Cinema Nova, numa via cuja tradução seria algo como "Rua da montanha com ervas para a sopa"
Rue des Sables
Hotel Queen Anne, Boulevard Emile Jacqman
Magritte na Place Royale
"Gauffres" junto ao Manneken Pis, Rue de l'Étuve
E "Manneken Pis" logo a seguir às "gauffres", mesma rua
Venha mais uma bojeca, nove e meia da manhã, Place des Martyres
Touro na Place Sainte Gudule
Tocador de Xilofone à saída das galerias St. Hubert, na Rue du Marché aux Poules (tocava bem)
Tocador de "pipeline" na Rue du Midi, por trás da Bolsa. Parecia a sirene de um petroleiro mas é de admirar um tipo que se aguente de cócoras tanto tempo.
Visita ao Atomium, no parque do Heysel, junto ao estádio onde a moderna civilização britânica se entreteve a esmagar umas dezenas de italianos e onde a UEFA fez jogar uma final da taça dos campeões mesmo ao lado dos cadáveres fresquinhos. Como é que é o "slogan"? Ah, "we love football". Pois, "and cash, too".
Para quem gostar de bolas grandes, um passeio que se recomenda.
Na esfera mais alta, a cem metros de altura, um miradouro de onde se vê a Mini-Europa, no Brupark. Aqui, o castelo de Guimarães, a Torre de Belém e o Oceanário, à escala 1/25.
No interior das esferas do meio, uma interessante mostra da exposição de 1958, que acaba por nos revelar o ambiente optimista e futurista da Europa dos "trinta gloriosos". Aqui, a memória do pavilhão da URSS, na pujança do seu poderio nuclear e espacial.
A dona-de-casa cercada de electrodomésticos. Já o Lenine dizia que o socialismo era o poder dos sovietes mais a electricidade. E em 1958, no Ocidente, a perspectiva andava lá perto: o futuro era o capitalismo mais a electricidade.
A Grande Place não podia faltar. Aqui a magnífica fachada noroeste. A casa à direita foi construída no século XVII pela guilda dos padeiros. Em Bruxelas, eram os padeiros que queriam ser vistos, mais do que os outros a querer vê-los.
A flecha do Hôtel de Ville, construída em 1449 por Jan van Ruysbroeck. Este edifício foi o único que resistiu aos canhões de Luís XIV, em 1695.
"Pub" castiço na Rue Archimède
Villa Germaine, no Square Ambiorix.
Square Ambiorix
Parc de Bruxelles
Palácio do Albert
Galerias St.Hubert
E mais galerias St.Hubert
Praça Sainte Catherine, com o regato gelado.
Place de la Brouckère, com edifício do séc. XIX e bebida do séc. XX
Esta quinta dei uma aula no Técnico às oito da manhã. Entrei na portaria para buscar o comando do projector que uso para explanar a minha magna sapiência. O aparelhómetro flutua nas alturas, a cinco metros de pé direito, solidamente preso ao tecto por uma carapaça metálica que o envolve completamente, talvez para que o futuro da engenharia portuguesa não tenha a tentação de o gamar. Com tão robusto cinto de castidade à volta, não existe onda emitida pelo comando que o penetre. Normalmente passo os primeiros dez minutos de aula percorrendo a sala de pata no ar e comando na mão, carregando furiosamente no “on”, rezando para encontrar o ângulo aleatório e exclusivo que porá a maquineta a ronronar.
Os alunos, compungidos, tentam dar uma ajuda: “Professor! Parece-me que nesta sala é ao pé da última cadeira da fila de trás”. Cada sala de aulas, de entre dezenas, possui o seu sítio mágico onde a persistência do Homem vence as leis da Física que asseguram que uma barreira metálica perturba um feixe electromagnético. Perde-se tempo e dinheiro: minutos vezes pessoas vezes número de aulas vezes o custo unitário desta gentalha toda, olhando ansiosa para o tecto como quem espera um milagre, apesar de estudar numa das catedrais do racionalismo científico em Portugal. Com esse dinheiro comprar-se-iam muitos projectores, se por acaso algum fosse roubado.
Às vezes perco a paciência e atiro de voo o comando para a mole de estudantes, prometendo um valor extra na nota final àquele que conseguir. Perfeitamente legítimo e até pedagógico: a sociedade costuma tratar como heróis os que estão no sítio certo à hora certa para realizar tarefas quase impossíveis.
