Visita ao Atomium, no parque do Heysel, junto ao estádio onde a moderna civilização britânica se entreteve a esmagar umas dezenas de italianos e onde a UEFA fez jogar uma final da taça dos campeões mesmo ao lado dos cadáveres fresquinhos. Como é que é o "slogan"? Ah, "we love football". Pois, "and cash, too".
Para quem gostar de bolas grandes, um passeio que se recomenda.
Na esfera mais alta, a cem metros de altura, um miradouro de onde se vê a Mini-Europa, no Brupark. Aqui, o castelo de Guimarães, a Torre de Belém e o Oceanário, à escala 1/25.
No interior das esferas do meio, uma interessante mostra da exposição de 1958, que acaba por nos revelar o ambiente optimista e futurista da Europa dos "trinta gloriosos". Aqui, a memória do pavilhão da URSS, na pujança do seu poderio nuclear e espacial.
A dona-de-casa cercada de electrodomésticos. Já o Lenine dizia que o socialismo era o poder dos sovietes mais a electricidade. E em 1958, no Ocidente, a perspectiva andava lá perto: o futuro era o capitalismo mais a electricidade.
A Grande Place não podia faltar. Aqui a magnífica fachada noroeste. A casa à direita foi construída no século XVII pela guilda dos padeiros. Em Bruxelas, eram os padeiros que queriam ser vistos, mais do que os outros a querer vê-los.
A flecha do Hôtel de Ville, construída em 1449 por Jan van Ruysbroeck. Este edifício foi o único que resistiu aos canhões de Luís XIV, em 1695.
"Pub" castiço na Rue Archimède
Villa Germaine, no Square Ambiorix.
Square Ambiorix
Parc de Bruxelles
Palácio do Albert
Galerias St.Hubert
E mais galerias St.Hubert
Praça Sainte Catherine, com o regato gelado.
Place de la Brouckère, com edifício do séc. XIX e bebida do séc. XX
Esta quinta dei uma aula no Técnico às oito da manhã. Entrei na portaria para buscar o comando do projector que uso para explanar a minha magna sapiência. O aparelhómetro flutua nas alturas, a cinco metros de pé direito, solidamente preso ao tecto por uma carapaça metálica que o envolve completamente, talvez para que o futuro da engenharia portuguesa não tenha a tentação de o gamar. Com tão robusto cinto de castidade à volta, não existe onda emitida pelo comando que o penetre. Normalmente passo os primeiros dez minutos de aula percorrendo a sala de pata no ar e comando na mão, carregando furiosamente no “on”, rezando para encontrar o ângulo aleatório e exclusivo que porá a maquineta a ronronar.
Os alunos, compungidos, tentam dar uma ajuda: “Professor! Parece-me que nesta sala é ao pé da última cadeira da fila de trás”. Cada sala de aulas, de entre dezenas, possui o seu sítio mágico onde a persistência do Homem vence as leis da Física que asseguram que uma barreira metálica perturba um feixe electromagnético. Perde-se tempo e dinheiro: minutos vezes pessoas vezes número de aulas vezes o custo unitário desta gentalha toda, olhando ansiosa para o tecto como quem espera um milagre, apesar de estudar numa das catedrais do racionalismo científico em Portugal. Com esse dinheiro comprar-se-iam muitos projectores, se por acaso algum fosse roubado.
Às vezes perco a paciência e atiro de voo o comando para a mole de estudantes, prometendo um valor extra na nota final àquele que conseguir. Perfeitamente legítimo e até pedagógico: a sociedade costuma tratar como heróis os que estão no sítio certo à hora certa para realizar tarefas quase impossíveis.
Enquanto eu preenchia o formulário para levar o comando (não vá um docente lembrar-se de se locupletar com tão útil objecto), apareceu um colega a queixar-se:
- Vou dar aula no anfiteatro 5 e a porta está fechada.
- Mas a porta pequena de trás está aberta, senhor professor! A minha incumbência é só a porta pequena!
Havia greve nesse dia e o outro porteiro faltara. Percebi então que cada um deles tinha sua responsabilidade e não sei se sua chave: havia o porteiro da porta grande e o porteiro da porta pequena, ambos perfeitamente cientes dos limites da sua “job description”.
Quando finalmente recebi o comando, o porteiro (da porta pequena) revelou-me com ar satisfeito: “Hoje já tem pilha, professor”. Realizei que me deveria considerar feliz por me passarem para a mão um comando que funcionava. Pelo menos iria poder tentar ligar o projector. Chegado diante da sala, o magote de alunos avisou em coro que a porta não abria. Subi as escadas laterais e verifiquei que a portinha do topo do anfiteatro estava apenas encostada. Chamei a malta e entrámos pela porta pequena, em fila sorrateira. Eles sentaram-se e eu comecei a dardejar de comando na mão, perante a indiferença electrónica do projector.
2º Acto
No início de Fevereiro tive o meu primeiro embate com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, o afamado SEF. Um dos meus filhos, o de dezassete, viajava para o México em paródia de finalistas com o resto da sua turma. Na mesma semana, viajei eu com o mais pequeno até à Bélgica e à Holanda, apenas os dois porque a minha mulher não podia tirar férias nesses dias.
Começou então a saga das autorizações de saída a assinar pelos pais. Para o mais velho, punha-se a questão do “acompanhante” e do “destino”.
A minuta de autorização constante do “site” do SEF incluía:
“na companhia de* ____, com o BI __, etc.” e um “para __________(país(es)/cidade(s) de destino) pelo período de* _____(dias/meses)”.
Em baixo da minuta, explicava-se que o asterisco significava que se devia preencher “em caso de necessidade”, fosse lá o que isso fosse. Ora o meu filho viajava em regime de turba desorganizada, sem acompanhante responsável. Na agência de viagens disseram-lhe que – em princípio, claro está – a autorização não precisava de referir nem acompanhante nem destino. Aparentemente não havia necessidade.
Só que quando cheguei à notária para reconhecer as assinaturas, esta achou que sem acompanhante havia risco de o rapaz ficar em terra. Citou um caso recente que lhe ocorrera, em que uma moça de dezasseis anos fora barrada no aeroporto, apesar de autorização em devida forma. Sugeriu adicionar uma frase nova à minuta, da sua lavra, que expressamente referisse que o deixávamos viajar sozinho. Fui à procura das muitas leis. Originalmente, havia obrigatoriedade de acompanhante, mas um decreto-lei posterior tornara-o facultativo. Perante os receios da notária, perante as certezas da lei, e não fosse algum funcionário do SEF embirrar que a sacrossanta minuta não tinha sido respeitada na íntegra, acabei por pagar duas autorizações, uma de cada paladar.
