma.
La Penélope inmensa de la luz
teje una noche clara.

Federico Garcia Lorca, in "Se ha puesto el sol"


... que me andava a fazer falta, no fundo do Alentejo profundo.


Com fogo,

Água,

Terra,


E ar, entre outras.







sábado, junho 12, 2010

Uma senhora


Hoje calha-me dizer bem. Para variar.


Escrevi aqui há tempos que não há actualmente em Portugal classe mais reles que a dos jornalistas. Mantenho. Mas dificilmente se generaliza sem se ser injusto, por vezes tremendamente. Encontram-se excepções. Existirão taxistas polidos, autarcas sem rotundas e benfiquistas com uma orientação sexual tradicional.


Exceptuando então, venho falar-vos de uma enorme jornalista.


Acabei de ler dois trabalhos de Alexandra Lucas Coelho no Público de ontem, escritos na África do Sul. Uma pequena crónica sobre Neil Aggett, um jovem médico branco que no fim dos anos setenta foi trabalhar para um hospital de negros no Soweto, se tornou activista e morreu sob tortura nas prisões do regime segregacionista com vinte e oito anos apenas. Cuja existência eu desconhecia e cujo exemplo em boa hora ela reavivou. E uma reportagem mais extensa sobre a baixa de Joanesburgo, uma área pesada e violenta, outrora nobre mas hoje desertada pelos brancos e pelos bancos.


Enquanto as notícias que as dúzias de enviados especiais ao Mundial nos remetem hoje em dia desde a África do Sul se resumem integralmente a banalidades ao som de vuvuzelas, ilustradas por imagens gravadas em restaurantes de madeirenses, com orgasmos ligeiros sempre que avistam uma bandeira das quinas nalgum recanto e hossanas à popularidade dos portugueses por esse mundo fora, Alexandra Lucas Coelho procura a memória do que foi um país dividido pelo ódio, um ódio função da concentração na derme de uma molécula chamada melanina, um ódio que expulsou o advogado Gandhi do comboio por ter melanina a mais.


Enquanto a curiosidade dos assim chamados repórteres da SIC e da RTP se foca no “fait-divers” dos mil e quinhentos euros roubados nos quartos de jogadores gregos, que lhes devem fazer uma falta danada, ou se resume a entrevistar mexicanos de sombrero a garantir que o México vai ganhar e ingleses de bojeca em pulso a augurar a vitória da Inglaterra, Alexandra Lucas Coelho procura, em bairros em que outros teriam medo de entrar, a essência do país que sucedeu ao “apartheid”.


Comecei a acompanhar os seus escritos quando ela foi residir para Israel, onde é correspondente do jornal Público. As suas notícias sobre acontecimentos políticos notórios têm rigor, eficácia, perspectiva, um visível conhecimento dos meandros da política local, enfim, aquilo que se espera de um correspondente que se veja. Mas onde ela excele é nas suas crónicas sobre as pessoas, a vida, os dois lados de um mundo dividido por muros de betão e de inimizade. Num canto do planeta em que com facilidade se pode deslizar para o sectarismo, Alexandra Lucas Coelho parece imune. Com pinceladas de forte humanidade, em momentos de guerra ou nos intervalos de paz, descreve-nos o que vê de parte e doutra: pessoas, com sentimentos, com dores, com raivas, com alegrias e com esperanças. Com ela, a máxima de Protágoras torna-se um programa de acção: o homem é a medida de todas as coisas. Fá-lo com árabes e judeus, israelitas ou palestinianos, de forma equilibrada mas não sem tomar partido, que o jornalismo não tem que ser asséptico. O partido que toma é o da verdade e da decência, da simpatia pela liberdade e da repulsa pela opressão. E consegue-o de uma forma suave, sem maniqueísmos, plena de respeito, dando-se como um espelho que reflecte a realidade, diferente, de diferente gente.


Alexandra Lucas Coelho possui outra virtude que vai rareando na imprensa que leio e mesmo na que ouço. Trata muito bem o português. Hoje, pega-se num jornal ou ouve-se um noticiário e leva-se com um arrazoado de anglicismos, fruto das traduções apressadas dos despachos da Reuters, onde a concordância do sujeito com o verbo é uma feliz coincidência e não mais uma obrigatoriedade natural. Quem não ouviu já na rádio que as acções da PT seguem a subir? Seguem? Para onde? Para Espanha, se calhar, de onde veio esse castelhanismo que infectou o jornalismo económico. Às vezes, vendo o que esses marrecos escrevinham, parece inacreditável que fulanos como Hemingway, Camus ou o próprio Eça tenham partilhado a mesma profissão. Mas com ela não. Dá gosto ler. Usa uma escrita depurada, figurativa, nada pretensiosa, factual mas tantas vezes tocante.


Conheci muito brevemente Alexandra Lucas Coelho há uns anos, numa festa de aniversário de uma amiga comum, passada num fim-de-semana na Quinta da Matinha, um turismo rural isolado na serra alentejana junto ao Cercal, onde o céu estrelado não consente que o nosso olhar desça e onde o Alfredo nos mima com esperadas e inesperadas proezas gastronómicas. Tenho uma memória leve de uma pessoa simples e discreta, nas antípodas do espalhafatoso que caracteriza alguns escribas menores da praça. O que aumenta ainda mais a minha admiração por alguém que tranquilamente nos traz histórias de sítios em que muitos de nós recearíamos viver ou meramente passear.


Nos dois artigos sobre a África do Sul que lhe li ontem, sem que tal alguma vez seja referido explicitamente, percebe-se que o “apartheid” não morreu ainda, modificou-se apenas. Já não manda, mas ainda reina um bocadinho, como é normal na sequência de longas ditaduras. Com o salazarismo passa-se o mesmo. O caminho a percorrer pelos sul-africanos tem pois muita quilometragem pela frente, mas vale a pena ser percorrido. No último parágrafo da sua crónica sobre Neil Aggett, Alexandra relembra a frase que está gravada à saída do Museu do Apartheid: “Pense no que aconteceu e no que virá. E depois saia em liberdade.” Muito bem escolhida.



Nota - Não sei quanto tempo estará “on-line”, mas eis o “link” para um dos artigos referidos:


http://jornal.publico.pt/noticia/11-06-2010/quem-tem-medo--da-baixa-de-joanesburgo-19582722.htm

domingo, junho 06, 2010

Isto ainda vai ser engraçado…

Na sexta saiu no Público um artigo sobre a presente crise de Joschka Fisher, ex-dirigente dos Verdes alemães e ex-ministro dos negócios estrangeiros do governo Schroeder. O escrito de Fischer é muito interessante por abordar a situação que vivemos numa óptica essencialmente política e histórica, muito diferente da histeria microeconómica e microcéfala que nos tem sido servida em doses cavalares nos jornais, na têvê e nas declarações de quem está encarregue de mandar nisto.