Enquanto eu preenchia o formulário para levar o comando (não vá um docente lembrar-se de se locupletar com tão útil objecto), apareceu um colega a queixar-se:
- Vou dar aula no anfiteatro 5 e a porta está fechada.
- Mas a porta pequena de trás está aberta, senhor professor! A minha incumbência é só a porta pequena!
Havia greve nesse dia e o outro porteiro faltara. Percebi então que cada um deles tinha sua responsabilidade e não sei se sua chave: havia o porteiro da porta grande e o porteiro da porta pequena, ambos perfeitamente cientes dos limites da sua “job description”.
Quando finalmente recebi o comando, o porteiro (da porta pequena) revelou-me com ar satisfeito: “Hoje já tem pilha, professor”. Realizei que me deveria considerar feliz por me passarem para a mão um comando que funcionava. Pelo menos iria poder tentar ligar o projector. Chegado diante da sala, o magote de alunos avisou em coro que a porta não abria. Subi as escadas laterais e verifiquei que a portinha do topo do anfiteatro estava apenas encostada. Chamei a malta e entrámos pela porta pequena, em fila sorrateira. Eles sentaram-se e eu comecei a dardejar de comando na mão, perante a indiferença electrónica do projector.
2º Acto
No início de Fevereiro tive o meu primeiro embate com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o afamado SEF. Um dos meus filhos, o de dezassete, viajava para o México em paródia de finalistas com o resto da sua turma. Na mesma semana, viajei eu com o mais pequeno até à Bélgica e à Holanda, apenas os dois porque a minha mulher não podia tirar férias nesses dias.
Começou então a saga das autorizações de saída a assinar pelos pais. Para o mais velho, punha-se a questão do “acompanhante” e do “destino”.
A minuta de autorização constante do “site” do SEF incluía:
“na companhia de* ____, com o BI __, etc.” e um “para __________(país(es)/cidade(s) de destino) pelo período de* _____(dias/meses)”.
Em baixo da minuta, explicava-se que o asterisco significava que se devia preencher “em caso de necessidade”, fosse lá o que isso fosse. Ora o meu filho viajava em regime de turba desorganizada, sem acompanhante responsável. Na agência de viagens disseram-lhe que – em princípio, claro está – a autorização não precisava de referir nem acompanhante nem destino. Aparentemente não havia necessidade.
Só que quando cheguei à notária para reconhecer as assinaturas, esta achou que sem acompanhante havia risco de o rapaz ficar em terra. Citou um caso recente que lhe ocorrera, em que uma moça de dezasseis anos fora barrada no aeroporto, apesar de autorização em devida forma. Sugeriu adicionar uma frase nova à minuta, da sua lavra, que expressamente referisse que o deixávamos viajar sozinho. Fui à procura das muitas leis. Originalmente, havia obrigatoriedade de acompanhante, mas um decreto-lei posterior tornara-o facultativo. Perante os receios da notária, perante as certezas da lei, e não fosse algum funcionário do SEF embirrar que a sacrossanta minuta não tinha sido respeitada na íntegra, acabei por pagar duas autorizações, uma de cada paladar.
Com o mais pequeno, que saía só comigo, as dúvidas agravaram-se. O “site” do SEF afiançava que filhos de pais casados podiam ir com um dos cônjuges sem autorização do outro. Mas uma colega minha, casadinha da Silva e viajando com o marido e com a autorização e com tudo, vira a sua filha ser interrogada pelos zelosos oficiais, que lhe perguntaram, sem que ela entendesse porquê, se conhecia aqueles senhores. Como a página do SEF garantia uma coisa e o pessoal do SEF fazia outra, decidi tirar teimas ligando – erro fatal – para o “call-center” do SEF.
Atendeu-me uma inconfundível voz oriental:
- SEFi, bom díá, fálá Yôko.
- Bom dia, queria confirmar que, sendo eu casado e indo viajar com um filho menor, não preciso de autorização escrita da minha mulher.
- Cómó sinhô, não entendu.
- Se para viajar para o estrangeiro com um filho menor preciso de apresentar autorização escrita da minha…
- Não compriendu sinhô! O sinhô é putuguês?
Apeteceu-me dizer “eu sim, mas parece que sou o único”. Mas contive-me e repeti pausadamente a pergunta, com uma paciência de chinês. A Yoko finalmente compreendeu:
- Ah! Não pódi!
- Como?
- Não pódi!
- Mas na “Internet” o SEF diz que se for casado posso.
- Um mumentu!