Com o mais pequeno, que saía só comigo, as dúvidas agravaram-se. O “site” do SEF afiançava que filhos de pais casados podiam ir com um dos cônjuges sem autorização do outro. Mas uma colega minha, casadinha da Silva e viajando com o marido e com a autorização e com tudo, vira a sua filha ser interrogada pelos zelosos oficiais, que lhe perguntaram, sem que ela entendesse porquê, se conhecia aqueles senhores. Como a página do SEF garantia uma coisa e o pessoal do SEF fazia outra, decidi tirar teimas ligando – erro fatal – para o “call-center” do SEF.
Atendeu-me uma inconfundível voz oriental:
- SEFi, bom díá, fálá Yôko.
- Bom dia, queria confirmar que, sendo eu casado e indo viajar com um filho menor, não preciso de autorização escrita da minha mulher.
- Cómó sinhô, não entendu.
- Se para viajar para o estrangeiro com um filho menor preciso de apresentar autorização escrita da minha…
- Não compriendu sinhô! O sinhô é putuguês?
Apeteceu-me dizer “eu sim, mas parece que sou o único”. Mas contive-me e repeti pausadamente a pergunta, com uma paciência de chinês. A Yoko finalmente compreendeu:
- Ah! Não pódi!
- Como?
- Não pódi!
- Mas na “Internet” o SEF diz que se for casado posso.
- Um mumentu!
Senti aquele vácuo sonoro de quando se é posto “off-line”. Passados dois minutos, ouvi um estalido e reapareceu a Yoko:
- Pódi!
- Perdão?
- Pódi!
- Tem a certeza?
- Pódi!
- Muito obrigado e boa tarde.
- Pódi!
Desliguei, ainda assim aliviado por não me ter calhado um operador de pronúncia ucraniana ou kibunda. Mas não fiquei muito tranquilo com a volatilidade de opiniões da Yoko. Telefonei para o atendimento ao cliente da TAP. Exposto o problema, a pessoa que atendeu aconselhou-me a levar uma autorização. Retorqui que o “site” do SEF informava que não era necessário, ao que o interlocutor, quase paternal, comentou:
- Convém levar. Eles às vezes pedem.
Lá marchei eu para o cartório notarial, para mais um reconhecimento. Ao todo foram três vezes vinte euros e muitas horas, por três papéis dos quais só um a lei o exigia.
Obviamente, na hora da verdade, o SEF não pediu papéis a ninguém e pudemos embarcar na paz do Senhor. Ao fim e ao cabo, a Yoko tinha razão: pódi!
3º Acto
Esta foi há mais tempo – e mais triste.
Na sala de espera da radioterapia do hospital de Santa Maria, mínima, soturna, atravancada pelas macas elevadas onde jazia gente que a morte cobiçava, havia uma televisão. Sempre ligada, debitava em volume alto, inapagável e indiferente ao sofrimento das pessoas que ali esperavam, que pediam recolhimento e não a voz estridente do Vítor Mendes a apregoar cafeteiras e atoalhados turcos.
Só que essa têvê não tinha imagem, apenas um ziguezaguear de cores. A antena exterior quebrara e não havia orçamento para a reparar.
O som abominável daquele aparelho avariado lembra-me, ainda hoje, a orquestra que tocava em Auschwitz enquanto o fogo crepitava nos fornos.
Um dos homens deitados nessas macas era o meu pai, que tanto amava Portugal. E que não merecia, ele como os outros, levar como última imagem desta terra sem desculpa uma sala de espera aos caídos com uma televisão que, tal como o próprio país, fazia de conta que funcionava.
Passanço final
Tudo isto seria cómico se não fosse trágico, costuma dizer-se.
São apenas três exemplos de um país que se compraz a fingir.
A fingir que há organização porque cada porteiro abre sua porta. A isto chama-se sub-emprego e é típico de países do terceiro mundo.
A fingir que há leis quando afinal a necessidade de autorizações de saída é ditada pela boa vontade ou pelo mau humor do funcionário do SEF que nos olhe desde a guarita.
A fingir que há atenção pelos utentes (palavra tão portuguesa que significa vítima do sistema) quando o que se passa é desprezo do mais profundo.
Depois admiram-se que apareçam défices malucos. Um país onde existem porteiros da porta pequena há-de sair por essa mesma porta.
A bandeira do Brasil tem no centro uma fita que diz “ordem e progresso”. Cá, podiam aproveitar o centenário da instauração da república para colocar na bandeira, à volta da esfera armilar, uma tarja onde se lesse “granel e pagode”.
Há luxos que excedem as posses do possessor. Carros de marca que mirram o orçamento em revisões e reparações de farolins. Cavalos que necessitam de estábulo, tratador, veterinário. Barcos atracados em marinas usurárias, chupando galões de combustível em cada trajecto entre ancoradouros. Amantes exigentes, requerendo jantares exclusivos e suites presidenciais.
E esta verdade, se verdadeira para as pessoas, também o é para os países. Portugal arrasta um luxo pesado demais para a sua parca bolsa: as regiões autónomas. Em particular, a da Madeira.
Da primeira vez que fui à Madeira, em 1991, levei quase duas horas de carro do Funchal a Porto Moniz, numa estrada serpenteando pelas levadas. Da segunda, há três anos, foi coisa para vinte minutos em auto-estrada sem estrada, uma vez que praticamente uma sequência de túneis e viadutos, com um custo por quilómetro semelhante ao de uma expedição lunar da NASA. Entre essas duas visitas, no Lido, os hotéis tinham crescido como cogumelos; os clubes de futebol da região disputavam lugares europeus; o rendimento por cabeça ultrapassara a média nacional. Para lembrar a Madeira de outrora sobravam apenas as crianças de Câmara de Lobos que continuavam com o mesmo ar de miséria e a mesma fama de malandras na boca da burguesia funchalense.
Para este milagre económico contribuíram algum crescendo da actividade local, em particular turística, bastantes fundos comunitários, os capitais que circulam pela zona franca, mas, sobretudo, eu e você. Apesar de no final dos anos noventa a República ter perdoado duas vezes um montão de caroço devido pela região, a Madeira continuou a cravar e aguenta hoje um serviço de dívida que excede o seu produto. O conjunto dos Portugueses tem 4600 milhões de euros de obrigações financeiras associadas a região. Só cá em casa são quase dois mil euros de património que estão de alguma forma onerados pelas necessidades madeirenses, praticamente o mesmo valor que para com o total dos municípios do “Continente”, como eles dizem, provavelmente assim chamado por ter que se conter nas suas próprias despesas para poder ajudar ao desmando insular.
Esperar-se-ia que a Madeira ficasse um poucochinho grata por esta demonstração de simpática coesão nacional. De algum modo, ando eu a lixar as suspensões do carro nos buracos da minha rua em Lisboa para que os mil habitantes de Santana cheguem num tirinho ao centro do Funchal. Enquanto eu tremo que nem varas verdes quando chega a carta do IRS, o madeirense abre-a tranquilo, sereno nas suas excepcionais condições fiscais. Mas não: afinal, pela voz do soba local, eleito sistematicamente com maiorias quase tão gordas como as peles da sua papada, verifica-se que não se acham satisfeitos. Mais: insultam-nos, apodando-nos de cubanos nos dias amenos e de imbecis para cima nos dias restantes, mordendo a mão que, mais do que lhes dar de comer, os banqueteia opiparamente.