Fischer faz notar que há sessenta anos uma crise destas teria o potencial de gerar uma guerra mundial, coisa que hoje, com o equilíbrio do terror nuclear e a maior afluência das sociedades ocidentais, será muito menos provável. Mas tal não impede que a situação gere tensões sociais que são potencialmente transformadoras, isto se não quisermos usar um termo mais conotado, por exemplo “perigosas”. Fischer inquieta-se também com o facto de os actuais dirigentes mundiais ainda não terem percebido o que está em jogo – concordo – e alerta para que nos preocupemos sobre onde se irão precipitar as “energias libertadas por esta crise”, porque, como ele diz, “não há dúvida que elas vão descarregar-se em algum lado”. Fischer não sabe bem onde, mas pelo menos sabe História, virtude que não possuem os arautos da desgraça que hoje pululam na esfera mediática e de que são exemplos acabados o Roubini, a nível internacional, e o João Duque, para consumo interno.

Estes são apenas dois de muitos, porque esta crise não se limita a económica e financeira: também é uma crise de continência verbal. Não há pixote que não queira botar faladura. O Roubini, até recentemente obscuro professor universitário em Nova Iorque, tornou-se célebre por aparentemente ter previsto a derrocada do “sub-prime” de 2008. Não causa grande admiração: os académicos económicos em todo o mundo vão produzindo “papers” para subir na carreira onde prevêem tudo e mais alguma coisa, com igual incerteza. Há sempre a possibilidade de algum coincidir com a realidade, exactamente pela mesma razão que há gente a quem sai o Euromilhões: por paia. Só que agora não há quem o cale. Roubini consegue dizer em dois dias seguidos uma coisa e o seu contrário, com igual desfaçatez e impacto nos jornais e nas cotações. Querem um exemplo: numa segunda, o plano europeu para a Grécia deverá chegar para aguentar o euro; na terça pode já não ser suficiente. Que se passou no mundo entretanto que justifique a diferença? Nada. Talvez meramente a Sra. Roubini estivesse indisposta e indisponível, e vai daí as bolsas ressentem-se.

O João Duque (Prof.) é uma versão portuguesa mais mirrada e satisfeitinha. Anuncia catástrofes com um sorriso meio pouco másculo, julgando-se imune à porrada que vem aí e mostrando-se contente por aparecer num ecrã. Que eu saiba, nem acertou nenhuma previsão de relevo.

Como uma desgraça nunca vem só, são ambos feios como a noite dos trovões, o que acrescenta ao tétrico das suas intervenções. Para quando uma “guru” da Economia que se pareça com a rapariga do anúncio da Calzedonia que invadiu agora os “outdoors” de Lisboa, tornando o minuto de espera no sinal vermelho uma experiência inebriante? Essa podia anunciar o fim da humanidade que todos ouviríamos com um sorriso.


Mas voltando a assuntos sérios, o aviso de Fischer tem muita razão de ser. As grandes transformações da História nascem de uma pluralidade de factores. Quase sempre um deles foi uma tensão social com origem em dificuldades económicas que depois entroncaram em componentes nacionalistas, religiosas, ideológicas, de luta de classes, etc., catalizando o rasgo histórico.

Na origem da Revolução Francesa podemos encontrar uma posição das finanças públicas ao lado da qual a actual situação grega até não fazia má figura. Em 1781, quando Necker, director-geral das finanças, cometeu o deslize de divulgar publicamente o orçamento da coroa, as receitas limitavam-se a 503 milhões de libras para 620 de despesas, sendo exactamente metade destas para serviço da dívida. Por outro lado, mais de cinco por cento da despesa destinava-se a festas e pensões a membros da corte, facto que não caiu muito bem entre a população. Ainda assim, as escassas receitas resultavam de uma carga fiscal iníqua e sucessivamente agravada ao longo do século XVIII, já que o desequilíbrio das contas do Estado tinha um carácter crónico. Durante a década de 1780, a coroa encontrou uma oposição crescente à introdução de reformas fiscais que aumentassem os impostos, mesmo entre as classes mais abastadas. Note-se que a Luís XVI também não lhe passou pela cabeça reduzir a despesa. Em 1788, a agitação em Grenoble chegou a um ponto tal que as tropas foram enviadas para restabelecer a ordem. Os habitantes receberam-nas com projecções de telhas do alto das casas, levando os soldados com elas no alto da telha. Na sequência desta “jornada das telhas”, a nobreza, o clero e o povo da região do Dauphiné reuniram e declaram greve aos impostos. Teso e incapaz de pôr cobro à desordem que crescia no reino, o rei não teve outro remédio senão convocar os Estados Gerais para o dia 1 de Maio de 1789. O resto já se sabe: começa na Bastilha e acaba em Waterloo.

Na Revolução Inglesa os factores sociais e religiosos terão possivelmente preponderância, mas a componente económica também lá está. O rei Carlos I passou a década de 1630 à rasca de finanças, tentando dar a volta permanentemente com legislação fiscal extra-parlamentar que causava repúdio e foi acrescendo às tensões sociais que a questão religiosa motivava em Inglaterra. A partir de 1639, após tentar forçar a sua política religiosa sobre a Igreja Escocesa, os homens de “kilt” rebelaram-se e invadiram a Inglaterra. Carlos I foi pedir dinheiro ao Parlamento para reprimir a revolta, só que os parlamentares aproveitaram para apresentar uma lista de reclamações sobre a conduta real. O soberano não gostou, dissolveu o Parlamento e foi à guerra sozinho, mas a coisa correu-lhe mal: a dado momento tinha todo o norte de Inglaterra ocupado pelos escoceses, que lhe começaram a cobrar 850 libras por dia para não vir mais para sul (ao fim e ao cabo, eram escoceses), montante que se veio adicionar ao custo dos exércitos ingleses. Completamente à míngua, Carlos I acabou por convocar um novo parlamento em Novembro de 1640. Este revelou-se ainda mais hostil para com o rei, impedindo-o nomeadamente de promulgar novos impostos sem a sua autorização. Para ganhar umas massas, o monarca atribui contratos de drenagem de terras alagadiças nos “Fens”, no leste de Inglaterra. O impacto negativo destes trabalhos sobre a vida da população local causou muita indignação, atraindo grande parte do leste de Inglaterra para a facção parlamentar na disputa cada vez mais aberta que a opunha ao rei. Uma das pessoas que foi levada a tomar partido por causa desta situação de injustiça foi Oliver Cromwell. No rescaldo das guerras civis que sucederam, Carlos I foi decapitado em 1649, em frente à Casa de Banquetes de Whitehall e Cromwell governou o Reino Unido até à sua morte em 1658.