Senti aquele vácuo sonoro de quando se é posto “off-line”. Passados dois minutos, ouvi um estalido e reapareceu a Yoko:
- Pódi!
- Perdão?
- Pódi!
- Tem a certeza?
- Pódi!
- Muito obrigado e boa tarde.
- Pódi!
Desliguei, ainda assim aliviado por não me ter calhado um operador de pronúncia ucraniana ou kibunda. Mas não fiquei muito tranquilo com a volatilidade de opiniões da Yoko. Telefonei para o atendimento ao cliente da TAP. Exposto o problema, a pessoa que atendeu aconselhou-me a levar uma autorização. Retorqui que o “site” do SEF informava que não era necessário, ao que o interlocutor, quase paternal, comentou:
- Convém levar. Eles às vezes pedem.
Lá marchei eu para o cartório notarial, para mais um reconhecimento. Ao todo foram três vezes vinte euros e muitas horas, por três papéis dos quais só um a lei o exigia.
Obviamente, na hora da verdade, o SEF não pediu papéis a ninguém e pudemos embarcar na paz do Senhor. Ao fim e ao cabo, a Yoko tinha razão: pódi!
3º Acto
Esta foi há mais tempo – e mais triste.
Na sala de espera da radioterapia do hospital de Santa Maria, mínima, soturna, atravancada pelas macas elevadas onde jazia gente que a morte cobiçava, havia uma televisão. Sempre ligada, debitava em volume alto, inapagável e indiferente ao sofrimento das pessoas que ali esperavam, que pediam recolhimento e não a voz estridente do Vítor Mendes a apregoar cafeteiras e atoalhados turcos.
Só que essa têvê não tinha imagem, apenas um ziguezaguear de cores. A antena exterior quebrara e não havia orçamento para a reparar.
O som abominável daquele aparelho avariado lembra-me, ainda hoje, a orquestra que tocava em Auschwitz enquanto o fogo crepitava nos fornos.
Um dos homens deitados nessas macas era o meu pai, que tanto amava Portugal. E que não merecia, ele como os outros, levar como última imagem desta terra sem desculpa uma sala de espera aos caídos com uma televisão que, tal como o próprio país, fazia de conta que funcionava.
Passanço final
Tudo isto seria cómico se não fosse trágico, costuma dizer-se.
São apenas três exemplos de um país que se compraz a fingir.
A fingir que há organização porque cada porteiro abre sua porta. A isto chama-se sub-emprego e é típico de países do terceiro mundo.
A fingir que há leis quando afinal a necessidade de autorizações de saída é ditada pela boa vontade ou pelo mau humor do funcionário do SEF que nos olhe desde a guarita.
A fingir que há atenção pelos utentes (palavra tão portuguesa que significa vítima do sistema) quando o que se passa é desprezo do mais profundo.
Depois admiram-se que apareçam défices malucos. Um país onde existem porteiros da porta pequena há-de sair por essa mesma porta.
A bandeira do Brasil tem no centro uma fita que diz “ordem e progresso”. Cá, podiam aproveitar o centenário da instauração da república para colocar na bandeira, à volta da esfera armilar, uma tarja onde se lesse “granel e pagode”.
Há luxos que excedem as posses do possessor. Carros de marca que mirram o orçamento em revisões e reparações de farolins. Cavalos que necessitam de estábulo, tratador, veterinário. Barcos atracados em marinas usurárias, chupando galões de combustível em cada trajecto entre ancoradouros. Amantes exigentes, requerendo jantares exclusivos e suites presidenciais.
E esta verdade, se verdadeira para as pessoas, também o é para os países. Portugal arrasta um luxo pesado demais para a sua parca bolsa: as regiões autónomas. Em particular, a da Madeira.
Da primeira vez que fui à Madeira, em 1991, levei quase duas horas de carro do Funchal a Porto Moniz, numa estrada serpenteando pelas levadas. Da segunda, há três anos, foi coisa para vinte minutos em auto-estrada sem estrada, uma vez que praticamente uma sequência de túneis e viadutos, com um custo por quilómetro semelhante ao de uma expedição lunar da NASA. Entre essas duas visitas, no Lido, os hotéis tinham crescido como cogumelos; os clubes de futebol da região disputavam lugares europeus; o rendimento por cabeça ultrapassara a média nacional. Para lembrar a Madeira de outrora sobravam apenas as crianças de Câmara de Lobos que continuavam com o mesmo ar de miséria e a mesma fama de malandras na boca da burguesia funchalense.