A condescendência com que no tal “Continente” tratamos as sacanices e as alarvidades de Alberto João Jardim sempre me intrigou como um dos maiores mistérios da vida política portuguesa. Talvez porque eu seja ingénuo e pense que a covardia tem limites. De facto, aquela reacção que se vê nos partidos e em muita imprensa, de lhe achar graça por ser um palhaço inimputável, uma espécie de bobo da corte a quem tudo se perdoa, é uma forma de fingir amedrontadamente que nada se passa e que não há ali muitas questões a resolver, nem que seja em nome da decência. Os bobos da corte medievais estavam autorizados a desbocar-se à frente do rei, mas não andavam a derreter o tesouro real e sabiam que se pisassem o risco respondiam com o seu pescocinho.
E eu cá não acho piada nenhuma a Jardim. Nem o creio louco. Pelo contrário: é um autocrata inteligente que sabe manipular quer os anseios e receios dos madeirenses, quer os complexos e defeitos dos continentais para financiar e perpetuar uma coutada de poucos paga com o dinheiro de todos. E que envergonha o país com o simulacro de democracia que ocorre no território, mais até que quando passeia de cueca na avenida ou nos insulta de chapéu de palha no comício do Chão da Lagoa.
A inacção da República face a Jardim surpreende-me tanto mais que tirá-lo de lá não me parece complicado. Para um primeiro-ministro, existem tarefas fáceis mas aborrecidas e outras difíceis mas divertidas. Ver-se livre de Jardim será simultaneamente fácil e divertido e um desígnio nacional. Não se percebe pois que nunca dedicaram a tão útil missão o tempo necessário.
Bastaria uma auditoria fiscal permanente e exaustiva, vinda de Lisboa, sobre as empresas de algumas famílias da região, seleccionadas, descobrindo tudo e punindo pelo máximo. Passado pouco tempo as tais famílias perceberiam. Passado um pouco mais Jardim sairia pelo próprio pé. Aquele tipo de regimes funciona assim.
Outra hipótese, que reconheço viola o respeito que os políticos devem à integridade do território nacional, seria ameaçar com a concessão da independência, deixando-a tornar-se uma república das bananas de corpo inteiro. Imagino o pânico na ilha perante a perspectiva de terem que se desenrascar sozinhos. Da maneira como se endividam em menos de nada tornar-se-iam uma Guiné flutuante.
Compreendo, obviamente, a especificidade dos Açores e da Madeira no todo português. Mas não entendo como é que a Madeira, que são só duas ilhas e não nove, tendo por isso menos repetição de infra-estruturas, acumula cinco vezes mais dívida que os Açores. A estes níveis, já não podemos falar de custos de periferia. Com perdão da má palavra, isto é chulice pura e dura.
E a propósito de palavrões, nesta sexta-feira Jardim conseguiu ch… obter mais umas centenas de milhões, em pleno quadro de uma crise de credibilidade de Portugal nos mercados financeiros que vamos pagar com língua de palmo. Fazendo valer o peso dos militantes do PSD Madeira numa altura em que as eleições para um novo líder estão aí à porta, vergou a seu bel-prazer o PSD, arrastando ainda o PCP, o Bloco e o PP, todos numa de quanto pior, melhor, para a aprovação de uma lei de finanças regionais que já seria indecente em tempos normais, quanto mais agora.
Ficámos pelo menos a saber quanto vale este PSD. Achei particularmente indecoroso o Aguiar Branco, com o penteadinho marialva e o seu ar mais verdadeiro, a garantir aos portugueses que a baratíssima aprovação desta lei não influenciaria o “rating” internacional do Estado português, exactamente na mesma altura em que em toda a “Internet”, da Reuters ao Financial Times, os analistas anunciavam que a capacidade do governo em travar a lei seria um sinal da seriedade com que Portugal iria enfrentar a questão do défice.
Escreveu Camões, sobre o nosso D. Fernando, que um fraco rei faz fraca a forte gente. Com a oposição que temos, passa-se o efeito inverso. Ao lado das Leites e dos Pachecos, até o Luís Filipe Menezes, dos poucos do PSD a quem ouvi dizer que esta aprovação era um disparate, parece um estadista. Até o Teixeira dos Santos bota figura de mago das finanças. Pasme-se: até o Sócrates soa a salvador da pátria!
I can turn
And walk away
Or I can fire the gun
Staring at the sky
Staring at the sun
Whichever I choose
It amounts to the same
Absolutely nothing
I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
The Cure, in “Killing an Arab”
Passaram esta semana cinquenta anos sobre a morte de Albert Camus, num automóvel enfeixado contra uma árvore. A efeméride deslizou discreta pelo meio do esquecimento geral. Poucas mas honrosas excepções, entre as quais cinco minutos num telejornal da RTP.
Neste blogue, não será anormal que se faça esta referência. Porque Camus anda por aí de passeio, discreto mas presente, nas linhas e entrelinhas dos cento e tal textos que aqui pus a público.
De facto, Camus é certamente o escritor e o pensador que mais me influenciou ou, melhor, modificou. Apanhou-me na altura certa. Li quase toda a sua obra entre os quinze e os vinte anos, que é quando os livros ferram mais. Li o romancista, o dramaturgo, o jornalista e o filósofo. Destes, gostei menos do último, porque lhe faltava a clareza cristalina dos outros. Aliás, o próprio escreveu: se queres ser filósofo, escreve romances.
Antes de Camus, antes de Meursault e de Rieux, o planeta que eu via à minha volta parecia bem-encaminhado, rumo aos amanhãs canoros em que seríamos todos amigos e iguais. Havia certezas e até convinham.
Depois do estrangeiro e da peste, as coisas já não se mostravam tão simples. A dúvida instalou-se, descobri que bem-vinda. O sentido deixou de ser evidente. Mas existe e até faz mais sentido.
Recordo, da minha primeira leitura de “O estrangeiro”, a diferença e a crueza que senti. Ali estava um tipo que não se punha com tretas e descrevia as coisas como elas eram. Ali estava um livro que não mentia sobre um homem que tinha para com a vida toda a franqueza do mundo. E o mundo tinha ao fim e ao cabo o seu quê de absurdo. Aqueles personagens que se iludiam encontravam uma felicidade de periferia, suportadas por aparências de glória, honradez ou felicidade. O estrangeiro, Meursault, que não mentia a si próprio, percebia que os homens eram erráticos como as partículas no movimento browniano, impelidas por moléculas invisíveis a olho nu. Percebia que o destino de cada um podia traçar-se por um acaso, por um reflexo de sol no mar ou pelo torvelinho de circunstâncias que o levou a matar um árabe e a morrer por isso, aceitante.