A nossa revolução de 1383 teria sido igual se a crise dinástica não tivesse ocorrido num cenário de crise económica, resultante do descontrolo financeiro de D. Fernando na sua guerra com Castela? Teria havido o mesmo papel activamente interveniente da burguesia urbana no apoio a um bastardo, o futuro D. João I? Fernão Lopes, nas suas crónicas sobre D. Fernando, fala dos “males que recebeu o Reino”, males que “os povos depois muito sentiram”. Esses males foram o desbaratar das reservas de moeda, primeiro, e depois “o gasto de grande multidão de prata com a mudança das moedas para satisfazer as grandes despesas de soldos e pagar cousas necessárias à guerra. Por causa disto as cousas subiram depois a tamanhos e tão loucos preços que el-rei foi obrigado a pôr a todas almotaçaria e a mudar o valor que ao princípio pusera a tais moedas”. Nos nossos dias, diríamos que D. Fernando pôs-se a criar moeda, originou uma espiral inflacionária e a seguir viu-se obrigado a intervir com controlos administrativos de preços (a tal almotaçaria). Conseguimos imaginar o impacto quer de uma coisa quer doutra sobre a vida das pessoas na época.

Num último exemplo, poderíamos lembrar o efeito decisivo que a crise de 1929 teve no destroçar da República de Weimar, abrindo as portas à ascensão do nazismo. O pessoal devia estar mesmo por tudo.


O que Joschka Fisher nos rememora, no seu artigo, é que a História não terminou, por muito que a miopia dos nossos dirigentes o proclame. Os casos acima descritos de forma simplista demonstram que crises económicas profundas podem propiciar as condições sociais para que os acontecimentos evoluam de uma maneira e não de outra, às vezes num sentido dramático. Fischer acha que simplesmente não se pode pôr um continente inteiro a apertar loucamente o cinto sem consequências sérias. Corre o risco de acertar.

Se os governos não perceberem a tempo o perigo que supõe o avolumar de tensões sociais trazidos pelo desemprego, pela diminuição das prestações sociais, pela incerteza do amanhã, pelo sentimento que a situação aproveita a uns poucos em prejuízo de muitos, vão se calhar ter um lindo enterro. Isto já para não falar do banzé que seria um descalabro financeiro sério, como por exemplo o que resultaria do desmembramento do Euro. Porque essas tensões, se não se fizer nada para que esmoreçam, hão-de ir parar a qualquer lado, se calhar a barricadas. E então passaremos momentos mesmo difíceis, embora porventura clarificadores.

A única consolação que então talvez venhamos a ter será a de ver nessas barricadas a cabeça do Roubini e de mais alguns “gurus” de pacotilha, espetadas num pau e a rapariga da Calzedonia, de seio descoberto e barrete frígio, a liderar o povo em fúria. As revoluções, mau grado o lado caótico, também têm a sua justiça e a sua beleza.

sábado, junho 05, 2010

Exposição fotográfica (XXIII)

Neste feriado fui passear ao fim da tarde para o parque Eduardo VII. Os jacarandás estão em flor.





As publicidades também.


Na rotunda, preparava-se o palco para um piquenique popular. Patrocina o Belmiro, canta o Tony Carreira, a Selecção é pau para toda a obra


O pessoal dos andaimes vai-se equilibrando.



Autocarro de passagem, com câmara em movimento. Não saíu mal...


Reflexo na fachada do Tiara, antigo Méridien

Estado da nação

Conto pronunciar-me sobre este assunto um dia destes, porque a crise bate forte. Enquanto não, cedo momentaneamente o Mataspeak a Manuel João Vieira, para o seu ferino e sagaz diagnóstico:

Temos táxis e hotéis
Temos pontes e bordéis
Temos ceguinhos e trutas
E bolachas ararutas
Temos castelos nos montes
Temos tractores e fontes
Temos incineradoras
Temos morenas e louras
Temos muita insegurança
E emigrantes em França
Temos o 13 de Maio
Temos queijo e temos paio
Temos o céu sempre azul
Temos São Pedro do Sul
Temos o rei que não é
Lavamo-nos no bidé
Deputados às dezenas
Contas bancárias pequenas
As pinturas do Malhoa
E as gravuras de Foz Côa
Temos Lisboa e o Porto
Temos o não do aborto
Temos marcas importadas
Cidades degradadas
E prisões superlotadas
Temos cada vez mais estradas
Muito mal pavimentadas
Lixeiras a céu aberto
E meio pais deserto
Temos muitos tubarões
E buracos de milhões
Portugal alcatifado
Bebe vinho e canta o fado

O tempo maleável

“Time is a funny thing. Time is a very peculiar item. You see when you're young, you're a kid, you got time, you got nothing but time. Throw away a couple of years, a couple of years there... it doesn't matter. You know. The older you get you say, "Jesus, how much I got? I got thirty-five summers left." Think about it. Thirty-five summers.”


Fala em “off” de Benny, dita por Tom Waits, in “Rumble Fish” de Francis Ford Coppola



Recordo o tempo em que, ainda os meus dezoito anos vinham a alguma distância, o tempo me parecia um caminho sem fim. Vogando entre uma consciência indiferente e uma inconsciência adormecida, um saber social dizia-me que um dia trabalharia, que talvez viesse a ter filhos e que fatalmente morreria, se possível de velho. Mas tudo isso morava muito para lá da linha do horizonte. O tempo era enorme.


Há duas quintas correram dezoito anos sobre o momento em que por uma porta traseira da maternidade Alfredo da Costa, quase clandestinamente, me vieram mostrar um embrulho que continha um olhar negro, inscrito num crânio ainda ameloado pelo efeito dos fórceps, e cuja co-autoria me pertencia.


Curiosamente, recordo não ter percepcionado novidade naquele momento. Certamente um dos mais marcantes da minha vida, mas senti-o como se fosse o culminar, a extremidade de um segmento de tempo, não um elo isolado que valesse por si próprio mas o último de um processo quase ordenado, de uma cadeia sequencial, feita de expectativas, de sonhos, de preparos, de ânsias, mas que no meu âmago nunca imaginei terminar noutro instante que não naquele.


Senti, por outro lado, uma identidade forte. Como se aquele ser, símbolo e centro daquele momento, me estivesse meramente reencontrando, como um camarada de colégio que desaparece de circulação e com que chocamos acidentalmente ao virar de uma esquina. Como se aquele instante, de uma forma esconsa e que não apreendi ainda muito bem, fosse uma repetição, um retorno, a intercepção de um ciclo infinito com o plano sempre mutante do presente sobre qual vou erraticamente passeando.


Ora estes dezoito anos passaram que nem um fósforo, que nem minutos, voláteis e dramaticamente curtos como os segundos preciosos que sobram para o apito do árbitro quando uma equipa procura o golo que lhe falta. Cá dentro das nossas mentes (pelo menos da minha), há uma frase feita que algo nos sopra ao ouvido do espírito: “parece que foi ontem”. E a nossa razão embarca nessa história mal contada e diz que sim com a cabeça, como se entre o olhar negro inquieto da porta da maternidade e o olhar negro confiante que me olha hoje de cima para baixo apenas houvesse um rasgo no tecido crónico, como se não se tivessem escoado 216 meses, 936 semanas, 6574 dias, 157776 horas e tantos milhões de minutos e segundos que a calculadora até capitulou, acusando erro por “overdose” de dígitos. Muito tempo de facto, mas que cabe todo num hiato de memória entre dois olhares. O tempo é compressível até ao diminuto, quase até ao infinitamente pequeno.