Para este milagre económico contribuíram algum crescendo da actividade local, em particular turística, bastantes fundos comunitários, os capitais que circulam pela zona franca, mas, sobretudo, eu e você. Apesar de no final dos anos noventa a República ter perdoado duas vezes um montão de caroço devido pela região, a Madeira continuou a cravar e aguenta hoje um serviço de dívida que excede o seu produto. O conjunto dos Portugueses tem 4600 milhões de euros de obrigações financeiras associadas a região. Só cá em casa são quase dois mil euros de património que estão de alguma forma onerados pelas necessidades madeirenses, praticamente o mesmo valor que para com o total dos municípios do “Continente”, como eles dizem, provavelmente assim chamado por ter que se conter nas suas próprias despesas para poder ajudar ao desmando insular.
Esperar-se-ia que a Madeira ficasse um poucochinho grata por esta demonstração de simpática coesão nacional. De algum modo, ando eu a lixar as suspensões do carro nos buracos da minha rua em Lisboa para que os mil habitantes de Santana cheguem num tirinho ao centro do Funchal. Enquanto eu tremo que nem varas verdes quando chega a carta do IRS, o madeirense abre-a tranquilo, sereno nas suas excepcionais condições fiscais. Mas não: afinal, pela voz do soba local, eleito sistematicamente com maiorias quase tão gordas como as peles da sua papada, verifica-se que não se acham satisfeitos. Mais: insultam-nos, apodando-nos de cubanos nos dias amenos e de imbecis para cima nos dias restantes, mordendo a mão que, mais do que lhes dar de comer, os banqueteia opiparamente.
A condescendência com que no tal “Continente” tratamos as sacanices e as alarvidades de Alberto João Jardim sempre me intrigou como um dos maiores mistérios da vida política portuguesa. Talvez porque eu seja ingénuo e pense que a covardia tem limites. De facto, aquela reacção que se vê nos partidos e em muita imprensa, de lhe achar graça por ser um palhaço inimputável, uma espécie de bobo da corte a quem tudo se perdoa, é uma forma de fingir amedrontadamente que nada se passa e que não há ali muitas questões a resolver, nem que seja em nome da decência. Os bobos da corte medievais estavam autorizados a desbocar-se à frente do rei, mas não andavam a derreter o tesouro real e sabiam que se pisassem o risco respondiam com o seu pescocinho.
E eu cá não acho piada nenhuma a Jardim. Nem o creio louco. Pelo contrário: é um autocrata inteligente que sabe manipular quer os anseios e receios dos madeirenses, quer os complexos e defeitos dos continentais para financiar e perpetuar uma coutada de poucos paga com o dinheiro de todos. E que envergonha o país com o simulacro de democracia que ocorre no território, mais até que quando passeia de cueca na avenida ou nos insulta de chapéu de palha no comício do Chão da Lagoa.
A inacção da República face a Jardim surpreende-me tanto mais que tirá-lo de lá não me parece complicado. Para um primeiro-ministro, existem tarefas fáceis mas aborrecidas e outras difíceis mas divertidas. Ver-se livre de Jardim será simultaneamente fácil e divertido e um desígnio nacional. Não se percebe pois que nunca dedicaram a tão útil missão o tempo necessário.
Bastaria uma auditoria fiscal permanente e exaustiva, vinda de Lisboa, sobre as empresas de algumas famílias da região, seleccionadas, descobrindo tudo e punindo pelo máximo. Passado pouco tempo as tais famílias perceberiam. Passado um pouco mais Jardim sairia pelo próprio pé. Aquele tipo de regimes funciona assim.
Outra hipótese, que reconheço viola o respeito que os políticos devem à integridade do território nacional, seria ameaçar com a concessão da independência, deixando-a tornar-se uma república das bananas de corpo inteiro. Imagino o pânico na ilha perante a perspectiva de terem que se desenrascar sozinhos. Da maneira como se endividam em menos de nada tornar-se-iam uma Guiné flutuante.
Compreendo, obviamente, a especificidade dos Açores e da Madeira no todo português. Mas não entendo como é que a Madeira, que são só duas ilhas e não nove, tendo por isso menos repetição de infra-estruturas, acumula cinco vezes mais dívida que os Açores. A estes níveis, já não podemos falar de custos de periferia. Com perdão da má palavra, isto é chulice pura e dura.