“O estrangeiro” instalou em mim a dúvida metódica, que cultivo até hoje ou que até hoje me apoquenta, não sei bem. A minha pergunta deixou de ser “para onde vamos” para se tornar “quem ou o quê nos empurra”.
Mas essa nova visão, sendo rica, não me chegava, como não lhe chegou a ele. Veio a Segunda Guerra, a França foi ocupada e martirizada. Camus poderia ter aceite esse destino com indiferença, como Meursault aceitou o seu. Mas não. Lutou, participou na resistência, escreveu na clandestinidade, com grande risco pessoal. Os seus magníficos ensaios no jornal “Combat” são um monumento de tolerância e humanidade, redigidos num momento tenso em que o sectarismo poderia aceitar-se (por outros, que nunca por ele). Escreveu, a 25 de Agosto de 1944, no último dia de combates pela libertação de Paris, o seguinte: “Nada é dado aos homens e o pouco que podem conquistar paga-se com mortes injustas. Mas não é aí que está a grandeza do homem. Está na decisão de ser mais forte que a sua condição. E se a condição é injusta, não há outro modo de a ultrapassar que não seja ser justo. A nossa verdade esta noite, a que plana neste céu de Agosto, é a que traz o consolo ao homem. E é a paz do nosso coração, como seria a dos nossos camaradas mortos, poder dizer diante da vitória regressada, sem espírito de retorno ou de reivindicação: “Fizemos o que era preciso”.”
Afinal sempre existia um sentido para a vida: fazer o que era preciso e vencer as nossas limitações, revoltando-nos contra o absurdo e trazendo ao de cima o melhor que há em nós, em cada um de nós. Dizia ele: “Creio no homem, não na humanidade”. Tudo isto, que aqui descrevi em termos simplistas, escreveu-o ele em “A peste”, num dos mais belos romances que se possa ler.
“O estrangeiro” e “A peste” não são apenas duas fases do pensamento e da vida do seu autor. São duas caras do mesmo Janus, olhando o mundo segundo duas direcções diferentes, mas partes de um todo. A segunda, surpreendentemente, possibilita-nos um optimismo que nos falha na primeira. Mas sem perder a lucidez. No último parágrafo de “A peste”, quando na cidade se celebra o fim da epidemia, o personagem principal, o doutor Rieux, reflectia que “…este contentamento estava sempre ameaçado. Porque ele sabia o que a multidão alegre ignorava, e que se pode ler nos livros, que o bacilo da peste não morre nem nunca desaparece, que pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, que espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e nas papeladas, e que, talvez, viria o dia em que para desgraça e lição dos homens a peste acordaria os seus ratos e enviá-los-ia para morrer na cidade feliz.”
Passa-se o mesmo com os bacilos da intolerância, da ignorância, da soberba e outros igualmente mortais. Mas, diz o ditado, enquanto o pau vai e vem folgam as costas.
Para além de um pensador e de um combatente, Camus foi um grande escritor, com uma prosa depurada e elegante mas densa, onde cada palavra tinha o seu papel. Um exemplo: descrevendo a sua ida para o liceu, oriundo de um meio social muito simples (a mãe era analfabeta), diz “conheci a comparação”. Não fala da discriminação ou da rejeição ou da humilhação, que são efeitos e que são os vocábulos que normalmente usaríamos. Usando a palavra certa, fala da causa, a comparação. E faz pensar: com que direito, no dia-a-dia, comparamos pessoas, quando deveríamos comparar atitudes e comportamentos?
Lendo a sua obra e conhecendo a sua vida, verifico ainda que por feliz coincidência Camus, tendo certamente os seus defeitos, foi um tipo porreiro e decente, características que nem sempre andam juntas: conheço gente decente que se porta como uma besta e malta porreira que esfaquearia sem hesitar pelas costas. Quando ganhou o prémio Nobel da literatura escreveu ao seu antigo professor primário, Louis Germain, que dera pelas suas qualidades numa escola pobre da Oran colonial e diligenciara para que ele pudesse continuar a estudar. Nessa carta, entre outros momentos que vale a pena ler, disse-lhe: “… apesar da idade, não deixei de ser o seu reconhecido aluno.” Humildade e gratidão, que tanto falham hoje em dia.
O mundo em que vivemos não diferirá muito, naquilo que mais importa, daquele que Meursault e Rieux contemplavam das suas janelas. Continua absurdo, urdidura de aparências e convenientes correcções que como uma cortina tapam a incoerência essencial. Hoje, o que nos falta é a mão estrangeira de um Camus, que levante a cortina, e a sua voz, que nos peça para pensarmos sobre o que vemos.
Ontem, a popularíssima república chinesa executou por injecção letal um inglês com problemas mentais, Akmal Shaik, que servira de correio de heroína a proveito de traficantes da província de Xinjiang, possivelmente sem o perceber. Foi um de milhares a ser executados durante o ano no Império do Meio, aquele no mundo que mais condena à morte. Apenas causou um pouco mais de efervescência por ser um europeu: segundo a imprensa, o primeiro-ministro britânico criticou a ocorrência em “termos fortes”, ao lamentar que os pedidos persistentes de clemência não tenham sido satisfeitos.
A força destes termos nem deve ter chegado para perturbar a hora do chá da nomenclatura chinesa. Afinal, um demente longínquo cabe na cova do dente ao partido que tem no currículo o Grande Salto em Frente, a maior fomeca jamais fomentada pelo homem, que no final dos anos cinquenta matou inadvertidamente uns muito largos milhões ou a Revolução Cultural dos anos sessenta, com o seu cortejo de tropelias a afectar outra vez uma data de milhões, centenas de milhar dos quais no seu próprio direito à vida. Isto só para citar dois dos disparates mais evidentes.
À estonteante força verbal britânica, as autoridades chinesas reagiram nestes termos pacatos: “Ninguém tem o direito de dizer mal da soberania judicial da China. Expressamos o nosso forte desagrado e determinada oposição às injustificadas acusações britânicas. E instamos o Reino Unido a corrigir os seus erros e a evitar prejudicar as relações bilaterais.” Por outras palavras: “se queres continuar a fazer negócio, deixa-te de tretas.” Claro que se vão deixar.
A persistência da pena de morte neste malfadado planeta mostra como nos encontramos, globalmente, ainda tão longe de ser civilizados. A pena de morte é a barbárie com papel passado. Não há razão ética que justifique que homens terminem a vida de outros tendo como alternativa não fazê-lo. E qualquer uma das razões práticas que frequentemente se invocam em sua defesa não passa de um mito. Não existe qualquer correlação positiva entre a aplicação da pena de morte e a redução de criminalidade. O número de erros judiciais que se descobrem “a posteriori” da execução diria só por si o suficiente. Ineficaz e iníqua, a pena de morte serve apenas para ajudar ditadores a resolver os seus problemas ou para acalmar as ânsias por um mundo sem riscos de mentes pequeno-burguesas que seriam incapazes de serem elas a fazer o trabalho sujo.