Para o aniversário, quis oferecer um cartão com uma fotografia específica desse tempo longínquo, uma memória forte simultaneamente em papel e nos estranhos circuitos neuronais que ronronam no interior do meu crânio. Se me recordava bem dela, não me lembrava no entanto onde a pusera e por isso percorri anos de fotos e álbuns, milhares de imagens, desde as marcas dos ferros na cara da primeira hora ao jovem apinocado em fato escuro de há poucos meses. Revelou-se um exercício curioso e inesperado.


Dedilhei por sorrisos já mal lembrados e de dentes ainda anárquicos, pelos gritos atmosféricos das festas de anos, os embrulhos arrancados dos primeiros natais, a ansiedade da marca de partida nos saraus de natação, as pinturas e caraças de Carnaval, as fotografias da praxe com sorrisos de careta diante da torre Eiffel ou do palácio de Buckingham. Vi como eles eram pequenos e frágeis e como nós ficámos mais velhos e frágeis. Lembrei as modas mutantes, nos penteados, nos óculos, nas gravatas, nas sapatilhas, esticando, minguando, frisando, cromatizando. Encontrei também aqui acolá alguns que já cá não estão (fisicamente), outros que não sei por onde andam e que foram tão próximos que pasmei como pôde a vida separar-nos.


Sim, o tempo passou e longo e rico e cheio. E ali estavam apenas os marcos miliares de uma estrada de dezoito anos, subindo e descendo as encostas das nossas vidas. Os marcos são importantes: marcam. Mas entre eles houve que percorrer o lajeado do dia-a-dia, feito de corridas matinais para a porta da escola, dos pequenos sucessos e insucessos, das pequenas alegrias e tristezas, da sucessão dos amigos inseparáveis, da maturação lenta das personalidades, do entrechocar desajeitado dos talheres nos pratos do jantar, do respirar nocturno que como um alívio escutávamos pelas portas entreabertas. Uma existência pletórica, densa, quase espessa, mesmo que todavia mais discreta.


Vendo isto, concluo que afinal o tempo é como os matemáticos o concebem: um troço de recta que por pequeno que seja contem infinitos pontos, tantos quantos os que existem num troço maior ou fora dele. A vida de cada um, à sua maneira, tem a riqueza de todas as que vieram antes e depois.


E com esta cegada toda, assim caíram as folhas de calendário entre os meus vinte e oito de boa memória e os quarenta e seis que agora protestam no meu bilhete de identidade. Se aguentar mais trinta e cinco verões, como dizia o outro, já vai ser uma fezada. E também se forem menos não há azar. Sou um tipo com sorte: de certo modo, já tive todo o tempo do mundo.

sábado, maio 22, 2010

A marrada na parede

Muitos anos depois da experiência laroca da Engª. Pintassilgo, Portugal volta a ter uma primeira-ministra. Igualmente gordinha, igualmente química, mas loira, chama-se Angela Merkel e reside em Berlim onde faz um gancho como chanceler.

Quando era Secretário de Estado, Henry Kissinger ironizou certa vez perguntando se quisesse falar com a Europa para quem ligava. Obama já sabe: liga para ela. No fim-de-semana passado, tendo já despachado Papandreou, Merkel nacionalizou o nosso ministro Teixeira dos Santos e o seu homólogo espanhol e encomendou-lhes o cardápio: subidas de impostos, taxas extra, reduções de ordenados, cortes a eito, consoante. Um vê-se-te-avias. Neste entretanto, não atendeu o telefone a Durão Barroso e pôs em sentido Sarkozy, que julgava que só a Carla é que o olhava de cima.


Consequentemente, vamos penar uns bons anos. Entalados entre obedecer ou voltar ao escudo, com corrida aos bancos, curralito, desvalorização súbita, etc., amochou-se. E, infelizmente, ainda bem. O ministro das finanças vai cumprindo como pode, de dicionário português-alemão debaixo do sovaco, e o nosso Sócrates passou-se de vez, desasado perante a perspectiva de ter que explicar às pessoas que a coisa não correu nada bem, matéria em que não é especialista.

Agora, e ainda assim num cenário simpático, os portugueses vão ter que passar uns cinco anos a viver com menos dez a vinte por cento do que tinham. Para muitos, parte disto até pode ser fácil: passar a aguentar o carro uma dúzia de anos, não comprar o último plasma de trezentas polegadas enquanto o velho televisor não der o prego, jantar em casa um sábado ou outro. Se calhar até vão aprender a poupar umas massas (poupança: conceito macroeconómico desaparecido em finais do século XX que consiste em ter um saldo positivo entre receitas e despesas).

Para muitos outros, a coisa será dramática. Para os que já estavam à rasca, para os que vão ficar e para os que necessitavam do Estado social. Os serviços médicos, a escola, a segurança, asfixiados pela dialéctica entre reduções orçamentais e direitos adquiridos, vão decair. Os buracos nas ruas vão demorar mais algum tempo a ser tapados. Já nem falo na justiça, que estava numa situação tal que nem se vai dar pela diferença.

Alguma desta dor poderá ser minimizada se se aproveitar esta germânica oportunidade para arrumar a casa do Estado português, que arrasta como uma canga o peso de um aparelho burocrático e inútil, arrogante de privilégios que se confundem com direitos, com uma super-estrutura mandante onde desaguam os dejectos de um mundo partidário atrofiado ao pé do qual o Conde de Abranhos brilharia como estadista.

Mas não acredito. Seriam precisos líderes que fossem capazes, por exemplo, de levar a cabo a mais esquerdista e socialista das medidas: liberalizar os despedimentos na função pública, permitindo limpar a máquina do Estado da grilheta dos que nada fazem excepto gala em não fazer, dos que acham que têm direitos eternos e nenhuns deveres, dos que não se preocupam pela geração seguinte minguar a recibos verdes para que eles possam ter diuturnidades que não merecem. Não são todos. Provavelmente apenas uma minoria. Mas os suficientes para que o Estado-providência português mirre e morra, entalado entre os pagamentos da dívida e as poses dos Picanços e dos Mários Nogueiras e as clientelas todas e mais algumas.

Seriam necessários governantes que tivessem a coragem de falar às pessoas de uma coisa chamada realidade. Que explicassem que não podemos viver anos a aumentar constantemente a dívida externa em dez por cento do PIB. Que o dinheiro não pertence ao Estado, mas a nós e que cada cêntimo mal gasto e que cada minuto na palheta significam menos médicos para operar cancros e menos polícias nas ruas. Que a energia barata não é um direito divino e que se for carota o pessoal não se esquece de desligar as luzes. Que uma enfermeira que responde torto e desumanamente aos doentes num hospital, porque sabe que tem as costas aquecidas pelo sindicato, e que não recebe rapidamente guia de marcha, está a tirar o lugar a uma jovem que custou milhares de euros a formar e que pode estar ansiosa por dar o seu melhor.

