Num jornal Público do início deste ano, um artigo de segunda página começava com o seguinte farrapo de horror: “Um caso em particular deixou chocados os trabalhadores do Comité internacional da Cruz Vermelha em Gaza. Numa casa, estavam quatro crianças. Demasiado fracas de fome para se conseguirem pôr de pé. As crianças estavam ao lado dos cadáveres das suas mães. Na casa, havia um total de doze corpos.”
Aproveitando o espírito da quadra de boas festas que então terminava, israelitas e palestinianos haviam iniciado mais um dos useiros e vezeiros conflitos da zona. O movimento Hamas, provavelmente preocupado com a sua perda de popularidade junto da população palestina, não renovou um cessar-fogo e começou a lançar uns “rockets” sobre cidades do sul de Israel. Este achou que não tinha outro remédio senão morder o anzol e decidiu fazer um jeito aos seus supostos inimigos, lançando uma invasão à grande da Faixa de Gaza, com centenas de mortos nas primeiras duas semanas, mais de metade civis, cerca de um terço crianças. Para mim, é óbvio que todos sabiam que desgraças como as do primeiro parágrafo seriam a consequência lógica das suas acções.
Pensei escrever sobre o assunto, mas percebi, nos dias seguintes, que seria perigoso soltar comentários menos abonatórios ao facto da tropa israelita andar a matar crianças com certo à-vontade. A quem, nos jornais, se atreveu a aventar que tal coisa não se fazia, logo levou na volta do correio com o epíteto de anti-semita, num tom rememorador das chamas do inferno nazi, atirado sem pudor pelos seguríssimos escribas do costume, como o director do “Público”. “En passant”, surpreende-me tão razoável jornal se ir aguentando assim bem com tão zeloso zelota ao leme.
Como qualquer português de cepa, terei com alta probabilidade na minha composição sanguínea algumas plaquetas judias como, aliás, restos de hemoglobina árabe. E ainda sueva, latina, visigótica, castelhana, vândala, inglesa, escandinava, berbere e de todos os mais que por cá aproveitaram para foliar entre batalhas.
Talvez por via destes resquícios hebraicos, e também porque não gosto de levar porrada, senti-me um pouco inibido para falar sobre este assunto, não viesse logo aí algum exaltado apodar-me de Himmler das avenidas só por criticar os excessos bélicos de Israel. E deixei passar o tempo. Decidi agora avançar, mas delegando a conversa em quem, por ser judeu de cepa, está melhor posicionado do que eu para dizer o que quer, sem ser insultado. Procurei e encontrei dois que podem substituir-me nesta conversa.
Aproveitei-me , por exemplo, do israelita Yoav Shamir, que em 2003 filmou, no documentário “Checkpoint”, a actuação do exército do seu país nos diversos pontos de controlo que permitem a Israel monitorar os movimentos dos palestinianos. E fê-lo do modo mais perverso: com a câmara quase fixa e sem quaisquer comentários. Nada mais duro e significativo do que uma verdade em bruto, não editada.
O filme mostra-nos, “tal-e-qual-mente”, o que se passa em diversos “checkpoints” na margem ocidental do Jordão e em Gaza. Às vezes as coisas correm bem, outras mal. Nalguns pontos, os soldados, acabados de sair dos pátios de liceu, são simpáticos, apesar do medo. Noutros tratam as pessoas abaixo de cão, com o poder que o gatilho lhes confere: vemos uma ambulância com um doente grave que tem que parlamentar longamente a passagem, exibindo documentos sobre documentos; vemos uma fila à chuva pesada, com velhos e garotos, esperando que o tropa, um rapazote, abrigado na guarita, acabe de mastigar lentamente a sua sandes; vemos muitos tiques de porteiro de discoteca, mas com consequências mais graves na vida de gente.
Que diríamos nós se a nossa avó fosse deixada a encharcar à chuva por um puto magala, a fazer gala do tempo que demorava a almoçar? Éramos capazes de ficar chateados. Se a situação fosse recorrente, talvez achássemos que se aplicaria um certo direito a partir tudo, tal como o definiu Jefferson na declaração de independência americana:
“Mas quando uma longa sequência de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo propósito, evidenciam o desígnio de os reduzir a um despotismo absoluto, é seu direito, é seu dever, deitar fora tal governo e providenciar novos guardas para a sua futura segurança.”
Dirá o lado israelita em sua defesa que há terroristas a movimentar-se por ali. Há certamente, mas isso justifica tudo?