Dizia Camus, a pensar nos valentes de peito feito que clamam por rigor extremo contra a bandidagem, que só não desprezaria um defensor da pena de morte se este fosse o próprio a apertar o gatilho.
Não serve como consolo o facto de os países que mais levam a cabo execuções corresponderem normalmente a sociedades de menor calibre civilizacional, como a China, o Irão, os Estados Unidos, a Arábia Saudita ou o Paquistão. Todos os outros, que não praticam, fecham rapidamente os olhos assim que há algum dinheiro em cima da mesa ou por baixo dela.
Mas, surpreendentemente, pode haver pior. Tal como há infinitos com mais números que outros, também há horrores mais deprimentes que outros. Na Arábia Saudita, neste 2009 que agora expira, uma mulher de 75 anos, Khamisa Mohammed Sawadi, foi condenada a quarenta chicotadas, quatro meses de prisão e deportação para a Síria, de onde é originária. O seu crime: ter sido apanhada pela Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a polícia religiosa saudita, no mesmo espaço físico de dois homens que lhe tinham vindo trazer pão, uma vez que a senhora é doente e pobre.
Acontece que, na Arábia Saudita “wahabita”, a simples presença simultânea de homens e mulheres que não sejam parentes no mesmo espaço físico configura potencialmente um crime religioso. Que isto assim seja indicia uma deformação psicológica e uma tara sexual, graves, numa parte significativa da população saudita. Digamo-lo sem medo das palavras: esses tipos são atrasados mentais. E só assim se compreende que condenem a chicotadas igualmente os homens que, ao trazer pão à senhora, evidenciaram apenas uma das mais nobres características humanas: a solidariedade.
Não existem muitas diferenças entre quem promove esta Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício que chicoteia velhotas e os nazis que organizaram a “Solução Final” que asfixiava velhotas e crianças em campos de extermínio. Apenas uma: a Arábia Saudita produz e regula o preço do petróleo de que o Ocidente necessita. O que explica muitos silêncios. Ficamos a pensar que se a Alemanha, em 1939, possuísse o monopólio de alguma matéria-prima fundamental talvez tivesse podido invadir a Polónia com maior tranquilidade, sem provocar aquele banzé todo.
Nesta quadra em que jornais e revistas elegem o facto mais relevante ocorrido no ano, a condenação a quarenta chicotadas de Khamisa Mohammed Sawadi poderia muito bem ser candidata ao título. Mas não teria o meu voto: eu elegeria, pelo que tem de revelador sobre quem nós somos na realidade, a discrição comprometida com que o resto do mundo aceita que se torture uma velhinha a troco de barris de petróleo.
Apesar destas desgraças, Mataspeak deseja a cada um dos seus leitores um Feliz Ano Novo.
25 de Dezembro, oito e meia da manhã. Lisboa dorme a sono solto, digerindo com esforço os excessos da quadra, o chão da casa pejado de papel rasgado e fitas coloridas. Em frente à igreja de Benfica, a calçada generosa lembra o recato de uma praça de aldeia: com o silêncio deserto que a passagem de uma silhueta atabafada meramente sublinha e o tapete negro da estrada esperando a viatura ocasional que se ouve ainda distante. As lojas, engalanadas, repousam do frenesim dos dias anteriores em que facturaram meio ano à conta do sentimento de obrigação de retribuir. Algumas, ainda iluminadas, pintam de um tom amarelado a cacimba ténue que como um mistério aconchega a cidade enregelada.
Entro, passado tanto tempo, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, onde há quase quatro décadas recebi primeira comunhão pelas mãos da figura severa do padre Proença, hoje perenizado num busto de bronze como um Han Solo de adro. No centro paroquial adjacente fui bom aluno de catequese, ministrada por moças de cabelo apanhado por um gancho e pesados óculos de massa, de trás dos quais contavam com voz doce histórias dos evangelhos que não me fizeram mal nenhum, antes pelo contrário, acho eu. Um dia anunciei em casa que já não valia a pena ir por não acreditar naquelas coisas, para certo desconforto de minha mãe. De repente, Deus ficou sem espaço na minha vida, substituído por fés mais prometedoras (aos doze anos pareciam) como a ciência ou a humanidade, e partiu sereno. Também, não Lhe devo fazer grande falta.
Lá dentro, sou surpreendido pelo burburinho sumido de uma casa cheia, sentada ordeira nos bancos corridos, numa presença humana que contrasta com o vazio da rua e a mudez vertical do templo, um grosso caixote oitocentista, de um barroco modesto, a que o tempo conferiu mais vigor do que beleza. São sobretudo mulheres idosas, envoltas em pesados casacos escuros e cachecóis tricotados, que esperam pacientemente o início das palavras mágicas que, para muitas, encherão algum do vazio criado pelas saudades dos que foram e pela ausência dos que ainda cá estão. A cada minuto, bate a porta de entrada e entra mais uma, que busca um lugar como que guardado para ela, arrastando atrás de si um bichanar de cumprimentos murmurados.
Encosto-me a um pilar de lado e permaneço de pé. Assim faço sempre numa igreja. Não me sento, não me ajoelho, não me benzo: mantenho-me quietinho, o que atrai alguns olhares entre o curioso e o desconfiado. Não poderia ser de outra maneira: aquilo que para outros simboliza o divino, como um sinal da cruz, feito por mim que não creio seria um mero macaquear e uma suma falta de respeito. Ali me quedo em silêncio.
Começa a eucaristia, passo a passo, iguais a cada dia e a cada século, como uma procissão centenária que percorre sempre as mesmas capelas e as mesmas esperanças. A dado momento, o padre cita alguns nomes a que a celebração especialmente se dedica. Um deles o do meu pai, razão da minha presença ali, inicialmente mal referido pelo cura: “Mota”. O velho Mata ter-lhe-á lançado lá de cima algum aperto fulminante porque logo emenda, ajustando os óculos: “Perdão, Mata. Américo Mata”.
Durante o sermão, dedicado ao sentido da celebração natalícia, o padre, recorrendo a uma linguagem jornalística, comenta que o Natal pode estar em alta, mas Jesus está em baixa. E alerta para que não se faça confusão entre a simplicidade, que o Natal deveria inspirar, e a simploriedade que a nossa sociedade transpira e que neste final de Dezembro parece que se amplifica. Por momentos identifico-me com aquele homem de paramentos do qual tudo me separa mas que me traz numa bandeja a palavra que me faltava para perceber as correrias aos centros comerciais e os ramos de azevinho digitais no canto dos ecrãs televisivos: simploriedade.
A missa termina, as portas abrem-se, a luz matinal ofusca, atraindo a romaria bamboleante dos fiéis que, de pé, se vai lentamente libertando dos bancos corridos. Descubro a minha mãe no meio da multidão, surpresa de me ver ali, deixo-a em casa e regresso à minha, onde tudo dorme ainda, onde restos de papel acetinado ainda juncam o soalho e o cheiro dos doces se evapora pela porta da sala.