E seriam necessários cidadãos mais implacáveis. Que percebessem que votar num corrupto porque faz obra é como abrir a porta de casa a um ladrão só porque leva poucas pratas e deixa algumas. Que por muito amor clubístico que tivessem se recusassem a aceitar dar um tostão que fosse de dinheiro público para construir dois estádios em Lisboa, quando o AC Milan e o Inter (clubes pobretanas) jogam no mesmo. Que educassem os partidos e que ao mínimo escândalo ou devaneio votassem maciçamente na oposição, sem medo, obrigando aquela malta a sanear a sua atitude e a despachar as maçãs podres mal fossem descobertas.

Mas como há maior probabilidade de o D. Sebastião voltar para a semana envolto em nevoeiro do que isto que eu agora disse, continuaremos às ordens da Merkel, como mais um “lander” da República Federal.

E sobre a crise internacional, ainda isto: não simpatizo particularmente com a chanceler alemã, mas foi ela que disse a frase politicamente mais relevante e acertada dos últimos tempos, que o poder tem que estar na política e não na economia. Carradas de razão. Há algo que une Merkel, Obama e Sócrates e que os separa dos economistas-chefe da Moodys, do “chairman” da Morgan Stanley e, já agora, do presidente da Coreia do Norte. É que os primeiros podem ser destituídos pelo voto e os segundos não. Por isso, o primado da política sobre a economia é uma questão – básica – de Democracia. Que se regule então forte e feio.

Até porque se há coisa que esta crise demonstrou foi que viver num mundo com estes “traders” à solta resulta desagradável. Aquela amálgama de atrasados mentais a que se convencionou chamar mercados simplesmente não funciona em auto-gestão. Por muito que custe aos sectários da mão invisível, seria como esperar que um bando de macacos à solta dentro do “cockpit”, a mexer nos botões ao calhas, conseguisse aterrar um Airbus na pista da Portela.

sábado, maio 08, 2010

S.M.I.L.E.

Todos os anos, a associação de alunos do Liceu Francês de Lisboa, minha escola de sempre, a quem confiei os meus filhos para que se lhes dessem umas luzes, organiza um espectáculo de beneficência. Chama-se S.M.I.L.E. Nunca falto. Ignoro o que significa a sigla, se é que algo se esconde por trás daqueles pontos. Sei que a entrada custa um euro e a fatia de bolo um euro e o copo de plástico a desbordar sumo um euro também. No final, na caixa, não muito dinheiro, mas que sempre dará algum jeito no Camboja, destino tradicional da colecta, por razões que já se perderam no tempo.


Smile, portanto.


Ao palco, cada um traz o que sabe, mesmo que não saiba. Uns tocam, por vezes mal. Canta-se, desafina-se também, esganiça-se a espaços. Dança-se, entre o síncrono e o assíncrono. Crianças trazem pequenos “sketches” com vozes e poses de crianças. Em anos, exibem-se artes marciais. Noutros, concursos de teatro. Os microfones falham e quando não falham as apresentadoras falam para a frente e para o lado, deixando cair palavras ao chão. Vai-se percebendo. Ora não se ouvem os instrumentos, gerando-se protestos de silêncio na sala, ora as colunas distorcem, lançando mãos aos ouvidos. Com tudo isto, um dos maiores espectáculos do mundo.


Smile, relembro.


Desde o palco, dá-se. Na plateia, recebemos. Lá em cima, vence-se a verdura dos anos, vence-se a vergonha de encarar uma sala cheia, vence-se o riso que espreita, dobra-se a falta de tempo de ensaio. Cá em baixo, os amigos não se importam, ululam, aplaudem, comungam, vivem, agitam isqueiros e telemóveis iluminados. Uma rapariga entoa o “Summer of 69”: “those were the best days of my life”. São, de facto. E nós, os mais velhos, temos saudade da generosidade, da intensidade, da urgência, do riso sem mácula e do beijo que num recanto escuro da sala dois corpos ainda não acabados trocam, com um enlace como se fosse o único, com uma sofreguidão como se fosse o último. Saudade é uma palavra simpática para inveja.


Smile, dizia.


A alegria, por muito que esfuzie, não esquece. Há uma semana viveram a dor da morte de um colega, mas não deixaram de o levar à festa. Um amigo, que com ele tocara no passado, fecha o espectáculo tocando em sua memória uma música dos Radiohead, que certamente ouviram lado-a-lado. Uma moça, quase pequena para a guitarra que segura, dedica-lhe com voz hesitante uma das músicas que interpreta e que compôs. Fala de um bom rapaz que foi e do sentimento dos que ficaram: “free falling”. Acabado o seu momento, com um cantar certinho, desce os degraus laterais, sai para o fundo da sala e chora em sossego.


Smile, tá certo.


O espectáculo termina, como sempre, com todos ao estrado, para um último coro, um derradeiro aplauso, um abraço que vai de uma cortina à outra.


Por coincidência, tenho um amigo inquieto que parte amanhã para o outro lado do mundo, julgo que para ver gente feliz. Procuramos sempre longe à brava aquilo que sobeja à nossa porta.


Smile, já disse!

Poema muito curtinho

Ao sol de domingo, no Alto de São João, rapazes de dezassete anos zangaram-se em surdina, trocando as palavras agrestes e camaradas dos dezassete anos, porque uns tinham carregado, de olhos vermelhos, o féretro de um amigo e os outros não tinham podido.

domingo, maio 02, 2010

Exposição fotográfica (XXII)

Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, a 30 de Novembro passado





quarta-feira, abril 28, 2010

Dia de raiva

Passei o dia de ontem com um nó na garganta.


Na noite anterior, uma notícia nos “sites” dos jornais anunciava a morte de um jovem português numa discoteca em Londres, frequentada por famosos, como essa ralé escriba lhes gosta de chamar. A notícia não era a morte de um jovem, mas o incómodo dos famosos, como o distintíssimo Wayne Rooney, que se não tivesse bons pezinhos andaria pela estiva no porto de Liverpool.


Em minha casa, no entanto, o rapaz tinha um nome e uma cara. Frequentava a escola dos meus filhos. Brincara com um deles em pequeno. Sorria, com poucos aninhos, em fotografias dos nossos álbuns. Conhecíamos a mãe.


Os jornalistas aproveitaram para especular quando não para afirmar o que não sabiam nem podiam saber, para apimentar a notícia. Não há hoje classe mais reles que a dos jornalistas. Assalariados ao serviço do volume de vendas dos seus patrões, comprazem-se na sua necessidade compulsiva de procurar o esterco para remexer e de inventá-lo quando não o encontram. Necessidade que caracteriza e estigmatiza a classe. Verdade, ética, pudor e pundonor pouco lhes dizem. Desmandam-se, insensíveis à dor que a sua insensibilidade provoca. Não percebem, possivelmente porque não conseguem.


Nos “sites”, as novas atraíram os comentários como abutres, geralmente disparates moralistas e ignorantes, escondidos sob essa moderna forma de cobardia a que se chama “nick”.


Será que perdemos todos a capacidade de dizer: morreu um jovem, morremos nós também um pouco? De nos condoer um segundo porque uma mãe, um pai, algures, sofrem o último dos sofrimentos? De teclar, já que temos que teclar, uma homenagem, uns pêsames e não uma barbaridade ignorante? Em que monstros nos transformámos?