E a propósito de palavrões, nesta sexta-feira Jardim conseguiu ch… obter mais umas centenas de milhões, em pleno quadro de uma crise de credibilidade de Portugal nos mercados financeiros que vamos pagar com língua de palmo. Fazendo valer o peso dos militantes do PSD Madeira numa altura em que as eleições para um novo líder estão aí à porta, vergou a seu bel-prazer o PSD, arrastando ainda o PCP, o Bloco e o PP, todos numa de quanto pior, melhor, para a aprovação de uma lei de finanças regionais que já seria indecente em tempos normais, quanto mais agora.
Ficámos pelo menos a saber quanto vale este PSD. Achei particularmente indecoroso o Aguiar Branco, com o penteadinho marialva e o seu ar mais verdadeiro, a garantir aos portugueses que a baratíssima aprovação desta lei não influenciaria o “rating” internacional do Estado português, exactamente na mesma altura em que em toda a “Internet”, da Reuters ao Financial Times, os analistas anunciavam que a capacidade do governo em travar a lei seria um sinal da seriedade com que Portugal iria enfrentar a questão do défice.
Escreveu Camões, sobre o nosso D. Fernando, que um fraco rei faz fraca a forte gente. Com a oposição que temos, passa-se o efeito inverso. Ao lado das Leites e dos Pachecos, até o Luís Filipe Menezes, dos poucos do PSD a quem ouvi dizer que esta aprovação era um disparate, parece um estadista. Até o Teixeira dos Santos bota figura de mago das finanças. Pasme-se: até o Sócrates soa a salvador da pátria!
I can turn
And walk away
Or I can fire the gun
Staring at the sky
Staring at the sun
Whichever I choose
It amounts to the same
Absolutely nothing
I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
The Cure, in “Killing an Arab”
Passaram esta semana cinquenta anos sobre a morte de Albert Camus, num automóvel enfeixado contra uma árvore. A efeméride deslizou discreta pelo meio do esquecimento geral. Poucas mas honrosas excepções, entre as quais cinco minutos num telejornal da RTP.
Neste blogue, não será anormal que se faça esta referência. Porque Camus anda por aí de passeio, discreto mas presente, nas linhas e entrelinhas dos cento e tal textos que aqui pus a público.
De facto, Camus é certamente o escritor e o pensador que mais me influenciou ou, melhor, modificou. Apanhou-me na altura certa. Li quase toda a sua obra entre os quinze e os vinte anos, que é quando os livros ferram mais. Li o romancista, o dramaturgo, o jornalista e o filósofo. Destes, gostei menos do último, porque lhe faltava a clareza cristalina dos outros. Aliás, o próprio escreveu: se queres ser filósofo, escreve romances.
Antes de Camus, antes de Meursault e de Rieux, o planeta que eu via à minha volta parecia bem-encaminhado, rumo aos amanhãs canoros em que seríamos todos amigos e iguais. Havia certezas e até convinham.
Depois do estrangeiro e da peste, as coisas já não se mostravam tão simples. A dúvida instalou-se, descobri que bem-vinda. O sentido deixou de ser evidente. Mas existe e até faz mais sentido.
Recordo, da minha primeira leitura de “O estrangeiro”, a diferença e a crueza que senti. Ali estava um tipo que não se punha com tretas e descrevia as coisas como elas eram. Ali estava um livro que não mentia sobre um homem que tinha para com a vida toda a franqueza do mundo. E o mundo tinha ao fim e ao cabo o seu quê de absurdo. Aqueles personagens que se iludiam encontravam uma felicidade de periferia, suportadas por aparências de glória, honradez ou felicidade. O estrangeiro, Meursault, que não mentia a si próprio, percebia que os homens eram erráticos como as partículas no movimento browniano, impelidas por moléculas invisíveis a olho nu. Percebia que o destino de cada um podia traçar-se por um acaso, por um reflexo de sol no mar ou pelo torvelinho de circunstâncias que o levou a matar um árabe e a morrer por isso, aceitante.
“O estrangeiro” instalou em mim a dúvida metódica, que cultivo até hoje ou que até hoje me apoquenta, não sei bem. A minha pergunta deixou de ser “para onde vamos” para se tornar “quem ou o quê nos empurra”.