Goscinny e Uderzo, in « Astérix chez les Helvètes »
Anteontem, a Confederação Helvética decidiu em referendo proibir novos minaretes no seu território. Dos vinte e seis cantões, que são a modos como umas freguesias lá deles entaladas entre penedos e comunicando umas com as outras por túneis onde circulam comboios da Marklin em ponto grande, vinte e dois votaram contra as fusiformes construções.
Quando li a nova no jornal ainda fui traído pela minha crescente falta de vista: admiti, por momentos, que a conhecida paranóia suíça pela limpeza os tivesse levado a interditar certas badalhoquices indignas de tão asseado território. Mas esfregados os olhos e focada a notícia, verifiquei que treslera: era de minaretes que se tratava. Mais grave, portanto.
A ideia partiu de dois partidos tidos como ultra-conservadores, a UDC e a UDF, como não podia deixar de ser tendo ambos a palavra “democrático” no nome, que viam nas torres das mesquitas obstáculos à “manutenção da paz entre os membros das diversas comunidades religiosas”. Não sei bem porque é que a visão dos minaretes haveria de fazer perigar a paz religiosa. Possivelmente, a UDF e a UDC acharão que os católicos e os protestantes suíços são uma horda de selvagens que, irritados com a imagem de um minarete recortada contra os níveos picos alpinos, pegarão em catanas e caçadeiras e sairão pelas ruas de Zug ou Appenzell, decepando mulheres de “chador” ou fuzilando crianças com ar moreno. Eles lá saberão a malta que lá têm.
Tudo isto não augura nada de bom. A facilidade com que se vota na Europa em partidos inapresentáveis e em propostas que só à bofetada preocupa-me seriamente. Significa duas coisas: que estamos a perder a batalha contra a intolerância, atirando os balázios sistematicamente para os nossos próprios pezinhos; e que já nos esquecemos do perigo de brincar com o fogo. De facto, passaram setenta anos.
Poderíamos aliviar as nossas consciências considerando que o suíço é um ser tendencialmente esquisito, entalado no dicionário entre o suicida e o suídeo, na linguística entre o alemão e o francês e na geografia entre todo o tipo de montículos que lhe limitam os horizontes. Que durante séculos aquela terra pedragulhosa só produzia mercenários às riscas e buracos no queijo. Que em 1990 ainda havia um semi-cantão em que as mulheres não podiam votar. Que o suíço tem fama e proveito de tudo regrar e de entrar em parafuso quando as regras se desregram, rodopiando sobre si próprio à procura de uma lei que o sossegue.
Poderíamos, mas não podemos. O parágrafo anterior é meramente anedótico. Na verdade, a confederação tem origem numa das mais antigas associações políticas de homens livres, tão velhinha quanto 1291, a sua divisa diz “um por todos e todos por um” e a democracia directa e o reconhecimento da iniciativa, da contribuição e do valor de cada indivíduo são factos historicamente estruturais da especificidade helvética. A Suíça soube manter-se independente entre vizinhos poderosos e tornar-se um sociedade afluente e educada, com cidades cosmopolitas como Genebra ou Zurique que atraem sedes de organizações internacionais, capitais miscelâneos e bons concertos de “rock”.
Assim sendo, este voto não traduz nem tradição ditatorial, nem ignorância, nem fome, nem nenhum outro estado precário que justifique desvarios. Traduz sobretudo medo e ódio, e um ódio consciente de quão vergonhoso: nas sondagens, tendo do outro lado do telefone uma pessoa, os suíços afirmaram ir votar contra a proibição. No escurinho da cabine de voto, sem ninguém para topar, votaram maciçamente nesse disparate cujo único efeito prático será humilhar a comunidade muçulmana local.
Esse ódio vai fazendo o seu caminho, sufragado aqui e ali pelo voto de muitos europeus que se acham mais clarinhos e civilizados: em Itália, na Áustria, na Holanda, em França, na Polónia, os populismos ignorantes vão crescendo como bolores nas fendas abertas pelos regimes democráticos.
Certamente, o fundamentalismo islâmico é hoje um inimigo das democracias. Queira-se ou não, há um choque ideológico em curso. O que não quer dizer que tenhamos que colocar todos os muçulmanos no mesmo saco. Ter uns milhares de inimigos será chato. Mas ter uns milhões é estúpido. E a melhor maneira de tornar muitos dos muçulmanos que vivem connosco numa vanguarda dos fundamentalistas é humilhá-los gratuitamente, empurrando-os para o lado de lá. Como os suíços, essa cambada de “Einsteins”, acabou de fazer.
Surpreende-me ainda o relativo pouco barulho que o assunto causou na imprensa europeia. Quando os “talibans” no Afeganistão arrebentaram com estátuas de Buda, caíram, para além dos budas, o Carmo e a Trindade, que pior barbárie não havia. E com magotes de razão: os “talibans” representam uma versão caricatural e perigosa do que mais básico a imbecilidade humana é capaz. Ora os suíços acabaram de mandar abaixo com minaretes que ainda não foram construídos. Parca diferença e vitória de Pirro. Por cada voto de um suíço rosadinho contra a altura dos minaretes haverá um “taliban” a cofiar a barba, satisfeito por verificar que a sua intolerância é contagiosa.
No fim do dia, o Ocidente tem que meter este conceito na cabeça: ou ganha usando os seus valores fundamentais como armas ou perde. E os fundamentais deverão ser a tolerância e a liberdade, não a proibição e o sectarismo.
Escreveu o barão de Montesquieu, em 1748, no “Do espírito das leis”, o seguinte: “Quando as leis de um Estado crêem dever sofrer várias religiões, é preciso que elas as obriguem a se tolerar entre elas. É um princípio que toda a religião que é reprimida torna-se ela própria repressora: porque assim que, por qualquer acaso, puder sair da sua opressão, atacará a religião que a reprimiu, não enquanto religião, mas enquanto tirania.”
Na Suíça como na Europa, infelizmente, vai sobrando em leis aquilo que falta em espírito.
Este fim-de-semana fiz mais um curso de fotografia, já o terceiro, com o António Sá no Espaço João Sousa Valles, ao Restelo. Desta feita sobre fotografia de viagem. O António é professor por natureza, com o humor, a categoria, a sábia persistência, a proximidade, o prazer de dividir que só os grandes mestres põem no ensino. Sendo ele próprio viajante inveterado, nunca falha com uma boa história sobre a vertente humana que as suas voltas pelo mundo lhe vão permitindo descobrir. Nas suas próprias palavras: mais importante que as fotografias, são as vivências.
Quando em trabalho na Mongólia, onde passou dois meses a efectuar uma reportagem, o António pediu ao seu guia que lhe arranjasse, numa dada aldeia, muito pobre, uma família que o acolhesse durante uns dias para que ele visse como se vivia por essas bandas. Logo na primeira casa da aldeia, o assunto ficou resolvido. Não falava a língua deles, nem eles nenhuma que o António soubesse. Fotografou os hábitos dos seus anfitriões, partilhou as refeições, dormiu na divisão comum da casa, num canto onde por vezes lhe chovia em cima durante a noite, obrigando-o a mudar de sítio. De manhã, quando os mongóis viam o colchão num local diferente, faziam cara de espanto e passado um pouco António ouvia-os no telhado, tentando reparar a cobertura.