Sei que é a raiva a falar mas, em dias destes, parece-me melhor que venha o meteorito, o vírus fulminante ou o inverno nuclear que nos varra a todos deste planeta e que se recomece de novo, com outra espécie que connosco já não vale a pena.


Sei que é a angústia a falar mas em dias destes constato a prova provada que o Deus justo e misericordioso de que alguns tanto falam simplesmente não existe, como os factos demonstram. Quanto muito uma divindade caótica, um Baal fenício, exigindo vítimas diante das suas imagens de bronze. Ou mais certamente nada senão uma existência breve, ténue, improvável e ilógica.


Mas se por acaso estás em algum sítio que me ouças, sabe que sinto uma pena imensa. Fazes falta: não só aos teus como a este mundo, que não se pode dar ao luxo de desperdiçar uma só flor da sua juventude, a única que pode fazer algo por ele que nós, os cotas, já deixámos escapar a oportunidade que nos foi dada. Mesmo sem te ter visto nos últimos anos, ter-te-ei sempre na minha memória, com o sorriso maroto daquela foto no jardim zoológico, terias tu quatro ou cinco anos – lembras-te? – sentado junto ao teu amigo que dorme agora no quarto ao lado deste onde escrevo. Descansa tu também, em paz.


E à tua mãe, um beijinho de solidariedade, de apoio, que poucas mais palavras fazem sentido.


sexta-feira, abril 23, 2010

O sentido da vida


"You see that house? That is where I was born. My mother said to me, "Gaston. The world is a beautiful place, and you must spread joy and contentment everywhere you go". And so I became a waiter... Well, I know it is not a great philosophy but..."

Eric Idle, in "The meaning of life"



Em 1984 assisti num cinema de Lisboa a “O sentido da vida” dos Monthy Python. Na altura namorava uma rapariga muito católica e algo convencional e vi-me aflito para que ela não saísse portas fora da sala. Já me tinham acontecido experiências dessas (algures entre umas quantas e bué) por elas nem me quererem ver mais, mas foi a primeira vez que uma tentava pôr-se a andar por não querer ver o filme.

Na tela, Cleese, Palin, Jones, Idle, Gilliam e Chapman desancavam tudo numa sucessão de “sketches” que varria a vida do nascimento até à morte: a religião, o ensino, o exército, o estreito mundo dos gestores e da finança, a vacuidade burguesa, a vacuidade operária, a vacuidade dos ricos, a televisão, os bastidores do espectáculo, a justiça e o mais que lhes viesse à tola.

Na altura, o filme passava possivelmente das marcas para muitos espectadores e não posso ter a certeza que gente não tenha abandonado a sala, ocupado eu que estava com um olho no burro e outro no cigano, um a ver a fita e outro a controlar a miúda que fazia fita para ir embora, que não estava para aturar aquilo. Na página da IMDB sobre o filme, na “Internet”, muitos comentam que quando o viram no cinema tiveram espectadores a sair a meio.


No fim-de-semana passado revi “O sentido da vida” em DVD na fofura do meu sofá e apenas um dos gatos me abandonou em plena sessão para ir trincar uns “snacks” na sua malga. Passaram vinte e cinco anos e o filme ganhou alguns cabelos brancos, como referências aos vídeos Betamax ou a aparição de “blazers” aos quadrados, que até lhe dão uma certa graça, e continua um portento. O melhor elogio que se lhe pode prestar é dizer que ainda hoje, se exibido em sala para ruminantes da pipoca, fará muita gente sair a metade – ou menos.

É verdade que os tempos mudaram, os anúncios mostram rabos e os padres andam com má imprensa. E até tivemos o Borat. Mas Sacha Baron Cohen escolhe alvos fáceis: goza com aqueles de quem até gostamos de gozar, por nos acharmos superiores. O jogo com os Monthy Python é mais arriscado. Corremos o perigo de ter que nos rir de nós próprios. Para falar verdade, “O sentido da vida” até não nos põe a rir muito. Mas passamos duas horas a sorrir à gargalhada.

O filme mostra-nos os Python no seu estado natural: gongóricos, barrocos, surrealistas, às vezes escatológicos, sempre nos limites, à beira do precipício mas sem nunca cair aos abismos do barrasco. Algumas cenas são apenas muito boas, outras simplesmente geniais. Só os Python conseguiriam fazer um número de “music-hall” do tipo “Annie”, cheio de coros infantis, a gozar com a proibição de usar preservativos pela Igreja Católica, à volta do mote “every sperm is sacred”. Ou exibir-nos a Morte, encapuçada e de gadanha, a bater à porta de um jantar de queques ingleses num “cottage” e a ser convidada a entrar para um copo, enquanto a dona da casa comenta para os convidados: “é um dos aldeões”. Ou uma aula de educação sexual num colégio privado inglês, com exemplificação ao vivo pelo Prof. John Cleese com a esposa, perante o ar de enfado dos alunos. Posso estar para aqui a falar, mas na realidade só visto.

O segredo dos Python é o de que tudo vale, desde que subverta e que exponha. Quando Graham Chapman morreu de cancro em 1989, os outros Python fizeram uma cerimónia de homenagem em que John Cleese começou por dizer:

“Graham Chapman, co-autor do “sketch do papagaio”, já não está connosco.

Deixou de ser. Cansado da vida, descansa em paz. Bateu a bota, esticou o pernil, foi desta para melhor, quinou, deu o último suspiro, e foi encontrar-se com o Grande Chefe do Entretenimento Ligeiro no céu. E presumo que todos estaremos a pensar como é triste que um homem de tanto talento, de tanta capacidade de gentileza, de tão invulgar inteligência, se tenha ido em espírito com a pouca idade de quarenta e oito anos, antes de completar muitas das coisas de que era capaz e antes de se divertir que chegasse.

Bom, sinto que devo dizer: disparate. Bem nos livrámos dele, o desbocado do sacana. Ele que arda.

E a razão pela qual sinto que devo dizer isto está em que ele nunca me perdoaria se eu deitasse fora esta gloriosa oportunidade de os chocar a todos em nome dele. O pior que lhe poderiam fazer era bom gosto acéfalo.”

Claro que todos se riram e Cleese confessou que na noite anterior, enquanto preparava o discurso, Chapman lhe segredara ao ouvido: “OK, Cleese. Sei que te orgulhas de ter sido a primeira pessoa a dizer “merda” na televisão britânica. Se essa homenagem que estão a fazer é mesmo para mim, para começar quero que sejas o primeiro em Inglaterra a dizer “foda-se” numa cerimónia fúnebre”.

E ele teve que cumprir. Que os meus amigos, chegada a hora, não me falhem como Cleese não falhou.