Mas essa nova visão, sendo rica, não me chegava, como não lhe chegou a ele. Veio a Segunda Guerra, a França foi ocupada e martirizada. Camus poderia ter aceite esse destino com indiferença, como Meursault aceitou o seu. Mas não. Lutou, participou na resistência, escreveu na clandestinidade, com grande risco pessoal. Os seus magníficos ensaios no jornal “Combat” são um monumento de tolerância e humanidade, redigidos num momento tenso em que o sectarismo poderia aceitar-se (por outros, que nunca por ele). Escreveu, a 25 de Agosto de 1944, no último dia de combates pela libertação de Paris, o seguinte: “Nada é dado aos homens e o pouco que podem conquistar paga-se com mortes injustas. Mas não é aí que está a grandeza do homem. Está na decisão de ser mais forte que a sua condição. E se a condição é injusta, não há outro modo de a ultrapassar que não seja ser justo. A nossa verdade esta noite, a que plana neste céu de Agosto, é a que traz o consolo ao homem. E é a paz do nosso coração, como seria a dos nossos camaradas mortos, poder dizer diante da vitória regressada, sem espírito de retorno ou de reivindicação: “Fizemos o que era preciso”.”
Afinal sempre existia um sentido para a vida: fazer o que era preciso e vencer as nossas limitações, revoltando-nos contra o absurdo e trazendo ao de cima o melhor que há em nós, em cada um de nós. Dizia ele: “Creio no homem, não na humanidade”. Tudo isto, que aqui descrevi em termos simplistas, escreveu-o ele em “A peste”, num dos mais belos romances que se possa ler.
“O estrangeiro” e “A peste” não são apenas duas fases do pensamento e da vida do seu autor. São duas caras do mesmo Janus, olhando o mundo segundo duas direcções diferentes, mas partes de um todo. A segunda, surpreendentemente, possibilita-nos um optimismo que nos falha na primeira. Mas sem perder a lucidez. No último parágrafo de “A peste”, quando na cidade se celebra o fim da epidemia, o personagem principal, o doutor Rieux, reflectia que “…este contentamento estava sempre ameaçado. Porque ele sabia o que a multidão alegre ignorava, e que se pode ler nos livros, que o bacilo da peste não morre nem nunca desaparece, que pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, que espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e nas papeladas, e que, talvez, viria o dia em que para desgraça e lição dos homens a peste acordaria os seus ratos e enviá-los-ia para morrer na cidade feliz.”
Passa-se o mesmo com os bacilos da intolerância, da ignorância, da soberba e outros igualmente mortais. Mas, diz o ditado, enquanto o pau vai e vem folgam as costas.
Para além de um pensador e de um combatente, Camus foi um grande escritor, com uma prosa depurada e elegante mas densa, onde cada palavra tinha o seu papel. Um exemplo: descrevendo a sua ida para o liceu, oriundo de um meio social muito simples (a mãe era analfabeta), diz “conheci a comparação”. Não fala da discriminação ou da rejeição ou da humilhação, que são efeitos e que são os vocábulos que normalmente usaríamos. Usando a palavra certa, fala da causa, a comparação. E faz pensar: com que direito, no dia-a-dia, comparamos pessoas, quando deveríamos comparar atitudes e comportamentos?
Lendo a sua obra e conhecendo a sua vida, verifico ainda que por feliz coincidência Camus, tendo certamente os seus defeitos, foi um tipo porreiro e decente, características que nem sempre andam juntas: conheço gente decente que se porta como uma besta e malta porreira que esfaquearia sem hesitar pelas costas. Quando ganhou o prémio Nobel da literatura escreveu ao seu antigo professor primário, Louis Germain, que dera pelas suas qualidades numa escola pobre da Oran colonial e diligenciara para que ele pudesse continuar a estudar. Nessa carta, entre outros momentos que vale a pena ler, disse-lhe: “… apesar da idade, não deixei de ser o seu reconhecido aluno.” Humildade e gratidão, que tanto falham hoje em dia.
O mundo em que vivemos não diferirá muito, naquilo que mais importa, daquele que Meursault e Rieux contemplavam das suas janelas. Continua absurdo, urdidura de aparências e convenientes correcções que como uma cortina tapam a incoerência essencial. Hoje, o que nos falta é a mão estrangeira de um Camus, que levante a cortina, e a sua voz, que nos peça para pensarmos sobre o que vemos.
Ontem, a popularíssima república chinesa executou por injecção letal um inglês com problemas mentais, Akmal Shaik, que servira de correio de heroína a proveito de traficantes da província de Xinjiang, possivelmente sem o perceber. Foi um de milhares a ser executados durante o ano no Império do Meio, aquele no mundo que mais condena à morte. Apenas causou um pouco mais de efervescência por ser um europeu: segundo a imprensa, o primeiro-ministro britânico criticou a ocorrência em “termos fortes”, ao lamentar que os pedidos persistentes de clemência não tenham sido satisfeitos.