No último dia, quando António quis pagar a sua estadia, dando o mesmo dinheiro que lhe cobrariam num hotelzito noutro local da Mongólia, os donos da casa recusaram por mais do que uma vez, acenando com as mãos que não queriam. O António teve que insistir bastante até finalmente aceitarem esse dinheiro, pouco para os nossos padrões. Então, a mulher do casal pegou no dinheiro, saiu e voltou passado pouco tempo com umas botinhas para a sua filha, que até aí andava descalça.
Esta história diz muito sobre eles, mas mais sobre nós.
A aula prática foi na manhã de domingo, em Alfama, sujeita ao tema “um olhar diferente”. No fim de duzentos e dezoito cliques a minha selecção de cinco, para apresentar aos colegas e baseada no visionamento no LCD, foi a que se segue. Agora, depois de as ver ampliadas no ecrã, seria talvez outra.
Reflexo num Citroen DS, um boca-de-sapo, estacionado na Rua dos Remédios.
“Grafitti” em crioulo junto a uma laranjeira: no meu gueto manda quem lá está. Lembrou-me a do Marão, que mandam os que lá estão. Quando a maior parte dos “grafitti” não quer dizer nada, um que quer. Escadas entre a Rua dos Remédios e a Rua do Jardim do Tabaco.
Cores de Alfama em frente ao Beco dos Paus.
Um candeeiro, tradição de Alfama, na esquina da Rua de Santo Estêvão.
Nas vielas castiças de Alfama abrigam-se, ontem como hoje, dramas de solidão como o desta senhora, já visivelmente ébria, agarrada ao meio-dia a um litro de tinto, com o seu cãozinho preso ao banco. Uma vizinha passa e vai conversando, aceitando a situação como coisa habitual.
The instrument (the telescreen, it was called) could be dimmed, but there was no way of shutting it off completely.
George Orwell, in “Nineteen eighty-four”
Para dar lustro a artigos e discursos, imprensa e políticos costumam referir-se ao cafarnaum em que vivemos como “sociedade da informação”. De facto, porque não? Ele é “Internet”, cem canais de cabo a acotovelar-se do ecrã para fora, “esse-eme-esses” a apitar ao minuto, caixas de correio electrónicas atulhadas com cinco mil mensagens para abrir quando um dia houver tempo, redes sociais que nos convidam para ser amigos delas, a TSF a lixar-nos o juízo logo pela manhã na fila de trânsito, a edição livreira a oferecer-se colorida nos hipermercados ao lado da banca dos espargos, os chatos dos “chats”, o tele-trabalho que nos persegue quando saímos do trabalho, música privada nos micro-auscultadores em passeios alucinados pela rua, jornais à borla nos semáforos e tudo o mais que vá passando pela cornadura do demo, que há séculos que não se divertia tanto.
O pessoal, com tanto brinquedo na mão, atrapalhou-se e fez confusão. Baralhou a “sociedade da informação” com a informação da sociedade e deduziu que andava informado. Erro grave. Anda muito menos informado que dantes, no tempo não tão longínquo das cabines telefónicas e da moeda para comprar o diário.
Define-se “sociedade de informação” como uma sociedade em que a produção, troca e manipulação de informação tem um peso económico, político e cultural relevante. E estamos claramente nessa. Uma parte muito importante do produto dos países mais abonados provém hoje de actividades económicas ligadas à informação. Os governantes e as oposições gerem a sua agenda em função de critérios informativos, que consequente e imediatamente se tornam critérios políticos. E em termos culturais, não haja dúvida sobre a relevância: ficar sem bateria no telemóvel gera hoje um pânico semelhante ao que teriam sentido nos tempos das Descobertas os náufragos agarrados a um madeiro quando percebiam que estavam a dez dias de nado da costa do Malabar.
No campo dos comportamentos, mudou-se muito e às vezes muito comicamente. Por exemplo, ainda temos no nosso vocabulário a expressão “andar a falar sozinho” para referir um tipo que não bate bem da bola. Mas hoje já não nos surpreendemos se o desconhecido que desce tranquilamente a avenida ao nosso lado de repente começar a debitar inanidades como se lhe tivesse partido um pistão no cerebelo. Provavelmente terá um auricular sem fios pendurado na orelha e o telelé no bolso e lá seguirá, ligeiramente errático, arriscando o atropelo nas passadeiras, falando por farrapos.
Outro efeito comportamental engraçado advém do sentimento de isolamento que estas traquitanas induzem. A malta pensa que está sozinha. Quando ouço um telefone a tocar numa mesa vizinha no restaurante, já sei que vou ouvir o que não me faz falta: de meras instruções para não esquecer de fazer a cama a picantes revelações sobre o modo como a cama foi desfeita. Tudo em voz muito alta, porque o ser humano se esquece que inventaram o microfone justamente para não ser preciso berrar.
Perante o cenário, apetece gozar com aquele anúncio da Zon Multimédia: “Lá em casa somos dois nhurros, três alienados e um jerico. Se podia viver sem esta bodega toda? Podia, mas não era a mesma a coisa.” De facto não era, porque informação e conhecimento não são a mesma coisa. Estar informado passa por perceber o que é central nas causas e nas consequências dos factos, por outras palavras por conhecer, por saber.
Ora o grande problema são dois. Por um lado, a transformação de informação em conhecimento não opera por milagre. Levar com a SIC Notícias no plasma da sala de espera do consultório, enquanto se aguarda pela broca do dentista, não nos informa só por si. Há que levantar o cu da cadeira, criticar a informação recebida, procurar outra se essa não servir, pensá-la. Por outro, a quantidade da informação hoje disponível parece inversamente proporcional à qualidade, que é muitas vezes miserável. Esta fraca valia da informação oferecida obriga a uma ainda maior iniciativa na procura da verdade.
A disponibilização maciça de informação, na “net” por exemplo, fomentou uma descida da nossa capacidade de selecção e, consequentemente, uma mais fácil divulgação do disparate. Antes, se eu quisesse saber qualquer coisa sobre plantio de couve-galega, procurava quem soubesse algo ou ia à cata de um livro sobre o tema e verificaria se o autor tinha algumas credenciais relevantes (ter canudo de agrónomo, por exemplo). Hoje farei uma pesquisa no “Google” e vou poder escolher entre 2,520 interessantes entradas contendo “plantio”+”couve”+”galega”. Naturalmente vou-me ficar pelas dez primeiras, que algum obscuro algoritmo binário decidiu por mim serem as mais relevantes. E poderei não ter a certeza se o que vem nesses “sites” é verdade ou mentira.