Bem! E afinal, qual o sentido da vida? Na última cena do filme, Palin, vestido de mulher, sentado num cadeirão, recebe de uma assistente um envelope dourado contendo o sentido da vida. Abre-o como se abrem os envelopes dos Óscares e lê com ar alheado:

- Nada de especial. Tentem ser simpáticos. Evitem comer gorduras. Leiam um bom livro de vez em quando. Passeiem. Façam por viver em harmonia com pessoas de todos os credos e nações…

De facto, o sentido da vida andará mais ou menos por aí, para azar de quantos o procuram em vão nos lugares mais recônditos ou nas mentes mais exóticas deste mundo e do outro.

Quando o genérico final começou a passar, ao som de uma cantoria alegre por Eric Idle, carreguei no “eject”, guardei o disco na caixa e em vez de a devolver à prateleira dos filmes coloquei-a na biblioteca, entalada entre a História da Filosofia Ocidental e uma selecção comentada de textos dos Evangelhos. Ali fica bem.

sábado, abril 17, 2010

O acocoramento


“Le roi est maintenant âgé de 54 ans : son aspect est tout à fait royal,

en sorte que sans avoir jamais vu sa figure ni son portrait, à le regarder seulement, on dirait aussitôt : c’est le Roi


Descrição de Francisco I de França pelo embaixador de Veneza, em 1546



Ontem, o nosso Presidente da República deu má conta de si e de nós em Praga, permitindo que o seu homólogo checo se fosse sem resposta quando, durante uma visita de Estado e perante uma plateia de empresários e jornalistas dos dois países, lhe deu para achincalhar Portugal com piadinhas parvas sobre o défice deles e o nosso e as preocupações deles e a nossa descontracção diante do assunto e não sei mais o quê. Basicamente tentando chamar-nos mandriões do sul.


Aceito que Cavaco Silva possa alegar duas atenuantes.


A primeira, que os checos são um dos povos com menos piada da Europa. Passei quinze dias em Praga em 1987. À época, o russo ainda se ensinava como primeira língua estrangeira no ensino liceal, provavelmente para perceberem as instruções recebidas de Moscovo, e as checas ostentavam “vaca” no sufixo. Lembrando essa estadia, recordo as características de simpatia, trabalho, atenção, mas também que, coitadinhos, não tinham piadinha nenhuma. Falta-lhes o gene do humor, possivelmente perdido algures durante as rebaldarias associadas às invasões otomanas: ao seu lado, os suíços fariam figura de foliões. Por isso, ver Vaclav Klaus soltar graçolas como se dessem para rir pode deixar basbaque o interlocutor mais desprevenido e parece-me que foi isso que aconteceu com Cavaco. Para os menos atentos, Klaus é o PR da República Checa, único país do mundo cujo nome é um adjectivo e não um substantivo. Como será mesmo que aquela trampa se chama? Chéquia? Quezéquia? Alguém me ajude.


Depois, Klaus é o típico burocrata de regime comunista reconvertido a convicto neo-liberal após a queda do Muro. Normalmente os piores, pois mantêm na nova encarnação o sectarismo e a arrogância de que necessitaram para sobreviver na primeira. Um tipo que como ele trabalhou quinze anos como economista no banco central de um país da cortina de ferro deve ter escrito muito relatório a defender o planeamento central, com letra cursiva e o mesmo afinco com que agora preconiza a excelência do livre mercado. Para mais, viu-se também que é ordinário, não sabendo comportar-se com uma visita. Nenhum dos seus assessores lhe lembrou Bismarck, que dizia que até uma declaração de guerra se redige de forma educada. E para terminar é idiota, como se pode ver pelas suas afirmações esclarecidas de que o CO2 não causa aquecimento global ou os estereótipos que manifestou quando a Checocoisa ocupou a presidência semestral da União Europeia. A ele aplica-se como uma luva a máxima de John Stuart Mill, de que nem todos os conservadores são estúpidos, mas que a maioria dos estúpidos são conservadores.


Apesar destas razoáveis desculpas, Cavaco mostrou figura fraca ao não ter imediatamente respondido com um coice. Ao calar-se abaixou-se, perdeu a dignidade e esqueceu-se que nos estava a representar a todos. Até o seu aspecto físico se encarquilhou perante a humilhação. Exactamente o efeito contrário ao do impacto da aparência de Francisco I que transcrevo em epígrafe. A olhar para Cavaco embaraçado a ouvir as bujardolas do checo, o tal embaixador de Veneza não exclamaria “c’est le Roi”, mas antes “c’est le valet”.


Perante o alarve, Cavaco tomou a única atitude que não devia ter tomado: não tomar nenhuma atitude. Podia ter saído da sala ou ter manifestado o seu desagrado argumentando e fazendo notar à frente daquela gente toda que o outro passara das marcas. Muito melhor todavia se tivesse conseguido dar-lhe uma resposta curta, humorada e venenosa que devolvesse para o lado de lá a bola do embaraço. Daquelas boas como já as houve.


Já aqui no blogue citei, noutro texto, a magnifica resposta de Lourenço da Cunha, enviado de D. João II à corte de Castela, que chamou elegantemente rameira à rainha Isabel a Católica à frente da sua corte, quando ela se começou a chegar muito à frente e a tratar Portugal por cima da burra. A missão diplomática fracassou mas D. João II, que percebia a importância relativa das coisas, recompensou amplamente o embaixador pela presteza e oportunidade da resposta.


Outro que não esteve mal foi Gustavo Adolfo da Suécia no seu primeiro encontro com o czar, numa planície nevada. O sueco subira muito jovem ao trono e o russo mandou a piadinha em tom sarcástico: “nunca pensei que fosse tão novo”. Gustavo Adolfo, um latagão dois palmos mais alto que o czar olhou para baixo e respondeu: “nunca pensei que fosse tão pequeno”. Toma e embrulha e vamos à guerra.


Ou a famosa de Churchill a Lady Astor, a primeira mulher deputada no Reino Unido, que lhe disse que se ele fosse seu marido lhe envenenava o chá ao que Churchill retorquiu “e eu se fosse seu marido, bebia-o”.



Uma destas é que faltou em Praga a Cavaco, para soltar a Vaclav Klaus. Qualquer coisa como “pois, não tivemos a sorte de ter os soviéticos a ensinar-nos durante quarenta anos disciplina orçamental” ou então “de facto, a experiência que o senhor adquiriu a planificar a economia nos velhos tempos da guerra fria deve dar jeito nestas alturas”, dito com sorriso e um pose de “se te fosses lixar?”.



Entretanto por cá, também ontem, houve sururu na Assembleia porque o Zé Sócrates teria sussurrado “manso é a tua tia”, quando Louçã, no seu melhor ar seminarento, lhe afirmara que ele estava mais manso. Admito que o Bloco, de tão “prafrentex”, se tenha esquecido que manso, em português de Portugal, ainda mantém um sentido figurado que pode não agradar a um homem. No tempo do meu avô, uma insinuação de mansitude seria suficiente para se tirar coletes e trocar socos.


Sócrates, ao contrário de Cavaco, teve aqui pelo menos o mérito de não ficar calado. Mas ficou-se infelizmente pela metade: devia ter falado em voz alta, para o microfone, e colocado entre o “manso” e o “tua tia” uma palavra vernácula que caracterizasse a natureza comercial da referida senhora.

sábado, abril 03, 2010

A cena peluda

As mulheres têm mais capacidade de fazer corar os homens do que o contrário.