A força destes termos nem deve ter chegado para perturbar a hora do chá da nomenclatura chinesa. Afinal, um demente longínquo cabe na cova do dente ao partido que tem no currículo o Grande Salto em Frente, a maior fomeca jamais fomentada pelo homem, que no final dos anos cinquenta matou inadvertidamente uns muito largos milhões ou a Revolução Cultural dos anos sessenta, com o seu cortejo de tropelias a afectar outra vez uma data de milhões, centenas de milhar dos quais no seu próprio direito à vida. Isto só para citar dois dos disparates mais evidentes.
À estonteante força verbal britânica, as autoridades chinesas reagiram nestes termos pacatos: “Ninguém tem o direito de dizer mal da soberania judicial da China. Expressamos o nosso forte desagrado e determinada oposição às injustificadas acusações britânicas. E instamos o Reino Unido a corrigir os seus erros e a evitar prejudicar as relações bilaterais.” Por outras palavras: “se queres continuar a fazer negócio, deixa-te de tretas.” Claro que se vão deixar.
A persistência da pena de morte neste malfadado planeta mostra como nos encontramos, globalmente, ainda tão longe de ser civilizados. A pena de morte é a barbárie com papel passado. Não há razão ética que justifique que homens terminem a vida de outros tendo como alternativa não fazê-lo. E qualquer uma das razões práticas que frequentemente se invocam em sua defesa não passa de um mito. Não existe qualquer correlação positiva entre a aplicação da pena de morte e a redução de criminalidade. O número de erros judiciais que se descobrem “a posteriori” da execução diria só por si o suficiente. Ineficaz e iníqua, a pena de morte serve apenas para ajudar ditadores a resolver os seus problemas ou para acalmar as ânsias por um mundo sem riscos de mentes pequeno-burguesas que seriam incapazes de serem elas a fazer o trabalho sujo.
Dizia Camus, a pensar nos valentes de peito feito que clamam por rigor extremo contra a bandidagem, que só não desprezaria um defensor da pena de morte se este fosse o próprio a apertar o gatilho.
Não serve como consolo o facto de os países que mais levam a cabo execuções corresponderem normalmente a sociedades de menor calibre civilizacional, como a China, o Irão, os Estados Unidos, a Arábia Saudita ou o Paquistão. Todos os outros, que não praticam, fecham rapidamente os olhos assim que há algum dinheiro em cima da mesa ou por baixo dela.
Mas, surpreendentemente, pode haver pior. Tal como há infinitos com mais números que outros, também há horrores mais deprimentes que outros. Na Arábia Saudita, neste 2009 que agora expira, uma mulher de 75 anos, Khamisa Mohammed Sawadi, foi condenada a quarenta chicotadas, quatro meses de prisão e deportação para a Síria, de onde é originária. O seu crime: ter sido apanhada pela Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a polícia religiosa saudita, no mesmo espaço físico de dois homens que lhe tinham vindo trazer pão, uma vez que a senhora é doente e pobre.
Acontece que, na Arábia Saudita “wahabita”, a simples presença simultânea de homens e mulheres que não sejam parentes no mesmo espaço físico configura potencialmente um crime religioso. Que isto assim seja indicia uma deformação psicológica e uma tara sexual, graves, numa parte significativa da população saudita. Digamo-lo sem medo das palavras: esses tipos são atrasados mentais. E só assim se compreende que condenem a chicotadas igualmente os homens que, ao trazer pão à senhora, evidenciaram apenas uma das mais nobres características humanas: a solidariedade.
Não existem muitas diferenças entre quem promove esta Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício que chicoteia velhotas e os nazis que organizaram a “Solução Final” que asfixiava velhotas e crianças em campos de extermínio. Apenas uma: a Arábia Saudita produz e regula o preço do petróleo de que o Ocidente necessita. O que explica muitos silêncios. Ficamos a pensar que se a Alemanha, em 1939, possuísse o monopólio de alguma matéria-prima fundamental talvez tivesse podido invadir a Polónia com maior tranquilidade, sem provocar aquele banzé todo.
Nesta quadra em que jornais e revistas elegem o facto mais relevante ocorrido no ano, a condenação a quarenta chicotadas de Khamisa Mohammed Sawadi poderia muito bem ser candidata ao título. Mas não teria o meu voto: eu elegeria, pelo que tem de revelador sobre quem nós somos na realidade, a discrição comprometida com que o resto do mundo aceita que se torture uma velhinha a troco de barris de petróleo.