“Googlar” pode ser um exercício divertido, com resultados surpreendentes: a única visita que o “Mataspeak” recebeu de Angola foi de um senhor que queria saber – e “googlara” – “onde se vendem comprimidos de alfafa em Lisboa”. Acabou no meu texto “a porra da dieta” que contem, isoladamente, todas essas palavras. Ficou a conhecer as minhas angústias sobre os níveis de HDL mas continuou a zero sobre qual a botica alfacinha onde comprar tão salutares pílulas.
Para além de não corresponder sempre ao que nos interessa, a maioria da informação da “Internet” não presta, pura e simplesmente. Há tempos li num blogue que acompanho uma notícia sobre casamentos organizados pelo Hamas entre guerrilheiros barbudos e meninas de sete, oito anos. Na fotografia lá estavam eles de fatinho e elas de vestido branco, numa variante pedófila das noivas de Santo António. Pesquisei na rede e noventa e muitos por cento dos resultados do “Google” corroboravam esta horrível versão. No entanto, uma pequena minoria de “sites” apresentava uma panorâmica diferente. Tratava-se de um casamento colectivo entre membros do Hamas e viúvas de guerrilheiros mortos na última invasão da Faixa de Gaza por Israel, todas para cima de vinte e cinco anos. As verdadeiras noivas estariam vestidas de negro, assistindo à cerimónia em lugar diferente dos homens e as miudinhas eram familiares dos noivos. Os poucos “sites” que assinalavam esta menos odiosa versão pertenciam a jornais ocidentais. Muitos destes citavam um repórter do canal britânico “Sky”, que assistira e filmara a cerimónia. Os restantes, que propalavam convictamente a má natureza dos árabes que violam criancinhas eram na sua maioria blogues ou comentários, em grande parte anónimos. Na “net”, o erro tem a vida fácil, ao coberto da impossibilidade de tudo verificar. Concluo que na “Internet” funciona a máxima de Goebbels: uma mentira mil vezes repetida torna-se uma verdade.
Isto também ocorre porque as pessoas conferiram à “Internet” uma autoridade que ela não tem. Num dos meus primeiros “posts” mandei uns bitates sobre uma pintura de Brueghel, o Velho. Para minha surpresa, esse texto está no “site” de uma escola secundária, posto lá por uma professora de História, para proveito dos seus alunos. Muito me honra, mas sou tão especialista em pintura flamenga como em alinhar calçada portuguesa. Não teria sido melhor ir à biblioteca buscar um livro de história da arte escrito por alguém que percebesse?
Umberto Eco, no seu livro “A passo de caranguejo”, explica esta apetência por aceitar cegamente tudo o que sai de um “gadget” electrónico com o seguinte e curioso raciocínio. Segundo ele, a tecnologia ocupou nas sociedades modernas o espaço que a magia (ou a superstição) ocupava na Idade Média, ambas opondo-se, cada uma em seu momento, à ciência. A tecnologia (e antes a magia) proporcionariam visões fáceis e apetecíveis sobre a realidade. A ciência, o conhecimento, em todo o tempo implica esforço e é por isso mais chata.
Mas isto não pára aqui. Em paralelo, talvez porque a formação dos jornalistas e a sua preocupação com a verdade se tenha deteriorado, talvez porque as circunstâncias do mercado mediático a isso obriguem, a qualidade da informação prestada pelos meios ditos “sérios” (jornais de referência, telejornais) também vem fraquejando. Hoje, os jornalistas parecem orientar-se mais para um negócio de gestão de expectativas dos leitores e espectadores do que para uma honesta tentativa de aproximação à verdade. A notícia passou a ser desenhada em função do eco que vai encontrar nos destinatários. Por isso, cada vez é mais “sound byte” e “slogan” e menos conteúdo e raciocínio. Antes isto chamava-se sensacionalismo, mas temo que o termo mais correcto já seja fascismo mediático.
Poderia apresentar como exemplo o modo como o mito da gripe A se constrói diariamente na televisão: as pessoas querem medo, dê-se-lhes medo. Mas vou usar outro, ocorrido em 2008, quando se verificaram tumultos no Tibete reprimidos pelas autoridades chinesas. Na televisão e na maioria dos jornais a versão era “chineses maus reprimem tibetanos bons”. Citava-se a opinião do Dalai-Lama como notícia verdadeira e a versão contrária do governo chinês como notícia falsa confirmadora da notícia verdadeira. Isto é típico. No mercado ocidental da informação, a cotação do PC Chinês é baixa, na minha opinião de forma mais que merecida. Já o Dalai-Lama cota muito alto: representa um povo ocupado por tipos antipáticos que busca a auto-determinação, tem aquele ar avozinho, emana exotismo oriental. Está nitidamente na moda. Nunca ninguém lhe pergunta se instauraria no Tibete um regime teocrático como o que lá estava antes dos chineses ou se se submeteria a eleições correndo o risco de passar o poder para um não-iluminado. Também não interessa: o Dalai-Lama é um refúgio confortável para as boas consciências ocidentais. Ora a versão oficiosa parecia-me pouco convincente. Fui por isso à procura do que se teria passado. Consegui encontrar, em “sites” de jornais neozelandeses e australianos as versões de jornalistas que tinham testemunhado os acontecimentos “in loco”. Aparentemente, os tibetanos tinham orientado a sua fúria contra tudo o que apanhassem pela frente que fosse diferente: população chinesa local, minoria muçulmana, agredindo e inclusivamente matando. Por outras palavras: racismo puro e duro. Afinal, os tibetanos, quando em turba, comportam-se como os outros. Muito pouco conveniente face ao que as pessoas estariam à espera e por isso simplesmente silenciado pelos “media” que julgamos muito livres.
Neste mundo mais de ruído que de verdadeira informação, que fazer então? Desconectar-se da rede, lançar o telemóvel pela janela, ir morar para uma cova nas serranias? Não. As tecnologias de informação são o nosso presente e o nosso futuro. São ferramentas utilíssimas de trabalho que podem promover riqueza, gerar conforto, fomentar arte e salvar vidas. Temos simplesmente que perceber que não lhes devemos mais consideração que a um serrote ou uma chave-inglesa. E que a luxuriante era de informação abundante e disponível ao toque de um dedo não nos alivia da tarefa de pensar e procurar a verdade. Pelo contrário. Neste admirável mundo novo, podemos ser mais capazes mas também mais facilmente seremos manipulados se nos pusermos a jeito. Por isso temos para com nós próprios uma obrigação de ser mais críticos, de procurar mais, de pensar mais, de ler mais, de estudar mais. Em suma, de agir mais. De ser mais exigentes. Senão, andaremos de cavalo para burro mais depressa que julgaríamos possível.
Tive um professor no Técnico que nunca usava a palavra “computador”. Dizia-nos: “agora, é só usar a máquina estúpida”. Lição verdadeira e magistral: por muito sofisticada e glamorosa que pareça, a máquina tem que ser estúpida e nós temos que ser inteligentes.
E, de vez em quando, desligar tudo e passear de mão dada à beira-mar.