Verdade. Dei-me pela primeira vez conta dessa realidade no início da minha carreira, quando fiz parte de uma equipa que realizou uma coisa chamada “caracterização dinâmica da barragem do Alto Lindoso”. Basicamente consistia em passar o dia num buraco no paredão da barragem, na altura em construção, em frente a uns computadores que hoje nos fariam rir, daqueles com letras verdes em ecrãs pretos, a ver como é que aquilo abanava.

À hora de almoço, descíamos por uma estrada sinuosa, evitando “in extremis” camiões gigantes e bois barrosões razoavelmente grandes até um restaurante frequentado exclusivamente por homens da obra. Ficava numa casa de quinta antiga, com uma sala grande atravancada pelo amesamento e um fogão a lenha em ferro preto que ainda funcionava. As proprietárias, duas irmãs velhinhas, daquelas minhotas trigueiras com uma pele lisa que a idade sulca mas não enruga, circulavam entre mesas distribuindo rojões, dobradas, feijoadas e outras levezas da culinária nortenha. À época, as preocupações com o agá-dê-éle ainda não constavam.

Um dos dias, durante o almoço, tocou um telefone de parede daqueles de baquelite e sonora sineta. Atendeu uma das irmãs e foi falando, alto para vencer o murmúrio colectivo dos mastigantes. Percebia-se que falava com um filho que morava no Porto. Não sei o que este lhe disse, mas a dada passo a velhota interrompeu-o: “já não estou a gostar do c… da conversa!”. E vai daí desancou-o de alto a baixo, soltando mais palavrões em cinco minutos do que todos aqueles que se haviam proferido nessa manhã na obra, onde moinava cerca de um milhar de gajos.

Na sala, o ambiente era constrangido e o murmurar tinha-se silenciado. Só se ouvia a velha, de bata florida e lenço na cabeça, aos impropérios e bujardas. Recordo-me de na mesa à minha frente um operário de macacão de ganga, um homenzarrão ruivo e barbudo, com quase dois metros, baixar o olhar para o prato e corar, mas corar vermelhão.



Esta cena volta-me à memória por vezes em certos jantares em que entre o fim da sobremesa e o sorver do café, os homens olham embaraçados uns para os outros, sem saber o que dizer, no limite do coranço, quando elas se põe a debater assuntos que noutros tempos da fidalguia passariam por ser de alguma intimidade.

Nas ocasiões mais recentes, o tema que está a dar é a depilação. A conversa normalmente começa nas axilas e depois vai descendo. Exactamente até aí. E nesse preciso momento os rapazes ruborizam e um deles desafia os outros para uma cartada, para fugir ao embaraço.

Elas vão discutindo métodos e vantagens, extensões e penteados, cortes e metodologias. Comparam os custos e as dores e contrapõem face à excelência dos resultados. Pelo que não podemos deixar de ouvir, o que está a dar agora é a depilação a “laser”, pagando-se bem mas de resultado definitivo. Tal como com o cavalo de Átila, a relva não volta a crescer.

Quem estabeleceu as bases teóricas do “laser” foi nem mais nem menos do que Einstein, num artigo de 1917 intitulado “Sobre a teoria quântica da radiação”. Nunca pensou o guedelhudo e bigodudo génio que as suas ideias pudessem vir a servir tão acarecante propósito.

Embora eu ainda tenha trabalhado com “lasers” na universidade, certamente em aplicações menos nobres, tive alguma dificuldade em visualizar como se daria a utilização da amplificação de luz por emissão estimulada de radiação nestas recônditas circunstâncias da depilação íntima. Como funcionaria? Pus-me a imaginar laboratórios escuros, raios verdes e vermelhos atravessando tubos transparentes, cientistas de bata branca. De repente, atingiu-me uma epifania e no meu cérebro materializou-se a seguinte cena:


Na sala de depilação a “laser”, entra a figura negra e capeada de Lord Darth Vader:

- I can feel a hairy disturbance in the Force. You have failed to depilate effectively. I will not tolerate this again.

A depilante, pendurada no ar pela força mental do Jedi e um pouco nervosa:

- É a porcaria daquela cera, Lord Vader, não …
- Wax is the depilator of the weak. I will proceed immediately to a more definitive termination!
- Sim, Lord Vader, mas com jeitinho…
- I will use the power of the Force to make you assume the depilating position!

A depilante, nua da cintura para baixo, é rodopiada no ar no centro da sala até atingir a configuração propícia. Lord Vader aproxima-se:

- Using the power of the Force to control two legs and a torso is more tiresome than strangling an incompetent Death Star lieutenant. You will have to pay well
- Hi,hi! Já paguei o sinal ao robô que está à entrada do consultório, Lord Vader!
- Gooood!

Nesse momento houve-se um “uoooooon” característico e o Jedi negro desembainha o seu sabre de luz, que pulsa, avermelhado, no centro da sala. Aproxima-se e inicia a operação…

Mais tarde, Lord Vader ajoelha-se diante do Imperador Galáctico, Palpatine:

- Reporting as requested, My Lord.
- Have you performed today the depilating task as planned, Lord Vader?
- Yes, My Lord. All her hair is now gone. I accidentally cut off one leg and both buttocks in the process.
- That is a minor side-effect in the pursuit of baldness. I’m overall satisfied, Lord Vader.
- Thank you, My Lord.
- What about the rebels? Are they epilated?
- Han Solo is currently stuck in a carbonite slab and impossible to reach. Luke Skywalker is as baby faced down there as below his nose, so no work to do. According to intelligence, Princess Leia, as most female earthlings, has already epilated herself down to the core. I am now focusing on Chewbacca, My Lord.
- And when do you foresee that this task will be terminated?
- Chewbacca is quite hairy, My Lord! Looks like an Austrian earthling female. But I expect to be able to finish him in episode VIII of the saga.
- Do better, Lord Vader. Episode VI is the limit. No pubic hair must survive after then anywhere in the Galaxy!
- (Glup) I will do as you wish, My Lord.



Pois. Deve ser mais ou menos assim que a coisa se passa.

Regressei à Terra, onde elas continuavam a debater o problema do pelo persistente. Deu-me para fazer a pergunta incorrecta:

- Se essa cena é definitiva, como é que vocês fazem quando a moda mudar?

Olharam para mim com ar transviado. Insisti:

- Sim. Isso deve ser como as gravatas e as abas do casaco, que alargam e estreitam com um intervalo de dez anos. Se calhar, daqui a uns tempos volta a moda “afro”. E nessa altura? Se isso do “laser” é definitivo?

Pintou um clima silencioso. As bocas delas entreabriam-se procurando facilitar a resposta que não surgia.

De repente, uma dos homens quebrou o gelo para dar a opinião que se impunha:

- Nessa altura, vão ao mesmo sítio onde lhes passaram o “laser” e pagam uma fortuna igual para fazer um implante.