A resposta a esta questão podemos encontrá-la numa segunda e mais definitiva visão: a que nos traz Primo Levi, judeu italiano que sobreviveu ao Holocausto para nos contar no livro “Se isto é um homem”, com uma serenidade que espanta, as suas memórias de Auschwitz. Diz ele, na passagem porventura mais significativa da sua narrativa:
“Um facto, por outro lado, parece-nos digno de atenção: existem nos homens duas categorias particularmente bem distintas, às quais chamaria metaforicamente os eleitos e os danados. Os outros pares de contrários (como por exemplo os bons e os maus, os sábios e os loucos, os sortudos e os azarados) são muito menos nítidos, parece-me que mais artificiais, prestando-se, sobretudo, a uma série de graduações intermédias mais complexas e mais numerosas.”
A avozinha à chuva no ponto de controlo e as crianças abandonadas ao lado dos seus pais mortos são danados, como danados são milhares de milhões por esse planeta fora que vão, como modo de vida, adiando a própria morte. Por outro lado, os governantes israelitas que dão as instruções e eu que escrevo estas linhas e vocês que as lêem, somos eleitos.
E não há considerações políticas, geoestratégicas, militares, religiosas ou ideológicas que relativizem a condição daquelas crianças, absoluta, de danadas. Nem que mitiguem o absoluto direito à revolta que daí resulta.
Foi isto que Levi nos quis dizer, com a autoridade que lhe conferem os anos que deu com os costados no “lager”. E é isto que nós, os eleitos, temos que entender, se por acaso estamos interessados em que a barbárie acabe um dia.

















Mas com as crianças passa-se de modo diferente. Não têm nem a consciência informada das vantagens e desvantagens que lhes permita tomar uma decisão destas, nem os meios materiais para a levar a cabo. Por isso, nesta como noutras questões, alguém tem que tomar decisões por elas, na defesa do que se espera ser o melhor entendimento possível dos direitos e interesses delas, crianças. Em geral, a nossa sociedade encarrega os pais deste papel, e verifica-se que acertadamente. Com muitas variantes no modo de o fazer, com mais rigidez ou mais tolerância, com mais carinho ou mais frieza, com maior ou menor desafogo financeiro, os pais, movidos por esse sentimento tão intrinsecamente humano, o amor para com os filhos, lá levam a carta a Garcia.

Mas, já que falamos de cor de pele, seria bom que a eleição de um presidente negro no país mais poderoso do mundo servisse para normalizar o uso das palavras “preto” e “negro”, passando-se a poder usar preto (ou branco) como se faz com louro, moreno, alto ou magro: apenas como a descrição de uma característica física, sem mais.
O nível de ambos viu-se nos discursos da noite eleitoral. Obama teve um discurso envolvente, carismático, empenhado, grandiloquente, entendendo perfeitamente o valor dos símbolos e a historicidade do momento. Sente-se que é um grande político e que poderá fazer, se se rodear da gente certa, uma boa presidência, de que o mundo anda bem necessitado. Mas gostei mais do discurso de McCain, de uma hombridade, de um cavalheirismo e de um patriotismo positivo como raramente ouvi. A democracia também se faz da aceitação da derrota – esta é mesmo uma das características que a diferencia de outros regimes – e serve-se um país ganhando ou perdendo. McCain mostrou ser um senhor, que não merecia as manadas de básicos que constituem parte significativa do eleitorado republicano e de que Sarah Palin constitui acabado exemplo.
No moderno jargão dos “media” e da gestão, o pobre trabalhador tornou-se vocábulo sem cotação, que quase ganhou um sentido de excluído, daquele que está do lado errado da vida e do progresso e azar o dele. Nas notícias dos periódicos, são trabalhadores os que, surpreendidos, dão com o nariz na porta de uma fábrica nortenha que se deslocalizou. Nas soltas dos telejornais, trabalhador é o que se manifesta pela avenida, filmado em plano rasante, de bandeira e boné, enquadrado em sindicatos. Estes e não outros. Porque os outros são os tais que colaboram nas empresas, serenos nas suas qualificações e arrumadinhos nos seus fatos e gravatas, atrás dos “flat screen” cintilantes com que os amarram doze horas diárias, convictos de pertencerem a um admirável mundo novo no qual os primeiros não cabem e até atrapalham. Olham para estes com a sobranceria vaga com que se contemplam realidades tristes mas distantes, como a fome ou a guerra. E nesta alienação não se apercebem que formam um novo proletariado, alimentando com anos de vida uma máquina que os ultrapassa, por medo do mal maior do desemprego e de passar para o lado de lá de uma barreira que mentalmente lhes criaram.