Apesar destas desgraças, Mataspeak deseja a cada um dos seus leitores um Feliz Ano Novo.
25 de Dezembro, oito e meia da manhã. Lisboa dorme a sono solto, digerindo com esforço os excessos da quadra, o chão da casa pejado de papel rasgado e fitas coloridas. Em frente à igreja de Benfica, a calçada generosa lembra o recato de uma praça de aldeia: com o silêncio deserto que a passagem de uma silhueta atabafada meramente sublinha e o tapete negro da estrada esperando a viatura ocasional que se ouve ainda distante. As lojas, engalanadas, repousam do frenesim dos dias anteriores em que facturaram meio ano à conta do sentimento de obrigação de retribuir. Algumas, ainda iluminadas, pintam de um tom amarelado a cacimba ténue que como um mistério aconchega a cidade enregelada.
Entro, passado tanto tempo, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, onde há quase quatro décadas recebi primeira comunhão pelas mãos da figura severa do padre Proença, hoje perenizado num busto de bronze como um Han Solo de adro. No centro paroquial adjacente fui bom aluno de catequese, ministrada por moças de cabelo apanhado por um gancho e pesados óculos de massa, de trás dos quais contavam com voz doce histórias dos evangelhos que não me fizeram mal nenhum, antes pelo contrário, acho eu. Um dia anunciei em casa que já não valia a pena ir por não acreditar naquelas coisas, para certo desconforto de minha mãe. De repente, Deus ficou sem espaço na minha vida, substituído por fés mais prometedoras (aos doze anos pareciam) como a ciência ou a humanidade, e partiu sereno. Também, não Lhe devo fazer grande falta.
Lá dentro, sou surpreendido pelo burburinho sumido de uma casa cheia, sentada ordeira nos bancos corridos, numa presença humana que contrasta com o vazio da rua e a mudez vertical do templo, um grosso caixote oitocentista, de um barroco modesto, a que o tempo conferiu mais vigor do que beleza. São sobretudo mulheres idosas, envoltas em pesados casacos escuros e cachecóis tricotados, que esperam pacientemente o início das palavras mágicas que, para muitas, encherão algum do vazio criado pelas saudades dos que foram e pela ausência dos que ainda cá estão. A cada minuto, bate a porta de entrada e entra mais uma, que busca um lugar como que guardado para ela, arrastando atrás de si um bichanar de cumprimentos murmurados.
Encosto-me a um pilar de lado e permaneço de pé. Assim faço sempre numa igreja. Não me sento, não me ajoelho, não me benzo: mantenho-me quietinho, o que atrai alguns olhares entre o curioso e o desconfiado. Não poderia ser de outra maneira: aquilo que para outros simboliza o divino, como um sinal da cruz, feito por mim que não creio seria um mero macaquear e uma suma falta de respeito. Ali me quedo em silêncio.
Começa a eucaristia, passo a passo, iguais a cada dia e a cada século, como uma procissão centenária que percorre sempre as mesmas capelas e as mesmas esperanças. A dado momento, o padre cita alguns nomes a que a celebração especialmente se dedica. Um deles o do meu pai, razão da minha presença ali, inicialmente mal referido pelo cura: “Mota”. O velho Mata ter-lhe-á lançado lá de cima algum aperto fulminante porque logo emenda, ajustando os óculos: “Perdão, Mata. Américo Mata”.
Durante o sermão, dedicado ao sentido da celebração natalícia, o padre, recorrendo a uma linguagem jornalística, comenta que o Natal pode estar em alta, mas Jesus está em baixa. E alerta para que não se faça confusão entre a simplicidade, que o Natal deveria inspirar, e a simploriedade que a nossa sociedade transpira e que neste final de Dezembro parece que se amplifica. Por momentos identifico-me com aquele homem de paramentos do qual tudo me separa mas que me traz numa bandeja a palavra que me faltava para perceber as correrias aos centros comerciais e os ramos de azevinho digitais no canto dos ecrãs televisivos: simploriedade.
A missa termina, as portas abrem-se, a luz matinal ofusca, atraindo a romaria bamboleante dos fiéis que, de pé, se vai lentamente libertando dos bancos corridos. Descubro a minha mãe no meio da multidão, surpresa de me ver ali, deixo-a em casa e regresso à minha, onde tudo dorme ainda, onde restos de papel acetinado ainda juncam o soalho e o cheiro dos doces se evapora pela porta da sala.